Quando se tem três raparigas de quatro patas em casa há que cuidar, dar colinho, comidinha, partilhar espaços, sofás, camas, cadeirões, e, muito importante, tratar a bicharada e prevenir-lhes as maleitas. Hoje foi dia de cumprir esta última tarefa e de levar as raparigas ao veterinário que de tanta confiança já passou a ser o meu/nosso veterinário, o tal a quem quero que me levem, já deixei aviso, caso me dê alguma solipampa. Tenho a certeza que me passariam mais a mão pelo pêlo do que os clínicos que costumo frequentar, além de serem sensivelmente mais baratos, muitíssimo mais pontuais e ainda de enviarem as boas festas no Natal, coisa que os médicos jamais fizeram. Só vantagens, como se vê.
Na primeira leva foi a Ruiva. Miou desde que saiu de casa assustada, quando saiu da caixa vinha com o rabo entre as pernas, cheiinha de medo, tremeu o tempo todo e só descansou quando já em casa se viu livre de todos, especialmente do amabilíssimo e em igual grau competente veterinário.
A Lolita foi na mesma leva. Mais calada do que a filha, ficou dentro da caixa a observar tudo à sua volta, mas quando chegou a vez dela ficou igualmente encolhida, com as patas a transpirar e, de repente, virou-se para mim e aconchegou-se sequiosa de protecção, como se alguém porventura lhe fosse fazer mal.
A Guidinha foi a última na segunda e última leva. E a Guidinha é bicho temerário, verdadeiramente felina sem preocupações de quem morde, importante é que não a agarrem e não a aborreçam. Ora a Guidinha é rapariga independente e o veterinário fora avisado deste seu temperamento difícil. Pois assim que se abriu a caixa, estava estancada lá dentro, tivemos que retirar a parte de cima para chegar à bichana e depois foi o que viu. Assustada como nunca, abeirou-se de mim, pedindo protecção como a sua mãe e irmã. E, pasme-se, peguei-lhe ao colo, coisa que detesta e nem sequer permite em casa, e encostei-a a mim.
Se fossem humanos, ter-lhes-ia dito Faz-te mas é à vida, está tremer para quê? À segunda abordagem dir-lhe-ia talvez, Deixa-te de merdas e faz-te uma mulher que ninguém te está fazer mal. No caso das gatas resignei-me à minha função de dona protectora, levemente envergonhada por tanto mas tanto mimo, acarinhando e acalmando os nervos das raparigas e fiquei a pensar que raio de trabalho fiz com elas que são mais mimadas do que as coisas mimadas. A sorte é que não tenho filhos. Imagine-se como sairiam as crias. Longe vá o agoiro. Cruzes credo.