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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Jardim

E porque hoje revi esta minha amiga, fui vasculhar o baú mais uma vez:

Como é bom encontrarmo-nos no jardim e deixarmos que o sol da tarde nos acaricie os rostos marcados pelo tempo. Encontrámo-nos por acaso nestas tardes soalheiras que me iluminam a alma e acalmam os dias inquietos. Estavas no jardim quando passei. Tranquila, com o teu passo lento, brincando com uma flor, a mais bela de teu jardim, a primeira que de ti floriu, um dia se fará árvore e dará frutos e esses serão também teus frutos.
Reparei então como sempre estiveste no jardim da minha vida. As duas, parecidas nas formas arredondadas e volumosas dos corpos, pequenas na estatura, com cabelos e olhos cor de noite, irmãs nas maleitas da alma, que eu aligeirava com perguntas inversamente proporcionais aos nossos males de espírito “Então o Pedrito? Continua bom?” perguntava “Continua!” respondias. “E ainda tem a caixa de óculos do Tintim? E a agenda do Tintim?” perguntava eu. “Vês cada coisa, mulher!” dizias e eu, que sempre me achei aparentada do Mr. Magoo, ria-me descontraída. Contavas as aventuras dos teus filhos e a conversa oscilava entre composições e flubbers, substâncias viscosas semelhantes a excreções repugnantes, mas que faziam a felicidade das crianças e nós aceitávamos o estranho prazer do contacto com o brinquedo em voga. A conversa era interrompida a espaços, ora com risadas, ora com admoestações do teu olhar sempre atento e vigilante.
Quando te ris, porque eu fugia das bolas nas aulas de meu tormento, há muita partilha e cumplicidade e sinto-me então feliz porque se de mim te ris é porque de mim te lembras e me guardas na caixinha das memórias passadas. Recordo o dia em que se te foi o salto da bota por te teres largado, desabrida, a correr, no fulgor da juventude e de quem mais não queria do que sentir o cabelo ao vento e a velocidade no rosto. Assalta-me a memória o dia em que serias a mais olhada e a mais bela. Encerravas um ciclo de tua vida e iniciavas outro. Julgaram, porém, que nesse dia, exactamente nesse dia feliz, terias dois braços direitos ou esquerdos, já nem sei, que me falha a memória também. E foi assim que te mandaram, lindas, envoltas em papel de seda, como teu vestido alvo, duas luvas do mesmo braço. “Não chores, minha filha que se te borra a maquilhagem”, tranquilizou-te a minha mãe, ajeitando-te o rosto, a empurrar-te as lágrimas. E éramos muitas mulheres, mães e irmãs, e não choraste.
Diz-se que Deus disse “em dor parirás teus filhos” e tu bem sabes que é verdade, que de ser mãe, sei somente o que me contam. Por isso, quando penso em como se te rasgou o ser ao parir teus filhos, sofro contigo um pouco também. E quando sobrepões a felicidade de os ver rir, brincar, crescer, aos momentos longos e sofridos da sua chegada, apetece-me oferecer-te não um bouquet de flores, mas um jardim inteiro.

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim...

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.
(...)
Tristeza não tem fim
Felicidade sim...


Tom Jobim/Vinícius de Moraes

E isto porque sempre que se falava de Carnaval carioca, o meu pai trauteava esta melodia.

Em Fevereiro...


Salvador, Bahia.

tem Carnaval.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Coração

O coração
é
uma casa
cheia
de
gente
a
esvaziar-se
com
a
passagem do tempo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Chega uma altura

E chega uma altura em que se começa a conviver com a morte como se fosse uma amizade antiga: alguém que está para aí, numa cadeira qualquer, sem incomodar a gente, amável, quase simpática, a olhar-nos por cima dos óculos com uma revista nos joelhos. Chega uma altura em que a morte é uma pessoa de família, uma parente não muito próxima que se convida quando há um lugar a mais na mesa: vemo-la, na ponta da toalha, modesta, apagada, a comer connosco, a sorrir quando nos rimos, a concordar de leve, a ir-se embora antes dos outros
— Não se incomodem, não se incomodem
e ao chegarmos ao elevador não a encontramos já, tentamos lembrar-nos do seu nome e esquecemo-lo
- Trago-o na ponta da língua
procuramos no álbum e é aquela pessoa na última fila dos retratos de grupo, meio apagada pelo tempo ou com demasiada sombra na cara, percebe-se um bocadinho de blusa, o penteado composto, quase nada. Chega uma altura em que a morte principia a conviver com a gente, se torna diária, íntima, existe no espelho da barba, nos nossos gestos, no modo de meter a chave à porta, entrar em casa, acender a luz, o sofá e os móveis de repente ali e a morte ao nosso lado, caladinha, usando o nosso corpo, a nossa tosse, a nossa voz, a pesar-nos por dentro


António Lobo Antunes, Terceiro Livro de Crónicas

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Sucessos


Depois do Marcelo Rossi e do Padre Borga eis que se anuncia um novo sucesso.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Trilhos

Eu falo muito do meu pai, infinitamente menos do que o tempo que lhe devoto em mim, a minha mãe fala muito do meu pai, infinitamente menos do que o tempo que lhe devota em si, o H. fala menos do meu pai do que nós as duas. Perpetua com enorme carinho a sua presença/ausência, não obstante. Hoje fomos ambos ao supermercado, escolhemos ambos um vinho tinto para celebrar o fim da semana e ao jantar, enquanto saboreavámos pela primeira vez o néctar, o H. disse singelamente o teu pai ia gostar deste vinho, concordei e acrescentei quanto mais não fosse por ser do Dão... e no ar pairou a homenagem sentida e discreta de quem lhe acompanhou o último viver, de quem lhe foi filho mesmo sem sangue ou genética. Os trilhos do amor dispensam a ciência.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Então vale a pena

Se a morte faz parte da vida
E se vale a pena viver
Então morrer vale a pena
Se a gente teve o tempo para crescer
Crescer para viver de fato
O ato de amar e sofrer
Se a gente teve esse tempo
Então vale a pena morrer

Quem acordou no dia
Adormeceu na noite
Sorriu cada alegria sua
Quem andou pela rua
Atravessou a ponte
Pediu bênção à dindinha Lua
Não teme a sua sorte
Abraça a sua morte
Como a uma linda ninfa nua

Gilberto Gil, Gil em Verso

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Sinais dos tempos

Quando cheguei ao portão da escola a C. chamou-me três vezes, alto e a bom som, com as palavras atabalhoadas a saírem-lhe ao ritmo da excitação. Num dos braços um bouquet de rosa vermelhas e uma série de embrulhos e laçarotes, no outro o autor da surpresa, de óculos escuros, educado e sorridente. Logo a seguir uma rajada de perguntas, se eu ia dar aula, se ela tinha de ir à aula, se teria falta caso não comparecesse. A tudo respondi afirmativamente, pois claro, mesmo que remotamente me tenha dado vontade de lhe dizer que sim, que podia ir namorar à vontade. Por vezes não se pode adiar o coração. Quando entrei na escola ouvi em uníssono o refrão de James Blunt you´re beautiful, o amor estava decididamente no ar, e quando finalmente entrei na sala e comecei a dar aula senti que a turma se dividia em três classes distintas: as eufóricas, poucas, as amuadas, muitas e as indiferentes, algumas. O mesmo se aplicou às turmas seguintes. Não teci comentário algum ao dia, elas próprias se encarregaram de contar as novidades, as que as tinham, as outras recolheram-se fazendo beicinho e assim decorreram os noventa minutos regulamentares, comigo a perguntar-me em surdina como, quando e porquê o dia de São Valentim se tinha transformado numa data de referência para as pré-mulheres sentadas à minha frente e num motivo de descontentamento como se fossem quarentonas frustradas e encalhadas na senda do seu príncipe encantado. Da última vez que tinha estado no Secundário, a data era mesmo isso, uma data. Algumas/alguns recebiam cartas, poucos presentes e quando nem um nem outro se verificavam a vida corria tranquila, sem beliscadura no complexo universo das emoções adolescentes, sem amuos nem carrancas. Na turma seguinte a auxiliar de educação educativa interrompeu a aula perguntando por uma aluna e logo de seguida estendeu-lhe uma rosa vermelha por parte do seu amado. A reacção não se fez esperar, a visada ruborizou levemente, oscilou entre a surpresa e a comoção, uma terceira comoveu-se mesmo e as restantes dividiram-se de novo entre sorrisos de apoio e expressões de amuo. No fim da aula saíram cada uma com as ditas expressões e, enquanto arrumava os livros, ouvi alguém dizer bem, tenho até à meia-noite para arranjar um namorado. Saiu sorridente, ligeira e bem disposta, ironizando com o dia, o que me pareceu uma belíssima opção. A acrescentar aos inúmeros problemas com que os adolescentes se debatem hoje em dia, surgiu, ao que parece mais um, o drama do dia de São Valentim.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Say it with sunflowers

As cartas de Amor

E não é que faz hoje exactamente cinco anos que esta vossa modesta rabiscadora fez uma declaração de amor ao seu mais-que-tudo em directo na sua radiola?

Aqui ficam as duas últimas quadras:

Onde está esse Cupido,
Que nos juntou sem perdão?
Queria só dar-lhe um beijinho
P´ra exprimir a gratidão…

Celebremos, meu amor
O dia de S. Valentim
Que te quero com ardor
Meu docinho querubim!!!


Razão tinha o Fernando Pessoa...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Teimosias

A minha mãe tinha ido para a cozinha, julgo estarmos pela hora do almoço e enquanto ela se afastou, provavelmente por imperativo de algum afazer doméstico, o meu querido pai disse-me num tom confessional uma coisa que tenho notado na tua mãe agora com a idade é que ela está teimosita… Vinha isto a propósito não sei de quê, julgo mesmo que a teimosia teria sido entre mim a minha mãe sobre um qualquer assunto comezinho do quotidiano mas o que me pareceu mais curioso foi precisamente o meu pai, logo ele acima de todas as pessoas, achar que era a minha mãe que estava teimosita. O meu querido pai era um teimoso irredutível, obstinado e convicto, e muito raramente, em anos bissextos talvez, dava o braço a torcer. Por isso me deu um prazer enorme esta vitória, visto não estar mal servida de convicções fortes eu própria. Sei que se o meu querido pai em algum lado estiver, estará a sorrir-se com os olhitos meio fechados, um olhar malandro e num silêncio eloquente ou a dizer hmm, nem por isso… com a ironia de sempre. Na verdade, sempre admirei os meus pais por não discutirem e por ao longo destes quarenta anos não ter nunca ouvido uma única palavra desrespeitosa por parte de algum deles. As opiniões não coincidiam sobre livros, cinema ou teatro ou outros assuntos com muita frequência, não obstante. Eu penso assim, tu pensas assado e assim ficavam com opiniões divergentes mas logo encontrando o caminho convergente da sua vida, sem beliscadura nem mácula. Sei que por vezes o meu pai tinha vontade de abandonar o cinema ou o teatro caso a peça ou filme não lhe agradasse, algo que a minha querida mãe seria e é incapaz de fazer e algo, de resto, que o meu pai também não fez. Lembro-me das risadas por ter aguentado estoicamente as Valquírias de Wagner ou uma temporada inteira de ballet.
Agora começo a pensar que o meu pai acabava por ter a sua razão. Desde que partiu, a minha querida mãe agarrou-se ao luto e luto tem vestido desde esse dia ou o dia seguinte. Ocasionalmente misturado com cinzentos. Nunca fugindo a uma paleta de cores sombria e pesada, no entanto. Relembro-a amiúde que o meu pai detestava preto e que várias vezes disse que quando morresse que vestíssemos vermelho, desejo, como é óbvio, não respeitado pela hipérbole. Um destes dias frios a minha mãe usou por casa um poncho beige e numa outra ocasião uma écharpe lilás. O rosto encheu-se-lhe de luz. Digo-lhe Mamã, o Papá detestava preto. Mamã, o Papá adorava ver-te de branco. Mamã, o preto é viciante. Mamã, pareces uma mulher antiga e o Papá que nem era nada dessas coisas… Pois sim. Que lhe apetece assim, que vai começar a vestir outras cores, que sim e mais que também mas enquanto isso o preto domina o seu vestuário e ela continua obedecendo como sempre fez à força do seu carácter, fiel às suas convicções, determinada nas suas atitudes. Como sei que costuma vir aqui espreitar, pode ser que a minha querida mãe se lembre dos dias em que vestia outras cores que tão bem lhe ficam, que o meu pai odiaria vê-la de preto e que eu tenho saudades de a ver sem a negritude dos últimos meses. O meu pai lá tinha a sua razão, Teimosita.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

O país e o mundo

Isto devia ser pela uma da tarde quando o serviço noticioso abriu com a novidade de que Sharon podia morrer a qualquer instante, facto importantíssimo, não estivessem os incautos a pensar que fosse imortal. Se Sharon ou qualquer outro chefe de Estado, primeiro-ministro ou Zé-Maria-Pincel não pudesse morrer a qualquer momento é que seria notícia. Logo a seguir a mega peregrinação de Felgueiras, essa bela localidade, a Fátima, essa bela localidade também, com a Fátima Felgueiras, a primeira exilada da democracia portuguesa, segundo disse a pobre mulher, escorraçada durante uns tempos para Ipanema, Rio de Janeiro, Brasil. A pena que me fez. Vida dura a de certos autarcas nestes país… Cinquenta e cinco autocarros, dois mil fiéis a Fátima e a recusa da causa da peregrinação. Que não, que não tinha nada a ver, que era mais barato do que vir em veículo próprio, Fátima, a própria Fátima, uma das, bem entendido, da outra não se soube mais o paradeiro e agora já cá nem está ninguém para contar a história, visto que a última testemunha se finou, o que é, de resto, insignificante se tivermos em conta o silêncio e isolamento que lhe foi inflingido por ter tido semelhante visão, mas, então, a Fátima também negou o facto e eu ali fiquei incrédula, sim, ainda há coisas que surpreendem, vendo o povão. Se não foram a Fátima por causa de Fátima, foram por causa de quem? Entretanto vejo o advogado de Carlos Silvino a ser empurrado pelo proprietário de um prédio em Lisboa para fora do dito prédio e ele agarrando-se com unhas e dentes à porta, a barriga proeminente a ressaltar da camisa branca, a porta a encolher-se, mais um ou outro empurrão e zás, o homem cá fora. Muito sinceramente, há figuras que nenhum advogado deve fazer, nem mesmo o de um pedófilo confesso. Esta frase ficou-me na cabeça desde que li a crónica do Ricardo Araújo Pereira falando da marquise do recém-eleito Presidente da República, há determinadas partes da casa que um Presidente da República não devia frequentar. A marquise é uma delas. Assim é, como diria Saramago. Agora pela tarde veio a notícia de que o Vaticano irá limitar o acesso ao Santuário de Fátima, permitindo-o apenas aos católicos, logo agora que a tolerância religiosa se esbanja por esse mundo fora. Prevejo a criação de mais um cartão com direito a desconto nos vendilhões do templo, banda magnética e torniquete na entrada. Decididamente vou deixar de ver notícias ao fim-de-semana.
imagem: Gerhard Haderer, Das Leben des Jesus

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Pequenos nadas

Hoje quando fui às compras numa grande superfície, deparei-me com uma feira de enchidos e queijos. Dei por mim a procurar se os chouriços eram de vinho tinto, como o meu pai gostava, e da Beira Alta, como ele também gostava, há hábitos que se perpetuam por si próprios, a seguir já tinha metido literalmente o nariz nos chouriços quase todos, já que estando embaladinhos, não havia o perigo de contagiar os ditos com os meus micróbios. Fui buscar a comida para a família felina, uma passeata pela secção dos chás e cafés, os iogurtes do costume, razões pelas quais me tinha dirigido ao local em causa, e sem dar conta, já estava outra vez nos enchidos levada pelo faro, guiada pelo olfacto. Era manifestamente mais uma manobra de marketing para despejarmos os euros na caixa a troco daquele cheirinho apetitoso e, claro, que os queijos mesmo ali à mão de semear não eram também obra do acaso, tal como não o era a variedade de vinhos tintos das regiões demarcadas do país e a broa de Avintes, uma raridade aqui na mouraria, a coroar os sabores. Um bom tinto do Dão, o chouriço a assar no porquinho de barro, o pão inteiro ou em fatias no cesto, o queijo numa tábua de madeira… Vim-me embora com os biscoitos dos gatos, os iogurtes, o pão para torradas e outras ninharias, tudo embrulhado no atrevimento de brincarem assim com os sentidos alheios. Teriam noção, por acaso, do apetite imenso com que me deixaram? Teriam pois. E neste périplo, lembrei-me muito da Patrícia, e de como seria divertido estarmos as duas tomando livremente os aromas dos enchidos, farejando sem parar e comparando este, e este, o outro e ainda aquele.

Mãos

Vem isto a propósito da expressão das mãos dos meus pais na fotografia do post anterior.
Gosto da tranquilidade das mãos do meu pai, entrelaçadas uma na outra, uma extensão da admiração evidente no seu olhar. As mãos descansando. Admiro a feminilidade da mão da minha mãe, os dedos levemente abertos, a leveza do gesto que desenha no ar, a pulseira descaída no pulso, escorregando pelo antebraço.

As mãos são dois livros abertos, não pelas razões, supostas ou autênticas, da quiromancia, com as suas linhas do coração e da vida da vida, meus senhores, ouviram bem, da vida, mas porque falam quando se abrem ou se fecham, quando acariciam ou golpeiam, quando enxugam uma lágrima ou disfarçam um sorriso, quando se pousam sobre um ombro ou acenam um adeus, quando trabalham, quando estão quietas, quando dormem, quando despertam.

José Saramago, As Intermitências da Morte

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Sozinhito

O olhar do meu pai para a minha mãe manteve-se assim até ao último dos seus dias lúcidos. Um dia telefonei-lhe, não me lembro exactamente quando, sei que lhe perguntei Então, papá? respondeu-me apenas Olha filha, cá estou, para aqui sozinhito à espera da tua mãe. Retorqui-lhe algo de banal como acontece em conversas semelhantes, despedimo-nos, provavelmente ter-lhe-ei dito que a mamã devia estar a chegar, estando, no entanto, certa que o meu querido pai permaneceria ansioso como uma criança à espera da minha mãe mesmo que fossem uns meros dez minutos. Guardei sempre com carinho esta breve troca de palavras pela expressão cómica do meu pai, sozinhito, como se uma simples ida à escola, à mercearia ou ao supermercado fosse uma ausência prolongada, sentida e dolorosa. Na verdade, qualquer instante longe da minha mãe assim se revelava para o meu querido pai.
Um dos primeiros pensamentos que me atravessou a mente naquela terça-feira à porta do hospital, quando se confirmou que nada mais havia a fazer senão esperar que a senhora da gadanha desse a mão ao meu pai e o libertasse daquela cama a que estava aprisionado, foi que ele iria ficar sozinhito e as lágrimas soltaram-se também pela solidão do meu pai sem nós. Aninhei-me no H., as mãos a esconder os olhos, o corpo a corcovar-se pela dor, o peito tresloucado aos solavancos, as palavras perdidas nos soluços.
Estou certa, portanto, que o meu pai jamais seria capaz de escrever, pensar sequer, como Alberto Caeiro, Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia/ Não há nada mais simples/ Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte./ Entre uma e outra cousa todos os dias são meus. Entre as duas datas, que detêm a simplicidade com que acredito que o meu pai gostaria de ser lembrado, todos os dias foram dele e da minha mãe; dele, da minha mãe e de mim; dele, da minha mãe, de mim e do H. Sozinhito teria desistido de existir.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Das Intermitências

Comecei o livro quando saiu, algures em novembro, quando a invernia se começava a anunciar. Pu-lo de parte pouco depois. Recomecei. Li uma ou outra página e mais uma vez descansou na pilha de livros que tenho junto a mim no chão perto da mesa-de-cabeceira. A dificuldade de concentração no momento, a certeza de que o livro me merecia uma atenção redobrada e a convicção de que eu ficaria mais pobre caso não o fizesse, atiraram-no para o que esperei ser uma melhor oportunidade para ambos. E foi então ontem que tranquilamente com o crepitar da lareira e a placidez da noite acabei sem intermitências As Intermitências da Morte. Genial. Intenso. Brilhante e apaixonante. As reflexões constantes sobre a morte e a morte em si continuaram em mim, mesmo após ter sido lida a última linha deste texto que teve o mérito de me apaziguar com a dita senhora da gadanha, não fosse o prazer da leitura por si só suficiente.


Há também quem diga que, para nós, é uma grande sorte que deus não queira aparecer-nos por aí, porque o pavor que temos da morte seria como uma brincadeira de crianças ao lado do susto que apanharíamos se tal acontecesse. Enfim, de deus e da morte não se têm contado senão histórias, e esta não é mais que uma delas.

José Saramago, As Intermitências da Morte

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Nua

E porque hoje a conversa foi sobre narizinhos apurados aqui fica um texto repescado do fundinho do baú na versão simplificada:

Apenas um nariz. Modesto nas dimensões e comum na forma. Através dele obtinha sensações e com ele viajava no tempo e no espaço. Tal nariz subjugava-a hábitos peculiares, exercidos apenas em privado, no recato do lar, longe de olhares alheios e isto porque mesmo tendo o olfacto a potenciar-lhe sensações, o imperativo de boas maneiras permanecia ao nível do consciente e o super-ego encarregava-se de lhe empurrar o atrevimento para as zonas mais misteriosas do id. Deleitava-se, por exemplo, com o aroma do pão e do vinho, perdendo-se no perfume do vinho a inflamar-lhe os sentidos e, não havendo mal nesse comportamento, permitia-se a indulgência. O mesmo não se aplicava ao acto de cheirar o pão em público e, embora sentisse muitas vezes a vontade imperiosa e quase compulsiva a tomar conta de si, impelindo-a a perpetrar tal falta, atirando-a sem misericórdia para o aroma da frescura do pão mesclado com o calor do forno e o próprio pão a chamá-la insistentemente Anda, cheira-me… inibia-se sempre em prol das regras de etiqueta e ignorava assim o chamamento do pãozinho acabado de cozer.
Nesse dia de Inverno aprazível, nem muito frio nem muito cinzento, estava à conversa com um rapaz. Falavam de banalidades e ela deixava-se enlear pelas palavras agradáveis. Palavras com cheiros e aromas, cor e sabor, que se consentem saborear e devorar, se disso for caso. O assunto não se permite agora adivinhar nem tão pouco se reveste de importância. Falavam apenas pelo prazer da partilha de mais um momento ameno com o sol de Inverno a bater nas vidraças e o calor tépido a desensombrar-lhes as almas. Ela continuava calma, de olhar sereno e o sentir recostado na acalmia do quotidiano e o rapaz igualmente bonançoso e tranquilo, assim o conhecera sempre, disse-lhe, vindo do nada, bem no meio da conversa É Escape, não é? E ela ignorando até ao momento que o rapaz era também ele um rapaz viajante pelo insondável mundo dos aromas, ruborizou tenuemente de embaraço, confirmou-lhe meio tímida a indiscreta descoberta e sentiu-se nua, completamente nua.

sábado, 4 de fevereiro de 2006

Estranhos hábitos

Estranho, o hábito de...
... escrever no primeiro pedacito de papel que aparece, sejam contas de supermercado, talões das portagens ou envelopes dos bancos.
... cheirar tudo, embora me coíba em público de o fazer. O pão, por exemplo, é do que mais me custa não cheirar em pleno restaurante.
... segundo o H., deixar a tampa da sanita aberta, coisa rara nas mulheres, diz-se.
... guardar revistas e suplementos de jornais, especialmente das artes e letras, e relê-los meses depois, até anos, tal como o meu pai fazia.
... acreditar, mesmo duvidando do que se passa além da vida, que o meu pai mantém conversas com alguns vultos desaparecidos deste país sobre política ou questões de uso do Português ou que reencontra a minha avó, os seus pais ou o meu primo.

A pedido da Elsita

Gestos

O toque da campainha pela hora do almoço.
Duas vozes masculinas trocando palavras indecifráveis
à porta de casa.
A expectativa suspensa sobre a mesa.
Um rosto conhecido pela sala dentro.
Um sorriso imenso. Um beijo genuíno. Um abraço grande.
Felicidade pelo reencontro.
Gratidão contida pela generosidade do momento.
Comoção silenciosa pela grandeza do gesto.
Conversa larga e boa.
Pouco passado, muito presente: a saúde, a idade, o mundo, o país, a referência à partida, saudade aqui e ali como pontilhado quase imperceptível numa tela impressionista.
Há amigos que voltam sempre com a luz e ternura de quem nunca se ausentou.
Há amigos que fazem a vida valer a pena.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Partilhas

Setora, elas vão-se rir de mim…e eu disse não vão nada e ela continuou fazendo uma expressão condoída Vão, setora, vão dizer que é muito lamechas… Repeti que não iriam. A N. argumentou que não tinha um ídolo, uma celebridade que admirasse do mundo das artes e do espectáculo, da literatura ou cinema. Retorqui que não somos todos iguais e que no trabalho que lhes havia sido pedido não havia certo ou errado, tal como não são certas ou erradas as pessoas que amamos ou admiramos pelas nossas vidas. A escolha sobre quem e como iriam falar era absolutamente livre e sem a interferência da professora, minha, portanto. A N. não estava muito convencida, olhou os colegas que esperavam depois de algum suspense que ela apresentasse o seu trabalho e expectantes permaneciam suspensos entre as palavras que trocávamos e a revelação da personalidade em questão. A N. começou então por dizer que tinha quarenta e dois anos, com o rosto iluminado e o discurso pausado observando os rostos de colegas como barómetros fiéis da intensidade das suas palavras e assim foi ultrapassando em passo miudinho todos os receios iniciais. E continuou, dizendo que era gorducho, tinha barbicha e bigode, umas mãos rechonchudas com as quais lhe fazia cócegas, era bem-disposto e divertido, preocupava-se muito com ela e a irmã. Acrescentou que ele próprio se tinha ocupado de ambas, sem mais ninguém que o ajudasse na tarefa de educar duas crianças de tenra idade aquando do divórcio. Por tudo isto, o herói era o pai. Felicitei-a pelo trabalho e saímos as duas no fim da aula, cada uma arrumando os despojos do dia entre dossiers e mochilas, cada uma com o seu pai no coração.

Desígnios

Os desígnios de deus são o que sempre foram, inescrutáveis, o que em termos correntes e algo manchados de impiedade verbal, significa que não nos é permitido espreitar pela frincha da porta do céu para ver o que se passa lá dentro.

José Saramago, As Intermitências da Morte