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quarta-feira, 31 de maio de 2006

Volta Chewbacca!

Primeiro começou a fazer uns ruídos peculiares. O H. disse Acho que temos o Chewbacca na cozinha. Os grunhidos eram irregulares, ora mais intensos, ora como um lamento. De vez em quando desapareciam de todo. Isto era quando pensávamos que o Chewbacca se tinha ausentado e, como não era propriamente agradável pensar que uma criatura assim habitava a nossa cozinha, esses momentos de silêncio deixavam-nos particularmente felizes, acima de tudo, porque quando o Chewbacca ia passear, o nosso frigorífico, agora pomposamente chamado combi, voltava ao normal e exercia com competência a função para o qual tinha sido adquirido há uns meros cinco anos. As nossas noites continham pois estes diálogos preciosos em torno da existência da dita criatura Hélder, o Chewbacca voltou outra vez, isto ao mínimo barulho, Hélder, hoje não ouço o Chewbacca, quando o dito dormia na paz dos anjos. De repente, o Chewbacca não voltou mais e com ele desapareceu o gorgulhar característico do frigorífico, os roncos e grunhidos. Na verdade, foi ficando tão tímido, tão silencioso, mas tão silencioso que no Sábado se ficou como um passarinho, bateu a bota, esticou o pernil. Finou-se precisamente num dia de calor intenso, de canícula sufocante. Sentido de oportunidade não se pode dizer que lhe falte. Desde então que vivemos à míngua de coisa alguma que necessite de refrigeração, o que nos dias que correm é quase tudo. Tentámos de imediato ressuscitá-lo, depois provocá-lo e, por fim, insultá-lo sem piedade, o que depois do repertório com que fui brindada na praia no dia anterior não se me apresentou como tarefa difícil. Tudo em vão. Findas todas as tentativas, estivemos à beira de cometer um acto tresloucado de violência electrodoméstica e espetar-lhe com uns pontapés na barriga e umas cuspidelas nos olhos, mas depois como os professores vão ser avaliados por seres da mais variada espécie ainda por determinar, temi que o frigorífico se voltasse contra mim e me espetasse com um Insuficiente na sua apreciação final, o que vindo de um frigorífico pode ser grave e temível. Evito até ir à cozinha, que sou fraquinha dos nervos e nem o posso ver, impassível e indiferente, como se nada se tivesse passado e, hoje em dia, com o que aí vem, convém esbanjar simpatia até para um sapo, não vá ser sobrinho do filho da cunhada da prima do avô da tia da avó do primo do pai e da mãe do aluno. Ao menos que tivesse ido com o Chewbacca, escusava agora de ter aquele monstro de aço pespegado na cozinha a rir-se na minha cara.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Vidas

Apesar de todas as polémicas em torno da profissão docente, continuo a gostar de ser professora. Deve traçar-se claramente uma linha entre o desânimo e o desrespeito a que estamos, regra geral, sujeitos pela sociedade civil e tudo o que se passa dentro da sala de aula. Não admito pois que sejam apontados os factores externos à relação pedagógica entre professores e alunos como motivo para se abandalhar o sistema. Certo é que o desgaste é intenso e que, ao longo do ano, se acumula e apodera de nós um cansaço violento. Foi pelos meus alunos também que ergui a cabeça neste ano lectivo e foi por eles que evitei faltar e tentei cumprir sempre o melhor que pude. Ser professor é dar de si sem esperar receber em troca.
Gosto de uma certa inocência que os adolescentes têm nestes momentos das suas vidas, preocupa-me, porém, o abandono a que estão sujeitos pelas próprias famílias e confesso que a primeira coisa que me ocorreu, quando se tornou público que a avaliação dos professores iria também incluir o parecer dos Encarregados de Educação, foi que poderíamos também nós, professores, avaliar o desempenho das famílias na sua tarefa educativa e formativa. Ganharíamos todos com isso, principalmente os alunos. Acredito que, dessa forma, e se cada um se compenetrasse da miríade de factores implícitos na tarefa de educar e formar jovens, um melhor contributo seria prestado. Duvido, porém, da transparência deste processo: bons e maus profissionais existem em todo lado, o ensino não é excepção, sabido é que os pais querem apenas bons resultados, contam-se pelos dedos de uma mão os que se deslocam à escola para se inteirar da situação do seu educando e, muitas vezes, nem solicitados por carta aparecem, portanto, não estou particularmente optimista. Já vi futuros mais risonhos.
A J. é um bom exemplo. Vive sufocada pela mãe que aparenta uma pobreza inexistente. Um dia, em pleno teste, começou a chorar. Depois de conversarmos, cheguei à conclusão que não pudera estudar como gostaria de ter feito porque a mãe lhe moera o juízo na tarde que ela tinha reservado para o efeito. Quando há jantares de turma ou visitas de estudo, a J. nem se manifesta, diz apenas que não vai, e isto porque a mãe se recusa a dar-lhe o dinheiro necessário, pouco, entenda-se, e não contente com isso, diz-lhe que o pai é este, aquele e aqueloutro, porque não lhe dá pensão de alimentos e não quer saber dela. A J. não se queixa. Deixa soltar palavras aqui e ali, desabafos dispersos geralmente no fim das aulas, enquanto se apaga o quadro e se arrumam os livros e cadernos. Na verdade, carrego isto comigo, a impotência perante a vida desta garota, o sofrimento quase imperceptível que traz consigo, velado, calado, silencioso, mas que aprendi a reconhecer. Digo-lhes, digo-lhe, claro, que nem todos têm/temos de ser felizes da mesma maneira, que as famílias são diferentes, tal como as pessoas, que um dia encontrarão o seu caminho. Espero que a J. o consiga fazer com a independência suficiente da mãe que lhe amargura os dias e do pai que lhe ignora a existência.
Hoje a J. abeirou-se de mim para lhe corrigir um texto que acabara de redigir que, na por vezes labiríntica língua alemã, tinha um sujeito a mais: es. É inteligente e boa aluna, também muito teimosa e raramente se deixa convencer à primeira. Expliquei-lhe umas duas ou três vezes que não, não podia ser, por que é que não estava bem, que aquele es estava a mais. Pensou e repensou, acabando por afirmar, depois da reflexão necessária então, quer dizer que este es vai com os porcos? riscando com o lápis o es excedentário. Que tudo fosse tão fácil nas nossas vidas. Na dela também.

imagem: Goscinny & Sempé, Neues vom kleinen Nick.

sábado, 27 de maio de 2006

Da gregaridade lusitana

Começo a achar que devo ter tendência para atrair malucos e pataratas. Hoje fui à praia pela tarde. O tempo estava bom, calor, algum vento, nada de novo por aqui, e tinha a tarde livre. Peguei na tralha e num livrinho e fiz-me ao sol. Gosto da praia nesta altura. Tem um certo desalinho que me agrada. Ainda não há muita gente nem muito movimento. O areal é grande, extenso e sendo uma grande preguiçosa não procurei muito. Estendi-me ao sol, tranquila, como há muito tempo não acontecia. Perto de mim um casal de meia-idade com um chapéu-de-sol e mais à frente uma ou outra pessoa. O mar batia ruidoso, com as ondas do costume, no entanto, nada que não se consiga suportar, comparado com as temperaturas impraticáveis com que nos brinda o Verão quase todo. Assim parecia estar hoje também.
Passado um tempo apareceram três ruidosos homens. Tivesse sido há uma década atrás e diria que tinham sido guiados pela testosterona, que nem porcos à procura de trufas na floresta, mas agora que “arrumei as chuteiras” e elas me arrumaram a mim e tenho espelhos em casa, pude constatar e verificar aquilo que venho observando desde sempre mas que continuo sem saber explicar de forma lógica e racional: que o português é um rapaz que adora calor humano na praia e, mesmo estando a praia quase vazia, tem a tendência incontrolável de se plantar bem perto dos outros. Este espírito gregário não lhe ficava assim tão mal se, concomitantemente, não expusesse, a espaços, a falta de maneiras e alardeasse a grosseria. Ignorei–os claro, o acinte de mudar de lugar pareceu-me desajustado, e continuei lendo o meu livrinho. Falavam alto, impossível era não ouvi-los. Um disse Bamos amandar um margulho! o outro respondeu Na sêi nadari e um outro retorquiu atão, nadas à cão. O primeiro dirgiu-se ao mar e, quando voltou, afirmou peremptório F***s, a água tá fria cumó c*****o! É lógico que sim, é sabido que por estas bandas a temperatura da água ressuscita os mortos e desfalece os vivos, mas ainda assim tamanha eloquência era desnecessária. Lá mais para o fim da tarde ouvi-os de novo Eh pá, atão, a gente bai só ali acima… Havia um que discordava e argumento cá, argumento lá, acabaram por dizer, acabei por ouvir Ó pá, pedes aí à patroa pra ela ber as nossas coisas… Continuei concentrada no livro. Um deles dirigiu-se então a mim Ó patroa, na simporta de ber as nossas coisas ca gente bai só ali acima? Não sei de quem quereriam proteger os seus haveres, cá a patroa era a única que se situava perto dos mesmos, mas lá fui deitando um olho. Afinal não é todos os dias que se é promovido desta forma.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Postais do Mundo

Aderi ao postcrossing algures em Novembro. Tem sido uma experiência curiosa, também do ponto de vista cultural, até porque por mais que me babe por um postalito da Ópera de Sidney, por exemplo, daqueles lados só me chegam postais com pássaros, pinguins e outra bicharada exótica, e da Finlândia raramente me chegam paisagens também, embora nada de bicharada. Não quero generalizar, contudo, é divertido como cada povo tem tendência para enviar o mesmo tipo de postais.
Recebi um do Japão com o Monte Fuji e lembrei-me como o meu pai gostaria de o ter visto ou, antes, como eu gostaria de partilhar com ele este pequeno nada. Regressou de mansinho aquela saudade de não ter o meu querido pai para lhe mostrar o postal, um simples postal Papá, olha o que recebi hoje. Pegá-lo-ia com todo o cuidado, observá-lo-ia de um lado e de outro, tendo atenção ao selo e dir-me–ia algo como Que interessante! Depois imagino-o a dizer-me para o não esquecer Olha o teu postal. Leva-o, filha. Fica por aí e ainda o perdes. Nada como os nossos pais e mães, claro, para nos conhecerem as particularidades. O resto já se sabe. Esta saudade permanente. As lágrimas do luto lavam a alma. O luto sem lágrimas aloja-se em nós como um silêncio profundo.
Da Finlândia chegou-me um postal que fixei entre os restantes. Contra as túlipas amarelas um dizer que dedico à Cláudia, à Ana e à Joana.

Legenda: Vira os olhos para o sol e não verás as sombras.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Gata como elas

- Bem...
- Sim?!
- Ouve, estas gatas estão umas frieiras.
- Pois...
- Comeram quase quatrocentos gramas de biscoitos de ontem para hoje.
- Imagine-se...
- Acho que devia haver um subsídio para as famílias com animais de estimação.
- Concordo!
- Podia ser que recebesses também por mim...

terça-feira, 23 de maio de 2006

Rescaldo

Continuo a achar que há gente que não devia sair de casa e abandonar o anonimato. Pelo menos as figuras tristes que fazem e os disparates que dizem ficavam entre quatro paredes e o país com um cromo a menos, o que nem era mal pensado, tendo em conta a reprodução e multiplicação feroz dos mesmos. Digamos que a estirpe é outra mas a juntar a Adelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, a Alberto João Jardim e quejandos, surgiu a douta presença de Manuel Maria Carrilho. Pelo que vi e ouvi do debate de ontem, o problema reside no que foi filmado e não na atitude do dito em ter recusado cumprimentar o edil olissiponense. Manuel Maria Carrilho só mantém a compostura se souber que está a ser filmado, caso contrário pode tornar-se num casca grossa e revelar o grunho que há em si.

Que não seja por isso...

Lembra-te que cada vez que sacas uma música da net estás a contribuir para que os nossos concertos acabem.

Um elemento dos D´Zrt ontem a propósito do dia consagrado aos Direitos de Autor

Que peninha... Pode ser que escolham UMA BANDA para a abertura do Rock in Rio.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

A minha Mãe

Há dias que ando com este texto na cabeça. Na verdade, uma fotografia e um dizer de felicitações pelo aniversário parece-me muito pouco para homenagear a minha querida mãe.
Todos sabemos que as nossas serão sempre as melhores mães do mundo e, portanto, essa grande verdade e, ao mesmo tempo, esse lugar-comum, situa-se aquém daquela que me deu a vida e que me tem sido o alicerce afectivo e emocional da existência.
A minha mãe completa hoje setenta anos. A tecnologia para ela não tem segredos. Deambula pela net sem destino, tem mail, mais do que um inclusive, a partir de hoje máquina fotográfica digital, não vive sem o seu computador e três telemóveis: um antigo, um mais moderno e o do meu pai. Às vezes perguntam-me e agora que a tua mãe está reformada, como é que ela ocupa o tempo? Muito bem respondo. Interesses não lhe faltam: cinema, teatro, livros. E, claro, viagens. Continua a ir à escola, faz placards sobre escritores e poetas que, regra geral, se encontram à porta do Centro de Recursos com o seu nome. Lê, investiga, procura. De vez em quando comenta comigo Mas como é que se vive sem computador nem net nos dias que correm!? Ela e o Hélder partilham uma teimosia persistente com o computador. Não há máquina que os vença. Minutos, horas, se preciso for, ali estão teimando com o dito, resistindo e persistindo até que ele ceda finalmente aos seus desejos. Obviamente que me excluo destas lutas, sem, no entanto, ouvir que a minha mãe é muito à frente, mais do que eu, entenda-se.
Sempre partilhei a minha mãe com outros que, não sendo seus filhos, sempre encontraram nela uma mãe de coração. O Hélder foi o último a ser adoptado. É um protector incorrigível da minha, nossa, querida mãe. Engoli parte das lágrimas perante a partida iminente do meu pai, a seu pedido, de resto, como ele próprio terá feito, mesmo sem nunca o dizer. Nessa mesma altura e à medida a que os amigos ligavam consternados, muitos chorando também, ele dizia mas não pode ser, não pode ser a tua mãe a consolar os outros! Ela sempre em primeiro lugar. Estou certa que este lugar cimeiro foi conquistado pela linguagem dos afectos, do amor e não pelas obrigações familiares decorrentes da nossa união conjugal.
A minha mãe tem sempre disponibilidade para os outros, a minha mãe sempre teve ouvidos para os colegas, a minha mãe jamais fechará as portas de sua casa aos amigos, aos amigos dos amigos, pouco interessa se não são oportunos, se estará cansada ou terá algo para fazer.
A minha mãe iluminou a vida de muitos alunos que lhe passaram pelas mãos, mesmo com o epíteto de Luísa Berros, iluminou a vida do meu pai e ilumina assim desta forma singela e única as nossas vidas.

foto: 16/09/2001

Parabéns

Parabéns, minha querida mãe!

domingo, 21 de maio de 2006

Da Escola Primária

A minha professora primária das terceira e quarta classe dividia os alunos em três classes distintas: primeiro, as preferidas, segundo, as que, não sendo preferidas, tinham pais com prestígio social e/ou habilitações literárias acima da média e terceiro, as que, não cumprindo nem o primeiro nem o segundo requisito, eram pau para toda a obra, os bombos da festa e as escolhidas para levarem porrada a torto e direito, protegidas que estavam pela obediência cega à autoridade da professora primária, minha senhora. Igualmente se distribuíam os alunos na sala de aula, sendo que, e à semelhança do Coliseu romano, as desprivilegiadas sentavam-se lá para trás. Lamento sinceramente ter sido incluída no segundo grupo. Preferia ter levado reguadas, se fosse preciso, a sentir que não as levaria apenas porque a professora tinha respeito pelos meus pais, nem sequer afecto por mim, logo, não arriscaria um acto imponderado de umas reguadas só porque sim. Em verdade se diga que nunca as mereci, mas em verdade se diga também que duvido que as outras, as tais que não tendo quem as protegesse nem pais detentores de títulos académicos ou equivalentes, as merecessem também.
Lembro-me até hoje de um belo dia em que a Q. foi chamada ao quadro para fazer uma composição sobre Os Frutos. A Q. dava muitos erros e, perante a exposição a que tinha sido submetida perante o resto da classe, obviamente não melhorou o seu desempenho, como tal, os erros jorravam em torrente. Recordo as lágrimas misturadas com o giz branco no quadro preto, o choro da Q. e as belas bordoadas infligidas pela Dona A., deus a tenha em descanso. Este é o episódio que mais me ocorre quando relembro esses dias, um fantasma que me assalta a espaços, estaria na terceira ou quarta classe, e desde então desenvolvi esta repulsa visceral por categorizações sociais.
Ontem encontrámo-nos quase todos: as preferidas, as intocáveis pelas razões que se sabe e as burras e desprivilegiadas pelos motivos já mencionados. Ontem jantámos juntos celebrando os trinta e um anos que distam do momento em que deixámos a escola primária. Ontem ao jantar não houve burras ou inteligentes, preferidas ou respeitadas. Ontem ninguém se sentou atrás de ninguém. Ontem éramos apenas nós, mulheres e homens adultos quase todos com filhos, cada um com o seu percurso, felizes por nos revermos. Ontem tinha a alma grande e tranquila por sermos só nós, sem estigmas nem rótulos.

sábado, 20 de maio de 2006

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Aviso


Se amanhã não me virem por aqui ESTRANHEM!
É que hoje vou ver O Código Da Vinci
e nunca se sabe se terei algum encontro fortuito com a obra.

Ausência irreparável

Com quem vou discutir agora a polémica em torno do Dicionário da Academia?

terça-feira, 16 de maio de 2006

Ocaso

A vida
é
uma viagem
de
autocarro
partindo
cheio
pela
manhã
esvaziando-se
paragem
a
paragem
até
ao
ocaso
dos
d i a s
imagem: minha

segunda-feira, 15 de maio de 2006

domingo, 14 de maio de 2006

Miopia

Ao fim-de-semana cumpro o ritual de sempre. Acordo, ponho os óculos, levanto-me, abro a portada da janela do quarto, deixo a janela aberta no basculante, puxo os lençóis para trás e desço rumo à cozinha, onde faço uma grande chávena de café expresso que bebo geralmente sentada na sala, de televisão ligada para ver o que se passa no mundo, enquanto vou degustando dois iogurtes magros.
Este fim-de-semana foi relativamente igual, exceptuando que passei do primeiro passo, acordar, para o terceiro, levantar, e isto porque há uns dois dias, deixei cair das minhas mãos os meus tão amados e, acima de tudo, quase indispensáveis óculos. Assim sendo, disponho apenas das lentes de contacto, o que é extremamente redutor. Pelas nove e meia, dez da noite começo a ter vontade de tirar as lentes, mas se o fizer, fico cegueta, com algum sentido de orientação mas quase incapaz de distinguir quem é quem a alguma distância. Por outro lado, também não as posso colocar muito cedo, senão corro o risco de lá pelas cinco da tarde dizer adeus ao mundo e acabar a ler com o nariz encostado aos livros e alheada do ambiente circundante.
Lá vim para baixo, neste Sábado, sem óculos nem lentes, entregue à minha parca visão, pesarosa desta minha pouca sorte de ser míope e inconformada por ter estilhaçado os óculos no chão da casa de banho. Tudo fiz: o café, comi os iogurtes e liguei a televisão, entregue à minha condoída pitosguice. Nas televisões falava-se no fim do comunismo pagão e da libertação dos pobres e como isto da falta de vista me vai aos fusíveis ainda pensei que tinha regressado ao passado Queres ver que estamos outra vez na Guerra Fria? Tu queres ver? Eu querer até queria mas continuava à míngua de capacidades visuais e portanto recorri à minha mãe para ver se me explicava que raio se passava. Mamã, tenho aqui um homem de branco com um chapéu alto em bico a falar no fim do comunismo pagão e da libertação dos pobres… Passou-se alguma coisa que eu deva saber? A minha mãe riu-se do outro lado. Tudo igual, nada de novo, portanto, o que me leva a concluir que a Igreja Católica anda mesmo em crise, padecendo duma constrangedora escassez de novas missivas à população. Lá para 2017 ainda estarão a falar do fim do comunismo pagão. Quanto à libertação dos pobres, suspeito muito que tenham partido os óculos também, especialmente quando se passeiam pelos Museus do Vaticano.

Foto: minha, Cidade do Vaticano, Abril 2006

sábado, 13 de maio de 2006

Amanhã

Nas línguas locais moçambicanas, existe uma palavra para traduzir "amanhã" mas nenhuma para dizer "futuro". Não se nomeia o futuro com esta facilidade.

Mia Couto, in "Mil Folhas", 13 Maio 06

Nem mais. Para que é necessário o futuro, se se tiver um amanhã?

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Mamas, seios e maminhas

Episódios assim acontecem regra geral no início das aulas. Ontem tinha uma aluna a querer vender rifas. Perguntei então o que saía, que estavam eles a rifar. Ela respondeu cinco bebidas brancas ou dez imperiais na Festa de Gala. É lógico que não lhe comprei rifa alguma, até porque caso me saísse o prémio jamais poderia usufruir do mesmo na Festa de Gala, a bem da pouquíssima boa reputação que nos resta e do meu próprio fígado. Perguntei-lhe se não conseguiriam ter arranjado algo mais consentâneo com a Escola. Ela disse penas, enfadada com a frustração do negócio Pois, setora, eu bem lhes disse, mas eles quiseram assim… No final do dia, numa outra turma, e enquanto trocavam maleitas várias, colites e apendicites, ocorrência muito comum na turma em questão, a R. disse Ai setora, sabe lá, no ano passado tive de fazer uma colonscopia… Foi horrível! Acrescentei pois, é um exame muito doloroso... sem mais detalhes e tentando rematar por ali a conversa. A N. perguntou, baixando progressivamente a voz Isso não é um exame que se faz enfiando um tubo pelo cu? Lá que é, é, mas pronto, repreendida com o olhar, não precisava de mais explicações quanto ao cariz explícito da linguagem utilizada. Sugeri-lhe, recomendei-lhe, relembrei-lhe que seria boa ideia usar outras palavras, sei lá, ânus, parecia-me até uma boa opção. Ela riu-se e continuou feliz.
Hoje quando cheguei à aula, numa outra turma apenas de raparigas, as alunas estavam agitadas e entusiasmadas. Tinham feito pela manhã um debate sobre a homossexualidade e, como o tema lhes é muito controverso, a conversa espraiou-se-me pela sala dentro. Apresentaram os argumentos, perguntando amiúde a setora acha bem que …? A setora, eu mesma, achava umas coisas bem, outras assim assim, tentando sempre fomentar uma e única coisa: respeito e tolerância por aquilo que se considera diferente, que elas consideram diferente. A conversa cavalgava que nem um corcel, umas atropelando-se às outras, relatando o que uma argumentou e o que outra rebateu e que a A. disse assim e que a I. perguntou assado, quando de repente se saltou para a transexualidade. A I. disse a respeito de uma transexual agora mulher ela, setora, tomou coisas, aquilo… acrescentei em seu auxílio hormonas e ela continuou isso, para lhe cresceram as mamas. A colega logo ao lado emendou-a seios! e uma vez que a I. é moldava e, embora fale português com poucos erros gramaticais, nem sempre consegue adequar o discurso ao contexto por desconhecer as conotações que algumas palavras detêm, expliquei-lhe que enfim, pronto, poderia dizer mamas mas não em todas as situações e assim em contexto de sala de aula e noutros não ficava muito bem. Uma acrescentou sorridente lá do fundo maminhas! tentando facultar um equivalente harmonioso e eu lá continuei a prelecção, prevenindo teoricamente embaraços futuros à I., que ouvia atenta e interessada. Disse-lhe que cientificamente a designação estava correcta, daí falar-se em mamografia ou em patologias associadas à mama, cancro da mama, por exemplo, e não contente com isso, que isto de ser professor faz-nos ter a mania de ser por demais explicativos, rematei que os médicos, quando usam a palavra seios, referem-se, regra geral, aos seios nasais e acabei com a redundância seios do nariz para que não subsistissem mais dúvidas. Cada coisa em seu sítio. A C. apanhou a conversa no ar. Estava eléctrica e perguntou incrédula O quê? O quê? Quem é que tem as mamas no nariz? Portanto, se amanhã as vir com os dedos no nariz já sei do que estão à procura.

Aniversários

Os aniversários
existem
para que nos lembremos
que
um dia
nascemos.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Dispersos III

Há dias em que não consigo escrever. Passo em revista os dias, os momentos, a semanas, vejo as folhas do calendário a deslizarem celeremente, as estações a cumprimentarem-me ou a despedirem-se, sinto a brisa das páginas da agenda, os meses, um a um, cedendo a Cronos e penso sim, e daí? Há dias em que me estranho a mim própria. Há dias em que estranho os que depois de partirem se encontram de repente a meu lado que farão ali? Que fazes aí? pergunto eu. Há dias em que não sei muito bem como foi que aconteceu, como aconteceu afinal essa ausência perpétua, porque foi assim esse partir repentino e pergunto-me sim, porque foi? Há dias em que não sei muito bem como aqui cheguei, questiono o que fiz até aqui e se o que fiz até aqui foi por mim feito ou mera consequência do que se não pode deter, acaso da torrente imparável da vida. Há dias em que por saber quem sou e como cheguei então até aqui, apetece-me antes ser outra.

imagem: Paul Gauguin, A Carrancuda.

terça-feira, 9 de maio de 2006

Tradução

Os sonhos são como a tradução para uma língua de coisas intraduzíveis de outra; ou como a transposição para linguagem — forçosamente confusa ou complicada — de sentimentos vagos ou complexos, que a redacção normal não pode comportar.
Fernando Pessoa

Foto: minha

domingo, 7 de maio de 2006

Lux

Para a minha querida mãe

Lux? perguntaste tu. Lux, como o sabonete? Era dia de semana, azul e luminoso, e passeávamos pela cidade de meu coração, a cidade que amo acima de todas, porque lá fala-se a minha língua e a minha língua é a minha Pátria, como Pessoa, Pessoa de quem tanto gosto, afirmou. O caos é ele próprio uma forma de vida e cidade alguma consegue mimar-nos como Lisboa, com a luz de Lisboa. A primeira luz que vi, a primeira cor do mundo foi a cor de Lisboa e a última cor que verei, será a de Lisboa também?
Cidade branca, cidade cinzenta, cidade azul, pintada de cores e humores, caprichosa e voluntariosa, paciente e terna. Como línguas, as ruas alongam-se até ao rio. Há carros, sempre carros e camionetas e comboios e eléctricos. Outrora amarelos, mas ainda da Carris. Há pobres e ricos, há pretos e brancos, há louros e morenos, há mães e putas, há viúvas e órfãos. Há pedintes, nacionais e estrangeiros, anunciando o advento da multiculturalidade também nesta “triste forma de vida” e arrumadores, andrajosos e miseráveis, quase todos, convictos no desempenho da sua função e sempre sequiosos da recompensa, obtida mais por receio do que merecimento.
Há um pouco de tudo, por aqui, por ali, por além. Mas ninguém liga a ninguém, exactamente porque ninguém odeia ninguém e talvez seja esse o encanto do povo da minha cidade. Ocorrem-me, em sussurro, as palavras sábias de José Cardoso Pires “É um povo de cais e fado a cavalo dum diabo complacente, a gente que aqui se faz. Por isso, o à-vontade com que junta na mesma cama o pecado com a virtude e o engenho com que sabe pôr uma vírgula burlesca numa estória de má sina.”
A vida flui calma no stress mediterrânico de quem tem muito que fazer, embora os horários mais não sejam do que ténues pontos de referência para quem quer ver as notícias das oito ou das dez ou as incontáveis telenovelas de gosto duvidoso, cujo efeito terapêutico provoca uma catarse, colectiva e individual, em domésticas e executivas, ecoando no ar como um sonoro orgasmo simultâneo.
Assim é a minha cidade. Magnífica, como só ela sabe ser, e todos os dias ela cresce, a cidade, e se deixa descobrir, brindando-nos com as inúmeras vistas e as perspectivas sempre renovadas, ângulos novos reveladores da beleza da urbe. Eternamente, o Miradouro de Santa Luzia e aquele acordar único, irrepetível, porque nesse dia acordei ainda mais mulher que todos os que o precederam, com a cidade a nossos pés, com a luz de Lisboa a beijar-nos, igualmente única. Sempre Alfama, sempre o Castelo e a Sé, mas também as zonas ribeirinhas onde paira amiúde a maresia, a maresia do rio. Cheira-me repentinamente a sardinha assada, como alucinação sinestésica, e a manjerico de Santo António de Lisboa, e a cidade torna-se ainda mais colorida, mais feérica, e ouço, em fundo, entre o rumor do rio e o trânsito ensurdecedor: Lisboa, menina e moça, menina, da luz que meus olhos vêem tão pura...
Agrada-me a Lisboa dos roteiros turísticos, a Lisboa brejeira e varina, de braço dado com a sofisticada e elegante, e esqueço os subúrbios quase imorais de tanta fealdade e, agora que se me foi o cheiro da sardinha, regressa o “fumo semi-opaco das castanhas assadas” e sim, agora sim, agora ecoam os versos de Cesário Verde que, também ele, cantou Lisboa, o Tejo e a maresia, e vejo o bulício espesso de que falava “Nas nossas ruas, ao anoitecer...”
Imagino Pessoa, no Martinho, e ocorre-me o auto-de-fé descrito por Saramago, no Rossio. E isso também é a cidade, apenas um pouco mais remota. E mais uma vez Cardoso Pires “Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como cidade de navegar.” E a todos os que, cantaram Lisboa retiro o meu chapéu em veneração que para se cantar em verso uma cidade, é preciso ser-se parte dela, respirar-se-lhe e ser-se ela.
A cidade, a mãe, a matriz. Lado a lado lá íamos nós, as duas, as duas admirando a cidade, as duas sentindo a cidade onde me puseste no mundo, acredito que não por acaso, e aguardaste ansiosamente que os mínimos olhos de recém-nascida se abrissem, para o mundo, para ti, minha mãe, para a cidade também, na esperança que fossem ínfimas esmeraldas ou pequenitos cristais, cor de mar caribenho, ou talvez duas gotículas do Tejo, indefinidas entre o azul e o verde, como o mar, como o Tejo. Mas não, minha mãe, eram negros os olhos, como duas azeitonas, contas tu, com um brilhozinho nos teus olhos cor de avelã e então sorrimos enternecidas e por dentro exulto em sentimento benfazejo e aí somos verdadeiramente mãe e filha, não duas mulheres ou amigas apenas.
Há muita plenitude em ser mãe, muita grandiosidade também, dizem, que de ser mãe nada entendo... mas ser filha pode ser pleno e grandioso também. Quando almoças comigo na cidade, quebrando a solidão de horas a fio que mais parecem ser dias, dias cinzentos e opacos, dias sem sol, nem azul, ou quando esperas pacientemente que, empolgada, passe revista a todas as camisas, camisolas, tops e t-shirts, existentes nas lojas de roupa e me fazes notar, como só as mães sabem, que aquela blusa branca, aquela que me parece tão gira e diferente, é exactamente igual a todas as outras que tenho, também isso é belo e igualmente pleno.
E quando me ouviste chorar, porque um amor nos tinha deixado, houve plenitude, minha mãe, porque comigo choraste, comigo sofreste, por amor também, que o amor surge de várias formas e cores como a cidade de Lisboa e nossa dor era una, como um fado triste nas vielas ao anoitecer. Mas este dia, em que ambas comungávamos a urbe encantada sob o brilho dourado do sol do meio-dia, não era dia triste, era grande e perfeito, como o sol de Lisboa, e quando te mostrei o sítio mais in da cidade e me questionaste algo incrédula a sua graça Lux? Lux como o sabonete? nunca foi tão inebriante nem tão belo o cheiro a sabonete.


foto: Maio, 2005

sábado, 6 de maio de 2006

Maio é mês de nascer

Quando a Filipa me deu o braço e caminhámos as duas paulatinamente sobre a rua calcetada da Ericeira com o casario branco em pano de fundo e o mar revolto por trás, tive a sensação do conforto e carinho que julgo existir entre irmãs. Foi afagando a barriguita proeminente e partilhámos as duas as aventuras de ser mãe, eu por entreposta pessoa, por ela claro. O dia era branco e claro e a Ericeira em época baixa contém as mais belas manhãs que conheço. O casario do centro, o mar quase sempre descontente e gélido e a bruma que nos ameaça a qualquer instante. Os locais para serem belos não precisam de coqueiros e palmeiras, podem sempre sê-lo se a nossa alma assim o quiser. Com a Filipa partilho algo que julgo nunca antes ter dito, o facto de ela com a sua tranquilidade ter ousado usar um véu vermelho no dia do casamento. Não a conhecia então mas gostei da sua determinação e confiança, aparentemente em discordância com o ar tão cândido e doce. Partilho com o Gonçalo e a Fafaia toda a minha vida apesar da inexistência de laços de sangue. Para que são necessários afinal, se o amor é grande e pleno? Estiveram comigo e eu com eles. Os nossos pais sempre juntos. O meu querido pai gostava muito de ambos, admirava a sua simplicidade e bom humor, o seu despretenciosismo e genuinidade. Nesse mesmo dia na Ericeira, e durante o almoço, avisei que assim que a bebé nascesse, com quem partilharei o nome para minha indizível felicidade, iria vê-los ao hospital. A Filipa e o Gonçalo assentiram, a Filipa acrescentou acho muito bem que vás… deixando uma pontinha de suspense no ar. Deram-me pois a notícia que eu seria a madrinha do seu rebentinho e eu, como nunca antes, fiquei comovida pela confiança e amor depositados em tal decisão, assustada contudo com a responsabilidade.
Hoje a Nonô nasceu. Seria pelo fim da tarde, início da noite. Estou feliz. Pela Graciete e pelo Carlos. Pela Filipa e pelo Gonçalo. Por ti, minha querida afilhada, que amo desde a barriguinha da tua mãe, a quem espero honrar sempre pelo legado de amor de ambos os teus papás.

My labour of love

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Família

Uma família não é um grupo de parentes;
é mais do que a afinidade do sangue,
deve ser também uma afinidade de temperamento.

Fernando Pessoa

... e uma grande cumplicidade de afectos, diria eu.

terça-feira, 2 de maio de 2006

Resolvidos os espaços físicos da ausência

Uma vez resolvidos os espaços físicos da ausência, a saudade permanece em correria tresloucada no labirinto insondável dos afectos. O sofá vazio deixou pois de constituir um obstáculo em que tropeço na nostalgia do presente. Penso ainda, de mim para mim, O Papá? como se o esperasse ainda, como se voltasse pois, assim sonho de quando em quando. Diz-se, dizem os entendidos nestes assuntos misteriosos da mente, que será o desejo sublimado, a inaceitação da morte, da falta irremediável e outras coisas mais que só eles sabem mas não conhecem talvez, coisas que eu conheço e que nem sempre sei.
Falta-me agora não ter o meu querido pai, não o ver para lhe contar coisas, pequenas vitórias ou derrotas, dizer-lhe o que vi então do mundo e da vida, que agora é Primavera de novo e o azevinho lá de casa, acredito em sua homenagem, se cobriu de bolinhas vermelhas como nunca antes e as estrelícias desabrocharam em leque, essas que eu sei que preferiria no jardim, onde julgava ser a sua casa, e que gosto de lhas levar porque são daqui, um pedacinho de mim, do meu chão, do meu lugar.
Faz-me falta não ter o meu querido pai que sei risonho ao ver-me turista como tantos por esse mundo fora Ai que piada! E ele todo agarrado a ti… acrescentando Olha lá, e o Hélder não ficou assim..?! ciumentito diria então após uma pequena pausa de olhar malandro e imagino a contar-me as curiosidades que tanto o caracterizavam sobre assuntos vários, talvez falar do Ben-Hur, das Férias em Roma, excitado com o Coliseu e as catacumbas, acabando por dizer genuinamente estou tão feliz. Faz-me falta vê-lo feliz e narrar-lhe como foi, descrever-lhe o que vi e senti e observá-lo pondo de lado as fotografias e dizendo Amanhã… , esperando o seu momento tranquilo de levar a alma a viajar pelos lugares das fotografias e encontrá-lo ao outro dia no sofá ou na mesa à minha frente para apenas partilharmos um dia mais, um momento apenas.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Maio

Acredito que cada um de nós traz consigo um calendário oculto pleno de datas e marcos, respeitando o ritmo de cada alma e contendo a vida que se vai trilhando pelos caminhos do tempo. Dias e meses serão sempre o que deles fizermos e o que eles fizerem de nós também. Gosto, por isso, de Maio. Inicia definitivamente a minha Primavera, empurra o Inverno para trás e o sol inaugura esta aurora de luz. Maio viu o meu pai nascer, Maio viu a minha mãe nascer. Maio tem flores. Há chilrear de pássaros mesmo depois do ocaso e os melros fazem voos rasantes entre os canaviais e os limoeiros. O tempo é outro em Maio. Dilatado e indulgente. Em Maio começo a ver os primeiros pores-do-sol rubros lá no fundinho do mar. Em Maio os vizinhos saem à rua cumprimentando a Primavera, cuidando aqui e ali dos jardins, pondo de si em cada rosa. As manhãs de Maio têm perfume de vida. Maio é mês de nascer.

foto: minha