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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nacos de prosa (12)

A segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro, os matulões da Liga dos Cegos João de Deus nas vizinhanças de um altifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões
(microencefálicos, macroencefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes políticos, etc)


António Lobo Antunes, "A consequência dos semáforos" in Livro de Crónicas

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quem mexeu no meu livro?

Do lado de lá da rua havia outra loja de discos. Olhei para o preço, manifestamente mais alto do que os CDs à venda, uma exorbitância em comparação com os dois por dez libras ou outros em preço muito convidativo, quase irresistível. Do outro lado da rua. Ora sair, atravessar em ziguezague a rua sem trânsito apenas picotada com o vaivém inclemente de turistas, estudantes de ocasião e locais que se aventuravam naquele fim de tarde ameno por uma das artérias da cidade. Do outro lado da rua. Subir ao primeiro andar, pedir ajuda, perguntar, saber, sair e voltar caso não exista e caso o preço seja mais alto. Assim sendo e tendo em conta as palavras ajuizadas do empregado avisando que só havia aquele, depois de uns breves minutos na senda do dito, ponderei seriamente. Havendo um só, unzinho da silva, e correndo o risco de ficar sem nenhunzinho da silva, socorri-me do engenho feminino e guardei-o numa outra estante onde ninguém mas ninguém o iria procurar. Escolhi os Iron Maiden, rapazes com envergadura suficiente para resguardar outras bandas e atravessei a rua e enfrentei o povo em passeio para cá e para lá e fui à outra loja e não havia o CD e regressei, agradeci a amabilidade ao Bruce Dickinson que me respondeu atirando-me com a cabeleira, esta malta do rock não tem melhoras, e comprei o CD. Pois era isto que devia ter feito há dois dias, sem a parte do Bruce Dickinson, porque hoje quando lá fui alguém já tinha comprado o livro. Percorri a estante várias vezes: Turquia, Grécia, Praga, Nova Iorque, Nova Iorque, Maiorca, Ilhas Canárias, Ilhas Canárias, Suécia, mas aquele que eu queria nada, nadinha. Recapitulando, agora a estante de cima, Marrocos, Turquia, Turquia, Grécia, Irlanda, Itália, Itália, Escócia, Tunísia, Barcelona, Dinamarca. Népia. O meu, o que eu queria, nada nem rasto. E devia ter repetido a façanha. O que eu devia ter feito era escondê-lo algures num lugar recôndito, atrás do Jesusalém ou do Barroco Tropical, por exemplo. Estaria muito mais feliz agora e ninguém se incomodaria de estar uns dias aconchegado no Mia Couto ou no Agualusa.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Período de reflexão


O Senhor Palomar, depois deste episódio iniciático, já baniu o ponto de exclamação. Por aqui também é muito pouco usado, mas tendo em conta que a última coisa que me apeteceu banir foi mesmo Maria de Lurdes Rodrigues, não sei se o ponto de exclamação, coitado, merece apodrecer em tão demeritosa companhia ou se lhe arranje outro estrupício. Este blogue encontra-se pois em período de reflexão.

ilustração: Pedro Vieira

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Julhos

Saí do aeroporto de Lisboa de t-shirt. Com um casaco leve apenas para abafar o frio demoníaco dos aviões e nos pés umas sandálias veraneantes, arremessei-me por esse mundo fora para me cultivar nos linguajares anglófonos. Assim que cheguei ao aeroporto de Luton, o céu plúmbeo ameaçador brindou-me com absoluta indiferença e uma vez ultrapassados os trâmites legais e de bagagem ao meu lado fui recebida do lado de fora do aeroporto com um friozinho cortante nos dedos dos pés. É sabido que me podem fazer quase tudo, tenho quase sempre o mesmo mau feitio, portanto será igual mas, se por acaso, for acarinhada com frio o mau humor habitual cresce exponencialmente transformando-me num animal absolutamente intratável. Nem eu me aturo. Não que fique implicativa. Não fico, mas não estou. Para ninguém. Nesse dia não tinha quem mal tratar, tinha mas não quis.
Fiz-me, pois, à vida queixando-me furiosamente e desejando com todo o ardor chegar àquela que seria a minha casa nas duas semanas seguintes para calçar a única coisa que me podia salvar do frio infernal: uns ténis comprados à pressa, não fossem os ingleses terem virado alemães e dar-lhes para fazer umas Wanderungen pelos matos oxfordianos fora. Uma vez chegada a uma das típicas casas inglesas de baywindow em pleno countryside, a alguns quilómetros de Oxford, descansei. Era pôr-do-sol. Umas réstias de sol entrecortavam a janela de onde avistava um bosque retemperador, lá para o outro lado da estrada. Era assim a minha casa onde habitavam dois boys com actividades de tempos livres capazes de ocupar uma família inteira não fossem peder-se num qualquer minuto livro com os respectivos pai e mãe e um gato, Jasper de seu nome. Depois dos cumprimentos e apresentações, algumas palavras de circunstância com os anfitriões sobre o ténis em Wimbledon entre Nadal e Federer, a passar no ecrã gigante da casa de baywindow, dei-me um tempo para ver se aquele friozinho que entretanto se estendera a outras partes do corpo não seria apenas das diferenças de temperatura, algum tempo de aeroportos e aviões. Não era. Era frio, frio que me obrigou a pedir à Paula e ao Keith, os meus anfitriões, que me ligassem o aquecimento do quarto, please. Era Julho.
E nos dias seguintes, Londres, Bath, Stonehenge, Christ Church, Alice’s Shop, Bodleian Libary, museus, torres, universidades, tea and scones e ales depois, o frio foi uma constante e, por assim ser, todos, mas todos os dias me ressarci com uma chávena de chá bem quente, o melhor bálsamo que conheço para a invernia depois de Glühwein. Era isto em Julho. E não mais bebi chá no Verão. Até hoje. Hoje que não pedi ao Keith e à Paula que me ligassem o aquecimento, não teci comentários de circunstância ao Nadal e ao Federer, não quis saber dos boys no remo, no atletismo, no futebol, na pesca, estou a beber uma caneca de chá. Como se fosse Oxford e o frio entrasse na alma. Earl Grey descafeinado, para que conste. Uma caneca cónica laranja com flores vermelhas, reminiscência do Verão que fugiu. Em pleno Julho.
Oxford
fotografia minha

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A importância do nome

Suponhamos que o Manel faz uma viagem. Como todas as viagens, a viagem do Manel tem algumas peripécias. O Manel arruma a viagem na gaveta mas vinte anos depois e porque se lhe atravessa ao caminho uma fotografia da mulher que o acompanhou nesse périplo lembra-se de escrever umas coisas. O Manel acha a viagem engraçada com ingredientes suficientemente intensos para tornar a estória atraente, sente-se em dívida com a mulher que o acompanhou, é atacado por uma nostalgia súbita e neste embalo envia o manuscrito da sua aventura às editoras. O Manel, coitadito, é apenas o Manel, sem apelido, padrinhos, amigos, alguém que dê uma palavrinha a alguém, um toque só para ver se pega e, por conseguinte, tempos depois começa a receber cartas das editoras. Que não se enquadra nos critérios editoriais, que não podem encarar a respectiva publicação, que não são a editora indicada para a apreciação de narrativas curtas, que têm a programação editorial muito preenchida. O Manel arruma os manuscritos na estante, outros rasga-os furiosamente e coloca-os com grande dever cívico no ecoponto azul e outros oferece com uma dedicatória aos amigos, em tempo de crise há que poupar nos presentes. E partiu à sua vida.
Ora se o Manel de chamasse, digamos, Miguel Sousa Tavares tinha o assunto resolvido e podia publicar este novo género de quase romance, a tal narrativa curta, contando uma das suas aventuras ao deserto com uma mulher com quem aparentemente teve um relacionamento amoroso e que morreu entretanto. No teu Deserto é apenas isso: um devaneio, sem grande qualidade de escrita. O texto está cheio de lugares-comuns, a noite estrelada a tempestade da areia, o desenrascando luso, o silêncio do deserto, uma mulher convenientemente loura que já se sabe resulta muitíssimo bem em países árabes como moeda de troca por cáfilas de camelos. Muito inferior a Sul, Não te deixarei morrer, David Crockett ou a Equador, o livro não traz qualquer novidade. Servirá apenas o voyeurismo dos leitores e ocupará uma boa parte de uma lânguida tarde estival, há sempre que não goste de leituras pesadas no Verão. Miguel Sousa Tavares já mostrou que é capaz de bem melhor. No teu Deserto só viu a luz do dia porque o seu autor é quem é. Se fosse o Manel, por exemplo, nunca passaria da intenção e muito bem.
Também no Delito de Opinião

domingo, 19 de julho de 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Certas e determinadas coisas

Sou rapariga que gosta de trabalhar, não me imagino em momento algum sem trabalhar, não nesta fase da minha vida e seria incapaz de viver à mercê da generosidade marital mas quando vejo finalmente um pouco de sossego e de descanso deste ano infernal que está a passar, transformo-me numa outra mulher. Foi o que aconteceu hoje, quando pela manhã, de corpo descansado e alma aliviada rumei ao supermercado para as compras habituais.
Assim que entro sou brindada com o “Público”, que esta sexta-feira tem a maior ratoeira para mulheres sensíveis como eu, não sensíveis assim no abstracto. Como se sabe às vezes tenho uma couraça impenetrável e nem sempre sou sensível a queixumes e desgraceiras, mas sim sensível a certas e determinadas coisas, como diz o povo, e nessas certas e determinadas coisas inclui-se o Chico. Ora, o Chico que em novo nunca me despertou grande interesse a não ser pelas canções, tornou-se agora nesta idade interessante o mais charmoso dos sexagenários. Os olhos, ai aqueles olhos, os livros, cruzes credo, agora deu-lhe para escrever, e aquela complexão magrizela e displicente dão cabo de mim. No Chico há aquela fragilidade aparente, no olhar aquela súplica miudinha que arrasa as mulheres de couraça como eu e a impassividade, meu deus, a impassividade geminiana masculina quase fleumática que faz rombo no bicho de coração empedernido que me assola amiúde. Foi também por isso que a manhã hoje não foi a mesma.
Pousei com cuidado o jornal na horizontal no fundo do carrinho de compras, não fosse acontecer-lhe algo e fui-lhe deitando um olho. Ele também me deitava um olho, os dois na verdade e insistentemente. Quando fui ao sal para a dourada, coloquei-o cuidadosamente sobre o jornal tapando-lhe a boca e os olhos fitaram-me ainda mais no cinzento do jornal. Ai Chico Chico. Depois fui às cenouras que coloquei cuidadosamente no outro extremo, bem como o pack de seis garrafas de água. À medida que as compras se avolumavam a minha preocupação crescia. O Chico, contudo, mantinha-se impassível com aqueles olhos que se lhe conhecem. O busílis foi quando no peixe me deram a dourada e as sardinhas todas besuntadas, e vi o saco molhado e com o cheiro intenso do conteúdo perigosamente dependurado nas minhas mãos. E o Chico? paniquei. Acha que vou pôr este peixe por cima do Chico? pensei. A empregada encolheu os ombros e gritou NOVENTA E TRÊS, indiferente e até provocadora. Ciúmes cá para mim, bem vi o olhar de soslaio para o fundo do meu carrinho. Resolvi o problema metendo o peixe num saco extra. Havia que proteger aqueles olhos cristalinos que me fitaram no périplo matinal e preservá-los de toda e qualquer conspurcação, talvez me cantassem quando chegasse a casa Quando eu chego a casa nada me consola …, você é tão bonita… Eu quero ir-me embora. Eu quero é dar o fora E quero que você venha comigo.
Há certas e determinadas coisas que não se deviam negligenciar. Dia em que o Chico aparece na primeira página de jornal é sinal de alerta nacional, como se os UVB estivessem muito altos ou o calor excessivo. Devia até ser feriado para o mulherio contemplar religiosamente aquele olhar nostálgico e límpido.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cronicando

Podia ser intuição feminina. Dizem que as mulheres são donas de algo que escapa aos demais. Diz-se em livros, ficção e não ficção, tal como no novíssimo Jesusalém de Mia Couto acabadinho de regressar à minha estante e que recomendo vivamente, que as mulheres sabem mais. Acredito contudo que não terá sido a intuição feminina mas a verdade é que nesta minha crónica algo terei pressentido e que me terá levado a afirmar que estávamos ainda em Junho e já a estação tola se afirmava. A dúvida permanecerá se este ser cheio de estrogénios e progesterona tê-lo-á afirmado pela sua condição de bicho fêmea ou se seria apenas a percepção de que o mundo ia entortar. Estrogénios à parte, a soma avultada da transferência do prodígio madeirense teria sido apenas a primeira gota de um copo que se encontra neste momento a transbordar.

E para ler o resto nada como espreitadela aqui, o site onde há crónicas, há conversa, há palpites e opiniões.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A ciência explica...


por que é que esta malta felina faz de nós o que quer. Espreitem aqui a safadeza dos bichanos. Agora que é científico já não há mais nada a fazer.
fotografia e gata minhas

segunda-feira, 13 de julho de 2009

sábado, 4 de julho de 2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Julgamento sumário

A partir de hoje e por tempo indeterminado declaro-o culpado de tudo. Tudo o que acontecer doravante, a crise, a Gripe A, os raios ultravioletas altos, a carestia de vida – como gosto da expressão – ou o Verão refractário é culpa dele. Dele e só dele. Por exemplo, ontem quando cheguei a casa pela tarde, faltavam-me uns girassóis. É certo que não os contei. Ainda mais certo que na sua condição de girassóis mudaram a trajectória ao longo do dia. E certo como ser Maria que ninguém lhes mexeu, porque euzinha, com estes que a terra há-de comer – atente-se ao pormenor do indicador e médio na direcção dos meus olhos- fui verificar se havia vestígios do ataque aos girassóis. Não havia, mas para que conste foi ele. E quem mais pode ter sido? Mas há alguma dúvida? Uma réstia de incerteza? Uma ponta de hesitação? Nada. Nadinha, Nenhuma. Nicles. Foi ele. Quem mais? E isto tudo porque quando dei por ela, depois de lhe ter pedido para dar um jeito no fisaleiro descontrolado já a derramar-se por cima do azevinho, o meu diligente jardineiro foi-se a ele com aqueles olhos azuis enganadores e amarrou-o com uma guita branca como a um molho de nabiças. Ora tendo em conta que o arbusto está cheiinho de fruto e que serve também um propósito decorativo e ainda que não gosto de nada preso, muito menos no jardim, estou-lhe com uma raivinha cega que nem vos digo nada. E como não lhe posso dizer nada a ele, porque mulheres-a-dias e jardineiros são gente de sensibilidade tão apurada que nem sei como não constam no Werther de Goethe, remeto-me ao silêncio, não vá ter dê lhes pagar uma indemnização pelos distúrbios provocados. Portanto, a partir de hoje e por tempo indeterminado, até que me passe a fúria, o meu jardineiro é culpado dos males do mundo. Ninguém lhe mandou atentar contra o meu fisaleiro.