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sexta-feira, 30 de março de 2012

Despertadores de quatro patas


Estão a ver aquele desejo de dias vindouros de nada para fazer se não arejar a cabeça, desligar, arrumar papéis, cadernos e livros e poder dormir umas horas de pura indulgência sem peso na consciência pela manhã? Era hoje. E era, porque lá pelas oito e muito poucos, a porta do quarto abriu-se, escancarada como sempre, e entra um bicho de quatro patas. Solta primeiro um miado sofrido, senti-a a esconder-se atrás do cortinado do quarto, salta para a cómoda e acaba a sessão a aguçar as unhas na cadeira de verga. Solto um grito para acalmar a fera caçula. Pára por uns instantes e repete tudo, desta vez em vez de um miado sofrido ouvi-lhe um miado queixoso. Levanto-me a noventa graus, repreendo-a ferozmente. Terceiro round. O bicho malvado reclama atenção, mais um passeio no quarto, mais uma aguçadela de unhas, mais uma admoestação. E levanto-me. Ergo-me, abandono o leito de preguiça e descanso absolutos. No primeiro dia em que podia preguiçar na cama pecaminosamente, longamente, desalmadamente, levanto-me pelas oito e pouco, acordada por um bicho de quatro patas que reclama atenção e companhia. Não tenho eu filhos para isto.


Não se deixem enganar pelo ar inocente da miúda. Trata-se de um despertador ronronante, capaz de vos acordar pelas oito da matina sem a menor cerimónia ou contemplações.

quinta-feira, 8 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Lotação esgotada

Estava um belo dia de sol e de Primavera, era uma segunda-feira, o Benfica tinha ganho o campeonato no dia anterior e eu tinha aulas até às seis e meia, quando a Lolita pariu quatro filhotes. Uma exactamente igual a ela, uma quase preta, uma amarela, foi um até aos seis meses e eu ter feito a constatação lapalisseana que na ausência de testículos, o Jobim era uma, e uma tartaruga tricolor. Adoro gatos amarelos, tive um desgosto imenso quando um me desapareceu e uma frustração desgraçada por não ter acolhido o pai delas, um ruivo robusto, bem-disposto, carinhoso e palrador e foi sem qualquer novidade que a amarela ficaria cá em casa. Às outras três caber-me-ia arranjar um lar. Não sei exactamente quando a tartaruga tricolor terá entendido que o seu destino não era esta casa e como tal encetou uma luta sem igual, um verdadeiro braço de ferro de olhares de súplica bem de frente para nós, a beleza aplicada ao infinito na tarefa de nos fazer vergar pela evidência de que éramos afinal uns fracos perante a insistência, sedução e choradinho do bicho. Não me lembro em que dia mas lembro-me muito bem de exaurida pela luta desigual ter admitido Eu não consigo dar a gata! E vão três. 
Estava um belo dia de fim de Agosto, era Domingo, tinha a alma inquieta pela véspera de mais uma viagem, um destino que sempre quisera conhecer, a mala aberta na sala, quando pela manhã, enquanto alimentávamos o cão do vizinho, ouvimos um gato a miar no canavial. Podia ser uma das nossas, sim, podia, e resolvemos ir ver o que se passava. O que se passava era mais uma tartaruguinha mínima, aflita e assustada que se escondeu quando nos viu e adentrou o canavial. O resto foi um Domingo de ouvido alerta com a bichana em miados intermitentes. Seriam umas quatro horas e voltei lá armada de biscoitos para lhe matar a fome. Depois de alguma persistência consegui apanhá-la e trouxe-a agarrada a mim até casa. Tadinha da minha bichana. Ficou na casa dos meus vizinhos o período das férias. Quando finalmente tinha convencido uns outros vizinhos a ficar com ela e quando estava a ser levada para casa travou-se de razões e arranhou tudo o que lhe apareceu à frente, cão e vizinha que a devolveu à precedência. Mais um finca-pé. Vamos ver quem me consegue tirar desta casa. Pois. E vão quatro.
Apareceu-me aqui um belo dia de Inverno, de sol também, fita-nos de longe mas vai-se aproximando, espreita cá para dentro pela porta da sala e mia-me rapioqueiro. Já lhe passei a mão pelo pêlo e lhe ofereci uns biscoitinhos. Quer brincadeira e conversa. É lindo, grande e cinzento, demos-lhe o nome de Boris, e morro de medo que também tenha sido abandonado. Mas o que me trouxe a este post é outra razão. Chega de desfiar a existência contada pelos gatos. Amigos felinos que estão a ler isto, parem de passar palavra que aqui no recato da aldeia vivem uns parvalhões de coração mole rendidos a uns ronrons e uns olhares de súplica, se faz favor. Temos lotação esgotada, sim? Grata pela atenção. E agora vão ronronar para outro lado.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Woof


Pela fresca. Primeiro tempo. Vinte e sete almas entram-me sala dentro. Sacodem a névoa das noites adolescentes cheias de sonhos e pesadelos. Arrastam o corpo e trazem a alma ainda nos braços de Morfeu. Vejo-me neles. Revejo-me há três décadas atrás. O sacrifício, o suplício, o degredo de horas sem fim de Inverno pela manhã. Como os odiava. Como odiava frio e dias cinzentos, a regra neste sítio de onde os dias amenos emigraram e sol e calor eram referências passadas de um lugar ermo e distante. Entram mais. Uns agitados e instala-se o burburinho da arrumação das almas e dos corpos desengonçados. São muitos. Muitos sonhos, muitas vidas que vejo despontar nas afirmações convictas de quem tudo sabe. Vinte e sete. Falta um. Um rosto comprido e moreno num corpo magro aproxima-se com a rapidez habitual. O ar meio aflito Stora, a Mafalda chega mais tarde. Ela pede desculpa mas está atrasada. e a justificação quase a sair antes que a professora vocifere Atrasada? e dê conselhos Têm de se levantar mais cedo, meninos, a ameaça Para a próxima marco falta, a impaciência Estou farta de vos dizer e a constatação Não podem chegar atrasados. Franzo o sobrolho e justificação salta-me para o colo Stora, o cão da Mafalda fugiu. Ela foi à procura. A professora arruma os recados, conselhos e relambórios, por esta altura um bocado puídos de tanto uso, inúteis agora, e pensa Fugiu? Tadinho. A aula começa. Onde andará o malvado?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Como os gatos


Entrou em casa com o ar aflito de sempre, os olhos de misericórdia que nos levaram à certa quando já tínhamos decidido que duas gatas era lotação esgotada nesta casa, miou com a voz de sempre, de menina desamparada à procura de protecção, e depois de ter bebido água e comido um biscoito, decidiu que hoje havia de mudar de poiso. Que não se pensasse que ficaria para sempre confinada ao espaço de quase reclusão que escolheu quando a Julieta aqui chegou e começou a ter focinho empinado. Durante a manhã já havia prometido e em vez do canto reservado do olhar de todos, um verdadeiro abrigo contra intrusos e outros chatos, optou pelo sofá. Agora mesmo está ali sentada num cadeirão encostada à gata mãe que apesar de muito refilona tem paciência. Há sítios mais cómodos, mas nenhum lhe pareceu tão apetecível como aquele, encostada à mãe, negociando mais um pedaço da almofada laranja, conquistando território. E é isso que gosto nos gatos. A inconstância após longos períodos de hábitos instalados, a mudança inesperada, exactamente na medida dos seus humores repentinos, Agora já não quero isto, uma existência verdadeiramente livre dos constrangimentos do social, Não, não vou ronronar, dos embaraços das ofensas bacocas Desculpa lá não me ter sentado ao teu lado, Desculpa lá hoje apetecer-me outra coisa. Esta forma tão própria de ser, de não querer saber e afirmar-se em tudo. A inveja de também eu sentada no sofá poder entregar-me ao pecado sem culpa de ser apenas eu. Como os gatos.

Lolita e Guidinha

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Morte ao sol

Ontem ao fim da manhã, quando a minha mão regressava a casa, deparou-se com os vizinhos reunidos perto do caixote do lixo. Junto a eles, apurou assim que chegou, um saco plástico, então aberto, e lá dentro três gatinhos bebés, de cerca de três semanas. Trouxe-os para casa e, felizmente, já consegui arranjar-lhes donos. Só gostava de saber quem foi a besta que teve a coragem não só de os abandonar mas de os fechar num saco plástico e abandoná-los ao sol ao pé dum caixote do lixo. Só lhes posso desejar o mesmo: que fiquem fechados num saco plástico ao sol para ver se é bom.


domingo, 3 de abril de 2011

Gastão

Arranham-nos os sofás, querem dormir connosco, dormem connosco, esfregam-nos os bigodes pela fresca, espreitam nos momentos menos convenientes, trepam pelos cortinados, querem comer a nossa comida, exigem festas e carinhos e distância se for caso disso, sentam-se no jornal que estamos a ler, mas trucidam-nos de dor quando decidem partir sem aviso. Foi assim com o Gastão. Desta vez a sorte já não lhe chegou.