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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo

Concentremo-nos no essencial.
Harmonia, saúde, tranquilidade e perseverança para jamais cruzar os braços.
Feliz 2011!

Caprichos de uma máquina de lavar louça

Corria o ano da graça de dois mil e dez, vigésimo quarto dia do décimo segundo mês do ano, a vida nem estava a correr muito mal, apesar do atropelamento recente da minha gata sénior, quando abro a máquina de lavar e constato que nada, nadica, rién, nicles. A dita cuja não tinha cumprido a tarefa para a qual fora adquirida há uma década. O coração acelera, cruzes canhoto, o efeito que estes bichos electrodomésticos têm sobre mim, e começo a praguejar furiosamente com os meus botões, capaz de lançar insultos ao animal prateado que me tem dado tanto descanso P*&#a da máquina. Seguem-se os trâmites de sempre A máquina da louça não trabalha! Não trabalha? Não, pifou. Mas pifou como? Não escoa a água. Ai cum caraças. Logo agora. Chama o homem. Qual homem? O da máquina de lavar roupa. Minutos mais tarde. O homem só pode vir na quarta-feira. Quarta-feira? Sim. Diz que tem muito que fazer. E assim voltei aos primórdios. Louça, louça e mais louça, porque, como se sabe, esta malta electrodoméstica é muito caprichosa e dá-se ao luxo de pifar precisamente no único dia em que não devia, exactamente na véspera de Natal. E eis que chega quarta-feira. O homem não pode vir. Diz que tem muito trabalho. Quinta-feira. O homem diz que chegou agora de Lisboa. Só pode vir amanhã. Entre as 11 e o meio-dia está cá. Sexta-feira. Aqui a moicana levanta-se e pensa, enquanto lhe dá a preguiça matinal, a última do ano em dia de semana em que pode deambular pela casa despreocupadamente, vir à net, facebookar sem constrangimentos de horas e obrigações a cumprir, Tenho de me arranjar, o homem está aí a chegar. Arranjo-me. Desço à sala. Lindinha, lavada e perfumada. E espero e espero e espero e desespero. Homem nada, nicles, rien, népia. Agarro-me ao telemóvel O homem não veio. Liga ao homem. Minutos depois, a boa nova, o homem só pode vir à tarde, entre as duas e as duas e meia. Chegam as duas, passam as duas e meia, as três, as três e meia e de homem nem sombras. Nada, nicles, rien, népia. Atiro-me aos sonhos, faço a massa tenra para as azevias, facebooko um bocado e a campainha toca. Era o homem. Portanto, meus amigos e leitores, eis que me encontro aqui neste ecrã em branco, sitiada na sala a passar as últimas horas de dois mil e dez, enquanto as entranhas da bicha caprichosa são revolvidas e o homem mais desejado dos últimos tempos leva a cabo a tarefa epopeica de ressuscitar a minha máquina de lavar louça ao sétimo dia, que isto de ressuscitar ao terceiro é só para gente especial.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O passado num par de meias

Como boa portuguesa e cumprindo a tradição de deixar compras para a última da hora adentro um desses antros demoníacos de consumismo tão reprováveis por camadas dispares da sociedade: os elitistas que não se querem misturar com o povão exaltado e os alternativos que embora sendo do povão levam vidas zen desprovidas de hábitos materiais de tudo comprar e de desbaratar inanemente o vil metal.
Seriam umas três e meia da tarde, provavelmente a hora proibida com as férias escolares e os adolescentes aos magotes por todo o lado. O estacionamento revelou-se um massacre e quando estava mesmo a desistir, no momento preciso em que comentara com os meus botões, mais uma volta e vou-me embora, eis que uma alma caridosa se lembrou de me deixar um lugar. E estava tudo a correr relativamente bem, melhor do que seria de esperar tendo em conta o estacionamento difícil, mesmo depois de ter assistido a um homem de telemóvel em riste e de frente para os clássicos, fitando o Ben-Hur e a Serenata à Chuva afirmar alto e peremptório para a interlocutora do lado de lá Pronto, não compro nada. Este ano não compro nada para ninguém! quando por necessidade estrita entro numa dessas lojas que vendem meias, collants, leggings e outras coisas que se destinam aos membros inferiores. Depois de aproveitar uma promoção de cinco pares por x e incapaz de escolher mais cores, dirijo-me à caixa e espero pela minha vez de pagar. À minha frente uma mulher nos seus cinquenta anos, bem aprumada, estende um par de collants à empregada e ordena Um embrulho de oferta se faz favor. Não sei se por antecipação da crise negra que nos vai depauperar a todos no próximo ano, por forretice pura e dura ou apenas uma pungente falta de imaginação, a verdade é que tinha à minha frente a materialização do demónio de Natais pretéritos e de um Portugal pobre, cinzento e com uma enorme falta de imaginação onde os pobres homens eram brindados com meias e cuecas. O passado acabara de se revelar à minha frente e de regressar, ainda que tivesse sido feito um upgrade para uns moderníssimos collants. Um destes dias estamos a ir a Badajoz comprar caramelos e serviços de pirex castanho outra vez. Um susto.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Plano verdadeiramente produtivo para um dia invernoso

Esticar-me no sofá, ler, acender a lareira, comer. A ordem dos factores é arbitrária, logo posso começar por ler, a seguir esticar-me no sofá, comiscar algo, acender a lareira ou acender a lareira, esticar-me no sofá, ler e comer ou ainda comiscar algo, acender a lareira, esticar-me no sofá e ler os meus presentes de Natal. Vida boa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Com os dias contados

É velho, é gordo, usa sempre a mesma roupa, só trabalha dois ou três dias por ano, nada que abone em favor dele, nos tempos que correm há que trabalhar muito, estar muito ocupado e cumprir tarefas múltiplas com afinco, velocidade e stresse, muito stresse, tem barba, não apara ou retoca as sobrancelhas e, ainda por cima, como se as características citadas não fossem o suficiente, é míope.
Tem o péssimo hábito de andar permanentemente de barrete, igual se em casa ou na rua, aparentemente não se coíbe de coisa alguma entre estranhos, usa botas altas, o que, embora seja tendência corrente entre o público feminino seguidor dos ditames da moda, não torna o velho gordo a mais elegante das criaturas, alguém que o leve a um fashion stylist, não se lhe conhece outra roupa e desconhecem-se-lhe companhias, femininas ou masculinas. Passa a vida rodeado de animais, razão pela qual, muito provavelmente, é parco em palavras e profere ocasionalmente sons monocórdicos e repetitivos, aos três de cada vez.
Pode ser encontrado com mais frequência a partir de Novembro, embora já tenha sido avistado em Outubro, em Dezembro faz aparições frequentes em centros comerciais, na televisão, em revistas, folhetos publicitários, podemos encontrá-lo em esforços hercúleos pendurado em varandas, parapeitos, paredes de prédios e chaminés, mais uma vez, uma figura nada dignificante e pouco abonatória, teme-se acusação de home jacking, serve amiúde como arma de arremesso, uma ameaça constante à vida infantil, nos dias que correm é crime ameaçar crianças, há que lhes deixar fazer tudo o que lhes passa pela cabeça, e continua tranquilo cumprindo as tarefas costumeiras, ano após ano. O velho tem os dias contados, porém.
O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram, e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem.
O velho é gordo. Nestes dias, gordura é um pecado quase tão mau e hediondo como a velhice, dois pontos negativos imperdoáveis, velho e gordo. O velho será submetido a um intenso programa de cardio-fitness com um regime alimentar equilibrado com as percentagens sensatas de hidratos de carbono, fibras e proteínas.
O velho e gordo tem o péssimo hábito de ser transportado por renas, nos dias correntes, ninguém é transportado por renas, sob pena de ser processado pelas organizações de protecção dos animais e o velho adora compras, um comprador compulsivo sem comparação, outra falta reprovável particularmente em tempos de crise. O velho além de velho, gordo e comprador compulsivo tem outra característica inadmissível: a generosidade. Com tudo o resto pode viver-se. A generosidade não. O velho tem os dias contados.


Também no Delito de Opinião

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010