segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Mercados de Natal (6)
domingo, 7 de dezembro de 2008
Mercados de Natal (5)
sábado, 6 de dezembro de 2008
Mercados de Natal (4)
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Mercados de Natal (3)
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Mercados de Natal (2)
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Com alarme incorporado
No dia em que resolvi, alvitrei, aventei a hipótese de trocar as minhas lentes de contacto mensais, à razão de setenta e oito euros para seis meses, por umas diárias, à razão de sessenta euros por mês, estava nos antípodas de imaginar que este raciocínio, elementar e básico que qualquer criança em idade escolar resolveria sem dificuldade, se transformasse numa operação matemática elaborada e complexa e uma carga de trabalhos.
Entrei na loja curiosa, era a primeira vez que ali entrava, e após a abordagem inicial e o atendimento solícito do empregado, jovem e sorridente, disse ao que vinha não sem antes inquirir o preço das ditas lentes por um, um mês apenas. Perante o preço exclamei São mais caras então. O empregado pendurou a expressão de quem estava a Leste, mais a leste impossível, corria o risco de já estar a Oriente, quando repeti a lógica, da batata naturalmente Se para um mês custam sessenta euros e para seis meses custam quase oitenta, fica mais barato para seis meses. Do outro lado nada. Nadinha. Nicles. Népia. Desisti. Venham as de seis meses que a vida está cara e a carestia não se compadece com devaneios de uma criatura enfadada com as suas lentes semestrais, de resto, um assunto de importância cabal no contexto socioeconómico actual.
Continuava a olhar para o empregado, é mais forte do que eu, valha-me a santa, caramba, um raciocínio do mais elementar esbarrava contra a inabilidade do rapaz como se chocasse contra o Muro de Berlim. Arrumei a tralha, quase cem euros em coisa nenhuma que não servia para vestir nem comer nem ler mas sem a qual correria o risco de comer o que não queria, vestir o que não desejava e livrinhos só se tivessem letras corpo dezasseis é que lhes conseguiria deslindar um sentido. Saio da loja a refilar mentalmente A culpa é dos professores do Básico, há sempre mais culpados além de nós próprios, admite-se que não aprendam a ler, escrever e a fazer operações de aritmética logo no primeiro ano? Mania de não ensinar a tabuada. E depois vêm com a #$%&”@ do Magalhães. Ensinem-nos mas é a ler e a escrever, rais partam, e deixem-se de folclores. E ia eu nisto, refilando, respingando e retorquindo quando o alarme da óptica deu sinal de si. Um barulho irritante e estridente que orientou olhos múltiplos na minha direcção. O rapaz fez um olhar condescendente extensivo às colegas de profissão e ordenou-me que continuasse a marcha, lá para onde ia, provavelmente aliviado de me ver pelas costas, ninguém gosta de ver a vida dificultada por operações aritméticas arrojadas e complexas dignas de um qualquer Einstein. Era o sistema, o sistema, essa entidade invisível, omnipresente e omnipotente, tem sido acusada dos mais variados crimes, mais um menos um não era relevante. Que fosse o sistema pois.
Quando entrei no supermercado, o alarme reincidiu. Mais um barulho estridente. Depois de reclamar, o empregado, segunda versão, disse que não fazia mal, era o dito sistema. Irritada com tanta apitadela questionei se quando saísse o alarme iria tocar. Disse que sim com a maior naturalidade, mas, como gosto deste mas, para não me preocupar. Ai preocupo-me, preocupo-me, é óbvio que me preocupo Imagine que passam os meus alunos e presenciam a cena? O rapaz condescendeu e ficou-me com os cem euros de próteses oculares e quando saí afirmou, perante as apitadelas inexplicáveis Já noutro dia tivemos aí uma professora que também apitou. E assim ficou tudo esclarecido. Já não bastava o médico conhecer-me pelo cabelo, ser ofendida pela maga dos bigudis, agora apito no supermercado.
Entrei na loja curiosa, era a primeira vez que ali entrava, e após a abordagem inicial e o atendimento solícito do empregado, jovem e sorridente, disse ao que vinha não sem antes inquirir o preço das ditas lentes por um, um mês apenas. Perante o preço exclamei São mais caras então. O empregado pendurou a expressão de quem estava a Leste, mais a leste impossível, corria o risco de já estar a Oriente, quando repeti a lógica, da batata naturalmente Se para um mês custam sessenta euros e para seis meses custam quase oitenta, fica mais barato para seis meses. Do outro lado nada. Nadinha. Nicles. Népia. Desisti. Venham as de seis meses que a vida está cara e a carestia não se compadece com devaneios de uma criatura enfadada com as suas lentes semestrais, de resto, um assunto de importância cabal no contexto socioeconómico actual.
Continuava a olhar para o empregado, é mais forte do que eu, valha-me a santa, caramba, um raciocínio do mais elementar esbarrava contra a inabilidade do rapaz como se chocasse contra o Muro de Berlim. Arrumei a tralha, quase cem euros em coisa nenhuma que não servia para vestir nem comer nem ler mas sem a qual correria o risco de comer o que não queria, vestir o que não desejava e livrinhos só se tivessem letras corpo dezasseis é que lhes conseguiria deslindar um sentido. Saio da loja a refilar mentalmente A culpa é dos professores do Básico, há sempre mais culpados além de nós próprios, admite-se que não aprendam a ler, escrever e a fazer operações de aritmética logo no primeiro ano? Mania de não ensinar a tabuada. E depois vêm com a #$%&”@ do Magalhães. Ensinem-nos mas é a ler e a escrever, rais partam, e deixem-se de folclores. E ia eu nisto, refilando, respingando e retorquindo quando o alarme da óptica deu sinal de si. Um barulho irritante e estridente que orientou olhos múltiplos na minha direcção. O rapaz fez um olhar condescendente extensivo às colegas de profissão e ordenou-me que continuasse a marcha, lá para onde ia, provavelmente aliviado de me ver pelas costas, ninguém gosta de ver a vida dificultada por operações aritméticas arrojadas e complexas dignas de um qualquer Einstein. Era o sistema, o sistema, essa entidade invisível, omnipresente e omnipotente, tem sido acusada dos mais variados crimes, mais um menos um não era relevante. Que fosse o sistema pois.
Quando entrei no supermercado, o alarme reincidiu. Mais um barulho estridente. Depois de reclamar, o empregado, segunda versão, disse que não fazia mal, era o dito sistema. Irritada com tanta apitadela questionei se quando saísse o alarme iria tocar. Disse que sim com a maior naturalidade, mas, como gosto deste mas, para não me preocupar. Ai preocupo-me, preocupo-me, é óbvio que me preocupo Imagine que passam os meus alunos e presenciam a cena? O rapaz condescendeu e ficou-me com os cem euros de próteses oculares e quando saí afirmou, perante as apitadelas inexplicáveis Já noutro dia tivemos aí uma professora que também apitou. E assim ficou tudo esclarecido. Já não bastava o médico conhecer-me pelo cabelo, ser ofendida pela maga dos bigudis, agora apito no supermercado.
Mercados de Natal (1)
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Terça-feira
Estantes e gavetas:
terça-feira no sítio do costume
domingo, 30 de novembro de 2008
Advento
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Menos é mais
Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se publique uma fotografia, tenho algumas para ver a luz do blogue, se procure uma citação nos livros, se recorra ao sitemeter, esse manancial de informação curiosa sobre quem se adentra na blogosfera e aterra aqui chamado por uma palavra ou expressão. Estou aqui a cogitar Posto? Escrevo? Vai a foto? Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se poste, se publique, se cite. Fico aqui a pensar.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Receituário mensal
Ei-lo aqui
Estantes e gavetas:
papéis pintados com tinta
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Terça-feira
Até esse dia não me tinha passado pela cabeça que a literatura fosse composta por princípios activos incompatíveis, que ingénua, capazes de provocar reacções adversas caso combinados ou tomados em conjunto.Para ler o resto nada como ir ao PNETMulher. Há um crónica fresquinha à sua espera.
imagem: Richard Baumgart, The Writer.
Estantes e gavetas:
terça-feira no sítio do costume
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Entre o Pedro Rolo Duarte e o Sting

Podem ouvir-me aqui. Prometo depois disto voltar ao meu velho ser e deixar de me divulgar, cruzes canhoto, estou a ficar pior do que o Tibúrcio.
imagem daqui
domingo, 23 de novembro de 2008
Ouçam como eu respiro
Entrem. A janela da sala está no basculante, sopra uma brisa suave, o sol ilumina a sala, as gatas saíram. Podem entrar. Sentem o perfume da manhã? A fragrância da alma lavada? Podem entrar. As portas estão abertas. Podem ver. Sentirão a vida sempre presente de vidas passadas, o carreiro de letras e o trilho da deambulação permanente. Entrem. Podem entrar. Agora ouçam como eu respiro*.
* indecentemente roubado a uma peça de teatro do Novo Grupo/Teatro Aberto.
As sombras, o bulício

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
Cesário Verde
foto: minha
Estantes e gavetas:
esta lisboa que eu amo
sábado, 22 de novembro de 2008
Chitas e debruns
E num dia de coração magoado e alma triste, a primeira coisa que ocorreria a uma mulher seria encharcar-se em chocolates, nesta altura do ano os supermercados abarrotam de chocolates, a segunda, ir às compras, a terceira, uma novidade na vida desta vossa escriba, é que não pode, dê por onde der, sucumbir à debilidade anímica e derrubar-se sobre uma caixa de Guylian ou, caso se permitisse, uma pequena de Godiva, a quarta é que não deve ir às compras, a recessão entrará mais dia, menos dia, e a quinta é que é melhor adoptar uma actividade que não lhe ocupe neurónios em desmedida quantidade, que a mantenha alheada do mundo, de preferência sem notícias e televisão ligada e que seja, concomitantemente, ligeira, sedutora e que entretenha até o coração deixar de doer, a alma deixar de choramingar, a vontade de devorar os Guylian amansar e o ímpeto de escavacar o dinheiro em algo sempre utilíssimo a uma mulher, mas que jazerá moribundo no guarda-roupa, gaveta ou armário, desvanecer. E podia ter-me abraçado a um livro, improvável, calçado os ténis e fazer uma caminhada com o Atlântico do lado esquerdo para lá, uma paragem no miradouro, e o regresso com o Atlântico do lado direito, caso não estivesse roufenha e combalida desta maleita infernal que me apanhou desprevenida e atacou à traição, ou podia ter-me iniciado nas artes de fada do lar, ao que se chega para não comer chocolates ou derreter o vil metal, armada em rapariga prendada e talentosa, por um dia, unzinho, há que sonhar, e dedicar-me às chitas e gangas, gregas e debruns.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Propostas para Domingo
Levante-se tranquilo, respire o ar puro da manhã, enxote maus pensamentos e humores canídeos matinais, o banho pode ser antes ou depois, comece o pequeno-almoço sossegado, sugere-se acompanhado pelo exemplar da fotografia. São quase onze horas. Agora sintonize a Antena 1, está a ouvir o Pedro Rolo Duarte? Espere só mais um bocadinho e voilá, eis que esta vossa dedicada escriba dá voz às palavras aqui, ali, acolá e ainda por ali rabiscadas, escrevinhadas, sentidas e paridas.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Partidas
Somos todos imortais até um dia o telefone tocar. Da Teresinha guardo também a memória de quem sou. Sempre presente na vida dos meus pais com carinho e entusiasmo, almoços e jantares em comuns, partilha, comemorações, algumas lágrimas e muitas muitas décadas de vida e de amizade genuína e dedicada, cuidada reciprocamente. Dela guardo o beijo desajeitado e aflito naquele dia de Setembro menino e o beijo luminoso e florido no aniversário que se anunciou afinal ser o último. A ela devo parte do meu amor aos felinos e nela sempre admirei a capacidade de viajante intrépida e incansável, sempre pronta a ir longe, sempre longe, para depois regressar com peripécias e fotografias. Partiu agora para uma viagem de onde não se saberá paradeiro, sem peripécias ou fotografias. Imortais somos sempre até um dia o telefone tocar. Histórias com livros dentro
Este do José Bandeira. Ninguém se chama Sveva, realmente.Este do Jaime Bulhosa. Quem será o ladrão de poesia?
Estantes e gavetas:
leituras blogosféricas
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Momento sitemeter (17)
O maior pénis do mundo foi procurado neste blogue.
Seria isto que procurava?
Seria isto que procurava?
Estantes e gavetas:
momento sitemeter
Em cinco actos
Primeiro, leio as receitas com um respeito reverencial, perscruto-lhe as entrelinhas, releio, atenta ao pormenores, quantidades e modos de preparação e penso Hei-de fazer esta receita. Vou fazer esta receita. Estabeleço um calendário No fim-de-semana ou reformulo Sexta-feira ao jantar sujeito a nova reformulação ou Quinta ou calendarização Talvez Sábado.Segundo, faço uma abordagem às artes gastronómicas num momento prévio de preparação, confiro os ingredientes na despensa e no frigorífico, elaboro uma lista de necessidades a satisfazer no périplo ao supermercado mais próximo e começo a magicar Aqui era capaz de não ficar mal uma pitada de orégãos ou Podia substituir o tomate ou Não vou pôr pimentos.
Terceiro, faço-me à vida e entro no supermercado, confirmo a lista de necessidades e, quando chego aos legumes, cruzo-me com a secção de cogumelos frescos, lanço um olhar de cobiça aos pleurotos. Mau grado a cor, levam-me aos míscaros da minha infância pela consistência e textura aparentemente carnuda. Reformulo mentalmente a receita, deixando para trás definitivamente os tomates e os pimentos e acrescentando-lhe os pleurotos É capaz de ficar bem. Rumo a casa.
Quarto, deito-me finalmente à fase alquímica da mescla de sabores, espreito o mar da janela da cozinha, olho-o sempre veneranda antes de me concentrar, a inspiração perfeita para que os sabores se liguem e amem, e começo finalmente, afastando pensamentos negativos ou estados de alma soturnos, não são compatíveis com manjares opíparos. Duas cebolas picadas, uma grande daria de igual forma, um dente de alho e um fio generoso de azeite, ou dois, o cozinheiro para o ser deve ser generoso nas porções e disciplinado no método. Ao som do frigir, corto a courgette em pedaços pequenos, as duas beringelas e vou-me finalmente aos pleurotos também cortados em pedaços sobre a tábua de madeira para os juntar ao refogado, entretanto condimentado com uma colher generosa de pasta de tomate e salpicados com rigor de orégãos e alecrim. Está a correr bem, penso. Na janela da cozinha deixo de contemplar o mar para ver a noite descer como um manto escuro pontilhado de estrelas, enquanto o perfume invade a cozinha. Numa ida breve ao frigorífico encontro mozzarella e ocorre-me a ideia de que talvez gratinado ficasse melhor Fica de certeza. Quinto, e ficou.
Estantes e gavetas:
do palato para a alma
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Terça-feira de novo
Hoje a conversa mete a gente lá dos blogues e a menina das estrelinhas.Ora espreitai o PNETmulher e deixai a vossa palavrinha.
Estantes e gavetas:
terça-feira no sítio do costume
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Denúncia capilar
Vou ao médico a contra gosto, não que as idas ao médico me incomodem de sobremaneira mas a espera, senhores, a espera, as revistas do século passado, as cusquices requentadas e, por vezes, as lambisgóias que nos aguardam e acompanham na antecâmara das sessões de tortura, espreitadelas e revolvimento de entranhas deixam-me irritadiça e só desejo o momento em que pelo meu próprio pé, odeio ser levada por outrem, possa dar corda aos sapatos e fazer-me à vida com um molho de papelada nas mãos e o diagnóstico feito para finalmente descansar em casa, a caldos de galinha.Ontem não foi excepção. Acometida por um catarro, dores de garganta e febre, agora com esta provecta idade, deu-me para ter febre, outro remédio não tive se não dirigir-me ao Centro de Saúde para me deixar medicar contra este catarro aflitivo, raios o partam. Logo após o jogo do Benfica, assim ditou o ritmo no recato do lar e a minha temperatura inusitada, aí fui, irritada logo de casa. É que já não chega estar doente, ainda ter de me sujeitar ao parecer técnico, deslocar-me ao médico e escolher um clínico do Serviço Nacional de Saúde, caso seja necessário um atestado só pode ser passado por um médico do dito serviço, deixa-me, à partida, irada e farta, além de doente, traçando assim um quadro da maior harmonia.
Graças a Deus, Alá e Jah, tinha apenas uma pessoa à minha frente e fiquei mais tranquila quando soube que um dos médicos de serviço é rapaz de resposta rápida, competente e perspicaz, capaz de vislumbrar à légua as enfermidades, uma verdadeira Rosa Mota do atendimento. Quando uma vez tive uma reacção alérgica não se sabe exactamente a quê, enfiou-me com duas injecções que até vi estrelas, planetas, cometas, o sistema solar todinho e ainda galáxias desconhecidas, mas uma coisa é certa, curou-me. O atendimento foi também à velocidade da luz, de tal forma que saí meio vestida meio por vestir, que é lá isso, ocupar lugar nas urgências? para me derramar agarrada à nádega na primeira cadeira que encontrei cá fora.
Reconheci pela voz que seria o médico, o tal, que chamava pelo meu nome. Logo na entrada, olhou-me bem de frente e perguntou-me ao que vinha. Depois do queixume, há que aproveitar a oportunidade para largar queixas e lamúrias, rematou Pois e deixe-me adivinhar tem que falar muito… Pasmei Como é que sabe que sou professora, doutor? Tenho cara de professora? Atirou-me Cara e cabelo! Tendo em conta que tinha estado toda a tarde a dormitar no sofá a minha trunfa não estaria exactamente calma, nunca está, de resto. Quis saber como sabia que eu era professora, a curiosidade feminina é terrível, mas ele só me sorriu, bem-disposto e jocoso, para me deixar a matutar em como teria ele tido acesso a esta informação. À saída ainda me perguntou Então, também foi à manifestação? Já não se consegue passar anonimamente, há sempre uma trunfa que nos denuncia.
domingo, 16 de novembro de 2008
Cesária Évora
dia 26 em Lisboa.
E subitamente a vontade de regressar a Cabo Verde.
sábado, 15 de novembro de 2008
A biblioteca itinerante
A linguagem não verbal é um indicador mais fiável do que palavras múltiplas recheadas de aforismos, metáforas e oxímoros. Foi assim que, naquele dia pela manhã, percebi que a minha aluna Tatiana, com um ar sofrido, a voz arrastada e nas palavras que soltou, em total sintonia com o desespero da expressão do rosto luminoso, precisaria da minha ajuda.
Bem no início da aula, estava meio deitada sobre a carteira, ainda com a pilha de livros e dossiers por arrumar, quando se derramou ainda mais sobre a mesa, inclinou levemente a cabeça para o lado direito, espalhando os caracóis castanhos e brilhantes sobre os livros e soltou o lamento Setora, ó setora, olhe o livro que estou a ler. Nem um laivo de excitação nas palavras proferidas, nem uma pitada indelével de entusiasmo. Apenas a desilusão, a resignação perante mais esta provação que a escola aparentemente lhe propunha, o conformismo irremediável perante o livro pousado à sua frente, levemente tocado com os dedos à medida que soltava uma quase dor, uma aflição indiscutível. Quando lhe solicitei que me mostrasse o livro, veio indolente, como quem mostra ao pai ou à mãe um dói-dói à espera do beijo mágico com efeitos curativos poderosos Já passou? Já passou!
O livro estava intocado, tinha o preço marcado a lápis, uma edição dos Livros de Brasil que faria as delícias de alguns bibliófilos, e tinha aspecto de ter sido remetido para último lugar na estante da livraria através da selecção natural Tenho este e este da lista. Qual quer? Ah não, este não. A Tatiana acrescentou É tão chato, setora, não percebo nada disso. Quando questionei porque o lia, exactamente aquele e não outro qualquer, adiantou que teria ido à livraria com a lista de livros indicados para o seu ano de escolaridade e que, não havendo mais nenhum em stock, lhe venderam aquele.
E do livro não se questiona a qualidade, porém o efeito nefasto de rejeição da leitura começava a evidenciar-se na Tatiana. Pobre garota sentenciada à tortura de leituras dolorosas. Pedi-lhe a lista dos livros a ler. Entre eles uma quantidade avultada de lusófonos que dormiam tranquilos na minha estante, o contrário do que um livro deve ser, e prometi-lhe que no dia seguinte lhe levaria alguns. Os livros precisam de ser arejados e lidos. Nas primeiras linhas solta-se a empatia de que todas as leituras genuínas e prazeirosas devem ser feitas, sem intermediários nem imposições, assim seria pois, extensivo ao resto da turma que, entretanto, se me agarrou como a uma tábua de salvação contra livreiros gananciosos. E no dia seguinte levei o Manuel Rui, o Mia Couto, o Ondjaki e o José Eduardo Agualusa dispostos em camadas entre as capas de tecido. Viram, leram e escolheram. Alguns dos livros já voltaram. Com eles o regresso do alívio e das expressões sorridentes de que são feitas as adolescências felizes. O que é que uma professora não faz pelos seus alunos? Ler é prazer.
Bem no início da aula, estava meio deitada sobre a carteira, ainda com a pilha de livros e dossiers por arrumar, quando se derramou ainda mais sobre a mesa, inclinou levemente a cabeça para o lado direito, espalhando os caracóis castanhos e brilhantes sobre os livros e soltou o lamento Setora, ó setora, olhe o livro que estou a ler. Nem um laivo de excitação nas palavras proferidas, nem uma pitada indelével de entusiasmo. Apenas a desilusão, a resignação perante mais esta provação que a escola aparentemente lhe propunha, o conformismo irremediável perante o livro pousado à sua frente, levemente tocado com os dedos à medida que soltava uma quase dor, uma aflição indiscutível. Quando lhe solicitei que me mostrasse o livro, veio indolente, como quem mostra ao pai ou à mãe um dói-dói à espera do beijo mágico com efeitos curativos poderosos Já passou? Já passou!
O livro estava intocado, tinha o preço marcado a lápis, uma edição dos Livros de Brasil que faria as delícias de alguns bibliófilos, e tinha aspecto de ter sido remetido para último lugar na estante da livraria através da selecção natural Tenho este e este da lista. Qual quer? Ah não, este não. A Tatiana acrescentou É tão chato, setora, não percebo nada disso. Quando questionei porque o lia, exactamente aquele e não outro qualquer, adiantou que teria ido à livraria com a lista de livros indicados para o seu ano de escolaridade e que, não havendo mais nenhum em stock, lhe venderam aquele.
E do livro não se questiona a qualidade, porém o efeito nefasto de rejeição da leitura começava a evidenciar-se na Tatiana. Pobre garota sentenciada à tortura de leituras dolorosas. Pedi-lhe a lista dos livros a ler. Entre eles uma quantidade avultada de lusófonos que dormiam tranquilos na minha estante, o contrário do que um livro deve ser, e prometi-lhe que no dia seguinte lhe levaria alguns. Os livros precisam de ser arejados e lidos. Nas primeiras linhas solta-se a empatia de que todas as leituras genuínas e prazeirosas devem ser feitas, sem intermediários nem imposições, assim seria pois, extensivo ao resto da turma que, entretanto, se me agarrou como a uma tábua de salvação contra livreiros gananciosos. E no dia seguinte levei o Manuel Rui, o Mia Couto, o Ondjaki e o José Eduardo Agualusa dispostos em camadas entre as capas de tecido. Viram, leram e escolheram. Alguns dos livros já voltaram. Com eles o regresso do alívio e das expressões sorridentes de que são feitas as adolescências felizes. O que é que uma professora não faz pelos seus alunos? Ler é prazer.
imagem: Pablo Picasso, The Lesson
Estantes e gavetas:
coração de prof
Um ano
O Pedro Rolo Duarte comemora hoje um ano de Pedro Rolo Duarte. Parabéns, Pedro.
Estantes e gavetas:
aconteceu na blogosfera
Esta Lisboa que amamos

Desta vez não são posts a ler. São posts a ver. Este e este. Três perspectivas do mesmo lugar da Lisboa que amamos.
foto: minha
Estantes e gavetas:
esta lisboa que eu amo
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Esta Lisboa que eu amo (1)
Estantes e gavetas:
esta lisboa que eu amo
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Frases e palavras
Há dias em que me fogem palavras
e se me escapam frases.
Tento alinhavá-las como Lobo Antunes,
ceifo-lhes as vírgulas como Saramago,
desencanto uma tirada irónica como Mário de Carvalho
e remeto-me ao mais profundo silêncio
silêncio dos silêncios
prenhe de sinónimos puídos
e sons desengonçados
que se repetem como o eco
em gargalhada desabrida
desta que se ficou
sem palavras
nem frases.
e se me escapam frases.
Tento alinhavá-las como Lobo Antunes,
ceifo-lhes as vírgulas como Saramago,
desencanto uma tirada irónica como Mário de Carvalho
e remeto-me ao mais profundo silêncio
silêncio dos silêncios
prenhe de sinónimos puídos
e sons desengonçados
que se repetem como o eco
em gargalhada desabrida
desta que se ficou
sem palavras
nem frases.
Estantes e gavetas:
passeando letras
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Momento sitemeter (16)
Não consigo precisar quem, mas alguém me advertiu que estes escritos ainda iriam imortalizar a personagem. Pois bem, alguém aqui bateu à porta à procura do Tibúrcio. Está bonzinho, tem sofrido de azia intensa, porém, as fichas de avaliação de professores não contêm GABAROLICE, um dos items em que o Tibúrcio teria EXCELENTE.
Estantes e gavetas:
momento sitemeter
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Dá-lhes, Manel
Tivemos de suportar muitos ministros durante a ditadura... Já não tenho paciência para o quero, posso e mando e isto não é suportável com o apoio do PS, que é um partido democrático. Manuel Alegre dixit.
A ler isto também.
Estantes e gavetas:
ai portugal portugal
Terça-feira

E assim faria, caso me bafejasse o tempo.
Para saber o que eu faria, nada como espreitar e comentar aqui.
foto: minha
Estantes e gavetas:
terça-feira no sítio do costume
domingo, 9 de novembro de 2008
Leituras blogosféricas (1)
Vale a pena ler este post. Muito bom.
Estantes e gavetas:
leituras blogosféricas
Eu fui
foto: minha
Estantes e gavetas:
ossos do ofício
sábado, 8 de novembro de 2008
Agenda
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
A primeira ou mais nenhuma
A filha chega a casa da mãe. Arremessa à entrada da porta o cansaço matinal, a ladainha de irritações, a pilha de desilusões acumuladas, fecha a porta apressadamente não vá a decepção fazer-se convidada para o almoço e entrar inadvertidamente pela frincha da porta. A filha chama Mami! A mãe não responde à filha. A filha ouve a mãe ao telefone. A filha pressente pela voz da mãe Algo não está bem. A filha ouve a voz da mãe algo inquieta, não era bem furiosa, não era bem irritada, não era bem zangada, mas algo não estava bem. A filha pensa Aconteceu alguma coisa, enquanto a voz da mãe se mantém assertiva e inflexível. A filha sabe Algo aconteceu. A filha inquieta-se Que será que aconteceu? A filha, sempre com a voz da mãe em fundo, inicia a confirmação de uma lista de possíveis energúmenos capazes de provocar na mãe o estado presente de inquietação. A filha pensa Quem foram os animais desta vez? A filha assume Foram os parvalhões dos colchões. A filha reitera Foram os anormais do clube de viagens. A filha enfurece-se Bem, se foram aquelas bestas a dizer que o Papá ganhou uma viagem outra vez… A filha conclui Se forem aqueles estúpidos é desta vez que apresento queixa na Deco. A filha tem a certeza Ai apresento, apresento, onde já se viu inquietarem a Mamã, onde já se viu ligarem para casa das pessoas a dizer que o Papá tinha ganho um sorteio como se andasse entre nós, o meu querido e saudoso Pai. A filha pragueja Estúpidos, parvalhões, bestas, anormais. A filha tem a certeza Ainda me passo e é desta que os mando abaixo de Braga três vezes. A filha sabe Ai mando, mando. A filha ouve a mãe com atenção, talvez descortine algo. A filha apura o ouvido Ora deixa cá ver, deixa cá ouvir bem… A mãe está a terminar a conversa, mas o tom de voz não muda, o tom de voz exprime a indignação. A mãe diz ao telefone. Agradecia, agradecia se faz favor. Obrigada. A mãe desliga o telefone. A filha pergunta aflita Mamã, o que foi, aconteceu alguma coisa? A mãe continua com o semblante carregado. A mãe responde Então não é que fui comprar A Viagem do Elefante, o último do Saramago... A filha responde Sim, eu sei e pensa E depois, mamã? Que te fizeram? Quem foi o energúmeno que te aborreceu? A mãe continua O livro saiu ontem. A filha concorda Pois foi. A mãe conta a história Comprei-o na livraria. A filha implica Mas que mania de ir àquela livraria, Mamã, já sabes como eles são. A mãe retorque Não é nada disso, foram até muito simpáticos. A mãe conclui E depois fui tomar café com a Dinha. A mãe remata E quando chego a casa vejo que o livro é a segunda edição. A filha pergunta E então, mamã? A mãe arremessa-lhe Uma segunda edição? O livro saiu hoje. Eu quero a primeira edição. Ora essa. A mãe não cede Não quero este. Quero a primeira edição. A filha põe água na fervura Mas se calhar esgotou, Mamã. A mãe não se dá por vencida, era só o que faltava Não esgotou nada, eles é que mandaram a segunda, diz-me a menina que para aqui só mandaram a segunda edição. Admite-se? Para a província mandam a segunda edição. Não quero! A filha acrescentou mais um elemento à sua lista de energúmenos em quem desancar, pegou nas chaves e ei-la a caminho dos distribuidores e livreiros. Uma segunda edição? É preciso ter lata. Onde já se viu.
Estantes e gavetas:
três letrinhas apenas
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Gebrauchsanweisung für Portugal
Dois livros sobre o balcão: Darum nerven die Japaner e My dear Krauts. A senhora sorriu, à medida que pegava nos livros, e, enquanto fazia a conta, comentou a multiculturalidade da minha escolha. Aproveitei a simpatia e delicadeza no trato e perguntei se não tinha algo sobre Portugal. Não. Apenas aquele. Agradeci a informação e lamentei não haver mais nenhum. Tinha-o há uns anos, religiosamente entre as relíquias de leitura e de viagem, ainda a primeira edição em capa dura. Comentámos algo sobre a colecção e adiantou-me que fazia parte do compromisso dos autores escrever sobre os países sem rodeios e com toda a sinceridade e honestidade. Paguei, guardei os livros num saco de pano amavelmente oferecido, acredito que pela troca prazeirosa de palavras e fui-me.Gebrauchsanweisung für Portugal, assim se chama o livro. Traduzido à letra significa Instruções de Uso ou Manual de Instruções e fugindo quer aos manuais de instruções, quer aos comuns guias de viagem, o autor discorre sobre o país. Neste Manual de Instruções de Portugal, com o qual me cruzei em Munique há uma boa meia dúzia de anos, Eckhart Nickel é o escriba, Portugal o objecto da escrita e da escrita transparece o amor incondicional por este país de fadas - Märchenland-, assim o considera. A paixão por Portugal nasceu de forma fortuita, mas como todas as paixões, intensa e arrebatadora. Conta que, numa triste tarde de Dezembro de céu ameaçadoramente cinzento prometendo neve, ele e um amigo não conseguiam prosseguir com o trabalho entre mãos e que, ao procurar algo que os consolasse da inacção e invernia, depararam-se com uma garrafa de Vinho do Porto Niepoort na garrafeira da cave. O primeiro gole como um orgasmo. O Inverno lá fora esquecido e o desejo de conhecer mais sobre o país de origem dessa verdadeira poção mágica apresentou-se de imediato como um apelo irresistível, guiando posteriormente Eckhart Nickel a Portugal.
Poupar-vos-ei a traduções de qualidade duvidosa – traduttore=traditore – nas páginas deste livro encontro mais do que julgo sermos e, mesmo se, aqui e ali, espreita timidamente o paternalismo do país pequenino, como se quer um país de fadas, há um encanto permanente nas gentes, um fascínio pela História e pelos escritores, bem presente nas citações frequentes de Bernardo Soares, uma surpresa nos hábitos do quotidiano em que as novelas e a gastronomia ocupam lugar de destaque e, acima de tudo, um carinho imenso por este lugar que Nickel descobre e se redescobre a cada linha.
Texto repescado a propósito do livro.
Estantes e gavetas:
papéis pintados com tinta
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Mais uma terça-feira
Estantes e gavetas:
terça-feira no sítio do costume
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Momento sitemeter (15)
A próxima vez que vir o Cristo perguntar-lhe-ei, assim já poderei responder à questão quantas chibatadas cristo levou, a entrada directa para este blogue por alguém além-mar.
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Aos pares como os sapatos
Corria o ano da graça de dois mil e três, estava na aldeia desde Janeiro, dia último, quando o Pão-por-Deus se fez anunciar no calendário. Acorri à superfície comercial do costume e abasteci o lar de guloseimas. Também eu na minha infância tinha ido ao Pão-por-Deus e, na aldeia, imaginava que a criançada aparecesse.
No dia um a campainha da porta terá tocado entre as oito e meia e as nove e depois disso até cerca das doze não houve mais sossego. Vinham quase sempre cuidadosos e raramente se aventuravam pelo portão adentro, a menos que os chamasse. O saloio não é rapaz de abrir as portas da mansão aos forasteiros e até que deixem de o ser são submetidos a provas extenuantes. Eu, pobre de mim, nem sempre consegui ultrapassar as várias barreiras. A criançada também conhecia este código, a panóplia de provações até que as portas se abram. O que a criançada não sabia é que, sendo eu mestiça da alma, híbrida de raízes a norte e além-mar, dou graças a deus e ao meu avô que se enamorou de uma brasileira paulista que havia de ser minha avó e aos meus pais beirões de alma e de afectos, as portas de casa abrem sem mais. O saloio também é muito cioso do seu palácio que cuida com rigor e protege dos usos quotidianos, é assim que proliferam casinhas e anexos, nada como poupar a casa, mais invicta do que um museu. A criançada também sabia disso, chovia nesse dia distante e tinham medo de me sujar a casa com as pegadas de lama, o que não sabiam é que aqui no número nove vivem almas tranquilas quanto à conservação imaculada da habitação.
Numa das visitas apareceu-me um ser mínimo, provavelmente nem se contariam três anos de vida decorridos. Era castiça. São-no sempre as crianças desta idade. Vinha acompanhada pela progenitora, uma criatura de traços rudes e beiças grossas que se explanou numa pequena palestra sobre os hábitos e raízes do Pão-por-Deus para esta vossa humilde escriba, ser único em casa naquele dia. E falou, falou, falou. Acrescentou a profissão, professora do primeiro ciclo, valha-me a santa, não podia ser antes outra coisa qualquer, e quando no fim me dirigi à criança para lhe dar um beijo, a pespenica júnior afastou-me de repelão, é bom que não tenha filhos, se fosse minha, tinha levado logo uma reprimenda no momento, o reforço não se deve fazer esperar, mas a pespenica sénior ficou ufana perante a manifestação da pespenica júnior, o caso Casa Pia tinha despoletado no mês primeiro desse mesmo ano, e acrescentou triunfalmente qual Pigmalião encantado com a sua obra Ela não vai a estranhos. Era bom de ver que uma nunca vem sozinha. Deslocam-se aos pares para um efeito mais eficaz. Perante isto ainda estive para lhe sacar os chupas e rebuçados, entra-me pela casa dentro e ainda me chama estranha? Contive-me naturalmente. Anos depois a pespenica voltou, reconheço-a à légua, já deixou a pespenica sénior em casa agarrada à verruga, mas herdou dela o mesmo pôr e dispor, que, calculo impere na relação com os outros. Aqui no número nove, pespeniquice fica à porta.
No dia um a campainha da porta terá tocado entre as oito e meia e as nove e depois disso até cerca das doze não houve mais sossego. Vinham quase sempre cuidadosos e raramente se aventuravam pelo portão adentro, a menos que os chamasse. O saloio não é rapaz de abrir as portas da mansão aos forasteiros e até que deixem de o ser são submetidos a provas extenuantes. Eu, pobre de mim, nem sempre consegui ultrapassar as várias barreiras. A criançada também conhecia este código, a panóplia de provações até que as portas se abram. O que a criançada não sabia é que, sendo eu mestiça da alma, híbrida de raízes a norte e além-mar, dou graças a deus e ao meu avô que se enamorou de uma brasileira paulista que havia de ser minha avó e aos meus pais beirões de alma e de afectos, as portas de casa abrem sem mais. O saloio também é muito cioso do seu palácio que cuida com rigor e protege dos usos quotidianos, é assim que proliferam casinhas e anexos, nada como poupar a casa, mais invicta do que um museu. A criançada também sabia disso, chovia nesse dia distante e tinham medo de me sujar a casa com as pegadas de lama, o que não sabiam é que aqui no número nove vivem almas tranquilas quanto à conservação imaculada da habitação.
Numa das visitas apareceu-me um ser mínimo, provavelmente nem se contariam três anos de vida decorridos. Era castiça. São-no sempre as crianças desta idade. Vinha acompanhada pela progenitora, uma criatura de traços rudes e beiças grossas que se explanou numa pequena palestra sobre os hábitos e raízes do Pão-por-Deus para esta vossa humilde escriba, ser único em casa naquele dia. E falou, falou, falou. Acrescentou a profissão, professora do primeiro ciclo, valha-me a santa, não podia ser antes outra coisa qualquer, e quando no fim me dirigi à criança para lhe dar um beijo, a pespenica júnior afastou-me de repelão, é bom que não tenha filhos, se fosse minha, tinha levado logo uma reprimenda no momento, o reforço não se deve fazer esperar, mas a pespenica sénior ficou ufana perante a manifestação da pespenica júnior, o caso Casa Pia tinha despoletado no mês primeiro desse mesmo ano, e acrescentou triunfalmente qual Pigmalião encantado com a sua obra Ela não vai a estranhos. Era bom de ver que uma nunca vem sozinha. Deslocam-se aos pares para um efeito mais eficaz. Perante isto ainda estive para lhe sacar os chupas e rebuçados, entra-me pela casa dentro e ainda me chama estranha? Contive-me naturalmente. Anos depois a pespenica voltou, reconheço-a à légua, já deixou a pespenica sénior em casa agarrada à verruga, mas herdou dela o mesmo pôr e dispor, que, calculo impere na relação com os outros. Aqui no número nove, pespeniquice fica à porta.
domingo, 2 de novembro de 2008
Um ou três...
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Baby Jesus
Sempre que a festividade se aproxima a Menina das Estrelinhas manifesta o desagrado. Para ela aqui fica este Menino Jesus com uma beijoca. Não é lindo?
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aconteceu na blogosfera
Um dia recebi um presente
Um dia recebi um presente e a minha vida mudou. Vinha envolto em papel transparente e trazia uma mensagem ternurenta, a evocação deste amor que se me plantou na alma com raízes e que esporadicamente floresce. Desde então todos os dias são seus. A vigilância redobrada, não vá algo acontecer-lhe, água moderada e o lugar abrigado de ventanias excessivas e calores exagerados. Recomendações mil se me afasto Não te esqueças, por favor, não é preciso muita água. E a atenção duplicada Acho que vai dar flor, a vigia constante Está tão bonita. Em tempo de desabrochar o perfume entra pela sala onde vou deixando a alma desabar e a evocação entra docemente sem que deitar olho se imponha. Perfume e aromas que me abençoam a alma no presente inestimável da minha mãe.foto: minha
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Pasta Medicinal Couto
É um artista português e anda na boca de toda a gente.Também no Geração Rasca
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ai portugal portugal
Momento sitemeter (14)
A quem vem aqui à procura de Pão-por-deus informo que já me desloquei a uma superfície comercial para me abastecer de chupa-chupas, rebuçados e caramelos de fruta, línguas de gato, moedas de chocolate, não há Pão-por-deus sem elas, bolinhas de chocolate e ainda barritas de chocolate com bolacha. Espero a vinda da criançada a chilrear logo pela manhã, direitinhos à minha porta. Que este ano seja como este e este. Entretanto, se passarem por aqui são naturalmente bem-vindos.
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momento sitemeter
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
À porta da língua
Algures num livro estava escarrapachado que nada pior do que ser-se rejeitado por um livro. O leitor pode e deve decidir das suas leituras mas ser rejeitado por um livro por incapacidade de juntar letras e delas fazer sentido será um castigo inestimável, talvez das penas mais cruéis para os amantes da leitura. Provei desse veneno quando, no aeroporto de Madrid em trânsito para o norte da Europa, fiquei à porta do livro, trancada à porta da língua com um ferrolho inviolável.
A montra ostentava não um, dois ou três livros, a montra transbordava de exemplares lustrosos e brilhantes, cuidadosamente amontoados, criteriosamente dispostos, artisticamente expostos à mercê da cobiça bibliófila dos passageiros em trânsito. Conseguia através do vidro espesso da montra pressentir-lhes o aroma da impressão recente e ouvir-lhes em sussurro o toque dos livros virgens, um restolhar mansinho das páginas ainda imberbes de mãos alheias. Peguei na máquina fotográfica, o japonês cola-se-me assim que ouve o rodar das rodas das malas de viagem contra o chão do corredor e tirei uma fotografia. Esbocei um lamento, a voz ligeiramente esganiçada, dizem-me que assim acontece sempre que atingida na alma. Sentei-me no café de frente para a montra saboreando um café desenxabido, entregue à minha incapacidade de ler fluentemente na língua de Cervantes, em tortura à porta do livro, rejeitada pela minha própria incapacidade de ir além das convencionais expressões coloquiais de orientação mundana. Nada pior do que ser-se rejeitado por um livro.
A montra ostentava não um, dois ou três livros, a montra transbordava de exemplares lustrosos e brilhantes, cuidadosamente amontoados, criteriosamente dispostos, artisticamente expostos à mercê da cobiça bibliófila dos passageiros em trânsito. Conseguia através do vidro espesso da montra pressentir-lhes o aroma da impressão recente e ouvir-lhes em sussurro o toque dos livros virgens, um restolhar mansinho das páginas ainda imberbes de mãos alheias. Peguei na máquina fotográfica, o japonês cola-se-me assim que ouve o rodar das rodas das malas de viagem contra o chão do corredor e tirei uma fotografia. Esbocei um lamento, a voz ligeiramente esganiçada, dizem-me que assim acontece sempre que atingida na alma. Sentei-me no café de frente para a montra saboreando um café desenxabido, entregue à minha incapacidade de ler fluentemente na língua de Cervantes, em tortura à porta do livro, rejeitada pela minha própria incapacidade de ir além das convencionais expressões coloquiais de orientação mundana. Nada pior do que ser-se rejeitado por um livro.
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papéis pintados com tinta
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Hoje não é terça-feira?
Uma mulher passa dos quarenta, uma mulher anda no mundo, lê umas coisas, vê umas coisas, tem os olhos abertos, é naturalmente curiosa pelo universo em redor, e embora não descarte nunca a hipótese de ser surpreendida pela positiva e pela negativa, acontece com frequência nos dias que correm, vê-se de repentinamente apanhada de surpresa pela imbecilidade dos súbditos do tio Sam.
E para ler o resto, nada como ir ao PNETmulher.
E para ler o resto, nada como ir ao PNETmulher.
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terça-feira no sítio do costume
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Acabada de sair...
eis a mais recente receita sobre um dos livros que mais gosto e outra das cidades que me ficou na alma.foto: minha
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domingo, 26 de outubro de 2008
Coisas da alma
Cantado também por Omara Portuondo em Lisboa em homenagem ao grande Ibrahim Ferrer.
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com mundo dentro
sábado, 25 de outubro de 2008
Dardos
Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc, que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Os selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio
3. - Escolher quinze outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.
Aqui fica o meu agradecimento à Teresa C., a primeira a premiar-me, e ainda à Dobra, à Nocas Verde, à Once, ao Foleirices, ao Tim James Booth e ao RegistosTC, que me estragam com mimos. E para cumprir as regras cá vão os nomeados, além dos supra citados a quem retribuo o Prémio com carinho:
As Palavras dos Outros
Estrelas ao Vento
Lote 5-1ºDto
Crónicas das Horas Perdidas
Desconversa
No Cinzento de Bruxelas
Nocturno
A Senhora Sócrates
Porta do Vento
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aconteceu na blogosfera
Vidas com música
Admito. Não foi de imediato que caí de amores por Havana. Cedendo há uns bons anos a mais um destino da moda, terei assim entrado no penúltimo ano do milénio, algures entre a chuva e o sol de Varadero. Frente fria, diziam eles. Muito pouco para quem aprecia mais que sol, céu límpido e águas cristalinas e não encontra em paraísos semelhantes, reservas de turistas rosados como leitõezinhos, o encanto pleno e compensação para as lentas, arrastadas, monótonas, insípidas e longas horas de avião na travessia do Atlântico. Em Havana apenas umas duas noites, um dia de clausura no hotel com algo que os cubanos apelidaram de catarro, muito pouco tempo, portanto, para deixar a cidade entrar em mim. Regressei resignada. Foi, pois, numa sessão da tarde numa sala tranquila de cinema que me reencontrei com o que havia perdido naqueles três dias a que os turistas estão condenados na sua condição. E, a sós na sala pequena com a tela que se abria como uma janela, entrei finalmente em Havana.
A história que conta Buena Vista Social Club é simples e conhecida. E que história contam os documentários, de resto? Vidas com música apagadas por um tempo passado e que lentamente se reencontram pela mão de Ry Cooder e a mestria de Wim Wenders. Os músicos outrora ilustres regressam do nevoeiro do esquecimento para encantar o mundo e cimentar o legado da música cubana. E, porque de um documentário se trata, ao contrário de Antes que anoiteça, a título de exemplo, o tempo é de recolhimento e de fruição da melodia, das vozes, dos sorrisos, da cor e do ritmo compassado da cidade decadente, nostálgica e surpreendentemente sedutora, do mar batendo no Malecón, sem juízos ou recriminações. Sentir primeiro. Buena Vista Social Club é uma viagem a uma das Havanas possíveis pela mão titubeante daquele grupo de músicos e uma viagem que os músicos encetam pela mão da sua própria música mundo fora com Ry Cooder e Wim Wenders a seu lado.
A história que conta Buena Vista Social Club é simples e conhecida. E que história contam os documentários, de resto? Vidas com música apagadas por um tempo passado e que lentamente se reencontram pela mão de Ry Cooder e a mestria de Wim Wenders. Os músicos outrora ilustres regressam do nevoeiro do esquecimento para encantar o mundo e cimentar o legado da música cubana. E, porque de um documentário se trata, ao contrário de Antes que anoiteça, a título de exemplo, o tempo é de recolhimento e de fruição da melodia, das vozes, dos sorrisos, da cor e do ritmo compassado da cidade decadente, nostálgica e surpreendentemente sedutora, do mar batendo no Malecón, sem juízos ou recriminações. Sentir primeiro. Buena Vista Social Club é uma viagem a uma das Havanas possíveis pela mão titubeante daquele grupo de músicos e uma viagem que os músicos encetam pela mão da sua própria música mundo fora com Ry Cooder e Wim Wenders a seu lado.
Ainda sobre Havana um texto antigo repescado.
Estantes e gavetas:
com mundo dentro
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Havana
Uma das cidades que mais gosto descrita de forma ímpar pela alma, um privilégio ter quem desconversa assim.foto: minha
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aconteceu na blogosfera
Receita em confecção
Peguei nos livros, juntei as letras e as palavras, envolvi com cuidado na alma e verti com deslevo em frases. O resultado foi este. Voltarei assim que a próxima estiver no forno.
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papéis pintados com tinta
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
É terça-feira
e desta vez deu-me para andar de braço dado com Kafka no PNETmulher.
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terça-feira no sítio do costume
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Say it with flowers
Exactamente como foi não me lembro. Sei que terei ido passear por aí, numa época em que havia mais lágrimas dos que sorrisos e que, entre os primeiros, terei dado com o blogue curioso. Gostei da cor, do nome, dos posts despretenciosos e acutilantes, do sentido de humor e dos gadgets, caramba, mulher, onde vais descobrir tais coisas?, tornei-me assídua e agora sou fã. Como não tenho presentinho à mão aqui ficam estas flores do meu jardim para dar os parabéns à Carlota que comemora hoje três anos blogosféricos.
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aconteceu na blogosfera
domingo, 19 de outubro de 2008
Domingo é domingo
Estantes e gavetas:
miados e ronrons
sábado, 18 de outubro de 2008
Fitas
Fiquei perplexa e sem palavras quando ontem à noitinha li este post do Paulo Cunha Porto. Se por um lado o Corta-fitas ficará mais pobre sem o Paulo, por outro não deixo de admirar como é que acontece algo assim.
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aconteceu na blogosfera
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Mudança de visual
Como podem reparar o Curva da Estrada mudou de aspecto. O miolo continuará igual a si mesmo.
Sem correrias
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papéis pintados com tinta
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Dá-me o Magalhães já
Depois do espectáculo do dá-me o telemóvel já, surgiu outro de grande qualidade cénica. A um grupo de professores numa acção de formação para a generalização do Magalhães foi proposto que fizessem canções de louvor à máquina, a menina dos olhos de ouro de Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues. Deu este resultado . Não sei se ria ou se chore.
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ai portugal portugal
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Promessas...

Ao contrário do prometido hoje não há conversas profundas mas há uma crónica fresquinha no PNETmulher. Ora ide lá ver e ler.
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terça-feira no sítio do costume
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Nacos de prosa (4)
Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
Mário de Carvalho, Fantasia para dois coronéis e uma piscina.
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nacos de prosa
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Vendilhões
Estantes e gavetas:
ai portugal portugal
Emprego procura-se
Mulher de quarenta e três anos de idade, vinte e um anos de ensino, onze de formação de professores, sete dos quais numa instituição de ensino superior, cansada dos autos-de-fé da profissão docente, de salas de professores, de jogos de bastidores e de ditadorzinhos mascarados, procura emprego longe de tudo isso, onde seja respeitada por aquilo que faz.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Dêem as re-boas-vindas, por obséquio
Foi no Corta-fitas que tive a óptima notícia de que o Bandeira tinha regressado à blogosfera. A tua ausência foi notada, Zé, fico feliz por te podermos ver por cá.
Estantes e gavetas:
aconteceu na blogosfera
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Dez anos de Prémio Nobel da Literatura
Se Deus, que lá do alto, vê tudo, vê tudo assim tão mal, então mais lhe valia andar cá pelo mundo, por seu próprio e divino pé, escusavam-se intermediários e recados que nunca são de fiar, a começar pelos olhos naturais, que vêem pequeno ao longe o que é grande ao perto, salvo se usa Deus um óculo como o do Padre Bartolomeu Lourenço.
José Saramago, Memorial do Convento
foto: minha
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Hoje é terça-feira,
não há teaser,
mas há crónica no PNETmulher.
mas há crónica no PNETmulher.
Espreitai e opinai.
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terça-feira no sítio do costume
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Frampton comes alive
A trunfa não pode esperar. Faço-me ao caminho logo depois do almoço, a pé rua acima entre uma ventania furiosa, atravessa-se-me uma sapataria ao caminho, caio por uns sapatinhos, faltava-me aquela cor, já se sabe, e entro expectante na cabeleireira. Lá dentro espera-me uma mulher imensa, caso não gostasse tanto de Botero, recomendar-lha-ia para modelo dos seus quadros, rapariga na antecâmara dos entas, sem grandes falas e muito menos sorrisos aplica-se na tarefa de me cortar o cabelo. Acompanhava-a um jovem canastrão, não havia que enganar, primeiro percorreu a sala, depois sentou-se a deglutir a novela como quem sorve Coca-Cola, e quando ultrapassados os preliminares, a maga das tesouras, a matrona dos bigodis se aproxima de tesoura em punho, enceta com o jovem canastrão a conversa mais adequada que se pode ter quando se corta o cabelo a uma professora Então, hoje já tiveste Filosofia? Arremessa a matrona ao canastrão. O canastrão responde Não. A professora está a faltar. A matrona insiste. Então quantas aulas tiveste? O canastrão diz que não quer saber. A matrona diz que ele devia saber, o mal será para ele. O canastrão diz Os professores de Filosofia são todos malucos. Aquela também. Eu penso Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Não os posso mandar bardamerda. Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Mando-os bardamerda. Faço-me surda. Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Fiz-me surda e não os podia mandar bardamerda. A conversa continua lampeira. A professora de Filosofia está muito bem e depois começa aos gritos. É maluca. Tendo em conta que a minha surdez foi coisa passageira e que não podia levantar-me e ir-me embora com o cabelo meio cortado meio por cortar, também por isto detesto cabeleireiros, dentistas e ginecologistas, adverti o canastrão sem demora Claro, os professores é que são todos malucos porque vocês, coitadinhos, são uns santos e nunca fazem nada nem dizem nada. Os professores é que são doidos. O canastrão calou-se de imediato, continuou a sorver a novela, a matrona continuou nas suas artes de bem cortar cabelos e tudo o que lhe apareça à frente e eu a pensar que aquela foi a primeira e última vez que recorri aos seus préstimos. Saí de lá mais parecida com o Michael Bolton depois de ter cortado o cabelo, menos parecida com o Carlos Santana, já bem distante do Marquês de Pombal e, tal como Peter Frampton resisti às investidas da matrona e do canastrão, mas digam-me que não tenho razão em apelar ao regresso urgente do meu querido cabeleireiro mineiro.
domingo, 5 de outubro de 2008
Nacos de prosa (3)
You’re on your own in the classroom, one man or woman facing five classes everyday, five classes of teenagers. One unit of energy against one hundred and seventy-five units of energy, one hundred and seventy-five ticking bombs, and you have to find ways of saving your own life. They may like you, they may even love you, but they are young and it is the business of the young to push the old off the planet.
Frank McCourt, Teacher Man.
no Dia Internacional do Professor
sábado, 4 de outubro de 2008
Momento sitemeter (13)
Uma criatura acede ao seu contador de visitas, olha aqui e acolá, e de repente os olhos param atónitos. Não havia mais nada para procurarem se não exemplo de objectivos pessoais de professores? A uma sexta-feira pelas vinte e duas horas e dois minutos? É sexta-feira, por amor de quem lá têm, ide beber um copo, falar com os respectivos, descontrair.
Estantes e gavetas:
momento sitemeter
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Tende piedade de mim
Num dia de aflição recorri ao cabeleireiro da aldeia. O cabeleireiro da aldeia é como quase todos os cabeleireiros, com a diferença de que é da aldeia e na aldeia, sendo menos os habitantes do que na cidade, é tranquilo e sossegado, frequentado com mais clientela em dias de festa e de missa.
No dia em que fui ao cabeleireiro da aldeia tive uma revelação que mudou a minha vida: pela primeira vez em longos anos de existência capilar abundante tive alguém que não refilou do meu cabelo, não me deixou com um lado mais comprido do que outro, não me afogou a trunfa em produtos milagrosos contra os males de que todas as mulheres sofrem assim que põem pé nesses altares de sacerdotisas dos bigodis, já não há, eu sei, mas dá-me jeito aqui na escrita e gosto da palavra bigodis. As magas das mises, as papisas do brushing não perdem uma oportunidade para comercializar a sua mercadoria mágica, capaz de operar maravilhas, milagres capazes de amedrontar o Vaticano. Eu própria testemunhei a epifania destas práticas poderosas quando um dia as madeixas vermelhas desbotaram na primeira lavagem ou no dia em que indo pôr uma tinta no cabelo me deixaram com uma tarja negra na testa que me obrigou ao recolhimento durante dias ou ainda no dia em que a cabeleireira me deixou o cabelo bem mais curto do que havia desejado e pedido. Este episódio teve sequelas naturalmente, varias temporadas com vários episódios e, qual Sansão, fiquei diminuída e infeliz.
No dia em que fui ao cabeleireiro da aldeia a minha vida mudou. Fui recebida com o falar doce de um mineiro que, ao contrário de me arremessar com considerandos vários sobre a dificuldade de manusear a cabeleira, alardear soros, espumas e outros produtos viscosos de última geração, deitou mãos ao trabalho e fez aquilo que sempre desejei: cortou-me o cabelo de forma eficiente e profissional.
Cansado, porém, dos penteados dominicais, o cabeleireiro decidiu abandonar o beatame e fez-se à vida para lá da aldeia não sem antes avisar a clientela fiel, eu incluída, naturalmente. Passou a atender em casa, sem luxos, assim me avisou no primeiro dia que lá fui Olha, não tenho luxo para te oferecer, só o meu trabalho, que já se sabe é logo meio caminho andado para o coração, sou rapariga muito sensível a gente genuína e continuei a ser cliente assídua. Há técnicas de fidelização irresistíveis.
E agora o problema: o meu cabeleireiro encontra-se ausente. Meu deus, tende piedade desta descabelada infeliz, voltará? Estou com uma trunfa que mais pareço o Peter Frampton, temo transformar-me no Kenny G, a continuar assim ainda vou parecer o vocalista dos Europe, e sem ele, o meu rico cabeleireiro, o que farei? Ó deus, tende piedade de mim.
No dia em que fui ao cabeleireiro da aldeia tive uma revelação que mudou a minha vida: pela primeira vez em longos anos de existência capilar abundante tive alguém que não refilou do meu cabelo, não me deixou com um lado mais comprido do que outro, não me afogou a trunfa em produtos milagrosos contra os males de que todas as mulheres sofrem assim que põem pé nesses altares de sacerdotisas dos bigodis, já não há, eu sei, mas dá-me jeito aqui na escrita e gosto da palavra bigodis. As magas das mises, as papisas do brushing não perdem uma oportunidade para comercializar a sua mercadoria mágica, capaz de operar maravilhas, milagres capazes de amedrontar o Vaticano. Eu própria testemunhei a epifania destas práticas poderosas quando um dia as madeixas vermelhas desbotaram na primeira lavagem ou no dia em que indo pôr uma tinta no cabelo me deixaram com uma tarja negra na testa que me obrigou ao recolhimento durante dias ou ainda no dia em que a cabeleireira me deixou o cabelo bem mais curto do que havia desejado e pedido. Este episódio teve sequelas naturalmente, varias temporadas com vários episódios e, qual Sansão, fiquei diminuída e infeliz.
No dia em que fui ao cabeleireiro da aldeia a minha vida mudou. Fui recebida com o falar doce de um mineiro que, ao contrário de me arremessar com considerandos vários sobre a dificuldade de manusear a cabeleira, alardear soros, espumas e outros produtos viscosos de última geração, deitou mãos ao trabalho e fez aquilo que sempre desejei: cortou-me o cabelo de forma eficiente e profissional.
Cansado, porém, dos penteados dominicais, o cabeleireiro decidiu abandonar o beatame e fez-se à vida para lá da aldeia não sem antes avisar a clientela fiel, eu incluída, naturalmente. Passou a atender em casa, sem luxos, assim me avisou no primeiro dia que lá fui Olha, não tenho luxo para te oferecer, só o meu trabalho, que já se sabe é logo meio caminho andado para o coração, sou rapariga muito sensível a gente genuína e continuei a ser cliente assídua. Há técnicas de fidelização irresistíveis.
E agora o problema: o meu cabeleireiro encontra-se ausente. Meu deus, tende piedade desta descabelada infeliz, voltará? Estou com uma trunfa que mais pareço o Peter Frampton, temo transformar-me no Kenny G, a continuar assim ainda vou parecer o vocalista dos Europe, e sem ele, o meu rico cabeleireiro, o que farei? Ó deus, tende piedade de mim.
Estantes e gavetas:
estrogénio e saltos altos
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Ainda...
não
é
agora
que
há
textos,
conversas,
crónicas
ou
histórias.
Voltarei
assim que consiga
pensar
e
respirar
e
escrever.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
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