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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Os dias de Oxford

A luminosidade inquisitiva pelas frestas dos cortinados coloridos distribuídos em crescente acompanhando a curva da janela. Um bom dia estremunhado numa língua diferente, a pergunta sacramental Did you hear Jasper last night? E a resposta costumeira Não, não ouvi o Jasper durante a noite. Abandonada nos braços de Morfeu nem o Jasper me perturbou o sono. Insistente e voluntarioso, o felino anunciava a entrada várias vezes durante a noite, alertaram-me, pedindo sistematicamente desculpa. Quando o Jasper vinha tomar o pequeno-almoço, uma festarola no gato, uma conversa em português a que respondia com ronrons e marradinhas, gato poliglota certamente. E depois o pequeno-almoço, a tralha às costas, cadernos, canetas, e paragem do autocarro, 35 ou 35A, no meio de coisa nenhuma apenas com um bosque que se espraiava do lado oposto da estrada, lá para onde os melros e rolas voavam. Vinte minutos de autocarro até à cidade. Sob o olhar perscrutador e curioso um mundo que se desvelava lá fora. Gente que entrava no autocarro, um casal alemão presente com frequência, as crianças e adolescentes à espera do transporte escolar vestidas em uniformes, uma ou outra casa típica com telhado de colmo, cottages, conservadas e protegidas, o pub do lado direito, The Tandem, e estrada fora, os dias delineavam-se sob a inquietude da descoberta e o apaziguamento da conquista.
Chegar então. Misturar-me com a multidão que saía em passo apressado e se dispersava como os raios de uma bicicleta na direcção da trivialidade do dia-a-dia. Os rapazes do quiosque de souvenirs arrastavam os expositores para a rua ainda antes da abertura das lojas, ímanes de frigorífico, t-shirts e porta-chaves. Meia dúzia de palavras trocadas, as condolências por Portugal não ter ganho com a Alemanha, Cristiano Ronaldo que é o maior, e o dia a chamar-me para dentro da cidade.
A Cornmarket Street acordava para o bulício citadino. Carrinhas e carros parados na via pedonal a descarregar a mercadoria que havia de alimentar a avidez consumista das hordas de estudantes e turistas. Um espresso duplo antes das aulas e o dia que começava, adicionando-se cumulativamente ao anterior, um continuum de instantes e momentos, coloridos em cinzentos opacos ou translúcidos, rendilhados com os pináculos das universidades protegidas por gárgulas e figuras grotescas, iluminados a verde pelos jardins bem cuidados, aconchegantes com um chá ao fim da tarde na companhia de um livro ou uma cask ale num pub acolhedor. E assim foram os dias de Oxford, embalados por movimentos rotineiros e percursos intimistas nas ruelas solitárias ladeadas de muros construídos com mistérios insondáveis, trilhos reveladores do pulsar da cidade. Para senti-la há que vivê-la. Visitá-la apenas é sempre pouco.

Oxford
foto: minha

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Qual é o teu preço?

Depois da atribuição de um prémio pecuniário ao melhor professor, eis que surge agora o equivalente para alunos. Um nojo. Um nojo e asco profundos. Há coisas que não têm preço e a educação devia ser uma delas. Quem sabe não terá chegado a altura de mudar de profissão.

terça-feira, 29 de julho de 2008

domingo, 27 de julho de 2008

Dia de Bahia

Ontem foi dia de Bahia. Dia de Itaparica, dia de Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados, dia de Recôncavo e da Cidade Baixa. Dia de João Ubaldo Ribeiro e de Caetano também. Grisalho, acompanhado apenas da sua presença inigualável e do violão, Caetano foi único, a prova de que o talento se aprimora com a maturidade.

E o Prémio Camões 2008 foi para...

João Ubaldo Ribeiro.
Uma escolha que muito me agrada.
Parabéns!

sábado, 26 de julho de 2008

O pensionista

Parabéns, Mick!

Sir Mick Jagger completa hoje 65 anos. De acordo com a lei britânica terá direito a uma pensão semanal pela entrada na vetusta idade e curioso estado de pensionista. Mick Jagger, ao contrário de muitos da sua e de outras gerações, continua igual a si mesmo: excessivo, mulherengo, com um ar levemente diabólico e, acima de tudo, velho e enrugado, ostentando sem pudor a passagem voraz do tempo. Também por isso o admiro. Sem plásticas nem artifícios usa a idade como uma coroa. Um exemplo a não esquecer.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Haverá vida?

Olho para o relógio. Hora e meia, hora e meia é quanto falta para que termine o mês do futebol no Geração Rasca e, antes que termine, existe ainda assunto merecedor de peroradela. Muitos outros haveria certamente, muitos que escapam ao olho e sensibilidade feminina – parca a minha – para estes mistérios em torno de vinte e dois homens correndo atrás de uma bola, um que apita, faz sinalefas e mostra cartões, dois que ajudam e uma multidão esfaimada e desvairada que solta o animal mais temível adormecido na farpela profissional nas restantes horas e épocas do ano ausentes de futebol, que, se as há, desconheço. Pelo que me é dado a observar através do modesto e único televisor que vive cá em casa, suspeito que há jogos de futebol vinte e quatro horas por dia, sete dias da semana. Os jogos de futebol são como o antigo slogan de promoção de Portugal Há sempre um Portugal desconhecido que espera por nós. Assim é com os jogos de futebol: há sempre um jogo de futebol desconhecido que espera por vós, se não for o Futebol Clube do Boco é o Cascalheira, e, se não forem estes, a RTP Memória encarrega-se de passar jogos do tempo em que o Figo ainda era felpudo, usava camisola interior e tinha caracóis à menina, naquela altura em que o Sporting ainda tinha dinheiro para lhe pagar.
Porém, o que me traz hoje aqui é uma outra questão. Confesso que eu própria já lá entrei, foi isto no antigo e saudoso Estádio de Wembley, desci ao relvado, levantei o caneco, aprendi umas coisas sobre o comportamento de Sua Majestade em dia grande de futebol britânico e, algures pelo meio, visitei-o. E visitei o quê? Visitei o balneário, o antro de cumplicidades onde os jogadores, treinadores, adjuntos e sei lá mais quem, discutem tácticas, técnicas, passes, trivelas e tabelinhas, rezam à senhora de não de onde, benzem-se, dão palmadinhas nas bundas uns dos outros, provavelmente passam as mãos pelos pescoços uns dos outros e, julgo, se passeiam em trajos menores. Nunca entendi essa coisa do balneário. O tal que visitei estava lindinho e asseado à espera do turista, já se sabe, que turista raramente paga para ver porcaria, tinha a camisola do Beckham e dos demais pendurada, o que em nada correspondia à imagem efabulada desse local mítico onde homens pujantes segregam odores aos molhos para as meias e chuteiras, passeiam-se em cuecas, acariciando-se aqui e ali. Um nojo, portanto, um nojo mas um nojo necessário ao que parece: sem balneário não há futebol e sem futebol, haverá vida?