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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Menos é mais

Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se publique uma fotografia, tenho algumas para ver a luz do blogue, se procure uma citação nos livros, se recorra ao sitemeter, esse manancial de informação curiosa sobre quem se adentra na blogosfera e aterra aqui chamado por uma palavra ou expressão. Estou aqui a cogitar Posto? Escrevo? Vai a foto? Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se poste, se publique, se cite. Fico aqui a pensar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Terça-feira

Até esse dia não me tinha passado pela cabeça que a literatura fosse composta por princípios activos incompatíveis, que ingénua, capazes de provocar reacções adversas caso combinados ou tomados em conjunto.

Para ler o resto nada como ir ao PNETMulher. Há um crónica fresquinha à sua espera.
imagem: Richard Baumgart, The Writer.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Entre o Pedro Rolo Duarte e o Sting


Podem ouvir-me aqui. Prometo depois disto voltar ao meu velho ser e deixar de me divulgar, cruzes canhoto, estou a ficar pior do que o Tibúrcio.

imagem daqui

domingo, 23 de novembro de 2008

Ouçam como eu respiro

Entrem. A janela da sala está no basculante, sopra uma brisa suave, o sol ilumina a sala, as gatas saíram. Podem entrar. Sentem o perfume da manhã? A fragrância da alma lavada? Podem entrar. As portas estão abertas. Podem ver. Sentirão a vida sempre presente de vidas passadas, o carreiro de letras e o trilho da deambulação permanente. Entrem. Podem entrar. Agora ouçam como eu respiro*.
* indecentemente roubado a uma peça de teatro do Novo Grupo/Teatro Aberto.

As sombras, o bulício


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

Cesário Verde



foto: minha

sábado, 22 de novembro de 2008

Chitas e debruns

E num dia de coração magoado e alma triste, a primeira coisa que ocorreria a uma mulher seria encharcar-se em chocolates, nesta altura do ano os supermercados abarrotam de chocolates, a segunda, ir às compras, a terceira, uma novidade na vida desta vossa escriba, é que não pode, dê por onde der, sucumbir à debilidade anímica e derrubar-se sobre uma caixa de Guylian ou, caso se permitisse, uma pequena de Godiva, a quarta é que não deve ir às compras, a recessão entrará mais dia, menos dia, e a quinta é que é melhor adoptar uma actividade que não lhe ocupe neurónios em desmedida quantidade, que a mantenha alheada do mundo, de preferência sem notícias e televisão ligada e que seja, concomitantemente, ligeira, sedutora e que entretenha até o coração deixar de doer, a alma deixar de choramingar, a vontade de devorar os Guylian amansar e o ímpeto de escavacar o dinheiro em algo sempre utilíssimo a uma mulher, mas que jazerá moribundo no guarda-roupa, gaveta ou armário, desvanecer. E podia ter-me abraçado a um livro, improvável, calçado os ténis e fazer uma caminhada com o Atlântico do lado esquerdo para lá, uma paragem no miradouro, e o regresso com o Atlântico do lado direito, caso não estivesse roufenha e combalida desta maleita infernal que me apanhou desprevenida e atacou à traição, ou podia ter-me iniciado nas artes de fada do lar, ao que se chega para não comer chocolates ou derreter o vil metal, armada em rapariga prendada e talentosa, por um dia, unzinho, há que sonhar, e dedicar-me às chitas e gangas, gregas e debruns.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Propostas para Domingo

Levante-se tranquilo, respire o ar puro da manhã, enxote maus pensamentos e humores canídeos matinais, o banho pode ser antes ou depois, comece o pequeno-almoço sossegado, sugere-se acompanhado pelo exemplar da fotografia. São quase onze horas. Agora sintonize a Antena 1, está a ouvir o Pedro Rolo Duarte? Espere só mais um bocadinho e voilá, eis que esta vossa dedicada escriba dá voz às palavras aqui, ali, acolá e ainda por ali rabiscadas, escrevinhadas, sentidas e paridas.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Partidas

Somos todos imortais até um dia o telefone tocar. Da Teresinha guardo também a memória de quem sou. Sempre presente na vida dos meus pais com carinho e entusiasmo, almoços e jantares em comuns, partilha, comemorações, algumas lágrimas e muitas muitas décadas de vida e de amizade genuína e dedicada, cuidada reciprocamente. Dela guardo o beijo desajeitado e aflito naquele dia de Setembro menino e o beijo luminoso e florido no aniversário que se anunciou afinal ser o último. A ela devo parte do meu amor aos felinos e nela sempre admirei a capacidade de viajante intrépida e incansável, sempre pronta a ir longe, sempre longe, para depois regressar com peripécias e fotografias. Partiu agora para uma viagem de onde não se saberá paradeiro, sem peripécias ou fotografias. Imortais somos sempre até um dia o telefone tocar.

Histórias com livros dentro

Este do José Bandeira. Ninguém se chama Sveva, realmente.

Este
do Jaime Bulhosa. Quem será o ladrão de poesia?



quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Momento sitemeter (17)

O maior pénis do mundo foi procurado neste blogue.
Seria isto que procurava?

Tate Modern, Londres
foto: minha

Em cinco actos

Primeiro, leio as receitas com um respeito reverencial, perscruto-lhe as entrelinhas, releio, atenta ao pormenores, quantidades e modos de preparação e penso Hei-de fazer esta receita. Vou fazer esta receita. Estabeleço um calendário No fim-de-semana ou reformulo Sexta-feira ao jantar sujeito a nova reformulação ou Quinta ou calendarização Talvez Sábado.
Segundo, faço uma abordagem às artes gastronómicas num momento prévio de preparação, confiro os ingredientes na despensa e no frigorífico, elaboro uma lista de necessidades a satisfazer no périplo ao supermercado mais próximo e começo a magicar Aqui era capaz de não ficar mal uma pitada de orégãos ou Podia substituir o tomate ou Não vou pôr pimentos.
Terceiro, faço-me à vida e entro no supermercado, confirmo a lista de necessidades e, quando chego aos legumes, cruzo-me com a secção de cogumelos frescos, lanço um olhar de cobiça aos pleurotos. Mau grado a cor, levam-me aos míscaros da minha infância pela consistência e textura aparentemente carnuda. Reformulo mentalmente a receita, deixando para trás definitivamente os tomates e os pimentos e acrescentando-lhe os pleurotos É capaz de ficar bem. Rumo a casa.
Quarto, deito-me finalmente à fase alquímica da mescla de sabores, espreito o mar da janela da cozinha, olho-o sempre veneranda antes de me concentrar, a inspiração perfeita para que os sabores se liguem e amem, e começo finalmente, afastando pensamentos negativos ou estados de alma soturnos, não são compatíveis com manjares opíparos. Duas cebolas picadas, uma grande daria de igual forma, um dente de alho e um fio generoso de azeite, ou dois, o cozinheiro para o ser deve ser generoso nas porções e disciplinado no método. Ao som do frigir, corto a courgette em pedaços pequenos, as duas beringelas e vou-me finalmente aos pleurotos também cortados em pedaços sobre a tábua de madeira para os juntar ao refogado, entretanto condimentado com uma colher generosa de pasta de tomate e salpicados com rigor de orégãos e alecrim. Está a correr bem, penso. Na janela da cozinha deixo de contemplar o mar para ver a noite descer como um manto escuro pontilhado de estrelas, enquanto o perfume invade a cozinha. Numa ida breve ao frigorífico encontro mozzarella e ocorre-me a ideia de que talvez gratinado ficasse melhor Fica de certeza. Quinto, e ficou.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Terça-feira de novo

Hoje a conversa mete a gente lá dos blogues e a menina das estrelinhas.
Ora espreitai o PNETmulher e deixai a vossa palavrinha.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Denúncia capilar

Vou ao médico a contra gosto, não que as idas ao médico me incomodem de sobremaneira mas a espera, senhores, a espera, as revistas do século passado, as cusquices requentadas e, por vezes, as lambisgóias que nos aguardam e acompanham na antecâmara das sessões de tortura, espreitadelas e revolvimento de entranhas deixam-me irritadiça e só desejo o momento em que pelo meu próprio pé, odeio ser levada por outrem, possa dar corda aos sapatos e fazer-me à vida com um molho de papelada nas mãos e o diagnóstico feito para finalmente descansar em casa, a caldos de galinha.
Ontem não foi excepção. Acometida por um catarro, dores de garganta e febre, agora com esta provecta idade, deu-me para ter febre, outro remédio não tive se não dirigir-me ao Centro de Saúde para me deixar medicar contra este catarro aflitivo, raios o partam. Logo após o jogo do Benfica, assim ditou o ritmo no recato do lar e a minha temperatura inusitada, aí fui, irritada logo de casa. É que já não chega estar doente, ainda ter de me sujeitar ao parecer técnico, deslocar-me ao médico e escolher um clínico do Serviço Nacional de Saúde, caso seja necessário um atestado só pode ser passado por um médico do dito serviço, deixa-me, à partida, irada e farta, além de doente, traçando assim um quadro da maior harmonia.
Graças a Deus, Alá e Jah, tinha apenas uma pessoa à minha frente e fiquei mais tranquila quando soube que um dos médicos de serviço é rapaz de resposta rápida, competente e perspicaz, capaz de vislumbrar à légua as enfermidades, uma verdadeira Rosa Mota do atendimento. Quando uma vez tive uma reacção alérgica não se sabe exactamente a quê, enfiou-me com duas injecções que até vi estrelas, planetas, cometas, o sistema solar todinho e ainda galáxias desconhecidas, mas uma coisa é certa, curou-me. O atendimento foi também à velocidade da luz, de tal forma que saí meio vestida meio por vestir, que é lá isso, ocupar lugar nas urgências? para me derramar agarrada à nádega na primeira cadeira que encontrei cá fora.
Reconheci pela voz que seria o médico, o tal, que chamava pelo meu nome. Logo na entrada, olhou-me bem de frente e perguntou-me ao que vinha. Depois do queixume, há que aproveitar a oportunidade para largar queixas e lamúrias, rematou Pois e deixe-me adivinhar tem que falar muito… Pasmei Como é que sabe que sou professora, doutor? Tenho cara de professora? Atirou-me Cara e cabelo! Tendo em conta que tinha estado toda a tarde a dormitar no sofá a minha trunfa não estaria exactamente calma, nunca está, de resto. Quis saber como sabia que eu era professora, a curiosidade feminina é terrível, mas ele só me sorriu, bem-disposto e jocoso, para me deixar a matutar em como teria ele tido acesso a esta informação. À saída ainda me perguntou Então, também foi à manifestação? Já não se consegue passar anonimamente, há sempre uma trunfa que nos denuncia.

domingo, 16 de novembro de 2008

Cesária Évora

dia 26 em Lisboa.
E subitamente a vontade de regressar a Cabo Verde.

sábado, 15 de novembro de 2008

A biblioteca itinerante

A linguagem não verbal é um indicador mais fiável do que palavras múltiplas recheadas de aforismos, metáforas e oxímoros. Foi assim que, naquele dia pela manhã, percebi que a minha aluna Tatiana, com um ar sofrido, a voz arrastada e nas palavras que soltou, em total sintonia com o desespero da expressão do rosto luminoso, precisaria da minha ajuda.
Bem no início da aula, estava meio deitada sobre a carteira, ainda com a pilha de livros e dossiers por arrumar, quando se derramou ainda mais sobre a mesa, inclinou levemente a cabeça para o lado direito, espalhando os caracóis castanhos e brilhantes sobre os livros e soltou o lamento Setora, ó setora, olhe o livro que estou a ler. Nem um laivo de excitação nas palavras proferidas, nem uma pitada indelével de entusiasmo. Apenas a desilusão, a resignação perante mais esta provação que a escola aparentemente lhe propunha, o conformismo irremediável perante o livro pousado à sua frente, levemente tocado com os dedos à medida que soltava uma quase dor, uma aflição indiscutível. Quando lhe solicitei que me mostrasse o livro, veio indolente, como quem mostra ao pai ou à mãe um dói-dói à espera do beijo mágico com efeitos curativos poderosos Já passou? Já passou!
O livro estava intocado, tinha o preço marcado a lápis, uma edição dos Livros de Brasil que faria as delícias de alguns bibliófilos, e tinha aspecto de ter sido remetido para último lugar na estante da livraria através da selecção natural Tenho este e este da lista. Qual quer? Ah não, este não. A Tatiana acrescentou É tão chato, setora, não percebo nada disso. Quando questionei porque o lia, exactamente aquele e não outro qualquer, adiantou que teria ido à livraria com a lista de livros indicados para o seu ano de escolaridade e que, não havendo mais nenhum em stock, lhe venderam aquele.
E do livro não se questiona a qualidade, porém o efeito nefasto de rejeição da leitura começava a evidenciar-se na Tatiana. Pobre garota sentenciada à tortura de leituras dolorosas. Pedi-lhe a lista dos livros a ler. Entre eles uma quantidade avultada de lusófonos que dormiam tranquilos na minha estante, o contrário do que um livro deve ser, e prometi-lhe que no dia seguinte lhe levaria alguns. Os livros precisam de ser arejados e lidos. Nas primeiras linhas solta-se a empatia de que todas as leituras genuínas e prazeirosas devem ser feitas, sem intermediários nem imposições, assim seria pois, extensivo ao resto da turma que, entretanto, se me agarrou como a uma tábua de salvação contra livreiros gananciosos. E no dia seguinte levei o Manuel Rui, o Mia Couto, o Ondjaki e o José Eduardo Agualusa dispostos em camadas entre as capas de tecido. Viram, leram e escolheram. Alguns dos livros já voltaram. Com eles o regresso do alívio e das expressões sorridentes de que são feitas as adolescências felizes. O que é que uma professora não faz pelos seus alunos? Ler é prazer.


imagem: Pablo Picasso, The Lesson

Um ano

O Pedro Rolo Duarte comemora hoje um ano de Pedro Rolo Duarte. Parabéns, Pedro.

Esta Lisboa que amamos


Desta vez não são posts a ler. São posts a ver. Este e este. Três perspectivas do mesmo lugar da Lisboa que amamos.

foto: minha

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Frases e palavras

Há dias em que me fogem palavras
e se me escapam frases.
Tento alinhavá-las como Lobo Antunes,
ceifo-lhes as vírgulas como Saramago,
desencanto uma tirada irónica como Mário de Carvalho
e remeto-me ao mais profundo silêncio
silêncio dos silêncios
prenhe de sinónimos puídos
e sons desengonçados
que se repetem como o eco
em gargalhada desabrida
desta que se ficou
sem palavras
nem frases.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Momento sitemeter (16)

Não consigo precisar quem, mas alguém me advertiu que estes escritos ainda iriam imortalizar a personagem. Pois bem, alguém aqui bateu à porta à procura do Tibúrcio. Está bonzinho, tem sofrido de azia intensa, porém, as fichas de avaliação de professores não contêm GABAROLICE, um dos items em que o Tibúrcio teria EXCELENTE.

Probably me

sábado, 8 de novembro de 2008

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A primeira ou mais nenhuma

A filha chega a casa da mãe. Arremessa à entrada da porta o cansaço matinal, a ladainha de irritações, a pilha de desilusões acumuladas, fecha a porta apressadamente não vá a decepção fazer-se convidada para o almoço e entrar inadvertidamente pela frincha da porta. A filha chama Mami! A mãe não responde à filha. A filha ouve a mãe ao telefone. A filha pressente pela voz da mãe Algo não está bem. A filha ouve a voz da mãe algo inquieta, não era bem furiosa, não era bem irritada, não era bem zangada, mas algo não estava bem. A filha pensa Aconteceu alguma coisa, enquanto a voz da mãe se mantém assertiva e inflexível. A filha sabe Algo aconteceu. A filha inquieta-se Que será que aconteceu? A filha, sempre com a voz da mãe em fundo, inicia a confirmação de uma lista de possíveis energúmenos capazes de provocar na mãe o estado presente de inquietação. A filha pensa Quem foram os animais desta vez? A filha assume Foram os parvalhões dos colchões. A filha reitera Foram os anormais do clube de viagens. A filha enfurece-se Bem, se foram aquelas bestas a dizer que o Papá ganhou uma viagem outra vez… A filha conclui Se forem aqueles estúpidos é desta vez que apresento queixa na Deco. A filha tem a certeza Ai apresento, apresento, onde já se viu inquietarem a Mamã, onde já se viu ligarem para casa das pessoas a dizer que o Papá tinha ganho um sorteio como se andasse entre nós, o meu querido e saudoso Pai. A filha pragueja Estúpidos, parvalhões, bestas, anormais. A filha tem a certeza Ainda me passo e é desta que os mando abaixo de Braga três vezes. A filha sabe Ai mando, mando. A filha ouve a mãe com atenção, talvez descortine algo. A filha apura o ouvido Ora deixa cá ver, deixa cá ouvir bem… A mãe está a terminar a conversa, mas o tom de voz não muda, o tom de voz exprime a indignação. A mãe diz ao telefone. Agradecia, agradecia se faz favor. Obrigada. A mãe desliga o telefone. A filha pergunta aflita Mamã, o que foi, aconteceu alguma coisa? A mãe continua com o semblante carregado. A mãe responde Então não é que fui comprar A Viagem do Elefante, o último do Saramago... A filha responde Sim, eu sei e pensa E depois, mamã? Que te fizeram? Quem foi o energúmeno que te aborreceu? A mãe continua O livro saiu ontem. A filha concorda Pois foi. A mãe conta a história Comprei-o na livraria. A filha implica Mas que mania de ir àquela livraria, Mamã, já sabes como eles são. A mãe retorque Não é nada disso, foram até muito simpáticos. A mãe conclui E depois fui tomar café com a Dinha. A mãe remata E quando chego a casa vejo que o livro é a segunda edição. A filha pergunta E então, mamã? A mãe arremessa-lhe Uma segunda edição? O livro saiu hoje. Eu quero a primeira edição. Ora essa. A mãe não cede Não quero este. Quero a primeira edição. A filha põe água na fervura Mas se calhar esgotou, Mamã. A mãe não se dá por vencida, era só o que faltava Não esgotou nada, eles é que mandaram a segunda, diz-me a menina que para aqui só mandaram a segunda edição. Admite-se? Para a província mandam a segunda edição. Não quero! A filha acrescentou mais um elemento à sua lista de energúmenos em quem desancar, pegou nas chaves e ei-la a caminho dos distribuidores e livreiros. Uma segunda edição? É preciso ter lata. Onde já se viu.

Praise the Lord

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

God bless America

Ainda por cima é giro.

Gebrauchsanweisung für Portugal

Dois livros sobre o balcão: Darum nerven die Japaner e My dear Krauts. A senhora sorriu, à medida que pegava nos livros, e, enquanto fazia a conta, comentou a multiculturalidade da minha escolha. Aproveitei a simpatia e delicadeza no trato e perguntei se não tinha algo sobre Portugal. Não. Apenas aquele. Agradeci a informação e lamentei não haver mais nenhum. Tinha-o há uns anos, religiosamente entre as relíquias de leitura e de viagem, ainda a primeira edição em capa dura. Comentámos algo sobre a colecção e adiantou-me que fazia parte do compromisso dos autores escrever sobre os países sem rodeios e com toda a sinceridade e honestidade. Paguei, guardei os livros num saco de pano amavelmente oferecido, acredito que pela troca prazeirosa de palavras e fui-me.
Gebrauchsanweisung für Portugal, assim se chama o livro. Traduzido à letra significa Instruções de Uso ou Manual de Instruções e fugindo quer aos manuais de instruções, quer aos comuns guias de viagem, o autor discorre sobre o país. Neste Manual de Instruções de Portugal, com o qual me cruzei em Munique há uma boa meia dúzia de anos, Eckhart Nickel é o escriba, Portugal o objecto da escrita e da escrita transparece o amor incondicional por este país de fadas - Märchenland-, assim o considera. A paixão por Portugal nasceu de forma fortuita, mas como todas as paixões, intensa e arrebatadora. Conta que, numa triste tarde de Dezembro de céu ameaçadoramente cinzento prometendo neve, ele e um amigo não conseguiam prosseguir com o trabalho entre mãos e que, ao procurar algo que os consolasse da inacção e invernia, depararam-se com uma garrafa de Vinho do Porto Niepoort na garrafeira da cave. O primeiro gole como um orgasmo. O Inverno lá fora esquecido e o desejo de conhecer mais sobre o país de origem dessa verdadeira poção mágica apresentou-se de imediato como um apelo irresistível, guiando posteriormente Eckhart Nickel a Portugal.
Poupar-vos-ei a traduções de qualidade duvidosa – traduttore=traditore – nas páginas deste livro encontro mais do que julgo sermos e, mesmo se, aqui e ali, espreita timidamente o paternalismo do país pequenino, como se quer um país de fadas, há um encanto permanente nas gentes, um fascínio pela História e pelos escritores, bem presente nas citações frequentes de Bernardo Soares, uma surpresa nos hábitos do quotidiano em que as novelas e a gastronomia ocupam lugar de destaque e, acima de tudo, um carinho imenso por este lugar que Nickel descobre e se redescobre a cada linha.
Texto repescado a propósito do livro.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Momento sitemeter (15)

A próxima vez que vir o Cristo perguntar-lhe-ei, assim já poderei responder à questão quantas chibatadas cristo levou, a entrada directa para este blogue por alguém além-mar.

Aos pares como os sapatos

Corria o ano da graça de dois mil e três, estava na aldeia desde Janeiro, dia último, quando o Pão-por-Deus se fez anunciar no calendário. Acorri à superfície comercial do costume e abasteci o lar de guloseimas. Também eu na minha infância tinha ido ao Pão-por-Deus e, na aldeia, imaginava que a criançada aparecesse.
No dia um a campainha da porta terá tocado entre as oito e meia e as nove e depois disso até cerca das doze não houve mais sossego. Vinham quase sempre cuidadosos e raramente se aventuravam pelo portão adentro, a menos que os chamasse. O saloio não é rapaz de abrir as portas da mansão aos forasteiros e até que deixem de o ser são submetidos a provas extenuantes. Eu, pobre de mim, nem sempre consegui ultrapassar as várias barreiras. A criançada também conhecia este código, a panóplia de provações até que as portas se abram. O que a criançada não sabia é que, sendo eu mestiça da alma, híbrida de raízes a norte e além-mar, dou graças a deus e ao meu avô que se enamorou de uma brasileira paulista que havia de ser minha avó e aos meus pais beirões de alma e de afectos, as portas de casa abrem sem mais. O saloio também é muito cioso do seu palácio que cuida com rigor e protege dos usos quotidianos, é assim que proliferam casinhas e anexos, nada como poupar a casa, mais invicta do que um museu. A criançada também sabia disso, chovia nesse dia distante e tinham medo de me sujar a casa com as pegadas de lama, o que não sabiam é que aqui no número nove vivem almas tranquilas quanto à conservação imaculada da habitação.
Numa das visitas apareceu-me um ser mínimo, provavelmente nem se contariam três anos de vida decorridos. Era castiça. São-no sempre as crianças desta idade. Vinha acompanhada pela progenitora, uma criatura de traços rudes e beiças grossas que se explanou numa pequena palestra sobre os hábitos e raízes do Pão-por-Deus para esta vossa humilde escriba, ser único em casa naquele dia. E falou, falou, falou. Acrescentou a profissão, professora do primeiro ciclo, valha-me a santa, não podia ser antes outra coisa qualquer, e quando no fim me dirigi à criança para lhe dar um beijo, a pespenica júnior afastou-me de repelão, é bom que não tenha filhos, se fosse minha, tinha levado logo uma reprimenda no momento, o reforço não se deve fazer esperar, mas a pespenica sénior ficou ufana perante a manifestação da pespenica júnior, o caso Casa Pia tinha despoletado no mês primeiro desse mesmo ano, e acrescentou triunfalmente qual Pigmalião encantado com a sua obra Ela não vai a estranhos. Era bom de ver que uma nunca vem sozinha. Deslocam-se aos pares para um efeito mais eficaz. Perante isto ainda estive para lhe sacar os chupas e rebuçados, entra-me pela casa dentro e ainda me chama estranha? Contive-me naturalmente. Anos depois a pespenica voltou, reconheço-a à légua, já deixou a pespenica sénior em casa agarrada à verruga, mas herdou dela o mesmo pôr e dispor, que, calculo impere na relação com os outros. Aqui no número nove, pespeniquice fica à porta.