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sábado, 30 de setembro de 2006

Mais onze menos onze

Há onze anos era admitida para Mestrado.
Há onze anos tinha menos onze anos,
menos onze quilos,
menos rugas
há onze anos.
Há onze anos achava que iria ter sempre menos estes onze anos.
Há onze anos não imaginaria como iria ser ter mais estes onze anos.
Há onze anos não conseguia prever o que aconteceria nos onze anos seguintes.
Há onze anos tinha apenas menos onze anos sem saber que os onze seguintes não seriam apenas mais onze.
Mais.
Menos.
Que me interessam números, se posso ter palavras?

Tatuagem

A saudade é uma tatuagem na alma:
só nos livramos dela
perdendo
um
pedaço de nós.
Mia Couto, O Outro pé da Sereia.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Das grandes invenções

Quando um dia chegar a minha hora e o barqueiro me levar para o outro lado do rio, por favor, ponham-me post-its no bolso. É que sem post-its não sou ninguém e nunca se sabe o que vou encontrar na outra margem. Cá em casa há de todas as cores e tamanhos, portanto. Aqui, mesmo ao meu lado direito, ao alcance da mão, uma pilha de coloridos, quadrangulares, para as eventualidades, no estojo que carrego comigo para a escola uns menores e mesmo na mesa-de-cabeceira não faltam dos transparentes mais estreitos para assinalar passagens nas leituras nocturnas antes de me abandonar nos braços de Morfeu. Este meu gosto é também partilhado pela minha mãe, muito embora ela seja bem mais selectiva e a sua preferência recaia sobre os estreitos transparentes. Um destes dias de consumismo, ela fez uma descoberta que irá mudar a sua relação com os guias de viagem e com o próprio viajar em si: um marcador transparente com um porta post-its incorporado. Desde já um instrumento tão útil como a máquina fotográfica, imprescindível como o passaporte, indispensável como a escova de dentes, e que não poderá faltar em viagem alguma doravante.
A minha mãe é uma amante indefectível de livros. Ama-os, respeita-os, acarinha-os, ouve-os, lê-os, estou certa que falará mesmo com eles e as páginas se reescreverão neste diálogo. Com ela e com o meu pai aprendi este respeito e veneração. O meu pai não entendia sequer por que havia de se estragar o livro com o nome do seu proprietário, cioso da integridade dos livros. Com ele aprendi a nunca mas nunca escrever a tinta nos livros, a não dobrar as páginas para marcar a leitura, a virar as páginas, folheando-as suavemente pelo canto superior e a tacteá-las docemente para não ferir o papel. Assim se foram transmitindo os mandamentos de manuseamento de livros, e mesmo não os respeitando na íntegra, uma vez que gosto de escrever o meu nome nos meus livros, tenho-os sempre comigo, muito embora o H. me acuse, a espaços, de os maltratar particularmente quando os vê escachados sem pudor exibindo as entranhas para o scanner.
A minha mãe é seguidora destes mesmos princípios, excepto no que diz respeito aos guias de viagem. Não que os trate mal, não que lhes escreva a esferográfica, não que lhes dobre os cantos ou cometa outras heresias mas a quantidade de sublinhados a marcador transparente para assinalar o que quer ver, o que viu, como e quando viu, porque viu e o que ainda falta ver, assim como a panóplia de post-its coloridos que descaem levemente das páginas na horizontal e se eriçam do topo das mesmas na vertical tornam os seus guias em verdadeiros espectáculos de luz e cor. Antes de irmos de férias entreguei-lhe um dos meus guias, de forma a que fosse seguindo o itinerário. A minha mãe é uma respeitadora inflexível e intransigente da propriedade alheia, jamais deixaria um traço em livro que não fosse seu ou tocaria em algo que não lhe pertencesse. Disse-lhe na pressa da partida Toma, é para ti! Sem explicações nem delongas. Quando cheguei o guia já era outro. Os locais por onde deambulámos entre caipirinhas e coqueiros reluziam ufanos e o guia, mesmo em casa, tinha viajado pelas mãos intrépidas e mente curiosa da minha querida mãe. Ao ver o meu olhar, respondeu tranquila tu disseste-me Toma, é para ti! Ripostei É para ti ver, não para ti escrever. Ela riu-se como sempre e eu com ela como sempre. Foi isto antes do marcador maravilha, nem imagino como irá ser depois.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Afurada à cabine de som

João Figueiredo, secretário de Estado da Administração Pública, afirmou hoje a propósito do decreto-lei a implementar para justificação das faltas de doença pelos funcionários públicos que o dito funcionário deverá justificar a sua falta ao serviço por incapacidade temporária com uma declaração emitida "pelas entidades competentes do Serviço Nacional de Saúde, que se tornará o único meio de prova idóneo para justificar faltas por doença". Resta saber quantos, mas quantos dias ou semanas vão precisar para o fazer.
Como não vou a médicos do Serviço Nacional de Saúde quando estou doente, dada a morosidade, fiquei a saber que estou perdida nas mãos de mentirosos desprovidos de idoneidade e decidi já que para a próxima vez que me fizerem um diagnóstico digo que é tudo mentira, que quem sabe são os outros, atestado de incompetência semelhante ao que é quotidianamente passado aos professores.
A carreira docente dividir-se-á em duas e os médicos também: os idóneos, que trabalham para o SNS, e os outros que, pelos vistos, não têm competência para atestar a doença dos seus pacientes e isto já para não falar do Estado que desconhece quem são e quanto ganham uns milhares largos dos seus funcionários. Por favor, se virem o AfuradaMan chamem-no urgentemente. Alguém tem de dizer uma palabra a estes senhores e não é para lhes perguntar Tendes café?

Uma palabra

O Nortês é um linguajar poderosíssimo impassível de se deixar reproduzir por transcrições fonéticas de pacotilha. Ele não são só os sons nasalados, os –ão onde deviam soar –on, os –on onde deviam surgir -ão, dezôito em vez de dezoito, Fraoncisco onde seria Francisco. O Saloiês deixa-se representar facilmente na escrita. Os ditongos achatados, um –i no fim de algumas palavras terminadas em –r, um derivado aqui outro acolá, um pertence ou na pertence quando algo não faz parte do convencionado para uma situação ou contexto, muitos você ou bocê à mistura e a coisa vai. Não o Nortês, porém. É toda uma panóplia de sons e expressões que se movem na nossa frente como corpos, animais indomáveis que vemos pavonear–se em frente dos nossos narizes. Sons que têm uma vida física intraduzível por palavras e descrições, porque são mais do que sons, são organismos vivos de vidas independentes, rebeldes e indomesticáveis.
O casal da Afurada era profícuo em verbalizações surpreendentes. O filho adolescente nunca foi chamado pelo nome. Era apenas o meneino, a cesariana que a Miss Afurada fez para trazer o meneino ao mundo uma saseriana e sempre que o AfuradaMan pedia café em terras de Vera Cruz perguntava triunfante ao empregado Tendes café? Ai tendes, tendes. Valiam-lhe os não-afuradenses, ou estaria ainda a perguntar Oube lá, anda cá! Tendes café? Se num tendes, bou-me imbora, fua**-se! Claro que o oube lá não faltava e o fua**-se muito menos. Suspeitamos até que teria aprendido um português telegráfico e substituído o comum stop por uma sonoro fua**-se. Caso enviasse um telegrama para o meneino, o texto seria entrecortado por uma série completa de fua**-se. Tamos a Gostar munto fua**-se Isto aqui é lindo fua**-se Adeus, meu meneino fua**-se. Os nomes próprios eram igualmente mudados arbitrariamente. Dalila para Lília, por exemplo, e certo dia em que fomos abordados por uma repentista que vendia a sua arte em literatura de cordel, o AfuradaMan não hesitou em chamar-lhe Alice. Ela não se chama Alice disse-lhe, já cansada, que criatividade linguística também satura. Num se chama Alice? ripostou indignado. Não respondi-lhe e ele Atão cumo é que se chama? E eu Mariquinha. E ele Ó Mariquinhas! Nada a fazer, portanto. O H. ainda o avisou, não podes falar assim que confundes os homens e isto apenas para ver se ele entendia que, pronto, o Nortês é giro e tal, mas do lado de baixo do Equador é tão incompreensível como a língua magiar. Ele riu-se muito e disse Agaora é que dessestes aí uma palabra certa sendo que sempre que queria dizer algo anunciava que ia dezer uma palabra, mesmo que fossem frases inteiras ou parágrafos Agaora bou dezer aqui uma palabra. Certo é que sua capacidade discursiva ficava aquém do grande líder cubano mas ainda assim aquela palabra durava uns quantos minutos, directamente proporcionais à suculência do almoço e foi precisamente num almoço que atestei o perigo de os deixar sozinhos ao Deus dará por esse Brasil fora.
A Miss Afurada adorava bitéla e vá de pedir sistemática e insistentemente bitéla. Sempre que os empregados na churrascaria lhe apresentavam outra carne que não a sua bitéla respondia Num quero. Quero é bitéla! Olha, traz-me bitéla. A bitéla tardava em chegar. Talvez se tivesse pedido costela de boi a bitéla chegasse. Nada. Ela insistia despreocupada com o receptor da mensagem. Que lhe interessava como se designava a carne da sua perdição em Terras de Vera Cruz, se ela queria mesmo era bitéla? Estava ela a chamar a bitéla quando lhe colocaram uma bebida colorida na frente, um coquetel de frutas. A mulher ficou estupefacta, olhando para um lado e para outro Mas eu num pedi isto. Qué isto? Era a bitéla.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Palhaça

Este ano lectivo introduz algumas alterações burocráticas naquilo que até à data fazíamos. As práticas de sala de aula serão as mesmas, mesmo que a Ministra insista na melhoria de resultados, esquecendo sempre que os resultados traduzem o processo e que dificilmente existirão melhorias enquanto a dita Ministra e a sua equipa insistirem em que as turmas tenham entre 24 e 28 alunos.
As aulas de substituição, que prevêem que quando um professor falta a aula será substituída por um congénere, são o que mais me agrada e o que mais me aborrece. Nas faltas previsíveis o professor deixará o plano de aula e respectivos materiais, de forma a que a aula possa ser efectivamente dada e que os alunos não sejam prejudicados. Caso tenha de faltar ficarei muito mais tranquila se souber que não estou a prejudicar os meus alunos, de resto como qualquer professor consciencioso, preocupado e respeitador dos seus alunos. Concordo liminarmente que existam aulas de substituição dadas por professores da mesma disciplina mas discordo liminarmente com as actividades de substituição por professores de outras disciplinas, particularmente porque elas não têm como objectivo não prejudicar os alunos mas antes mantê-los ocupados. A Escola não é a Mitra ou a Casa Mãe do Gradil. O seu a seu dono. Posso até concordar que nos 1º, 2º e 3º ciclos do Ensino Básico tal seja admissível e necessário, tenho muitas dúvidas que seja profícuo no Ensino Secundário com alunos entre os dezasseis e dezoito anos. Irrita-me que sejamos obrigados a entreter os alunos, não a ensiná-los. Se quisesse entreter alguém tinha ido para palhaça. Não fui mas é o papel que me vão obrigar a fazer.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Porto (in)Seguro

Todos os dias da minha vida tento libertar-me de preconceitos, ter um olhar límpido sobre a realidade em meu redor e afastar-me dos estereótipos que me assolam a capacidade de percepção do outro e o arrumam em categorias. Diz-se pois que não se deve julgar nunca um livro pela capa, que as aparências iludem e que nem tudo o que é parece. Depois deste exercício começo então a acreditar, além da observação do real e da reflexão, na intuição e, regra geral, percorridos todos os passos, acontece-me verificar a premissa da qual parti, tranquilizando-me quanto ao que supeitei serem preconceitos.
Quando parti para Salvador no ano passado e o avião fez escala em Porto Seguro verifiquei, pelo modos de tanto quem abandonava o avião como de quem entrava, que o português, generalizando, sabido é que há sempre excepções, que viaja para este destino tem lacunas graves a nível de civilidade e de convívio com os demais. O comportamento é ruidoso, não que ser ruidoso em si seja uma falta, mas o tipo de ruído que produz é pouco abonatório das suas pessoas: berra, mexe-se sem cuidado de incomodar quem está tranquilamente sentado e diz piadas brejeiras, mal-educadas e grosseiras. Para dizer a verdade, nunca entendi esta necessidade que os portugueses, passageiros de charters, têm em mexer, mexericar e revolver tudo mas tudo o que se encontra à sua volta: as instruções de segurança, tudo bem se se quiser manter informado, a capacidade de recostar os bancos, os folhetos na bolsa à sua frente e as luzes, luzinhas e saídas de ar sitas por cima das suas cabeças. Concomitantemente dão balanços no assento, espeta os joelhos nas costas do banco da frente, desaperta ruidosamente os cintos assim que tal é permitido e levanta-se de seguida para ficar em pé nos corredores ou mesmo nos seus lugares olhando para os seus companheiros de viagem. Não percebo, não entendo. Mas será que não podem ficar tranquilos nos seus lugares, levantar-se apenas quando necessário e absterem-se de dizer disparates? Certo é que gente assim há por todo o lado, o problema é quando se juntam todos num espaço exíguo sem possibilidade de fuga. Parem! Parem! Parem o avião que quero sair, se faz favor.
Em Porto Seguro verifiquei as suspeitas iniciais: as atitudes exasperam o mais tolerante. Tratam os guias, comerciantes e todo o pessoal do hotel por tu, pedem descontos a torto e a direito, dizem piadas ordinárias, estabelecem comparações com a realidade à sua volta, imperando sempre que o nosso Portugal é que é bom, seguro, limpo, civilizado e organizado, a nossa comida a melhor do mundo, algo que me escapa também. Pergunto-me de que Portugal vem aquela gente que fala a língua de Camões e que revela um desrespeito total constrangedor perante a cultura do Outro ou de que Portugal venho eu, então.
Numa visita aos índios Pataxós um homem atrás de nós avisava alto e bom som que não trocava a sua casa pela deles, ai não trocava não, então trocava lá agora?! Alguém perguntou aos índios se trocavam as suas ocas pela mansão do energúmeno? E depois continuou: peixe? Mas que raio de peixe era aquele que nos serviram lá assado numa folha com farinha de mandioca? Nada como as suas sardinhas assadas na brasa. Sim, o nosso peixe é muito melhor, o safio e as douradas, o cherne e o pargo. Para a próxima vez será melhor avisar os índios para servirem uma sardinhada com pimentos e pepino, batatas cozidas e pão caseiro e para não se esquecerem da vinhaça, se faz favor, do garrafão de cinco litros, pois claro, e em vez de fazerem cerimónias aos deuses, proferindo preces indecifráveis, toca a pôr o Quim Barreiros, o Nel Monteiro ou a Ágata. É que assim uma pessoa nem tem vontade de sair de Portugal.
Foto: minha
Maceió, 2006

domingo, 17 de setembro de 2006

Cidade

cidade sem mar, mas
com montanhas de neve de isopor
despedaçado sob o néon amanhecido
ruído de motor
a palavra amor no outdoor
escrita em vermelho
dinheiro molhado de suor
no bolso esquerdo, trabalho
carne de baralho
fonte do desejo alheio
não freia, na rua passeia
e esse cão de guarda
que não pára de latir a noite inteira
lixo que não tem lixeiro
na segunda-feira
terça quarta quinta ou sexta-feira
lixo de domingo entupindo o bueiro
cascas de banana nas calçadas da fama
crianças para enfeitar as praças
mas não têm cama
camelôs fugindo da sirene
sob o sol a pino
o sangue da chacina
escapou da jaula do jornal de hoje
com a pose da sessão fashion
cidade sem céu, mas
com paisagens portáteis
nas janelas das celas
nas paredes dos lares
e os turistas estragando todos os lugares
Obrigada Avenalve.

sábado, 16 de setembro de 2006

A três

A cidade. Queríamos a cidade a nossos pés, a última e a primeira que veríamos na aurora do caminho trilhado em comum a partir daquele dia escaldante de Setembro. O sítio escolhido a preceito. A noite quente homenageando o ritual de passagem, perpetuando na memória o dia feliz e tranquilo, juntos os dois, eu levada pelo meu pai, eu e o meu querido pai de braço dado até ao altar e juntos todos sem cerimónias bacocas e protocolos balofos: ligas e gravatas em leilão, bouquets ao ar e lembranças aos convidados. Apenas unidos na partilha do amor sem mais ornamentos nem artifícios. Não será o amor maior suficientemente grande e inteiro? E na cidade chegámos ainda surpresos pelo novo estatuto, a aliança radiosa sem mácula evidenciando o enlace ainda menino.
O empregado era um homem pelos quarenta anos, o linguajar e a ginga nos modos indiciavam o convívio íntimo com a cidade das vielas. Recebeu-nos, acredito, como habitualmente se recebem casais em núpcias e nós, como tantos casais em núpcias, pedimos uma garrafa de champanhe para brindar ao que se brinda nesta altura, fruindo a noite cálida e a cidade de luzes vestida para nos receber talvez, revendo o dia e proferindo o que os amantes proferem com a cidade lá em baixo, testemunha única deste momento a dois. Champanhe pois, champanhe. O homem foi solícito e desembaraçado a atender o nosso pedido. Desfiou o que tinha na casa: Raposeira e uma outra marca agora apagada pelo tempo. Acrescentou no fim e temos também Maomé e Chandon. Não hesitámos. A ocasião pedia uma comemoração à altura e se até o Maomé tinha vindo, não o podíamos desiludir.
Foto: 16 de Setembro de 2001

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Mudança

A partir de agora o blogue passa a chamar-se
A Curva da Estrada

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Regressar

Regressar.
Abraçar a minha mãe
ouvir-nos à conversa
rever os vizinhos
amassar as gatas
reconhecer os cheiros e cantos à casa
deixarmo-nos ronronar no sofá.
Regressar.

sábado, 2 de setembro de 2006

Dores que não passam

Certo dia a filha da dona da mercearia tomou-se de amores e calores por um rapaz das redondezas. Era proprietário de uma bomba azul metalizada. Amiúde o carro estava estacionado à porta da mercearia indicando as visitas regulares tanto à rapariga encalorada como à restante família, visto não haver fronteiras distintas e demarcadas no estabelecimento. Fiambres e detergentes, legumes e feijões são parte integrante desta existência mercantil não sendo já possível delimitar quem e o quê pertence a quem e a quê. Certo, certo é que o próprio armazém sito numa ruela estreita da aldeia a escassos metros da mercearia, rua essa que vê o seu trânsito limitado e cortado com um rotundo sinal de proibição caso a dona do estabelecimento e do armazém, pois claro, efectue descargas para fornecer a mercearia, terá sido palco de entregas de amor intenso, acredita-se, de juras também de amor eterno. Tal ficou posteriormente provado mediante a metamorfose do corpo da rapariga. A dona da mercearia não se mostrou surpreendia nem aflita. Ela mesmo, segundo me disse, experimentou as delícias de uma maternidade precoce e a filha foi criada no seu dizer sobre as caixas de fruta, bebé ainda, na impossibilidade de alguém que lhe tomasse conta. Hoje mulher e mãe também é feliz saudável, não aparentando mossa pela infância entre alfaces e rabanetes, pêssegos e uvas.
Findos uns meses largos, num dia em que apenas se encontrava na mercearia a irmã da dona, perguntei se a rapariga, sua sobrinha portanto, já tinha tido bebé. A mulher respondeu-me Sabe lá, temos lá uma bebé tão linda, tão linda! Felicitei-a pela ocasião feliz e a mulher sacou do telemóvel e mostrou-me a fotografia do rebentinho. Era linda pois. Seguiram-se as perguntas habituais. E correu tudo bem? procurei. Graças a Deus corrê tudo bem, mas teve que ser cesariana. Já a nha irmã tamém foi… é os ossos, os ossos na alargam A mulher assumiu um ar pesaroso, algo contristado nesta ocasião. Na verdade, eu não via mal algum nesta ocorrência e achando que o Criador não foi amigo das mulheres quando as fez assumir atitudes, esgares e posições que não levam ao diabo mais velho para parir os seus rebentinhos, pareceu-me uma belíssima opção, de resto, como me parece ainda hoje. Acrescentei, alardeando a minha ignorância Foi melhor assim A mulher eriçou-se Ai, bocê na diga isso… bocê sabe lá… Tinha razão. Não sabia mesmo. É que aquilo é uma dor linda, linda, linda acentuando intensamente a adjectivação. A gente tá ali e custa um cadinho né, mas ópois, qando a gente bê os nossos filhos… passa logo Escutava-a com atenção Aquilo passa logo, passado um becado a gente já esqueceu só dólhar pra eles Manda o bom senso que nos calemos perante as nossas ignorâncias e desconhecimentos. Assim fiz. Deixei a mulher elogiar os encantos da maternidade, louvar o amor que produz o esquecimento. Bocê um dia bai ber. Talvez, pensei . E ela continuou É aquela dor é uma dor ca gente esquece, passa logo, co tempo já na dói mais, mas há outras… fez uma pausa e olhou-me fixamente numa referência inequívoca à partida do meu querido pai. Há outras ca gente na esquece nunca e às bezes inté parece que ficam pior. E de novo para mim E bocê sabe muito do que tou a falari. Há dores ca gente na esquece nunca e co tempo inté doem mais. Quem sabe, sabe. Quem sabe da dor, sabe da vida.

foto: minha
Ao meu querido pai no dia em que um ano passa.