A Páscoa é ter três ou quatro
anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de
jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais.
A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo
dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que
aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era
não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de
fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da
aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A
Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia
de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança,
obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares
e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A
Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la e todos a beijarem. Diz que era
Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro
em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do
enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos
mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto
fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer
sítio do mundo e pensar Olha, hoje é
Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que
vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com
queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o
meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é
comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
segunda-feira, 19 de março de 2012
Marcas
Tínhamos acabado de almoçar. A
mulher das sete tarefas que há em mim tinha concluído quase em simultâneo mais
uma daquelas cartas pomposas para acompanhar uns documentos, quando lhe pedi
que ele me trouxesse o papel. Estende-mo. Olho para ele incrédula. Segura por
uma ponta, a folha tinha o canto inferior esquerdo amarfanhado, a marca bem visível
de que alguém por ali passara, o polegar e o indicador. Imperdoável. Como foi
capaz? Isso faz-se? Arremessei-lhe uma admoestação, sim, como podia? e concluí Se o meu pai aqui estivesse dizia-te já que
feriste o papel. Estranho conceito, este, de ferir o papel, mas assim era para ti, meu pai, o papel manuseado com todo o cuidado para não deixar marcas, sem mácula, uma
folha inteirinha sem ofensa ou mossa, assim como desejamos que a vida às vezes
seja.
Passam dias
e noites, meses, estações, anos, o azevinho da entrada está enorme e a glicínia irrompe em exuberâncias mil de perfume e cor. Agora já não espero que regresses, já sei que não
voltas. É assim a vida sem ti, meu pai, a folha de papel da minha vida que se vai
rabiscando com um canto magoado, a marca indelével de ti, a ausência de que
nunca se recupera. Ferida.
No Dia do Pai. Para o meu.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Gatos e homens
Foi a segunda vez que me visitou.
Hoje passeando-se pela manhã de sol de Inverno, anunciou-se do outro lado da
casa onde o sol não bate nos dias de equinócio e o meu pai renasce no azevinho
à porta de casa. Ouvi-o enquanto estendia roupa. Estes dias de sol são muitas
vezes dias ou manhãs de lavar roupa. Alma solar, gosto da roupa lavada a
cheirar a sol e a vento se o houver, e de a sentir levemente perfumada de luz e
meio áspera ao toque. Ouço-o. Insistente. Os cães ladram furiosos. Alguém que
os irrita. Contorno o quintal e encontro-o em cima do muro. De olhos verdes
profundos fita-me e solta um miado mansinho. Chamo-o mas não vem. Os gatos nunca
obedecem a uma ordem que os submeta a vontades alheias. Obedecem sempre e
apenas à sua vontade. Vejo-o fugir, negro e tão luzidio, não sem antes brindar
a vizinha do lado com um jacto viril para o muro, ela odeia gatos e eles sabem.
Sabem-no muito bem. Na casa em frente a minha outra vizinha, dona de gatos e
cães, amiga da bicharada. Trocamos palavras. Ela diz-me que o gato preto estava
no passadiço rente à casa, lá onde se aventura quem é da casa e onde a sombra é
rainha, Inverno ou Verão. E lembro-me. E pergunto-lhe Seria o meu gato? A insistência da visita deixa-me inquieta. Ela
diz-me que não, ele não viria tão longe. Confirmo o olhar verde e o pêlo mais
comprido. Digo-lhe, Pois, o meu tinha
olhos de avelã e pêlo mais curto. O meu
era um gato preto que um belo dia de Fevereiro se meteu dentro de uma carrinha
aqui à porta de casa sem dizer nada a ninguém ou soltar um miado e quando a
carrinha cumpriu o seu destinou e rumou a um lugarejo aqui perto, o gato faria
a sua primeira e última viagem num silêncio profundo que lhe ditaria a má sorte.
Ao abrirem a porta da carrinha, o gato fugiu assustado e nunca mais o vimos. Horas
perdidas a chamá-lo em vão. No mato, entre os canaviais lá onde só há cheiro a
terra e o cantarolar de pássaros e os ruídos de outras criaturas invisíveis são
a única banda sonora possível. Dias e dias a chamar Chico! Dias e dias a rumar
ao sítio maldito na esperança vã de que voltasse chamado pela voz que tão bem
conhecia. Outra solução não houve se não arrumar lutos e deixar ir aquele dia
malfadado de Fevereiro, treze por sinal, e o meu gato de casaco de veludo. Mas hoje voltou, voltou há uns dias à
memória como voltam sempre as ausências antigas, assim em dias de sol de
Inverno, soltando um miado baixinho e fugindo-nos sem que as consigamos apanhar
e por instantes ter a sensação de que ali estão afinal.
sábado, 19 de novembro de 2011
Um murro no coração
A cada ausência sua dor. Hoje não foi a revolta. Não foi o choro descontrolado. Apenas a sensação de ficar cada vez mais só e ver o mundo como o conheci partir lentamente à minha frente. Um por um.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Tu e eu
Sentada no sofá, no mesmo sofá em que soube que jamais serias o mesmo e o corpo te havia traído, encostei a cabeça. Naquele dia também o terei feito incrédula, disparando perguntas que não me sabiam responder. Hoje não havia perguntas. Era uma sexta-feira de Abril, o dia estava cinzento, eu não tinha aulas e deixei a alma e o corpo resvalar na indolência de nada fazer. Um luxo. Um luxo verdadeiro na ligeireza de mais um dia tranquilo. Ligo a televisão.
E encostei a cabeça. Uma lágrima estúpida. Que parvoíce, penso. Que disparate tão grande. A chorar para a televisão. Sacudo a lágrima. Vou até à porta como se enxotasse a dor e varresse porta fora a saudade súbita que me entrou de repente, tão inesperada e imprevisível. Que estúpida, penso, a chorar para a televisão. Sento-me de novo. Talvez a ida breve à porta para respirar o ar cinzento e húmido me tivesse chamado à razão. Espantado a dor, apagado por instantes esta memória que me apanha sempre de surpresa. Esperança vã. Sento-me e choro. Soluços. O coração em solavancos. Atento na transmissão televisiva. A noiva sobe agora a igreja com o pai e aquele pai e aquela noiva, sou eu e tu, Papá. Sou eu e tu que caminhamos lado a lado, és tu que sorris em volta, é o teu braço quente que sinto ainda, a tua presença tão forte, meu querido pai, o teu sorriso tão feliz. Aquele pai e aquela noiva, sou eu e tu, Papá. Serei sempre eu e tu. Seremos sempre nós.
Ao meu pai. No dia em que o sofá ficou para sempre vazio.
sábado, 28 de maio de 2011
E agora?
Uma filha que se despede do pai é um ser frágil, metamorfoseado num corpo franzino e quebradiço, uma vara soprada pelo vento impiedoso de não mais ser, uma menina perdida que largou a mão protectora, a mão que agarra, protege, acarinha. Ontem, enquanto assisti impotente a mais uma dessas despedidas, mais uma vez com os soluços encravados na garganta, vi do lado de lá a menina, a menina de totós a quem o pai fugiu de repente, a criança subitamente desorientada pela ausência, que farei agora sem ti, meu pai. E é isso que somos, eternas meninas cujos pais lhes soltaram a mão. Que farei sem ti agora?
Para a Ana.
Para a Ana.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O escuro pois
Vinha sonolenta, o corpo ainda lento em movimentos diluídos na arrumação de livros e cadernos na secretária, os olhos semi-cerrados e soltou um lamento assim que finalmente tudo se arrumou, Hoje dormi mal. Sonhei muito. Eu sonho sempre muito. Revi-me naquela afirmação e revisitei a adolescente sempre sonolenta para quem os Invernos longos eram um verdadeiro tormento, as noites uma travessia de territórios incertos sempre ameaçados por criaturas e acontecimentos inusitados e para quem as manhãs se estendiam num fastidioso e eterno momento de cansaço e tédio absoluto. E continuou com a pergunta pronta, Stora, os adultos também sonham? Sim, claro, respondi. A idade adulta não trouxe grandes alterações à adolescente dos sonhos perdidos, das noites inquietas, do cansaço matinal. A diferença entre um adolescente e um adulto opera-se na gestão que se faz das inquietações e dos demónios que nos vão surgindo no caminho. Mas aquela não seria afinal a única pergunta sobre o mundo insondável dos adultos e do qual, vou constatando em conversas múltiplas, os adolescentes têm medo, um medo incompreensível de não conseguir e de não ser capaz. Quem olhará por eles, afinal, nesse labirinto de ainda maiores incertezas. Algures quase no fim da aula, a outra pergunta E os adultos também têm medos, stora? Ao contrário do que fizera umas aulas antes, não exemplifiquei. Escondi-lhe que o meu pai me mandara uma vez pela escuridão do quintal para me fazer sentir aquilo em que ele sempre acreditou e que me afirmava enquanto eu progredia passo a passo na escuridão daquele enorme território para uma criança de tenra idade Vês, Nonô, o medo não existe. Escondi-lhe que o meu pai tão eficaz na desinibição daquele medo, não me ensinara, contudo, a lidar com a ausência, esta que me vai corroendo a espaços. Fiquei-me apenas pela confirmação. Sim, é claro que têm medos. Poupei-a aos meus medos, ao medo incontrolável de perder quem amo, o medo de ficar inane e tolinho de sorriso pendurado sem capacidade de decisão sobre o meu próprio destino e este mesmo corpo. Ela acrescentou Pois, Stora, há adultos que têm medo do escuro. Saímos uns minutos depois. Ao passar por mim, na porta da sala, deu-me um inesperado beijo na testa e afirmou o mais belo carinho pela professora forte e valente, a destemida cujos medos se não revelam. Chamemos-lhe escuro, então.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
E depois a noite
Ontem, abrindo um parêntesis na minha atitude enquanto professora, falei brevemente de um episódio da minha vida privada. Sou relativamente contida neste capítulo, estimulando sempre que privado deve permanecer privado, também entre os alunos. Algures durante a aula, estavam revoltados contra uma dessas com quem partilho a profissão e que, por acaso, insiste em meter o nariz onde não deve e tratar os alunos como aquilo que não são. Desta feita, o problema era o fumo, que ela os repreendia quando ela achava que eles tinham estado a fumar. Argumentavam que os pais sabiam que eles fumavam e que ela não tinha nada a ver com isso. No meu papel de mediadora, também faz parte, argumentei que, de facto, o fumo era muito prejudicial à saúde, estava na origem de inúmeras doenças, nomeadamente cancro do pulmão e falei-lhes em duas frases do meu pai, também ele vítima de cinquenta anos de fumo intenso. No fim da conversa, uma das minhas alunas, espevitada e de resposta rápida ou não fosse geminiana, admitiu em jeito de desabafo Agora fiquei triste, razão mais que suficiente para me ter arrependido de o que havia dito
Durante a noite sonhei com o meu pai. A noite toda, pareceu-me, mesmo sabendo que não se sonha a noite toda. As esperas à porta do hospital enquanto a minha mãe o visitava, o choro sozinha durante aqueles momentos, as caras desesperadas das pessoas à minha volta ou os sorrisos entusiasmados de ver pela primeira vez os leitõezinhos acabados de parir. O desespero de o ver partir sem que nada pudéssemos fazer e a dor. O choro convulsivo da dor que me estilhaçou e levou um bocado de mim, um naco de alma arrancado. A falta que me fazes, Papá.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Aniversário
Entraste-me pela porta naquela manhã de Sábado ou Domingo. Vinhas sorridente e tranquilo. Corri ao teu encontro. Um abraço e uma beijo ternurento, que saudades agora do teu toque, meu pai, do sorriso com que declaravas o teu amor incondicional com as maçãs do rosto salientes e os olhos amendoados. Parabéns, Papá! Tu sorriste e disseste palavras que até hoje vão ecoando, Olha filha, há muita gente que não chegou até aqui. Parecias apaziguado naquele teu último aniversário, estranhamente tranquilo, algo que ainda hoje procuro perante esta ausência, este lugar escondido onde há lágrimas engolidas, soluços teimosos e olhos que se baixam nesta falta de ti. Parabéns, meu pai. A vida nunca mais foi a mesma.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Sempre
Naquele dia foi diferente. Naquele dia ia bem-disposta, acompanhada duma amiga e, quando lhes dei passagem uns metros antes da passadeira, brincou e disse-me Nós é que estamos erradas… Ora merecem tudo, respondi e rumei para a tarde estival que se adivinhara na tarja de mar brilhante e céu azul. E nesse mesmo dia apaguei por momentos um outro encontro fortuito que distaria daquele um mês apenas. O semblante carregado, a roupa escura e a mágoa tão presente mesmo volvidos quinze sobre a morte do seu filho num acidente estúpido, uma vida de vinte e três anos colhida numa madrugada gélida de um Outubro que havia de se espelhar em todos os meses vindouros dos anos que se seguiram. E estranhamente infeliz naquele dia, questionei Está de luto? Olhou-me com os olhos que eu vira tão bem naquela manhã de Outubro e noutras que se seguiram de sofrimentos mudos expressos apenas no olhar silencioso e respondeu Estou sempre. E recolhi-me nas ausências que me enchem o coração. A vida continua, tento convencer-me.
O momento tão serenamente violento arrumou-me as palavras naquele dia. Mas ouço-as. E sinto-as. Estou sempre. O luto que se instala e que ninguém vê. Os momentos de ausência, do que já não está, a ausência de ti, meu pai, de te contar a vida. E já não são os espaços que deixaste, não o sofá vazio, agora principescamente usurpado por um felino imponente, que como tu, passa pelas brasas, lembras-te? Agora és tu. Agora é chegar aos sítios mais ridículos e pensar O papá é que me comprava pêssegos grandes, ser outra vez a tua filhota, igual se com quatro décadas e meia de vida, a tua filhota sempre, e ficar com a voz embargada, Ridículo, que ridículo, chorar por causa de uns pêssegos. E esconder os olhos com os óculos de sol e engolir as lágrimas. A vida continua, diz-se, a vida continua, eu sei. E rio-me, sou feliz, bem-disposta, arrumadas as lágrimas e varrida a ausência. E sim, é tudo verdade, a vida continuou sem o meu pai, cinco anos volvidos sobre o dia em que a morte o libertou daquela cama de hospital. Há vida, há esperança, há felicidade, mas uma parte de mim ficou de luto, uma parte de mim está sempre de luto, uma parte de mim ficou de luto para sempre.
Para o meu pai.
Para o meu pai.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Sem dia nem estação
O início do crepúsculo deixava uma aura dourada a reflectir-se nas janelas vinda de lá do lado do mar onde se anunciam os ocasos rubros do início do Outono. À minha frente caras desconhecidas, um primeiro contacto nesta aventura de regresso à escola após anos, décadas talvez, de interregno. E o sossego instala-se, um silêncio pontilhado apenas com o contacto do papel na carteira amarelada e o restolhar dos adereços femininos, os sorrisos que pairam como uma aroma suave a enlear a sala para dar lugar ao semblante mais concentrado na tarefa à sua frente. Lá fora o crepúsculo. Revejo os papéis no momento de acalmia, arrumo as sobras do silêncio e começo a leitura. Um nome. Um nome igual a todos os outros. Um nome que seria exactamente igual, caso mais dados não confirmassem a coincidência. Sussuro-me Que giro! É da empresa do Papá. Vou-lhe contar. E o resto é conhecido. Letras e letras desta ausência que atiro longe para lá do sol poente em início de Outono e me regressa sempre como um boomerang sem dia nem estação
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Quatro anos de silêncio
Sentado no sofá, como tanto gostava e caso o gato não o disputasse com ele de olhar fixo e penetrante, orelhas perfiladas e um leve inclinar da cabeça para um dos lados, o meu pai seria incapaz de aceitar com calma os desígnios recentes deste nosso Portugal. Dono de um feitio apurado que, adianto, é genético e contagioso, o meu pai teria feito tudo excepto ficar impassível e, muito importante, calado. Primeiro uma crítica suave, cautelosa. Talvez na entrada Nonô, ouviste o Sócrates ontem? Depois em crescendo, Olha, tu ouviste-o ontem? sempre em crescendo Ai Santo Deus, as coisas que se dizem e depois a confirmação Palavra de honra, não têm vergonha? mais tarde a certeza Está pior que o Salazar, e a desilusão total Olha, nem no tempo do Salazar. Que tristeza! e a ameaça que nunca cumpriu Este ano não vou votar. E dias correriam. Ao que nós chegámos... Dias longos e breves, dias de sol e de Inverno. Dias e meses e anos. Estão completamente loucos. Perderam as estribeiras. E teria refilado. Retorquido. Sugerido. Comentado. Apontado. Criticado. Reprovado. Mas hoje, hoje só houve silêncio.
Setembro
Setembro. Mês nove, mês de transição efectiva entre a vida estival, os dias de nada fazer para a maior parte dos portugueses e os dias em que o dever laboral soa que nem uma sirene enfurecida movida pelas obrigações e responsabilidades. A minha sirene começou a tocar levemente, ouço um silvo fininho algo longínquo, porém bem mais perto do que ontem e claramente menos distante do que na semana passada. Aproxima-se lesta. Paulatinamente a vida retoma o ritmo que ocupará com mais ou menos intensidade nos próximos onze meses, a estação pateta e atoleimada arrumou as sandálias e chinelas, as calças de linho e os vestidos esvoaçantes no sótão das memórias artificialmente felizes que os meses fugazes de estio comportam.
Setembro é mês de transição entre o Verão e o início de Outono, estação das folhas caídas que cobrem o chão como um tapete acobreado e ruidoso nos parques e caminhos. Em Setembro, os dias tornam-se mais frios, menos longos, os pores-do-sol vestem-se de cores avermelhadas e são mais belos do que no pico do Verão. E Setembro é um dos mais duros meses que me conheço, crepuscular e sombrio, dia dois marca assim o calendário, dia dois, dia segundo de um mês que o tempo dita belo, a estação menos exuberante e mais comedida, as castanhas que se anunciarão lá para frente, o aconchego das roupas menos translúcidas prenhes de conforto.
Dia dois. O dia que apagaria de todo do calendário, caso apagar me fosse possível e caso apagar me devolvesse a luminosidade perdida nesse pedaço de mim que num dia dois de Setembro vi definitivamente partir e a quem vou dedicando as letras e palavras, lê-las-á?
Dia dois então. O dia a partir do qual a vida se dividiu em dois, antes e depois, e no depois as memórias saltam em catadupa, memórias apenas, lembranças, recordações que comigo estão para onde quer que vá e que se me impõem em instantes díspares e improváveis. Um momento que gostaria de partilhar, uma notícia a comentar, um livro para ler e a conversa de sempre em torno da língua de Camões, discussões que se advinham intensas e aguerridas.
Dia dois portanto. O dia em que entendi que a ordem natural das coisas é apenas a convenção, somente a crença irracional de que se socorrem os aflitos para que o dia-a-dia se torne suportável na ausência definitiva, a ordem natural das coisas -quem se lembrou de tal?- mais não é do que a mezinha possível para as dores da alma, a resignação perante os factos consumados. Ordem natural das coisas, dizem-me, que assim é: os pais partem primeiro do que os filhos, diz que é por isso que agora apenas posso dedicar estas palavras ao meu pai.
Dia dois pela tarde. Era Setembro.
Setembro é mês de transição entre o Verão e o início de Outono, estação das folhas caídas que cobrem o chão como um tapete acobreado e ruidoso nos parques e caminhos. Em Setembro, os dias tornam-se mais frios, menos longos, os pores-do-sol vestem-se de cores avermelhadas e são mais belos do que no pico do Verão. E Setembro é um dos mais duros meses que me conheço, crepuscular e sombrio, dia dois marca assim o calendário, dia dois, dia segundo de um mês que o tempo dita belo, a estação menos exuberante e mais comedida, as castanhas que se anunciarão lá para frente, o aconchego das roupas menos translúcidas prenhes de conforto.
Dia dois. O dia que apagaria de todo do calendário, caso apagar me fosse possível e caso apagar me devolvesse a luminosidade perdida nesse pedaço de mim que num dia dois de Setembro vi definitivamente partir e a quem vou dedicando as letras e palavras, lê-las-á?
Dia dois então. O dia a partir do qual a vida se dividiu em dois, antes e depois, e no depois as memórias saltam em catadupa, memórias apenas, lembranças, recordações que comigo estão para onde quer que vá e que se me impõem em instantes díspares e improváveis. Um momento que gostaria de partilhar, uma notícia a comentar, um livro para ler e a conversa de sempre em torno da língua de Camões, discussões que se advinham intensas e aguerridas.
Dia dois portanto. O dia em que entendi que a ordem natural das coisas é apenas a convenção, somente a crença irracional de que se socorrem os aflitos para que o dia-a-dia se torne suportável na ausência definitiva, a ordem natural das coisas -quem se lembrou de tal?- mais não é do que a mezinha possível para as dores da alma, a resignação perante os factos consumados. Ordem natural das coisas, dizem-me, que assim é: os pais partem primeiro do que os filhos, diz que é por isso que agora apenas posso dedicar estas palavras ao meu pai.
Dia dois pela tarde. Era Setembro.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Palavras
As homenagens raramente são feitas de visitas ao cemitério. As homenagens ao meu pai são momentos e palavras partilhadas ou apenas sentidas sem que de tal dê sinal, sem alaridos ou exuberâncias, exactamente como sei que ele gostaria, amante confesso da vida singela prenhe de afectos e amor, caminho único que conheci para lhe chegar à alma. As homenagens ao meu pai são os momentos íntimos que guardo na morrinha dos dias longos e breves. Momentos sem alvoroços e choros. Um vinho que se bebe, o do seu agrado, os livros que afago e leio, as palavras que ainda julgo que me dirige quando me falta, falta-me sempre, o sorriso que relembro, gestos quotidianos embrulhados em silêncios longos e ausências dolorosas invisíveis aos demais, inaudíveis a todos. As homenagens ao meu pai raramente se cumprem em visitas ao cemitério. Hoje no dia em que faria anos preferi dedicar-lhe palavras. Estas. Não murcham como as flores.
quinta-feira, 19 de março de 2009
Os intróitos da morte
Para afastar a morte há que prepará-la com antecedência. Quando o tempo se mostrou de feição para a sementeira, o meu pai foi avisado com a habitual insistência pelo jardineiro. O jardineiro tinha vontade férrea, assumia o jardim como seu e de mais ninguém, eu o meu pai excluídos, e plantava o que muito bem entendia em vez do que os meus pais muito bem entendiam.
Assim sendo, eram comuns desentendimentos que o jardineiro resolvia através da minha mãe, gestora eficiente da conflitualidade dos morangos e das batatas e, muito importante, do HeraGate. O HeraGate instaurou-se no dia em que, alegadamente, a hera que cobria a parede da garagem teve uma síncope nocturna e caiu redonda no chão. Ora a hera não cai sozinha e o jardineiro não gostava da hera, exactamente ao contrário do meu pai, logo a dúvida instalou-se quando olhámos pela primeira vez a nudez despudorada da parede da garagem e a hera se manteve estendida, fazendo-se despercebida, indisponível para mais interrogatórios e conversas.
Teria sido no dealbar da Primavera e acedendo aos pedidos do jardineiro, uns pés de morango e umas alfaces, que o meu pai o meteu no carro, o jardineiro só jardinava, não conduzia, e rumaram ambos à feira semanal numa localidade perto. Pela hora do almoço o meu pai apareceu lívido e meio consternado. O jardineiro, por seu turno, foi avistado fazendo a ronda às estrelícias e aos amores-perfeitos, impávido e sereno, como era seu hábito, impassível perante o mundo à sua volta mas perscrutando a mais ínfima flor. Só podia ser coisa do jardineiro.
Vinham pois a caminho de casa quando o jardineiro pediu ao meu pai que parasse à porta do cemitério. Contava-se que era homem previdente, que teria já acautelado a indumentária para quando o barqueiro o viesse buscar e que reservada no guarda-fatos estaria a farpela para o adeus final. Ora o jardineiro era rapaz que não se deixava ficar e já que ali estava, que entrasse, pois claro, portanto o meu pai que tinha pavor da morte e de cemitérios e de todos os rituais em torno da senhora da foice, foi convidado a entrar no campo santo, tendo-lhe sido feita uma visita guiada à assoalhada do jardineiro, assim a baptizou o meu pai, logo que recuperou o humor daquela visita insólita à campa que o jardineiro tinha comprado para ele próprio. A verdade é que tanta preparação lhe granjeou noventa e três anos de vida, sobrevivendo ao meu pai. Para afastar a morte há que prepará-la com antecedência.
Assim sendo, eram comuns desentendimentos que o jardineiro resolvia através da minha mãe, gestora eficiente da conflitualidade dos morangos e das batatas e, muito importante, do HeraGate. O HeraGate instaurou-se no dia em que, alegadamente, a hera que cobria a parede da garagem teve uma síncope nocturna e caiu redonda no chão. Ora a hera não cai sozinha e o jardineiro não gostava da hera, exactamente ao contrário do meu pai, logo a dúvida instalou-se quando olhámos pela primeira vez a nudez despudorada da parede da garagem e a hera se manteve estendida, fazendo-se despercebida, indisponível para mais interrogatórios e conversas.
Teria sido no dealbar da Primavera e acedendo aos pedidos do jardineiro, uns pés de morango e umas alfaces, que o meu pai o meteu no carro, o jardineiro só jardinava, não conduzia, e rumaram ambos à feira semanal numa localidade perto. Pela hora do almoço o meu pai apareceu lívido e meio consternado. O jardineiro, por seu turno, foi avistado fazendo a ronda às estrelícias e aos amores-perfeitos, impávido e sereno, como era seu hábito, impassível perante o mundo à sua volta mas perscrutando a mais ínfima flor. Só podia ser coisa do jardineiro.
Vinham pois a caminho de casa quando o jardineiro pediu ao meu pai que parasse à porta do cemitério. Contava-se que era homem previdente, que teria já acautelado a indumentária para quando o barqueiro o viesse buscar e que reservada no guarda-fatos estaria a farpela para o adeus final. Ora o jardineiro era rapaz que não se deixava ficar e já que ali estava, que entrasse, pois claro, portanto o meu pai que tinha pavor da morte e de cemitérios e de todos os rituais em torno da senhora da foice, foi convidado a entrar no campo santo, tendo-lhe sido feita uma visita guiada à assoalhada do jardineiro, assim a baptizou o meu pai, logo que recuperou o humor daquela visita insólita à campa que o jardineiro tinha comprado para ele próprio. A verdade é que tanta preparação lhe granjeou noventa e três anos de vida, sobrevivendo ao meu pai. Para afastar a morte há que prepará-la com antecedência.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Em dia de Primavera
Em dia de Primavera não há mal que me aflija, penso, enquanto vejo as réstias do sol crepuscular entre os prédios a iluminar como um foco a casa, outrora um ponto fulcral da avenida, onde se fazia o melhor pão com chouriço e com torresmos que algum dia comi. Procuro a chave entre tralhas várias e dirijo-me ao carro, transpirada e cansada dos saltos e pulos a que os tempos modernos obrigam, a fuga para a frente contra o colesterol e obesidade. E o crepúsculo a chegar, o dia arrumado finalmente. Respiro fundo. O aroma indefectível da Primavera, a aromaterapia sem academias nem salões, a fragrância que se solta, será das nespereiras?, mais genuína que massagens de chocolate e outras modernices paridas em conformidade com a artificialidade de uma contemporaneidade balofa. Abro as janelas do carro e inspiro o perfume do dia que adormece. A brisa que me perpassa o cabelo, o bálsamo da tranquilidade que se instala. Rumo ao pôr-do-sol iminente que ilumina uma tarja de mar acobreado bem longe. E depois o caminho de sempre. A Igreja do lado direito, o muro do mesmo lado uns metros abaixo e o aperto de sempre, afinal tão longe e ainda tão perto, o dia em que te deixei aí, meu pai. Mas em dia de Primavera não há mal que me aflija, reitero, a panaceia ocultando a ausência.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Lista de presentes
Dezembro. Pelas frestas da portada chuviscam-se-me gotículas de sol como feixes dourados, entrevejo a luminosidade, pressinto a manhã perfumada de sol e bela como apenas os dias de sol são. Agradeço veneranda, a quem saber-se-á jamais, a bênção de dias soalheiros em pleno Dezembro. E deixo que o Dezembro presente varra todos os passados, cinzentos, húmidos, frios. Dias breves sem sol. Faço-me à estrada deixando para trás tudo, a escola, os alunos, um período inteiro de aulas e trabalho, cansaço, exaustão. Faço-me à estrada e organizo mentalmente ao que vou. Natal. Presentes. E faço-me à vida como gosto, estrada fora, preocupações ausentes. Mentalmente sem papel ou lápis refaço listas, escrevo textos que deito janela fora se se me tornam inconvenientes ou metediços. Os textos são assim. Reescrevo outros, a frase, é sempre a primeira frase que me chama quando me lanço estrada fora. E já perdi muitas primeiras frases e muitos textos. Há textos que só se deixam apanhar pelas primeiras frases, como um fio numa meada de lã, encontrar sempre a ponta do fio, sem ela o novelo tornar-se-á num enriço, uma amálgama de fios desordenados, sem princípio nem fim. Perco-os por isso. Mentalmente distribuo presentes. E chego ao lugar com calma, a calma de um dia de sol belo, os dias de sol são menos tristes se sol houver. E faço compras. Telefonemas. Livros para a criançada não sem antes confirmar E o Ruca, têm o Ruca no Natal? Não? E sigo, ando por entre estantes e escaparates, gente com pressa, filhos, família. E confirmo a lista. Está tudo. Recolho a lista e regressa-me a culpa E o Papá? Está tudo não. Desta vez não foi o lugar vazio. Foram os presentes que não te comprei.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Mightier than the sword
Os dias de chuva convidam ao recolhimento entre portas. Entro na livraria pela enésima vez. Passo revista pelos mesmos livros, fazendo mentalmente a verificação dos que ainda compraria antes do regresso, somo e subtraio quilos à bagagem asceticamente cauculada, x pares de calças para x camisolas, nem mais nem menos, pares de sapatos controlados apenas pelo grau de conforto, poucos portanto e constato o que já sei, os livros terão de ser levados comigo, não há mala que comporte tantas letras e não gosto dos livros amachucados. Tu sabes. Tropeço no After Dark do Murakami e oscilo Levo? Não levo? Reviro o livro, confirmo capa e contracapa, leio as primeiras linhas, três por dois, tentação demoníaca, e a tradução? Directamente do japonês? Melhor do que a portuguesa? Não levo. Uma volta mais. Agora artigos de papelaria. Cadernos, caderninhos, dossiers, sacos, estojos, lápis e borrachas, agendas para 2009 e detenho-me perante a caneta. Preço ridículo. O valor das coisas nem sempre se estabelece em relação directa com o preço. Ensinaste-me tu ao longo das quatro décadas em que me apontaste caminhos. A caneta diz The pen is mightier than sword, a citação de Edward Bulwer-Lytton em tons levemente mais claros, o contraste harmonioso com a cor da caneta, a azul escura é mais bonita, constato, e penso, agarrando imediatamente na primeira disponível aos dedos curiosos Que gira. Vou levar para o Papá. E a mente que faz marcha-atrás mais veloz do que a mão que coloca a caneta no lugar inicial, o presente rebobinado e o passado presente entre os dedos que lêem The pen is mightier than the sword. E o presente que continua numa sucessão de atropelos e de regressos inevitáveis ao passado que fez do presente o que ele é. Vou levar para o Papá. A frase que se me atravessa a mente, a euforia infantil do presente, ensinaste-me também, oferecer sempre sem nada esperar em troca, um dos prazeres sempre cultivado e evidente no sorriso genuíno e generoso que oferecias com o presente, mais valioso, as mãos que alcançam canetas, lápis e borrachas rodando-os docemente na ponta dos dedos para retorná-los desapontada ao lugar, os olhos humedecidos que finjo acometidos de uma alergia repentina, que outra razão?, os gestos desengonçados, o nó na garganta que se esperaria resolvido, diz que o tempo ajuda, mentiras cobrindo as ausências, panaceias para males sem cura. Vou levar para o Papá, ocorre-me outra vez, pego na caneta, escolho uma entre muitas, eliminando as que contêm imperfeições, a caneta diz-me The pen is mightier than the sword, o passado cutuca-me no ombro, três anos decorridos, de caneta na mão aproximo-me da caixa Vou levar para o Papá e aqui a tenho, Papá, sei que vais gostar.
À memória do meu pai
segunda-feira, 12 de maio de 2008
O beijo preso no coração
E hoje, ter-te-ia ligado pela manhã, meu pai, não muito cedo já se sabe, eu e tu partilhamos o mesmo despertar ensonado, o acordar apenas após o café, e ter-te–ia dito Parabéns, Papá! Responder-me-ias do outro lado Obrigado, filhota, na voz sempre a indizível alegria e o carinho de me receberes em mais este dia. Mais tarde entrar-me-ias pelo portão. Primeiro tu, depois a Mamã. Provavelmente estaria na cozinha, quem sabe de avental ainda, preparando algo do teu agrado, o amor não é servido em restaurantes impessoais, e tu entrarias o portão, não antes de fazer uma festa à cadela do vizinho, olharias para o azevinho do lado esquerdo, se soubesses como está lindo, e admirarias como se dá bem neste canto do jardim. Iria ao teu encontro, dar-te-ia um beijo grande, um abraço apertado, repetiria Parabéns, Papá, ficarias babado e feliz com a tua filhota e dir-me-ias de novo Obrigado, filhota! E depois, os presentes singelos e a teu gosto, o amor posto sobre a mesa nos mais pequenos pormenores, e assim passaríamos o dia. E assim deveríamos passar o dia de hoje, meu pai, que não sei que ordem natural das coisas é essa, essa que dizem ser natural, essa que hoje me faz escrever este texto que nunca lerás e ficar com o beijo preso no coração. Assim é que devia ser: tu a entrares-me pela porta e eu a dizer-te Parabéns, Papá!
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