Páginas

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Pérolas

Eu sabia que havia uma razão forte para não simpatizar, implicar e detestar a Kátia Guerreiro. Há pouco num programa da Dois com o Ricardo Araújo Pereira, Carlos Coelho e a cantadeira, sobre o Orgulho Nacional, a mesma afirmou que "se o Salazar não fosse tão sisudo, não teria o sucesso que tem hoje."
Depois do edil viseense ontem, nada como esta pérola como sobremesa do almoço, isto para não falar das afirmações do pároco de Santa Comba Dão, essa bela localidade, relativamente ao assassino em série da terra.
Que venha o futebol já. Tragam-me o Figo às turras com o outro, tragam-me a Pauleta a dar na corneta dos ingleses, tragam-me o Cristiano Ronaldo a chorar, tragam-me o Costinha a meter a mão à bola, tragam-me o Deco a agarrar-se à bola, tragam-me até a Nossa Senhora do Caravaggio, mas por favor tirem-me deste país.

Sem mais palavras

Bandeira no DN de hoje

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Figuras de estilo

O edil viseense Fernando Ruas incitou a população da freguesia de Silgueiros, no seu concelho, a “correr à pedrada” os inspectores do Ministério do Ambiente em virtude das visitas frequentes que mantêm à freguesia em questão. Ninguém gosta neste país de ser investigado, supervisionado, inquirido, muito menos alvo de uma inspecção e, muito menos ainda, responsabilizado seja do que for e pelo que for. Fernando Ruas ressalvou, posteriormente, a afirmação beligerante dirigida aos descendentes de Viriato, declarando que se tratava de “sentido figurado”. Assim sendo, para a próxima vez que apele a que se esventre a Ministra da Educação*, a que se tire o escalpe aos seus Secretários de Estado** e a que se faça um auto-de-fé com a restante equipa***, saibam, pois, que é tudo em sentido figurado. O que nos vale são mesmo as figuras de estilo e demais recursos estilísticos. O que seria de nós sem as metáforas, as comparações, as perífrases, as sinédoques, as hipálages, os eufemismos, os zeugmas, as hipérboles, os pleonasmos, os oxímoros, as antíteses e as personificações destes animais nossos governantes?

* assim, de repente, não me parece má ideia.
** pareceram-me uma boa opção.
*** há que manter a coerência.

terça-feira, 27 de junho de 2006

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Do recato do lar

Ronaldo, merche-te!!!!*

* Copyright: Neptuno

Perspectivas

- Não havia necessidade de o Figo ter mandado uma cabeçada ao holandês...

- Ah, aquilo não foi uma cabeçada, foi uma turrinha...


Foto: BBC

sábado, 24 de junho de 2006

Desafios perigosos

O CDS-PP desafiou hoje a maioria parlamentar do PS a levar a laicidade do Estado até às últimas consequências e acabar com o cargo de bispo das Forças Armadas, com a bênção em inaugurações e com os feriados religiosos.
Público, 23/6/06
Mais aqui
Dispensemos o bispo e os feriados.
As bênçãos jamais!

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Bandeira que não dá bandeira

Prémio Stuart de Tira Cómica 2006
DN, 15/02/06
Parabéns, !
O meu querido pai estará, como sempre, feliz por ti.
PS - Lamechices à parte, fico à espera do convite para a inauguração da Praceta...

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Notícias com Coração

Obrigada, Witchie.

Sexo e futebol

And four or five years back, at Norwich, Arsenal scored four times in sixteen minutes after trailing for most of the game, a quarter of an hour which also had a kind of sexual otherworldliness to it.
The trouble with the orgasm as metaphor here is that the orgasm, though obviously pleasurable, is familiar, repeatable (within a couple of hours if you've been eating your greens), and predictable, particularly for a man - if you're having sex then you know what's coming, as it were. (...) Even though there is no question that sex is a nicer activity than watching football (no nil-nil draws, no offside trap, no cup upsets, and you're warm), in the normal run of things, the feelings it engenders are simply not as intense as those brought about by a once-in-a-lifetime last-minute Championship winner.
None of the moments that people describe as the best in their lives seem analogous to me. Childbirth must be extraordinarily moving, but it doesn't really have the crucial surprise element, and in any case lasts too long; the fulfilment of personal ambition - promotions, awards, what have you - doesn't have the last-minute time factor, nor the element of powerlessness that I felt that night. And what else is there that can possibly provide the suddenness? A huge pools win, maybe, but the gaining of large sums of money affects a different part of the psyche altogether, and has none of the communal ecstasy of football.
There is then, literally, nothing to describe it. I have exhausted all the available options. I can recall nothing else that I have coveted for two decades (what else is there that can reasonably be coveted for that long?), nor can I recall anything else that I have desired as both man and boy. So please, be tolerant of those who describe a sporting moment as their best ever. We do not lack imagination, nor have we had sad and barren lives; it is just that real life is paler, duller, and contains less potential for unexpected delirium.


Nick Hornby, Fever Pitch

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Futebolices

A verdade é que podem não saber quem foi Luís de Camões, ignorar por completo a existência de Fernando Pessoa ou do nosso Prémio Nobel da Literatura, desconhecer quem é o Presidente desta República das bananas sem bananas, é certo e sabido, porém, que o futebol é poderoso nestas coisas da imagem no exterior e, nos países islâmicos que visitei, ficou óbvio que os nossos embaixadores são mesmo os rapazes da bola. Eu bem me esforço por arranhar um Saalam Aleikum, um Aleikum Saalam, um Chokran aqui e acolá mas sempre fui recebida com um Luís Figo, Rui Costa e outros tantos assim de rajada. Engendrei um sorriso meio sem jeito e aceitei/aceito os nomes como um cumprimento.
Em verdade se diga que tenho um humor matinal odioso, já confessado neste espaço, agora um pouco mais comedido em virtude do casamento. De manhã,raramente estou para alguém, excepto em situações profissionais. A professora que os meus alunos têm de manhã é a que têm pela tarde. Nem eu sei explicar este separar das águas, talvez se possa atribuir ao signo solar, a fazer fé na astrologia, a verdade é que muitas vezes sou mais do que uma, com a mesma cara. De manhã não sou rapariga de muitas falas e agradeço até que me falem pouco. Herdei esta característica do meu pai, iguaizinhos os dois para grande desespero da minha mãe, para quem o dia começa com a mesma intensidade com que acaba e que se via desprovida de interlocutores logo pela manhã. Eu e o meu querido pai não estávamos para ninguém mesmo, talvez só um para o outro, uma vez que esta parecença nos unia e, portanto, quando um e outro deambulávamos pela casa que nem zombies, o entendimento dispensava verbalizações incómodas e trabalhosas.
Era cedo, muito cedo, talvez pelas cinco da madrugada quando nos metemos no autocarro rumo a Marraquexe. A estrada entre Agadir e Marraquexe é estreita e com curvas, tem pouca visibilidade e a condução em Marrocos, pelo que me foi dado a observar não é muito mais cuidada da que se verifica por essas estradas lusas, um susto, portanto. Digamos que tudo isto pela manhã não se apresenta como o melhor dos cenários. Marraquexe, contudo, merecia o sacríficio. A cidade vermelha, com a Djem El Fnaa pululante de encantadores de serpentes, contadores de histórias e malabaristas com macacos, o sol a pôr-se na praça e a praça a levantar-se em luz e movimento, os mistérios que encerra a Medina e o perfume do chá de menta cruzados com as palavras de Elias Canetti em As Vozes de Marraquexe constituíam a motivação para esta via quase sacrificial através do Atlas. Algures no meio do caminho fez-se uma paragem e eu fiquei, como convém nestas alturas, entregue a mim própria, enquanto o H. fumava o seu cigarro descansado. Neste périplo entrei numa loja de souvenirs, vazia àquela hora, o empregado dirigiu-se a mim, perguntou-me a nacionalidade e, perante a mesma, chutou sem hesitar FIGO e eu rematei-lhe sem qualquer finta que não gostava do Figo, que era um pesetero. O homem calou-se, como um guarda-redes impotente perante um golo na sua baliza.
Bem sei que o Figo é um rapaz robusto e viril, mas, como leiga que sou nestas lides futebolísticas, fico-me somente pela impressão que tenho do rapaz e, assim sendo, em virtude de ter trocado o Barça pelo Real Madrid, ter ameaçado sair da Selecção por esta lhe estar a arruinar o bom-nome, ter marcado mais golos ao serviço da sua equipa do que pela Selecção naquele fatídico Mundial da Coreia e ainda por ter falado em castelhano quando foi para o Inter de Milão e renegado, desta forma, a língua de Camões, deixou-me sempre de pé atrás. Isto já para não mencionar o ar sorumbático com anunciava ser aquela a bandeira dele há dois anos no Euro. Nessa altura o meu pai, tão leigo quanto eu em termos futebolísticos mas sempre fiel ao seu Santar, perguntava Mas alguém deve alguma coisa ao rapaz para ele estar tão zangado? e acabava imitando o tom grave do nosso felpudo mais famoso.
Voltei para o H. e disse Eh pá, lá veio o homem outra vez com o Figo… Disse-lhe que era um pesetero O H. respondeu incrédulo à laia de reprimenda Eu não acredito que tenhas dito isso ao homem! ofendido pelo mau nome alardeado ao nosso embaixador do esférico. Há assuntos que um homem e uma mulher não devem discutir, a bem da harmonia conjugal. O Figo é um deles cá por casa e muito menos a caminho de Marraquexe pelas sete da madrugada.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Parabéns

Abnegado, afável, afectuoso, altruísta, amante, amigo, arguto, aventureiro, barbado, barbudo, bem-humorado, benfiquista, branquito, cabeça-dura, carinhoso, carnívoro, casmurro, cioso, ciumento, comichoso, companheiro, compreensivo, comunicativo, contraditório, curioso, dedicado, delicado, desarrumado, descrente, disponível, distante, eloquente, entusiasmado, entusiasta, fiável, forte, friorento, generoso, hábil, inconstante, ingénuo, inteligente, interessado, jovem, leal, letrado, madrugador, maluquito, misterioso, obstinado, optimista, orgulhoso, paciente, pãozeiro, persistente, perspicaz, prestável, profissional, protector, quente, querido, reservado, resistente, respeitador, saboroso, sensível, silencioso, sonhador, talentoso, teimoso, tímido, tolerante, turista, verdadeiro, viajante, zeloso.Parabéns!
love u

domingo, 18 de junho de 2006

Não uploadarás!

Acabei agorinha mesmo de concluir que este blogue tem vontade própria. Como é sabido há já uns dias que o Blogger se tem recusado a cooperar e, por essa razão, os textos deixaram de ter fotos ou imagens a colorir as palavras. Hoje, pela manhã, tentei mais uma vez. Fiz upload de uma imagem ao acaso, que afinal era a do ilustre escritor lusófono José Eduardo Agualusa e, finalmente, o blogger obedeceu. Gritei de cá de baixo Hélder, consegui!!! Depois tentei uploadar a imagem do Santo António. Debalde. Nada. Nadinha. Rigorosamente nada. Gritei outra vez Hélder, cá para mim o Santo António está implicado nisto… Não consigo pôr a imagem no texto. Ou não gostou do texto ou não gosta da foto ou então levou muito a sério o que o Maomé trouxe da montanha e não quer a sua imagem representada ao que o H. respondeu de volta Não uploadarás! Bem visto. Se houve um upgrade dos pecados, está na hora de se reverem os Mandamentos.

Ernesto Guevara

14 de Junho de 1928
Clavo mi remo en el agua
llevo tu remo en el mio.
Creo que he visto una luz
al otro lado del rio.

El dia le ira pudiendo
poco a poco al frio.
Creo que he visto una luz
al otro lado del rio.

Sobre todo, creo que no todo esta perdido.
Tanta lagrima, tanta lagrima,
y yo soy un vaso vacio...

Oigo una voz que me llama,
casi un suspiro:
¡Rema, rema, rema!
¡Rema, rema, rema!

En esta orilla del mundo
lo que nos es presa es baldio.
Creo que he visto una luz
al otro lado del rio.

Yo, muy serio, voy remando,
muy adentro y sonrio.
Creo que he visto una luz
al otro lado del rio.

Jorge Drexler, BSO The Motorcycle Diaries

foto: Neptuno
Havana, 15 de Junho de 2002

sábado, 17 de junho de 2006

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Teoria da Conspiração

Não sei se foi por por maldizer a Ministra da Educação ou por confessar a minha pouca fé nos altares do mundo católico. Não sei se o Santo António terá a ver com isto ou o Fernando Pessoa não terá gostado da foto na Brasileira ou ainda se alguém por aí me terá lido a mente quando pensei em colocar aqui uma homenagem a Che Guevara por altura do seu aniversário, com o qual o meu coincide ou ainda por ter falado de Havana e reiterado que sim, que gosto de Cuba, governantes à parte. A verdade é que de há uns três dias a esta parte não consigo colocar imagens aqui mas como sou uma alma tranquila acredito que o Blogger há-de resolver este problema informático.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Dos gardenias

Não mais esquecerei aqueles olhos que me cantaram.
Havana é um sítio mágico com um encanto único. Será a miscigenação das gentes? Serão os sorrisos incomparáveis que nos deixam na alma a fugaz sensação de sermos amados? Será a junção da decadência com a nostalgia de tempos de outrora? O que é não sei... Sei que lá me sinto em casa. “Podíamos cá ficar” disseste, e concordei “Sim, era capaz de cá ficar”. Talvez aquele calor. Talvez a vendedora do colar de semillas rubras que, ao segundo dia, me chamou, como poucos me chamam, “Hola, amiga!!!” Talvez o empregado do hotel com sorriso aberto e pele de chocolate de leite “Una piñita?” Talvez a displicência das mulheres carnudas, ao exibirem os corpos de volúpia. Talvez o son. Talvez.
E continuámos sonhando “Abríamos cá um paladar, tu cozinhavas e eu servia à mesa. Olha que rendia...” Imaginava-me por detrás dos tachos e panelas, mesclando sabores lusos com leve travo cubano e não desgostava do sonho, exactamente porque era um sonho, e o que me agradava no sonho, muito menos ambicioso do que outros que tive, era precisamente essa ausência de ostentação, esse aparente despojamento, essa humildade no querer para quem muito tinha lido, em livros vários de gentes várias e até disso tinha extraído dois canudos guarnecidos com selo de lata e fitas azuis, redigidos num linguajar incompreensível à excepção do nome da possuidora dos ditos e guardados, também eles, em canudos de lata reluzente. E depois, seguiu-se ainda um outro papel, mais singelo no apresentar, mas similarmente trabalhoso.
“Vínhamos para cá” continuávamos “Já viste este calor? E as pessoas são tão simpáticas...” pois era “e depois com o paladar... Mas tem que ser uma empresa familiar. Não pode haver empregados e também só se podem sentar doze pessoas.” E o sonho continuava “A ideia agrada-me” E como me poderia agradar essa ideia é mistério, ou talvez não. O apelo da aventura era forte. A rejeição de estatuto, a ausência de pergaminhos luso-europeus surgiu-me como uma ideia excelente. Sem títulos. Apenas um letreirito, sem glamour nem minimalismos impostores, apenas um letreirito na porta anunciando PALADAR, acrescido de um outro nome mais sugestivo, por exemplo, DOS GARDENIAS, em homenagem aos olhos que me cantaram essa mesma canção na Plaza de Armas, um dia após o meu aniversário, num glorioso e tórrido dia de sol habanero, e que recebi na alma como um presente para a efeméride, o mais original dos presentes e dos mais sentidos da minha vida.
E os soneros acompanharam-me pela praça e leram-me o espírito e o sentir ao entoarem “Dos gardenias para tí... Con ellas quiero decir: te quiero, te adoro, mi vida...” Desfalecia discretamente de emoção, as pernas tremendo, os olhos a humedecerem-se, teimosos, ao ouvir a melodia que outrora num filme, também belo esse filme, me proporcionou um momento sem igual e, ao encontrar-me então sozinha e solitária na sala de cinema, assaltou-me uma vontade compulsiva de tocar com o indicador no ombro do espectador do lado, abeirar-me dele e partilhar esfuziante “O senhor deixe-me contar-lhe isto: é que eu vi esta mulher em Havana, ao vivo, no Tropicana... esta mesmo, esta que eles diziam que era a Amália Rodrigues lá do sítio”. Pode ser triste a solidão que nos impele a partilhar com estranhos momentos belos da nossa história ou pode ser bela, também, apenas a necessidade de partilhar plenitudes.
E a música continuava, melhor do que qualquer disco, mais sentida que qualquer fado, mais romântica que qualquer jantar à luz de velas no paraíso maldivo. Não se lhes ouvia a voz, ouvia-se-lhes a alma. A praça encheu-se ainda mais de mais luz, ainda mais intensa e verdejante, a ceiba e o Templete e mais cor, talvez da guayabera turquesa que um dos cantantes envergava, e transbordei de sentir num daqueles momentos sem explicação e que nos faz pensar que valeu a pena ter vivido. Sim, assim vale a pena e assim valeu a pena.
E ele tirou o chapéu e recolheu-o junto ao peito entoando sempre “Dos gardenias para tí...” e também eu lhe tirei, metaforicamente, o meu chapéu. Eram para mim, as gardénias. Os olhos cantavam, os olhos cristalinos com expressão, com sentir benfazejo. Jamais os esquecerei, os olhos, os olhos que me cantaram.
“Vínhamos para cá... e depois com o paladar” e rematávamos “Já viste que calor este, que noite esta... Magnífico, não é?” E era mesmo. “Nem sofrem de depressões, nem de stress...” recomeçávamos a conversa após breves intervalos de silêncios cúmplices “Imagina só PALADAR »DOS GARDENIAS«, e eu imaginava. Eu na cozinha a cheirar a hierbabuena e tu, nas mesas, delicado entre mojitos e tostones e os olhos a cantarem-me “Dos gardenias para tí...”
in Histórias com Mundo Dentro
texto protegido por copyright
em memória de aniversários passados

terça-feira, 13 de junho de 2006

Santo António

A minha mãe é devota do Santo António. Acredito, por isso também, que o mês de Junho é para mim mês de Lisboa. Nasci em Lisboa, nasci em Junho, sou uma amante confessa da poesia de Fernando Pessoa, também nascido em Lisboa, também nascido em Junho e Santo António é para mim de Lisboa e de Junho.
Uma ocasião, estando eu e a minha mãe em Itália e havendo apenas uma tarde disponível, oscilámos perante duas visitas distintas, uma de carácter mais literário: Verona, para ver a célebre varanda de Julieta e recordar o amor maior e trágico cantado pelo poeta maior, a outra de carácter religioso; Pádua, para peregrinar e homenagear Santo António de Lisboa, sepultado em Pádua. É sabido que não se dá por provado ser aquela a varanda de Julieta Capuleto e mais sabido ainda que a fé é por vezes maior do que a literatura, portanto, depois de amplamente discutido e negociado, decidimos visitar Pádua. Em verdade se diga que a insistência ocorreu mais por minha parte e que ainda hoje a minha mãe diz que me ficou a dever a varanda da Julieta. Sinto-me feliz por lhe ter proporcionado esse gosto. No amor não há deve e haver.
Na verdade, não faço questão de visitar altares do mundo. Lourdes não me diz nada, rigorosamente nada. Fátima idem. Roma é absolutamente sumptuoso, mas em rigor confesso que em nada tocou a minha já parca devoção religiosa. Pelo contrário. Enquanto a minha mãe e o H. se detinham nas explicações da guia sobre a capela Sistina, eu fui espairecer pelo Pátio da Pinha, no Vaticano. O meu humor matinal é canino, nem sei mesmo se não estarei a ofender os nossos fiéis amigos, e portanto, todo aquele fausto logo pela manhã, causou-me uma irritação inominável. Passeei, pois, na esperança que dissipasse e pensava com os meus botões, um apenas, era quanto tinha, se eles não teriam, por acaso, vergonha de tanta ostentação. Como diria o meu pai Vamos lá ser razoáveis, caramba! Cheguei à conclusão que não, vergonha não mora ali, até porque o mais recente titular da cadeira de Pedro destaca-se pelos sapatos Geox, óculos Rayban e farpelas de renome. Ainda hesitei em pedir ao guarda o livro de reclamações. Entrei e saí das lojas de lembranças e fui tirando chapa aqui, chapa ali, com os sentimentos em ebulição, observando as pessoas e o movimento para afastar ressentimentos. Quer tudo isto dizer que não sou, pois, a mais fervorosa das criaturas e que por mais que procure a minha vocação religiosa, a minha fé, não consigo senti-la, encontrá-la, muito menos nestes locais. Quando ela não mora em nós, não morará em lugar algum.
Esta visita a Pádua teve como objectivo único acompanhar a minha querida mãe na sua devoção pelo Santo de Lisboa. Mesmo antes da entrada na Basílica e em frente da mesma os postais contrariavam a condição benta do local. Rabos, maminhas e piadas jocosas escarrapachadas em postais confrontavam a entrada para o santo templo. Estranhei. Depois entrámos e depois verifiquei que também lá dentro muito se vendia, se trocava por dinheiro, por dinheiros, e aviso desde já que esta mistura entre o vil metal e as artes eclesiásticas me provoca uma repulsa visceral. Nesse dia de Fevereiro em Pádua, verifiquei que para ver as relíquias do santo tinha de se pagar um extra, assim fizemos, já que lá estávamos, embora a náusea pelas ditas continue a persistir sempre que o episódio me vem à memória. Bocados de língua? Blergh. Saímos da área das relíquias e numa das capelas laterais estava um frade. Perguntou-nos, enquanto admirávamos a abóbada e a nave Che cosa volete? Volete una benedictione? Entreolhámo-nos e teremos, terei pensado bem, isto mal não deve fazer... Venha ela, portanto. E ela veio, palavra cá, palavra lá, água benta aqui e acolá e logo após a mão estendida, não-sei-quantas mille lire faz favor. Como não aceitava devolução, outro remédio não tivemos senão, mesmo ali, junto ao altar-mor, às relíquias de Santo António e na casa do Senhor, restolhar nos porta-moedas, contar as mille lire e, sem mais, pagar a bênção, o que me caiu muito mas muito mal. Alguém lhe tinha pedido alguma coisa por acaso?
Acredito que na vida pouco mais existe além dos afectos. São eles que me movem, que me fazem levantar todos os dias, sorrir e chorar, que me ergueram dos confins, que me ajudaram a equilibrar a vida e a morte e são eles que hoje me fazem recordar este episódio. Só me resta agradecer ao Santo António, portanto.

Homenagem

Fernando Pessoa
Lisboa, 13 de Junho de 1888

Gostara realmente,
De sentir com uma alma só
Não ser eu só gente
De muitos, mete-me dó.

Não ter lar, vá. Não ter calma
Está bem, nem ter pertencer.
Mas eu, de ter tanta alma,
Nem minha alma chego a ter.

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas
foto: minha, Lisboa 2006

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Junho é mês de Lisboa

É varina, usa chinela,
Tem movimentos de gata;
Na canastra, a caravela,
No coração, a fragata.

Em vez de corvos no xaile,
Gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
Baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
Tem algas na cabeleira,
E nas velas o latido
Do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
Tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
Seu apelido: Lisboa.


David Mourão-Ferreira
foto: minha

Como será?

Há músicas, melodias e canções que nos assaltam de tempos a tempos por alguma razão oculta. Na verdade, desde que esta polémica em torno da educação se instalou e creio também porque mais um ano da minha vida chega ao fim, não me sai da cabeça O amanhã. A tudo isto não será também alheio este pedaço de alma brasileira que carrego comigo nos genes. Às vezes ando por aqui sozinha e mentalmente trauteio a melodia o que será o amanhã? Responda quem puder… e depois fazendo uma variação ao original acabo cantarolando o meu destino será como eu quiser. Como será? Sim, como será?

Foto: Neptuno
Paraty 2005

sábado, 10 de junho de 2006

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Futuro

Ultimamente os textos sobre a minha vida profissional escrevem-se sozinhos nas veredas insondáveis da mente. É estranho mas esta coisa de escrever, do escrever, parece por vezes uma torrente imparável e aparece quase como do nada, enquanto faço outras coisas. Há uns dias, semanas talvez, o H. perguntou-me Que estás a fazer? respondi Estou a escrever um texto enquanto lavava alface para a salada, na banca da cozinha, espreitando o mar pela janela e o dia a esconder-se.
Um destes dias estava a falar com os alunos na aula, na verdade, estava a despedir-me deles. Disse-lhes, depois dos trâmites costumeiros da auto e hetero-avaliação e da reflexão em conjunto do que foi feito ao longo deste ano lectivo, que para o ano não seria professora deles, nada que não soubessem já, mas que, não obstante, estaria ao seu dispor para o que precisassem e acrescentei então que já sabiam onde me encontrar, que estaria na sala de professores, pois claro, onde poderiam sempre procurar-me, emendei-me a mim própria, peremptório que estava o futuro à minha frente, e disse-lhes estarei lá para o ano… e durante os próximos 24 anos, o que assim de repente me pareceu assustador e tremendo. Mais vinte e quatro anos da minha vida na sala de professores é um quadro digno de Bosch cheio de criaturas estranhas e até então apenas existentes na nossa imaginação. Receio, contudo, que se tornará real, caso trabalhemos até aos sessenta e cinco anos continuamente a levar bordoada de quase tudo e todos.

imagem: Hieronymus Bosch, A Barca dos Loucos (The Ship of Fools)

Vertigem

Este blogue nasceu da morte para comemorar a vida. Vejo-o e e sinto-o como um barómetro de mim própria. Sei que podia traçar com ele um gráfico pleno de altos e baixos. A vertigem do que foi?, como foi? aparece a espaços e sempre que fazemos algo pela primeira vez na sua ausência a vertigem regressa, a insanidade e o desequilíbrio, a desorientação no tempo, às vezes, no espaço. O que foi?
Ontem cheguei a casa dos meus pais, abri a porta, chamei pela minha mãe. O F. e a M.J. tinham vindo visitar-nos. A mesa estava posta. Havia pratos e copos. A minha mãe estava na cozinha com os nossos queridos amigos, amigos dignos desse sentimento nobre e que o meu querido pai terá levado consigo no coração e na alma. E depois entrei na sala, mas ele não estava. O meu pai não estava. E de novo a vertigem O que foi? De novo o desnorteio O Papá? De novo a inquietação O Papá? De novo pensar que foi também à cozinha que estaria na conversa com O F. sobre a sua terra Natal ou a lavar a alface para a salada. De novo cogitar Não vem. Terá ido à casa de banho? E ter vontade de dizer Esperem. Falta o Papá. Só um bocadinho, ainda falta o meu pai. De novo ter vontade de perguntar ao H. Onde andará o meu pai?! De novo ter vontade de chamar a plenos pulmões Papá!!! Estamos todos à tua espera. E gritar mais uma vez Anda para a mesa. Já estamos à tua espera e de novo não o saber na cozinha, não o saber em qualquer outro lugar da casa, de novo não o ver connosco à mesa, com a sua calma, recordando aventuras antigas com o F., recolhendo os pratos e talheres no fim, trazer as chávenas para o café e sentar-se no sofá, traçar a perna e tomar o café calmamente. De novo, eu a dizer-lhe bem, vou-me embora e ele responder-me vai filha, vai à tua vidinha com o sorriso ternurento com que caminho sempre pelas ladeiras da saudade.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Mãe?

Digamos que já se viveram tempos mais tranquilos na Escola. A incerteza da Carreira Docente, o desgaste do final do ano lectivo, as recentes colocações de professores e as declarações da Ministra fazem uma mistura explosiva. A sala de professores é um local inquieto e inquietante. Uns colegas bradam indignados, outros ouvem ainda assustados, discute-se aqui e ali, tecem-se comentários pouco elogiosos à Ministra e, enquanto isso, decorrem as aulas e o final do ano acena-me do outro lado da janela. Gosto de chegar ao fim quando o percurso vale a pena.
Logo na primeira aula de segunda-feira, as alunas vêm cheias de aventuras e novidades e têm alguma dificuldade em concentrar-se. Hoje a T. foi a última a entrar já em cima do segundo toque e quando as restantes colegas estavam sentadas e calmas. Todos os olhos se viraram quando a porta se abriu e a T. entrou e, uma vez a atenção concentrada na colega, comentaram alto que ela tinha apanhado um escaldão Ehhh ganda escaldão! A T. encolheu os ombros, conformada, e sentou-se no lugar de sempre. Na verdade, tinha o rosto avermelhado. Disse-lhe à boa maneira professoral, este hábito que se mete dentro de nós, que devia ter-se protegido mais ou apanhado menos sol. A T. respondeu displicente Eu nunca uso protector e quando uso alguma coisa é logo bronzeador. Algumas concordaram Eu também não, setora, nunca uso nada. E pronto, lá foi mais uma ensaboadela comedida e pedagógica: que é perigoso, que o sol está mais agressivo por causa da camada de ozono, que correm um risco acrescido de ter cancro de pele, que deviam proteger-se sempre, mesmo já bronzeadas, que sim, que eu uso sempre protector solar. Ouviram atentas e interessadas, como se fosse a primeiríssima vez que o tema era abordado, como se estivessem perante a revelação do Graal ou de um dos segredos de Fátima. Por fim, uma concluiu veemente Tem razão, Setora. A Setora é que devia ser nossa mãe! A aula decorreu sem sobressaltos. No fim, todas se despediram e foram às suas vidinhas, enquanto eu fiquei a matutar no assunto. A malta faz o que pode e até agradece o elogio, mas ser promovida assim a mãe por uma mera advertência sobre os perigos da exposição solar é preocupante.

Imagem: Maitena, Nós, As Mulheres 1

domingo, 4 de junho de 2006

Feira do Livro

Muitos editores portugueses continuam a lançar livros como se fossem artigos funerários. Fazem-no com a mesma discrição, o mesmo desgosto, o mesmo falso pudor com que um cangalheiro divulga os seus serviços. Não admira que vendam poucos livros. Admirável é que consigam vender algum.
A Feira do Livro de Lisboa, o maior acontecimento do género em Portugal, cumpre-se, a cada ano, como uma fatalidade. Levantam-se no Parque Eduardo VII aqueles casebres tristes — tão feios, meu Deus, tão desamparados! —, enchem-se de livros, muitos livros, e os portugueses vão, em multidão melancólica, poupar uns tostões. Há encontros de escritores com os seus leitores? Diz-se que sim, murmura-se que tais coisas por vezes acontecem, mas acho que nunca ninguém viu nenhum. Aproveita-se a ocasião para realizar eventos paralelos ligados à produção literária, tradução, direitos de autor, artes gráficas? Não. A maioria dos editores estão interessados apenas em vender livros. Pouco se preocupam com o essencial: formar leitores.


José Eduardo Agualusa in A Substância do Amor.

sábado, 3 de junho de 2006

Há que dizê-lo com frontalidade

Esta história da revisão do Estatuto da Carreira Docente tem ocupado grande parte dos meus pensamentos e cogitações. Na verdade, estou certa e convicta que deverá haver uma mudança na Carreira Docente. Não é justo nem dignificante que um professor faltoso e negligente progrida exactamente da mesma forma que um empenhado e cumpridor, tenho menos certeza que a necessária mudança irá operar-se com este novo Estatuto e mais certeza ainda tenho que muitas das intenções propostas irão cair pela base pela sua inexequibilidade.
Quem pariu este documento está completamente a Leste do que se passa cá por baixo, no mundo dos mortais e reles professores do Secundário, professores esses que eles próprios e as suas Instituições de Ensino Superior Universitário formaram e de onde foram recrutados Maria de Lurdes Rodrigues e Jorge Pedreira. É triste, pois, que passem um atestado de incompetência aos seus pares, àqueles que dentro das suas universidades deram formação científica e pedagógica aos licenciados existentes. Muito triste e lamentável. Portanto, estão, em primeira análise, a admitir publicamente que prestam um serviço ineficaz, deficiente, incompetente à própria Nação. Nesta linha, vem o exame de admissão à Carreira. Então se os alunos universitários fizeram uma licenciatura e um estágio pedagógico, porque têm agora de prestar uma prova suplementar? Pergunto-me se o Ensino Superior terá já reparado neste lamentável atestado de incompetência que lhe está a ser passado com todas as letras. Fui docente no Ensino Superior durante seis anos. Guardo as melhores recordações desses momentos, estou profundamente grata a quem me convidou para exercer funções e, embora muito desgastante e de imensa responsabilidade, o trabalho que realizei fez-me crescer e aprender muito. Foi com enorme mágoa que tive de me vir embora e com enorme mágoa que regressei ao Secundário. Tenho saudades das pessoas que tanto me acarinharam e que nunca me fizeram sentir menos do que eles, soldado raso que era na Faculdade, como dizia em tom jocoso. Tenho saudades de outras coisas, comezinhas talvez, a luz de Lisboa, o périplo pela livraria da faculdade, um café na esplanada.
Devolvi o meu cartão do sindicato num belo dia em que o mesmo sindicato se vangloriava por ter conseguido que nós, recém-formados professores das universidades, tivéssemos sido atirados para os confins dos concursos de professores. Certo é que seríamos uma minoria e que as minorias, como se sabe, não dão protagonismo a ninguém mas, como qualquer ser minimamente digno faria, recusei-me a fazer parte daqueles que estavam felizes e contentes por eu, sua sócia com quotas em dia, ter sido finalmente escorraçada para as calendas. Hoje dou graças por não ser sindicalizada. Como professora não me revejo no que apregoam. Não tenho medo algum da apreciação dos Encarregados de Educação. Que raio de classe se amedronta com uma apreciação do seu trabalho? A questão de fundo é trazer os pais à escola e convencê-los que ter filhos é mais do que passar uns segundos aos ais e uis, ficar tão feliz, tão feliz com o nascimento do rebentinho, ai é tão lindo, ai é tão parecido com a mãe, o pai, a prima e depois lançá-los aos lobos e admitir que não conseguem fazer nada deles, que sim, que desde a Escola primária que falam muito, que têm personalidades fortes e vincadas, pronto, que sempre foi assim, e que, portanto, crescendo sem rei nem roque, sem afecto e sem regras, sem referência alguma, tornam-se numa massa mal-educada e amorfa uns, outros achando que não valem nada e que são uns incapazes. Parece-me grave, muito grave o que os pais, na sua generalidade, fazem aos seus próprios filhos. Seria bom, de facto, que pais e professores se uníssem em torno do que talvez seja o centro das suas vidas pessoais e profissionais: os adolescentes, filhos e alunos.
Concluindo, resta-me apenas dizer que o processo de avaliação dos professores é tão burocrático que os professores não passariam a fazer mais nada, se não a avaliar-se uns aos outros, logo os alunos seriam mais uma vez esquecidos, mas pelo menos estava tudo avaliado para gáudio da ministra, que sabe-se lá porquê, por lá algum romance falhado com um professor, teima em nos denegrir. E isto é mais uma vez triste, há que manter a dignidade, estas questiúnculas não levam a lado nenhum e não ficam bem a ninguém. Hoje já não é vergonha fazer terapia, sempre ultrapassava esse rancorzito, era uma rapariga mais feliz e deixava de dizer disparates por essa boca fora. Há coisas que não ficam bem a uma Ministra mas também ninguém se importa com isso. Se fosse num país decente já se tinha demitido ou sido demitida. Aqui os políticos agarram-se com unhas e dentes aos poleiros, nem a SuperCola3 consegue ser tão eficaz.
Por último, o que move esta revisão dos Estatutos não são os alunos, muito menos os professores, muito menos ainda a qualidade do Ensino, mas números, números de melhoria aparente nas taxas de insucesso escolar para alardear na Europa do José Manuel, o tal que foi para Europa porque era bom para Portugal. Números, portanto, números nos cofres do Estado, números de funcionários públicos a menos. Qualquer pessoa perceberá que não é com turmas de 28 alunos que se consegue estimular e promover a autonomia e outras coisas mais com um palavreado esotérico, com que os programas estão prenhes e que a maior parte dos professores desconhece quase por completo. O que o Governo e a Ministra querem mesmo é mostrar-se bons e mauzões, à boa maneira lusa, a mim ninguém lixa, eu digo sempre o que penso, com quem é que eles julgam que se estão a meter? Só lhes falta abrir a camisa mostrar os pêlos do peito. Os pais, alunos e professores que vão pentear macacos. Alguém os cá chamou, por acaso?

Junho

Aqui e além em Lisboa - quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

Sophia de Mello Breyner Andresen
foto: minha
Lisboa, Maio 2006.