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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Convidados assíduos

O Salazar e o Rei eram convidados assíduos de lá de casa, pela hora de jantar, em tempo de vida da minha avó. O meu pai não gostava nem de um nem de outro, menos do Salazar, é certo, que arrumava a um canto ou pedia para sair, de forma a que pudéssemos ter uma refeição descansada, sem lápis azul nem a carranca austera. Acresce a isto o facto de a voz aflautada do Botas nunca ter sido do agrado de ninguém lá por casa. Por fim, o Botas arrastava-se, a queda da cadeira deu-lhe cabo das cruzes, e quando o meu pai lhe atirava com Fátima e a Irmã Lúcia e ia buscar Fátima Desmascarada à estante do corredor, vinham-lhe umas tosses cavernosas e a imagem a preto e branco contrastava ainda mais com a nossa vida a cores de meados dos anos 70. A minha avó tolerava o Botas e tinha dias de elogios rasgados. Era ela quem o convidava amiúde e as discussões mantinham-se sempre por causa das estradas que o Botas construíra, a virtude máxima encontrada e citada pela minha avó, e que, não sendo novidade para ninguém em pleno século XX, constituíam o foco de admiração profunda que nutria pelo ditador.
O Rei aparecia mais vezes do que o Salazar. O Rei aparecia quase a qualquer momento, mesmo sem o meu pai em casa, já o Botas só aparecia quando o meu pai lá estava. Acho que o Botas gostava do confronto, porque quando não era o Fátima Desmascarada, o meu pai citava-lhe trechos d´ A Velhice do Padre Eterno do Guerra Junqueiro. Também me lembrei dele, quando um destes dias assisti a uma romaria na vila Olhem ali o nosso Padre Cura... Mas não sei o que era pior. Sei que num desses duelos, Fátima Desmascarada de um lado e A Velhice do Padre Eterno do outro, o Botas começou a empalidecer até se tornar transparente e desaparecer pela janela do hall como uma serpentina de fumo. Foi um descanso o resto do jantar. O Rei aparecia, por exemplo, a meio da tarde, vindo do nada Coitado do rei! Admite-se fazer uma coisa daquelas ao rei! Coitada da rainha! Via-o lá por casa algumas vezes em amena cavaqueira com a minha avó, sempre pesarosa com a crueldade do regicídio. O meu pai não se incomodava muito com o Rei, embora o irritasse aquela mania de tratar todos por tu. O ar bonacheirão, contudo, devia inspirar-lhe confiança e como era dado aos prazeres da vida e às artes, o Sr. Dom Carlos, o meu pai achava-lhe piada e deixava-o contemplar os quadros a óleo da sala de jantar com mares e naturezas mortas. De modo que havia dias lá em casa em que a alternância entre a monarquia, - a desgraça que se abatera sobre a casa real, coitado do Rei, a rainha D. Amélia viúva e o filho assassinado- e a república na pessoa do Botas, o grande mentor das auto-estradas portuguesas, um Ferreira do Amaral dos tempos da ditadura, operava-se com uma rapidez estonteante, assim a minha avó se lembrasse de ambos. E lembrava-se muito.
Texto reeditado e repescado da memória.

domingo, 26 de abril de 2009

O tempo da descoberta

Faz hoje trinta e cinco anos que a mulher do PIDE dormiu lá em casa. Apesar do meu pai ter visto o PIDE rumar ao seu trabalho, talvez na António Maria Cardoso, e não o ter avisado de que havia uma revolução em curso e que provavelmente não voltaria para jantar. A mulher do PIDE era colega da minha mãe na escola, tinha dois filhos pequenos, o mais novo ainda de colo, e ficou completamente só com as crianças numa casa que ficava na mesma rua que a nossa, apenas umas casas abaixo e do outro lado. Do PIDE ninguém teve pena lá em casa. Havia de pagar o que fez aos outros, os primos da minha mãe eram repetidas vezes presos pela PIDE bem como o padre amigo da família, sabia-se lá em casa muito bem quem eram e ao que iam, mas a pobre mulher, professora de Francês com duas crianças pequenas, era digna de compaixão e assim dormiu a primeira de algumas noites no sofá-cama da sala com a criançada.
Além da mulher do PIDE havia também a mulher do capitão que por não ser de confiança tinha ficado de fora de todas as movimentações dos capitães e no dia exacto, enquanto todos se deslocavam para Lisboa, ele dormia o sono dos justos. A mulher do capitão não sabia de nada naquele 25 de Abril. Foi portanto com enorme surpresa e risco de apoplexia que a minha mãe sob o olhar vigilante de Américo Tomás e Marcelo Caetano pendurados a cinzento numa sala do liceu, a informou de que algo estava a acontecer. A mulher do capitão não dormiu lá em casa, mas faz parte das personagens que vivem no meu vinte e cinco de Abril, onde a protagonista continua a ser a minha mãe, uma vez que foi através dela que a revolução chegou até mim.
Naquele dia de manhã, acho que estava um dia cinzento, a minha mãe tentava sintonizar em vão uma estação de rádio que transmitisse a música habitual mas em vez disso encontrava música clássica. Terá sido num desses momentos que ouviu o comunicado das Forças Armadas e que não mais se conteve de alegria. Fomos acordados com a sua euforia pueril, a chama da espera que se acendia, o tempo de todas as utopias, de repente, tão presente nas nossas vidas, e que permaneceu durante muito tempo. E depois vieram mais pessoas, pessoas tão díspares: os amigos do Ultramar com as inevitáveis incertezas e ressentimento contra algo que lhes tirara tudo o que haviam construído ao longo de décadas em Angola, o exotismo da fala e das roupas, tudo tão novo, tão rápido, o amigo desertor que encontrara abrigo em casa dos meus pais durante a recruta e que se desfardava no mais ínfimo espaço de tempo para se libertar da grilheta de uma guerra que ele antecipava mas para a qual a Bélgica surgiu como a fuga plausível, os amigos que nos acusavam de sermos progressistas e que reclamavam estranhamente que a politica estraga as amizades, o chefe de polícia temido e temível pela população estudantil e o padre do "reviralho" que se tornara nosso amigo inseparável, a amizade dura até hoje, e que se juntava ao grupo de amigos que coloria aquele tempo de mudança súbita.
E depois vieram palavras desconhecidas antes, uma explosão lexical de braço dado com as pessoas pela rua subitamente coloridas e livres, a música que ecoava a cada esquina, as tertúlias estimulantes lá por casa e a descoberta de um outro tempo, enquanto eu deixava abruptamente a minha infância. Muitas descobertas, portanto.

Também no Delito de Opinião

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A cusca e a inquilina

A cusca era uma mulher pelos seus sessenta anos, rotunda e de penugem farta sobre o lábio superior que catava no fim-de-semana na cabeleireira da aldeia, altura em que aparecia com as sobrancelhas depiladas em arco e as superfícies agora dadas ao ar avermelhadas pelo calor da cera. A cusca não se chamava cusca, a cusca chamava-se um outro nome. A cusca passeava a barriga proeminente rua acima e rua abaixo, durante a semana passeava também a bata de trabalho sempre com as mãos nos bolsos e os sentidos despertos não fosse acontecer algo na sua vizinhança.
A cusca tinha um filho, único, tão rotundo como ela, sem as mamas achatadas sobre a pança, mas igualmente tisnado do sol que padecia de solteirice aguda, o que sendo tão parecido com a cusca senhora sua mãe não era de estranhar. E parecido que ele era, o mesmo olhar ensimesmado e desconfiado, a denúncia inequívoca da sua origem, as sobrancelhas a tocarem-se. Azar tivera. Caso fosse parecido com o pai mudar-se-lhe-ia a sorte, porque não sendo a beldade das beldades, era um homem jeitoso para os padrões. A cusca chorava e chorava-se muito e sofria muito com este mal do seu filho, tantas casas e um carro tão bom e solteiro, tanto sofria, que, quando um dia lhe bateram à porta para a convidarem para um casamento, debulhou-se em lágrimas e aos ais, que não, que não podia ir, ai que desgosto, meu rico filho, que só ia a casamentos quando o seu menino se casasse.
A cusca era carinhosamente apelidada de cusca porque nutria um especial interesse por tudo o que dizia respeito à vida alheia e, na sua condição de cusca, efabulava amiúde para justificar as falhas nas narrativas urdidas em conversas dispersas. Certo dia a cusca bateu à porta da inquilina. Era Domingo à tarde e a inquilina detestava Domingos à tarde e de Inverno para agravar a situação. A inquilina pensou Vem cá vem, vem cá vem, que vais ver como elas te mordem… A inquilina deixou a cusca aproximar-se de mansinho e quando ela estava aos salamaleques, boas tardes e outros fait-divers, a inquilina resolveu pôr em pratos limpos os boatos que lhe haviam chegado
Havia uns meses que a casa da cusca se enchera de manchas amarelas que mais pareciam um quadro de Miró, humidade entranhada nas paredes que se soltara com o calor da lareira, razão lógica para qualquer mortal. Não sendo a cusca qualquer mortal, não havia razão que maculasse as suas ricas casas, excepto uma utilização medieval da sua querida lareira. Era ela a inquilina que andava a assar chouriços na lareira.
A inquilina chegou-se à porta, por esta altura, ia eriçada e furibunda, e atira à cusca Ora ainda bem que aí vem. Então diga-me lá. Anda para aí a dizer que eu asso chouriços na lareira? A cusca ruborizou, escandalizada e aflautou a voz Eu? Eu a dizer uma coisa dessas? A inquilina não lhas poupou. Uma ensaboadela bem passada que deixou a cusca em estado calamitoso de choraminguice. Que não, que não tinha dito nada, que as pessoas é que eram maldosas e que isto e que aquilo e foi-se afastando-se aos Ora vejam lá, diz uma pessoa uma coisa, abanicando a saia domingueira até ao portão que deixou criteriosamente fechado. E depois desse dia não mais vi a cusca.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Frampton comes alive

A trunfa não pode esperar. Faço-me ao caminho logo depois do almoço, a pé rua acima entre uma ventania furiosa, atravessa-se-me uma sapataria ao caminho, caio por uns sapatinhos, faltava-me aquela cor, já se sabe, e entro expectante na cabeleireira. Lá dentro espera-me uma mulher imensa, caso não gostasse tanto de Botero, recomendar-lha-ia para modelo dos seus quadros, rapariga na antecâmara dos entas, sem grandes falas e muito menos sorrisos aplica-se na tarefa de me cortar o cabelo. Acompanhava-a um jovem canastrão, não havia que enganar, primeiro percorreu a sala, depois sentou-se a deglutir a novela como quem sorve Coca-Cola, e quando ultrapassados os preliminares, a maga das tesouras, a matrona dos bigodis se aproxima de tesoura em punho, enceta com o jovem canastrão a conversa mais adequada que se pode ter quando se corta o cabelo a uma professora Então, hoje já tiveste Filosofia? Arremessa a matrona ao canastrão. O canastrão responde Não. A professora está a faltar. A matrona insiste. Então quantas aulas tiveste? O canastrão diz que não quer saber. A matrona diz que ele devia saber, o mal será para ele. O canastrão diz Os professores de Filosofia são todos malucos. Aquela também. Eu penso Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Não os posso mandar bardamerda. Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Mando-os bardamerda. Faço-me surda. Mando-os bardamerda ou faço-me surda? Fiz-me surda e não os podia mandar bardamerda. A conversa continua lampeira. A professora de Filosofia está muito bem e depois começa aos gritos. É maluca. Tendo em conta que a minha surdez foi coisa passageira e que não podia levantar-me e ir-me embora com o cabelo meio cortado meio por cortar, também por isto detesto cabeleireiros, dentistas e ginecologistas, adverti o canastrão sem demora Claro, os professores é que são todos malucos porque vocês, coitadinhos, são uns santos e nunca fazem nada nem dizem nada. Os professores é que são doidos. O canastrão calou-se de imediato, continuou a sorver a novela, a matrona continuou nas suas artes de bem cortar cabelos e tudo o que lhe apareça à frente e eu a pensar que aquela foi a primeira e última vez que recorri aos seus préstimos. Saí de lá mais parecida com o Michael Bolton depois de ter cortado o cabelo, menos parecida com o Carlos Santana, já bem distante do Marquês de Pombal e, tal como Peter Frampton resisti às investidas da matrona e do canastrão, mas digam-me que não tenho razão em apelar ao regresso urgente do meu querido cabeleireiro mineiro.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Entre eles a história

A ela não interessava aquela parte da história. A ela interessava a estória da história. A história em que o rei tinha pegado nele e na corte, dez mil almas, estima-se, e com o tesouro, o ouro, a tralha e a traquitana atravessado o Atlântico para se instalar na mais rica colónia do Império. A ele não. Qual Brasil, qual calor, qual corte? A ela interessava a ideia romântica e divertida de ver a corte de Dom João VI passear-se nas farpelas circunspectas da Europa, desajustadas à canícula tropical, Rio de Janeiro afora. Disparates. Efabulações da mente feminina prenhe com vestidos de princesa. A ele interessava a guerra. A guerra era o que lhe interessava. Napoleão e o Império. Ela imaginava o Paço Real no Centro e o burburinho que se foi instalando na Rua do Ouvidor, porquê nem sabia, a mania da Rua do Ouvidor, mas essa era a parte que lhe interessava. A ele não. A ele interessava o Junot e o Massena, como vieram desenfreados Europa abaixo na conquista do Império. A ela interessava o Jardim Botânico, criado com enlevo pelo monarca, o beija-mão colorido com as paletas da diversidade brasileira, negros e brancos e mulatos e índios, o que restava deles. A ele interessavam as fardas e uniformes, os torços cobertos com alamares criando ziguezagues no peito e, enquanto vibrava com a progressão no terreno e a pompa dos uniformes, ela ria-se com Carlota Joaquina careca, despojada de trunfa e qualquer pilosidade capilar em virtude dos piolhos que lhe atacaram a cabeleira na travessia do Atlântico. A parte interessante da história dele acabava quando começava a dela e a dela não tinha uniformes nem guerra, a dele não tinha Brasil nem novos mundos. Dois caminhos paralelos sem nunca se tocarem. Quando ele chegou esbaforido com Junot ela aportava refeita da travessia tormentosa na baía de Guanabara. Não há estória com tanta história pelo meio.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Convidados assíduos

O Salazar e o Rei eram convidados assíduos e frequentes de lá de casa, pela hora de jantar, em tempo de vida da minha avó. O meu pai não gostava nem de um nem de outro, menos do Salazar, é certo, que arrumava a um canto ou pedia para sair, de forma a podermos ter uma refeição descansada, sem lápis azul nem a carranca austera. Acresce a isto o facto de a voz aflautada do Botas nunca ter sido do agrado de ninguém lá por casa. Por fim, o Botas arrastava-se, a queda da cadeira deu-lhe cabo das cruzes, e quando o meu pai lhe atirava com Fátima e a Irmã Lúcia e ia buscar Fátima Desmascarada à estante do corredor, vinham-lhe umas tosses cavernosas e a imagem a preto e branco contrastava ainda mais com a nossa vida a cores de meados dos anos 70. A minha avó tolerava o Botas e tinha dias de elogios rasgados. Era ela quem o convidava amiúde e as discussões mantinham-se sempre por causa das estradas que o Botas construíra, a virtude máxima encontrada e citada pela minha avó, e que, não sendo novidade para ninguém em pleno século XX, constituíam o foco de admiração profunda que nutria pelo ditador.
O Rei aparecia mais vezes do que o Salazar. O Rei aparecia quase a qualquer momento, mesmo sem o meu pai em casa, já o Botas só aparecia quando o meu pai lá estava. Acho que o Botas gostava do confronto, porque quando não era o Fátima Desmascarada, o meu pai citava-lhe trechos da Velhice do Padre Eterno do Guerra Junqueiro. Não sei o que era pior. Sei que num desses duelos, Fátima Desmascarada de um lado e A Velhice do Padre Eterno do outro, o Botas começou a empalidecer até se tornar transparente e desaparecer pela janela do hall como uma serpentina de fumo. Foi um descanso o resto do jantar. O Rei aparecia, por exemplo, a meio da tarde, vindo do nada Coitado do rei! Admite-se fazer uma coisa daquelas ao rei! Coitada da rainha! Via-o lá por casa algumas vezes em amena cavaqueira com a minha avó, sempre pesarosa com a crueldade do regicídio. O meu pai não se incomodava muito com o Rei, embora o irritasse aquela mania de tratar todos por tu. O ar bonacheirão, contudo, devia inspirar-lhe confiança e como era dado aos prazeres da vida e às artes, o sr. Dom Carlos, o meu pai achava-lhe piada e deixava-o contemplar os quadros a óleo da sala de jantar com mares e naturezas mortas. De modo que havia dias lá em casa em que a alternância entre a monarquia, - a desgraça que se abatera sobre a casa real, coitado do Rei, a rainha D. Amélia viúva e o filho assassinado- e a república na pessoa do Botas, o grande mentor das auto-estradas portuguesas, um Ferreira do Amaral dos tempos da ditadura, operava-se com uma rapidez estonteante, assim a minha avó se lembrasse de ambos. E lembrava-se muito.

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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O russo

Dois mil e sete. Ano da graça de dois mil e sete. Assim marcava o calendário lá de casa pendurado na parede da cozinha ao lado da porta e assim dizia um outro calendário no talho da aldeia onde se tinha ido aviar antes de ir buscar a Vanessa Marise à escola no aixam azul metalizado. Manel Francelino não se conformava. Ele era obras na estrada, ele era obras aqui e acolá. Uma ocasião a sua Vanessa Marise ia chegando atrasada e isso é que não podia ser que já se sabe a professora na perdoa, ai não não, mas aquilo era trânsito que começava logo ali na rotunda. Voltou a fazer contas. Ora então, pelas suas contas, essas mesmo que se desenhavam agora na sua cabeça, faltavam ainda uns anos. Nesta altura a santa estava ali perto, de resto, a santa nunca ia muito longe, mas ainda assim eram dezassete freguesias e, por conseguinte, só voltava dali a uns poucos de anos. Ainda não era já, o que piorava de sobremaneira o estado de confusão do Manel Francelino. Atão, se a senhora da Nazaré na bem este ano, pra qué aquilo? E o Manel Francelino era rapaz muito dado a saber quês e porquês, herdou-o por parte da mãe e do pai, já se sabe, herdou-o por parte da aldeia toda que, há uns anos, era tudo primos e primas e, tantos os primos como as primas, as tias e os tios, eram rapazes muito dados a saber os pormenores da vida alheia, com particular incidência na árvore genealógica do inquirido. O pior de tudo era se, por exemplo, lhe saltava ao caminho um apelido conhecido, Duarte ou Jesus. Ó pá, aquilo era uma máquina, um computador com uma velocidade de processamento de dados infalível Ah, já tou a beri! Bocê é filho do ti João do Paúl, que era irmão da Francelina da Chanca. Ah pois, Atão, esse tá casado com uma rapariga que é cunhada do primo do Chico da Amendoeira e essa rapariga tem uma prima que é cunhada da nha irmã… Ah pois claro. Como é que não vi isso antes? Quando chegou a casa, disse à Quina Francelino A Senhora da Nazaré bem este ano! A mulher sabia que o Manel Francelino não ia para novo, notava-se na dureza de ouvido evidente, julga-se que acentuada nos momentos em que a conversa não lhe convinha, mas daí até antecipar a vinda da santa à freguesia ia um passo de gigante. Bem o quê, Manel? Atão inda falta tantos anos! Mas tu na bês que eles andam a arranjar a estrada? É só obras. Só pode ser a santa. Quina Francelino encolheu os ombros, chamou pela Vanessa Marise na fosse a neta tar a namorari e voltou à lida dos patos e coelhos.
No dia seguinte, o Manel Francelino investiu. Na podia ser, atão, na podia ser, ele era a estrada com tapete novo, ele era os traços a serem pintados, os muros. Perguntou ao rapaz que estava lá entretido a mandar parar os carros, uma vida triste, a levar com os fumos dos escapes e agora vermelho, agora verde, levanta a tabuleta, vira a tabuleta, siga, siga. O homem foi peremptório na resposta. É o russo, ti Manel, é o russo que vem aí. Ah, disse o Manel Francelino O Ruço sobrinho da Ti Mari Ruça? Não, homem, o russo, o Putin! O Pinto? Na tou a ber, mas deve ser importante esse ruço. Pois, é importante é. Manel Francelino ficou desolado. Afinal havia alguém mais importante que a senhora da Nazaré, ainda por cima homem, ruço e não era o sobrinho da Ti Mari Ruça.

imagem: minha

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Contemporaneidades

A velha. A velha deu mais um solavanco. Nem por isso se importou, a vida tinha sido cheia de solavancos, mais um, menos um, que lhe importava agora. Façam o favor de agora me carregarem, que também os carreguei muitas vezes e por isso fiquei alfabeta que nem sei ler uma letra do tamanho dum camião e com um filho suficiente, dizem, que eu cá para mim o que ele é, é burro, burro que nem uma porta, o sacana. Descansaram por um momento, esbaforidos e sem fôlego para mais uma tentativa Quando eu disser três, levantam. Um, dois, TRÊS. Soltaram-se gemidos, urros e rugidos e mais uma tentativa Um, dois, TRÊS. A velha balançou, resignada, com um sorriso apatetado Andem, vá, seus camelos. Lixaram-me o dinheiro todo, pensavam que era só o bem bom. Vá, seus burros de carga, aguentem-se, que cá a velha tá velha e é alfabeta, mas não é suficiente, como o Manelinho. Aguentem-se.
A cadeira. A culpa é da cadeira. Onde é que já se viu fazerem cadeiras deste tamanho? E pesadas como tudo… A velha pensou Onde é que já se viu é vocês serem uns frouxos de merda, que nem força têm para levantar a cadeira. Sorriu apalermada, porém, pondo a sua melhor cara de velhinha entrevada, que ela era alfabeta, mas não era suficiente. Ó Maria, tens aí o número de telefone do gajo das cadeiras? Vamos reclamar. Se fosse na América até nos davam era uma indemnização… Os olhos da Maria filha da velha reluziram. Como? O quê? Uma indemnização? Uma I-N-D-E-M-N-I-Z-A-Ç-Ã-O? Se nos vão dar dinheiro, guito, pilim, cacau, bago, massa, o melhor é mandarmos apertar mais a escada. Chama mas é o pedrêro. Amontoados nas escadas novas da casa nova decidiram exaustos Eh pá, tentamos mais uma vez e pronto e a Maria filha da velha retorquiu Cuidado. Muito cuidadinho com as minhas escadas. Ainda me dão cabo do mármore. E o marido da Maria filha da velha Mas afinal, queres tentar ou não? A Maria filha da velha retorquiu Ó pá, eu quero tentar, mas as escadas custaram-me um dinheirão e se os gajos não sabem fazer cadeiras de rodas de jeito, a gente pede-lhes a tal indemnização. Não me lixem é as escadas. E mais uma vez Puxa aí. Empurra agora. Vá, só mais um bocadinho. Ai que tá quase. Um, dois, TRÊS.
A velha continuava impávida e serena, com o ar estonteado de velhinha paralítica e entrevada enquanto gargalhando para dentro Andem, seus animais. Façam força que eu gemo, seus cabrões, que me gamaram tudo. Era só mordomias, marcas e manias. E eu que me esfalfei a trabalhar e agora deixavam-me no vão das escadas? Entre suores e esgares do esforço, alvitrou-se As escadas são é apertadas. O gajo que fez isto não mediu bem. A Maria filha da velha tomou-se de razões Ai isso é que mediu, sim senhora, que foi o melhor arquitecto. O marido da Maria filha da velha inquietou-se perante a evidência Mas se cadeira não passa... A Maria filha da velha ripostou Mas isso não me interessa nada, porque o arquitecto é que sabe e se ele fez isso assim é porque assim é que é e mai nada. E o amigo do marido da Maria filha da velha Atão tu não lhe dissestes que a tu mãe tava numa cadeira de rodas? A Maria filha da velha não se deu por achada Tinha que ser assim, porque se não a casa ficava mal. O arquitecto até falou duma coisa da arquitectura, ai, como é que é? Com… com… que a casa tinha que ter umas linhas com… conterrâneas, ai…
A velha, que era velha e entrevada mas não era suficiente, retorquiu do alto da cadeira de rodas, recolhendo o ar de velhinha patética Contemporâneas, linhas contemporâneas, sua burra Pasmaram. A filha da velha até pensou que lhe ia dar uma coisa má Ó mãe, ó minha rica mãezinha, você não se me enerve que ainda lhe pode dar uma anorexia… E a velha respondeu APOPLEXIA, sua burra. Já não me chegava o suficiente. E agora, tirem-me daqui.
A velha foi para um lar, ausente de escadas com linhas contemporâneas, e foi feliz o resto dos seus dias. Longe dos filhos, aproveitava os dias falando com os seus congéneres, trocando experiências, aproveitando as tardes soalheiras de Outono, confortável na cadeira de rodas e um dia, quando a filha a foi visitar, questionou Quem és tu? Não que a velha não a reconhecesse, mas a candura dos dias no lar apagara as memórias desagradáveis e, com essas memórias, as pessoas que as tinham tornado desagradáveis.

sábado, 18 de agosto de 2007

Uma margarida talvez

O rapaz era conhecido por chegar atrasado aos compromissos. A dificuldade em respeitar horários e compromissos não seria nunca por falta de respeito por aqueles com quem se comprometia, apenas o seu modo de passear pelo mundo. A rapariga não entendia as delongas frequentes. Que faria ele para não chegar a horas? Apesar desta peculiaridade irritante para a pontualidade da rapariga, o rapaz era um ser atencioso e doce. Resguardava-se por trás dos óculos, algo tímido, e embora raramente deixasse os demais avistar a sua perspicácia, era atento e arguto. Tinha algo de deliciosamente boémio, umas mãos de criança, com os dedos rechonchudos, as unhas roídas como um garoto nervoso, possuía a bonomia dos gorduchos, mesmo sem gargalhares estridentes nem palavras exaltadas, como outros gorduchos, e sempre alguma dispersão no pensar. Amiúde o ar absorto de quem se perdeu entre notas e acordes, absorvido pelo jazz e a bossa nova, errante entre o contrabaixo e uma voz feminina. Voava sem aviso, elevava-se num voo alto e libertador, num céu só seu. Regressava depois, tal como se tinha momentaneamente ausentado, e retomava a conversa.
Ela e ele partilhavam um mesmo gosto pela noite, onde o dia toma refúgio e as palavras se tornam descomplicadas, os sorrisos mais inconsequentes e, por isso, à luz do dia mais perigosos. Um jantar agradável e sobriamente requintado, um copo num sítio aprazível, uma conversa serena salpicada com humor ou um café fugaz no bar do seu local de trabalho.
Era crepúsculo, ainda com umas réstias de dia, e, como os crepúsculos, continha o bulício que anuncia o dia a adormecer e o burburinho suave que indicia a noite a acordar, ainda lânguida e preguiçosa, ainda a bocejar e a estender os braços com que abraça e embala a cidade, o chilrear dos pássaros num miradouro ali bem perto e o cauteleiro tão dinâmico e tão estático no largo do ponto de encontro. A rapariga chegou em cima da hora dessa vez, quase atrasada. Umas voltas depois, continuava sem encontrar lugar algum para estacionar o carro, a inquietação a tomar conta dela, o relógio impavidamente marcando a passagem dos minutos. Uma volta, viu-o no ponto de encontro. Ao contrário do habitual, neste dia de Maio tardio, o rapaz chegara a horas. Ela abrandou, ele entrou, um beijo na face e, enquanto a rapariga engatava a mudança para iniciar a marcha, o rapaz sacou de um pedacito de papel da carteira, rabiscou algo e disse-lhe suave e afectuoso Não tive tempo. Desculpa! estendendo-lhe, tímido, o papel rectangular de dimensões reduzidas. No verso de um bilhete de metro, uma flor, fresca ainda pelo desenhar recente, perfumada como nenhuma pela imaginação ternurenta do seu autor. Por baixo escrito Um beijo, seguido da sua assinatura singela. Atentou bem, atentou bem na flor e pensou, rendida pelo exotismo da oferta, que seria uma margarida talvez.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Conversas além

Oh, senhor Joc, por aqui? Perguntou o meu pai. Chega a hora de todos, como sabe respondeu o senhor Joc lacónico. É verdade, mas também lhe digo, senhor Joc, viver assim não era viver atirou-lhe o meu pai, resignado com a sua nova vida Sofrer não vale a pena. O senhor Joc concordou, não estava muito palavroso, ainda atordoado pela viagem. O meu pai, por seu lado, tinha já tido o seu tempo de adaptação e agora corria levezinho pela eternidade. Pensou consigo O Joc hoje não está para conversas… mas estava curioso e quis saber mais E diga-me, como estão as coisas lá por baixo? O senhor Joc encolheu os ombros, terá pensado Mas logo quem eu havia de encontrar… e balbuciou algo acerca das dificuldades da vida terrena. O meu pai continuou Então, e diga-me, senhor Joc, a empresa? Têm enviado as boas festas à minha mulher? Continuam a levar-lhe um bolito rei pelo Natal? O senhor Joc ruborizou um pouco, na eternidade não há mentiras, portanto, entre dizer a verdade, afirmando que a empresa a que o meu pai deu a vida e foi explorado até ao tutano, o que certamente terá acelerado a sua doença, não mais quis saber da minha mãe e engendrar-lhe uma desculpa, preferiu a omissão e emitiu uns sons imperceptíveis. O meu pai pensou Joc, Joc, estás-me a mentir, Joc e insistiu Têm-lhe levado o bolito rei? É que o senhor sabe, não é pelo bolo-rei, ela nem é muito apreciadora, é mais pela atitude, compreende… O senhor Joc desculpou-se com a crise e o deficit. O meu pai murmurou Palavra de honra, não têm vergonha… não me diga que não têm uns tostões para isso? Nem um telefonema, um cartão de boas festas? O senhor Joc empalideceu. O meu pai disse-lhe Já quando eu lá estava, tinha chamado atenção por causa do Vaz, o homem reformou-se e nem uma palavra… mas também o que seria de esperar? O senhor Joc neste ponto estava já sem palavras e carecido de desculpas plausíveis para a indelicadeza. O meu pai insistiu com as notícias da vida terrena E ouvi dizer por aí que o Sócrates não é engenheiro afinal e que andou a mentir… Pois, pois, parece-me que sim. O senhor Joc pensou Mas o homem que nunca mais se cala… e resolveu questioná-lo também Então e o senhor, como se tem dado por aqui? O meu pai respondeu lesto Olhe cá vou... O São Pedro não me larga com o Boletim Celestial, faço-lhe a revisão, sabe? É erro que ferve e muito bem escreve ele para quem foi pescador, coitado, sem instrução. Claro que a convivência com o JC também o ajudou mas desde que o João Paulo II chegou cá cima, nem lhe digo nada… o boletim vai de mal a pior! Olhe, até parece o pasquim lá da terra… É tudo contra o aborto e o uso do preservativo… Quando eu vim já estávamos no século XXI, caramba, depois admiram-se das igrejas estarem vazias. Santo Deus! Ele e a irmã Lúcia andam sempre a cochichar. Foi um alívio para a mulher, coitada, ao menos aqui sempre pode falar. Às vezes para desanuviar, vou ali dar uma palavrinha ao Cunhal, e lá está ele sempre com a União Soviética. A URSS isto e a URSS aquilo... Anda para aí à procura do Lenine mas ele foi com o Che Guevara para o Primeiro de Maio lá para as portas do Inferno. O senhor Joc pensou Mas o homem não pára de falar?!
O meu pai despediu-se do senhor Joc, delicadezas e salamaleques adequados à estirpe do recém-chegado e que sempre pautaram as relações de ambos. Na eternidade há liberdade e, na liberdade do meu pai, o senhor Joc não estaria certamente incluído. Bastaram-lhe as palmadinhas nas costas em tempo de vida. Agora que procurasse outro. Não há mal que sempre dure.

sábado, 24 de dezembro de 2005

Peru de Natal

Faz hoje uns anos largos estava chuva e frio e vento. Por aqui batia aquele nevoeiro fininho que se nos entranha nos ossos e a bruma típica deste pedacito de terra quase à beira-mar. Nesse mesmo dia, quando a minha mãe foi ao talho para ir buscar a encomenda do peru, feita na semana anterior, o talhante pareceu-lhe constrangido. Tinha encomendado um peru pequeno, já na altura éramos poucos, com bastante antecedência dadas as dimensões do bicho e da família e a relação entre ambas. Pois nesse belo dia, algo de inusitado se passou. O talhante permanecia e parecia semi-incomodado, na verdade, nunca foi homem de grandes sensibilidades e o lucro esteve aparentemente acima de qualquer outra preocupação. Não obstante, pairava no ar um certo desconforto. Finalmente quando a minha mãe pediu o seu peru, o homem balbuciou que algo tinha acontecido à ave, acrescentando que lhe tinham, nada mais, nada menos, cortado uma perna. O peru era pequeno, alguém tinha pedido uma perna de peru e o empregado, sem saber que aquele peru estava encomendado, sacou do facalhão e zás, mutilou-lhe sem demora a dita perna.
O talhante apesar de algo incomodado não se coibiu e sugeriu que o peru, assim perneta, fosse na mesma apresentado ao almoço de dia vinte e cinco. Melhor dizendo, dava-lhe outra perna e, tal como um cirurgião plástico, a minha mãe podia coser a perna ao restante animal e repor a ordem. A minha mãe bradou, refilou, descompôs o homem, chegou a casa alterada e furiosa. Do meu pai obteve a sempre pronta solidariedade. Onde já se viu comer um peru sem perna no dia de Natal? Sim, onde? Concordámos em uníssono, tecendo uns comentários pouco abonatórios ao talhante, que era um bruto, pois claro, e outras coisas mais que me reservo aqui não comentar. Não sei o que comemos naquele dia 25, peru perneta não foi de certeza, mas a história ficou para a posteridade. Aqui fica com votos de Feliz Natal para todos vós.