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terça-feira, 31 de outubro de 2006

Agora não

Agora não. Raramente me ofereço ao espelho. Nas calças uns quilos a mais, nos olhos as rugas de expressão, das expressões que o tempo me trouxe e agora não. Estou certa. Mais tarde, talvez. Aos quarenta não se deve desejar o corpo dos trinta. Dez anos passaram e nesses dez o que foi não volta e o que chegou dificilmente parte, a menos que deixe ausência. Bem não há que sempre dure. Agora não. Fico assim. Assim mesmo. Uma gordura aqui, uma ruga acolá e, quando a saudade não me trai e o humor não me tolhe, passeio-os comigo, aos quilos e às rugas, e os três, rindo-nos uns dos outros num só, trilhamos carreiros com a travessura das décadas em nós. Agora não.
imagem: Botero

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

domingo, 29 de outubro de 2006

Tempo sem horas

Ontem não me ligaste. Ontem não me ligaste a dizer Não te esqueças, amanhã muda a hora. Nem ligaste ontem para contar Olha, já mudei a hora aos relógios todos de cá de casa e relembrar-me Não se esqueçam! Ontem nem uma palavra acerca do relógio sobre a soleira da porta da sala. Uma apenas. Ontem a Mamã não me disse O Papá já mudou a hora aos relógios. Ontem senti que o tempo tinha mudado, longe das horas que mudam, desejando que não tivesse mudado ainda o tempo e me ligasses ainda a tempo de pararmos o tempo e não mudarmos as nossas horas.

sábado, 28 de outubro de 2006

A pólvora

Só quem não vive numa escola é que não sabe que a qualquer momento pode ser chamado para trabalhar durante a interrupção das actividades lectivas e que interrupção não são férias. A oeste nada de novo, portanto. Aparentemente a Ministra e a sua equipa não sabiam, o que não é de todo de estranhar. Que sabem eles da escola afinal?

Notícia aqui

deus existe

Para os que sempre acharam que os professores são uma cambada de parasitas que usufruem de benesses e privilégios como as interrupções do Natal, Páscoa e Carnaval, podem desde já iniciar a caminhada a Fátima. As preces foram ouvidas.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Dispersos V

E se deixado ao abandono, o blogue puxa-me pela saia, exigindo atenção, cutuca-me no ombro, suplicando cuidados.
E eu? Sim, e eu? Quando tens tempo para mim?
A página virtual em branco aguarda impaciente que o colorido das letras lhe cubra o despudor da alvura.

domingo, 22 de outubro de 2006

Data imorredoira

Enfim, chegou o mais glorioso dos dias, a data imorredoira de vinte e dois de Outubro do ano da graça de mil setecentos e trinta, quando el-rei D. João V faz quarenta e um anos e vê sagrar o mais prodigioso dos monumentos que em Portugal se levantaram, ainda por acabar, é verdade, mas pela catadura se conhece o catacego. Não se descrevem tantas maravilhas, Álvaro Diogo não viu tudo, Inês Antónia tudo confundiu, Blimunda foi com eles, parecia mal não ir, mas não se sabe se sonha, se está acordada. Eram quatro da manhã quando saíram de casa para apanharem um bom lugar no terreiro, às cinco formou a tropa, ardiam archotes por toda a parte, depois começou a amanhecer, bonito dia, sim senhores, Deus cuida bem da sua fazenda, agora se vê o magnífico trono patriarcal, ao lado esquerdo do pórtico, com as suas cadeiras e dossel de veludo carmesim, com guarnições de ouro o chão coberto de alcatifas, um primor, e numa credencia a caldeirinha e o hissope, mais os restantes instrumentos, já se armou a procissão solene que dará a volta à igreja, el-rei vai nela, atrás os infantes e a fidalgaria, conforme as suas precedências, mas o principal da festa é o patriarca, benze o sal e a água, atira água benta às paredes, (…) e depois vai bater por três vezes com o báculo na porta grande do meio, que estava fechada, às três foi de vez, é a conta que Deus fez, abriu-se a porta e entrou a procissão, pena temos nós de que não entrem Álvaro Diogo e Inês Antónia, e também Blimunda, apesar do nenhum gosto, veriam as cerimónias, umas sublimes, outras tocantes, umas de derrubar-se prostradamente o corpo, outras de sublimar-se aceleradamente a alma, (…) , e nisto se passou a manhã e grande parte da tarde, eram cinco horas quando o patriarca começou a missa de pontifical, que, claro está, levou o seu tempo, e não foi pouco, enfim chegou a termo, dali subiu à tribuna da casa de Benedictione para lançar a bênção ao povo que esperava cá fora, setenta mil, oitenta mil pessoas, que num grande sussurro de movimentos e vestes se derrubaram de joelhos no chão, momento inesquecível, por muitos anos que eu viva, (…) a festa continuará, oito são os dias da sagração e este é o primeiro.

José Saramago, Memorial do Convento.

Foto: minha

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Curiosidades

Quatro afilhados chegados ao mundo por esta ordem:
Mariana
Martim
Laura
Leonor

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Bad bad teachers

Diálogo dizem eles.
Desde que o PP ameaçou acabar com as bençãos em cerimónias oficiais que não tinha tanto medo.

Mãe 1- Filha 0

Manda o bom-senso, o respeito e o amor filial que não se sobrecarreguem os progenitores com tarefas pesadas, árduas ou desconfortáveis. Tento seguir estes mandamentos auto-impostos. Mãe é para ser poupada. Está, pois, aconselhada por prescrição caseira a não aturar ladainhas alheias, a evitar ultrapassar-se a si própria para socorrer os demais e proibida de dar conversa aos energúmenos que a toda a hora e momento lhe tentam impingir seja o que for pelo telefone.
Digamos que quando se tem uma mãe como a minha nem todos estes princípios são passíveis de ser postos em prática. Imaginem mãe e filha às compras num desses antros de consumismo. Mãe ou filha adquirem algo: livros, CDs, uns sapatos ou uma peça de roupa. Irrelevante para o que se segue. A mãe é menos jovem do que a filha, como se sabe, ou não seriam mãe e filha. A filha é uma rapariga preocupada com a mãe. Faz o quê? Carrega os sacos, sem esforço algum. Errado. A mãe agarra-se vigorosamente aos sacos. A filha também. Uma pega de um lado, outra do outro Dá cá! Não. Eu levo, mamã! Mas ó filha se não me custa nada… Mas que teimosa… Mas é para veres melhor, argumenta a mãe. A filha não desiste, ou não fosse filha de uma senhora teimosa e de um senhor obstinado. A mãe, mesmo sendo mãe de uma rapariga persistente, não desiste de igual forma e ambas se digladiam publicamente pela posse de um saco de plástico.
Hoje, por exemplo, a única vez em que consegui ter o saco em meu poder foi quando a senhora minha mãe levou os seus livros a Luís Sepúlveda para serem autografados. Chegada a sua vez, disse-lhe apenas Mamã, não vais com esse saco enorme..., subliminar chantagem de pacotilha Não vais apresentar-te perante um escritor de renome com um saco dessa natureza e sem demora Zás, agarrei-o. Uma vez em meu poder, regressou o duelo Dá cá, Mas não me custa nada… Mas para que é que hás-de ir pesada? Mas assim nem consegues ver nada! Certo é que ver é manifestamente insuficiente na relação que as mulheres travam com os objectos do seu desejo consumista, há que mexer também sempre. A vitória seguinte foi dela, claro, e se bem me lembro, aconteceu quando me perdi com o último DVD do Chico Buarque. Enquanto o imaginava de olhar cristalino meio perdido no tempo, a pele morena e os gestos tranquilos, flanando por Lisboa e Budapeste, flanando também eu por lugares recônditos e ocultos, a minha mãe agarrou-me no saco, aproveitando-se-me da ausência fugaz do espírito e desatenção do corpo. Nos homens não se pode confiar nunca, mesmo que venham trancados numa caixa espalmada e comprimidos num disco. Mãe 1 - Filha 0.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Busca Bóbi

Vai lá tu agora! Não, vai lá tu, repito e suplico utilizando na verbalização os dotes femininos de sedução. A voz meio arrastada, um sorriso meio tímido e de novo a súplica Vai lá… Ele retorna Vá, a última vez fui eu… A cena repete-se sempre que se torna imperativo dar uma gratificação ou gorjeta a alguém. Sendo certo que essa é uma forma de exprimir o agrado ou satisfação por um serviço prestado, a verdade é que sub-repticiamente existe uma demonstração da superioridade de quem recebeu um serviço sobre quem o prestou. Mais fácil é fazê-lo se estiver incluído na conta, mas muito difícil quando se trata de pegar em dinheiro e largá-lo na mão de outrem. Na verdade, a maior parte das vezes acabamos por não o fazer.
Vem isto a propósito de uma alteração no Estatuto da Carreira Docente que prevê que o professor tenha uma compensação pecuniária, caso tenha uma avaliação de Muito Bom. Não sendo permitido que o professor aceda ao escalão seguinte por mérito, mas por restrições económicas e pela existência de quotas que o Ministério insiste em apelidar de controlo da qualidade e comparar grosseiramente com outras profissões, alegando que nem todos podem ser Directores-Gerais, adoça-se-nos a boca com uma esmola, uma gorjeta, uma recompensa bem ao estilo de Pavlov. Enquanto abanamos a cauda e salivamos, o Ministério passar-nos-á a mão pelo pêlo, Lindo, Bóbi! Busca, busca! Deita. Faz de morto, Bóbi. Não tenciono jamais candidatar-me a tal insulto e humilhação. Farei o meu trabalho o melhor que sei e posso para os destinatários legítimos: os meus alunos, nunca para ser recompensada monetariamente desta forma.
A excelência não deve ser premiada com dinheiro numa profissão como a docente, mas sim com respeito e a progressão devida. Nada me adiantará ser uma professora excelente, se ficarei até ao fim dos meus dias à espera dessa progressão, portanto a promoção da qualidade, tal como apregoam, pode ter um efeito perverso. Quem não se esforça, e nunca se esforçou, não o vai fazer agora, uma vez que preenchidos os requisitos ficará a marcar passo até que morra ou se reforme um dos professores titulares. Provavelmente muitos nem lá chegarão, não obstante o mérito comprovado e atestado pelo próprio Ministério. Espera-lhe o limbo dos escalões intermédios. Quem leva a profissão a sério continuará a dedicar-se e tudo ficará como antes, excepto os cofres do Estado e a opinião pública, que dirá que sim, agora nem todos serão Directores-Gerais, como se tal se aplicasse ao ensino, e que agora se nos foram as regalias e privilégios. Resta saber quais e resta saber até quando vamos aguentar a levar porrada*.
Gabriel o Pensador

domingo, 15 de outubro de 2006

O melhor português...

eleito por unanimidade e maioria e aclamado pela escriba deste cantinho blogueiro é o zé, a maria ou o manel que inventaram a sopinha de cação.
Benzós deus, há lá coisa melhor?

sábado, 14 de outubro de 2006

Papá coruja

Foi diferente desta vez. Não a tua falta, a tua ausência, o lugar vazio à mesa, o coração apertado destes dias, tantos, sem ti. Desta vez não foi eu não te ter. Desta vez não foi tu não estares, foi eu não te poder fazer feliz, o não te poder dar mais uma novidade, uma apenas, e ver-te sorrir, orgulhoso, como sempre, de mim, de nós. Desta vez não foi eu não te ter para te ver e contar o que foi, como foi que foi. Foi não te ter para te fazer feliz mais uma vez. Foi não poderes ser feliz uma vez mais.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Portugalex

Um ano. Um ano para fechar uma conta da qual o meu pai também era titular. Um ano e sempre a contar. Primeiro o melhor era deixar mesmo assim, tal como estava. A minha mãe não acedeu e exigiu fechar a conta. Veio um, dois funcionários. Que era necessária a assinatura do meu pai. Ora, se o meu pai pudesse assinar, talvez não fosse necessário fechar a conta ou ele próprio compareceria para o fazer, não lhe parece? Pois, nesse caso. A certidão de óbito, então. Certidão de óbito ali mesmo, presente na hora. Ah, afinal não, não dá, tecla aqui, tecla ali, um olhar de asno desconfiado para o ecrã e zero. Mais umas cacetadas no teclado, mais umas rosnadelas para o ecrã. Nada. Olhe, venha cá noutro dia. E as cartas a ameaçar cobrança de despesas de manutenção de uma conta que nem quer ser mantida e olhe pronto, não sei, não dá. Deixe lá. Neste campo até a PT lhes conseguiu ganhar, porque após uns oito ou dez meses de tentativas infrutíferas para alterar o nome de assinante, centenas de telefonemas para cá e para lá, sabe-se lá como e porquê a minha mãe conseguiu o feito de cessar a assinatura em nome do meu pai. Erga-se-lhes já uma estátua. Tamanha eficiência é rara nos dias que correm.
Agora um mês à espera de um mero orçamento para uma visita de estudo. Os e-mails não chegam, perderam o meu contacto, ah, ainda bem que ligou. Ainda não conseguiram, vão fazer, desculpas, muitas desculpas mas fique tranquila e os dias passam. A viagem é à Europa, sem nada de sofisticado e transcendente. Caso não fosse uma situação oficial, eu própria já o teria feito sem qualquer dificuldade.
Oito noites sem iluminação pública. Oito noites de reclamação, oito noites de desculpas e braços cruzados, cada reclamação como fosse a primeira e lá fora noite de breu. Primeiro o espanto, ah vou já registar, após oito dias de telefonemas e reclamações, cada vez como se fosse a primeira. Quando o piquete tiver tempo, virá resolver o problema, logo se o sr. Dr. Piquete estiver muito ocupado, assim ficaremos nas trevas sabe-se lá até quando. Isto para não falar da certidão de nascimento que pedi há seis anos para o meu casamento e que também se deve ter extraviado sem se saber como, porquê. De resto, nem interessa. Mas interessa a alguém quem faz o quê? É que se alguém souber, vai ter de chamar esse alguém à atenção e, como se sabe, isso é tarefa trabalhosa e, em nome dum corporativismo bacoco, ninguém chama ninguém à atenção de coisa alguma. Coisas mesquinhas estas, pequenas, comezinhas, ridículas, quase ofensivas, se e quando comparadas com a guerra e fome no mundo.
Os estrangeiros até acham isto giro e tal, é pitoresco, preservado da industrialização e aparentemente da destruição ambiental, o povo é tão simpaticozinho, ainda não fomos devorados e digeridos pelo turismo de massas, somos tão queridos e hospitaleiros, estendemos a roupa interior à porta de casa e tudo, a gastronomia um deleite e o clima ameno uma bênção dos deuses, pena é que as tarefas mais elementares se apresentem como feitos heróicos apenas comparáveis à passagem do cabo das Tormentas.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Dias cinzentos

Cinzento o dia hoje.
Dia sem sol anunciando o fim da luz estival.
Um dia mais.
Um dia menos.
Dias.
Dias ainda até ao fim dos dias.
Dias com sol.
Dias sem sol.
Dias de sol sem sol.
Dias com sol sem sol.
E a certeza
sempre
até ao fim dos dias
Ká tem ninguém sima bô*.

*Não há ninguém como tu.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

domingo, 8 de outubro de 2006

sábado, 7 de outubro de 2006

Perdoai-lhes

Começo a acreditar que a grande mais-valia deste Verão foi ter conhecido o AfuradaMan. É que mais do que uma vez já tive vontade de o citar, especialmente com aquela sua palabra tão eloquente.
Desde já aviso que este não é um post para almas sensíveis mas depois de regressada do centro de preparação para o baptismo aqui na paróquia só tenho uma palabra. Fiquei a saber que, por exemplo, hoje ser cristão é muito perigoso, que se morre por ser cristão, que algures o orientador desta belíssima sessão de Sábado à tarde teve um encontro com um muçulmano, que ele chamava Mustafá, pronto Mustafá, como um nome que se dá ao gato, e que ele, o Mustafá, quando viu o crucifixo ficou alvoraçado. A advertência foi grave e peremptória Querem continuar? Continuar a ser cristãos, bem entendido. Escusado será dizer que tive mesmo vontade de lhe dizer pare, pare aqui que saio já nesta paragem. Os presentes ficaram também esclarecidos sobre o carácter do Papa, é um vaidoso, usa sapatos de marca quando há gente a morrer de fome, que a Afrodite é o equivalente à Vénus de Milo, que se os pais fossem escolher os padrinhos por serem cristãos, a sala estava vazia, que muito perdemos em não ser católicos praticantes, se não teríamos ficado a saber que há três anos uma senhora quis mudar o padrinho do filho porque o primeiro não dava nada ao segundo, aqui disse eu que havia coisas que era até melhor nem saber e recebi um olhar de serpente de volta.
Seguiram-se as proibições. Branco sujo, pérola ou beige e derivados são cores interditas nas roupas de baptizado das crianças, com esta belíssima adenda, se branco é sujo não é branco por isso não é puro. E o problema cabal foi mesmo porque um padre cá da paróquia há uns anos se deteve com um problema gravíssimo: ao ler o texto que investe as crianças deparou-se com a ausência de vestes brancas e, portanto, não podia ler aquele texto. Ainda alvitrei que o dito padre podia ter deixado cair o adjectivo, agora uma outra denominação segundo a TLEBS, e dizer só vestes. Na, na, na! Branco é branco. E ainda, nada de toalhas com bordados cor-de-rosa ou azuis, nada de fitinhas. Nada de nada, portanto. Perguntei porquê tanto ênfase nos sinais exteriores se de um sacramento se tratava, o mais importante, de resto, a razão por que ali se estava. Estava lá escrito branco e branco é sinal de quê? De pureza, acrescentei. Pronto, aí está a razão.
Dir-me-ão que tenho o livre arbítrio e que não preciso de ir à Igreja. É o que farei.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Cidade oculta

Maldigo a espaços a natureza noctívaga que me impele a não aproveitar a plenitude das manhãs luminosas. Era pois uma manhã de sol aquela em que inesperadamente me (re)encontrei na cidade que albergou e nutriu o amor do meu pai e de minha mãe, os viu crescer juntos e assistiu também numa manhã de sol à união indissolúvel e nesta manhã a luz beijava a cidade, o céu azul como cenário para a Sé, as ruelas estreitas e o granito, sempre presente, definitivo e resistente, frio e imenso, o D. Duarte bem no meio da praça e as gentes acordando com a cidade, um bom dia aqui e ali, o bulício miudinho como um formigueiro trespassante, um corpo que se espreguiça com a alvorada do espírito, as portas das lojas abrindo como pestanas e gente daqui para ali com algo para entregar, pão, jornais, encomendas, e a luz e eu e o meu pai, presente e ausente, redescobrindo a cidade e ele sussurrando-me vês, vês como é bonito o granito, vês, como é linda a Sé, olha aqui e eu, sem ele e com ele, a tudo ver, sim, Papá, que linda está a cidade, que bonito o granito sim, e olha Papá, olha ali e ele sempre a meu lado, rematando, eu bem te disse, filha. Afinal, quem é que tinha razão? deixando-me sem resposta, apenas com as palavras engasgadas na garganta eras tu, Papá e ambos continuámos pela cidade, eu e ele, eu revendo tudo e ele reafirmando, como sempre, as suas certezas e feliz, como sempre, em partilhar o que lhe era querido como sempre fez também. A beleza desvela-se em partilhas invisíveis. As cidades ocultas revelam a sua perfeição em diálogos inaudíveis.

Sé, Viseu
foto: minha

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

domingo, 1 de outubro de 2006

Quem tem as flores não precisa de Deus
Alberto Caeiro
foto: minha