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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Raios

Só gostava de saber quem foi a besta, e estou a ser simpática, que espetou um pontapé no nosso Gastão e o deixou com uma pata partida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Entre dois toques de telefone

Logo pela madrugada o telefone tocou. Diz que tinha havido uma intempérie tamanha, estradas cortadas, ventania furiosa, árvores na estrada e o diabo a sete. Levanto-me pelas oito horas neste meu primeiro dia abençoado pela falta de aulas, professores, alunos, monoblocos, fichas, avaliações e relatórios, e espreito pela janela para conferir o temporal. Muito bem. Os vidros da cozinha tinham farrapinhos de esterco e palha, nada que seja muito natalício, mas lá que tinham, tinham, o estendal móvel estava plantado na relva de pernas para o ar e uma das havaianas antigas que descansavam do lado de lá da porta para as eventualidades estava igualmente de borco virado a fazer companhia ao estendal. Podia muito bem ser uma instalação, um hino à subversão feminina, o ódio aos trabalhos domésticos presente no estado calamitoso do estendal, a insurreição na inversão da chinela, mas juro que eu estava inocente.
Segunda evidência da fúria da mãe natureza: não havia luz. Ora não havendo luz, duas das coisas mais importantes na minha manhã, café e notícias, tinham ido com o vento, assim mesmo gone with the wind, e portanto comecei a ver este dia com muito maus olhos. Sem luz, não há muito que se possa fazer em casa, assim sendo rumo a um desses antros do consumismo para finalizar uns presentes de Natal e chego a casa lá pela uma hora com uma neura furiosa que faria inveja ao episódio mais depressivo de tpm.
Depois do almoço, dirijo-me ao banco e eis que reparo que o meu cartão tinha desaparecido. Puxando pela cabeça descobri que o tinha deixado na loja, lá no antro do consumismo, cá para mim um aviso divino dos excessos, e zás rumo de volta ao covil danado. Nesta altura, sem café da manhã, sem notícias, sem luz em casa e sem cartão, respirei fundo umas dezenas de vezes para afugentar a ira, e depois de mais um périplo regresso finalmente a casa, os sacos que se largam, as compras que se arrumam e finalmente as notícias. Isso é que seria muito bom. Mas não. A televisão muda e queda, o aviso de que não havia sinal. Sem sinal. No signal. Kaputt. Três quartos de hora de telefonemas depois, há que aceitar o pior. Terça-feira, ou seja daqui quase a uma semana, receberemos a visita do Sr. Dr. Eng.º Meo Técnico de televisões achacadas com o mau tempo. Até lá nicles. Assim sendo, acende-se a lareira para compor o ambiente. Acendia-se porque depois da lenha no sítio certo descobre-se que não há acendalhas e sem elas, lareira népia. Que bem que isto está a correr. Toca o telefone uma boa hora depois. Dona Leonor? Sim, sou eu, Dona Francisquinha. A senhora viu o ferro em cima da banca? Vi. Pensei que estava quente. Mas olhe, não liga. Não liga? Não, até pensei que era da ficha, mas não. Ah não se preocupe, deixe lá, as coisas estragam-se. E foi o último telefonema do dia.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A boa nova

Até 4 de Janeiro sem pôr os pés na escola.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Terceiro-mundo

Pois se há coisa que abomino é frio. Ora Inverno é frio, logo é normal que esteja um frio danado e este frio danado até suportável enquanto se anda na rua. Nada que uma camisola a mais, um par de meias sobressalente ou umas luvas extra não ponham no sítio. O que não é normal é que não se usem aquecedores e que hoje tenha passado umas seis horas em reuniões de avaliação em salas com uma temperatura inferior à exterior. Raio de miserabilismo terceiro-mundista.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ena

Aqui estou de lareira acesa, notas dadas e a alma descansada. Um verdadeiro luxo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Domingo, 13 de Dezembro...

e dois presentes comprados. Por este andar preciso de mais umas semanas até ao Natal.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Jingle Bells

A partir de hoje e até dia 25 vai haver posts alusivos à época festiva no Delito de Opinião. Podem espreitar aqui.

domingo, 6 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ena

Amanhã tenho o Sábado livre, coisa que não acontece desde Setembro.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Thanksgiving

Dia de Acção de Graças. O feriado dos feriados. Mais importante do que o Natal, dizem, mas sem presentes. A professora que a espaços acha que pode acabar com a ignorância dos seus alunos fica a ruminar a ideia e pensa com os canudos negros Vou dar uma coisa diferente aos putos, hoje é Thanksgiving. Para a próxima vez que aparecer o Dia de Acção de Graças já sabem o que é. A professora puxa pela cabeça. O quê? E lembra-se que a par de um texto do Bill Bryson aquela ilustração do Rockwell é mesmo o ideal. E é diferente. E vai pô-los a falar e dá para introduzir algum vocabulário. Agarra-se ao computador, engendra uma estratégia, desenvolve uma actividade e chega à aula lampeira Vamos ver se isto hoje corre bem, o Rockwell pespegado a preto e branco nas fichas de trabalho, o livro da Taschen para que melhor vejam, outras ilustrações também, e a aula começa. E corre bem. Depois da discussão a tarefa seguinte: preenchimento de uns balões de conversa e de pensamento que a professora escarrapachou cuidadosamente sobre as personagens. A adesão foi total e o corrupio ainda maior. A professora ufana do seu feito e do interesse dos seus alunos, secretamente feliz Estes putos são mesmo espertos. De lá do fundo levanta-se uma voz Stora, venha cá. A stora vai. A stora corrige. A stora explica que o plural de tooth é teeth e regressa para a leitura em voz alta do havia sido escrito nos balões, as falas que já tinha individualmente conferido, calcorreando alegremente o seu socrático monobloco. E a voz começa. Era a avó, a avó na cabeceira da mesa. Escrito estava It’s a pity I don’t have teeth, pobre da avó que era desdentada, tão desdentada que teria de prescindir do peru, era desdentada até ele se ter esquecido do -th final e de o ter substituído por um simples -t, pungente e definitivo. Afinal o que a avó não tinha era outra coisa, coisa essa que a turma cheia de rapazes não pôde deixar em vão. E levantou-se um burburinho, a risota abafada até alguém ter proferido em tom audível o equivalente em português e outro alguém ter perguntado Então e boobs? E outro ainda E breasts? A stora explicou sucinta e fugazmente as diferenças sociolinguísticas do item vocabular em causa acompanhado das óbvias advertências pedagógicas. Afinal a stora não quer que os seus alunos sejam uns ignorantes, sem saber que nomes chamar a quê, não vá um dia o vocabulário fazer-lhes falta e culparem mais uma vez essa cambada de incompetentes que têm por missão pôr tino na educação deste país e que só querem fazer manifestações, os inúteis. A língua inglesa é muito traiçoeira, admitamo-lo. O Thanksgiving ainda mais. E a avó uma desavergonhada. Assim não há condições.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Desafios

Desafia-me aqui a estimada Maria do Sol a completar estas frases. Vamos ver o que sai:

Eu já tive a mania que podia voltar a ser profissionalmente muito feliz, como nos sete anos que estive no Ensino Superior.

Eu nunca fui às Cataratas de Iguaçú nem a Buenos Aires, mas gostava muito.

Eu sei que estou a ficar velha e a precisar de óculos para ver ao perto mas finjo que não é nada comigo até ao dia.

Eu quero viajar, viajar, viajar, viajar, viajar.

Eu sonho sempre viajar, viajar, viajar, viajar, viajar mais.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ah é verdade...

Hoje está lá mais um giro e talentoso, um dos meus preferidos. Desde que o vi no papel do Bardo a minha vida nunca mais foi a mesma. Ora confirmem aqui se não é muito mais muito mais giro que o original.

H1N1 do nosso contentamento

Ena. Ena. Ena. Hoje foi um dos dias grandes da minha vida profissional. Hoje foi um daqueles dias por que esperei ansiosamente. Hoje foi um dos dias em que apliquei as duas décadas de conhecimentos adquiridos, a prática acumulada nestes vinte anos de giz, quadro, livros, sorrisos, fúrias, vitórias e choros. Hoje foi um daqueles dias em que, sim, valeu a pena levantar-me para enfrentar as hordas de adolescentes, os rebanhos de professores, os enxames de funcionários entre o burburinho das obras e o luxo dos monoblocos. Hoje valeu a pena. E foi hoje portanto mais um daqueles momentos que enchem um professor de orgulho, o ar importante, sentada na secretária, um leque de perguntas que se desdobrou como um toque de mágica. E foi tudo isto quando de repente a espreitar por entre os verbos modais können, dürfen, müssen, sollen, mögen e wollen, möchten Sie? Ja, danke. Können Sie? Ja, natürlich a Francisca se lembrou de atirar para o ar Stora, estou quente. Acho que tenho febre. Pára. Pára tudo. A professora experiente e competente na arte misteriosa de medir febres e calores aproximou-se da suspeitosa Francisca, suspeita também. Febre? A professora abeira-se da Francisca, faz um ar grave e atira. Francisca, vá lá fora à funcionária tirar a febre. A professora diligente e obediente a abanar a cauda e arfar de satisfação abeirou-se da secretária, de onde tirou criteriosamente um formulário, ah, um formulário, ah, um relatório, ah, um papel para relatar, escrever, descrever, preencher. Ah alegria das alegrias. E a Francisca voltou. Francisca, tem febre? Atira a professora de caneta na mão, fiel cumpridora dos seus deveres profissionais. Tenho 36 e 9. Os colegas rematam foi bué da rápido. Pois foi, foi só pôr o termómetro no ouvido, deu logo. Ora, concentra-se a professora a fazer a cruzinha no <37, e sintomas respiratórios? Tenho tosse. Dores no corpo? Doem-me as costas. Diarreia, vómitos? Não, stora. O relatório no fim. A recomendação a letras maiores É favor entregar na sala dos professores. A professora arfa mais uma vez, abana a cauda e retoma as outras funções, essas, de entretanto ensinar umas coisitas para quebrar a monotonia da Gripe A. Há dias que valem a pena. Que seríamos nós sem mais um papel para preencher, um formulário, um relatório, um inquérito, um questionário? Sim, que seria de nós?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

E o prémio vai para...

A única que percebeu aqui em baixo que eu estava a sentir-me deste tamanhanhinho. Muito obrigada pela vossa colaboração.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Giros e talentosos

Hoje há um giro e talentoso no Delito de Opinião. Ora ide espreitar

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Notícias


Alive and kicking mas sem tempo para blogar

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Parva, imbecil e idiota

Fim de tarde em Berlim. Junto à Gedächtniskirche grupos de turistas passeiam-se pelas bancas de postais, contemplando a Igreja e o que ficou dela.. Ao fundo o Kurfürstendam, sem a elegância de outrora, ainda assim imponente, árvores que se erguem de um lado e de outro. Dou uma volta, deito o olho aos postais, cumprindo parcialmente a minha existência de turista na mais emblemática do século XX e do outro lado da praça avisto a desgraça das desgraças, a tentação das tentações, mesmo com poucas horas de sono pelo voo madrugador aquilo a que resisto jamais: uma livraria. Do outro lado e em rebordo redondo ladeando a praça, as parangonas anunciavam o espaço, ainda mais evidenciado pelas bancas de saldos ou livros de ocasião no passeio. Faço um desvio. O Kurfürstendam pode esperar, dez dias seriam. Entro, como sempre, na senda das novidades e tendo em conta que já não visitava solo germânico há uns anos acorro fazendo mentalmente as contas do que perdi naqueles anos de ausência. No escaparate do lado esquerdo as novidades, nada pior para uma alma geminiana, a novidade, e deparo com um livro que havia de trazer na bagagem, um dos muitos.
O título sugestivo, Generation Doof, é uma réplica a um outro livro que apareceu há uns anos na Alemanha intitulado Generation Golf, o retrato de uma geração que cresceu com o famoso carro. Mas doof marcaria toda a diferença, porque doof em alemão significa parvo. Estaríamos pois perante a Geração Parva, embora o título soe pessimamente em português, pelo que arriscaria antes, Geração Cretina ou Geração Idiota, Imbecil também não iria mal.
No recato do lar, há livros que deixo a marinar durante uns tempos, pego no livro, enfastiada com as letras lusas e cansada das anglófonas num desses dias de Primavera serôdia. O episódio inicial revela um conteúdo promissor. Num concurso de beleza, foi pedido às candidatas que identificassem no mapa do seu país alguns Estados Federais e até cidades. A outra concorrente foi pedido que indicasse onde ficava a ex-RDA ao que a prestável beleza teutónica desenhou um risco longitudinal e arrumou a Baviera para a ex-Alemanha de Leste. E o disparate continuou: a Polónia no meio da Alemanha, Berlim logo ao lado.
A Geração Idiota pavoneia-se livro afora. Abrange indivíduos dos 15 aos 45 anos, o que não me deixou nada tranquila, e que se manifesta nas mais diversas áreas da vida: pessoal, profissional, no amor, no lazer, na educação, na relação com o dinheiro. Abundam os comportamentos desconexos, sem maneiras e imbecis. O livro é profusamente ilustrado com exemplos. A estupidificação em frente do LCD de última geração, esparramados no sofá entre snacks hipercalóricos, algures entre o DVD e a XBox e um sem número de gadgets.
Teria já lido cerca de metade do livro quando fui tomada por um assomo de provincianismo e dei por mim a pensar que afinal, cá no nosso cantinho luso, não estávamos assim tão mal, já que os alemães sofriam da mesma ignorância e imbecilidade. Foi tudo isto antes de me aperceber – dêem-me o desconto, afinal estou quase no limite de idade para fazer parte da imbecil geração – que também os alemães, os ingleses, talvez os franceses, quiçá os espanhóis. Asnos e imbecis. A globalização no seu esplendor. Uma pandemia para a qual se desconhece vacina.



Também no Delito de Opinião

Muros

Há novos muros de Berlim, novas cortinas de ferro, novas barreiras, ódios velhos renovados. Os famintos e perseguidos batem à porta dos prósperos — prósperos estes muitas vezes às custas dos que exploraram tanto tempo — e as portas se fecham. O diferente é visto com desconfiança ou desprezo. O diferente é inimigo, o fanatismo substitui a razão e a fraternidade, as religiões humanistas se pervertem, o homem é cada vez mais o lobo do homem.

João Ubaldo Ribeiro, (1993), Um Brasileiro em Berlim, Rio de Janeiro, Nova Fronteira.

domingo, 8 de novembro de 2009

Berlim (14)


East Side Gallery

O direito à memória

Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte é tão discutível como nos perdermos em considerações sobre o ovo e a galinha. Tenho, não obstante, como certo que coexistem numa relação absoluta de interdependência e que os contextos sociais e políticos são muitas vezes impulsionadores de novas correntes literárias ou tendências.
Foi assim, quando em 9 Novembro de 1989, o Muro de Berlim foi metaforica e literalmente derrubado pela vontade dos homens e mulheres sedentos de mudança. O mundo geográfico alargou-se, fronteiras foram quebradas e com a abertura do Leste e a reunificação da Alemanha, uma nova ordem social surgiu. O encanto foi definhando com a passagem do tempo e as dificuldades de adaptação de ambos os lados intensificaram-se. Seriam afinal ein Volk – um povo só?
E o que tem a literatura a ver com tudo isto? Durante as décadas em que o mundo se dividiu, uma geração cresceu. Desconhecendo as diferenças entre o Leste e o Ocidente, assumiu como sua a realidade quotidiana dos países em que viviam. Sem nunca ter sofrido a separação violenta iniciada em 13 de Agosto de 1961, tinham histórias para contar, histórias além da História, histórias e aventuras de uma infância e adolescência mais ou menos feliz, mais ou menos colorida mas tão legítima como qualquer outra. Surgiu pois uma nova geração de escritores cuja temática central se debruça sobre a vivência anterior a 1989. Thomas Brussig e Jana Hensel são penas dois dos muitos autores que invadiriam o mercado editorial alemão. Brussig destaca-se pelo tom irónico e leve com que aborda a vida para lá do Muro e preenche com palavras o imaginário mitificado do Leste visto pelo Ocidente, enquanto Jana Hensel distingue-se pelo seu carácter autobiográfico, não-ficcional, portanto.
Na Alemanha, esta novíssima literatura não foi acolhida de braços abertos como haviam sido os cidadãos da RDA em Novembro de 1989. Frequentemente acusados de leviandade na abordagem de uma questão tão sensível como a história contemporânea alemã na segunda metade do século XX, e, em casos mais extremos, de desejar o regresso do passado e, com ele, o regime totalitário da RDA, os autores defendem-se, exigindo a legitimidade das memórias apolíticas que forjaram sua matriz.
E, porque acredito que existe memória sem cor política, não posso concordar mais: que faria com a memória da minha primeira ida ao teatro no defunto Monumental para ver o Pinóquio, titubeante e mínima, pela mão segura do meu querido pai? Deito-a fora, apenas porque aconteceu antes de Abril de 74? E o que faço à memória do homem da bolacha americana empurrando um carrinho verde pelo areal infinito e agreste da Figueira da Foz? Faço delete? Lembrar não é necessariamente homenagear ou militar, logo, lembrar a RDA não implica a observância do sistema político então vigente, tal como as memórias de antes de 1974 não atiram os seus donos para as secretárias da António Maria Cardoso, felizmente para mim. A memória é a matéria de que as vidas são feitas, sem ela não há passado e, sem passado, dificilmente chegaremos ao futuro.


Texto repescado do baú da memória

Na fotografia Ampelmann ou Ampelmännchen, um dos símbolos da RDA, transformado em objecto de culto e comercializado em todo o tipo de parafernália para saciar a fome voraz dos turistas. Pode ser encontrado agora pela cidade inteira.

Berlim (13)


Nas margens do Spree

sábado, 7 de novembro de 2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Necessidades

Às vezes, se me perguntam o que faria se ganhasse o Euromilhões, a resposta é a de sempre. Além de uma ou outra melhoria pontual na minha qualidade de vida, o dinheiro servir-me-ia para fazer aquilo que surge em primeiro lugar destacado: viajar. Muito.Tudo o resto posso fazer enquanto viajo: ler, conhecer, passear, ver rua e museus e gente, deter-me a ver o movimento ou a tranquilidade, parar sossegada numa esplanada ou recolher-me no último andar de uma livraria para aconchegar a alma e o corpo numa belíssima chávena de chá enquanto chove lá fora ou enrolar-me num cachecol, pôr gorro e luvas e perder-me nas multidões num mercado de um qualquer Sábado ou Domingo de manhã e posso escrever e posso amar e posso observar e sentir sempre. E vem isto a propósito desta vontade que me deu de regressar a Berlim, a culpa é das fotografias e do 9 de Novembro. Agora que se aproxima o Natal prevejo Mercados de Natal em cada ponto da cidade e para todos os gostos, tradicionais ou alternativos, e imagino-me, mau grado o meu desamor ao frio, aconchegada em casacos e cachecóis, as mãos protegidas por luvas enquanto o tempo pára no primeiro gole de Glühwein. E era para dar asas a este ímpeto que eu queria o dito guito europeu, para poder decidir hoje  que amanhã vou beber um Glühwein a Berlim sem que isso causasse mossa no orçamento ou que tivesse sequer de fazer contas. Um verdadeiro perigo, pensando melhor e a bem de todos, é até bom que nem saia.

Berlim (4)


Haus des Lehrers
(Casa do Professor)
Alexanderplatz

Berlim (3)


Unter den Linden

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Berlim (2)


Potsdamer Platz
Onde era muro e terra de ninguém surgiu isto

domingo, 1 de novembro de 2009

Berlim (1)


Em evocação de uma das cidades europeias mais fascinantes e dos 20 anos da Queda do Muro de Berlim até dia 9 vai haver fotografias minhas da cidade.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Nesta data querida


Para pessoas especiais, tratamentos especiais, por isso aqui vai um girassol do meu jardim com todo o carinho e votos de uma belíssimo aniversário. A menina das estrelinhas faz hoje anos. Sem ela este blogue seria muito mais sombrio. Muitos parabéns, querida C.!
E agora ide , estimados comentadores, e deixai uma palavrinha carinhosa à nossa C. Ela merece tudo e eu gosto muito dela.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Aquela altura

Chegou aquela altura. Não aquela altura do mês. Aquela altura do ano em que a criançada entra na rua e vem direitinha à minha porta a pedir guloseimas. Para que não falta nada fui hoje abastecer-me de rebuçados, chupas, moedas e bolinhas de chocolate, chocolates e línguas-de-gato, um saco imenso a abarrotar e uns quarenta euros mais leve. Estou tentada a meter a despesa no IRS.

domingo, 25 de outubro de 2009

O Prozac, depressa!

Já não me chegava a neurose invernosa, o humor outonal, ainda tem de anoitecer às seis da tarde? Mas quem, quem é se lembrou de mudar a hora?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Embora não lhe possa agradecer a gentileza com os Jimmy Choo, fico muito sensibilizada com esta referência. Obrigada, Laetitia.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Coisas que me apoquentam

Fui só eu ou também ouviram António Lobo Antunes na entrevista de hoje a dizer há-dem? Agradece-se a confirmação na caixa de comentários. Grata pela atenção.

Outono no campo


Momento sitemeter (Especial FarmVille)

Sumiu a galinha e sumiu no Farmville. Foi por isso que alguém veio parar a este blogue através do apelo desesperado no google farmville galinha sumiu. Se a vir a rondar a minha quinta terei todo o gosto em restituí-la, até porque as galinhas só ocupam espaço e rendem umas míseras oito moedas quando se lhes apanham os ovos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O livro

Não sendo mulher de fé nem de fervores místicos, a Bíblia, para mim, é apenas um livro. Fundamental na cultural ocidental, inspirador para muitos, crentes ou não crentes, prenhe de uma imaginação delirante em alguns episódios e carecida de uma explicação racional nos mesmos ou noutros, que contudo podem encontrar na sua força metafórica a solução para o irresolúvel nas mentes pragmáticas. Sendo um livro, como qualquer outro, permite a uma pletora infindável de interpretações, tantas quanto os leitores e tantas quanto os contextos sociais, políticos e religiosos o permitirem. A História prova-o e não é por acaso que, regendo-se pelo mesmo livro, existem religiões diferentes, cristãs na sua essência, mas com diferenças substanciais quanto a ritos e práticas, todas elas com um denominador comum: A Bíblia. Se perguntarmos a uma Testemunha de Jeová por que não comemora aniversários ou o Natal, ele responderá porque não está na Bíblia, se questionarmos um rastafari porque fuma erva a resposta será porque está na Bíblia. Sendo para mim um livro, a Bíblia não é mais do que isso, portanto, para mim, descrente, as palavras de Saramago reflectem, além da sua condição de provocador implacável, papel que cumpre com mestria, a literatura deve ser sempre provocação, uma interpretação. A Bíblia pode não ser apenas “um manual de maus costumes”, mas pode também sê-lo se o isolarmos da palavra de Deus. Saramago tem direito à sua interpretação.


Também no Delito de Opinião

Acontece

Acontece que eu sou mulher comichosa e na minha condição de comichosa não só gosto com exijo saber o que me fazem ao corpo quando o entrego às mãos dos médicos, essa classe profissional a quem devem ter retirado o relógio assim que se estrearam na profissão. Podem mexer e remexer, dentro dos limites, é certo, conquanto me expliquem em que consistem as suas incursões.
Acontece que a minha mãe é rapariga menos comichosa do que a filha. Nesta sua condição está-se literalmente nas tintas para o que lhe fazem ou deixem de fazer os médicos desde que a tratem bem e rápido. Não quer saber e dispensa descrições pormenorizadas de procedimentos cirúrgicos.
Acontece que a primeira vez que ela foi ao oftalmologista ele fez um relato pormenorizado, consubstanciado e minucioso de todos os procedimentos que intentará um dia destes. Injecções para aqui, injecções para ali, dormências e imobilizações.
Acontece que há médicos que parecem ser feitos da mesma cepa, que terão lido na mesmíssima cartilha e que afinarão pelo diapasão comum. Foi por isso que na segunda visita ao médico, outro por sinal, se seguiu a repetição exaustiva da primeira descrição já de si pormenorizada. Injecção para ali, injecção para aqui, um pequeno hematoma provavelmente, caso apanhe um vaso, uma picadela aqui, ali e acolá.
Acontece, senhores doutores, que a minha mãe não quer saber. Quer ser tratada de forma profissional e competente, a ritmo acelerado e vir para casa quanto antes. Entendem? Podem, se faz favor, parar com as injecções, picadelas e hematomas? E já agora, arranjem um relógio, que o povo tem mais que fazer do que ficar horas a fio à espera que se dignem a chegar. Grata pela atenção.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

FarmSobreiroVille Photos


Brevemente em doce de abóbora...

A ira divina

Calma, São Pedro. Eu sei que o Saramago anda a mandar umas bocas que têm deixado alguns católicos eriçados. O resto do povo não tem a culpa e não era preciso esta intempérie. Dá lá a outra face e deixa-te de coisas que já estás velho para birras.

domingo, 18 de outubro de 2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Onde não estou

Em mim vive um bicho rebelde que raramente aceita um não porque não, a menos que seja dada uma justificação corroborada pela razão ou o coração esteja em causa. Nessa situação o não, o mais pequenino e insignificante indício de que um não virá a caminho será o suficiente para me deixar quieta sem mais resposta, os sentimentos não se devem pedir, nunca pedinchar e jamais suplicar. Este bicho rebelde que me acompanha desde sempre faz com que, por exemplo, me apeteça o oposto daquilo que posso fazer apenas porque o oposto me soa a uma libertação remota daquilo que me ocupa no momento e que me tolhe os movimentos, tarefas aborrecidas, chatas, enfadonhas, entediantes. Se estiver numa sala fechada a ouvir barbaridades ou banalidades quero de imediato fugir, se estiver na rua apenas porque sim quero ir para dentro da sala porque me parece melhor, sem as barbaridades e dispenso as banalidades. Deve ser, pois, por este ataque tardio de adolescência rebelde que desconfio ter-se tornado num traço de personalidade que agora, justamente agora, neste exacto momento em que o trabalho parece fêmea em plena procriação, me apetece escrever. Quando finalmente o trabalho abrandar e me puder dar ao luxo de umas horas sem cabeça nem corpo ocupados neste mester de ser professora e formadora, sei, ah se sei, que me vou abandonar meio inerte com o ecrã branco à minha frente e vou argumentar Estou tão cansada que nem me apetece escrever… e não é porque esteja cansada, é porque posso e quando posso já não quero.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blog Action Day


Por sugestão do Carlos, meu companheiro no Delito de Opinião, no Blog Action Day

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A outra mulher

Os dias, o período, as regras. Diz-se, e a ciência corrobora, que na segunda metade do ciclo feminino regido por luas e hormonas envoltas em processos químicos e alquímicos misteriosos, as mulheres se metamorfoseiam em seres irritadiços e intolerantes, regidas por Marte e abandonadas por Vénus. Tão sensíveis como cristal da Boémia, tão deprimidas quanto a Marcella de Kirchner, e tão mas tão infelizes que poderiam ser peças fundamentais nos talk-shows matutinos, desfiando desgraças como se descascam ervilhas e se deixam, às desgraças, derrubar-se umas sobre as outras até formarem um promontório de lamúrias e infortúnios, uma pirâmide de desaires e desgraças.
Distam pois uns quatro anos bem medidos, quando, acometida pela instabilidade da serotonina comandada pelas hormonas diabólicas sofri publicamente de tensão pré-menstrual. Era Maio findouro, o crepúsculo anunciava-se por trás do palco em meia-lua, projectando imagens de defensores dos direitos humanos, amantes da paz e lutadores pela liberdade. Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá ao som do Imagine de John Lennon cantado por Rui Veloso e tocado por Gilberto Gil. Apoderou-se de mim uma força interior, pujante na alma e, à medida que o sol se escondia e a música subia, o sentimento desfez-se em água que se me brotou inevitável pelos olhos.
Incompetente absoluta na capacidade de chorar por emoção outro remédio não tive, senão resguardar-me nos óculos de sol, incriminar a poeira de me ter afectado as lentes de contacto e causado irritação e remeter-me à mais rotunda evidência: eram os dias, o período, a famosíssima tensão pré-menstrual, o álibi que homem algum ousa questionar e que as mulheres respeitam, reverentes e solidárias. Podia pois abandonar-me ao momento de pura emoção sem que me fossem feitos interrogatórios, os primeiros encetados de mim para mim, inquiridora-mor de mim mesma Tu? A chorar? Estás bem? e silenciosamente acomodar-me ao novo estatuto de criatura emocionável e choraminguenta.
O primeiro aviso ter-me-ia sido dado no dia em que, ladeada por dois soneros em plena Plaza de las Armas, em Havana, me foi cantado o bolero que me acompanhará enquanto memória me for possível Dos Gardenias para ti. A emoção do momento desestabilizou-me o sorriso que saía tímido e desajeitado, os olhos lacrimejantes, contam-me. Acreditemos, contudo, que estariam longe os dias fatídicos e as hormonas a banhos lá para Varadero. Engoli as lágrimas e sacudi a emoção.
E andava eu tranquila na minha vida quando nos últimos quinze dias me vi abalroada pelas forças intangíveis que se me perturbam os últimos resquícios de fleuma. Duas vezes em quinze dias. Uma em Londres ao som do Who wants to live forever? no musical We will rock you, a outra Sábado passado perante a presença avassaladora de Caetano Veloso em palco cantando-me Você é linda. Com tanta proximidade não há hormonas, dias ou regras que me valham. Admitirei pois que sou apenas outra mulher.

E fui repescar esta crónica antiga porque há instantes quando parei para ouvir isto por imperativos profissionais estava com pele de galinha e tinha uma lágrima teimosa a querer embaciar-me o dia luminoso que nos abraça lá fora. Raios.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Puro ódio

Há dias em que odeio a minha profissão. Esses dias são aqueles em que perante um imprevisto que hipoteticamente me obrigue a faltar, doença ou morte de alguém que embora querido não consta nas minhas relações consanguíneas, a primeira coisa que me surge como um martelo pneumático no ouvido é a constatação Não posso faltar! Ou a inquirição perante mim própria antes que verbalize seja o que for E agora, como é que vou fazer? E ainda Quem me vai substituir? e em última análise, por cima de tudo e de todos Tenho de ir fazer uma ficha de substituição. Igual quem vive ou morre, igual se precisam de mim. Nesses dias, como hoje, por exemplo, odeio-a, odeio-a com toda a força da minha alma e por inerência odeio todos os que me obrigam a colocar a minha vida profissional acima da minha pessoal, que, convenhamos, também tenho, caso dúvidas subsistissem para aquela gente que pare leis lá para São Bento. E não quero saber se se abusou da lei, se se cometeram excessos no passado e se agora paga o justo pelo pecador. Não tendo sido um desses, continuo a pagar por todos os outros. Não me falem pois de mérito, de premiar os melhores, de distinguir o trigo do joio e de trazer justiça à profissão. Há dias em que odeio a minha profissão.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ufa

Acabaram as legislativas. Acabaram as autárquicas. Agora já posso prosseguir com a minha vida e finalmente saber quem vai substituir Maria de Lurdes Rodrigues na Educação.

domingo, 11 de outubro de 2009

É tudo gente morta...

dizem eles. Na verdade estão vivinhos e recomendam-se, além de lá estar o Manuel S. Fonseca com quem prazeirosamente partilhei as terças-feiras nos meus tempos do PNETMulher. Espreitem aqui.

sábado, 10 de outubro de 2009

Confissões de uma bibliófila incurável

O meu problema com os livros é que gosto de livros e gostando de livros não me fico apenas pelo mundo que albergam nas letras em carreirinha páginas fora até ao último ponto ou derradeira palavra. Gosto do livro, do objecto, das letras na contracapa, das capas e gosto de me sentir acompanhada por eles. Seria incapaz de viver numa casa sem livros. Caso que me queiram infligir um castigo maior, podem fechar-me num espaço despojado de livros. Por oposição, um espaço coroado de livros oferece-me a tranquilidade longe do mundo como se não tivesse havido ontem nem amanhã acontecesse, o tempo pairasse indelével entre estantes e lombadas e Cronos abrisse um parêntesis na sucessão de momentos a que se convencionou chamar dias ou meses. Mas o meu problema com os livros é que gostando deles perco-me até por edições novas das mesmíssimas obras, as mesmas que li e que tenho, apoderando-se de mim um misto de gula de os devorar e de luxúria de os possuir. Aconteceu-me mais uma vez quando me cruzei com a última edição de Os Cus de Judas a propósito da comemoração dos trinta anos de carreira literária de António Lobo Antunes. Um ímpeto irresistível que me levou a passar-lhe os dedos sobre a capa levemente rugosa e a tentação das tentações: o perfume único que exalam as páginas acabadas de imprimir. O livro é o mesmo, o mesmo que terei lido há trinta anos, o miolo apenas com pequenas correcções fixadas na edição ne varietur que também tenho em casa, por sinal autografado pelo autor num dia de calor à sombra dos jacarandás. E lá veio a gula, logo a seguir a luxúria. Decididamente tenho um problema com os livros.


Também no Delito de Opinião

Reflexões verdadeiramente importantes

Tenho de ir ao talho antes da hora do terço na Renascença.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Mal de inveja

Depois de um fim-de-semana fora, a Lolita estava cheiinha de saudades dos donos e recebeu-nos com uma panóplia de marradinhas e enroscanços nas pernas, um verdadeiro ritual de boas vindas com direito a acompanhamento a todos os pontos da casa para onde nos deslocássemos. A Lolita que foi durante um ano gatinha única não achou grande piada a que as duas bichanas que lhe saíram de dentro tivessem o mesmo direito que ela a partilhar os donos e andou uns tempos distante. A verdade é que nunca foi particularmente carinhosa, não no sentido convencional de ser expansiva mas tem uma forma muito peculiar de mostrar os seus afectos, nomeadamente quando procura a cama na nossa ausência, quando se passeia vaidosa na presença dos amigos que nos visitam e quando põe as duas patas dianteiras em cima de um dos nossos pés, um número que repete amiúde. Desta vez estava particularmente saudosa e não nos largou um minuto. Chegada a hora de ir dormir ocupou um lugar cimeiro na cama e quando a Guidinha começou a ronronar, deu-lhe literalmente três tabefes por duas vezes, a sensação clara de que se afirmava em posse do território, presumo que eu faria também parte do território e que aquele ronronar insistente a estava a incomodar. Depois dos tabefes, olhou-me de olhos semi-cerrados, enrolou o rabo à volta do corpo e manteve-se como se nada fosse, majestática e imponente no seu corpo reboludinho de gata pequena e atrevida. E é nesta alturas que invejo os gatos, invejo muito os gatos, porque também gostaria de ser assim, ter uma vida amoral, assumir os meus caprichos, humores e fúrias, dar uns tabefes bem arrumados a quem me perturbasse o enlevo e o espaço e continuar absolutamente impassível e fleumática e assim sedutora e irresistível.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O último de tempo da manhã

O último de tempo da manhã só é ultrapassado por um outro último tempo: o da tarde. A entrada para o último tempo da manhã é sempre tumultuosa, o alívio iminente da manhã trabalhosa, o estômago que começa a ressentir-se e a certeza de tudo acabar dentro de noventa minutos constituem o cocktail explosivo que me é dado a deglutir em todos os últimos tempos da manhã. Enquanto se arrumavam nas carteiras, ajeitavam as mochilas e tiravam livros e cadernos, uma voz feminina solta-se do lado direito junto à janela Stora, sabe que dia foi ontem? Dia do professor! Muito bem, stora, os seus colegas não sabiam. Pronto. Era escusado fazer boa figura à custa da ignorância alheia mas nisto de se ser professor nunca se sabe o que nos espera e que figura faremos a seguir. Correu-me bem desta vez. Aguardo a próxima. Logo a seguir à voz feminina e na sequência da minha pergunta sobre o feriado e o fim-de-semana, se tinha corrido bem, se se tinham divertido, se estavam bem dispostos, ouço uma voz sumida, masculina desta vez. Stora. Sim? Stora. A voz continuava em surdina como um lamento suave. Ó Stora, tenho as axilas assadas. Ora a stora é rapariga que está habituada a ouvir coisas várias, a stora ouviu várias coisas ao longo destes vinte e dois de vida de professora que se comemoram hoje mas as axilas assadas? As AXILAS ASSADAS? E sem que a stora pudesse esperar mais, a voz e o seu dono aproximam-se calmamente na cadeira giratória. O dono desta voz e deste corpo longilíneo de modos suaves e carinhosos é um rapaz calmo, nunca se viu em altercações, tem uma paixão assolapada por uma garota morena com metade do seu tamanho e é gentil e doce. E lá veio na cadeira giratória até ao pé da stora para abrir a manga da t-shirt de onde se podia ver a vermelhidão da axila masculina, Tadinho, como é que fez uma coisa dessas? consequência óbvia de uma depilação insistente. Tentei três vezes. Sozinho. E depois vieram os conselhos, um creme rico em vitamina E. Faz bem, a stora tem razão, acrescentou a colega do lado, sempre atenta e com um sorriso luminoso. E a aula continuou. O último de tempo da manhã só é ultrapassado por um outro último tempo: o da tarde. Este ano não tenho aulas ao último tempo da tarde, razão suficiente para ficar tranquila quanto a posteriores revelações. Nunca se sabe o que me esperaria.


E hoje passam vinte e dois anos sobre o meu primeiro dia de aulas. Pelo que me lembro ninguém me anunciou que tinha as axilas assadas.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Dia de Outono

Desapareceu-me a tarja de mar prateada. Da janela da cozinha, espreito uma massa informe, cinzenta, onde outrora o sol beijava o mar pelas tardes fora e a esperança de dias belos se espelhava na aura alaranjada que o sol ia largando atrás de si. Era mar e era céu. E eis chegado o tempo e vou acalentado na passagem de dias sombrios a esperança de um novo tempo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quatro anos...


desde este momento.
Obrigada pelo carinho e paciência

Espelhos

A primeira vez que isto me aconteceu foi quando decidi não procrastinar e perante o primeiro aviso de pouca gasolina no meu humilde carrinho e antes que se tornasse num grito vermelho rumei resoluta à bomba de gasolina. Depois dos trâmites costumeiros uma cara masculina abriu um sorriso largo não sem antes cumprimentar em tom brincalhão Olá Senhora Professora. O rosto já com cãs e longe de ter a frescura adolescente era-me completamente desconhecido. Nada. Nem uma expressão, nem sequer o sorriso ou a expressão do olhar que resiste à passagem do tempo. Um rosto que me reclamava como sua professora, vinte anos já decorridos, e que provava conhecer-me e reconhecer-me duas décadas depois de lhe ter preenchido horas com um linguajar estrangeiro e eu perante ele desastrada, quem sabe com cara de velha patética de boca ao lado e olhar arregalado. E percorria a minha memória, cavalgava anos na procura daquele rosto, e tentei, quase em vão, lembrar-me. Localizei o ano como quem procura o carro perdido no estacionamento, Ah então estás aí, encontrei a turma seleccionando-a como se escolhesse a única chave capaz de me devolver o rosto do molho caótico no fundo da mala. Não mais do que isso, porém.
A segunda vez que isto me aconteceu saía lampeira da mesa de voto, quando alguém me interpelou por causa das sondagens. Enquanto se procuravam canetas e ajeitavam boletins eu disse que era professora. Um rosto de mulher carcomido pelo tempo olhou-me nos olhos É professora e filha de professora. A partir daí entabulou-se conversa, que a minha mãe tinha sido professora dela, que ela era daqui perto, e deixei a memória percorrer mais um dos caminhos pretéritos, mais uma vez uma maratona de rostos e décadas e vidas mas mais uma vez, como a primeira, nada. Trocámos o tratamento formal pelo tu, abomino, odeio formalidades bacocas e dispenso distâncias presunçosas. Revisitei o cartão identificativo que a mulher ostentava. Nada, aquele nome associado àquele rosto não me dizia coisa nenhuma. A mulher adiantou que eu era dois anos mais velha, uma enorme diferença quando se anda no Liceu, que eu e os meus colegas éramos bem mais crescidos e mais altos. Talvez daí, talvez daí não me ocorresse coisa nenhuma. E assim fui ficando desconfiada de mim própria perante isto que se me instalou de repente na vida, a ladainha que pressinto irei repetir amiúde Não me lembro e o desconforto dos outro se lembrarem Lembro-me de ti.
A terceira vez que me aconteceu isto foi hoje, quando ao sair de uma porta de um local público me cruzei com uma mulher pequena. Esbaforida, anseava por um café e galguei rumo à rua até ouvir Olá Nonô. E desta vez, depois do meu nome verbalizado, reconheci aquela cara, o mesmo sorriso de sempre mas rodeado pelas rugas de expressão, a decadência bem presente no colo e no pescoço. Mais uma vez teria passado a direito sem dizer um Bom Dia sequer, à primeira vista aquele rosto não me teria dito nada. E eu sei que os outros são o meu espelho, sei que as cãs do rapaz na bomba da gasolina sou eu, sei que a expressão carcomida da minha colega de liceu sou, sei que o pescoço enrugado da minha vizinha de tantos anos sou eu, mas às vezes não me lembro, não me lembro sequer de mim.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (7)

E regresso ao elevador com a cidade a esconder-se nos braços da noite. No miradouro de S. Pedro de Alcântara, os corpos abandonam-se à languidez da tarde em bancos de jardim. Turistas lançam um último olhar e a descida recomeça. Da irlandesa e do sérvio não há rasto. Ter-se-ão perdido na grandeza de um espaço acolhedor e mágico, perdido na mistura do passado e do presente e na sua própria mistura. No elevador um grupo de turistas italianos, um casal de ingleses e brancos e pretos e morenos e louros e velhos e novos. A mistura necessária para que a riqueza intelectual e cultural prevaleça. Assim é o Chiado.

 (fim)

domingo, 27 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (6)

Adentrando a alma


E para melhor conhecer o Chiado há que deixar a Rua Garrett e adentrar as ruelas estreitas coroadas de vida entre estendais, flores e grinaldas alegres dos santos populares, coloridas com conversas inconsequentes à porta de casa, um pé na estrada, outro no passeio. Em três meses estava operada à barriga atira uma mulher rotunda a um homem com quem cruzava palavras. O tema tão comum neste fado lusitano, há sempre um achaque que nos consome a alma e apoquenta o corpo. Há quem lhe chame fado. E Lisboa assemelha-se então a uma aldeia longínqua divorciada do cosmopolitismo da urbe.
Num passeio fugaz pelo Largo do Carmo, lugar obrigatório e palco primordial da metamorfose política e social de Portugal a 25 de Abril de 1974, confirmo a idiossincrasia do largo. Relativamente pequeno, protegido pelos jacarandás e coroado por um chafariz, o Largo do Carmo oferece simultaneamente lazer e interesse turístico: anciãos jogam xadrez numa mesa de pedra enquanto turistas louros e alvos se deixam retratar por um pintor de ocasião com as obras penduradas pelo quiosque a um canto da praça. Do lado lateral o caminho estreito para mais uma vista sublime de Lisboa. Vale a pena. E continuo rua acima. O perfume a libertar-se dos fogareiros artesanais, agora mais intenso com o aroma da sardinha assada, não há Lisboa nem Chiado sem elas, e o odor carregado dos alfarrabistas.
Do outro lado da rua, o Solar do Vinho do Porto, a hora propícia para o néctar dos néctares, viscoso e aromático, mais abaixo o Cine Theatro Gymnasio oferece Fado aos turistas, obrigatório neste ou noutro lugar para quem quiser experimentar a alma lusa.

 (continua)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (5)

Papéis pintados com tinta

Logo no início da Rua Garrett encontra-se a Livraria Bertrand, uma das mais antigas livrarias de Lisboa. Proporciona desde 1773 puro deleite aos bibliófilos e aos amantes da leitura. Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Antero de Quental e Ramalho Ortigão contam-se entre os assíduos do espaço frequentado pela elite lisboeta em finais do século XIX.
Na esperança de encontrar bibliografia sobre a Lisboa, entro na Bertrand. Sou recebida por várias salas unidas por um mesmo corredor em que se respira a ancestralidade, o ambiente protegido e calmo, o aroma dos livros acabados de imprimir e o pó de vidas e séculos passados misturados num perfume só. Na sala onde me indicam livros sobre a cidade está para acontecer um evento. As mesas amontoam-se entravancando o livre acesso às estantes centenárias. Solicito ajuda e indicam-me os guias com os quais já me havia cruzado, alguns maus e com erros. O périplo pela afamada livraria revelar-se-ia infrutífero: sobre Lisboa apenas os livros banais da especialidade, sem outra alusão a obras que escolheram Lisboa como cenário e de que Afirma Pereira de Tabucci e Comboio Nocturno para Lisboa de Pascal Mercier são apenas exemplos. Uma falha imperdoável que atira Lisboa para os antípodas de algumas capitais europeias tão bem documentadas e que elevam a vida das suas cidades através da literatura. Lisboa merecia melhor.

(continua)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (4)

Quarteirão dos Escritores

Não é o Quarteirão dos Escritores mas podia ser. À minha frente e ainda na esplanada, contemplo o poeta Chiado. Ao meu lado, umas mesas abaixo, consigo ver Pessoa, também ele sentado à mesa n’A Brasileira, tomando um café que é tudo menos tranquilo. Duas mulheres abordam-no, pobre Pessoa, uma que timidamente se aproxima para que a outra lhe tire uma fotografia. Vão-se embora lestas, a cidade espera-as, acredito. Uma adolescente aproveita o hiato de paz e salta literalmente para o colo do escritor dos heterónimos. Duas fotografias envolvendo o pescoço do absolutamente indiferente Fernando António Nogueira Pessoa, nascido a 13 de Junho, data duplamente festejada no calendário alfacinha. Nunca em vida foi tão popular nem esteve tão acompanhado.
E continuando com os escritores: um pouco mais acima está “o poeta triste” no dizer de Eça. Camões que se ergue no Largo com o seu nome, com o olhar estático Rua Garrett abaixo, mais uma evidência da omnipresença dos escritores no Chiado, “o meridiano das artes e letras portuguesas”, Cardoso Pires dixit. Já na Rua do Alecrim, com a maresia do Tejo a perfumar “o manto diáfano da fantasia”, encontra-se Eça de Queiroz, nome incomparável das letras lusas e que terá cantado o Chiado como poucos. Camões, Pessoa, Chiado, Eça e Garrett misturam-se num ínfimo espaço físico, encontrando-se sempre além do que a superfície geográfica delimita. Não é o Quarteirão dos Escritores, mas podia ser.



(continua)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sem dia nem estação

O início do crepúsculo deixava uma aura dourada a reflectir-se nas janelas vinda de lá do lado do mar onde se anunciam os ocasos rubros do início do Outono. À minha frente caras desconhecidas, um primeiro contacto nesta aventura de regresso à escola após anos, décadas talvez, de interregno. E o sossego instala-se, um silêncio pontilhado apenas com o contacto do papel na carteira amarelada e o restolhar dos adereços femininos, os sorrisos que pairam como uma aroma suave a enlear a sala para dar lugar ao semblante mais concentrado na tarefa à sua frente. Lá fora o crepúsculo. Revejo os papéis no momento de acalmia, arrumo as sobras do silêncio e começo a leitura. Um nome. Um nome igual a todos os outros. Um nome que seria exactamente igual, caso mais dados não confirmassem a coincidência. Sussuro-me Que giro! É da empresa do Papá. Vou-lhe contar. E o resto é conhecido. Letras e letras desta ausência que atiro longe para lá do sol poente em início de Outono e me regressa sempre como um boomerang sem dia nem estação

Chiado, Tejo e tudo (3)


Lisboa que desfila

Enquanto peço uma bica sentada n’ A Brasileira ocorrem-me as linhas de António Lobo Antunes. O escritor íntimo de Lisboa declara o seu ódio aos semáforos “a principal razão que me leva odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro”. Embora me encontre tranquilamente sentada com a estátua corcovada do poeta Chiado à minha frente, longe de semáforos, a abordagem imediata, mal me havia sentado, de um homem reclamando uma contribuição para os doentes com SIDA, retornou-me as palavras do escritor. Dou-lhe uns trocos para que me deixe em paz, pouco convicta da sua sinceridade, ele esboça uma expressão insatisfeita. Nos dias que correm também Lisboa se rendeu a uma procissão de personagens características, em nada comparável ao sucedido décadas antes. Esta não é a Lisboa de António Lobo Antunes mais uma vez, um desfile de “microencefálicos, macroencefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes políticos, etc.”, mas é suficientemente incomodativa, contudo. O Chiado também é feito disto.


(continua)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (2)

Entre o Tejo e o casario

Situado entre duas das sete colinas de Lisboa, a de Santa Catarina e a de São Roque, o Chiado reparte-se entre ruas estreitas e avenidas que serpenteiam em várias direcções: a Baixa, o Cais do Sodré, o Príncipe Real, a Calçada do Combro que levará a outro local de passagem obrigatória para quem se queira aventurar além dos roteiros turísticos. Os olisipógrafos dividem-se quanto à origem do nome desta zona da cidade, oscilando entre a onomatopeia do chiar das rodas das carroças e o epíteto de António Ribeiro, poeta satírico do século XVI, o Poeta Chiado ou apenas o Chiado. O mistério é o condimento necessário para a perpetuação dos mitos. Pode ser neste caso também.
Facilmente alcançável por três elevadores, Bica, Glória e Santa Justa, datados do fim do século XIX, início do século XX, o Chiado é mais do que apenas um bairro. É também a língua de casario, de um lado a precipitar-se para o Tejo e do outro a espreitar a encosta íngreme de sacadas pombalinas, decadente e simultaneamente encantatória como em outras cidades crepusculares, Veneza ou Havana.
O Chiado encerra a história centenária de boémia, tertúlias, de passeios públicos onde a elite portuguesa do século XIX se passeava para ver e ser vista. Muito mais do que um bairro, portanto. “O Chiado não pode ficar resumido a uma efeméride, a um livro de ouro ou a um belvedere por onde passam as primaveras das Belas-Letras/Belas-Artes dum país. Está também na trajectória do nosso Pensamento Social e Contemporâneo, na evolução da nossa política e esse é um capítulo que lhe cabe em parágrafos de honra maior” diz-nos José Cardoso Pires em Lisboa Livro de Bordo, obra obrigatória para quem quer conhecer Lisboa. E tem razão.
Desde sempre o ponto convergente entre o povo do Bairro Alto com vidas aquém da moralidade vigente, a elite prestigiada, e o percurso peripatético de pensadores, escritores e poetas, o Chiado mantém essa diversidade. A reabilitação do Bairro Alto como um dos locais de culto da noite lisboeta, onde o alternativo se mistura com as tascas tradicionais com vinho a copo dissuadiu as mulheres de má vida e as varinas de Eça que “de canastra à cabeça, meneavam os quadris fortes e ágeis na plena luz” também já não moram ali. Pululante de um novo estilo de comércio, com pequenas lojas alternativas escondidas nas vielas encimadas por canteiros de gerânios rubros ou pungentes estendais de roupa alardeando a intimidade, o Bairro Alto constitui hoje um pólo atraente da cidade. Nada como perder-se a pé para melhor sentir a alma de um local como poucos no mundo.
(continua)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Chiado, Tejo e tudo (1)

O céu plúmbeo sobre a cidade momentaneamente iluminado por umas réstias de sol deixa-se vislumbrar da parte de trás do eléctrico. Um homem jovem pelos trinta anos espreita pela janela confirmando a dissipação da intempérie inesperada em pleno Verão. Posa para a fotografia dentro do eléctrico quase vazio enquanto a companheira de viagem tira fotografias de ângulos diversos. Logo após é a vez dela. O homem revira os olhos num sinal de óbvio enfado. A mulher não se deixa intimidar. Vai pedindo fotografias várias, ora dentro do eléctrico ora fora, indiferente à pouca vontade masculina e mantendo em mente o seu objectivo: deixar-se fotografar dentro de um dos ícones da cidade de Lisboa e que a elevará a um ponto de onde a cidade se oferece sem pudores ao olhar curioso e perscrutador de turistas e viajantes.
Regressam ao interior do eléctrico. Pergunto-lhes se querem uma fotografia a dois, quando se viaja a pares falta sempre um terceiro que imortalize o momento. Acedem, aparentemente felizes. Ela salta para perto dele e coloca-se por trás. Um sorriso. Uma pose. Já está. Pergunto-lhes Where are you from? A mulher sorri e responde-me I’m from Ireland, he’s from Serbia para concluir com algum pudor We are a mixture. Respondo-lhe que também nós somos uma mistura, facto inegável de séculos de miscigenação. O elevador começa a marcha rua acima. Para trás a Praça dos Restauradores e, fazendo jus ao nome do próprio, inicia-se a Glória de uma subida reveladora a cada momento, uma urbe sobre sete colinas afinal tão convenientes a uma observação perfeita de vários pontos da cidade.
(continua)

sábado, 12 de setembro de 2009

Passado rasgado

Está na hora de arrumar. Arrumar, rasgar, deitar fora, limpar. Arranjar espaço no passado para que o presente flua. Atiro-me impiedosa aos papéis acumulados dias e anos, testemunhos do caminho trilhado, vozes silenciosas que me sussurram quando abro dossiers e os desventro do papel velho, fichas e trabalhos, textos, aulas e aulas, bocados da minha vida que tento a todo custo que se mantenham. E rasgo papéis. E textos, e fichas, horas e horas de conversa e debate, horas e horas a que abruptamente tive de dizer adeus um dia algures num Abril passado, tão passado, volvidos quase meia dúzia de anos, mas sempre presente. A memória que percorre os espaços da felicidade que já foi. Dias auspiciosos que se abrem perante mim. E rasgo papéis. E despeço-me de uma parte de mim.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Mal moderno

Diz que provoca irritabilidade, insónia, tristeza, dificuldade de concentração e lentidão. Há quem a sinta assim que começa a fazer a mala de regresso ao pátrio lar, uma espécie de modorra que se instala no corpinho hipoteticamente bronzeado dos veraneantes ou na alma teoricamente lavada por outras paragens e embalada no remanso de nada fazer, profissionalmente entenda-se. O corpo que se recusa a reagir ancorado nas férias como um burro teimoso. Há ainda quem seja acometido de ataques de mau humor súbito, um enraivecimento colérico gerador de impropérios largados como quem deglute prozacs e digassims em catadupa sempre na senda da cura para este mal moderno. Podia ser contemporâneo, é, aliás, contemporâneo, contudo esta mania que se instalou agora de epitetar de depressão ou de síndrome todos os estado de alma é característico de uma modernice bacoca. A mais recente é a depressão pós-férias ou também chamado síndrome pós-férias. A acreditar na “Única” desta semana, este mal, e que mal, passará algumas semanas depois do regresso ao trabalho. Não sei quando é que perdemos a capacidade de aceitar a vida como ela é. Tudo é passível de causar depressões, o regresso às aulas, o fim das férias, medos e fobias de coisa nenhuma e de todas as coisas mas que se não forem aceites como são podem transformar-se nesse mal dos males. Assim que assoma a primeira tristeza ou fanico da alma dorida, normal, diria eu, arranja-se sempre um síndrome, depressão também, que se lhe chame. Há que cumprir o fado, o destino de xailes negros e cantares tormentosos. Sem uma depressão nada se faz. Regressar ao trabalho é apenas regressar ao trabalho.

É oficial...

acabaram-se as férias.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Momento sitemeter (22)

Com um fisaleiro com o meu é quase imperdoável que não tenha aproveitado a safra infernal para um Doce de fisalis, a procura mais recente no contador de visitas deste blogue. Doce de fisalis nunca fiz, de facto, mas ainda sobrou um pedacinho do doce de abóbora, biológica, sem corantes nem conservantes e que resultou num manjar opíparo, lado a lado com o inevitável requeijão de Seia. Alguém é servido?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quatro anos de silêncio

Sentado no sofá, como tanto gostava e caso o gato não o disputasse com ele de olhar fixo e penetrante, orelhas perfiladas e um leve inclinar da cabeça para um dos lados, o meu pai seria incapaz de aceitar com calma os desígnios recentes deste nosso Portugal. Dono de um feitio apurado que, adianto, é genético e contagioso, o meu pai teria feito tudo excepto ficar impassível e, muito importante, calado. Primeiro uma crítica suave, cautelosa. Talvez na entrada Nonô, ouviste o Sócrates ontem? Depois em crescendo, Olha, tu ouviste-o ontem? sempre em crescendo Ai Santo Deus, as coisas que se dizem e depois a confirmação Palavra de honra, não têm vergonha? mais tarde a certeza Está pior que o Salazar, e a desilusão total Olha, nem no tempo do Salazar. Que tristeza! e a ameaça que nunca cumpriu Este ano não vou votar. E dias correriam. Ao que nós chegámos... Dias longos e breves, dias de sol e de Inverno. Dias e meses e anos. Estão completamente loucos. Perderam as estribeiras. E teria refilado. Retorquido. Sugerido. Comentado. Apontado. Criticado. Reprovado. Mas hoje, hoje só houve silêncio.

Setembro

Setembro. Mês nove, mês de transição efectiva entre a vida estival, os dias de nada fazer para a maior parte dos portugueses e os dias em que o dever laboral soa que nem uma sirene enfurecida movida pelas obrigações e responsabilidades. A minha sirene começou a tocar levemente, ouço um silvo fininho algo longínquo, porém bem mais perto do que ontem e claramente menos distante do que na semana passada. Aproxima-se lesta. Paulatinamente a vida retoma o ritmo que ocupará com mais ou menos intensidade nos próximos onze meses, a estação pateta e atoleimada arrumou as sandálias e chinelas, as calças de linho e os vestidos esvoaçantes no sótão das memórias artificialmente felizes que os meses fugazes de estio comportam.
Setembro é mês de transição entre o Verão e o início de Outono, estação das folhas caídas que cobrem o chão como um tapete acobreado e ruidoso nos parques e caminhos. Em Setembro, os dias tornam-se mais frios, menos longos, os pores-do-sol vestem-se de cores avermelhadas e são mais belos do que no pico do Verão. E Setembro é um dos mais duros meses que me conheço, crepuscular e sombrio, dia dois marca assim o calendário, dia dois, dia segundo de um mês que o tempo dita belo, a estação menos exuberante e mais comedida, as castanhas que se anunciarão lá para frente, o aconchego das roupas menos translúcidas prenhes de conforto.
Dia dois. O dia que apagaria de todo do calendário, caso apagar me fosse possível e caso apagar me devolvesse a luminosidade perdida nesse pedaço de mim que num dia dois de Setembro vi definitivamente partir e a quem vou dedicando as letras e palavras, lê-las-á?
Dia dois então. O dia a partir do qual a vida se dividiu em dois, antes e depois, e no depois as memórias saltam em catadupa, memórias apenas, lembranças, recordações que comigo estão para onde quer que vá e que se me impõem em instantes díspares e improváveis. Um momento que gostaria de partilhar, uma notícia a comentar, um livro para ler e a conversa de sempre em torno da língua de Camões, discussões que se advinham intensas e aguerridas.
Dia dois portanto. O dia em que entendi que a ordem natural das coisas é apenas a convenção, somente a crença irracional de que se socorrem os aflitos para que o dia-a-dia se torne suportável na ausência definitiva, a ordem natural das coisas -quem se lembrou de tal?- mais não é do que a mezinha possível para as dores da alma, a resignação perante os factos consumados. Ordem natural das coisas, dizem-me, que assim é: os pais partem primeiro do que os filhos, diz que é por isso que agora apenas posso dedicar estas palavras ao meu pai.
Dia dois pela tarde. Era Setembro.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Palavras

Palavras. Palavras que procuro. Palavras que me faltam sempre que a vida nos atropela e deixa com a certeza de que os desígnios são palavras vãs e conceitos sem sentido em tempo de coração apertado, com a ausência sentada em nós, o coração apertado com o torniquete da saudade tão recente. Mas procuro palavras. Palavras que possam confortar a C.. Palavras que a abracem com o carinho pleno da amizade e que amenizem o silêncio que a partida deixou. A morte é a curva da estrada, penso, morrer é só não ser visto. E morrer é só não ser visto, uma curva que aparece lá longe no caminho que trilhamos e que alberga os nossos ausentes, afinal tão presentes. Um dia voltará o sorriso, querida C.. Enquanto isso procurarei as palavras.