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terça-feira, 30 de setembro de 2008

Hoje...


há lambisgóias, realeza, o Trópico de Capricórnio e a Irmã Lúcia, todos ao molho numa crónica só. Espreitem e digam de vossa justiça. Lá também. No PNETmulher, já se sabe.


imagem: Colin Thompson

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Nacos de prosa (2)

One of the things that amused me about the media coverage of the death of Princess Diana was the reporters' constant breathless amazement at the 'un-Englishness' of the public response. This was invariably described as 'an unprecedented display of emotion'. And what did this 'an unprecedented display of emotion' consist of? Look at the pictures and videos of the crowds. What were all those people doing? Queuing, that's what. Queuing to buy flowers, queuing to lay flowers, queuing for miles to sign books of condolence, queuing for hours to catch trains and buses home after a long day of queuing.


Kate Fox, Watching the English.

sábado, 27 de setembro de 2008

Paul Newman

1925-2008

Uma inicial basta

Rapariga calma e tranquila no que respeita às alterações recentes da Carreira Docente tenho dado por mim deprimida e soturna quando, terças e quintas pelas dez horas da noite, regresso ao pátrio lar, empanturrada de legislação, o estômago em convulsão com o eduquês indigesto, palavras e nacos de prosa herméticos pesam-me como pedras, nem com pastilhas rennie lá vai, para a próxima recorro aos sais de fruta, e inquieta com algo que terei de fazer em breve: definir objectivos pessoais. De tudo o que tenho feito na vida, pouco me pareceu tão disparatado, aberrante, anormal e, há que dizê-lo com frontalidade, estúpido. A tónica que está a ser posta nos professores perverte por completo o espírito da profissão, quando comecei a dar aulas não pensei jamais que tivesse que me preocupar tanto comigo, com os meus objectivos, com a minha avaliação, com o meu portfólio. Os objectivos economicistas do governo, desengane-se quem pensa que tudo isto é para melhorar a qualidade, estão imbuídos de falta absoluta de articulação com os objectivos de um ensino de qualidade. Quem pensou nos números não previu que, com a implementação deste sistema, pouco tempo sobrará aos professores para se dedicarem aos seus alunos. A burocracia não acaba, reuniões com o Presidente do Conselho Executivo para a negociação dos objectivos pessoais, previamente definidos por cada um dos professores, aulas a serem observadas depois ou antes das aulas do avaliador, portfólios para organizar, papéis, papéis e mais papéis que servem apenas para satisfazer a opinião pública, granjear votos junto do povo sedento de sangue no circo romano, deitemos pois os professores aos leões, e poupar muito dinheiro. Depois de tudo isto, pergunto-me o que sobrará de nós, o que sobrará de nós para dar aos alunos.
Ontem em conversa com a minha mãe, reformada do ensino pela graça de deus depois de uns quarenta anos de serviço, fui-lhe contando grosso modo as alterações em vigor, as tais que visam pôr o professorado, essa cambada indigente e proxeneta do Estado, na ordem. Assim sendo e perante a ausência total de eleições na Escola, agora nomeia-se, de preferência em segredo, critérios ausentes, e as observações de aulas que faremos uns aos outros, entre outras manobras de diversão, ela exclamou Estão exactamente como no tempo em que comecei a dar aulas. O Director mandava, o meu primeiro horário foi-me entregue pelo contínuo e os inspectores entravam-nos na sala quando queriam. Fiz levemente contas de cabeça. No tempo do Salazar, portanto. Respondeu-me Pois, claro. Para bom entendedor uma inicial basta: S de Salazar, S de Sócrates.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Pastora de palavras

Faço-me à vida entre as frestas do sol matinal, meio tímido, a humidade como uma colcha transparente e virginal sobre os campos, os olhos ainda adormecidos da noite que se fez mais breve do que o corpo solicita e chego ao destino com a preguiça e cansaço de dias acumulados, assoberbados de papéis e trabalhos fêmea em período mais fértil do que gatas com cio. Trocam-se palavras bem-dispostas, bons-dias para cá e para lá, um pedido que formulo e, no entretanto da espera, a conversa que recai sobre férias, lazer, tempo livre. Estereótipos do manga-de-alpaca, funcionários públicos preguiçosos e indolentes, professores fazedeiros de coisa alguma de férias longas e tempos livres principescos são de repente tema de conversa lampeira em tom irónico E quando me perguntam se tenho trabalho? Ah pois retorqui Se não há alunos na escola não há trabalho. Pois, pois, é só férias. Remato Aliás, nem fazemos mais nada. Completam E quando me perguntam Mas vais à escola? Mas o que é lá vais fazer? Sai-me inesperadamente, Está-se mesmo a ver Olha, Vou lá visitar pastores. Logo agora que me julgava curada da maleita. Ainda tentei recolher o livro como pastora obediente mas o Ruy Duarte de Carvalho era demasiado grande para o esconder na cabeleira.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Pataniscas de ternura

Recebo um sms pela hora de almoço Queres pataniscas com arroz de feijão? Levo-te para a escola às 13.30? Bjs Quis o destino que o almoço se me falhasse hoje, idas ao dentista não se compadecem com o estômago cheio, mas quando o dia adormeceu, a escola para trás das costas e o burburinho do quotidiano assentou, saboreei com a alma o carinho metido em duas marmitas tupperware, preparado com o afecto das mãos generosas e a ternura de quem de mim se lembrou. E estas são as coisas que verdadeiramente importam: carinho, ternura, gestos, afectos. O resto é paisagem e livros, já se sabe.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Terça-feira

O big bang, a Vénus de Willendorf e o estereótipo da tampa da sanita aberta estão juntos numa só crónica no PNETMulher. Ide lá dar uma espreitadela.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Papéis pintados com tinta

Os livros são entes diabólicos. Uma vez metidos nas vidas dos leitores dificilmente saem. Um labirinto de sensações, um rodopio de imagens e citações, palavras soltas que se agarram firmemente à memória, cenas e personagens que passam a ser os leitores e dos leitores também. A vertigem bibliófila de que sofro impele-me a cruzar com frequência o que leio nos livros com o que vejo na vida. Acontece-me em plena conversa surgir de repente uma citação ou o livro inteiro, a personagem que pode espreitar por detrás das orelhas Chamaste-me? para o interlocutor com quem troco palavras. Quando não posso agarrá-las e enfiá-las pela orelha para o local secreto da memória de onde saíram, escondo-as na cabeleira, consegue albergar umas quantas, obrigo-as ao silêncio absoluto e continuo a conversa de circunstância. Vale tudo menos começar a debitar o que me passa pela cabeça Leste aquele livro deste daquele ou daqueloutro? Conheces o autor x, y ou z? Fizeste-me lembrar aquele livro… Antes que comecem a bocejar perante o desfile incontinente do que vivo nos livros, que atravessem a rua se me virem ao longe ou se escondam atrás das portas, quando me pressentem nos corredores, exerço uma implacável censura sobre esta minha faceta. Não raras vezes remeto-a para as conversas paralelas que ocorrem enquanto se dialoga com outrem, uma espécie de balões de banda desenhada onde escarrapacho as associações malévolas. Aconteceu-me saltar-me ao caminho na missa recente em memória do meu pai Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo. Lá vinha o Ricardo Reis. Acho que o sacristão o pressentiu, lançou-me um olhar de soslaio que tive de esconder o poeta na cabeleira mais uma vez. Em ambiente familiar solto os livros e não raras vezes as conversas decorrem com as interferências. A última vez que me aconteceu estava tranquila, quando ao pegar em dinheiro para pagar o almoço, concluí Agora veja lá, não gaste tudo em vinho. Esclareci de imediato a fonte, não sem antes ter sido apunhalada com um par de olhos ferozes e ofendidos. O pior foi no dia em que a minha mãe se lembrou de estender a roupa num dia de ventania assanhada e o estendal se soltou da parede. Quando apareci estava esbaforida e furiosa Fartei-me de chamar por ti, fiquei aqui presa pela corda. Teria acorrido à minha mãe sem mais, caso a tivesse ouvido naturalmente, argumento que não a convenceu. Podia ter caído com o peso da roupa lamentou-se. E o que faz uma mãe agarrada a uma corda de roupa? Questionei impaciente E por que não largaste a corda? Querias voar como a Mary Poppins? Atirou-me certeira que só o vizinho a tinha ouvido, de facto, segurava na corda e ouvia–nos paciente, e rematou que podia ter caído escadas abaixo, agarrada à corda. Tamanha convicção levou-me à segunda troca de argumentos Largavas a corda, ora essa, a roupa não é a passarola do Bartolomeu de Gusmão. Livros a mais claramente. Temo que algum dia a minha mãe leia Der Schneider von Ulm do Brecht. Os lençóis dariam umas óptimas asas.

domingo, 21 de setembro de 2008

Momento sitemeter (12)

Alguém veio parar a este blogue na senda de saber onde morava Jesus Cristo. Onde morava antes desconheço, mas vendo a personagem amiúde, presumo que morará nas redondezas.

sábado, 20 de setembro de 2008

A Eternidade e o Desejo

Acabei finalmente o livrinho que me andava a consumir o pouco tempo livre remanescente da minha vida profissional. Por que raio havia eu de ter sucumbido ao ímpeto de comprar tal coisa permancerá um mistério. Entretanto, a Inês Pedrosa passa directamente para a minha lista de autores a não ler.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ainda não é hoje


que há crónica, textos, estórias ou citações.

imagem: Harold's Planet

domingo, 14 de setembro de 2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Nacos de prosa (1)

Academic friends say their students answer calls during lectures. Lovers lolling on the public grass on a sunny day glare at you if you look at them, as if you have just walked into their living-room. People chat in the cinema during the film, and sometimes during the play. Air travellers on long-haul flights change into pyjamas in the lavatories. It's as if we now believe, in some spooky virtual way, that wherever we are, it's home.

Lynne Truss, Talk to the Hand

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Procura-se

alguém que tenha lido A Eternidade e o Desejo para troca de impressões. Vou na página setenta. Parece-me uma eternidade e desejo só de o arrumar na estante. Quem leu?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Book with a view

Quint Buchholz

Um muro de letras

Na altura em que o tomate Raf estava a dois euro e quarenta e nove cêntimos, eles entraram a meu lado no supermercado. Vinham algures pela direita e demos passagem uns aos outros, eu dei-lha a eles, eles deram-ma a mim, e entretanto, sem saber já quem entrou primeiro, absolutamente irrelevante no contexto, encontrei-me dentro do estabelecimento propriamente dito. Comecei pela habitual ronda das saladas, há que viver saudável e os vegetais, diz-se, são parte integrante do bem-estar físico, que naturalmente produz efeitos imediatos, assim se espera, sobre essa nebulosa da harmonia interior anunciada e vendida também nos coloridos suplementos dominicais. Os frutos vermelhos, por exemplo, são antioxidantes poderosos. Quem sabe levada por isso abeirei–me da enorme banca onde estavam dispostos os tão apregoados Raf, feios, mas saborosos, a publicidade naqueles dias era inequívoca.
Do lado oposto ao meu, debruçado sobre o mesmo expositor, encontrava-se o casal com quem me cruzara à entrada. Julgava-os deambulando algures noutro corredor, a decisão das saladas nem sempre é pacífica e na languidez do dia que entardecia deixara a pressa amarrada ao poste do stresse pretérito. Abordaram-me entretanto Ó menina, a que preço é o tomate? O preço estava bem visível: dois euro e quarenta e nove o quilo e, não fora a intervenção rápida da mulher, leitora perspicaz de rostos alheios, jamais teria compreendido a razão da pergunta. Lamentarei o resto da vida a expressão desconfiada e incrédula que soltei sem sequer balbuciar palavra. A mulher acrescentou então em auxílio do marido A gente não sabe ler. Preferia pensar que o meu rubor era reflexo dos frutos à minha frente e não o constrangimento perante a situação. Respondi de imediato e fui à minha vidinha cheia de letras e números e sinais e símbolos que sei descodificar e que me orientam por esse mundo fora. Não era o caso do casal que deixara para trás. A realidade conhecida, em Portugal a taxa de iliteracia não é prestigiante, tinha, a partir de agora, dois rostos desorientados perante um mero preço de supermercado, a diferença significativa entre as estatísticas e as pessoas. Um homem e uma mulher à mercê da disponibilidade alheia, prisioneiros da sua incapacidade de descodificar mensagens escritas. Dois mundos separados por um muro de palavras e letras incompreensíveis.
E assim é em pleno século XXI. Enquanto os sorrisos pendurados alardeiam as virtudes das novas oportunidades, selados com beijos e apertos de mão vigorosos, e o choque tecnológico ocupa o lugar cimeiro das preocupações governamentais, alguns permanecem excluídos. Não têm rosto, não ficam bem na fotografia e não dão votos. Não são ninguém.



Este texto foi escrito para o Corta-Fitas e repescado hoje no Dia Internacional da Alfabetização

sábado, 6 de setembro de 2008

Contai uns aos outros

Um qualquer dia pelo fim da tarde rumo ao supermercado para me atafulhar nas inevitáveis compras, mantimentos para humanos, gente canina e felina. Uma ou outra pessoa conhecida. Depois das saladas paro no talho, uma cara conhecida. A mãe como está? Bem, obrigada. Uma dúzia de palavras trocadas. Digo ao que venho ao talhante. Incapaz de calcular quantidades com precisão, indico claramente o número de pessoas a quem se destina a carne: duas. Uma pergunta salta do lado: Não têm filhos? Sorrio e respondo negativamente. E que tens tu a ver com isso? O questionário prolonga-se Mas já estão casados há um tempo… Respondo com quase absoluta exactidão o número de anos. Recolho a carne aos desejos de boa tarde e de bom fim-de-semana e faço-me à vida, praguejando com os botões contra esta espécie muito particular de bisbilhotice alheia que afoga uma mulher sem fruto e que aparentemente deve explicações à população em geral Não têm? E porquê? Porque não? Porque sim? Porque assim assim? Bem sei que as questões reprodutivas são assunto público de há um tempo a esta parte, fazem inclusive manchete nas revistas cor-de-rosa, coitadito do filho do Cavaco que não conseguiu que a mulher desovasse durante uma década, as fornicadelas, tentativas e intentonas conversa de café ou de jantar, com pormenores sórdidos e de gritante mau gosto, detalhes de ciclos e luas, as paridelas, águas e contracções, o colo do útero dilatado. Os cocós das crianças, consistência e cor e sei lá mais o quê que não me interessa absolutamente são tema recorrente e que se adivinha depois das tentativas e intentonas. Conversas altamente edificantes. A exibição constrangedora de algo que deve ser íntimo e que apenas a duas pessoas diz respeito, a três no caso dos cocós. E depois voltar à conversa com os visados e vê-los nuinhos, esbaforidos e esforçados, aos ais e uis com data e hora, as mulheres com uma perna aqui e outra em Belém, com enfermeiros e médicos à dúzia a coscuvilhar-lhe as entranhas e elas a esgadanhar-se nas paridelas sempre tão coloridas e suadas. Lindo de se ver, maravilhoso para se descrever. Aquelas pessoas jamais são as mesmas, essas e outras. Aconteceu-me um dia no local de trabalho, alguém lamuriar-se, dizer com frequência que andava a passar muitas necessidades, o marido tinha os legumes chochos e encarquilhados e depois euzinha, valha-me deus, conhecer o pobre homem numa outra situação e pensar Mal empregado. Um homem tão jeitoso e simpático com o hidráulico avariado, pena que se lhe foi a mola. Ainda estive para lhe dar uma palmadinha solidária nas costas mas mal o conhecia, embora o conhecesse mais do que queria e muito mais do que devia. Se a Bíblia fosse reescrita seria certamente incluída uma adenda Crescei, multiplicai-vos mas contai uns aos outros.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Entre Frida Kahlo e Jesus Cristo

Na aldeia vive o cego, senti-o um destes dias quando, estacionada à porta da tabacaria, o meu carrinho, o meu rico carrinho, o meu único carrinho azul, o carrinho que eu comprei com o meu dinheirinho levou umas fortes bengaladas e umas quantas chibatadas na parte traseira, que o cego é cego mas não é para graças nem meiguices, sabe deus o vigor na bengala.
Na aldeia mora Jesus. JC vai passando rua abaixo, ganhou peso nos últimos tempos e a última vez que o vi mais de perto estava à porta da biblioteca da escola, opinando sobre um autor. Ultimamente abandonou a bicicleta, razão pela qual se lhe arredondou o corpo, mas pão e vinho já se sabe que não é alimentação saudável, os hidratos de carbono são do piorio e o vinho tinto, além de estar carregado de calorias, se não for de boa qualidade e em excesso, provoca-lhe fortes dores de cabeça. Nada que Jesus Cristo não consiga resolver sem analgésicos. O que é uma simples dor de cabeça para quem pôs um cego a ver?
Na aldeia há o talho que emite o terço religiosamente todos os sábados ao fim de tarde, carninha benta já se sabe, chouriços vendidos ao som de pais-nossos, entremeada na ladainha de amens e graças, bifanas pesadas na toada das ave-marias.
Na aldeia vivem duas mulheres que levam as muletas a passear esporadicamente. Nada como uma caminhada ao sol para lhes limpar a humidade, evitar a ferrugem, estimular o convívio saudável entre as pobres coitaditas, que fariam em casa? Os auxiliares repousam à conversa enquanto as proprietárias correm a vida alheia a pente fino e acompanham a conversa erguendo de quando em vez as muletas uma para a outra, a extensão natural do esbracejo mexeriqueiro. Quando a dona da retrosaria se perdeu de amores por um nórdico, alvo e desajeitado nas artes fornicadeiras, e deixou para trás, não obstante, caramba, o que havia de dar à mulher, além dos filhos, os botões e os fechos invisíveis, as gregas e as fitas de nastro, as muletas tiveram um uso desmedido, primeiro no ar com uma exclamação Ah, eh pá, na me digas isso, e depois o movimento descendente da confirmação Rás ta apanha a melher e as muletas quedas até à revelação seguinte. Um desassossego.
No café da aldeia, café e pastelaria, trabalha a Frida Kahlo. Serve bicas, queques, cafés com cheirinho, minis e vende pão, bicos, no dia em que o padeiro faz bicos. Quando um dia pretérito me fiz à aldeia, a Frida Kahlo serviu-me um café, delicioso por acaso. O que lhe sobra em sobrancelhas também não falta em artes de tirar café. A Frida Kahlo da aldeia é menos morena do que a Frida Kahlo Frida Kahlo, um pouco mais baixa e, para grande sorte dela, move-se com evidente facilidade e ligeireza lá por trás do balcão no reino do bolo de arroz. A Frida Kahlo é diligente sem esbanjar simpatia, e tal como a Frida Kahlo Frida Kahlo, se não não seria a Frida Kahlo, tem umas sobrancelhas que se unem em redemoinho bem no centro. Tal com as de Frida Kahlo são farfalhudas e notam-se à légua, logo à porta do café, mas ao contrário da Frida Kahlo Frida Kahlo é parca em pilosidades no lábio superior. Num tempo em que até os homens têm sobrancelhas milimetricamente depiladas por mestres das artes depiladeiras, essa ciência oculta de bem debulhar qualquer pilosidade indesejada, tamanho sobrancelhame e ausência de bigodaça só pode ser um statement of art, uma elegia à Frida Kahlo Frida Kahlo. A aldeia é um mundo.

imagem: minha

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Mightier than the sword

Os dias de chuva convidam ao recolhimento entre portas. Entro na livraria pela enésima vez. Passo revista pelos mesmos livros, fazendo mentalmente a verificação dos que ainda compraria antes do regresso, somo e subtraio quilos à bagagem asceticamente cauculada, x pares de calças para x camisolas, nem mais nem menos, pares de sapatos controlados apenas pelo grau de conforto, poucos portanto e constato o que já sei, os livros terão de ser levados comigo, não há mala que comporte tantas letras e não gosto dos livros amachucados. Tu sabes. Tropeço no After Dark do Murakami e oscilo Levo? Não levo? Reviro o livro, confirmo capa e contracapa, leio as primeiras linhas, três por dois, tentação demoníaca, e a tradução? Directamente do japonês? Melhor do que a portuguesa? Não levo. Uma volta mais. Agora artigos de papelaria. Cadernos, caderninhos, dossiers, sacos, estojos, lápis e borrachas, agendas para 2009 e detenho-me perante a caneta. Preço ridículo. O valor das coisas nem sempre se estabelece em relação directa com o preço. Ensinaste-me tu ao longo das quatro décadas em que me apontaste caminhos. A caneta diz The pen is mightier than sword, a citação de Edward Bulwer-Lytton em tons levemente mais claros, o contraste harmonioso com a cor da caneta, a azul escura é mais bonita, constato, e penso, agarrando imediatamente na primeira disponível aos dedos curiosos Que gira. Vou levar para o Papá. E a mente que faz marcha-atrás mais veloz do que a mão que coloca a caneta no lugar inicial, o presente rebobinado e o passado presente entre os dedos que lêem The pen is mightier than the sword. E o presente que continua numa sucessão de atropelos e de regressos inevitáveis ao passado que fez do presente o que ele é. Vou levar para o Papá. A frase que se me atravessa a mente, a euforia infantil do presente, ensinaste-me também, oferecer sempre sem nada esperar em troca, um dos prazeres sempre cultivado e evidente no sorriso genuíno e generoso que oferecias com o presente, mais valioso, as mãos que alcançam canetas, lápis e borrachas rodando-os docemente na ponta dos dedos para retorná-los desapontada ao lugar, os olhos humedecidos que finjo acometidos de uma alergia repentina, que outra razão?, os gestos desengonçados, o nó na garganta que se esperaria resolvido, diz que o tempo ajuda, mentiras cobrindo as ausências, panaceias para males sem cura. Vou levar para o Papá, ocorre-me outra vez, pego na caneta, escolho uma entre muitas, eliminando as que contêm imperfeições, a caneta diz-me The pen is mightier than the sword, o passado cutuca-me no ombro, três anos decorridos, de caneta na mão aproximo-me da caixa Vou levar para o Papá e aqui a tenho, Papá, sei que vais gostar.

À memória do meu pai

Terça-feira,