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domingo, 23 de agosto de 2009

Pela manhã

Os domingos de manhã convidam ao remanso. Sem incumbências e tarefas, os momentos alongam-se na preguiça de coisa nenhuma. Lá fora silêncio esporadicamente interrompido pelo ladrar fugaz dos cães, a manifestação assertiva da existência entre festas e ossos remanescentes do grelhado estival. E silêncio que se deixa quebrar pelo miado fininho, caracteristicamente feminino sem deixar margem para dúvida quanto à autoria. E depois aparece. Trepa para cima da mesa, primeiro aconchega-se por trás do ecrã para a seguir, pata ante pata, se aproximar com a elegância e subtileza que só os gatos têm, uma pata no colo, cautelosa, depois outra. Sem cerimónia o enroscar macio, pouco lhe interessa a vontade alheia, um suspiro pungente, uma conversa a vozes e miados discretos de satisfação. E por fim o ronronar intenso, a suavidade e feminilidade do pêlo curto no meu colo, o calor apaziguador, um novelo de carinho enroscado em mim enquanto verto estas palavras.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Nacos de prosa (13)

It is impossible not to love someone who makes toast for you. People's failings, even major ones such as when they make you wear short trousers to school, fall into insignificance as your teeth break through the rough, toasted crust and sink into the doughy cushion of white bread underneath. Once the warm, salty butter has hit your tongue, you are smitten. Putty in their hands.


Nigel Slater, Toast.

sábado, 15 de agosto de 2009

Página 81, a meio

Os livros são o melhor antídoto para dias solitários de praia. Arrumo dois no saco, longe dos protectores, a salvo dos cheiros intensos. Incapaz de prever os meus humores e apetites, acomodo-os lado a lado com a garrafa de água e rumo à praia não sem antes espreitar a tarja de mar pela janela e concluir que, embora o resto do país asse literalmente na canícula exuberante, o microclima presentear-me-á com uma tarde encoberta. Nem uma réstia de sol. Hesito à chegada. Vale a pena? E concluo que vale a pena, com os dois livros no saco e a tarde sem afazeres de qualquer ordem, vale a pena. Paira uma neblina levíssima, um manto indelével mesclado com o perfume da maresia. Vale a pena. Claro. Escolho uma clareira de frente para o mar e estendo a toalha e estendo-me à espera que o sol tímido, o que não vejo, se faça sentir numa longa carícia tépida. Procuro o livro e retomo a leitura. Deixem passar o homem invisível de Rui Cardoso Martins, o meu primeiro deste autor. Página 81. A meu lado duas mulheres e um homem trocam palavras. Tentam vislumbrar alguém no imenso areal, crianças, presumo, pela preocupação, até que descobrem um dos procurados. Tá ali, ó! E a conversa retoma, uma delas tem de ir fazer chichi, as crianças não chegam, o telemóvel toca. Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo. O céu torna-se subitamente menos cinzento, a praia começa a encher-se pouco a pouco. As crianças chegam entretanto, ouço-lhes o chilrear e as brincadeiras na areia bem a meu lado, ignoram os remoques da mulher mais velha e afirmam ter estado num sítio mesmo bom, uma piscina natural dizem. Debandam todos para o mar depois de mais uns dedos de conversa para voltarem a seguir, os adultos apenas. A mulher mais velha solta para o homem uns passos atrás Estes cabrões deviam ter um chip. Que merda! Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo.

Também no Delito de Opinião

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Completamente...

de acordo com isto. Quem é que quer saber dos genes se pode ter livros?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

sábado, 8 de agosto de 2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

À atenção do S. Pedro

E que tal se mandasses vir uns dias de sol e calor, uns dias de Verão a sério? É pedir muito?

domingo, 2 de agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nacos de prosa (12)

A segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro, os matulões da Liga dos Cegos João de Deus nas vizinhanças de um altifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões
(microencefálicos, macroencefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes políticos, etc)


António Lobo Antunes, "A consequência dos semáforos" in Livro de Crónicas

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quem mexeu no meu livro?

Do lado de lá da rua havia outra loja de discos. Olhei para o preço, manifestamente mais alto do que os CDs à venda, uma exorbitância em comparação com os dois por dez libras ou outros em preço muito convidativo, quase irresistível. Do outro lado da rua. Ora sair, atravessar em ziguezague a rua sem trânsito apenas picotada com o vaivém inclemente de turistas, estudantes de ocasião e locais que se aventuravam naquele fim de tarde ameno por uma das artérias da cidade. Do outro lado da rua. Subir ao primeiro andar, pedir ajuda, perguntar, saber, sair e voltar caso não exista e caso o preço seja mais alto. Assim sendo e tendo em conta as palavras ajuizadas do empregado avisando que só havia aquele, depois de uns breves minutos na senda do dito, ponderei seriamente. Havendo um só, unzinho da silva, e correndo o risco de ficar sem nenhunzinho da silva, socorri-me do engenho feminino e guardei-o numa outra estante onde ninguém mas ninguém o iria procurar. Escolhi os Iron Maiden, rapazes com envergadura suficiente para resguardar outras bandas e atravessei a rua e enfrentei o povo em passeio para cá e para lá e fui à outra loja e não havia o CD e regressei, agradeci a amabilidade ao Bruce Dickinson que me respondeu atirando-me com a cabeleira, esta malta do rock não tem melhoras, e comprei o CD. Pois era isto que devia ter feito há dois dias, sem a parte do Bruce Dickinson, porque hoje quando lá fui alguém já tinha comprado o livro. Percorri a estante várias vezes: Turquia, Grécia, Praga, Nova Iorque, Nova Iorque, Maiorca, Ilhas Canárias, Ilhas Canárias, Suécia, mas aquele que eu queria nada, nadinha. Recapitulando, agora a estante de cima, Marrocos, Turquia, Turquia, Grécia, Irlanda, Itália, Itália, Escócia, Tunísia, Barcelona, Dinamarca. Népia. O meu, o que eu queria, nada nem rasto. E devia ter repetido a façanha. O que eu devia ter feito era escondê-lo algures num lugar recôndito, atrás do Jesusalém ou do Barroco Tropical, por exemplo. Estaria muito mais feliz agora e ninguém se incomodaria de estar uns dias aconchegado no Mia Couto ou no Agualusa.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Período de reflexão


O Senhor Palomar, depois deste episódio iniciático, já baniu o ponto de exclamação. Por aqui também é muito pouco usado, mas tendo em conta que a última coisa que me apeteceu banir foi mesmo Maria de Lurdes Rodrigues, não sei se o ponto de exclamação, coitado, merece apodrecer em tão demeritosa companhia ou se lhe arranje outro estrupício. Este blogue encontra-se pois em período de reflexão.

ilustração: Pedro Vieira