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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (7)

E regresso ao elevador com a cidade a esconder-se nos braços da noite. No miradouro de S. Pedro de Alcântara, os corpos abandonam-se à languidez da tarde em bancos de jardim. Turistas lançam um último olhar e a descida recomeça. Da irlandesa e do sérvio não há rasto. Ter-se-ão perdido na grandeza de um espaço acolhedor e mágico, perdido na mistura do passado e do presente e na sua própria mistura. No elevador um grupo de turistas italianos, um casal de ingleses e brancos e pretos e morenos e louros e velhos e novos. A mistura necessária para que a riqueza intelectual e cultural prevaleça. Assim é o Chiado.

 (fim)

domingo, 27 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (6)

Adentrando a alma


E para melhor conhecer o Chiado há que deixar a Rua Garrett e adentrar as ruelas estreitas coroadas de vida entre estendais, flores e grinaldas alegres dos santos populares, coloridas com conversas inconsequentes à porta de casa, um pé na estrada, outro no passeio. Em três meses estava operada à barriga atira uma mulher rotunda a um homem com quem cruzava palavras. O tema tão comum neste fado lusitano, há sempre um achaque que nos consome a alma e apoquenta o corpo. Há quem lhe chame fado. E Lisboa assemelha-se então a uma aldeia longínqua divorciada do cosmopolitismo da urbe.
Num passeio fugaz pelo Largo do Carmo, lugar obrigatório e palco primordial da metamorfose política e social de Portugal a 25 de Abril de 1974, confirmo a idiossincrasia do largo. Relativamente pequeno, protegido pelos jacarandás e coroado por um chafariz, o Largo do Carmo oferece simultaneamente lazer e interesse turístico: anciãos jogam xadrez numa mesa de pedra enquanto turistas louros e alvos se deixam retratar por um pintor de ocasião com as obras penduradas pelo quiosque a um canto da praça. Do lado lateral o caminho estreito para mais uma vista sublime de Lisboa. Vale a pena. E continuo rua acima. O perfume a libertar-se dos fogareiros artesanais, agora mais intenso com o aroma da sardinha assada, não há Lisboa nem Chiado sem elas, e o odor carregado dos alfarrabistas.
Do outro lado da rua, o Solar do Vinho do Porto, a hora propícia para o néctar dos néctares, viscoso e aromático, mais abaixo o Cine Theatro Gymnasio oferece Fado aos turistas, obrigatório neste ou noutro lugar para quem quiser experimentar a alma lusa.

 (continua)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (5)

Papéis pintados com tinta

Logo no início da Rua Garrett encontra-se a Livraria Bertrand, uma das mais antigas livrarias de Lisboa. Proporciona desde 1773 puro deleite aos bibliófilos e aos amantes da leitura. Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Antero de Quental e Ramalho Ortigão contam-se entre os assíduos do espaço frequentado pela elite lisboeta em finais do século XIX.
Na esperança de encontrar bibliografia sobre a Lisboa, entro na Bertrand. Sou recebida por várias salas unidas por um mesmo corredor em que se respira a ancestralidade, o ambiente protegido e calmo, o aroma dos livros acabados de imprimir e o pó de vidas e séculos passados misturados num perfume só. Na sala onde me indicam livros sobre a cidade está para acontecer um evento. As mesas amontoam-se entravancando o livre acesso às estantes centenárias. Solicito ajuda e indicam-me os guias com os quais já me havia cruzado, alguns maus e com erros. O périplo pela afamada livraria revelar-se-ia infrutífero: sobre Lisboa apenas os livros banais da especialidade, sem outra alusão a obras que escolheram Lisboa como cenário e de que Afirma Pereira de Tabucci e Comboio Nocturno para Lisboa de Pascal Mercier são apenas exemplos. Uma falha imperdoável que atira Lisboa para os antípodas de algumas capitais europeias tão bem documentadas e que elevam a vida das suas cidades através da literatura. Lisboa merecia melhor.

(continua)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (4)

Quarteirão dos Escritores

Não é o Quarteirão dos Escritores mas podia ser. À minha frente e ainda na esplanada, contemplo o poeta Chiado. Ao meu lado, umas mesas abaixo, consigo ver Pessoa, também ele sentado à mesa n’A Brasileira, tomando um café que é tudo menos tranquilo. Duas mulheres abordam-no, pobre Pessoa, uma que timidamente se aproxima para que a outra lhe tire uma fotografia. Vão-se embora lestas, a cidade espera-as, acredito. Uma adolescente aproveita o hiato de paz e salta literalmente para o colo do escritor dos heterónimos. Duas fotografias envolvendo o pescoço do absolutamente indiferente Fernando António Nogueira Pessoa, nascido a 13 de Junho, data duplamente festejada no calendário alfacinha. Nunca em vida foi tão popular nem esteve tão acompanhado.
E continuando com os escritores: um pouco mais acima está “o poeta triste” no dizer de Eça. Camões que se ergue no Largo com o seu nome, com o olhar estático Rua Garrett abaixo, mais uma evidência da omnipresença dos escritores no Chiado, “o meridiano das artes e letras portuguesas”, Cardoso Pires dixit. Já na Rua do Alecrim, com a maresia do Tejo a perfumar “o manto diáfano da fantasia”, encontra-se Eça de Queiroz, nome incomparável das letras lusas e que terá cantado o Chiado como poucos. Camões, Pessoa, Chiado, Eça e Garrett misturam-se num ínfimo espaço físico, encontrando-se sempre além do que a superfície geográfica delimita. Não é o Quarteirão dos Escritores, mas podia ser.



(continua)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sem dia nem estação

O início do crepúsculo deixava uma aura dourada a reflectir-se nas janelas vinda de lá do lado do mar onde se anunciam os ocasos rubros do início do Outono. À minha frente caras desconhecidas, um primeiro contacto nesta aventura de regresso à escola após anos, décadas talvez, de interregno. E o sossego instala-se, um silêncio pontilhado apenas com o contacto do papel na carteira amarelada e o restolhar dos adereços femininos, os sorrisos que pairam como uma aroma suave a enlear a sala para dar lugar ao semblante mais concentrado na tarefa à sua frente. Lá fora o crepúsculo. Revejo os papéis no momento de acalmia, arrumo as sobras do silêncio e começo a leitura. Um nome. Um nome igual a todos os outros. Um nome que seria exactamente igual, caso mais dados não confirmassem a coincidência. Sussuro-me Que giro! É da empresa do Papá. Vou-lhe contar. E o resto é conhecido. Letras e letras desta ausência que atiro longe para lá do sol poente em início de Outono e me regressa sempre como um boomerang sem dia nem estação

Chiado, Tejo e tudo (3)


Lisboa que desfila

Enquanto peço uma bica sentada n’ A Brasileira ocorrem-me as linhas de António Lobo Antunes. O escritor íntimo de Lisboa declara o seu ódio aos semáforos “a principal razão que me leva odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro”. Embora me encontre tranquilamente sentada com a estátua corcovada do poeta Chiado à minha frente, longe de semáforos, a abordagem imediata, mal me havia sentado, de um homem reclamando uma contribuição para os doentes com SIDA, retornou-me as palavras do escritor. Dou-lhe uns trocos para que me deixe em paz, pouco convicta da sua sinceridade, ele esboça uma expressão insatisfeita. Nos dias que correm também Lisboa se rendeu a uma procissão de personagens características, em nada comparável ao sucedido décadas antes. Esta não é a Lisboa de António Lobo Antunes mais uma vez, um desfile de “microencefálicos, macroencefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes políticos, etc.”, mas é suficientemente incomodativa, contudo. O Chiado também é feito disto.


(continua)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (2)

Entre o Tejo e o casario

Situado entre duas das sete colinas de Lisboa, a de Santa Catarina e a de São Roque, o Chiado reparte-se entre ruas estreitas e avenidas que serpenteiam em várias direcções: a Baixa, o Cais do Sodré, o Príncipe Real, a Calçada do Combro que levará a outro local de passagem obrigatória para quem se queira aventurar além dos roteiros turísticos. Os olisipógrafos dividem-se quanto à origem do nome desta zona da cidade, oscilando entre a onomatopeia do chiar das rodas das carroças e o epíteto de António Ribeiro, poeta satírico do século XVI, o Poeta Chiado ou apenas o Chiado. O mistério é o condimento necessário para a perpetuação dos mitos. Pode ser neste caso também.
Facilmente alcançável por três elevadores, Bica, Glória e Santa Justa, datados do fim do século XIX, início do século XX, o Chiado é mais do que apenas um bairro. É também a língua de casario, de um lado a precipitar-se para o Tejo e do outro a espreitar a encosta íngreme de sacadas pombalinas, decadente e simultaneamente encantatória como em outras cidades crepusculares, Veneza ou Havana.
O Chiado encerra a história centenária de boémia, tertúlias, de passeios públicos onde a elite portuguesa do século XIX se passeava para ver e ser vista. Muito mais do que um bairro, portanto. “O Chiado não pode ficar resumido a uma efeméride, a um livro de ouro ou a um belvedere por onde passam as primaveras das Belas-Letras/Belas-Artes dum país. Está também na trajectória do nosso Pensamento Social e Contemporâneo, na evolução da nossa política e esse é um capítulo que lhe cabe em parágrafos de honra maior” diz-nos José Cardoso Pires em Lisboa Livro de Bordo, obra obrigatória para quem quer conhecer Lisboa. E tem razão.
Desde sempre o ponto convergente entre o povo do Bairro Alto com vidas aquém da moralidade vigente, a elite prestigiada, e o percurso peripatético de pensadores, escritores e poetas, o Chiado mantém essa diversidade. A reabilitação do Bairro Alto como um dos locais de culto da noite lisboeta, onde o alternativo se mistura com as tascas tradicionais com vinho a copo dissuadiu as mulheres de má vida e as varinas de Eça que “de canastra à cabeça, meneavam os quadris fortes e ágeis na plena luz” também já não moram ali. Pululante de um novo estilo de comércio, com pequenas lojas alternativas escondidas nas vielas encimadas por canteiros de gerânios rubros ou pungentes estendais de roupa alardeando a intimidade, o Bairro Alto constitui hoje um pólo atraente da cidade. Nada como perder-se a pé para melhor sentir a alma de um local como poucos no mundo.
(continua)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (1)

O céu plúmbeo sobre a cidade momentaneamente iluminado por umas réstias de sol deixa-se vislumbrar da parte de trás do eléctrico. Um homem jovem pelos trinta anos espreita pela janela confirmando a dissipação da intempérie inesperada em pleno Verão. Posa para a fotografia dentro do eléctrico quase vazio enquanto a companheira de viagem tira fotografias de ângulos diversos. Logo após é a vez dela. O homem revira os olhos num sinal de óbvio enfado. A mulher não se deixa intimidar. Vai pedindo fotografias várias, ora dentro do eléctrico ora fora, indiferente à pouca vontade masculina e mantendo em mente o seu objectivo: deixar-se fotografar dentro de um dos ícones da cidade de Lisboa e que a elevará a um ponto de onde a cidade se oferece sem pudores ao olhar curioso e perscrutador de turistas e viajantes.
Regressam ao interior do eléctrico. Pergunto-lhes se querem uma fotografia a dois, quando se viaja a pares falta sempre um terceiro que imortalize o momento. Acedem, aparentemente felizes. Ela salta para perto dele e coloca-se por trás. Um sorriso. Uma pose. Já está. Pergunto-lhes Where are you from? A mulher sorri e responde-me I’m from Ireland, he’s from Serbia para concluir com algum pudor We are a mixture. Respondo-lhe que também nós somos uma mistura, facto inegável de séculos de miscigenação. O elevador começa a marcha rua acima. Para trás a Praça dos Restauradores e, fazendo jus ao nome do próprio, inicia-se a Glória de uma subida reveladora a cada momento, uma urbe sobre sete colinas afinal tão convenientes a uma observação perfeita de vários pontos da cidade.
(continua)

sábado, 12 de setembro de 2009

Passado rasgado

Está na hora de arrumar. Arrumar, rasgar, deitar fora, limpar. Arranjar espaço no passado para que o presente flua. Atiro-me impiedosa aos papéis acumulados dias e anos, testemunhos do caminho trilhado, vozes silenciosas que me sussurram quando abro dossiers e os desventro do papel velho, fichas e trabalhos, textos, aulas e aulas, bocados da minha vida que tento a todo custo que se mantenham. E rasgo papéis. E textos, e fichas, horas e horas de conversa e debate, horas e horas a que abruptamente tive de dizer adeus um dia algures num Abril passado, tão passado, volvidos quase meia dúzia de anos, mas sempre presente. A memória que percorre os espaços da felicidade que já foi. Dias auspiciosos que se abrem perante mim. E rasgo papéis. E despeço-me de uma parte de mim.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Mal moderno

Diz que provoca irritabilidade, insónia, tristeza, dificuldade de concentração e lentidão. Há quem a sinta assim que começa a fazer a mala de regresso ao pátrio lar, uma espécie de modorra que se instala no corpinho hipoteticamente bronzeado dos veraneantes ou na alma teoricamente lavada por outras paragens e embalada no remanso de nada fazer, profissionalmente entenda-se. O corpo que se recusa a reagir ancorado nas férias como um burro teimoso. Há ainda quem seja acometido de ataques de mau humor súbito, um enraivecimento colérico gerador de impropérios largados como quem deglute prozacs e digassims em catadupa sempre na senda da cura para este mal moderno. Podia ser contemporâneo, é, aliás, contemporâneo, contudo esta mania que se instalou agora de epitetar de depressão ou de síndrome todos os estado de alma é característico de uma modernice bacoca. A mais recente é a depressão pós-férias ou também chamado síndrome pós-férias. A acreditar na “Única” desta semana, este mal, e que mal, passará algumas semanas depois do regresso ao trabalho. Não sei quando é que perdemos a capacidade de aceitar a vida como ela é. Tudo é passível de causar depressões, o regresso às aulas, o fim das férias, medos e fobias de coisa nenhuma e de todas as coisas mas que se não forem aceites como são podem transformar-se nesse mal dos males. Assim que assoma a primeira tristeza ou fanico da alma dorida, normal, diria eu, arranja-se sempre um síndrome, depressão também, que se lhe chame. Há que cumprir o fado, o destino de xailes negros e cantares tormentosos. Sem uma depressão nada se faz. Regressar ao trabalho é apenas regressar ao trabalho.

É oficial...

acabaram-se as férias.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Momento sitemeter (22)

Com um fisaleiro com o meu é quase imperdoável que não tenha aproveitado a safra infernal para um Doce de fisalis, a procura mais recente no contador de visitas deste blogue. Doce de fisalis nunca fiz, de facto, mas ainda sobrou um pedacinho do doce de abóbora, biológica, sem corantes nem conservantes e que resultou num manjar opíparo, lado a lado com o inevitável requeijão de Seia. Alguém é servido?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quatro anos de silêncio

Sentado no sofá, como tanto gostava e caso o gato não o disputasse com ele de olhar fixo e penetrante, orelhas perfiladas e um leve inclinar da cabeça para um dos lados, o meu pai seria incapaz de aceitar com calma os desígnios recentes deste nosso Portugal. Dono de um feitio apurado que, adianto, é genético e contagioso, o meu pai teria feito tudo excepto ficar impassível e, muito importante, calado. Primeiro uma crítica suave, cautelosa. Talvez na entrada Nonô, ouviste o Sócrates ontem? Depois em crescendo, Olha, tu ouviste-o ontem? sempre em crescendo Ai Santo Deus, as coisas que se dizem e depois a confirmação Palavra de honra, não têm vergonha? mais tarde a certeza Está pior que o Salazar, e a desilusão total Olha, nem no tempo do Salazar. Que tristeza! e a ameaça que nunca cumpriu Este ano não vou votar. E dias correriam. Ao que nós chegámos... Dias longos e breves, dias de sol e de Inverno. Dias e meses e anos. Estão completamente loucos. Perderam as estribeiras. E teria refilado. Retorquido. Sugerido. Comentado. Apontado. Criticado. Reprovado. Mas hoje, hoje só houve silêncio.

Setembro

Setembro. Mês nove, mês de transição efectiva entre a vida estival, os dias de nada fazer para a maior parte dos portugueses e os dias em que o dever laboral soa que nem uma sirene enfurecida movida pelas obrigações e responsabilidades. A minha sirene começou a tocar levemente, ouço um silvo fininho algo longínquo, porém bem mais perto do que ontem e claramente menos distante do que na semana passada. Aproxima-se lesta. Paulatinamente a vida retoma o ritmo que ocupará com mais ou menos intensidade nos próximos onze meses, a estação pateta e atoleimada arrumou as sandálias e chinelas, as calças de linho e os vestidos esvoaçantes no sótão das memórias artificialmente felizes que os meses fugazes de estio comportam.
Setembro é mês de transição entre o Verão e o início de Outono, estação das folhas caídas que cobrem o chão como um tapete acobreado e ruidoso nos parques e caminhos. Em Setembro, os dias tornam-se mais frios, menos longos, os pores-do-sol vestem-se de cores avermelhadas e são mais belos do que no pico do Verão. E Setembro é um dos mais duros meses que me conheço, crepuscular e sombrio, dia dois marca assim o calendário, dia dois, dia segundo de um mês que o tempo dita belo, a estação menos exuberante e mais comedida, as castanhas que se anunciarão lá para frente, o aconchego das roupas menos translúcidas prenhes de conforto.
Dia dois. O dia que apagaria de todo do calendário, caso apagar me fosse possível e caso apagar me devolvesse a luminosidade perdida nesse pedaço de mim que num dia dois de Setembro vi definitivamente partir e a quem vou dedicando as letras e palavras, lê-las-á?
Dia dois então. O dia a partir do qual a vida se dividiu em dois, antes e depois, e no depois as memórias saltam em catadupa, memórias apenas, lembranças, recordações que comigo estão para onde quer que vá e que se me impõem em instantes díspares e improváveis. Um momento que gostaria de partilhar, uma notícia a comentar, um livro para ler e a conversa de sempre em torno da língua de Camões, discussões que se advinham intensas e aguerridas.
Dia dois portanto. O dia em que entendi que a ordem natural das coisas é apenas a convenção, somente a crença irracional de que se socorrem os aflitos para que o dia-a-dia se torne suportável na ausência definitiva, a ordem natural das coisas -quem se lembrou de tal?- mais não é do que a mezinha possível para as dores da alma, a resignação perante os factos consumados. Ordem natural das coisas, dizem-me, que assim é: os pais partem primeiro do que os filhos, diz que é por isso que agora apenas posso dedicar estas palavras ao meu pai.
Dia dois pela tarde. Era Setembro.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Palavras

Palavras. Palavras que procuro. Palavras que me faltam sempre que a vida nos atropela e deixa com a certeza de que os desígnios são palavras vãs e conceitos sem sentido em tempo de coração apertado, com a ausência sentada em nós, o coração apertado com o torniquete da saudade tão recente. Mas procuro palavras. Palavras que possam confortar a C.. Palavras que a abracem com o carinho pleno da amizade e que amenizem o silêncio que a partida deixou. A morte é a curva da estrada, penso, morrer é só não ser visto. E morrer é só não ser visto, uma curva que aparece lá longe no caminho que trilhamos e que alberga os nossos ausentes, afinal tão presentes. Um dia voltará o sorriso, querida C.. Enquanto isso procurarei as palavras.