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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (4)

Quarteirão dos Escritores

Não é o Quarteirão dos Escritores mas podia ser. À minha frente e ainda na esplanada, contemplo o poeta Chiado. Ao meu lado, umas mesas abaixo, consigo ver Pessoa, também ele sentado à mesa n’A Brasileira, tomando um café que é tudo menos tranquilo. Duas mulheres abordam-no, pobre Pessoa, uma que timidamente se aproxima para que a outra lhe tire uma fotografia. Vão-se embora lestas, a cidade espera-as, acredito. Uma adolescente aproveita o hiato de paz e salta literalmente para o colo do escritor dos heterónimos. Duas fotografias envolvendo o pescoço do absolutamente indiferente Fernando António Nogueira Pessoa, nascido a 13 de Junho, data duplamente festejada no calendário alfacinha. Nunca em vida foi tão popular nem esteve tão acompanhado.
E continuando com os escritores: um pouco mais acima está “o poeta triste” no dizer de Eça. Camões que se ergue no Largo com o seu nome, com o olhar estático Rua Garrett abaixo, mais uma evidência da omnipresença dos escritores no Chiado, “o meridiano das artes e letras portuguesas”, Cardoso Pires dixit. Já na Rua do Alecrim, com a maresia do Tejo a perfumar “o manto diáfano da fantasia”, encontra-se Eça de Queiroz, nome incomparável das letras lusas e que terá cantado o Chiado como poucos. Camões, Pessoa, Chiado, Eça e Garrett misturam-se num ínfimo espaço físico, encontrando-se sempre além do que a superfície geográfica delimita. Não é o Quarteirão dos Escritores, mas podia ser.



(continua)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sem dia nem estação

O início do crepúsculo deixava uma aura dourada a reflectir-se nas janelas vinda de lá do lado do mar onde se anunciam os ocasos rubros do início do Outono. À minha frente caras desconhecidas, um primeiro contacto nesta aventura de regresso à escola após anos, décadas talvez, de interregno. E o sossego instala-se, um silêncio pontilhado apenas com o contacto do papel na carteira amarelada e o restolhar dos adereços femininos, os sorrisos que pairam como uma aroma suave a enlear a sala para dar lugar ao semblante mais concentrado na tarefa à sua frente. Lá fora o crepúsculo. Revejo os papéis no momento de acalmia, arrumo as sobras do silêncio e começo a leitura. Um nome. Um nome igual a todos os outros. Um nome que seria exactamente igual, caso mais dados não confirmassem a coincidência. Sussuro-me Que giro! É da empresa do Papá. Vou-lhe contar. E o resto é conhecido. Letras e letras desta ausência que atiro longe para lá do sol poente em início de Outono e me regressa sempre como um boomerang sem dia nem estação

Chiado, Tejo e tudo (3)


Lisboa que desfila

Enquanto peço uma bica sentada n’ A Brasileira ocorrem-me as linhas de António Lobo Antunes. O escritor íntimo de Lisboa declara o seu ódio aos semáforos “a principal razão que me leva odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro”. Embora me encontre tranquilamente sentada com a estátua corcovada do poeta Chiado à minha frente, longe de semáforos, a abordagem imediata, mal me havia sentado, de um homem reclamando uma contribuição para os doentes com SIDA, retornou-me as palavras do escritor. Dou-lhe uns trocos para que me deixe em paz, pouco convicta da sua sinceridade, ele esboça uma expressão insatisfeita. Nos dias que correm também Lisboa se rendeu a uma procissão de personagens características, em nada comparável ao sucedido décadas antes. Esta não é a Lisboa de António Lobo Antunes mais uma vez, um desfile de “microencefálicos, macroencefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes políticos, etc.”, mas é suficientemente incomodativa, contudo. O Chiado também é feito disto.


(continua)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (2)

Entre o Tejo e o casario

Situado entre duas das sete colinas de Lisboa, a de Santa Catarina e a de São Roque, o Chiado reparte-se entre ruas estreitas e avenidas que serpenteiam em várias direcções: a Baixa, o Cais do Sodré, o Príncipe Real, a Calçada do Combro que levará a outro local de passagem obrigatória para quem se queira aventurar além dos roteiros turísticos. Os olisipógrafos dividem-se quanto à origem do nome desta zona da cidade, oscilando entre a onomatopeia do chiar das rodas das carroças e o epíteto de António Ribeiro, poeta satírico do século XVI, o Poeta Chiado ou apenas o Chiado. O mistério é o condimento necessário para a perpetuação dos mitos. Pode ser neste caso também.
Facilmente alcançável por três elevadores, Bica, Glória e Santa Justa, datados do fim do século XIX, início do século XX, o Chiado é mais do que apenas um bairro. É também a língua de casario, de um lado a precipitar-se para o Tejo e do outro a espreitar a encosta íngreme de sacadas pombalinas, decadente e simultaneamente encantatória como em outras cidades crepusculares, Veneza ou Havana.
O Chiado encerra a história centenária de boémia, tertúlias, de passeios públicos onde a elite portuguesa do século XIX se passeava para ver e ser vista. Muito mais do que um bairro, portanto. “O Chiado não pode ficar resumido a uma efeméride, a um livro de ouro ou a um belvedere por onde passam as primaveras das Belas-Letras/Belas-Artes dum país. Está também na trajectória do nosso Pensamento Social e Contemporâneo, na evolução da nossa política e esse é um capítulo que lhe cabe em parágrafos de honra maior” diz-nos José Cardoso Pires em Lisboa Livro de Bordo, obra obrigatória para quem quer conhecer Lisboa. E tem razão.
Desde sempre o ponto convergente entre o povo do Bairro Alto com vidas aquém da moralidade vigente, a elite prestigiada, e o percurso peripatético de pensadores, escritores e poetas, o Chiado mantém essa diversidade. A reabilitação do Bairro Alto como um dos locais de culto da noite lisboeta, onde o alternativo se mistura com as tascas tradicionais com vinho a copo dissuadiu as mulheres de má vida e as varinas de Eça que “de canastra à cabeça, meneavam os quadris fortes e ágeis na plena luz” também já não moram ali. Pululante de um novo estilo de comércio, com pequenas lojas alternativas escondidas nas vielas encimadas por canteiros de gerânios rubros ou pungentes estendais de roupa alardeando a intimidade, o Bairro Alto constitui hoje um pólo atraente da cidade. Nada como perder-se a pé para melhor sentir a alma de um local como poucos no mundo.
(continua)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (1)

O céu plúmbeo sobre a cidade momentaneamente iluminado por umas réstias de sol deixa-se vislumbrar da parte de trás do eléctrico. Um homem jovem pelos trinta anos espreita pela janela confirmando a dissipação da intempérie inesperada em pleno Verão. Posa para a fotografia dentro do eléctrico quase vazio enquanto a companheira de viagem tira fotografias de ângulos diversos. Logo após é a vez dela. O homem revira os olhos num sinal de óbvio enfado. A mulher não se deixa intimidar. Vai pedindo fotografias várias, ora dentro do eléctrico ora fora, indiferente à pouca vontade masculina e mantendo em mente o seu objectivo: deixar-se fotografar dentro de um dos ícones da cidade de Lisboa e que a elevará a um ponto de onde a cidade se oferece sem pudores ao olhar curioso e perscrutador de turistas e viajantes.
Regressam ao interior do eléctrico. Pergunto-lhes se querem uma fotografia a dois, quando se viaja a pares falta sempre um terceiro que imortalize o momento. Acedem, aparentemente felizes. Ela salta para perto dele e coloca-se por trás. Um sorriso. Uma pose. Já está. Pergunto-lhes Where are you from? A mulher sorri e responde-me I’m from Ireland, he’s from Serbia para concluir com algum pudor We are a mixture. Respondo-lhe que também nós somos uma mistura, facto inegável de séculos de miscigenação. O elevador começa a marcha rua acima. Para trás a Praça dos Restauradores e, fazendo jus ao nome do próprio, inicia-se a Glória de uma subida reveladora a cada momento, uma urbe sobre sete colinas afinal tão convenientes a uma observação perfeita de vários pontos da cidade.
(continua)

sábado, 12 de setembro de 2009

Passado rasgado

Está na hora de arrumar. Arrumar, rasgar, deitar fora, limpar. Arranjar espaço no passado para que o presente flua. Atiro-me impiedosa aos papéis acumulados dias e anos, testemunhos do caminho trilhado, vozes silenciosas que me sussurram quando abro dossiers e os desventro do papel velho, fichas e trabalhos, textos, aulas e aulas, bocados da minha vida que tento a todo custo que se mantenham. E rasgo papéis. E textos, e fichas, horas e horas de conversa e debate, horas e horas a que abruptamente tive de dizer adeus um dia algures num Abril passado, tão passado, volvidos quase meia dúzia de anos, mas sempre presente. A memória que percorre os espaços da felicidade que já foi. Dias auspiciosos que se abrem perante mim. E rasgo papéis. E despeço-me de uma parte de mim.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Mal moderno

Diz que provoca irritabilidade, insónia, tristeza, dificuldade de concentração e lentidão. Há quem a sinta assim que começa a fazer a mala de regresso ao pátrio lar, uma espécie de modorra que se instala no corpinho hipoteticamente bronzeado dos veraneantes ou na alma teoricamente lavada por outras paragens e embalada no remanso de nada fazer, profissionalmente entenda-se. O corpo que se recusa a reagir ancorado nas férias como um burro teimoso. Há ainda quem seja acometido de ataques de mau humor súbito, um enraivecimento colérico gerador de impropérios largados como quem deglute prozacs e digassims em catadupa sempre na senda da cura para este mal moderno. Podia ser contemporâneo, é, aliás, contemporâneo, contudo esta mania que se instalou agora de epitetar de depressão ou de síndrome todos os estado de alma é característico de uma modernice bacoca. A mais recente é a depressão pós-férias ou também chamado síndrome pós-férias. A acreditar na “Única” desta semana, este mal, e que mal, passará algumas semanas depois do regresso ao trabalho. Não sei quando é que perdemos a capacidade de aceitar a vida como ela é. Tudo é passível de causar depressões, o regresso às aulas, o fim das férias, medos e fobias de coisa nenhuma e de todas as coisas mas que se não forem aceites como são podem transformar-se nesse mal dos males. Assim que assoma a primeira tristeza ou fanico da alma dorida, normal, diria eu, arranja-se sempre um síndrome, depressão também, que se lhe chame. Há que cumprir o fado, o destino de xailes negros e cantares tormentosos. Sem uma depressão nada se faz. Regressar ao trabalho é apenas regressar ao trabalho.

É oficial...

acabaram-se as férias.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Momento sitemeter (22)

Com um fisaleiro com o meu é quase imperdoável que não tenha aproveitado a safra infernal para um Doce de fisalis, a procura mais recente no contador de visitas deste blogue. Doce de fisalis nunca fiz, de facto, mas ainda sobrou um pedacinho do doce de abóbora, biológica, sem corantes nem conservantes e que resultou num manjar opíparo, lado a lado com o inevitável requeijão de Seia. Alguém é servido?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quatro anos de silêncio

Sentado no sofá, como tanto gostava e caso o gato não o disputasse com ele de olhar fixo e penetrante, orelhas perfiladas e um leve inclinar da cabeça para um dos lados, o meu pai seria incapaz de aceitar com calma os desígnios recentes deste nosso Portugal. Dono de um feitio apurado que, adianto, é genético e contagioso, o meu pai teria feito tudo excepto ficar impassível e, muito importante, calado. Primeiro uma crítica suave, cautelosa. Talvez na entrada Nonô, ouviste o Sócrates ontem? Depois em crescendo, Olha, tu ouviste-o ontem? sempre em crescendo Ai Santo Deus, as coisas que se dizem e depois a confirmação Palavra de honra, não têm vergonha? mais tarde a certeza Está pior que o Salazar, e a desilusão total Olha, nem no tempo do Salazar. Que tristeza! e a ameaça que nunca cumpriu Este ano não vou votar. E dias correriam. Ao que nós chegámos... Dias longos e breves, dias de sol e de Inverno. Dias e meses e anos. Estão completamente loucos. Perderam as estribeiras. E teria refilado. Retorquido. Sugerido. Comentado. Apontado. Criticado. Reprovado. Mas hoje, hoje só houve silêncio.

Setembro

Setembro. Mês nove, mês de transição efectiva entre a vida estival, os dias de nada fazer para a maior parte dos portugueses e os dias em que o dever laboral soa que nem uma sirene enfurecida movida pelas obrigações e responsabilidades. A minha sirene começou a tocar levemente, ouço um silvo fininho algo longínquo, porém bem mais perto do que ontem e claramente menos distante do que na semana passada. Aproxima-se lesta. Paulatinamente a vida retoma o ritmo que ocupará com mais ou menos intensidade nos próximos onze meses, a estação pateta e atoleimada arrumou as sandálias e chinelas, as calças de linho e os vestidos esvoaçantes no sótão das memórias artificialmente felizes que os meses fugazes de estio comportam.
Setembro é mês de transição entre o Verão e o início de Outono, estação das folhas caídas que cobrem o chão como um tapete acobreado e ruidoso nos parques e caminhos. Em Setembro, os dias tornam-se mais frios, menos longos, os pores-do-sol vestem-se de cores avermelhadas e são mais belos do que no pico do Verão. E Setembro é um dos mais duros meses que me conheço, crepuscular e sombrio, dia dois marca assim o calendário, dia dois, dia segundo de um mês que o tempo dita belo, a estação menos exuberante e mais comedida, as castanhas que se anunciarão lá para frente, o aconchego das roupas menos translúcidas prenhes de conforto.
Dia dois. O dia que apagaria de todo do calendário, caso apagar me fosse possível e caso apagar me devolvesse a luminosidade perdida nesse pedaço de mim que num dia dois de Setembro vi definitivamente partir e a quem vou dedicando as letras e palavras, lê-las-á?
Dia dois então. O dia a partir do qual a vida se dividiu em dois, antes e depois, e no depois as memórias saltam em catadupa, memórias apenas, lembranças, recordações que comigo estão para onde quer que vá e que se me impõem em instantes díspares e improváveis. Um momento que gostaria de partilhar, uma notícia a comentar, um livro para ler e a conversa de sempre em torno da língua de Camões, discussões que se advinham intensas e aguerridas.
Dia dois portanto. O dia em que entendi que a ordem natural das coisas é apenas a convenção, somente a crença irracional de que se socorrem os aflitos para que o dia-a-dia se torne suportável na ausência definitiva, a ordem natural das coisas -quem se lembrou de tal?- mais não é do que a mezinha possível para as dores da alma, a resignação perante os factos consumados. Ordem natural das coisas, dizem-me, que assim é: os pais partem primeiro do que os filhos, diz que é por isso que agora apenas posso dedicar estas palavras ao meu pai.
Dia dois pela tarde. Era Setembro.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Palavras

Palavras. Palavras que procuro. Palavras que me faltam sempre que a vida nos atropela e deixa com a certeza de que os desígnios são palavras vãs e conceitos sem sentido em tempo de coração apertado, com a ausência sentada em nós, o coração apertado com o torniquete da saudade tão recente. Mas procuro palavras. Palavras que possam confortar a C.. Palavras que a abracem com o carinho pleno da amizade e que amenizem o silêncio que a partida deixou. A morte é a curva da estrada, penso, morrer é só não ser visto. E morrer é só não ser visto, uma curva que aparece lá longe no caminho que trilhamos e que alberga os nossos ausentes, afinal tão presentes. Um dia voltará o sorriso, querida C.. Enquanto isso procurarei as palavras.

domingo, 23 de agosto de 2009

Pela manhã

Os domingos de manhã convidam ao remanso. Sem incumbências e tarefas, os momentos alongam-se na preguiça de coisa nenhuma. Lá fora silêncio esporadicamente interrompido pelo ladrar fugaz dos cães, a manifestação assertiva da existência entre festas e ossos remanescentes do grelhado estival. E silêncio que se deixa quebrar pelo miado fininho, caracteristicamente feminino sem deixar margem para dúvida quanto à autoria. E depois aparece. Trepa para cima da mesa, primeiro aconchega-se por trás do ecrã para a seguir, pata ante pata, se aproximar com a elegância e subtileza que só os gatos têm, uma pata no colo, cautelosa, depois outra. Sem cerimónia o enroscar macio, pouco lhe interessa a vontade alheia, um suspiro pungente, uma conversa a vozes e miados discretos de satisfação. E por fim o ronronar intenso, a suavidade e feminilidade do pêlo curto no meu colo, o calor apaziguador, um novelo de carinho enroscado em mim enquanto verto estas palavras.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Nacos de prosa (13)

It is impossible not to love someone who makes toast for you. People's failings, even major ones such as when they make you wear short trousers to school, fall into insignificance as your teeth break through the rough, toasted crust and sink into the doughy cushion of white bread underneath. Once the warm, salty butter has hit your tongue, you are smitten. Putty in their hands.


Nigel Slater, Toast.

sábado, 15 de agosto de 2009

Página 81, a meio

Os livros são o melhor antídoto para dias solitários de praia. Arrumo dois no saco, longe dos protectores, a salvo dos cheiros intensos. Incapaz de prever os meus humores e apetites, acomodo-os lado a lado com a garrafa de água e rumo à praia não sem antes espreitar a tarja de mar pela janela e concluir que, embora o resto do país asse literalmente na canícula exuberante, o microclima presentear-me-á com uma tarde encoberta. Nem uma réstia de sol. Hesito à chegada. Vale a pena? E concluo que vale a pena, com os dois livros no saco e a tarde sem afazeres de qualquer ordem, vale a pena. Paira uma neblina levíssima, um manto indelével mesclado com o perfume da maresia. Vale a pena. Claro. Escolho uma clareira de frente para o mar e estendo a toalha e estendo-me à espera que o sol tímido, o que não vejo, se faça sentir numa longa carícia tépida. Procuro o livro e retomo a leitura. Deixem passar o homem invisível de Rui Cardoso Martins, o meu primeiro deste autor. Página 81. A meu lado duas mulheres e um homem trocam palavras. Tentam vislumbrar alguém no imenso areal, crianças, presumo, pela preocupação, até que descobrem um dos procurados. Tá ali, ó! E a conversa retoma, uma delas tem de ir fazer chichi, as crianças não chegam, o telemóvel toca. Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo. O céu torna-se subitamente menos cinzento, a praia começa a encher-se pouco a pouco. As crianças chegam entretanto, ouço-lhes o chilrear e as brincadeiras na areia bem a meu lado, ignoram os remoques da mulher mais velha e afirmam ter estado num sítio mesmo bom, uma piscina natural dizem. Debandam todos para o mar depois de mais uns dedos de conversa para voltarem a seguir, os adultos apenas. A mulher mais velha solta para o homem uns passos atrás Estes cabrões deviam ter um chip. Que merda! Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo.

Também no Delito de Opinião

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Completamente...

de acordo com isto. Quem é que quer saber dos genes se pode ter livros?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

sábado, 8 de agosto de 2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

À atenção do S. Pedro

E que tal se mandasses vir uns dias de sol e calor, uns dias de Verão a sério? É pedir muito?

domingo, 2 de agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nacos de prosa (12)

A segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro, os matulões da Liga dos Cegos João de Deus nas vizinhanças de um altifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões
(microencefálicos, macroencefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes políticos, etc)


António Lobo Antunes, "A consequência dos semáforos" in Livro de Crónicas

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quem mexeu no meu livro?

Do lado de lá da rua havia outra loja de discos. Olhei para o preço, manifestamente mais alto do que os CDs à venda, uma exorbitância em comparação com os dois por dez libras ou outros em preço muito convidativo, quase irresistível. Do outro lado da rua. Ora sair, atravessar em ziguezague a rua sem trânsito apenas picotada com o vaivém inclemente de turistas, estudantes de ocasião e locais que se aventuravam naquele fim de tarde ameno por uma das artérias da cidade. Do outro lado da rua. Subir ao primeiro andar, pedir ajuda, perguntar, saber, sair e voltar caso não exista e caso o preço seja mais alto. Assim sendo e tendo em conta as palavras ajuizadas do empregado avisando que só havia aquele, depois de uns breves minutos na senda do dito, ponderei seriamente. Havendo um só, unzinho da silva, e correndo o risco de ficar sem nenhunzinho da silva, socorri-me do engenho feminino e guardei-o numa outra estante onde ninguém mas ninguém o iria procurar. Escolhi os Iron Maiden, rapazes com envergadura suficiente para resguardar outras bandas e atravessei a rua e enfrentei o povo em passeio para cá e para lá e fui à outra loja e não havia o CD e regressei, agradeci a amabilidade ao Bruce Dickinson que me respondeu atirando-me com a cabeleira, esta malta do rock não tem melhoras, e comprei o CD. Pois era isto que devia ter feito há dois dias, sem a parte do Bruce Dickinson, porque hoje quando lá fui alguém já tinha comprado o livro. Percorri a estante várias vezes: Turquia, Grécia, Praga, Nova Iorque, Nova Iorque, Maiorca, Ilhas Canárias, Ilhas Canárias, Suécia, mas aquele que eu queria nada, nadinha. Recapitulando, agora a estante de cima, Marrocos, Turquia, Turquia, Grécia, Irlanda, Itália, Itália, Escócia, Tunísia, Barcelona, Dinamarca. Népia. O meu, o que eu queria, nada nem rasto. E devia ter repetido a façanha. O que eu devia ter feito era escondê-lo algures num lugar recôndito, atrás do Jesusalém ou do Barroco Tropical, por exemplo. Estaria muito mais feliz agora e ninguém se incomodaria de estar uns dias aconchegado no Mia Couto ou no Agualusa.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Período de reflexão


O Senhor Palomar, depois deste episódio iniciático, já baniu o ponto de exclamação. Por aqui também é muito pouco usado, mas tendo em conta que a última coisa que me apeteceu banir foi mesmo Maria de Lurdes Rodrigues, não sei se o ponto de exclamação, coitado, merece apodrecer em tão demeritosa companhia ou se lhe arranje outro estrupício. Este blogue encontra-se pois em período de reflexão.

ilustração: Pedro Vieira

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Julhos

Saí do aeroporto de Lisboa de t-shirt. Com um casaco leve apenas para abafar o frio demoníaco dos aviões e nos pés umas sandálias veraneantes, arremessei-me por esse mundo fora para me cultivar nos linguajares anglófonos. Assim que cheguei ao aeroporto de Luton, o céu plúmbeo ameaçador brindou-me com absoluta indiferença e uma vez ultrapassados os trâmites legais e de bagagem ao meu lado fui recebida do lado de fora do aeroporto com um friozinho cortante nos dedos dos pés. É sabido que me podem fazer quase tudo, tenho quase sempre o mesmo mau feitio, portanto será igual mas, se por acaso, for acarinhada com frio o mau humor habitual cresce exponencialmente transformando-me num animal absolutamente intratável. Nem eu me aturo. Não que fique implicativa. Não fico, mas não estou. Para ninguém. Nesse dia não tinha quem mal tratar, tinha mas não quis.
Fiz-me, pois, à vida queixando-me furiosamente e desejando com todo o ardor chegar àquela que seria a minha casa nas duas semanas seguintes para calçar a única coisa que me podia salvar do frio infernal: uns ténis comprados à pressa, não fossem os ingleses terem virado alemães e dar-lhes para fazer umas Wanderungen pelos matos oxfordianos fora. Uma vez chegada a uma das típicas casas inglesas de baywindow em pleno countryside, a alguns quilómetros de Oxford, descansei. Era pôr-do-sol. Umas réstias de sol entrecortavam a janela de onde avistava um bosque retemperador, lá para o outro lado da estrada. Era assim a minha casa onde habitavam dois boys com actividades de tempos livres capazes de ocupar uma família inteira não fossem peder-se num qualquer minuto livro com os respectivos pai e mãe e um gato, Jasper de seu nome. Depois dos cumprimentos e apresentações, algumas palavras de circunstância com os anfitriões sobre o ténis em Wimbledon entre Nadal e Federer, a passar no ecrã gigante da casa de baywindow, dei-me um tempo para ver se aquele friozinho que entretanto se estendera a outras partes do corpo não seria apenas das diferenças de temperatura, algum tempo de aeroportos e aviões. Não era. Era frio, frio que me obrigou a pedir à Paula e ao Keith, os meus anfitriões, que me ligassem o aquecimento do quarto, please. Era Julho.
E nos dias seguintes, Londres, Bath, Stonehenge, Christ Church, Alice’s Shop, Bodleian Libary, museus, torres, universidades, tea and scones e ales depois, o frio foi uma constante e, por assim ser, todos, mas todos os dias me ressarci com uma chávena de chá bem quente, o melhor bálsamo que conheço para a invernia depois de Glühwein. Era isto em Julho. E não mais bebi chá no Verão. Até hoje. Hoje que não pedi ao Keith e à Paula que me ligassem o aquecimento, não teci comentários de circunstância ao Nadal e ao Federer, não quis saber dos boys no remo, no atletismo, no futebol, na pesca, estou a beber uma caneca de chá. Como se fosse Oxford e o frio entrasse na alma. Earl Grey descafeinado, para que conste. Uma caneca cónica laranja com flores vermelhas, reminiscência do Verão que fugiu. Em pleno Julho.
Oxford
fotografia minha

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A importância do nome

Suponhamos que o Manel faz uma viagem. Como todas as viagens, a viagem do Manel tem algumas peripécias. O Manel arruma a viagem na gaveta mas vinte anos depois e porque se lhe atravessa ao caminho uma fotografia da mulher que o acompanhou nesse périplo lembra-se de escrever umas coisas. O Manel acha a viagem engraçada com ingredientes suficientemente intensos para tornar a estória atraente, sente-se em dívida com a mulher que o acompanhou, é atacado por uma nostalgia súbita e neste embalo envia o manuscrito da sua aventura às editoras. O Manel, coitadito, é apenas o Manel, sem apelido, padrinhos, amigos, alguém que dê uma palavrinha a alguém, um toque só para ver se pega e, por conseguinte, tempos depois começa a receber cartas das editoras. Que não se enquadra nos critérios editoriais, que não podem encarar a respectiva publicação, que não são a editora indicada para a apreciação de narrativas curtas, que têm a programação editorial muito preenchida. O Manel arruma os manuscritos na estante, outros rasga-os furiosamente e coloca-os com grande dever cívico no ecoponto azul e outros oferece com uma dedicatória aos amigos, em tempo de crise há que poupar nos presentes. E partiu à sua vida.
Ora se o Manel de chamasse, digamos, Miguel Sousa Tavares tinha o assunto resolvido e podia publicar este novo género de quase romance, a tal narrativa curta, contando uma das suas aventuras ao deserto com uma mulher com quem aparentemente teve um relacionamento amoroso e que morreu entretanto. No teu Deserto é apenas isso: um devaneio, sem grande qualidade de escrita. O texto está cheio de lugares-comuns, a noite estrelada a tempestade da areia, o desenrascando luso, o silêncio do deserto, uma mulher convenientemente loura que já se sabe resulta muitíssimo bem em países árabes como moeda de troca por cáfilas de camelos. Muito inferior a Sul, Não te deixarei morrer, David Crockett ou a Equador, o livro não traz qualquer novidade. Servirá apenas o voyeurismo dos leitores e ocupará uma boa parte de uma lânguida tarde estival, há sempre que não goste de leituras pesadas no Verão. Miguel Sousa Tavares já mostrou que é capaz de bem melhor. No teu Deserto só viu a luz do dia porque o seu autor é quem é. Se fosse o Manel, por exemplo, nunca passaria da intenção e muito bem.
Também no Delito de Opinião

domingo, 19 de julho de 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Certas e determinadas coisas

Sou rapariga que gosta de trabalhar, não me imagino em momento algum sem trabalhar, não nesta fase da minha vida e seria incapaz de viver à mercê da generosidade marital mas quando vejo finalmente um pouco de sossego e de descanso deste ano infernal que está a passar, transformo-me numa outra mulher. Foi o que aconteceu hoje, quando pela manhã, de corpo descansado e alma aliviada rumei ao supermercado para as compras habituais.
Assim que entro sou brindada com o “Público”, que esta sexta-feira tem a maior ratoeira para mulheres sensíveis como eu, não sensíveis assim no abstracto. Como se sabe às vezes tenho uma couraça impenetrável e nem sempre sou sensível a queixumes e desgraceiras, mas sim sensível a certas e determinadas coisas, como diz o povo, e nessas certas e determinadas coisas inclui-se o Chico. Ora, o Chico que em novo nunca me despertou grande interesse a não ser pelas canções, tornou-se agora nesta idade interessante o mais charmoso dos sexagenários. Os olhos, ai aqueles olhos, os livros, cruzes credo, agora deu-lhe para escrever, e aquela complexão magrizela e displicente dão cabo de mim. No Chico há aquela fragilidade aparente, no olhar aquela súplica miudinha que arrasa as mulheres de couraça como eu e a impassividade, meu deus, a impassividade geminiana masculina quase fleumática que faz rombo no bicho de coração empedernido que me assola amiúde. Foi também por isso que a manhã hoje não foi a mesma.
Pousei com cuidado o jornal na horizontal no fundo do carrinho de compras, não fosse acontecer-lhe algo e fui-lhe deitando um olho. Ele também me deitava um olho, os dois na verdade e insistentemente. Quando fui ao sal para a dourada, coloquei-o cuidadosamente sobre o jornal tapando-lhe a boca e os olhos fitaram-me ainda mais no cinzento do jornal. Ai Chico Chico. Depois fui às cenouras que coloquei cuidadosamente no outro extremo, bem como o pack de seis garrafas de água. À medida que as compras se avolumavam a minha preocupação crescia. O Chico, contudo, mantinha-se impassível com aqueles olhos que se lhe conhecem. O busílis foi quando no peixe me deram a dourada e as sardinhas todas besuntadas, e vi o saco molhado e com o cheiro intenso do conteúdo perigosamente dependurado nas minhas mãos. E o Chico? paniquei. Acha que vou pôr este peixe por cima do Chico? pensei. A empregada encolheu os ombros e gritou NOVENTA E TRÊS, indiferente e até provocadora. Ciúmes cá para mim, bem vi o olhar de soslaio para o fundo do meu carrinho. Resolvi o problema metendo o peixe num saco extra. Havia que proteger aqueles olhos cristalinos que me fitaram no périplo matinal e preservá-los de toda e qualquer conspurcação, talvez me cantassem quando chegasse a casa Quando eu chego a casa nada me consola …, você é tão bonita… Eu quero ir-me embora. Eu quero é dar o fora E quero que você venha comigo.
Há certas e determinadas coisas que não se deviam negligenciar. Dia em que o Chico aparece na primeira página de jornal é sinal de alerta nacional, como se os UVB estivessem muito altos ou o calor excessivo. Devia até ser feriado para o mulherio contemplar religiosamente aquele olhar nostálgico e límpido.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cronicando

Podia ser intuição feminina. Dizem que as mulheres são donas de algo que escapa aos demais. Diz-se em livros, ficção e não ficção, tal como no novíssimo Jesusalém de Mia Couto acabadinho de regressar à minha estante e que recomendo vivamente, que as mulheres sabem mais. Acredito contudo que não terá sido a intuição feminina mas a verdade é que nesta minha crónica algo terei pressentido e que me terá levado a afirmar que estávamos ainda em Junho e já a estação tola se afirmava. A dúvida permanecerá se este ser cheio de estrogénios e progesterona tê-lo-á afirmado pela sua condição de bicho fêmea ou se seria apenas a percepção de que o mundo ia entortar. Estrogénios à parte, a soma avultada da transferência do prodígio madeirense teria sido apenas a primeira gota de um copo que se encontra neste momento a transbordar.

E para ler o resto nada como espreitadela aqui, o site onde há crónicas, há conversa, há palpites e opiniões.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A ciência explica...


por que é que esta malta felina faz de nós o que quer. Espreitem aqui a safadeza dos bichanos. Agora que é científico já não há mais nada a fazer.
fotografia e gata minhas

segunda-feira, 13 de julho de 2009

sábado, 4 de julho de 2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Julgamento sumário

A partir de hoje e por tempo indeterminado declaro-o culpado de tudo. Tudo o que acontecer doravante, a crise, a Gripe A, os raios ultravioletas altos, a carestia de vida – como gosto da expressão – ou o Verão refractário é culpa dele. Dele e só dele. Por exemplo, ontem quando cheguei a casa pela tarde, faltavam-me uns girassóis. É certo que não os contei. Ainda mais certo que na sua condição de girassóis mudaram a trajectória ao longo do dia. E certo como ser Maria que ninguém lhes mexeu, porque euzinha, com estes que a terra há-de comer – atente-se ao pormenor do indicador e médio na direcção dos meus olhos- fui verificar se havia vestígios do ataque aos girassóis. Não havia, mas para que conste foi ele. E quem mais pode ter sido? Mas há alguma dúvida? Uma réstia de incerteza? Uma ponta de hesitação? Nada. Nadinha, Nenhuma. Nicles. Foi ele. Quem mais? E isto tudo porque quando dei por ela, depois de lhe ter pedido para dar um jeito no fisaleiro descontrolado já a derramar-se por cima do azevinho, o meu diligente jardineiro foi-se a ele com aqueles olhos azuis enganadores e amarrou-o com uma guita branca como a um molho de nabiças. Ora tendo em conta que o arbusto está cheiinho de fruto e que serve também um propósito decorativo e ainda que não gosto de nada preso, muito menos no jardim, estou-lhe com uma raivinha cega que nem vos digo nada. E como não lhe posso dizer nada a ele, porque mulheres-a-dias e jardineiros são gente de sensibilidade tão apurada que nem sei como não constam no Werther de Goethe, remeto-me ao silêncio, não vá ter dê lhes pagar uma indemnização pelos distúrbios provocados. Portanto, a partir de hoje e por tempo indeterminado, até que me passe a fúria, o meu jardineiro é culpado dos males do mundo. Ninguém lhe mandou atentar contra o meu fisaleiro.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A derradeira


E passaram sessenta e uma semanas, houve uma semana em que escrevi duas crónicas, e assim derramei no papel e ecrã sessenta e duas crónicas, a módica quantia de mais de cento e cinquenta e cinco mil caracteres escritos sempre ao mesmo dia da semana, sensivelmente à mesma hora, sem qualquer ritual digno desse nome nem sequer imbuída do espírito místico da inspiração transcendental. Apenas eu sentada ao computador que após uma incursão furiosa sobre a temática a que me iria cingir e abordar na segunda-feira seguinte, para que a crónica pudesse invadir o espaço cibernético na terça-feira, me desmultiplicava em ideias e letras.

Ide ao PNETMulher uma última vez.

imagem: Conrad Knutsen

domingo, 28 de junho de 2009

Memorando

Agora que mudei a cara ao blogue está na altura de recomeçar a escrever.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Leituras

Luanda, já o disse, é um alfobre de personagens insólitos.

José Eduardo Agualusa, Barroco Tropical.

Luanda e o livro, diria eu.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cronicando pela 61ª vez


O Verão, o Cristiano Ronaldo, a Dona Dolores, as amigas do Ronaldo e a crise estão juntos na mesma crónica.
Ide espreitar.


imagem: David Hockney, The Bigger Splash

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Palavras inúteis

Três horas e meia, três horas e meia bem medidas eram tudo o que tinha para ver a cidade. Refiz as contas e num assomo de optimismo elaborei uma lista mental do que se poderia fazer. Com sorte, uma volta de autocarro aberto pela cidade fazendo pela enésima vez figura de turista sem que isso me deixasse a menor mágoa ou constrangimento, não me teria deixado também naquele Agosto cálido de céu azul iluminando a velha Albion. Assim pensei, lamentando a fugacidade daquelas horas, enquanto via a paisagem pela janela de comboio que tranquilamente me levaria à cidade dos Beatles, inscrita na minha memória como tal, vagamente também a cidade industrial incaracterística, sem pontos de atracção que não fossem o quarteto mais famoso da história e os lugares que imortalizaram em melodias sem data nem idade. Cruzei os braços sobre a mesa à minha frente. O calor dentro da carruagem convidava a uma soneca rápida ritmada pela cadência do comboio, a cabeça sobre os braços e o embalo do ritmo dolente. E o calor. Muito calor. E a lentidão. Que lentidão. E as três horas e meia na cidade e o autocarro de tecto aberto vermelho com letras inscritas Citysightseeing Liverpool a passar-me à frente, eu a vê-lo como se vê um comboio em movimento lento de partida enquanto ficamos estáticos no cais de embarque. O tempo, sempre o tempo, a escassear-me entre as mãos até o comboio onde seguia ter parado na estação, logo após Manchester. Um calor abrasador e uma marcha excessivamente lenta obstaram aos meus planos, a avaria implacável far-me-ia riscar Penny Lane da minha lista de intenções e das quase quatro o tempo foi retirando horas, uma, duas, três. Meia hora. Meia hora entre comer algo rápido e deixar-me respirar o perfume da cidade, espreitar os habitantes, ver como seriam, como falavam, tão lá a Norte. Ponho pé na estrada, o centro é ali mesmo, dizem-me, e vou sem discutir ou regatear. Do lado esquerdo um museu grandioso, agora feito inútil pela minha falta de tempo, que faria ali agora? Contorno a direita, atravesso a rua, carros de um lado e de outro, o Citysightseeing Liverpool passa-me à frente, três carros atrás um outro autocarro a abarrotar de turistas e deixo-me enlear pelo sol escaldante e céu brilhante e límpido enquanto avisto o centro da cidade, uma praça quadrangular cheia de transeuntes abafados pelo calor impiedoso a Norte. E dou uma volta. Crianças que brincam num túnel de fios de água. Gente que abandona o corpo à privilégio do calor. E vejo uma loja. Para ti seria. No contraste contra o fundo vermelho as letras inequívocas You' ll never walk alone. As declarações de amor raramente necessitam da palavra amor.

Com um beijo de Parabéns

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Nacos de Prosa (11)

Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia (medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insónia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve, já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham «Frio» e «Quente» escritos por extenso, para saciar minha sede de letras, já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefónica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insónia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência - e uma mensagem positiva. Recomendo «Génesis» pelo ímpeto narrativo, «O cântico dos cânticos» pela poesia e «Isaías» e «João» pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.


Luis Fernando Veríssimo, "Fobias" in Comédias para se ler na Escola.

terça-feira, 16 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Gestação em curso

A minha sexagésima crónica pontapeia-me ansiosa.

Os dias com Eulálio

Os dias com Eulálio não foram simples. Não que tenham sido propriamente problemáticos ou fastidiosos, Eulálio é fluente e agradável na conversa, mesmo naquela cama de hospital e apesar dos cem anos - onde já se viu centenário com tamanha memória?- mas a história raramente tem o mesmo fim. Cada vez que se julga ter sido rematado o desaparecimento de Matilde surge mais uma versão. E assim andamos, corremos, cavalgamos páginas - quase duzentas- para saber como foi com Matilde, como foi com Matilde, afinal? Contudo, Eulálio, ainda cheio de pose e de pergaminhos, apesar de na penúria, Eulálio d’ Assumpção, não esqueçamos, é um velho arguto e sagaz que burila a história de um amor infeliz ao sabor de si próprio e da sua memória. Ora com a filha ora com as enfermeiras vai trocando palavras que oscilam esparsas ou consistentes na esperança de fixar a memória de ancião. E Matilde. Sempre Matilde. Voa temporariamente a resgatar os interlocutores perdidos no passado, há que perdoar Eulálio por estas ausências pontuais, para retomar a vida longa agora confinada às quatro paredes de um quarto de hospital, infecto, diz ele. E assim galgamos páginas. Mais e mais. Na senda de Matilde, com a história do Brasil em pano de fundo, as questões raciais, a família enredada em episódios curiosos de uma decadência anunciada, as alterações urbanísticas do Rio de Janeiro, várias gerações de Eulálios entre o casarão de Botafogo e a casa dos fundos de uma Igreja Evangélica, morada última antes da cama de hospital de onde lhe ouvimos a vida antes que chegue a morte. Deixei Eulálio ontem à noite mas continua comigo, o velho Eulálio d’ Assumpção, Lalinho, Lálá, Lilico, a prova evidente de que Leite Derramado vale a pena.

também no Delito de Opinião

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Catarse

Ai cum caramba

E agora que estou muito mais aliviada já posso prosseguir com a minha vida.

Receituário do mês...

aqui. O último deste ano lectivo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

À espera do estio

Nunca entendi os estados sombrios que ajudam à escrita, pelo menos bloguística. Os estados sombrios são uma rolha que me tapa a escrita, uma mordaça em torno das palavras, um travão inequívoco sobre frases e expressões. Voltarei assim que me regresse a vontade de sorrir e os dias de estio a envolver a alma.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O mundo pode acabar...


mas terça-feira é dia de cronicar. No sítio de sempre: PNETMulher



A Geração Idiota pavoneia-se livro afora. Abrange indivíduos dos 15 aos 45 anos, o que não me deixou nada tranquila, e que se manifesta nas mais diversas áreas da vida: pessoal, profissional, no amor, no lazer, na educação, na relação com o dinheiro. Abundam os comportamentos desconexos, sem maneiras e imbecis.

sábado, 6 de junho de 2009

Ossos do ofício

Ai que prazer ter um livro para ler e não o fazer
Fernando Pessoa

Neste momento, e pegando na metáfora, tenho não um, mas uma pilha de livros para ler, e não posso deixar de os ler. Assim sendo, os posts vão ficar arrumadinhos em gavetas até me regressar o tempo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

domingo, 31 de maio de 2009

O pequeno ditador

Domingo de manhã é um dia improvável para visitas ao supermercado. Contudo acontece, raramente, mas acontece e por isso neste Domingo cumpriu-se a improbabilidade e a excepção.
Entre o burburinho que presumo habitual, uma fila desencorajadora no peixe e os carrinhos a abarrotar, cruzei-me com uma mãe carregando o filho de um lado e o carrinho de compras no outro. O ar de desânimo e estafa no rosto da mulher bem jovem denunciam o suplício que passará entre dois pólos da sua existência, a vida doméstica de um lado, e do outro, a maternidade, empurrada como quem empurra o mundo, o contraste infeliz com a manhã tépida e apaziguadora de sol. Mais um volta e ouço o grito de uma outra mãe, o eco lá para o corredor das bolachas Francisco! Ó Francisco! e depois a reincidência num tom ainda mais elevado Francisco! Avisto entretanto o Francisco, uma criança de uns quatro, cinco anos previsivelmente, a empurrar o carrinho de compras, cada vez mais alheado ao chamamento da mãe. Impávido e sereno o Francisco seguia o seu caminho como se nada, rigorosamente nada, fosse. Francisco! Desta feita, o Francisco ia já bem ligeiro a afastar-se da vista da mãe. A progenitora acorreu à criança para que não a perdesse de vista e arremessou-lhe com mais uma ralhadelas sonoras, a que o Francisco correspondeu com uma altaneira ignorância do alto da sua ínfima idade. Francisco, o que é que tínhamos combinado? Nada. Mãos adentro de uma prateleira, ia lampeiro buscar algo da sua preferência. Já que o obrigaram a ficar pelo menos traria algo consigo. Mais uma admoestação e nada. A mãe corre lesta para o carrinho, furiosa e descontrolada, e retira algo a que o Francisco finalmente reage com o choro imediato. A mãe, com o desespero estampado no rosto, cede e diz-lhe Então pronto! Surpreendente que aos quatro, cinco anos aquela mãe não consiga impor-se, ceda às chantagens do pequenote e que fique desesperada. Menos surpreendente é, pois, que quando adolescentes não lhes consigam fazer nada.

Domingo

fotografia minha

sábado, 30 de maio de 2009

Voltar

O primeiro ensinamento que tirei quando cheguei a Paraty foi que não se deve beber água de coco quando se vai fazer uma viagem longa de carro, com poucos sítios para parar à beira da estrada excepto o mato brasileiro frondoso e tropical Pelo meio da manhã de um dia quente e luminoso apareceu o transfer, à porta do hotel, em Ipanema. Um táxi apenas, sem mais turistas, e a recepção calorosa do taxista, Sérgio de seu nome, simultaneamente guia durante o caminho longo entre o Rio e Paraty. Não tivesse eu bebido um dos néctares mais simples mas mais saborosos que conheço também pelo ritual em si e a simplicidade do fruto catado pela cabeça e a singela palhinha, teria achado o caminho bem menos longo. Uma vez chegada a Paraty, só tinha algo em mente, sempre o mesmo, acompanhado do grilo falante Nunca mas nunca mais te lembres de beber água de coco e assim que entrei na Pousada rompi de imediato com uma das regras do sítio: não usar sapatos durante a estadia no local.
E depois de arrumadas as malas e instalada bem lá no último piso do sobrado com um terraço de chão de madeira e uma rede amarela tão convidativos que lá ofereci o corpo beijado pelo sol à descontracção, arrumei os meus dias no Rio e me abandonei ao reencontro com as minhas origens, o deve e haver da matriz miscigenada, foi pôr pé nas ruas de paralelepípedo e adentrar uma das vilas mais acolhedoras que conheço. A vegetação exuberante e as montanhas em pano de fundo, o casario bem cuidado, os sobrados e a calçada, a praça de dia mais tranquila e de noite animada pelos artesãos, uma caipirinha com a cachaça certa e, acima de tudo, a mistura alquímica de que são feitos todos os lugares mágicos que nos preenchem a alma: algo indizível, dificilmente descritível, algures entre a plenitude e a nostalgia que transportamos como uma tatuagem na alma. Um passeio de escuna para me banhar nas águas mais tépidas e prazeirosas que conheci no Brasil e para sempre o ar quente e húmido, exactamente como eu gosto, o calor displicente que embala os corpos e amacia a alma e depois mais uma volta no mato para o banho indispensável de cachoeira, há sempre uma cachoeira à nossa espera no Brasil, e depois voltar e guardar bem perto do coração aquele pedaço de Brasil mesclado com Portugal e sentir esta vontade de perdidamente voltar.

fotografia minha

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Constatações

As noites tépidas fazem-me mais feliz.

Pertences-me

Não sou possessiva, não sou ciumenta, não sou invejosa, mas os livros, ai meu Deus, os livros. Sobe-me uma vontade incontrolável de os possuir, de os ter para mim, só para mim, de os ver enquanto não os acabar, e de os manter por perto enquanto o mundo corre lampeiro lá fora. É que não são só as letras, é o livro em si. A espaços, e quando me é permitido o embalo no regaço do lar, deito-lhes um olhar quase como se de um animal de estimação se tratasse e só não os chamo e afago como às minhas bichanas Linda. Quem é a gatinha da dona, quem é? porque causaria perturbações incalculáveis na harmonia caseira Estás a falar com os livros? E mais tarde com a voz meio tímida perante a escabrosa revelação e a preocupação evidente A sua filha tem um problema. Fala com os livros. Apanhei-a a falar com o Livro de Crónicas do Lobo Antunes e já há um tempo dei com ela a afagar A Sombra do Vento. Já tinha desconfiado quando a ouvi aos elogios à Mulher que escreveu a Bíblia, logo depois de ter atirado um piropo ao Budapeste do Chico Buarque. Por conseguinte e a bem da sanidade mental alheia mantenho-me muda e queda e apenas os sinto por perto. Agora, por exemplo, estou em estado de enamoramento total com o Leite Derramado de Chico Buarque. São as páginas, o formato do livro, um pouco diferente das edições portuguesas e as letras que me convidam e que vou saboreando lentamente como aquele acepipe opíparo que não queremos que acabe nunca.


Com um agradecimento muito especial ao Aventino que me permitiu mais este devaneio e me fez chegar o livro directamente do Brasil.

fotografia minha

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sem desculpas

Ser-se professor nos dias de hoje implica uma afirmação peremptória e taxativa dos direitos e deveres de ambas as partes, também em sala de aula, uma exigência ininterrupta de respeito e um desafio permanente mediante atitudes inesperadas, imprevisíveis e inusitadas. Qualquer professor que tenha deixado o ensino há poucos anos ficaria alarmado com o cenário de mudança com o qual se depararia, caso voltasse à escola, e não pelas calças que os rapazes alegremente usam literalmente abaixo das nádegas. O Jorge, por exemplo, hoje tinha boxeurs coleantes bordeaux. Se no início quase sucumbia quando me perguntavam o mais elementar vocabulário – coloquial, agrura ou reciprocidade são conceitos desconhecidos -, nos dias que correm e passados quatro anos de ter desgraçadamente regressado ao Secundário, respondo com naturalidade, sem esbugalhar os olhos, sem encostar-me ao quadro antes que desfaleça e me estatele contra o chão e sem a aceleração involuntária do ritmo cardíaco. É normal, há que responder e prosseguir a trote para as declinações, conjunções e outras ralações. Contudo, se me fui gradualmente habituando a uma ignorância pujante, recuso-me a aceitar a desculpabilização e a exigência crescente de que os outros devem resolver os problemas e questiúnculas da vida de cada um. Quando um destes dias, perante as perguntas insistentes em pleno teste afirmei que a aluna perguntadeira não tinha estudado rigorosamente nada, ela retorquiu exigente Ó Stora, tive festas de anos em casa, esta noite só dormi três horas… ou quando saca do espelho para conferir a beleza de que se julga detentora e lhe arremesso com algum comentário, fazendo-a lembrar de que a aula não é um salão de beleza, a resposta é sempre lesta Ai Setora, que é que quer, sou muito vaidosa. Isto é de família… Havia de ver a minha mãe… duas ou três vezes pior ou quando faço reparos por causa dos telemóveis, põem a expressão ofendida, olhos bem abertos e a voz levemente esganiçada Ó Stora, tou só a ver as horas. Francamente, Stora. E portanto assim é, nos dias que correm há que compreender, aceitar e quiçá pedir desculpa caso se importunem os adolescentes. No futuro ainda teremos de pedir desculpa pelas aulas. Imagino-me a pedir-lhes desculpa pelas declinações, pelas preposições ora de dativo ora de acusativo, raio de gente que inventou tal coisa, pela inversão do sujeito ou pelo Present Perfect, provavelmente pedir desculpa por existir. Quando esse dia chegar, chega!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Terça-feira

Guardo na memória aquele final de tarde num cinema a que nunca mais voltei. Contrariamente ao habitual não se ouviu o restolhar sôfrego das pipocas nem o sorver alarve dos refrigerantes belicosos contra os cubos de gelo. Silêncio. Silêncio apenas.

Pelo direito à escolha

O resto está no PNETMulher.

domingo, 24 de maio de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

À terça, a crónica

O Rosto oportuno é uma crónica sobre:

a) a última plástica da Lili Caneças
b) a cara do Sócrates na corrida das Novas Oportunidades
c) os esgares da Maria Cavaco Silva quando se lhe fala da Capadócia
d) nenhum dos anteriores

Espreitai aqui para tirar esta dúvida tormentosa. Boa leitura!

domingo, 17 de maio de 2009

Nacos de prosa (10)

quando bebeu o primeiro gole de vinho julgou que a vida, se fosse justa, poderia ser feita daquilo e de mais nada. ao inventar as coisas, quem inventara, deveria ter-se ficado por aquilo, um vinho, uma amizade sincera, o calor magnífico do fim de tarde, a paisagem mais bela de todas. era tão fácil inventar só aquilo e só com aquilo garantir com segurança que todas as pessoas do mundo seriam felizes.


valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores.

sábado, 16 de maio de 2009

Leituras e manias

Há tentações a que um amante de livros não consegue resistir. Uma novidade acabada de chegar do escritor de eleição, os livros arrumados e virgens, o aroma que as páginas acabadas de imprimir soltam. Desgraçadamente qualquer livro, independentemente do seu autor ou da qualidade do conteúdo, consegue soltar aquela fragrância irresistível. Mandasse eu e declararia quais os livros, talvez quais os autores deviam sair perfumados da gráfica. Não há pior do que sentir-me seduzida pela fragrância de livros de escrita duvidosa, a traição a que os sentidos nos obrigam amiúde. Desses fujo, não vá perder-me encantada e acabar a ler romances de vão de escada.
Naquele dia não houve fragrância. Excluamos, pois, este factor de sedução. Naquele dia, na Feira do Livro, os olhos ter-me-ão brilhado, quando chegada à caixa com três livros me informaram que, se comprasse quatro, o mais barato era oferta. E porque aos livros não se viram as costas e tamanha generosidade livreira é inaudita por cá, retomei o périplo anteriormente interrompido pela auto-disciplina a que surpreendentemente me havia submetido. Rumei direita e sem hesitação a um livro que namorara meses antes, também ainda desgostosa pela quase ausência de livros brasileiros no certame luso e Os Lados do Círculo de Amílcar Bettega juntou-se a Passado Perfeito de Leonardo Padura, O Melhor da Comédia da Vida Privada de Luís Fernando Veríssimo e a O Planalto e a Estepe de Pepetela. E estaria tudo a correr muito bem, se não tivesse entretanto regressado ao livro e esbarrado em dois, logo dois, dois pontos e vírgulas, na primeira página. Num texto nutro especial animosidade contra os ditos. Erguem-se na prosa como barreiras, um salto a que obrigam para que se prossiga. Incomodam-me, fazem-me parar expectante na enumeração que se adivinha e, admito-o, irritam-me. Não sei se volte à Feira e reclame o produto defeituoso ou faça o que os leitores sem manias fazem: ler o livro.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mercúrio retrógrado

Pela sala os despojos. Uma caixa pequena em cima da mesa, as fotografias e os livros fora do seu habitual poiso que, adianto, nada tem a ver com os padrões comuns de arrumação, porventura um conceito marginal na minha casinha amarela, uma caixa enorme encostada à lareira, a sensação de que algo passou por ali, perturbando a ordem oculta dos objectos, a insurreição de livros e minudências. Que é que achas? A imagem parece pior… deito um olhar mais prolongado Pois, realmente, parece menos definida e está tudo mais vermelho. Mas paciência. Pois paciência. Foram-se quase todos os canais da Fox, foi-se a TV24, e Travel Channel nem vê-lo. Tá bem, mas é menos de metade do preço. E para que queríamos tantos canais? Pois. Não faz mal. E a tarde que adormece pacífica. Um périplo pelo jardim. Já viste a amarilis? Está maior, qualquer dia dá flor. E as túlipas? Nada ainda. Raio do jardineiro que se me foi ao maçaroco. Raios o partam. O carvão no ponto óptimo para o comedido churrasco a meio da semana, a carne no grelhador e a noite que se aproximava tranquilamente arrumando o dia e dando lugar à quietude harmoniosa de que são feitas as comunhões singelas prenhes de afectos. O regresso à sala. Não está mal a imagem. Não, não está. E de repente o ecrã negro e mudo e quedo e ausente e distante. Que coisa. Um toque nos botões. Nada. Nada de nada. A desordem que se instala e ocupa selvaticamente a harmonia das palavras carinhosas, as túlipas, a amarilis, a gardénia e o maçaroco, raios partam o jardineiro. Impropérios saltam de encontro à televisão, altiva e orgulhosamente ausente. Cabos que se ligam e desligam, contactos falhados no possível mau contacto. A reclamação que se avizinha, telefone em riste. Meia dúzia de palavras que se trocam. Agora faça assim. Ligue aqui. Apague acolá. Ligue acolá. Apague ali. Quiçá reze aqui, ali e acolá, afinal era dia da Senhora de Fátima. Nada a fazer. Bem, vou ver um filme. DVD ligado e eis que irrompe na sala do nosso descontentamento pontual e passageiro um ronco forte e prolongado. Que é isto? O DVD. ISTO é o DVD. Abandono a sala prevendo um agravamento das condições naquele espaço. Rumo ao computador e tento abrir um documento de Word. Nada. Desta vez nem ronco, nem ecrã vermelho, nem coisa nenhuma. Apenas a recusa. Não consigo abrir os documentos. Nem um. E o turbilhão, entretanto calmo e silenciado pelo ronco do DVD, regressa agora a outra divisão da casa, fazendo jus ao Mercúrio retrógrado.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Palavras

As homenagens raramente são feitas de visitas ao cemitério. As homenagens ao meu pai são momentos e palavras partilhadas ou apenas sentidas sem que de tal dê sinal, sem alaridos ou exuberâncias, exactamente como sei que ele gostaria, amante confesso da vida singela prenhe de afectos e amor, caminho único que conheci para lhe chegar à alma. As homenagens ao meu pai são os momentos íntimos que guardo na morrinha dos dias longos e breves. Momentos sem alvoroços e choros. Um vinho que se bebe, o do seu agrado, os livros que afago e leio, as palavras que ainda julgo que me dirige quando me falta, falta-me sempre, o sorriso que relembro, gestos quotidianos embrulhados em silêncios longos e ausências dolorosas invisíveis aos demais, inaudíveis a todos. As homenagens ao meu pai raramente se cumprem em visitas ao cemitério. Hoje no dia em que faria anos preferi dedicar-lhe palavras. Estas. Não murcham como as flores.

Cronicando

A homenagem ao ditador é apenas a face visível dessa mentalidade provinciana e tacanha, assaltada por fantasmas vários prontos a mostrar a face nas mais díspares esferas da vidinha portuguesa. O ditador anda por aí, afinal, é só esperar uma oportunidade e ele surge de vistas estreitas, com medos medievais de demónios e bruxas e verdadeiro pavor a tudo o que seja inovação, contestação e pensamento crítico e independente.

Ide ao PNETMulher para ler o resto e opinai.

imagem: João Abel Manta

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Caldo entornado (Parte 2)

Ontem como estava muito ocupada para a mesa-redonda sobre o Bookcrossing na Feira do Livro e para testar até onde ia a incapacidade – incompetência é muito feio e temos de ser condescendentes logo agora que o 13 de Maio de aproxima - pedi aos meus agentes infiltrados que rumassem ao stand que é responsável pelos livros brasileiros em Portugal e que me fizessem o favor de indagar o paradeiro, a existência ou não do livro que me opôs vigorosamente a um homem mais jovem e uma menos jovem numa tarde soalheira de feira do Livro, com o Marquês de costas voltadas.
Nesta coisa dos livros há sempre uma última esperança e ainda acalentei secretamente a fé de ver os meus infiltrados chegar sorridentes, a correr ao meu encontro, em câmara lenta como nos filmes, e saltarem-me para os braços com o livro entre mãos que libertaria em jeito de piscadela de olho cúmplice aquele olhar cristalino do Chico e o aroma do meu Rio de Janeiro. Debalde. Apareceram sorridentes mas livrinho nem vê-lo.
A saga continuou: primeiro desconheciam o livro, o nome, quiçá o autor – não sei e nesta hora tardia não posso confirmar mas apetece-me que assim seja por razões óbvias às quais não são alheios algum ressentimento e uma raivinha cega - e depois ainda argumentaram que o livro era deste ano. Presume-se que como o Brasil é um país longínquo não haverá novas tão cedo. Eu, como rapariga obediente, farei o que me mandaram fazer em plena Feira do Livro de Lisboa: ir à Internet.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Caldo entornado

Faço parte daquela espécie de portugueses que cresceu com os livros de Jorge Amado, ainda do tempo em que eram proibidos pela censura e que chegavam às mãos dos meus pais através da tia carioca. Desse tempo é também José Mauro de Vasconcellos e depois desse tempo a literatura brasileira passou a fazer parte integrante das minhas preferências literárias. Não há viagem ao Brasil sem um périplo pelas livrarias. Já dei por mim a arrumar os livros numa livraria em Maceió, a tentar entender uma ordem que me apareceu obscura em Natal até ter percebido que os livros estavam arrumados pelo primeiro nome do autor e não pelo apelido e a escapulir-me dentro de um centro comercial apenas para poder comprar mais um livro, aquele mesmo que tanta falta me fazia. Frequentemente vem-me à memória o primeiro livro que comprei na Livraria da Travessa em Ipanema, Rio de Janeiro, Carnaval no Fogo de Ruy Castro: a experiência matricial numa livraria com estantes de madeira e empregados solícitos na mais bela cidade do meu mundo. Não há viagem a Terras de Vera Cruz em que não venha a abarrotar de livros que me alimentam as longas noites de Inverno e perfumam a esperança de dias mais quentes e tropicais. Quando soube, consequentemente que o Brasil iria ser o país convidado na Feira do Livro, comecei a salivar esperançosamente, as capas, os livros, a possibilidade que se me abria de comprar livros de autores brasileiros em edições brasileiras, quem sabe não iria descobrir escritores novos e certamente teriam o livro que me tem deixado em suspense na ansiedade de o devorar e ter entre mãos.
Sábado soalheiro e escaldante. Dirijo-me aos pavilhões do Brasil para satisfazer o meu desejo. Fui informada de que havia livros de autores brasileiros na representante habitual em Portugal e, depois de atravessar o parque, dei de caras com a editora. Os livros brasileiros ocupavam um espaço ínfimo, ainda consegui vislumbrar do lado de lá alguns livros do Drummond. Nada de novo, portanto, motivo suficiente para uma rotunda desilusão. Não seria de esperar um maior oferta tendo em conta o país convidado? Entretanto, um homem não muito jovem acorreu em meu auxílio, ter-me-á visto de cabeça esticada a tentar decifrar as lombadas, e após a habitual procura nas estantes decidiu-se Não tenho, mas espere que vou perguntar se há no armazém. Seguiu-se uma troca curiosa de palavras. O homem perguntava-me se eu tinha internet, que podia pedir pela internet, que também podia ir à livraria, era mesmo ali, para ir lá. Ora uma mulher tem os seus limites e nunca vi alguém estar em plena Feira do Livro e sugerirem-lhe que mandasse vir o livro pela internet ou que fosse à livraria. O meu desagrado pelo insólito começava a notar-se. Livraria? Internet? Entretanto aproximou-se um homem mais jovem. Que ia ver se tinha no armazém. Pedi-lhe então que me reservasse um exemplar de Leite Derramado de Chico Buarque, caso houvesse, e que passaria um dia desta semana para o ir buscar. O homem não se deu por achado. Não era preciso. Não era preciso deixar nome. Ia ver e se houvesse trazia uns para a feira. Tentei explicar em vão que queria mesmo o livro e que não queria correr o risco de que fosse vendido antes de eu lá ir. O homem menos jovem insistia na internet, também na livraria, ali, é mesmo ali. O mais jovem acrescentou que segunda-feira de manhã me ligaria então, sem falta nenhuma. Hoje é quarta-feira e, pelo caminho e sintomático silêncio, não só não há Leite Derramado, como temos o caldo entornado.



135.000 caracteres depois

Um ano desde que me estreei assim nesta aventura de cronista.

terça-feira, 5 de maio de 2009

À terça, a crónica

Nada faz os portugueses mais felizes do que uma desgraça. É ela que dá oportunidade de bradar aos céus o carácter único do país e das gentes, por um lado, e por outro, oferece uma torrente imparável, um turbilhão homérico de conversas, contra-conversas, comentários, notícias, apontamentos, posts em blogues ou twitts no Twitter. Não há quem fique indiferente e todos e cada um têm uma palavra a dizer, uma lágrima a verter, um esgar prestes a surgir no rosto, um impropério a arremessar a quem se atravessar no caminho.

E a crónica está no PNETMulher, o sítio onde cronico em dia de Feira da Ladra.

imagem: Daniel Fort

segunda-feira, 4 de maio de 2009

domingo, 3 de maio de 2009

O oftalmologista da minha mãe

O oftalmologista da minha mãe é um rapaz de estatura média, de olhos iluminados e sorriso generoso que adora uma boa conversa e que discorre sobre escritores e leituras no lusco-fusco do seu consultório com as letras e símbolos por testemunha. O oftalmologista da minha mãe, outrora também do meu pai, é um ser sensível, de modos pausados e gentis, amigo da boa conversa e com memória de elefante. O oftalmologista da minha mãe tem um ritmo muito próprio que não se deixa intimidar com correrias e stress. O oftalmologista da minha mãe fala baixo com voz doce e tranquila em sintonia com a luminosidade crepuscular da sala. O oftalmologista da minha mãe não é apenas o oftalmologista da minha mãe. O oftalmologista da minha mãe é também o seu ex-aluno que solta a deferência e o carinho assim que a vê irromper pela penumbra do consultório. Acorre para a receber de sorriso generoso e enche-a de memórias E a Luísa lembra-se de quando escrevia no quadro os provérbios e ditados? E continua, sempre sorridente e atencioso, desenrolando as reminiscências, um parêntesis no tempo presente de clínico entre óculos e lentes, cataratas e glaucomas, o regresso ao aluno e à professora, e o tempo que adquire uma outra dimensão, suspenso entre letras e lembranças gratas e sinceras. O oftalmologista da minha mãe cruzou-se-nos hoje no caminho. Vinha esbaforido atrás dela, trazia a irmã, também ex-aluna dos meus pais, e ao paráramos para trocar cumprimentos e carinhos, acorreu a chamar os filhos pequenos. Com mão sobre o ombro de um dos garotos mostrou a sua professora Vês, esta senhora foi minha professora. O afecto, o respeito, a gratidão e homenagem num dia da mãe, provavelmente o mais belo dos presentes.

sábado, 2 de maio de 2009

Livros à solta

E eu vou perder-me entre livros e conversas no encontro Bookcrossing daqui a pouco.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sinais dos tempos socráticos

Não me lembro de nenhum primeiro de Maio, ao longo destes anos de democracia, em que tivesse esta vontade miudinha, este frenesi de inquietação de descer a avenida ou a alameda em defesa dos meus direitos e daqueles que desgraçadamante não têm voz. Sinais inequívocos destes tempos em que um partido alegadamente socialista governa e desgoverna a seu bel-prazer.