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segunda-feira, 31 de julho de 2006

Ó tempo, não voltes para trás!

Tourada? Tourada? Tourada? Tourada na televisão? Sim, estou a falar de tourada do tempo da fidalguia, com touros e toureiros, cornetas e forcados, pegas e toureios. Qualquer dia temos as conversas em família, visto que de fátima, futebol e fado nem estamos mal servidos.

sábado, 29 de julho de 2006

Coisas mínimas

Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura
!

Ricardo Reis
foto: minha

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Conversa de caca

A minha vizinha morcega tem pavor do campo, vive aprisionada dentro da casa, trancada mesmo em dias de sol brilhante e tardes tranquilas de estio, tem medo de bichos, é alérgica a n coisas e substâncias campestres, agarra o filho mínimo pela mão e corre desesperada atrás dele mal a criança faz tenção de respirar um pouco de ar puro e fazer uma festa aos cães e gatos da vizinhança. Como seria de esperar, a morcega odeia gatos e, como seria de esperar, a criança adora fazer uma festarola à bicharada, gosto que raramente lhe é concedido. A morcega diz ser alérgica aos mesmos e, como seria previsível, os gatos gostam de lhe fazer umas visitas de quando em vez, à relva bem entendido. Resta acrescentar que estando no campo, há gatos à solta: eu tenho gatas, a vizinha tem gatos e o vizinho, um vetusto morador cá da aldeia, tem gatas também. Em verdade vos digo que a minha grande pena, o meu enorme pesar, é os felinos serem tão desobedientes. Da minha parte foram já inúmeras vezes incumbidos de se aliviarem de líquidos para o chorão que tem plantado no meio da relva e que me tapa a vista da janela da cozinha, visto que a ela nem mal nem bem lhe faz, por tão pouco o avistar.
Isto foi no fim da tarde, início da noite. Estávamos os dois a apaziguarmo-nos com o stress quotidiano, a saborear a acalmia, o H. grelhando uma carne para o jantar, eu dando-lhe apoio moral, eis se não quando a morcega sai irada pela porta da cozinha e, de chinela em riste, arremessa-a contra uma das nossas bichanas. Ficámos sem fala. Segundos mais tarde chamei a gata, já a morcega vinha de chinelo na mão de regresso ao lar, visto ter já apanhado ar naquele arremesso que lhe faz serventia até ao Natal e talvez inebriada pelo oxigénio nem articulou uma palavra, por exemplo, podia ter-se queixado da gata, que não percebemos afinal que lhe tinha feito ou, antes disso, cumprimentar. Fiquei assustada ao pensar que, na janela da cozinha em frente à minha, mora a psicopata do chinelo.
Quando viemos para aqui disse-lhe para afastar o gato, o nosso, do seu quintal, caso ele por lá rondasse e pedi-lhe desculpa pelo incómodo causado, assegurando-lhe que da nossa parte tudo seria feito para evitar que o gato lá fosse. O quintal não lhe interessa para nada, à morcega, visto sofrer de bisonhice aguda e fotofobia em estado avançado, mas é seu e tem todo o direito de não querer lá um gato que seja. Nem o filho ela lá quer quanto mais um gato... O que acabo por achar hilariante é ela andar a dizer que tem a relva cheia de dejectos dos felinos, resíduos sólidos, por assim dizer. Mas alguém já imaginou quantos gatos durante quanto tempo seriam necessários para lhe encherem a relva de caca? Outro mistério por resolver é quando, mas quando é que tal alma averigua e atesta que o seu belo relvado está como ela diz estar? Achará ela que os felinos, sejam eles quais forem, meus e dos vizinhos e outros sem dono, não têm mais nada para fazer, se não decorar-lhe a relva? E não sabe que os gatos não deixam a caca ao ar livre, sua ignorante? Confesso-vos que se me arremessassem com um chinelo também lhe deixava uma caquita por lá, só para a dita ver com quantas cacas se cobre um rectângulo de relva…
A Ruiva na MINHA relva amazónica.

quarta-feira, 26 de julho de 2006

Na terra dos faraós

O zénite egípcio é impiedoso com os mortais. Estava um calor abrasador, inqualificável, seco. A única parte exposta do corpo, os dedos dos pés, além da face e mãos, pareciam esturricar verdadeiramente, crestar que nem courato de leitão e julguei que, quando dali saísse ou talvez lá para o final do dia, quando o sol egípcio se embalasse finalmente no outro lado do rio junto aos faraós, a pele dos dedos dos pés se escalpasse, descascasse como um lagarto abandona o seu casaco.
O Egipto é um dos lugares do mundo cheio de história e mistério, único pelo legado que ainda subsiste no seu lugar de origem, o último reduto das pilhagens sucessivas perpetradas ao longo dos tempos. Fora do Egipto a colecção de arte egípcia mais grandiosa que pude contemplar encontra-se no Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque, mas nada me causou tanta emoção como quando me vi perante a Pedra de Rosetta. Anos a fio, o meu querido pai explicou-me que aquele pedaço de basalto negro continha a chave para decifrar toda a escrita hieroglífica e que foi, pois, através dela que se desvendaram os mistérios contidos na escrita enigmática. Quando finalmente me encontrei frente a frente com a pedra no British Museum, as peças do puzzle juntaram-se e, de repente, a história que o meu querido pai me apresentara desvelava-se perante o meu olhar. Assim foi ao longo de muitos episódios da minha vida. As histórias do meu pai foram unindo-se como um puzzle, peça a peça, uma a uma, encaixando-se com a precisão de um dominó e, uma vez encontrada mais uma peça desse imenso legado de que me fez guardiã, corria para lhe contar, ligava-lhe impelida pelo entusiasmo quase infantil Papá, hoje vi a Pedra de Rosetta e ele comigo e eu com ele, assim vejo o seu sorriso, trocávamos umas palavras mais. No regresso dizia-me E sabes que…? completando com mais um pouco de História a história, brindando-me com mais um episódio, preenchendo com um livro procurado no corredor e como sempre oferecido sem demora Leva, filha, leva para tua casa. Às vezes pergunto-me porque não posso eu ser ainda como tantas outras filhas do mundo, tê-lo vivo e saudável junto a mim, junto a nós.
Estávamos então pela hora do almoço, depois da travessia do Nilo, no Templo de Karnak em Luxor. Eu e o H. guardámos silêncios grandes nesta viagem, não porque se nos calasse a alma, mas porque a contemplação da beleza assim o obriga, quase como uma veneração mística, um recolhimento reverente. Assim foi também no Vale dos Reis e perante a beleza sublime da mascara fúnebre de Tutankhamon no Museu Egípcio no Cairo.
Após as explicações da guia e ao termos ainda um tempo livre longe uns dos outros, dos restantes turistas, decidimos aventurarmo-nos mais além no Templo. Lado a lado lá fomos, eu com os dedinhos dos pés em brasa, coberto que se encontrava o restante corpo em respeito à cultura visitada, e o H. de máquina em punho. Teríamos talvez trocado um ou outro comentário, algo como Mas como é que estes gajos naquela altura faziam coisas destas? perante a monumentalidade do templo e a resposta mais comum durante aqueles dias Impressionante! quando a uns metros à nossa frente se apresentaram dois polícias. Estavam armados até aos dentes e, na ausência de vivalma em nosso redor, julguei estarmos a invadir uma zona proibida, vedada aos vistantes. Um deles chamou-nos e, para nosso grande espanto misturado com uma pitada de desconfiança, indicou-nos o caminho para uma estátua da qual restavam apenas os membros inferiores. Sim, por aqui, vá, olhem ali, vá, dêem cá a máquina, vá, subam para ali, isso, agora baixem-se, isso, um sorriso e zás, um clique e uma foto tirada, vá agora de pé, isso levantem-se, mais um sorriso, outro clique e outra foto. A tudo obedecemos, de resto, o que fazer quando, além de nós os dois e o fotógrafo de ocasião, por acaso, polícia, apenas um outro polícia também, armado também? Quando descemos do colo do deus da Fertilidade, ele estendeu-nos a máquina e ao mesmo tempo, absolutamente desprovido de pudor, a mão. Queriam o quê? Vir ao Templo de Karnak, ser fotografados, sem turistas à volta, num local recôndito e resguardado, ainda por cima no colo do Deus da Fertilidade, a custo zero? Há turistas que não se enxergam.
Templo de Karnak, Luxor, Egipto.
foto: já se sabe de quem...

terça-feira, 25 de julho de 2006

Just imagine

Os alunos de uma escola primária católica no Reino Unido foram proibidos pelo seu professor de cantar o tema composto por John Lennon, após algum tempo de ensaio para o concerto da escola. Na base da decisão terão estado razões de ordem religiosa, uma vez que a letra da canção foi considerada “anti-religiosa” pelo professor em questão, que, ao que parece, permaneceu irredutível mesmo sob a pressão dos pais.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Imagine

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today...

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace...

You may say I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world...
...

John Lennon

Foto: minha
Strawberry Fields Memorial, Central Park, Nova Iorque
.

domingo, 23 de julho de 2006

Verbos ingratos

Há tarefas na vida de um professor pelas quais nutro uma antipatia psicótica. Não se lhes pode escapar, mas, em verdade vos digo, que muito melhor passaria sem elas e o mais curioso é que nem são muito demoradas numa relação inversamente proporcional ao tédio que provocam. A que está no top dez, talvez, é a vigilância de exames. Nada mais se pode fazer, se não o que o próprio nome indica, vigiar, e como sou acérrima defensora da liberdade dos indivíduos, este verbo, vigiar, detém algo de pidesco, policial, indiscreto, quase mexeriqueiro, logo, este papel não é dos que desempenho com mais agrado. Executo-o, porém, com espírito sacrificial de dever.
Durante a duração do exame é imposta a lei do silêncio, obviamente, quanto a isto nada a dizer. O que mais me aborrece é que não se pode sequer passear os olhos pelas páginas de um livro, sem qualquer prejuízo para a tarefa ingrata de vigiar, o que implica que durante hora e meia ou duas horas sejamos entregues a coisa nenhuma, apenas ao tédio absoluto, ao aborrecimento de morte, ao enfado absoluto.
Não me passeio entre os alunos por considerar esse deambular intimidatório e perturbador da concentração necessária à resolução das provas de exame, e portanto, quedo-me olhando o que vão fazendo, aqui e ali observando as suas expressões, atendendo às suas necessidades, se é preciso mais uma folha de teste, mais uma folha de rascunho e, acima de tudo, zelo por aquilo que se não pode fazer: usar lápis, levar telemóveis, bips, pagers, garrafas de água, levar, ter ou manter algo em cima das suas secretárias além do enunciado, a folha para a elaboração do exame e uma caneta, e, simultaneamente, desejo com todo o ardor que o tempo, o tempo que tantas vezes se deseja menos lento, passe a galope, enquanto ele se passeia a trote na minha frente, e que tal suplício termine o mais rapidamente possível.
Amanhã assim será. Convenientemente vestida, entregue a esta coisa do vigiar durante uns noventa minutos*, depois de verificados os bilhetes de identidade dos examinandos, sentadinhos pela ordem de chamada e sem objectos proibidos. Se quisesse vigiar alguém teria seguido carreira nas forças da ordem. Não quero. Não gosto. Não quero, não gosto mas vou.

*Afinal foram cento e vinte minutos.

O nome dela é...

Gal

Sem alma, atrasada, mas com a voz de sempre e o Jardim do Cerco como cenário.
Foi ontem por cá.

Foto: minha

sábado, 22 de julho de 2006

Suicídio

Como não sou adepta de se continuar a bater, dar porrada, cachaporra, cachaporrada, bordoada, tareia a quem se encontra já no chão, atirada para o mesmo pela sua própria incompetência, engasgada nas suas não respostas, vítima da sua douta incapacidade de articular um discurso coerente em frente de uma assembleia e de justificar ao país os seus actos, abstenho-me de comentar a deficiente prestação da Ministra da Educação. Uma coisa é certa, como afirmou a deputada da CDU, se lhe fosse aplicado o novo Estatuto da Carreira Docente ficaria ad eternum a marcar passo e a titularidade seria como Braga, só por um canudo.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Da minha aldeia

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos.


foto: minha

quinta-feira, 20 de julho de 2006

De manhã a aldeia

Gosto de cidades, gosto do barulho, de ver os transeuntes a correr de um lado para o outro, de ser também um deles, os diferentes ritmos de cada um, gosto da vida que fervilha na urbe. Quando soube que iria deixar Lisboa, anunciando-se impiedosa e sem aviso prévio a alvorada de um tempo diferente que tinha mais sabor de crepúsculo, encostei-me sozinha no sofá e deixei cair as lágrimas, impotente que me sentia de parar a torrente da alma. As separações não se operam sem mágoa, e essa separação da cidade e do meu local de trabalho deixa-me ainda hoje um nó na garganta. Vertreibung é sempre a palavra que me ocorre. Dias, pois, dias a fio levei até que eu me recompusesse perante mim própria. Os outros raramente são chamados a estes lutos. No dia em que o telefonema anunciou cuidadosamente que, enfim, teria de dar um outro rumo à minha vida desviada sem aviso de recepção do caminho até então trilhado, fiz-me à estrada para cumprir os deveres profissionais, exercidos aparentemente com a tranquilidade costumeira e, depois, quando finalmente pude encontrar-me comigo mesma e digerir a mudança na minha vida, parei à porta da farmácia aqui da aldeia, entrei, comprei uns calmantes daqueles que se vendem sem receita médica e, por isso mesmo, praticamente inócuos e inofensivos, e mesmo à porta da farmácia, dentro do carro, emborquei uns quantos na esperança de que pelo menos o corpo se tranquilizasse, sabido é que para a alma não há remédios. Não me canso de estar na aldeia mas há alturas em que preciso de ver outra gente, outra cor.
Hoje não me faltou a cidade. Aproveitando a manhã de sol benfazejo, fui ao centro da aldeia. Comprei o jornal e revista semanal, fui ao pão e à mercearia. Maioritariamente mulheres, poucas, deslocavam-se de porta-moedas na mão, com o ar apressado de quem tem almoços para preparar, a casa para arranjar. A dona do café lavava vigorosamente o estrado da esplanada, acompanhada pela filha e sob o olhar atento da dona da tabacaria. Na mercearia encontrei o gerente do restaurante cubano, avisou-me da festa do rum, queixava-se das mulheres, que dão cabo de um homem, que são terríveis, trocou umas palavras com a irmã da dona da mercearia, com quem também eu troquei algumas palavras, após o homem ter debandado. Não estava com muito boa cara e anunciou entretanto Eh pá, tenho que ir tomar um cafei retorqui pois, tá muito calor, é mau para a tensão baixa… respondeu ê na dremi nada esta noite… e há becado comecei a ber caga-lumes, caga-lumes, caga-lumes… pensei logo, eh pá isto hoje na tá bem referindo-se aos efeitos da hipotensão, e eu, que hoje não vi caga-lumes, pensei apenas na bênção das manhãs de sol tranquilo na aldeia.

foto: neptuno

Língua magiar

Já passava de uma quando fui para a cama nu, religuei a tevê, e a mesma mulher da meia-noite, uma loura com maquilagem pesada, apresentava uma reprise do jornal anterior. Percebi que era uma reprise porque já tinha reparado na camponesa de rosto largo que encarava a câmera com os olhos saltados, empunhando um repolho do tamanho da sua cabeça. Balançava ao mesmo tempo a cabeça e o repolho para cima e para baixo, e falava sem dar trégua ao repórter. E espetava os dedos no repolho, e chorava, e esganiçava a voz, e tinha o rosto cada vez mais vermelho e inflado, e enterrava os dez dedos no repolho, e agora meus ombros se retesavam não pelo que eu via, mas no afã de captar ao menos uma palavra. Palavra? Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca. Aos meus ouvidos o húngaro poderia ser mesmo uma língua sem emendas, não constituída de palavras, mas que se desse a conhecer só por inteiro.
Chico Buarque, Budapeste.

Para o Avenalve as inquietações da língua magiar.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Da vida e da morte das línguas

Quando se vive num meio pequeno os caminhos cruzam-se com uma frequência inevitável. Enquanto vasculhava as embalagens de carne numa grande superfície, fui surpreendida pela minha colega de Latim. Estava exultante e veio a correr dar-me a boa nova. As nossas alunas, partilhámos a turma ao longo do ano, tinham obtido belíssimas notas na sua disciplina. Comemorámos ali mesmo. A profissão docente está prenhe destas pequenas grandes vitórias. A nossa aluna mais pequena em tamanho, provando mais uma vez que nem homens nem mulheres são mensuráveis por palmos de mão e mesmo os metros se mostram ineficazes, obteve a nota máxima, vinte valores. A S. é uma excelente aluna, inteligente, aplicada e trabalhadora que gosta de esmiuçar tudo ao pormenor, tem uma paixão pelo Egipto e elege Cristiano Ronaldo como o supra sumo da espécie masculina, soltando risinhos, risos e risadas, sempre acompanhados com algum rubor, quando o robusto rapaz vem à conversa.
Ao longo do ano a relação com a língua de Nero nem sempre foi pacífica. Acusavam a professora de ser muito exigente, de as entupir com fichas de trabalho, acusação* da qual também fui alvo para a professora de Latim, e de as abafar com trabalho, de as fazer estudar muito, Roma e o Império, traduções, retroversões, dativos, acusativos, casos e declinações.

Uma ocasião vinham amuadas e ofendidas. Ó setora, a setora de Latim disse-nos que não sabíamos estudar! Não sei muito bem o que os nativos aqui da região toleram, mas passar-lhes cartilha de ignorantes é algo que jamais será pacificamente aceite. Expliquei-lhes que a setora de Latim estava apenas a dizer que, embora estudassem, não o estavam a fazer da melhor forma, uma vez que os resultados ficavam aquém do esperado e que tal não era dito com má intenção, apenas um reparo para as fazer reflectir. Tranquilizaram e, como sempre, cada uma foi à sua vidinha. Eu e a colega de Latim rimo-nos depois com a "acusação". Quando não se entende a intenção, as palavras podem ser ferozes e é sabido que os adolescentes mantêm com a linguagem uma relação ambígua.
A verdade é que nunca ninguém desistiu. Nem elas da professora nem a professora delas, não seria caso para tal, muito embora, levar os alunos pelo caminho da persitência e perseverança se apresente como uma batalha diária. A mínima contrariedade assume contornos ciclópicos e a única saída que muitas vezes vislumbram é o abandono, a desistência. Certo dia, para terminar a lamúria, disse-lhes convicta que de uma coisa podiam estar cientes, que apesar das dificuldades sentidas iriam bem preparadas para exame, portanto, toca a arregaçar as mangas. Assim foi. O exame correu-lhes bem e a S. quando, um destes dias, nos cruzámos no pátio da escola, disse-me que sim, que eu tinha razão, o exame tinha-lhes corrido bem, mesmo sem saber o resultado.
Mas no meio de tudo isto fizeram-me uma revelação bombástica. Teria sido num desses inícios de aula, provavelmente antes ou depois dos testes de Latim, os momentos em que estas pequenas conversam decorriam, de resto, os únicos em que lhes permitia desabafos desta ordem. De lá do fundo da sala a C. anunciou Setora, setora! Sim.. Ó setora
, repetiu franzindo a cara em jeito de aflição, setora, eu já descobri porque é que o Latim morreu… é tão difícil, setora, que ninguém conseguia falar aquilo.

* a de as atabafar com fichas de trabalho, bem entendido.

terça-feira, 18 de julho de 2006

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Da canícula estival

Está tanto calor que nada mais me ocorre dizer, se não o banal e o óbvio, que está calor, muito calor, e acreditem que quando eu me queixo do calor é porque, entretanto, já meio mundo desfaleceu sob esta canícula impiedosa. Nunca fui de me preocupar com o calor. Sou um animal de Verão, luz e sol, portanto, os Invernos trazem-me um sofrimento miudinho que só desanuvia aos primeiros raios de sol de Primavera, quando começo a despertar os sentidos e abandonar a invernia que me corrói a alma.
De tarde fiquei preocupada e comecei a pensar que tanto calor, mesmo sendo eu um animal de sol, pode ser prejudicial ao bom funcionamento dos neurónios, mais precisamente quando dei por mim em frente à televisão a concordar com o Marques Mendes. O H. está avisado para que quando me sentir mal, me levar imediatamente ao veterinário das bichanas, o nosso veterinário, como é carinhosamente chamado aqui na vizinhança, mas julgo ainda estar a dar-me um tempo e, quando então me vir a concordar com o Pedro Santana Lopes ou com Cavaco Silva, internar-me mesmo sem apelo nem agravo e sem sequer passar pelo veterinário. Fico desde já agradecida. Vem isto a propósito porque o meia-leca social-democrata afirmou, e foi nessa altura que concordei, que a Ministra da Educação devia publicamente esclarecer esta questão dos exames de 12º ano. Há pouco vi-me de novo a concordar com Marcelo Rebelo de Sousa, embora não constitua uma sinal tão gravoso da minha sanidade mental, quando afirmou que se o exame de 12º ano de Química pode e vai ser repetido, então todos os outros exames, seguindo a lógica, o deveriam ser também. De resto, algo que eu própria já tinha concluído, mesmo com os neurónios a esturricar, até mesmo com meio neurónio. No “Público” (16/7/06) afirma-se que Valter Lemos, um dos secretários de Estado da Educação, é de opinião que os exames de Química devem ser repetidos, porque os exames são de um programa novo e deve ser dada uma nova oportunidade, por conseguinte. Nada de especial, não fossem também do programa novo Português, Inglês, Francês, Filosofia, Geografia, Alemão, Latim, Biologia e todos os restantes exames de todas as disciplinas que iniciaram este programa, o novo, nesse malfadado ano lectivo de 2004/2005, ano em que os Novos Programas do Secundário entraram em vigor. Será que alguém consegue dizer àquelas iluminadíssimas mentes da 24 de Julho para, pelo menos, não dizerem mais disparates, se fazem favor, ou se o fizerem que seja no recato do lar, para os filhos, mulheres, maridos, amantes, namorados, namoradas, cães ou gatos? Há coisas que não devem sair da intimidade, especialmente quando são absolutas aberrações destituídas de qualquer razão ou inteligência.

domingo, 16 de julho de 2006

Seiscentos homens

Como foi, digam-no outros que mais saibam.
Seiscentos homens agarrados desesperadamente aos doze calabres que tinham sido fixados na traseira da plataforma, seiscentos homens que sentiam, com o tempo e o esforço, ir-se-lhes aos poucos a tesura dos músculos, seiscentos homens que eram seiscentos medos de ser, agora sim, ontem aquilo foi uma brincadeira de rapazes, (…) e tudo por causa de uma pedra que não precisaria ser tão grande, com três ou dez mais pequenas se faria do mesmo modo a varanda, apenas não teríamos o orgulho de poder dizer a sua majestade, É só uma pedra, e aos visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias. Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.
José Saramago, Memorial do Convento
foto: minha, Mafra 2006

sábado, 15 de julho de 2006

Cenas Palacianas

Se ouvirem falar em Ceia Palaciana, pensam em quê? Pois eu julguei que iria a um espectáculo ímpar e, como achei que tendo eventos destes à porta de casa, não devia desperdiçar a oportunidade, assim foi, e toca de fazer pés à rua até ao Palácio Nacional de Mafra. Não sei como é convosco mas detesto sentir que fui enganada e desta vez sinto que fui enganada, burlada e desrespeitada.
Primeiro, a organização* anunciava uma visita especial ao Palácio. De especial só mesmo o nome. O percurso foi o de sempre. Certo é que era de noite. Talvez isso só por si defina o “especial”. A Ceia, dita palaciana, foi do mais disparatado que se pode imaginar. Afinal era buffet, coisa que não imaginaria num Palácio e, se tal soubesse antes, tinha ficado liminarmente excluída. Depois, e para ajudar ao ambiente (ir)real, não havia comida suficiente, não havia copos limpos, os pratos nunca foram levantados durante o jantar, amontoando-se por lá com restos de comida, e quando fui às sobremesas já não havia mesmo. De todo. No fim um empregado ainda afirmou que a malta queria era vir encher a barriga. Já fui bem mais servida em tascas, pelo menos levantaram os pratos e ninguém acusou ninguém de querer comer. Bem sei que os reis não primavam por aquilo que é tido como boa educação e civilidade nos dias de hoje, permeando as refeições com uma panóplia de comportamentos resultantes dos ímpetos biológicos, mas não me consta que se pusessem em fila para se servir do jantar e que a comida acabasse desta forma. Para a próxima vez que me lembrar que enfim tenho de/devo conhecer o que é feito dentro de portas em vez de andar a ver o que se faz noutras paragens, agradeço vivamente que me chamem à razão e me lembrem que é melhor estar quietinha e deixar-me de demagogias.
Há algum tempo numa conferência sobre literatura de viagens um conhecido jornalista e escritor da praça afirmava que muitas pessoas conheciam a República Checa mas não conheciam Fânzeres. Eu conheço Praga, não conheço Fânzeres, mas conheço o Boco e a Chanca, Ameã e a Tituaria, e, para ver o que vi ontem, preferia ter-me ficado mesmo por Praga, pelo menos ainda tinha a esperança que cá provavelmente ainda se fazem umas coisas engraçadas**.

* TCC/Rota dos Monumentos
* Podem até fazer-se, mas dêem-me mais uns dias para me recompor
.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Pregando aos peixes

Desde que começou este processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente, ECD para os amigos, que ando por aqui caminhando nesses caminhos algo labirínticos da profissão docente. Pela primeira vez na minha vida não fiz greve no passado dia catorze de Junho, exactamente por não rever nem nas palavras da Ministra da Educação nem nas palavras dos Sindicatos e nem sequer concordar com o papel de virgens ofendidas com que a opinião pública foi tristemente presenteada por parte de alguns de nós e dos sindicatos aquando do aparecimento de um parâmetro, um apenas, que prevê a apreciação, não avaliação, do trabalho dos professores pelos Encarregados de Educação. Não ouvi levantarem-se vozes contra questões de fundo, graves, que vão impedir o professor de se formar convenientemente, condição absolutamente fundamental para um professor competente, ou de progredir para o escalão seguinte, mesmo tendo uma avaliação de excelente.
Na Escola instalou-se um clima quase fúnebre e desde já a cisão começou. Quando, a título de exemplo, digo que quando o novo ECD entrar em vigor, isto ou aquilo não se vai poder fazer ou vai ser possível, dizem-me que ainda não entrou em vigor, alimentando uma esperança vã de que algo vai mudar e de que hipoteticamente os sindicatos irão conseguir negociar não sei muito bem o quê. Ainda não os ouvi avançar com uma proposta concreta.
Um dia destes ao ler as orientações para o novo ano lectivo no Diário da República, despacho nº13 599/2006, deparei com o que já sabia que iria acontecer, não porque seja vidente, mas porque é por demais evidente que pé ante pé o ECD, antes de ser implementado, já está a chegar. Assim sendo, no fim do ano lectivo deve ser feita “uma análise da distribuição do serviço docente efectuada, avaliando os resultados obtidos com o planeamento realizado, tendo em conta, entre outros, os seguintes indicadores: a) resultados escolares dos alunos; b) ambiente de trabalho criado; c) cumprimento dos programas curriculares das diferentes disciplinas; d) condições de segurança da escola”. Eu ainda não ouvi alguém tecer seja que comentário for em relação a isto, nem tão-pouco alguém a dizer à Ministra que das duas uma: ou os programas estão errados, uma vez que a tónica é posta no processo de aprendizagem acima do produto final, vulgo resultados, ou é ela que está errada nesta obsessão que manifesta nos resultados, e mais, no caso das línguas estrangeiras abandone-se desde já o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas parido pelo Conselho da Europa e que alguns professores gostam de dizer, por desconhecimento do mesmo, que é só teoria. Esqueçam o ênfase no percurso de aprendizagem. Os exames são um belíssimo exemplo de como a opinião pública está a ser manipulada. Sendo mais fáceis, grosso modo, do que em anos anteriores não se entende que os resultados não tenham evidenciado essa aparente facilidade. Logo, segundo a Ministra, a culpa é dos professores, uma vez que a nós serão/são imputadas todas as responsabilidades dos resultados dos alunos, traduzidos num número resultante do exame, que como se sabe é apenas um e só um momento na vida dos estudantes e, como todos sabemos, pode ser um bom ou mau momento, de resto, como todos os outros. Os exames podem até ser fáceis mas se os critérios de classificação se excederem no Certo/Errado não há facilidade que resista. Ao que isto chegou... diria o meu querido pai e ainda não chegou tudo, digo eu.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Do valor das coisas

O "Expresso" de sábado anunciava que o dono do IKEA tinha vindo a Lisboa em Maio de 2005. Ingvard Kamprad hospedou-se numa pensão lisboeta, para espanto de muitos e, em vez de utilizar um táxi, como fizera à ida, para visitar a loja de Alfragide, apanhou o autocarro, o 14 da Carris, na volta. Diverti-me com a ideia, embora, inicialmente, me tenha passado pela cabeça por que carga de água a simplicidade de um homem, seja ele dono do que for, tenha de ser notícia e, por outro, por que é que o senhor não pode ficar alojado como muito bem e onde muito bem quiser independentemente de ser um considerado o quarto homem mais rico do mundo de acordo com a Forbes. Se se gosta de sardinha, porque tem de se comer caviar para manter um estatuto condizente com as obesas contas bancárias? Vi, nem sei quando, no Biography Channel que não se trata apenas de simplicidade mas antes de controlo absoluto sobre os seus gastos. A verdade não sei, nem sequer é muito importante para o caso, mas isto levou-me a repensar no valor que o dinheiro significa para algumas pessoas, pese embora o lugar-comum de que o dinheiro não traz felicidade.
Numa conversa distante, alguém me dizia que caso lhe saísse uma lotaria qualquer deixaria de trabalhar. Eu respondi-lhe que eu, caso me sucedesse similar, não iria alterar assim tanto a minha vida e que deixar de trabalhar não estava, de todo, nos meus planos. Apenas mudaria alguma coisa: pagaria a casa, compraria outro carro talvez, viajaria muito mais, sem sombra de dúvida, provavelmente abriria uma livraria com estantes de madeira até ao tecto onde me pudesse perder no labirinto das palavras. Evidenciou um misto de indignação e ofensa. Respondeu que até me comprava uma casa melhor, se lhe saísse o prémio. A questão é que eu não queria e nem quero uma casa melhor. Estou bem onde estou, muito obrigada e só não me comove a generosidade, porque de generosidade não era a questão, apenas a convenção de que para sermos felizes e, porque temos dinheiro, a vida deve alterar-se com esse estatuto endinheirado, tornando-se imperiosa a manifestação exterior dos bens materiais. As pessoas é que abrigam a casa, a ternura é que sustenta o tecto. diz Mia Couto. Assim é.
Quem acha que o dinheiro traz felicidade é porque nunca experimentou o lado negro e lunar da vida. A verdade é que dinheiro nenhum me trará de volta o que perdi, dinheiro nenhum do mundo apagará as lágrimas que chorei pelo meu querido pai, o sofrimento de todos nós por e com ele, o seu próprio sofrimento, dinheiro algum o trará de volta para mim, para nós, feliz e saudável e, portanto, de que me serve o dinheiro, se não para comprar coisas que têm preço, quando o melhor e o mais importante da vida não tem etiquetas nem traz código de barras?

Imagem: $9, Andy Warhol

quarta-feira, 12 de julho de 2006

Dispersos IV

Enxoto os pensamentos.
Enxoto-os
pois
quanto voltam de novo
insistentes
relembrando-me do que já sei
trazendo a saudade de quem fui
o vazio de quem foi
e a
angústia
do
que
me
não quero recordar.

Mafarricos

Nós ilustrados por ele.
A arte recria a vida tornando-a mais bela.

terça-feira, 11 de julho de 2006

Um bruto chamado Garrett

É curiosa a imagem que os alunos vão colhendo dos professores. Na verdade, assusta-me um pouco esta ideia de que o professor apenas sabe ou conhece os conteúdos que lecciona e só domina a área de saberes que estudou. Tudo o resto é um mundo ilustremente desconhecido no universo do professor. Como seria redutora a vida de todos nós se apenas soubéssemos o que estudámos. É muito divertido, portanto, constatar os olhares de surpresa e admiração, quando se aborda um outro assunto da disciplina vizinha. Apenas um comentário ou uma sugestão sobre uma temática da actualidade, um livro ou um poema, um escritor ou um filósofo, podem surtir um efeito surpreendente e transformar um professor num mestre sublime do conhecimento.
Assim foi há uma década mal medida. Nesse ano, imediatamente antes da minha aula, tinham Português. Li o sumário da disciplina bem à minha frente no livro de ponto e, ouvindo-os comentar sobre o assunto versado na aula em questão, terei retoricamente perguntado se tinham dado “Os Cinco Sentidos” de Almeida Garrett. Perguntas destas detêm muito pouco da sua função de questionar e indagar, perguntar, em suma. Cumprem antes o propósito de quebrar o gelo, fazê-los descontrair ou apenas conversar enquanto se resolvem as questões mais práticas: número da lição, sumário e/ou outras mais. Diga-se em abono da verdade, porém, que nem todas as turmas e nem todos os alunos se prestam a este tipo de conversas.
A pergunta regressou como um boomerang A Setora conhece “Os Cinco Sentidos?!” com um misto de estupefacção e desconfiança. Conheço respondi. Os alunos não se ficaram por ali, particularmente um que se sentava na carteira da frente. Era baixo, tinha o caderno repleto de corações com o nome da namorada e transbordava de romantismo e delicadeza, arrebatado pela química que o unia à amada. Via-os com frequência nos braços um do outro, enquanto me deslocava de umas salas para as outras, sempre convictos e enleados, cuidando do seu amor jovem oscilante entre o quase êxtase do desejo e a timidez dos lugares públicos. O questionário continuou E a Setora sabe o que é a "relva"? referindo-se à carga simbólica e erótica do poema. Sim, sei respondi de novo. Ele começou a rir-se baixinho com o colega do lado perante a descoberta de que eu afinal sabia mais do que aparentava, algo proibido e interdito e que sim, que o erotismo não me era de todo desconhecido. Continuou E os pomos? A Setora sabe o que são os "pomos"? Terei rematado algo sobre o erotismo das palavras de Garrett e ele intensificou o sorriso malandro Eh, a Setora sabe o que são os pomos… e continuou rindo baixinho , transparecendo que, afinal, também eu era uma malandrona, conhecedora que me apresentava do simbolismo carnal da poesia de Garrett. A aula prosseguiu sem nada de novo. Numa outra aula, talvez imediatamente a seguir, Almeida Garrett veio de novo à conversa. Desta vez não houve simbolismos nem meios simbolismos, nada de palavras que queriam dizer mais do que alardeavam significar. Dessa vez, o E. estava indignado. Indignado contra o Garrett. Disse-me apenas Ele é um bruto! ao que questionei porquê. Continuou no mesmo tom. Então, setora, acha bem ele dizer uma coisa daquelas à rapariga? Dizer-lhe que não a ama? A manifestação intempestiva do desejo sem um sentimento menos corpóreo para o consubstanciar não era característica que se adequasse ao E. mas vindo desse bruto do Garrett outra coisa não seria de esperar.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Peroradelas

Ontem enquanto acabava de pôr a mesa para o almoço, o H. se via a braços com as entremeadas na brasa e as gatas andavam rapioqueiras no jardim aproveitando o sol, a Selecção chegou ao aeroporto da Portela.
Já se sabe que nestas coisas do futebol me fico pela rama e tenho tendência para reparar apenas naquilo que me salta a olho nu e lá vão saltando algumas coisas. Desconheço passes, cortes e sei-lá-mais–o-quê, sei que o Ricardo é guarda-redes e pouco mais. Nada entendo de técnicas e tácticas. Assim sendo, quando o avião, albergando os nossos rapazes na barriga, aterrou na Portela e à medida que a máquina aparentemente em estado pós-coital ia abrandando na pista, reparei que a dita ostentava o nome da poetisa de amores trágicos, verbalizações exaltadas e ardores inflamados: Florbela Espanca.
A poetisa com Eros a espreitar entre os seus versos, a dormir sob as suas rimas e a despertar sobre os seus sonetos pareceu-me uma belíssima embaixatriz para os corpos atléticos e elegantes da esquadra lusa, exsudando testosterona e virilidade perante a luz do zénite lisboeta. Já se sabe que a mente é uma rapariga muito matreira e pouco obediente e, portanto, nem a imaginei a socorrer-se de um dos seus sonetos para dar as boas-vindas aos nossos rapazes, até porque os rapazes da bola não creio que algum dia tenham passado os olhos pelos versos da poetisa ou o entoar do seu canto lhes tenha passado pelo canal auditivo. Imagine-se se soltasse Minha alma ardente é uma fogueira acesa,/ É um brasido enorme a crepitar! Alguém responderia Tá aqui uma gaja a dizer que tá a arder e o Figo diria Logicamente mediante a escaldante temperatura exterior. Ouvi-a antes segredando-lhes aos ouvidos os versos de Almeida Garrett Não te amo, quero-te (…) Ai, não te amo, não; e só te quero /De um querer bruto e fero. É sabido que os homens não entendem meias palavras, nem sempre são muito entendidos em metáforas femininas e nada como a eloquência e frontalidade das palavras masculinas para uma rapariga se fazer entender.

sábado, 8 de julho de 2006

Perguntas e Respostas

Mas que raio de Presidente abandona minutos antes do final o jogo em que a Selecção do seu país se defronta com outra?
O mesmo que não diz qual o seu escritor preferido para não ferir a sensibilidade dos demais e o mesmo que não diz qual o vinho do seu agrado exactamente pela mesma razão. Provavelmente para não ser injusto nem com os Portugueses nem com os Alemães preferiu ausentar-se antes. Pena que um dia destes não vá de vez.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Gajas à conversa

De há uns tempos a esta parte comecei a ver Maria Filomena Mónica como Miguel Sousa Tavares no feminino. A mesma sobranceria, elitismo latente, inteligência e acutilância, frontalidade quase a roçar a rudeza e o culto de enfant terrible, embora já nem um nem outro tenham idade de enfant, arrogância como se vê, pertinência nalgumas observações e intervenções quase sempre corrosivas e lapidares.
Na “Pública”do último Domingo (02/07/06), achei alguma piada à crónica “A Globalização do Futebol”, publicada na coluna que Maria Filomena Mónica mantém na publicação citada:

Foi ao olhar a actuação de Luís Figo, que me lembrei de uma coisa que, em tempos, me deixara estarrecida. Segundo uma notícia, vinda a lume no PÚBLICO, de 21 de Maio último, 15 por cento dos homens portugueses teria aderido à moda da depilação, por se terem convencido de que os seus pêlos eram inestéticos. (…) Tenho um conselho a dar aos meus compatriotas: antes de se porem a depilar o que Deus generosamente lhes forneceu, deviam perguntar às namoradas com quem prefeririam ir para a cama, se com Luís Figo ou com David Beckam. Verá que escolherão o primeiro. Um latino sempre é um latino.

Na verdade, esta moda da depilação nos homens, muito visível nos jogadores de futebol pelas contingências da vida, sempre me causou alguma perplexidade. Não porque ache que temos que suportar o que a natureza nos deu com submissão e conformismo exacerbado, mas porque a ausência de pilosidades diminui, em minha opinião, o ar másculo e viril e, porque nestas coisas de pele, gosto de algum contraste. Acredito que terei inculcado o mito de Sansão no meu imaginário, quiçá no inconsciente, mas agradeço que não chamem cá o Freud que não vou acordar o ID a esta hora da minha vida. Ontem foi com grande espanto que verifiquei que o nosso último moicano, o Tony Ramos do futebol português, tinha aderido à última tendência no que respeita ao tapetinho de carpélio que cobria a parte visível do seu torso. Fiquei assustada. Credo, o homem até parecia enfezado, uma galinha depenada. Mesmo não sendo fã do rapaz, preferia-o tal como era e, assim sendo, subscrevo inteiramente as palavras de Maria Filomena Mónica.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Pérolas II

Ontem enquanto digeríamos a não vitória de Portugal em família, tentámos enganar o desalento, fazendo o habitual zapping pelos canais de sempre, quando, de repente, ouvi, vindo de um dos quatro canais abertos a todos os mortais, e isto à porta do Allianz em Munique, que Portugal acabava de perder com um golo de "Zidane, um argelino naturalizado francês proveniente dos bairros degradados de Marselha". Venham os Câmara Pereira com o brasão e o pedigree, a estirpe e o sangue azul, venha a inteira dinastia de Bragança, os Windsor, os Orange e os Sachs-Coburgo-Gotha marcar-nos golos, até a Lili Caneças e o Castelo Branco, mas argelinos rascas vindos das barracas de uma cidade portuária é que não. Ai Portugal, Portugal.

Rescaldo

Para gáudio dos críticos de Scolari e da Selecção, Portugal conseguiu finalmente perder. Estava difícil. Amanhã estarão os saudosos do Baía, os inconformados do Quaresma de dedo em riste, apregoando Portugal abaixo que tinham razão. Pois para mim os nossos rapazes, tiveram todo o mérito e valor, chegaram onde não se chegava há quarenta anos, obtiveram os melhores resultados de sempre, não fizeram figuras tristes como na Coreia, já para não falar em Saltillo e mostraram estar à altura dos adversários. Scolari tem todo o meu respeito pela frontalidade, profissionalismo e competência, vestiu a nossa camisola como muitos não fizeram. Parabéns pelo bom trabalho, rapazes, gaúcho incluído claro, e o resto são cantigas.

PS. As coisas que o casamento faz a uma mulher...

terça-feira, 4 de julho de 2006

Löwenparade

Foto: minha
Munique 2005
Mais sobre a Löwenparade

Alvíssaras a quem me trouxer uma Breze bem grande, crocante e cheiinha de sal e um Weissbier a acompanhar.

O amor é uma companhia

O objectivo com que se viaja para uma cidade determina em grande parte a percepção que se tem da mesma.
Munique tornou-se minha conhecida algures nos já longínquos anos oitenta e, sempre que lá regressei, levava comigo responsabilidades profissionais. Os alemães, passe o estereótipo, não são flexíveis em termos de trabalho e cumprimento de planos. Ordem e rigor. Está previsto, faça-se. Pouco importa que esteja tudo à beira do colapso, que a concentração se esgote num espaço de tempo muito inferior ao que é consagrado para as actividades. A verdade é que preferiria que em Portugal houvesse um sentido mínimo de profissionalismo, que se tivesse a ideia de que os dinheiros do erário público devem ser aplicados e geridos de forma adequada e para o bem da comunidade, tal como se faz na Alemanha. Em Munique vi, pois, um local de trabalho, mais do que um espaço de lazer. Pressentia, não obstante, que a cidade podia ser bem mais aprazível, assim lhe desse eu o tempo para me seduzir.
Os finais de dia eram pautados por uma fadiga que se entranha nos ossos, um cansaço fundo que parece não passar nunca. A minha parca paciência evidencia-se nestes momentos. Nesse ano, estava com grupo culturalmente heterogéneo: uma portuguesa, eu, uma mexicana, Sílvia, uma búlgara, Maya, uma lituana, Salvia, e por vezes uma indiana, Salvita. A comunicação permanente, exceptuando as horas abandonadas nos braços de Morfeu, numa língua que não a materna provoca um intenso desgaste intelectual. Não é só o falar que se altera, é o sentir que se transforma. Tal como quando nos encontramos privados de uma iguaria gastronómica, comecei a sentir falta de saborear a minha própria língua materna, tomar-lhe o paladar e sentir-lhe o perfume. Acredito que à búlgara também, pois a partir de certa altura largava amiúde pelos intervalos de trabalho ou mesmo pelas ruas da cidade Ich kann nicht mehr!* Certo dia, estando nós em pleno Marienplatz, bem no centro de Munique, a búlgara deu-me para a mão um saco enorme e pesado atafulhado de compras Toma! Olhei-a incrédula e, possuída pelo síndrome de abstinência da minha própria língua, embrulhada no cansaço acumulado, perguntei-lhe Mas porque é que não pões o saco no chão? Ela respondeu lesta Porque o chão está sujo e partiu fazendo pose junto ao monumento no centro da praça, aos sorrisos para a máquina fotográfica, enquanto eu aguentava estoicamente o carrego, maldizendo a minha vida em português vernáculo, inaudível aos demais.
Quando voltei a Munique sem qualquer intuito profissional, não sei se tal será possível para um professor de alemão, a cidade sorriu-me então, não obstante o frio cortante, e acima de tudo, porque comigo tinha o H. e a minha mãe, ambos viajantes intrépidos e ambos virgens no que respeitava à capital da Baviera. Na noite em que chegámos cumpri um desejo que me assalta com frequência: comer uma Brezel e beber um Weissbier. Desta feita, não havia constrangimentos, alguém à espera, tempo contado ou o cansaço das obrigações profissionais. Desta vez éramos nós, deambulando pela cidade, engalanada para o Natal e perfumada com o aroma do Glühwein. Desta vez, deixei-me seduzir pela alma da cidade, pela luz e pelo espírito do Natal. Diz-se que não se deve voltar ao lugar onde fomos felizes uma vez e, porque o regresso a Munique foi luminoso e acolhedor, acredito que só agora terei sido feliz na capital bávara. Não porque a cidade fosse outra, mas porque eu, sendo a mesma e sendo outra, tinha a meu lado o H. e a minha querida mãe. O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos.**

* Já não aguento mais/ Já não posso mais
** Alberto Caeiro, Poemas

Viajar é olhar

Há textos que se nos agarram sem jamais conseguirmos vermo-nos livres deles. Este é um deles e, porque andei flanando por aqui, ele regressou em força, completando a experiência do viajar com a sensualidade paulatina que a cidade, por si mesma, oferece. Vez alguma me lembro de Roma sem que me ocorra, à velocidade das imagens, a tranquilidade destas palavras:

Uma das pessoas que me ensinou a viajar foi a minha mãe. Ensinou-mo com uma simples frase. A única vez que viajámos juntos, fomos a Roma.
Estávamos sentados uma tarde na Piazza Navona, o seu local preferido de Roma. Ela bebia um dos seus inúmeros chás diários e há mais de uma hora que ali estávamos, sentados a contemplar a beleza perfeita da praça, enquanto fumávamos vários cigarros - ainda o mundo não era o que é hoje, uma quinta de virtudes ditadas pelos americanos. Nenhuma ideia de viagem, para mim, pode prescindir de praças, terraços, varandas, esplanadas, nem que seja um simples monte de areia em pleno deserto. Mas estávamos ali há demasiado tempo, era a primeira vez que vinha a Roma e tinha logicamente, alguma pressa de seguir caminho e ir ver outras coisas. Sentindo a minha impaciência, a minha mãe disse-me: "Miguel, viajar é olhar." Até hoje, fiquei sempre cativo desta frase e do que ela implica e compromete o verdadeiro viajante. Tal como a minha mãe escreveu algures, só o olhar não mente, porque todo o real é verdadeiro.

Miguel Sousa Tavares, Sul

Foto: minha
Piazza Navona, Roma 2006

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Crónicas da mercearia

A mercearia da aldeia é um mundo. Gerida apenas por mulheres de gerações diferentes, todas elas, da mais velha à mais nova, com o mesmo despacho, desenrasque, diligência e respeito pelo consumidor, a mercearia constitui um lugar sui generis, palco de aprendizagens diversas e enriquecedoras. Tudo pode ser vendido à confiança, pode lebar à confiança e reclamado caso a qualidade não satisfaça os clientes ó coração, se não for bom, benha cá trocar. O cliente é rei. Eh, pá, não há nada pior pra mim, qué dizer a um cliente que na tenho! confessa a proprietária, embora o desabafo seja raro, uma vez que quase tudo se encontra à venda e, se tal não for o caso, no dia seguinte já o desejo do cliente foi satisfeito. Uma ocasião, procurava pimenta em grão. A rapariga, a filha, ficou aflita, nunca enrrascada, porém. Não havia. No dia imediatamente a seguir e, assim que lá entrei, a rapariga chamou Dona! e sem mais palavras exibiu ufana uma pacotinho de três pimentas em grão. Não resisti perante a consideração do gesto e, mesmo que a pimenta não fosse mais necessária, acabei por sair da loja com ela.
Nas horas de ponta, regra geral entre as onze e as treze aos fins-de-semana, o caos instala-se. Cada um tenta chegar aos pêssegos, alcançar o pão da avó, carinhosamente epítetado pelas filhas, e enquanto isso, entre hortaliças e beringelas, figos e cogumelos, detergentes e farinhas, a conversa corre, salta, flui, voa ao sabor das palavras eufemisticamente despojadas e dos humores muitas vezes femininos e brejeiros, servindo amiúde como remate de acontecimentos recentes ou conclusão dos dias anteriores. Certo dia, numa dessas horas de aperto, o H. encostou-se a uma prateleira para dar passagem à dona, exíguo que se apresentava o espaço disponível. A mulher arremessou-lhe Nã te enerbes, na te enerbes que na te apalpo. Mai nada!
Ontem a conversa rondava em torno da vitória de Portugal sobre a Inglaterra. atão, tás melhor hoje? perguntou uma mulher à feliz proprietária do estabelecimento Eh pá, bocê, nem me diga nada… respondeu a dita. A outra mulher continuou Eu nem podia ber o jogo, eh pá, ca nerbos… Nestes momentos a conversa é alargada aos restantes frequentadores do estabelecimento, caso se mostrem cooperantes e interessados. A mulher olhou para mim à espera de uma qualquer palavra. Sorri e balbuciei algo em concordância. A mulher continuou eu nem bi… a dona prosseguiu Beio cá uma senhora, uma que mora aqui, e fomos comer caracóis e beber imperiais. A outra inquiriu Atão e fechaste a loja? Não, respondeu, deixei cá a nha mãe. E de repente, a conversa virou para o Ricardo, o herói do momento. Terei dito que o Ricardo foi uma peça imprescindível na obtenção desta vitória. A mulher concordou e disse E deram na tebisão, lá da terra dele. Ai, como é que é? Adonde é que ele é? Acrescentei acho que ele é do Montijo. A mulher concordou Ai, é isso, é. E deu aquela gente toda… Agora quando ele boltar é que bai ser... Concordei e, vindo como do nada, a mulher pergunta-me Atão e a mulher dele? Não sei, disse. É que ontem eles falaram da mulher e do filho mas eu na a bi lá… Engendrei uma resposta em auxílio da reputação da mulher de Ricardo. Onde estaria, sim, onde andaria a mulher dele naquela altura? Acrescentei Se calhar, está na Alemanha. Houve muitas mulheres de jogadores que foram para lá. A mulher sossegou Ah, natralmente é isso, natralmente tá lá com ele. Natralmente tá, pensei.

domingo, 2 de julho de 2006

Homenagem II

Dá-me a tua mão de conivência, vamos viver o tempo que nos resta, tão curta a vida!, na medida de nosso desejo, no ritmo de nosso gosto simples, longe das galas, em liberdade e alegria, não somos pavões de opulência nem gênios de ocasião, feitos nas coxas das apologias, somos apenas tu e eu. Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite para cobrir de estrelas teus cabelos, Zélia de Euá envolta em lua: dá-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa. Aqui, neste recanto do jardim, quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento.

Jorge Amado, Navegação de Cabotagem.
foto: da contracapa de A Casa do Rio Vermelho de Zélia Gattai

Zélia Gattai, mulher e companheira de vida de Jorge Amado, completa hoje 90 anos.