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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vêm aí os russos (6)

E no último dia o sol brilhava sobre o Moscovo, estava aberto e não havia fila. Uma última manhã e uma última oportunidade. Diz Kaminer mais uma vez que só os estrangeiros lá vão. Os holandeses também dizem o mesmo dos coffee shops e outros povos dirão o mesmo dos que lhes provoca embaraço ou desconforto. À minha frente estava a oportunidade de ver o morto mais famoso do planeta, aquele que é levado para que lhe façam a manutenção, pobre Wladimir, nada como tinha desejado, e que também já foi objecto de controvérsia. A última vez que vi um morto assim venerado, mas por outras razões milagreiras, foi a Santa Maria Adelaide, uma vez que a minha avó paterna se cobriu de fervores religiosos, mas não me consta que lhe façam manutenção, pobre mulher. Seria rápido, estar na fila para ver mortos nunca foi meu lema e mataria -verbo curioso, logo aqui - de uma vez alguma curiosidade mórbida. Sim, é verdade. Malas, carteiras, máquinas fotográficas e telemóveis extirpados dos visitantes e eis que me vou aproximando do lado de dentro dos muros do Kremlin, lá onde via desfilar as paradas a preto e branco encimadas por Brejnev e outros camaradas. A memória colectiva de que sou feita. Instantâneos da História. O mausoléu é um monstro de basalto negro no interior e que tem a capacidade de nos fazer sentir pequenos, mínimos, assim que descemos as escadas. E ei-lo. Iluminado no centro da sala, o boneco de cera mais famoso do mundo: Vladimir Ilitch Lenin. Alguém achará que ali ainda está o homem? Saio do mausoléu e entretenho-me a ver as pedras tumulares dos falecidos, um esforço sobre humano, este de decifrar o cirílico, um enigma que ao longo dos dias se foi desvendando e que alimenta a aura de uma cidade que não se deixa possuir, orgulhosa e imponente.
E está sol. A Catedral de São Basílio em contra luz, é quase meio-dia, e os turistas juntam-se em busca do ângulo certo, é sempre assim no mundo. Saio pela mesmíssima Porta por onde terei entrado há uns dias atrás. Há bancas de matrioskas e chapéus de pêlo. Experimento um vermelho, giro e exótico, e penso, Mas onde é que eu vou com isto? O rapaz que os vende arranha inglês, pergunta-me a nacionalidade e solta umas palavras em português. Igual, afinal, igual a todos os comerciantes do mundo. 
E digo adeus a Moscovo. Irei voltar?


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sábado, 27 de agosto de 2011

Vêm aí os russos (5)

Foi acaso puro o que naquele dia de Dezembro gélido me levou a estar frente a frente com os frescos na Karlskirche em Viena. A igreja estava a ser restaurada e havia andaimes. Podia chegar-se bem perto, ver com outra acuidade. Esta subida aos céus, entre anjos e a mãe de Cristo, deixou-me inquieta. Havia algo de sensual naquelas imagens que se queriam bentas, talvez por serem gorduchas, a antítese da imagem quase assexuada que fazem passar de expressões sempre piedosas e infelizes. Em Moscovo não precisamos de subir aos céus para nos deixarmos surpreender. Ao contrário de muitos outros sítios, em Moscovo há que descer às profundezas e adentrar as entranhas da cidade. Lá onde o povo segue as suas vidinhas, iguais a todos as outras, longe da luz e do sol, onde todos podem usufruir da arte e do sublime. E contudo tão assombrosamente belo. O Metro, pois claro. O Metro de Moscovo é um daqueles lugares que devíamos ver uma vez na vida. Mandado construir por Stalin, foi inaugurado em 1935 e ultrapassa tudo o que por aqui se poderá dizer. Há lustres, painéis de azulejos e vitrais, abóbadas trabalhadas, tectos com medalhões, estátuas. Já estive em museus mais feios e com mais fama. E eles lá passam, os russos, ensimesmados com as suas interrogações. Tê-las-ão? Lá andam nas suas vidinhas, passando para cá e para lá com um destino definido. Indiferentes. Nem um olhar sequer. Aqui é muito fácil detectar os estrangeiros. Viram as cabeças para o ar, fazem voltas de trezentos e sessenta graus, e deixam cair o queixo literalmente, uns convictamente de máquina fotográfica em punho, outros com elas esquecida, como um pedaço inútil que lhes cai do braço. Impossível abarcar tanta sumptuosidade. Quanta beleza. Mas não para os moscovitas. Não querem saber da Kievskaya. Caminham sem um olhar na Mayakoskaya e a mantêm as carrancas inexpressivas na Novoslobodsakaya. Abrem apenas uma excepção para os cães da Ploshchad Revolyutsii. Dizem que dá sorte fazer uma festa no focinho dos cães de bronze que acompanham as estátuas do povo soviético ali retratado. Eles cumprem, quem diria, e os focinhos estão reluzentes. Por via das dúvidas também eu fui lá dar uma afagadela, gosto de cães, até dos de bronze, isto na impossibilidade de me ter alongado horas perdidas de estação em estação, tanta harmonia, quase apetece dançar uma valsa na Komsomolskaya. Belo. Belo. Belo. Tudo ao nosso alcance, apenas com um simples bilhete de metro, tão barato e tão para todos. Muito bem. Estes russos não param de me surpreender.
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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Vêm aí os russos (4)

Diz Wladimir Kaminer no seu último livro Meine russischen Nachbarn, ‘Os meus vizinhos russos’, infelizmente não traduzido para Português, que eles, os moscovitas, podem ser simpáticos, educados e inteligentes. Só não podem sê-lo todos os dias. Naquele dia não era o dia. Talvez no dia seguinte ou no anterior. Aquele não. Quando me dirigi ao balcão que indicava em parangonas, também em Inglês Turismo da Cidade de Moscovo, a russa do lado de lá, loura e de olhos cristalinos, espetou-mos como uma farpa. Arranhando um inglês bárbaro, mostrou-se indisponível assim que lhe estendi o mapa para que me indicasse algo. Não podia, agora não. Irritada perguntei-lhe se não era o turismo da cidade de Moscovo. Que sim, blá blá blá. Que eu fosse à recepção. Enquanto isto e depois dos episódios anteriores arranquei-lhe o mapa das mãos, furiosa quase irada, e fui à minha vida assustada. Estaria a ficar como eles do convívio? Nem eu me reconhecia. Kaminer também diz que queixar-se de Moscovo tem uma grande tradição e que entretanto se tornou numa evidência. Ele lá saberá. O escritor entretanto de nacionalidade alemã mas russo de nascimento, foi para Berlim no início dos anos 90 e lá ficou a contar as suas histórias na cidade alemã. Sabe bem do que fala.
A vida moscovita também é feita de prazeres. Passear no GUM é um prazer. Aos fins-de-semana, os moscovitas, neste aspecto tão parecidinhos com uma certa camada de lisboetas, rumam ao Centro Comercial. Não que não o frequentem durante a semana mas ao fim-de-semana é muito concorrido. O GUM não é apenas um centro comercial, dir-me-ão. Certo. Centro comercial fica numa outra praça ali bem perto num espaço subterrâneo e tem detector de metais à porta. Que encorajador. Construído nos anos vinte do século passado, o GUM é deslumbrante e luminoso. Faz lembrar uma estação de comboios com os tectos abobados e translúcidos. Surpreendente que num país que se queria comunista houvesse a preocupação deste fausto, sendo o mesmo válido para o Metro. O povo merecia o melhor. Pena que o ideal se tivesse desvanecido com o tempo. Os moscovitas aproveitam o GUM para várias coisas, fazer compras é uma delas, assim haja rublos que aguentem, a outra tirar fotografias ao lado de um carro de alta cilindrada ou lá o que era que estava em exposição lá dentro, coisa mais disparatada, e a outra deixar-se fotografar em poses várias, de preferência nas pontes que unem os vários corredores quase em mezanine. Muitos levam fotógrafo, par, ramos de flores e desabrocham em caras e carinhas, sorrisos não, as mulheres exibem as suas poses mais sensuais como se quisessem seduzir a máquina fotográfica e em qualquer momento lhes lambessem a lente. Tudo devidamente registado para mais tarde recordar. E casamentos. Depois de um breve périplo pela Praça Vermelha para a fotografia da praxe há que rumar ao GUM para se deixar fotografar, noivo, noiva e convidados num número nunca superior a cinco, com a Dior lá no fundo, a Furla, ajudem-me que sou pouco entendida nessas marcas da moda. Sim, os russos gostam da moda, do fausto, da afirmação e da ostentação. Quem diria que poderiam afinal ser parecidos com os portugueses.

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Vêm aí os russos (3)

Estava sol, dizia eu, e a primeira vez que pus o pé na Praça Vermelha, senti a natural felicidade que os turistas encontram quando finalmente se vêem frente a frente com os seus objectos de amor ou de desejo. Podem ser praças, estátuas, quadros, monumentos ou pedaços seja do que for desde que no seu universo de gente inquieta funcionem com um íman que geralmente arrecadam com convicção em pedacinhos de papel brilhante ou ficheiros em cartões de memória. A Praça Vermelha funcionava como um íman. A Praça Vermelha e a Catedral de São Basílio. Saídos do metro foi só virar à esquerda, felizmente desta vez mantivemos as bocas fechadas e seguimos o mapa, não fossem descompor-nos logo no primeiro dia. E sim, a Praça Vermelha é a Praça Vermelha. Imensa e imponente, ladeada pelo Kremlin e pelo GUM, os anteriores Armazéns do Povo. Estonteante e contraditório. Belíssimo. Impossível não gostar. Do lado direito o Museu da Cidade, um lindíssimo edifício em tijolo vermelho, não é daí que advém o nome da Praça, e do outro lado, uma igreja muito pequena mas venerada por quem passava à porta. Com três dedos os russos faziam o sinal da cruz mesmo sem entrar na igreja. Beatões, portanto, muito religiosos. Há que compensar o tempo perdido do materialismo soviético. Entrei na igreja, de cabeça coberta, esta que vos escreve é desbocada mas respeitadora, e pasmei com a beleza dos ícons e pinturas douradas bizantinas. Havia de me acontecer o mesmo no Kremlin. Um espanto completo, não que a religião me esmague, não me esmaga nunca, mas a arte bizantina é estranhamente acolhedora. Não há estátuas de santos condoídos, imagens terríveis de sofrimento , esgares de dor ou fervores mistícos a que as igrejas católicas me habituaram. Os serviços religiosos nas igrejas ortodoxas são sempre de pé, provações que os bentos e crentes  terão de passar, se o forem verdadeiramente, e as mulheres têm sempre a cabeça coberta. E era quase Páscoa. As igrejas tinham muita gente. Que beatos, estes russos. Curioso, penso quando ponho pé na rua e respiro o ar refrescante desta manhã de sol moscovita. Mas voltando atrás. A Catedral de Kazan alberga o ícone da Nossa Senhora de Kazan e é uma das mais importantes igrejas na Rússia e esteve ali desde o século XVII até aos anos trinta do século passado. Algures por essa altura, Stalin, esse rapaz que não era russo mas era soviético, precisava de espaço para os desfiles militares. A Catedral estava-lhe no caminho, uma maçada, a Catedral e as portas por onde tínhamos entrado, a Porta da Ressurreição. E que outra solução se não demolir? Só nos anos 90 os moscovitas voltariam a ver a Catedral na Praça Vermelha. Não admira pois a devoção. Aqui  e em todo o lado, pela mesma razão: os anos 90. A mesma sorte de negregura e ressurreição teve a Igreja de Cristo Salvador. Uma igreja branca enorme de cúpulas douradas fulgurantes. Avista-se à distância em alguns pontos da cidade e foi reconstruída  de raiz com o dinheiro do povo. Também. Monumental mas demasiado estridente para o meu gosto ou não fosse obra de Zurab Tsereteli, o controverso arquitecto que parece viver à margem do 'less is more'. Por dentro e por fora a igreja impõe-se demasiado. Esteve a mais também. Depois da morte de Lenine iria ser erigido ali o Palácio dos Sovietes, justamente naquele lugar, exactamente naquele sítio. Uma pena a igreja estar no caminho.Teve azar, portanto, a igreja original construída no Século XIX como agradecimento por Napoleão se ter retirado e esperou-lhe a mesma sorte que a Catedral de Kazan e a Porta da Ressurreição. Saiam-me da frente. Igrejas, pessoas, monumentos. É surpreendente que a Catedral de São Basílio tenha sobrevivido a estes ímpetos. Safou-se por pouco, sabe-se. E se o destino a tivesse trucidado, os russos modernos te-la-iam erigido dos escombros em busca dos seu passado. Ai, os russos, os russos.

 Catedral de Kazan.

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Vêm aí os russos (2)

A manhã estava agradável. Céu azul, não muito frio, nada que um cachecol e umas luvas não resolvessem, mas os russos não são rapazes que se deixem impressionar pelo sol e céu azul. Colhi esta impressão logo pela fresca, quando decidi dar um salto à Praça Vermelha. Não era longe, tinha lido, umas três ou quatro estações de metro, uns quinze minutos de viagem. A Partizanskaya não é a mais bela das estações de metro, uns dias à frente perceberia na plenitude por que é que o Metro de Moscovo é tão famoso, mas era monumental e grandiosa e reparei, quando desci pelas escadas, que tinham deixado cravos vermelhos nas estátuas erigidas aos soviéticos que resistiram aos nazis. Afinal têm coração, os russos. Terão sorrido? A mulher que estava a vender bilhetes nesta estação não sorria. Era cedo e estava uma manhã bonita, mas ela permanecia carrancuda lá no casinhoto escondido e quando os três espanhóis à minha frente, duas mulheres e um homem, pediram bilhetes, ela desabou em ira. Gritos, raiva, esbracejar. Os pobres espanhóis pareciam cada vez mais pequenos e atarracados perante a explosão de fúria da mulher que usava uma bata de empregada doméstica. Atrás de mim, alguém se impacientava e depois de vociferar algo, fugiu para outro guichet. Bem-dispostos e pacientes. Quando chegou a minha vez, usei da táctica já usada no dia anterior no restaurante e com os dedos indiquei o número de bilhetes. Nem bom dia nem sorriso. Nem obrigada nem por favor, das poucas palavra em russo que tinha treinado em casa. Conseguimos. Há que ser bruto portanto. Quando cheguei à Ploshchad Revolyutsii ia cansada do episódio matinal, tanta ira e impaciência, e pensei que raio de gente, sim que raio de gente aquela.
Pensei isto outra vez numa outra manhã. Desta vez não foi no metro. Desta vez meteu-se-me na cabeça que para vencer distâncias talvez não fosse má ideia ir de autocarro. Saquei do inefável Top10 Moscow e confirmei, sim, ali, na parte de baixo da Catedral de São Basílio, antes da ponte, passava o autocarro que nos levaria ao destino, desta vez sem estação de metro perto. Chega o autocarro. Uma carripana velha com um homem magro e seco de cabelo grisalho ao volante. Estendemos-lhe o dinheiro e eis que irrompe num episódio de ódio sem precedentes. Mais vociferar, mais berrar, mais esbracejar. Uma verdadeira sorte não perceber russo, o que não sabemos não nos pode magoar, mas pressenti que não nos estivesse a elogiar, sim, que manias tinham os estrangeiros de visitar Moscovo. Depois de lhe darmos mais dinheiro, o ser vociferante e irado calou-se. Quanto ódio. Tanta ira até lhe faz mal. Os russos não gostam de estrangeiros. Nem de manhãs.

 Partizansakaya.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Vêm aí os russos (1)

Os russos, querida Io, os russos.
Da janela do avião avisto as palavras inconfundíveis como um frenesi inesperado, uma pequena centelha no coração, o passado que nos cutuca. As palavras que durante a minha puberdade e adolescência apareciam amiúde na televisão a preto e branco, sempre a preto e branco, lia-as agora ao vivo, mas não a cores, um manto cinzento cobria o céu sobre Moscovo indiferente às palavras da adolescência e ao pequeno frenesi de mais uma vez me encontrar com a memória e cumprir um desejo antigo. Москва. Seguindo fielmente as indicações de sites e livros, guias e outros pedaços de escrita, reservámos pela net um táxi. Do lado esperava-nos um homem jovem, talvez nos quarenta, com um cartaz com o meu nome. Cumpridas as formalidades, cumprimentos e boas tardes, seguiu à nossa frente, impávido, sem um sorriso ou algo que pudesse indiciar, sei lá, como lhe chamar, um contacto amistoso, o sorriso tão comum entre outros povos deste mundo em ebulição. Nada fez mover o russo. Uma verdadeira parede de aço. Nem sequer um gesto cordial para ajudar nas malas. Não que fosse antipático ou grosseiro, não, ainda não. Uma total ausência de emoção, de sentir, de tudo o que tivesse a ver com a parte sensorial da vida, os músculos da cara hirtos, não sei se também o coração. A russa seguinte com a qual contactei, era uma mulher pequena, algures nos cinquenta anos, de olhos azuis e cabelo louro e não falava uma única palavra de Inglês. O facto de se estar numa zona turística, com alguns hotéis em volta, tão soviéticos como soviético se pode ser, ou não tivessem sido erigidos para albergar os atletas das Olimpíadas de 1980, as tais em que o Mischa foi estrela. Ao entrar no restaurante e meter a cabeça perguntei Do you speak English? A mulher sorriu, uma lança em África tendo em conta o russo anterior, a parede de aço impassível durante quase duas horas pelos arrabaldes de Moscovo, e respondeu No English. English Menu! Pronto estava safa. Quando veio o "English Menu", apenas uma parte estava traduzida e como! Portanto restava-nos um ou dois pratos de galinha, salmão e pouco mais. O sítio era aprazível, pequeno, cheio de fumo, essas modernices da Europa ainda não chegaram à Rússia, com mesas de madeira e um ambiente acolhedor. A língua não era problema ali. Bastava-nos um sorriso, o dedo indicador sobre o palavreado que nos iria saciar a fome depois da viagem longa, e mais dedos para indicar a quantidade, um, dois, três. Havíamos de voltar.


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Factos da vida


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Oitenta páginas depois...

acabei a minha avaliação. Não vou ser melhor profissional, não vou ser promovida, não vou aprender nada, nem sequer uma palmadinha nas costas, uma festa no cachaço ou um biscoito crocante delicioso Good, good girl! Nicles. Não vou receber mais. Zero. Dias perdidos apenas em gabarolices estéreis. E uma frustração. Uma enorme frustração de ter estado a trabalhar para coisa nenhuma. Horas perdidas. Tempo estúpido.

O meu vizinho, o copromanta

Os livros, ah os livros! Companheiros de jornada e deslindadores de mistérios, chaves para os enigmas do mundo. Penso nisto enquanto saio de casa e a presença daquele monstro que vem despejar a fossa se me atravessa ao caminho e cumpre a função para que foi chamada: esvazia a caca da vizinhança. Vou pensando que terá sido feito dele. Vivia algures lá na outra aldeia que me acolheu madrasta durante um ano mal medido, tempo a mais para sítios hostis, e de vez em quando avistava-o da janela. Depois de dar umas voltas ao quintal de sua casa, verificando de caminho, abóboras e feijão verde, favas se fosse tempo delas e couves caso o Natal estivesse perto, parava junto à fossa. E olhava. Sendo adepta de que quanto mais se mexe na caca pior cheira, aquele comportamento permaneceu durante um tempo um enigma insondável. Que diabo. É que havia um campo em volta. Ele havia flores, silvestres e das outras, estrelícias, por exemplo dão-se muito bem por aqui, ele havia passarinhos, cães a ladrar, galinhas a cacarejar, patos a grasnar e perus, se o Natal surgia lá ao fundo na curva de Novembro. E havia o silêncio tão próprio do campo, sem carros nem trânsito, ausente dos bulícios das urbes endiabradas. E a fossa, o entretêm preferido deste peculiar habitante da aldeia. Quando vinha o homem da fossa, com a carripana para purgar o bicho, o homem observava com acuidade o processo, mantendo-se perto. Mas estava tudo lá. Naquele livro que terei comprado algures no Brasil, estava escarrapachado o deslindar do mistério, já que Jonas, a personagem principal, era um copromanta. E que será isso? Ora, um copromanta é alguém que lê o seu futuro nas próprias fezes, sim, muito nojento, mas o que era o meu vizinho se não um copromanta? Está para se saber se não lhe terá saído o Euromilhões depois da copromancia dedicada nas sucessivas observações à sua querida fossa ou se terá por estes dias um programa de televisão a adivinhar o futuro alheio. Os livros, ah os livros, dizia eu.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Leonor à rasca

E aqui estou numa noite de Agosto, agarrada ao computador, escrevendo, reescrevendo, apagando, cortando, acrescentando. E podia ser um texto interessante, uma historieta das que me saltam ao caminho quando estou de feição e bem-disposta. Mas não. Descodifico nacos de prosa burocrática como 'O docente revela uma atitude informada e envolve-se de forma participativa e interveniente face às políticas educativas' e pergunto-me como raio quererão eles que eu prove isto. E faço isto? E é importante para que um professor seja um bom professor: consciente, atento, competente? Escrevo pois o meu relatório de auto-avaliação, uma pérola de gabarolice, não há outra forma de o fazer, ah, boa, tão boa eu, tantas coisas que fiz, a antítese de se ser professor. Sou eu que tenho de fazer os meus alunos brilhar mas não sou que tenho de brilhar. Eles. Eles é que são o importante. Se serei melhor professora depois disto ou se terei qualquer recompensa por fazê-lo, sei que não,  fá-lo-ei, contudo, linda e obediente, a abanar a cauda sem latidos nem uivos. Good good girl.

O relicário da memória

Há livros estranhos. Há aqueles que nunca devíamos ter lido, aqueles que nos deixam a lamentar o dinheiro desperdiçado quase como uma traição perpetrada pelo escritor, sim, como foi capaz de fazer uma coisa daquelas?, os que lemos e relemos, companheiros que dormem connosco sonos grandes na mesa-de-cabeceira ou que ficam inadvertidamente na cama entre voltas e sonhos inquietos, os de que nos esquecemos quase a seguir à leitura e permanecem apenas em traços largos num enorme borrão indefinido, os que nos deixam frases e expressões que procuramos desesperadamente quando nos fazem falta ou os que deixamos com post-its para que seja mais fácil encontrá-las. Há ainda aqueles que mesmo não sabendo muito bem porquê não nos largam. E este foi um desses.
O livro é um catálogo de Museu erigido pelo amante à sua amada. Um altar de recordações coleccionadas ao longo de décadas, um santuário de pequenas relíquias, o cadinho das memórias perpetuadas. Uma longa e sofrida declaração de amor no masculino. Tão surpreendente sempre. E depois há o tempo, o tempo de mudança em Istambul e na Turquia, o relato de décadas de história, entrelaçado em Kemal e Füsun, as personagens principais. E depois há a cidade. O périplo constante por Istambul, um daqueles livros em que podemos pegar num mapa e situar, seguir, caminhar, calcorrear os locais com as personagens. Subir e descer ruelas, sob a presença altaneira dos minaretes e o cantarolar dos muezzin, o Bósforo sempre a espreitar numa das cidades belas, contraditoriamente belas e caóticas. Que terá aquela cidade? E depois há hüzün, sentimento de nostalgia que quase podia ser saudade. Muito, portanto. E fiquei no livro. Meses depois de o ter devolvido à estante ainda estava no livro. E em Kemal. E em Füsun. E em Istambul. Perdida na visita a 'O Museu da Inocência'. Uma parte de mim ficou ali. A cidade talvez. Quem sabe o amor.


Orhan Pamuk, O Museu da Inocência.


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domingo, 21 de agosto de 2011

Sul

Dentro de mim faz Sul*. Penso nisto enquanto me abalanço fora de casa, para lá das portas, junto à relva e às hortênsias e um vento quente me cumprimenta sem cerimónias. E há uma reminiscência desse Sul de que tanto gosto, o cliché já usado anteriormente da porta do avião que se abre e a humidade tépida que beija o corpo**, um perfume que se cola a nós inebriante e a certeza quase imediata da felicidade. Estranha sensação, a de que apenas um bafo quente e húmido, um perfume de terra molhada e um vaguear imenso de chinela no dedo, acompanhado de silêncios partilhados e gargalhadas cúmplices nos bastaria para a plenitude. Mas faz Sul em mim. Quando rumo a Sul, esse que em mim faz, há uma janela de fugazes sensações lânguidas e despreocupadas que se abre, um eterno espreguiçar entre cigarras e ocasos cintilantes. Abro a porta. Lá fora é Sul. Como cá dentro.

* Usurpado do título de um livro do Ondjaki
** Miguel Sousa Tavares no livro Sul

sábado, 20 de agosto de 2011

A fé ou a falta dela

Aquela manhã de Abril em que se abriram as portas dos Museus do Vaticano foi neura, neura furiosa e irritada. Afastei-me para o Pátio e deixei-me acalmar de máquina fotográfica em punho esperando que se regressasse a tranquilidade que tanto desejo em férias ou fora delas. Nem uma palavra trocada, acredito que teria um semblante daqueles de afastar até os insectos indesejados e caso alguém me tivesse dirigido uma palavra teria irrompido em impropérios coléricos. E sei que isto é um lugar-comum, qualquer pessoa minimamente inteligente se revoltará contra a riqueza e exuberância de uma religião que advoga o despojamento físico, a pobreza como forma de atingir um outro estádio de qualquer coisa, e depois ostenta a riqueza que todos conhecemos. Contudo não consigo deixar de me indignar e por isso compreendo que as pessoas se manifestem em Espanha contra os gastos absurdos que a visita do Papa implica. Numa altura de tanta austeridade seria desejável que o dinheiro fosse empregue em outras coisas, não para dar vivas ao Papa. A este ou a outro qualquer. Mas isto sou eu que me comovo mais em frente à Noite Estrelada de Van Gogh do que sucumbo a ardores de fé em qualquer altar do mundo. Se a religião fosse um clube já teria entregue o cartão de sócia há muito. Algo me escapa nos fervores místícos de dar vivas a um padre.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Como o amor

As cidades que amamos são como os homens que amamos. Nem sempre conseguem dizer a palavra certa no momento certo, nem sempre estão lá quando precisamos daquele incentivo lamechas de que as mulheres tanto gostam, por vezes deixam as meias desapernadas pelo quarto, os sapatos desarrumados a um canto, há dias em que se remetem a silêncios profundos e prolongam os cigarros fumados em quietudes próprias, excluindo o que se encontra em volta numa redoma intransponível. E, contudo amamo-los, porque nesta forma peculiar de amar não nos deixam e caminham de forma discreta mas consistente a nosso lado sem alardes exuberantes. Como as cidades de que gosto. Nem sempre demasiado belas, nem sempre arrumadas, raramente exuberantes e sempre mas sempre com a dose certa de mistério para que o amor se cumpra. Dificilmente amarei algo que compreenda na plenitude. Há um desafio permanente nesta centelha enigmática que me vai iluminando os dias, algo intangível que me mantém na esperança de tudo compreender. Praga é bela, demasiado bela para o meu amor. Pouco enigmática. Que há mais naquela cidade além da beleza arrumada de ruelas e pontes? E por tudo isto, caio de amores por Berlim. Não é demasiado arrumada, a espaços surgem desalinhos vários, desarrumações e espaços de fealdade abertos aos olhos do mundo. Não é demasiado bela portanto. Lá longe dos olhares dos turistas há lugares onde não há beleza, e, no entanto, a cidade tem lugares deslumbrantes como Kollwitzplatz ou Gendarmenmarkt, cada uma à sua maneira, praças que nos embalam na leveza de dias felizes de uma bebida descontraída entre risadas e mãos que se procuram, dedos que se enlaçam E há pedaços surpreendentes como Postdamer Platz, a sensação quase de vertigem de uma outra vivência, mais dramática na metamorfose completa. O amor também se metamorfoseia. E há espaços que doem na memória, todos os amores têm lugares que doem. Há marcas que nos surgem enquanto calcorreamos caminhos, murros no estômago que nos apanham desprevenidos para nos lembrar que há uma História e estórias. E caminha a meu lado. Eu caminho a seu lado. Praga é demasiado bela. Berlim suficientemente humana. Como o amor.

Ah a vaidade!!!

Serve este singelíssimo post para agradecer a simpatia do Pedro Rolo Duarte ao eleger aqui A Curva da Estrada como o Blogue da Semana. Muito obrigada, Pedro. É um óptimo incentivo para continuar a escrever.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O meu reino por um par de óculos

A idade tudo traz. Além dos despencanços que diariamente observo nos parcos minutos em que me relaciono com esse objecto que me mostra o que não quero ver, o meu odiado espelho, fui acometida de algo que não poderei negar durante muito mais tempo: incapacidade de ler ao perto. Presbiopia, dizem os entendidos. Por mais que estique os abraços e afaste os objectos de mim está a chegar aquela altura em que os braços me são curtos e os objectos permanecem um borrão ilegível. Terá sido por isto que ontem, quando o transformador do meu computador portátil entregou a alma ao criador e rumei a uma loja na esperança de o substituir, pedi ao empregado que me dissesse qual a potência do dito. Cordata e de transformador em punho, solicitei que me visse e sugerisse um transformador marca branca que me trouxesse à vida o computador moribundo por falta de alimento. A resposta foi lesta, ignorado por completo o meu primeiro pedido. Foi dito sem reservas que teria de comprar um de 90W. O empregado adiantou ainda que já tinha discutido com um cliente porque lhe sugeriu aquele mesmo de 90W. Ora à minha frente tinha um de 70W com as indicações compatíveis com o meu bicho moribundo e nada mas nada me convenceu naquela breve conversa. Uma vez que estava num centro comercial decidi ir dar uma volta e esperar que o turno mudasse. Quando regressei, uma boa meia hora depois, o empregado era outro e, como esperava, a resposta foi outra. Que não, que não era o de 90W, era um de 65W que não havia. Sugeriu que fosse a uma loja especializada de computadores, conselho que segui obediente para me ser dito coisa nenhuma de importante mas que percebi pelas entrelinhas que sim, o de 70W seria adequado. E entrei de fininho na loja, arrebanhei o de 70W e regressei lampeira ao meu notebook ressuscitado. Comprar uns óculos teria sido bem mais fácil, isto se não me saltasse ao caminho um oculista passado que me sugeriu que experimentasse umas lentes de contacto para verificar se eram mesmo aquelas que tinha encomendado. Gente competente não se arranja?

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Biscoitos

E hoje apetece-me biscoitos. Chegar à cozinha e o pôr em prática as inúmeras receitas de biscoitos que me entretive a recolher. Chegar à cozinha e entregar-me sem culpas à indulgência de algo tão simples mas sempre tão alquímico, tão acolhedoramente intimo, tão primitivo e feminino, essa coisa de amar alimentando, nutrindo, envolvendo com beijos de açúcar e nuvens perfumadas que pairam invisíveis como um manto pela casa, reminiscência de memórias gratas de infâncias longínquas. E o processo depois. Juntar ingredientes, tanto que serão um só. Envolver, mexer, amassar. Exercer o meu direito de liberdade transgressora, nunca aberto à discussão, e acrescentar algo mais: canela, cardamomo, gengibre, limão ou laranja, raspas de chocolate talvez. Cozinhar é sempre transgressão. Transgressão e liberdade. E amor. Apetecia-me biscoitos, dizia eu.

sábado, 13 de agosto de 2011

Die Mauer


E havia pessoas. Do lado de cá e de lá do Muro, além de ditaduras, propaganda e sistemas políticos, havia gente. Que nunca nos esqueçamos disso. Ao meio dia também eu ficarei em silêncio pelas vidas estilhaçadas por muros.


fotografia: Gedenkstätte Berliner Mauer, Bernauer Strasse