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sábado, 10 de janeiro de 2009

Mil e um

Quando hoje pela manhã me abeirei do ecrã em branco reparei que desde um de Outubro de dois mil e cinco tinha publicado mil e um posts.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A recuperação e as provas

As carteiras de senhora são um labirinto insondável, albergam mistérios e tralhas em número excessivo. Descobrir o que se procura pode ser uma tarefa hercúlea levada a cabo com tacto e persistência. O telemóvel tocava, insistente, num final de tarde em que acabava de deixar a escola. Para trás o dia que se aconchegava no crepúsculo gélido mas luminoso, o chilreio de adolescentes em delírio e a sala de professores pontilhada de rostos pessimistas. Para trás, tudo, então, o tempo que se afirmava peremptoriamente de tranquilidade e aconchego entre os livros e a lareira, a preguiça das gatas na arte de nada fazer, só os felinos o conseguem com mestria. Encontro finalmente o telemóvel, após tentativas infrutíferas. A um número desconhecido correspondeu uma voz igualmente desconhecida. Quem seria? Do lado de lá soava alguma inquietação e ansiedade. Reconhecida então a voz, a conversa foi correndo com sucessivas tentativas de acalmar a mãe da minha aluna: a burocracia não deve sobrepôr-se às partidas que a saúde ou falta dela pregam, tento convencer-me, tudo se resolverá, pois, tento acalmá-la, tudo tem solução. Depois de ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica delicada e de recuperação lenta, a minha aluna ficará retida em casa por um tempo que se adivinha longo. Desencadeados mecanismos para colmatar a ausência forçada das aulas, acresce a inquietação de fazer provas de recuperação a todas as disciplinas assim que regressar à escola e que constituem apenas aquilo que tão bem se faz neste país: burocratizar o sistema. Nada me oporia às provas caso ela, e outros como ela, se tivessem entretido no café em frente à escola em vez de ir às aulas. O absentismo não deve ser premiado em circunstância alguma. Em caso de doença comprovada não são senão uma enorme injustiça.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nacos de prosa (6)

— Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Há já muitos anos, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito.

Carlos Ruiz Zafón, (2004), A Sombra do Vento.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Terça-feira a cronicar

no PNETMulher.

E outro dia veio. Outros sonhos. O mesmo desvelo, o mesmo cuidado, o mar e a tranquilidade lá fora. A mão certeira e vigorosa, sem cerimónias nem rodeios, a receita inscrita no património afectivo de uma vida partilhada e vivida. E a canela, o perfume. Os sonhos. Belos sonhos. Redondos, perfumados, apetitosos.

Henri Matisse, The Dream

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Words from the heart

Para a Tânia que está atravessar um momento muito delicado.
Que estas preces e pedidos sejam ouvidos.


imagem: Vanessa Munoz

Momento sitemeter - Edição "à bordoada na língua portuguesa"

De há uma semana a esta parte têm aparecido procuras curiosas no meu sitemeter. Depois da conversa das doenças já cá vieram à procura do Clavoxil e do Azomyr. Mas o pior de tudo estava para vir e o pior foi uma sessão de tortura e verdascada da língua portuguesa. Primeiro procuraram dores na cluna, hoje alarmes de produtos de epermercado.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Dúvidas existenciais

Quarta-feira, trinta e um de Dezembro. Último dia do ano da graça de dois mil e oito. Algures pela tarde, depois de encaminhados os afazeres domésticos, sou parada entre os sonhos e a mousse de maracujá pelo pensamento que tinha deixado a macerar de véspera Tenho de escrever um post, tenho de deixar uma palavra, desejos de bom ano. Abeiro-me do computador, frenética, provavelmente ainda de avental. A escrita não exige farda ou indumentária, uma alma Gémeos vem equipada de origem para se fazer à vida assim os desafios, e confirmo as palavras, como se mentalmente fizesse a chamada, percorro os locais que me embalaram, garimpo mais um vez os vocábulos e eis-me parada perante a fotografia. Candelabro. Candelabro ou castiçal? Solicito ajuda Aquilo, aquilo que vimos em Copenhaga, é um candelabro? A resposta célere Candelabro? Candelabro é do tecto. Ora se candelabro é do tecto, só pode ser castiçal. Não me soa bem. Como a uma criança a quem puseram o nome errado, Bernardo em vez de João, Matilde em vez de Luísa, algo me soa mal, a dissonância evidente entre o objecto e a denominação. Os sonhos chamam-me da cozinha, urge o tempo e castiçal ficou. Postado o texto, aqui ficou a pairar até ter surgido o primeiro comentário de quem muito estimo, os votos que sei sinceros, mas, raio de mas, a frase final sem margem para dúvidas: E é de facto um bonito candelabro. E pronto, o que é isto comparado com a crise mundial, com a hecatombe anunciada, o armageddon iminente? Nada, naturalmente, mas a dúvida permanece: candelabro ou castiçal?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano

Não obstante a polémica na educação, 2008 foi um ano que me trouxe experiências gratificantes, um projecto novo e muito aliciante, outro que vem a caminho, muita harmonia, a prova de que a vida profissional é só mesmo uma parte do todo, e algumas viagens.
Comecei em Março a viajar, na velha Albion, com neve e dezenas de adolescentes à descoberta do mundo além fronteiras, continuei por Abril por terras onde se mitifica ter andado Hamlet, onde até os trolhas são bem parecidos, as livrarias tem livros em Inglês em quantidade admirável e se anda de bicicleta quase mais do que de carro. Em Julho esperavam-me duas semanas em Oxford. Protegida pelas gárgulas, acolhida em livrarias deliciosas no silêncio dos livros e no restolhar das páginas, sentindo o que não se sente em breves escapadinhas nem em estadias de hotel, recolhida algures no countryside com Jasper, um gato preto e felpudo por companhia fugidia, os dias em pleno habitat mostraram-me um quotidiano curioso. Berlim, porventura a cidade que mais fascínio exerce sobre mim, esperava-me em pleno Agosto, bem como o volante de um Trabi rosa-choque que fui conduzindo cidade afora na descoberta de uma outra perspectiva, dias de correria pela urbe para ver o que os turistas não vêem e momentos para me deleitar na cidade europeia mais emblemática do século XX. E férias então. Brasil, já se vê, o local onde retempero forças como em nenhum outro, percorrer a praia com o oceano tranquilo e cálido a beijar-me os pés, os golfinhos em brincadeira no mar, os saguis que consegui conquistar e os companheiros de viagem mais simpáticos com que me cruzei fizeram destas férias um experiência única. E para acabar o ano não há como visitar Mercados de Natal com cidades dentro. Viena, a cidade da valsa, do pai da psicanálise, de Karl Kraus, Canetti, Hundertwasser e Klimt deixou-me a certeza de que as cidades para serem belas têm que ter alma. O que lhe sobra em monumentalidade falta-lhe em alma e acolhimento. E foi num destes périplos que me cruzei com o castiçal que vos deixo. Estava numa igreja em Copenhaga e chamou-me a atenção pela forma singela e redonda, as luzes que se unem na forma circular que podem ser quem quisermos. Que estas luzes nos unam sempre, vos unam a quem desejarem e que 2009 seja um ano pleno.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Questões semânticas

No país do Magalhães os governantes têm um verbo preferido constante bem no lugar cimeiro de opções semânticas. Caso se lhes conheça cartilha pela qual se regem sempre que têm de proferir uma opinião sobre assuntos que envolvam contestação ou oposição, o verbo surge rapioqueiro e inequívoco. Tornou-se previsível. Basta apenas determo-nos nas notícias para prever que mais tarde aparecerá alguém do Executivo fazendo uso do dito verbo. No país do Magalhães desvaloriza-se com frequência. Foi assim que a Ministra da Educação desvalorizou a manifestação dos professores, se bem me lembro, as duas manifestações, e a Ministra da Saúde desvalorizou a formação dos médicos pelas farmacêuticas. Ana Jorge, além de desvalorizar, também rejeita, desta feita o caos que se instalou nas urgências em sequência da gripe que assola o país. O Primeiro-Ministro é mestre na arte de desvalorizar e, como se vê, desvaloriza muito. Aguarda-se pois a última desvalorização relativamente à aprovação do Estatuto dos Açores, uma vez que o Partido Socialista também já desvalorizou as críticas do Presidente da República. Quem sabe nas próximas eleições Sócrates não seja também desvalorizado pelos seus eleitores.

fotografia: minha

também no Geração Rasca

Croniquemos então!


Ide ao PNETMulher ver e ler o desafio que vos faço.

domingo, 28 de dezembro de 2008

As festas felizes

No rescaldo destas festas felizes com a economia nas últimas, diz-se, as finanças num estado aparentemente calamitoso, se as avaliarmos pelas imagens dos saldos que vão passando nos serviços noticiosos ninguém confirmaria o estado alegadamente desastroso, a educação tão má como a economia, alunos que por "brincadeira" ameaçam uma professora com uma arma de plástico, uma professora que, ainda estou para perceber porquê, não faz queixa nem participação dos "pequenos brincalhões" e uma directora de turma e presidente do Conselho Executivo que se remetem ao silêncio, é normal, alega-se, um Primeiro-Ministro que fala aos seus súbditos de pé, dinâmico e optimista, eis que chega agora uma outra calamidade: a gripe. E a gripe, ai de nós, mais não seria do que uma mera gripe, se os hospitais e serviços de atendimento não votassem os seus utentes engripados, alguns gripados também, a esperas impensáveis, disparatadas e absurdas e a serviços de atendimento telefónico que deixaram cerca de trinta e oito por cento das chamadas por atender. Enquanto não se consegue uma consulta pode e deve, a crer no que tenho ouvido, recorrer-se à auto-medicação, uns anti-inflamatórios e anti-gripais bucho abaixo, pode ser que assim larguem a urgência dos hospitais. Gente mais maçadora. Que festas felizes.
também no Geração Rasca

Crónica de uma mulher achacada

Uma mulher é saudável, é saudável ainda antes de ser mulher. Desconhecem-se-lhe maleitas de monta maior, bexigas, que bom que era quando se podia dizer bexigas em vez do sofisticado varicela, papeira e outras coisas de somenos, duas urticárias, litíase, bem mais bonito do que pedra nos rins, e que lhe deu alguns dissabores, acima de tudo, muitas dores, tensão baixa, hipotensão, e nada de mais. De repente vê-se marmanja, quatro décadas volvidas, quatro décadas e uns anos, e eis que lhe batem à porta, em sequências de quatro, faringites. Dirige-se ao Hospital, não é um hospital, mas substitui-o nesta espécie de achaques, e sai de lá com a receita para uma zaragatoa, perdão, exsudado, reparem como se modifica o linguajar, as expressões populares a serem teimosamente substituídas pelos equivalentes em linguagem médica, dois antibióticos, credo, valha-me sei lá quem, e umas pastilhas homeopáticas para os males da faringe. Gostei deste pequeno apontamento alternativo do médico de serviço. Nada como acalmar as hostes com uma mezinha livre de químicos.
E aqui me quedo perplexa, assustada com o que será de mim se começar a ter estas moléstias. Se fosse em aulas, como uma das vezes anteriores, lá estaria agarrada a livros, parindo fichas e mais fichas para as aulas de substituição, nos dias que correm há que entreter os alunos sempre, mesmo que se esteja em casa comprovadamente doente, sabe-se lá como iriam reagir à loucura de terem uma hora livre, mas assim será se for em tempo de aulas, isto e ver-me excluída do meu Excelente, o meu rico e querido excelente. Uma maçada e um problema. E não sendo em tempo de aulas, o que me preocupa com estas idas frequentes ao SAP é a crescente intimidade que passarei a travar com o local, a conhecer as manhas à máquina de café, é sempre em frente a ela que me sento, a passear-me lápis em riste para corrigir as imperfeições do português, ai que raiva, a raiva que me fazem, passar a ser tu cá, tu lá com as funcionárias Então, o que a traz por cá? Ai sabe lá, estou tão malzinha, tão apoquentada, é importante usar apoquentada, aleijada, álérgia, sinósite, tirar uma chapa e ir à faca, também.
Este estreitamento de relações alastrar-se-á aos demais utentes, imagino-me até a lutar com eles por causa do meu lugar em frente à máquina de café, tudo menos aquele lugarzinho em frente à máquina do café, ou a trocar impressões sobre os médicos, que sabemos sofrem do mesmo mal que os professores, os pacientes sabem sempre muito, toda a opinião pública sabe sempre muito no caso dos professores, trolhas, mulheres-a-dias, cabeleireiras e executivos. Por último, receio a pasta de vocabulário médico, medicinal e farmacêutico que terei de abrir na minha memória, não será o antibiótico, passará a ser o Clavoxil, o Klacid, há que ter propriedade de linguagem, excluo o Brufen porque passámos a ser unha com carne. Virá tudo acompanhado com princípios activos, dosagens, tomas e efeitos secundários. Rezem para que recupere desta debilidade faríngica, ai de mim, estou destroçada, se não verão este espaço transformado em muro das lamentações.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

The Christmas life

Bring in a tree, a young Norwegian spruce,
Bring hyacinths that rooted in the cold.
Bring winter jasmine as its buds unfold -
Bring the Christmas life into this house.

Bring red and green and gold, bring things that shine,
Bring candlesticks and music, food and wine.
Bring in your memories of Christmas past.
Bring in your tears for all that you have lost.

Bring in the shepherd boy, the ox and ass,
Bring in the stillness of an icy night,
Bring in the birth, of hope and love and light.
Bring the Christmas life into this house.

Wendy Cope


Um Feliz Natal a todos os que por aqui passam.

Mercados de Natal (15)

Praga
foto: minha

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Lista de presentes

Dezembro. Pelas frestas da portada chuviscam-se-me gotículas de sol como feixes dourados, entrevejo a luminosidade, pressinto a manhã perfumada de sol e bela como apenas os dias de sol são. Agradeço veneranda, a quem saber-se-á jamais, a bênção de dias soalheiros em pleno Dezembro. E deixo que o Dezembro presente varra todos os passados, cinzentos, húmidos, frios. Dias breves sem sol. Faço-me à estrada deixando para trás tudo, a escola, os alunos, um período inteiro de aulas e trabalho, cansaço, exaustão. Faço-me à estrada e organizo mentalmente ao que vou. Natal. Presentes. E faço-me à vida como gosto, estrada fora, preocupações ausentes. Mentalmente sem papel ou lápis refaço listas, escrevo textos que deito janela fora se se me tornam inconvenientes ou metediços. Os textos são assim. Reescrevo outros, a frase, é sempre a primeira frase que me chama quando me lanço estrada fora. E já perdi muitas primeiras frases e muitos textos. Há textos que só se deixam apanhar pelas primeiras frases, como um fio numa meada de lã, encontrar sempre a ponta do fio, sem ela o novelo tornar-se-á num enriço, uma amálgama de fios desordenados, sem princípio nem fim. Perco-os por isso. Mentalmente distribuo presentes. E chego ao lugar com calma, a calma de um dia de sol belo, os dias de sol são menos tristes se sol houver. E faço compras. Telefonemas. Livros para a criançada não sem antes confirmar E o Ruca, têm o Ruca no Natal? Não? E sigo, ando por entre estantes e escaparates, gente com pressa, filhos, família. E confirmo a lista. Está tudo. Recolho a lista e regressa-me a culpa E o Papá? Está tudo não. Desta vez não foi o lugar vazio. Foram os presentes que não te comprei.

Mercados de Natal (14)

Christkindlmarkt, Viena
foto: minha

Terça-feira

À semelhança de outras situações na vida há que saber dizer não, romper com a tradição se elas não nos servir, trilhar caminhos livres sem a obrigação dos presentes, o dever dos festejos, a imposição de felicidade oca e balofa, a grilheta às ocasiões de circunstância ausentes de carinho e de afecto.

O resto da crónica está no sítio de sempre, no PNETMulher, claro.

imagem: Gaëlle Boissonnard

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

Nacos de prosa (5)

Calma, meu anjo. Não se trata de uma gordinha pela metade, Meia. Nem da meia (aquilo de colocar nos pés) de uma gordinha, portanto, uma meia-gordinha.
Trata-se de você mesma, leitora, navegadora da Internet. Eu sei que você é meia-gordinha e que existe um erro de português aqui. Mas meio-gordinha não é o mesmo que meia-gordinha. Que me perdoem os amargos gramáticos, mas gordinha é meia. Meia-gordinha, Meia-gordinha soa melhor, sua menos. Meia-gordinha, como você está, no ponto.
Pró meu gosto, meia-gordinha é o que há. Aliás pra todo mundo que conheço. Só que ninguém assume: o brasileiro, influenciado pela moda francesa, quer a magra. Pra pegar onde? Pra segurar o quê? Pra recostar em claviculares saboneteiras? Pois é muito melhor espalhar sabonete pela bundinha de uma meia-gordinha.


Mário Prata, Diário de um magro 2. A volta ao Spa, Rio de Janeiro, Objetiva

sábado, 20 de dezembro de 2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Nada

Cansada, exausta, extenuada abeiro-me do computador, quem sabe não sairá algo, esperança vã que me tem acalentado o espaços mínimos em que lazer se me permite, e impaciente vou procurando as palavras, chamo-as baixinho como a um gato, exactamente como um gato, ficam lá onde estão, acredito que imperturbáveis, nada sinto em meu redor, nem o restolhar mansinho das palavras quando chegam, silêncio, apenas silêncio, das palavras nada.

Mercados de Natal (11)

Spittelberg, Viena
foto: minha

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Eis que chega mais uma terça-feira

O velho tem os dias contados, porém. O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem.

Ide ler sobre o velho no sítio do costume, no PNETMulher, já se sabe.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sobretudo

Podia começar com a famosa citação de Álvaro de Campos, O que existe em mim é sobretudo cansaço. Podia usá-la pois. O início de texto atraente e chamativo, a vontade de entrar pelas palavras e mergulhar no cansaço que existe em mim. Em mim existe sobretudo cansaço. Cansaço da vida profissional virada do avesso. Cansaço de continuar como sempre, como se de nada se tratasse, cansaço da Ministra da Educação, do Primeiro-Ministro, das faltas dos deputados. Cansaço crepuscular de opinadores sobre tudo e todos, achadores de tudo e mais alguma coisa, convictos palradores de opiniões balofas prenhes de preconceitos e ausentes de conhecimento do que se fala afinal, pedagogos de pacotilha, mestres de vão-de-escada formados em coisa nenhuma que não seja tudo, cansaço da ignorância alardeada como bandeira, cantada como hino, cansaço de convicções pré-fabricadas, cansaço de opiniões ocas, cansaço de peroradelas inanes, cansaço deles todos. Muito cansaço.

Mercados de Natal (9)

Schönbrunn, Viena
foto: minha

domingo, 14 de dezembro de 2008

Natal

É Natal cá em casa.
A lareira acesa.
As gatas a dormir.
A árvore de Natal sóbria,
luzes que brilham,
mínimas como bagos de luz.
A tranquilidade do dia que se embala
definitivamente
nos braços da noite
chuvosa e fria
lá fora.
O crepitar dos corações solitários.
É Natal.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Breve crónica de um almoço perfeito

À mesa mais mulheres do que homens, apenas por uma maioria estreita, mesa redonda convidativa a conversas intensas, comensais bem-dispostos e disponíveis para um convívio harmonioso e despretensioso, exactamente como gosto. E a conversa fluiu. Foram blogues, cães e gatos, signos, escritores, cidades, línguas, livros e mais seria se a sineta das obrigações não tivesse soado para cada um. Um almoço perfeito.


Espreitem aqui para uma versão completa.

Mercados de Natal (8)

Viena
foto: minha

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Soltai as trunfas

Podia dizer-vos para irem buscar as calças justas, deixar crescer as trunfas, agarrar-se à guitarra e arrebanhar a primeira garota gira e estilosa, como se amanhã não existisse. Digo-vos apenas para irem ali ao lado deixar uma palavrinha ao metaleiro que completa hoje um ano de blogosfera. Enquanto isso deixo-lhe a tarde que esperemos possa um dia passar com uma cachaça de rolha. Nem só de metal vive um homem. Ele sabe que sim.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Nos dias de hoje

Ser professor nos dias de hoje implica muitas coisas. Implica, por exemplo, isto Stora, a stora sabe aquela música dos Guns n' Roses que tem uma rapariga a ter um orgasmo? É que era mesmo uma rapariga a ter um orgasmo lá no estúdio, isto Stora que nota é que eu tive? Não sei, não me lembro. Mas a nota da Maria a stora sabe. Já não gosto de si, stora ou isto Stora, o stor de Educação Física é todo bom, stora é que o homem é todo bom e isto ainda Stora, o Francisco rapou os pêlos das pernas. Todinhos. Tá todo lisinho agora, stora. Ser professor nos dias de hoje implica muitas coisas.

Mercados de Natal (7)

Bratislava
foto: minha

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Tu cá, tu lá

Os dias de invernia revelam mistérios insondáveis encobertos pela bruma. Um desses dias de frio pálido a revelação fez-se como epifania Vê lá tu que a minha mãe está cheia de tosse. As sogras, entre outras maleitas que variam em intensidade de acordo com a tipologia de sogra, têm tosse, portanto não me surpreendi, surpreendente é que não tenham tosse nem coisa alguma, e continuei com a minha vidinha não sem antes ter lamentado o facto. Muito bem. Terei acrescentado o habitual, sou rapariga parca em falas no que respeita a assuntos médicos e estados de saúde fragilizados por doenças de pouca monta, largo habitualmente um É fruto da época. Está muito frio ou Anda aí uma virose furiosa. Pois, pois, uma maleita danada. Uma gripe horrorosa, consoante os dias e a disposição e ando para a frente sem me perder em delongas e em lamentos pungentes e ladainhas lancinantes Não lhe passa. Está a tomar Azomyr mas não lhe passa a tosse. Tendo em conta que estava um frio de enregelar até o mais afoito ser invernoso não valorizei a verbalização mas fiquei em suspenso com a prontidão do nome oficial da mezinha contra estados calamitosos, aparentemente um antitússico que, pela desenvoltura, devia ter-me já sido apresentado antes. Não tinha. Não conhecia. Fiquei a cogitar de onde, como, quando e porquê surgira assim, sem mais e com inusitada rapidez, o nome de um fármaco, particularmente vindo de um ser para quem o estômago começava no estômago e se prolongava pelo abdómen e para quem os enigmas da medicina mais banal e quotidiana sempre foram mistérios tão insondáveis como Stonehenge ou a construção das Pirâmides. E hoje ele apareceu outra vez A tosse da minha mãe não passa. Nem com o Azomyr. Quanta intimidade. O tratamento coloquial e estreito. O que me incomodou foi o tu cá, tu lá com o dito antitússico, ainda por cima incompetente, a abordagem sem cerimónia nem salamaleques. Prevejo um estreitamento de relações com o Brufen, conversas de pé de orelha com o Benuron, tertúlias com o Clónix, bate-papos com o Aerius e conferências com Ciproxina, um dos antibióticos de largo espectro, fala-se muito neles nos dias que correm, algo me diz que são importantes.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Com alarme incorporado

No dia em que resolvi, alvitrei, aventei a hipótese de trocar as minhas lentes de contacto mensais, à razão de setenta e oito euros para seis meses, por umas diárias, à razão de sessenta euros por mês, estava nos antípodas de imaginar que este raciocínio, elementar e básico que qualquer criança em idade escolar resolveria sem dificuldade, se transformasse numa operação matemática elaborada e complexa e uma carga de trabalhos.
Entrei na loja curiosa, era a primeira vez que ali entrava, e após a abordagem inicial e o atendimento solícito do empregado, jovem e sorridente, disse ao que vinha não sem antes inquirir o preço das ditas lentes por um, um mês apenas. Perante o preço exclamei São mais caras então. O empregado pendurou a expressão de quem estava a Leste, mais a leste impossível, corria o risco de já estar a Oriente, quando repeti a lógica, da batata naturalmente Se para um mês custam sessenta euros e para seis meses custam quase oitenta, fica mais barato para seis meses. Do outro lado nada. Nadinha. Nicles. Népia. Desisti. Venham as de seis meses que a vida está cara e a carestia não se compadece com devaneios de uma criatura enfadada com as suas lentes semestrais, de resto, um assunto de importância cabal no contexto socioeconómico actual.
Continuava a olhar para o empregado, é mais forte do que eu, valha-me a santa, caramba, um raciocínio do mais elementar esbarrava contra a inabilidade do rapaz como se chocasse contra o Muro de Berlim. Arrumei a tralha, quase cem euros em coisa nenhuma que não servia para vestir nem comer nem ler mas sem a qual correria o risco de comer o que não queria, vestir o que não desejava e livrinhos só se tivessem letras corpo dezasseis é que lhes conseguiria deslindar um sentido. Saio da loja a refilar mentalmente A culpa é dos professores do Básico, há sempre mais culpados além de nós próprios, admite-se que não aprendam a ler, escrever e a fazer operações de aritmética logo no primeiro ano? Mania de não ensinar a tabuada. E depois vêm com a #$%&”@ do Magalhães. Ensinem-nos mas é a ler e a escrever, rais partam, e deixem-se de folclores. E ia eu nisto, refilando, respingando e retorquindo quando o alarme da óptica deu sinal de si. Um barulho irritante e estridente que orientou olhos múltiplos na minha direcção. O rapaz fez um olhar condescendente extensivo às colegas de profissão e ordenou-me que continuasse a marcha, lá para onde ia, provavelmente aliviado de me ver pelas costas, ninguém gosta de ver a vida dificultada por operações aritméticas arrojadas e complexas dignas de um qualquer Einstein. Era o sistema, o sistema, essa entidade invisível, omnipresente e omnipotente, tem sido acusada dos mais variados crimes, mais um menos um não era relevante. Que fosse o sistema pois.
Quando entrei no supermercado, o alarme reincidiu. Mais um barulho estridente. Depois de reclamar, o empregado, segunda versão, disse que não fazia mal, era o dito sistema. Irritada com tanta apitadela questionei se quando saísse o alarme iria tocar. Disse que sim com a maior naturalidade, mas, como gosto deste mas, para não me preocupar. Ai preocupo-me, preocupo-me, é óbvio que me preocupo Imagine que passam os meus alunos e presenciam a cena? O rapaz condescendeu e ficou-me com os cem euros de próteses oculares e quando saí afirmou, perante as apitadelas inexplicáveis Já noutro dia tivemos aí uma professora que também apitou. E assim ficou tudo esclarecido. Já não bastava o médico conhecer-me pelo cabelo, ser ofendida pela maga dos bigudis, agora apito no supermercado.

Mercados de Natal (1)

Munique
foto: minha

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

domingo, 30 de novembro de 2008

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Menos é mais

Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se publique uma fotografia, tenho algumas para ver a luz do blogue, se procure uma citação nos livros, se recorra ao sitemeter, esse manancial de informação curiosa sobre quem se adentra na blogosfera e aterra aqui chamado por uma palavra ou expressão. Estou aqui a cogitar Posto? Escrevo? Vai a foto? Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se poste, se publique, se cite. Fico aqui a pensar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Terça-feira

Até esse dia não me tinha passado pela cabeça que a literatura fosse composta por princípios activos incompatíveis, que ingénua, capazes de provocar reacções adversas caso combinados ou tomados em conjunto.

Para ler o resto nada como ir ao PNETMulher. Há um crónica fresquinha à sua espera.
imagem: Richard Baumgart, The Writer.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Entre o Pedro Rolo Duarte e o Sting


Podem ouvir-me aqui. Prometo depois disto voltar ao meu velho ser e deixar de me divulgar, cruzes canhoto, estou a ficar pior do que o Tibúrcio.

imagem daqui

domingo, 23 de novembro de 2008

Ouçam como eu respiro

Entrem. A janela da sala está no basculante, sopra uma brisa suave, o sol ilumina a sala, as gatas saíram. Podem entrar. Sentem o perfume da manhã? A fragrância da alma lavada? Podem entrar. As portas estão abertas. Podem ver. Sentirão a vida sempre presente de vidas passadas, o carreiro de letras e o trilho da deambulação permanente. Entrem. Podem entrar. Agora ouçam como eu respiro*.
* indecentemente roubado a uma peça de teatro do Novo Grupo/Teatro Aberto.

As sombras, o bulício


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

Cesário Verde



foto: minha

sábado, 22 de novembro de 2008

Chitas e debruns

E num dia de coração magoado e alma triste, a primeira coisa que ocorreria a uma mulher seria encharcar-se em chocolates, nesta altura do ano os supermercados abarrotam de chocolates, a segunda, ir às compras, a terceira, uma novidade na vida desta vossa escriba, é que não pode, dê por onde der, sucumbir à debilidade anímica e derrubar-se sobre uma caixa de Guylian ou, caso se permitisse, uma pequena de Godiva, a quarta é que não deve ir às compras, a recessão entrará mais dia, menos dia, e a quinta é que é melhor adoptar uma actividade que não lhe ocupe neurónios em desmedida quantidade, que a mantenha alheada do mundo, de preferência sem notícias e televisão ligada e que seja, concomitantemente, ligeira, sedutora e que entretenha até o coração deixar de doer, a alma deixar de choramingar, a vontade de devorar os Guylian amansar e o ímpeto de escavacar o dinheiro em algo sempre utilíssimo a uma mulher, mas que jazerá moribundo no guarda-roupa, gaveta ou armário, desvanecer. E podia ter-me abraçado a um livro, improvável, calçado os ténis e fazer uma caminhada com o Atlântico do lado esquerdo para lá, uma paragem no miradouro, e o regresso com o Atlântico do lado direito, caso não estivesse roufenha e combalida desta maleita infernal que me apanhou desprevenida e atacou à traição, ou podia ter-me iniciado nas artes de fada do lar, ao que se chega para não comer chocolates ou derreter o vil metal, armada em rapariga prendada e talentosa, por um dia, unzinho, há que sonhar, e dedicar-me às chitas e gangas, gregas e debruns.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Propostas para Domingo

Levante-se tranquilo, respire o ar puro da manhã, enxote maus pensamentos e humores canídeos matinais, o banho pode ser antes ou depois, comece o pequeno-almoço sossegado, sugere-se acompanhado pelo exemplar da fotografia. São quase onze horas. Agora sintonize a Antena 1, está a ouvir o Pedro Rolo Duarte? Espere só mais um bocadinho e voilá, eis que esta vossa dedicada escriba dá voz às palavras aqui, ali, acolá e ainda por ali rabiscadas, escrevinhadas, sentidas e paridas.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Partidas

Somos todos imortais até um dia o telefone tocar. Da Teresinha guardo também a memória de quem sou. Sempre presente na vida dos meus pais com carinho e entusiasmo, almoços e jantares em comuns, partilha, comemorações, algumas lágrimas e muitas muitas décadas de vida e de amizade genuína e dedicada, cuidada reciprocamente. Dela guardo o beijo desajeitado e aflito naquele dia de Setembro menino e o beijo luminoso e florido no aniversário que se anunciou afinal ser o último. A ela devo parte do meu amor aos felinos e nela sempre admirei a capacidade de viajante intrépida e incansável, sempre pronta a ir longe, sempre longe, para depois regressar com peripécias e fotografias. Partiu agora para uma viagem de onde não se saberá paradeiro, sem peripécias ou fotografias. Imortais somos sempre até um dia o telefone tocar.

Histórias com livros dentro

Este do José Bandeira. Ninguém se chama Sveva, realmente.

Este
do Jaime Bulhosa. Quem será o ladrão de poesia?



quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Momento sitemeter (17)

O maior pénis do mundo foi procurado neste blogue.
Seria isto que procurava?

Tate Modern, Londres
foto: minha

Em cinco actos

Primeiro, leio as receitas com um respeito reverencial, perscruto-lhe as entrelinhas, releio, atenta ao pormenores, quantidades e modos de preparação e penso Hei-de fazer esta receita. Vou fazer esta receita. Estabeleço um calendário No fim-de-semana ou reformulo Sexta-feira ao jantar sujeito a nova reformulação ou Quinta ou calendarização Talvez Sábado.
Segundo, faço uma abordagem às artes gastronómicas num momento prévio de preparação, confiro os ingredientes na despensa e no frigorífico, elaboro uma lista de necessidades a satisfazer no périplo ao supermercado mais próximo e começo a magicar Aqui era capaz de não ficar mal uma pitada de orégãos ou Podia substituir o tomate ou Não vou pôr pimentos.
Terceiro, faço-me à vida e entro no supermercado, confirmo a lista de necessidades e, quando chego aos legumes, cruzo-me com a secção de cogumelos frescos, lanço um olhar de cobiça aos pleurotos. Mau grado a cor, levam-me aos míscaros da minha infância pela consistência e textura aparentemente carnuda. Reformulo mentalmente a receita, deixando para trás definitivamente os tomates e os pimentos e acrescentando-lhe os pleurotos É capaz de ficar bem. Rumo a casa.
Quarto, deito-me finalmente à fase alquímica da mescla de sabores, espreito o mar da janela da cozinha, olho-o sempre veneranda antes de me concentrar, a inspiração perfeita para que os sabores se liguem e amem, e começo finalmente, afastando pensamentos negativos ou estados de alma soturnos, não são compatíveis com manjares opíparos. Duas cebolas picadas, uma grande daria de igual forma, um dente de alho e um fio generoso de azeite, ou dois, o cozinheiro para o ser deve ser generoso nas porções e disciplinado no método. Ao som do frigir, corto a courgette em pedaços pequenos, as duas beringelas e vou-me finalmente aos pleurotos também cortados em pedaços sobre a tábua de madeira para os juntar ao refogado, entretanto condimentado com uma colher generosa de pasta de tomate e salpicados com rigor de orégãos e alecrim. Está a correr bem, penso. Na janela da cozinha deixo de contemplar o mar para ver a noite descer como um manto escuro pontilhado de estrelas, enquanto o perfume invade a cozinha. Numa ida breve ao frigorífico encontro mozzarella e ocorre-me a ideia de que talvez gratinado ficasse melhor Fica de certeza. Quinto, e ficou.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Terça-feira de novo

Hoje a conversa mete a gente lá dos blogues e a menina das estrelinhas.
Ora espreitai o PNETmulher e deixai a vossa palavrinha.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Denúncia capilar

Vou ao médico a contra gosto, não que as idas ao médico me incomodem de sobremaneira mas a espera, senhores, a espera, as revistas do século passado, as cusquices requentadas e, por vezes, as lambisgóias que nos aguardam e acompanham na antecâmara das sessões de tortura, espreitadelas e revolvimento de entranhas deixam-me irritadiça e só desejo o momento em que pelo meu próprio pé, odeio ser levada por outrem, possa dar corda aos sapatos e fazer-me à vida com um molho de papelada nas mãos e o diagnóstico feito para finalmente descansar em casa, a caldos de galinha.
Ontem não foi excepção. Acometida por um catarro, dores de garganta e febre, agora com esta provecta idade, deu-me para ter febre, outro remédio não tive se não dirigir-me ao Centro de Saúde para me deixar medicar contra este catarro aflitivo, raios o partam. Logo após o jogo do Benfica, assim ditou o ritmo no recato do lar e a minha temperatura inusitada, aí fui, irritada logo de casa. É que já não chega estar doente, ainda ter de me sujeitar ao parecer técnico, deslocar-me ao médico e escolher um clínico do Serviço Nacional de Saúde, caso seja necessário um atestado só pode ser passado por um médico do dito serviço, deixa-me, à partida, irada e farta, além de doente, traçando assim um quadro da maior harmonia.
Graças a Deus, Alá e Jah, tinha apenas uma pessoa à minha frente e fiquei mais tranquila quando soube que um dos médicos de serviço é rapaz de resposta rápida, competente e perspicaz, capaz de vislumbrar à légua as enfermidades, uma verdadeira Rosa Mota do atendimento. Quando uma vez tive uma reacção alérgica não se sabe exactamente a quê, enfiou-me com duas injecções que até vi estrelas, planetas, cometas, o sistema solar todinho e ainda galáxias desconhecidas, mas uma coisa é certa, curou-me. O atendimento foi também à velocidade da luz, de tal forma que saí meio vestida meio por vestir, que é lá isso, ocupar lugar nas urgências? para me derramar agarrada à nádega na primeira cadeira que encontrei cá fora.
Reconheci pela voz que seria o médico, o tal, que chamava pelo meu nome. Logo na entrada, olhou-me bem de frente e perguntou-me ao que vinha. Depois do queixume, há que aproveitar a oportunidade para largar queixas e lamúrias, rematou Pois e deixe-me adivinhar tem que falar muito… Pasmei Como é que sabe que sou professora, doutor? Tenho cara de professora? Atirou-me Cara e cabelo! Tendo em conta que tinha estado toda a tarde a dormitar no sofá a minha trunfa não estaria exactamente calma, nunca está, de resto. Quis saber como sabia que eu era professora, a curiosidade feminina é terrível, mas ele só me sorriu, bem-disposto e jocoso, para me deixar a matutar em como teria ele tido acesso a esta informação. À saída ainda me perguntou Então, também foi à manifestação? Já não se consegue passar anonimamente, há sempre uma trunfa que nos denuncia.

domingo, 16 de novembro de 2008

Cesária Évora

dia 26 em Lisboa.
E subitamente a vontade de regressar a Cabo Verde.

sábado, 15 de novembro de 2008

A biblioteca itinerante

A linguagem não verbal é um indicador mais fiável do que palavras múltiplas recheadas de aforismos, metáforas e oxímoros. Foi assim que, naquele dia pela manhã, percebi que a minha aluna Tatiana, com um ar sofrido, a voz arrastada e nas palavras que soltou, em total sintonia com o desespero da expressão do rosto luminoso, precisaria da minha ajuda.
Bem no início da aula, estava meio deitada sobre a carteira, ainda com a pilha de livros e dossiers por arrumar, quando se derramou ainda mais sobre a mesa, inclinou levemente a cabeça para o lado direito, espalhando os caracóis castanhos e brilhantes sobre os livros e soltou o lamento Setora, ó setora, olhe o livro que estou a ler. Nem um laivo de excitação nas palavras proferidas, nem uma pitada indelével de entusiasmo. Apenas a desilusão, a resignação perante mais esta provação que a escola aparentemente lhe propunha, o conformismo irremediável perante o livro pousado à sua frente, levemente tocado com os dedos à medida que soltava uma quase dor, uma aflição indiscutível. Quando lhe solicitei que me mostrasse o livro, veio indolente, como quem mostra ao pai ou à mãe um dói-dói à espera do beijo mágico com efeitos curativos poderosos Já passou? Já passou!
O livro estava intocado, tinha o preço marcado a lápis, uma edição dos Livros de Brasil que faria as delícias de alguns bibliófilos, e tinha aspecto de ter sido remetido para último lugar na estante da livraria através da selecção natural Tenho este e este da lista. Qual quer? Ah não, este não. A Tatiana acrescentou É tão chato, setora, não percebo nada disso. Quando questionei porque o lia, exactamente aquele e não outro qualquer, adiantou que teria ido à livraria com a lista de livros indicados para o seu ano de escolaridade e que, não havendo mais nenhum em stock, lhe venderam aquele.
E do livro não se questiona a qualidade, porém o efeito nefasto de rejeição da leitura começava a evidenciar-se na Tatiana. Pobre garota sentenciada à tortura de leituras dolorosas. Pedi-lhe a lista dos livros a ler. Entre eles uma quantidade avultada de lusófonos que dormiam tranquilos na minha estante, o contrário do que um livro deve ser, e prometi-lhe que no dia seguinte lhe levaria alguns. Os livros precisam de ser arejados e lidos. Nas primeiras linhas solta-se a empatia de que todas as leituras genuínas e prazeirosas devem ser feitas, sem intermediários nem imposições, assim seria pois, extensivo ao resto da turma que, entretanto, se me agarrou como a uma tábua de salvação contra livreiros gananciosos. E no dia seguinte levei o Manuel Rui, o Mia Couto, o Ondjaki e o José Eduardo Agualusa dispostos em camadas entre as capas de tecido. Viram, leram e escolheram. Alguns dos livros já voltaram. Com eles o regresso do alívio e das expressões sorridentes de que são feitas as adolescências felizes. O que é que uma professora não faz pelos seus alunos? Ler é prazer.


imagem: Pablo Picasso, The Lesson

Um ano

O Pedro Rolo Duarte comemora hoje um ano de Pedro Rolo Duarte. Parabéns, Pedro.

Esta Lisboa que amamos


Desta vez não são posts a ler. São posts a ver. Este e este. Três perspectivas do mesmo lugar da Lisboa que amamos.

foto: minha

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Frases e palavras

Há dias em que me fogem palavras
e se me escapam frases.
Tento alinhavá-las como Lobo Antunes,
ceifo-lhes as vírgulas como Saramago,
desencanto uma tirada irónica como Mário de Carvalho
e remeto-me ao mais profundo silêncio
silêncio dos silêncios
prenhe de sinónimos puídos
e sons desengonçados
que se repetem como o eco
em gargalhada desabrida
desta que se ficou
sem palavras
nem frases.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Momento sitemeter (16)

Não consigo precisar quem, mas alguém me advertiu que estes escritos ainda iriam imortalizar a personagem. Pois bem, alguém aqui bateu à porta à procura do Tibúrcio. Está bonzinho, tem sofrido de azia intensa, porém, as fichas de avaliação de professores não contêm GABAROLICE, um dos items em que o Tibúrcio teria EXCELENTE.

Probably me

sábado, 8 de novembro de 2008

Agenda

Eu vou


Parque das Estátuas, Budapeste
foto: minha

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A primeira ou mais nenhuma

A filha chega a casa da mãe. Arremessa à entrada da porta o cansaço matinal, a ladainha de irritações, a pilha de desilusões acumuladas, fecha a porta apressadamente não vá a decepção fazer-se convidada para o almoço e entrar inadvertidamente pela frincha da porta. A filha chama Mami! A mãe não responde à filha. A filha ouve a mãe ao telefone. A filha pressente pela voz da mãe Algo não está bem. A filha ouve a voz da mãe algo inquieta, não era bem furiosa, não era bem irritada, não era bem zangada, mas algo não estava bem. A filha pensa Aconteceu alguma coisa, enquanto a voz da mãe se mantém assertiva e inflexível. A filha sabe Algo aconteceu. A filha inquieta-se Que será que aconteceu? A filha, sempre com a voz da mãe em fundo, inicia a confirmação de uma lista de possíveis energúmenos capazes de provocar na mãe o estado presente de inquietação. A filha pensa Quem foram os animais desta vez? A filha assume Foram os parvalhões dos colchões. A filha reitera Foram os anormais do clube de viagens. A filha enfurece-se Bem, se foram aquelas bestas a dizer que o Papá ganhou uma viagem outra vez… A filha conclui Se forem aqueles estúpidos é desta vez que apresento queixa na Deco. A filha tem a certeza Ai apresento, apresento, onde já se viu inquietarem a Mamã, onde já se viu ligarem para casa das pessoas a dizer que o Papá tinha ganho um sorteio como se andasse entre nós, o meu querido e saudoso Pai. A filha pragueja Estúpidos, parvalhões, bestas, anormais. A filha tem a certeza Ainda me passo e é desta que os mando abaixo de Braga três vezes. A filha sabe Ai mando, mando. A filha ouve a mãe com atenção, talvez descortine algo. A filha apura o ouvido Ora deixa cá ver, deixa cá ouvir bem… A mãe está a terminar a conversa, mas o tom de voz não muda, o tom de voz exprime a indignação. A mãe diz ao telefone. Agradecia, agradecia se faz favor. Obrigada. A mãe desliga o telefone. A filha pergunta aflita Mamã, o que foi, aconteceu alguma coisa? A mãe continua com o semblante carregado. A mãe responde Então não é que fui comprar A Viagem do Elefante, o último do Saramago... A filha responde Sim, eu sei e pensa E depois, mamã? Que te fizeram? Quem foi o energúmeno que te aborreceu? A mãe continua O livro saiu ontem. A filha concorda Pois foi. A mãe conta a história Comprei-o na livraria. A filha implica Mas que mania de ir àquela livraria, Mamã, já sabes como eles são. A mãe retorque Não é nada disso, foram até muito simpáticos. A mãe conclui E depois fui tomar café com a Dinha. A mãe remata E quando chego a casa vejo que o livro é a segunda edição. A filha pergunta E então, mamã? A mãe arremessa-lhe Uma segunda edição? O livro saiu hoje. Eu quero a primeira edição. Ora essa. A mãe não cede Não quero este. Quero a primeira edição. A filha põe água na fervura Mas se calhar esgotou, Mamã. A mãe não se dá por vencida, era só o que faltava Não esgotou nada, eles é que mandaram a segunda, diz-me a menina que para aqui só mandaram a segunda edição. Admite-se? Para a província mandam a segunda edição. Não quero! A filha acrescentou mais um elemento à sua lista de energúmenos em quem desancar, pegou nas chaves e ei-la a caminho dos distribuidores e livreiros. Uma segunda edição? É preciso ter lata. Onde já se viu.

Praise the Lord

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

God bless America

Ainda por cima é giro.

Gebrauchsanweisung für Portugal

Dois livros sobre o balcão: Darum nerven die Japaner e My dear Krauts. A senhora sorriu, à medida que pegava nos livros, e, enquanto fazia a conta, comentou a multiculturalidade da minha escolha. Aproveitei a simpatia e delicadeza no trato e perguntei se não tinha algo sobre Portugal. Não. Apenas aquele. Agradeci a informação e lamentei não haver mais nenhum. Tinha-o há uns anos, religiosamente entre as relíquias de leitura e de viagem, ainda a primeira edição em capa dura. Comentámos algo sobre a colecção e adiantou-me que fazia parte do compromisso dos autores escrever sobre os países sem rodeios e com toda a sinceridade e honestidade. Paguei, guardei os livros num saco de pano amavelmente oferecido, acredito que pela troca prazeirosa de palavras e fui-me.
Gebrauchsanweisung für Portugal, assim se chama o livro. Traduzido à letra significa Instruções de Uso ou Manual de Instruções e fugindo quer aos manuais de instruções, quer aos comuns guias de viagem, o autor discorre sobre o país. Neste Manual de Instruções de Portugal, com o qual me cruzei em Munique há uma boa meia dúzia de anos, Eckhart Nickel é o escriba, Portugal o objecto da escrita e da escrita transparece o amor incondicional por este país de fadas - Märchenland-, assim o considera. A paixão por Portugal nasceu de forma fortuita, mas como todas as paixões, intensa e arrebatadora. Conta que, numa triste tarde de Dezembro de céu ameaçadoramente cinzento prometendo neve, ele e um amigo não conseguiam prosseguir com o trabalho entre mãos e que, ao procurar algo que os consolasse da inacção e invernia, depararam-se com uma garrafa de Vinho do Porto Niepoort na garrafeira da cave. O primeiro gole como um orgasmo. O Inverno lá fora esquecido e o desejo de conhecer mais sobre o país de origem dessa verdadeira poção mágica apresentou-se de imediato como um apelo irresistível, guiando posteriormente Eckhart Nickel a Portugal.
Poupar-vos-ei a traduções de qualidade duvidosa – traduttore=traditore – nas páginas deste livro encontro mais do que julgo sermos e, mesmo se, aqui e ali, espreita timidamente o paternalismo do país pequenino, como se quer um país de fadas, há um encanto permanente nas gentes, um fascínio pela História e pelos escritores, bem presente nas citações frequentes de Bernardo Soares, uma surpresa nos hábitos do quotidiano em que as novelas e a gastronomia ocupam lugar de destaque e, acima de tudo, um carinho imenso por este lugar que Nickel descobre e se redescobre a cada linha.
Texto repescado a propósito do livro.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Momento sitemeter (15)

A próxima vez que vir o Cristo perguntar-lhe-ei, assim já poderei responder à questão quantas chibatadas cristo levou, a entrada directa para este blogue por alguém além-mar.

Aos pares como os sapatos

Corria o ano da graça de dois mil e três, estava na aldeia desde Janeiro, dia último, quando o Pão-por-Deus se fez anunciar no calendário. Acorri à superfície comercial do costume e abasteci o lar de guloseimas. Também eu na minha infância tinha ido ao Pão-por-Deus e, na aldeia, imaginava que a criançada aparecesse.
No dia um a campainha da porta terá tocado entre as oito e meia e as nove e depois disso até cerca das doze não houve mais sossego. Vinham quase sempre cuidadosos e raramente se aventuravam pelo portão adentro, a menos que os chamasse. O saloio não é rapaz de abrir as portas da mansão aos forasteiros e até que deixem de o ser são submetidos a provas extenuantes. Eu, pobre de mim, nem sempre consegui ultrapassar as várias barreiras. A criançada também conhecia este código, a panóplia de provações até que as portas se abram. O que a criançada não sabia é que, sendo eu mestiça da alma, híbrida de raízes a norte e além-mar, dou graças a deus e ao meu avô que se enamorou de uma brasileira paulista que havia de ser minha avó e aos meus pais beirões de alma e de afectos, as portas de casa abrem sem mais. O saloio também é muito cioso do seu palácio que cuida com rigor e protege dos usos quotidianos, é assim que proliferam casinhas e anexos, nada como poupar a casa, mais invicta do que um museu. A criançada também sabia disso, chovia nesse dia distante e tinham medo de me sujar a casa com as pegadas de lama, o que não sabiam é que aqui no número nove vivem almas tranquilas quanto à conservação imaculada da habitação.
Numa das visitas apareceu-me um ser mínimo, provavelmente nem se contariam três anos de vida decorridos. Era castiça. São-no sempre as crianças desta idade. Vinha acompanhada pela progenitora, uma criatura de traços rudes e beiças grossas que se explanou numa pequena palestra sobre os hábitos e raízes do Pão-por-Deus para esta vossa humilde escriba, ser único em casa naquele dia. E falou, falou, falou. Acrescentou a profissão, professora do primeiro ciclo, valha-me a santa, não podia ser antes outra coisa qualquer, e quando no fim me dirigi à criança para lhe dar um beijo, a pespenica júnior afastou-me de repelão, é bom que não tenha filhos, se fosse minha, tinha levado logo uma reprimenda no momento, o reforço não se deve fazer esperar, mas a pespenica sénior ficou ufana perante a manifestação da pespenica júnior, o caso Casa Pia tinha despoletado no mês primeiro desse mesmo ano, e acrescentou triunfalmente qual Pigmalião encantado com a sua obra Ela não vai a estranhos. Era bom de ver que uma nunca vem sozinha. Deslocam-se aos pares para um efeito mais eficaz. Perante isto ainda estive para lhe sacar os chupas e rebuçados, entra-me pela casa dentro e ainda me chama estranha? Contive-me naturalmente. Anos depois a pespenica voltou, reconheço-a à légua, já deixou a pespenica sénior em casa agarrada à verruga, mas herdou dela o mesmo pôr e dispor, que, calculo impere na relação com os outros. Aqui no número nove, pespeniquice fica à porta.

domingo, 2 de novembro de 2008