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sábado, 29 de janeiro de 2011

Anoitecer

Há uma tranquilidade silenciosa nos meses de inverno. Silêncio. Ausência. Noite.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Delights

Vinte e duas e cinquenta e nove marca o relógio deste ecrã em branco de onde escrevo. Do lado direito um livro que trouxe num fim-de-semana em Dublin, escolhido num dos raros momentos de total descontracção entre escaparates cheios de livros e silêncios entrecortados pelo passar de páginas tranquilo e passos quase cerimoniosos de impacto absorvido pelas alcatifas acolhedoras. Modern Delight chama-se. Breves textos sobre os pequenos prazeres do quotidiano, tudo aquilo que pode marcar a diferença neste continuum de dias e meses e anos a que se chama vida. E fiquei a pensar que prazeres são esses os que ainda mantenho deste caminho que se tornou num corrupio, permanentemente de cabeça cheia de burocracias e tarefas para cumprir, que prazer resta de dias e dias afogada e esmagada pelo cansaço.
Vinte e três e onze, confirmo. O crepitar da lareira e a noite de breu lá fora a embalar sonhos e a acalentar a esperança de um dealbar luminoso. Uma gata que se espreguiça. Pequenos prazeres.

Para que conste

Sou contra o financiamento do Ensino Privado pelo Estado, excepto em situações comprovadíssimas. Pronto. Ponto. Finito.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Crónica de uma falta anunciada

Sabem os deuses como me sabia bem quando os professores nesses tempos idos e quase esquecidos da minha escolaridade se lembravam de não vir. É que nem água vai, nem água vem. Nesses tempos inconsequentes em que ser professor era apenas isso e que não me fizeram mossa, os professores limitavam-se a não aparecer e mantinham vidas saudáveis de quem tinha mais que fazer do que deixar fichas para os seus alunos e matar as cabeças com insucessos, metas e estratégias para definir. As horas de falta dos professores eram passadas no remanso de nada fazer, deixar o tempo voar e saboreá-lo com a indulgência daquela hora em risada disparatada. Ora nos dias que correm os pobres dos meus alunos, a menos que eles próprios faltem, não sabem o que são esses momentos tão redentores de disparate adolescente, de desabafo inconsequente, de reflexões filosóficas sobre a descoberta do mundo todos os dias e não sabem porque desde que inventaram esta coisa das aulas de substituição, aparece-lhes sempre um moicano à frente, pode ser até de Matemática ou Filosofia. Lá vem ele contrariado, e como, de fichas em punho que o professor da disciplina diligentemente deixou para os seus alunos, não vão noventa generosos minutos de coisa nenhuma arruinar o ensino em Portugal e levar à ruína os saberes e competências dos adolescentes. Eu tenho pena dos meus alunos, oh se tenho, mas hoje sendo declaradamente o dia mais triste do ano deu-me uma pena miudinha de mim, minzinha, eu própria, essa mesmo. Quando quarta-feira a minha vida doméstica ameaçava ruir ruidosamente em espirros, febres, tosses e secreções nasais, decretei lá para o fim da tarde que não iria à escola no dia seguinte, resolvi os trâmites legais e fiquei em casa, doente, mas isso não sabia ainda na quarta-feira. Quando hoje regressei à escola, a funcionária abeirou-se de mim Professora, preciso de falar consigo e olhou-me com um olhar inquisitivo antes de me atirar A professora faltou na quinta-feira? Foi aí que me apeteceu gritar bem alto FALTEI! É que já não chega cada vez que se precisa faltar deixar fichas a rodos para a substituição ou deixá-las no dia-a-dia num dossier todo catita ou procurar um colega que o faça e enfrente os alunos contrariados ou deixar mil trezentos e noventa papéis, autorizações e formulários, já não chega a consciência pesada por o ter feito pela primeira vez neste ano, é preciso avisar também a funcionária? É preciso perguntar? Sim, faltei, Dona Belarmina, ao que a Dona Belarmina retorquiu simpática, Então e não me disse nada, professora? Ó pá, deixem-me da perna, deixem-me faltar. Deixem-me, pronto, vá.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

You will never walk alone

Homem e mulher. Duas almas que a partir de certa altura decidem partilhar alegrias, tristezas, pequenos e fugazes momentos de felicidade, chatices, contas a pagar. Ao longo da caminhada, um lema You will never walk alone, roubado algures de uma equipa de futebol, ou We´re in this together, não sei de onde fui buscar este último. E é tudo muito bonito, sim, juntos nisto e em muitas coisas, mas não incluía uma gripe a dois em simultâneo, os dois esticados no sofá, a recozer febres, soltar queixumes diversos, tosses, espirros e narizes choramingões, a libertar ais, sitiados em casa, à espera que a gripe, ai maldita, se vá. Não podia ser um de cada vez?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

Rodrigo

Era alto, alegre, meio desconjutado pelo crescimento rápido, muito bem disposto e tinha um sorriso feliz e genuíno. Tinha dezoito anos, o Rodrigo. A vida corria bem, apenas com os sobressaltos da adolêscencia. Contou-me a mãe ontem que depois de doze anos de escola, estava finalmente feliz com o curso, agora universitário. E foi Sábado pela madrugada. Um acidente brutal pôs fim à vida tão leve e sorridente daquele menino de olhar vivo e caracóis rebeldes. Não há palavras, não há colo que possa dar aos meus alunos, inconsoláveis pela perda do colega e amigo. De novo a total impotência perante o sofrimento de todos. Nada que se lhes possa dizer nem fazer. O tempo, diz-se e eu sei que sim. A brutalidade da vida começou agora e escolheu-lhes o Rodrigo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os pobrezinhos

Primeiro foi  Pedro Passos Coelho a dizer que, coitaditas das filhas, iriam ficar sem presentes de Natal. Bem lhes podia ter feito um corte de cinco a dez por cento, consoante o  valor do presente do ano passado, mas não nada, há uma crise, recessão, recessão e crise lá fora a terem de ser sustentadas. O deputado pobrezinho, o miserável que queria ir às sopas da Assembleia da República, o tal que nem as ajudas de custo lhe valiam, isto para não falar no ordenado, também me fez pena, estive até para lhe levar uma sopinha, pobrezinho, ou um fatinho velho que ajudar os pobrezinhos é bom, limpa a alma e arreda os pecados. Há pouco, bem há pouquinho, e ainda estou debulhada em lágrimas e abalada pela miséria galopante destes que nos governam e aspirantes a governantes, foi o candidato, porque nos últimos tempos aquele que está acima de todos, deixou de ser Presidente para ser candidato e terá sido nessa condição que elucidou uma transeunte numa acção de campanha. Agarrado à sua risonha Maria, atirou à mulher atenta que a sua Maria, outra desvalida, tinha trabalhado a vida inteira e que recebia de reforma uns oitocentos euro e que tinha de ser ele a sustentá-la ou a ajudá-la, varreram-se-me as palavras com a tristeza e o coração apertado. Uma miséria. E ninguém dá a mão a estas pobres almas? Um peditório nacional? Uma campanha de recolha de bens?



Nada como confirmar aqui.

Deixemo-nos de eufemismos

País de merda.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

...

O que aparentemente seria um momento tranquilo transformou-se num corrupio incessante. Foi na segunda-feira, no tempo do meio da manhã, quando nada faria prever que havia de ficar esfalfada, estoirada, extenuada, literalmente exausta de tanta correria. E foi tudo isto porque me lembrei de pedir aos meus alunos de Alemão que redigissem um pequeno texto e por pequeno texto entenda-se maia dúzia de frases em que teriam de descrever sumariamente a sua rotina diária de adolescentes irrequietos. Ora aqui a professora é rapariga que não gosta de ficar sentada naturalmente mas ao escreverem as primeiras linhas os seus alunos foram acometidos de todo o tipo de dúvidas, inquietações metafísicas quanto a verbos de partícula separável, reflexos, ordem inversa e sabe-se lá mais o quê. De modo que houve  reclamações Stora, já a chamei há muito tempo, amuos  A Stora não me liga nenhuma e também ciúmes A Stora ligou primeiro ao Francisco, mas eu já a tinha chamado há mais tempo. A professora exigiu paciência, apelou ao coraçãozito transbordante dos seus meninos, lembrou-lhes que era importante que tentassem sozinhos, relembrou-os de que são muitos, duas dúzias e mais três almas, mas pensou assustada ao fechar a porta depois do último bem disposto e esfomeado Adeus, Stora e a versão alemã Tschüss! Auf Wiedersehen! como será daqui a uns anos, de onde irá buscar energia para atender a tantas solicitações. E fechou a porta.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Janeiro

O Natal já passou. A Primavera vem longe. Chuva. Frio. Humidade. Espera longa por dias mais luminosos. Janeiro.