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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Fintar Hades

Dezembro. Frio. Cinzento. Húmido. O combustível de que se alimentam os estados de alma sombrios que atraem as maleitas do espírito, sugam o entusiasmo de dias vindouros e eliminam a esperança de céus azuis de dias cálidos e bondosos. E se a invernia tem algum propósito, será apenas o de contraste bruto, para que os dias bons sejam ainda melhores, os mais solarengos ainda mais luminosos, os mais cálidos ainda mais abençoados.
O augúrio de acontecimentos tenebrosos começou naquele mesmo dia com a passagem à porta da mercearia. Um sinal inequívoco no portão que dava acesso para um pequeno pátio interior, guardião maioritariamente de laranjas e maçãs, ocasionalmente de abacaxis e mangas e, aos Sábados, de coroas imperiais e gerbérias, indicava que a senhora da foice tinha feito das suas, ceitoura na mão, recolhida no manto, e colhido algum dos entes queridos das três gerações de mulheres administradores, gestoras, empregadas, limpadoras e zeladoras do estabelecimento. As palavras depois, no regresso a casa, Morreu a Avó Paulita. O tom de voz descendente tombado por um lamento, humedecido pelas lágrimas que ninguém viu. Morreu? Como morreu a avó? Sei lá. Morreu. Passei à porta e estava lá um sinal, um anúncio daqueles da casa funerária. Ora essa. Ainda ontem vi a mulher, retorqui Não pode ser. Como se a morte se fizesse sempre anunciar Vou aí. Vou passar por aí. E por saber ficou se houvera aviso de recepção para o infeliz acontecimento. Anunciara-se de facto, a senhora da foice? E se não o fizera, como se atrevia, desavergonhada e intrometida? Alguém a houvera chamado, por acaso? E assim se continuou no ano soturno que findava, e assim se prolongou a cogitação Mas como? Pobre avó Paulita. Determinou o destino a ausência do lugar malfadado por uns dias, dias em que rotunda senhora permaneceu na mente, defunta e enterrada, vestida de negro e sisuda, um rectângulo de cetim branco rematado com renda sobre o rosto finado e a meia dúzia de filhos, outra meia de netos e uns quantos genros desgarrados em prantos vários Ai minha rica mãe! Ó minha rica mãezinha. Pobre mulher. Parecia tão saudável. E assim era. Mais saudável que simpática. Mais vivaça que magra. Mais rija que sorridente. A avó Paulita era um daqueles seres únicos, benza Deus, agora falecida, coitadinha da senhora, que nos orgulhávamos de conhecer. Além de pôr as filhas na ordem, duas pelo menos, o filho doente que era um c***s no dizer da filha do meio, e ter umas mãos de ouro com que amassava o pão, um verdadeiro deleite para os habitantes da aldeia, quente e perfumado e, à semelhança da sua progenitora, forte e resistente, detinha o cargo indestrutível e firme de matriarca respeitada a quem bastava um olhar severo e umas duas palavras para se fazer obedecer. Também por isto, a avó Paulita deixara saudades, muitas saudades, e a certeza de se regressar à mercearia de olhar pesado, as palavras trôpegas na garganta e alma pesarosa na ausência. Algum dia seria, porém, que na morte sempre se diz que tem de se andar para a frente, andar, já se vê, que só os mortos morrem e retomar os afazeres para que a ausência se amacie e se esbranquice depois como uma nuvem de fumo distante. E assim foi. A mercearia repleta empurrava os fregueses para a saída, enquanto as duas filhas, a mais velha e a do meio, aviavam a freguesia turbulenta. Pobre avó. Logo havia de se finar. Um ouvido apurado. Seria? No burburinho da mercearia congestionada três letrinhas sobressaíam inequívocas MÃE? Mãe, pois. Um pescoço que se ergue, os olhos interrogativos que se procuram e eis que, vinda do além, surge a avó Paulita. Impassível. Caramba. A admiração subiu a pique. A avó Paulita fintara a senhora da foice Julgas que és mais teimosa que eu? e regressara triunfante da batalha com a cadavérica, embatucada, enfezada, mafarrica, malfadada ou isso ou tinha sido a mãe da avó Paulita que se finara. Quem disse que eram apenas três gerações de mulheres? A avó Paulita ficou na história como a única pessoa que regressou do além. Quem derrota Hades deve morar no Olimpo mesmo que o Olimpo esteja sito na mercearia da aldeia.

foto: minha

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sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Cobranças difíceis

A mercearia nunca mais foi a mesma desde que a irmã da dona abandonou o mister. Seria a úrsula? Diz-me a irmã, a dona da mercearia, que eram os nervos. Um problema. Disse-lhe que sim, que os nervos são um problema mas que a tinha visto aflita da coluna e assim foi há uns tempos. A mulher insistiu As costas e a cluna era tudo por causa dos nerbos. Pois, pois, parecia-me uma pessoa ansiosa. Bocê, sabe lá… é teimosa a nha irmã. Eu queria levá-la ao massagista, aquilo era três dias e tava boa, mas ela quis ir ao preto de Alcainça… O preto de Alcainça? Sim, o massagista. Ah… Assim foi mais tempo. Ah pois. Mas onte já a bi no balhe, a balhar. Já tá boa! Felizmente. A diferença que faz o preto da Alcainça!
E dado este estado de coisas, a irmã que agora faz uns biscates aí nas casas de umas senhoras por causa dos nerbos na mercearia, a mãe a fazer um pãozinho delicioso e a outra filha num cafei, a dona outro remédio não teve se não pôr lá a filha mais nova, uma garota adolescente, robusta, com as protuberâncias abdominais a saírem-se-lhe pelas calças rebaixadas e para quem, ao contrário do mulherio administrador do estabelecimento, o cliente não é rei. À hora da novela o cliente é até um rapaz intrometido e inconveniente que não a deixa ver calmamente a saga infindoura no canto oposto à caixa resistadora no cocuruto duma estante.
A rapariga tem uma coisa boa no dizer da mãe, tem força, Mais força ca outra confessou-me um dia, e por força, entenda-se a impetuosidade de um panzer que irrompe entre os vegetais e a arca frigorífica, as sacas de cebola, as courgettes e a arca dos iogurtes sempre que necessário. Talvez por isto, uma ocasião, a estante onde se apoiou para chegar ao topo dum armário, certamente para satisfazer os desejos caprichosos de algum cliente, tenha cedido e os fregueses, eu incluída, brindados com uma chuva torrencial de chocolates Regina, Sugus de menta e melão, Conguitos e chupas. A rapariga na se ralou. Enquanto a freguesia ajuntava os chocolates do chão, nem um agradecimento, e a estante olhando-nos ameaçadora, ainda periclitante com uma das esquinas levemente enviesada a indiciar o resvale iminente. Nada a recear. Com esta cabeleira sempre amortecia as sombrinhas de chocolate que tinham resistido ao tombo.
O pesadelo voltou quando lhe pedi duas latas de feijão preto, que por azar me olhavam altaneiras doutra estante. Aí não haveria cabeleira que me salvasse mas, por esta altura, a rapariga já tinha adquirido maior agilidade de movimentos na travessia da mercearia e adquirira uma outra característica curiosa: a de zeladora escrupulosa da carteira dos clientes. A rapariga revirou as latas, leu as receitas nos rótulos, disse-me que gostava de comidas diferentes e por fim, atirou Atão mas porque é que bocê leba duas? Uma das grandes é mais barata que duas, ó, disse apontando para a etiqueta do preço, 50 cêntimos. Preferia duas pequenas, é certo, mas perante a evidência, e sob pena de passar por uma perdulária gastadora e arrasar a minha reputação na mercearia, lá trouxe a lata grande de feijão preto. Nada de mais: duas refeições a eito de feijão tropeiro.
Naquele dia, o queixume era outro: a máquina do Multibanco não funcionava. E que tinha aderido a outro plano e agora aquilo na daba nada e ainda por cima em Agosto, que tá tudo de férias. Uma cliente impacientou-se. E agora? Não tinha dinheiro e não queria ficar a dever. A dona tudo explicou de novo, largou um ou outro comentário pouco elogioso à companhia telefónica e por fim atirou à outra Ó melher, na te rales. A outra disse Ah pois, e se eu morrer? A dona Na te rales, já te disse, melher. Morreu aí uma há uns dias e rasguê logo o papel. Qué lá saber! Nesta altura terei dito algo, lamentando a morte alheia, mas qual quê… Atão, ela na podia ir à praia, foi à praia ca filha... Ah, pronto. E nisto, voltou a cliente à carga. Na te rales, bá, pagas depois. A filha atenta à contenda do paga, não paga, acrescentou Na se rale, se bocê morrer, a gente bai lá ó cemitério e pede o denhêro às pessoas no funaral. Deitei a mão ao bolso. Uma nota de dez euros. O suficiente para pagar os pêssegos e as ameixas. Se algum imprevisto acontecer, cruzes canhoto, pelo menos não terão o panzerzito a cobrar-vos as ameixas e os pêssegos, carecas e felpudos, à porta da derradeira morada. Há dinheiro que vem por bem na algibeira desprevenida.



foto: minha
Com aquele abraço para o Aventino.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Sopa de brócos

Depois do excessos gastronómicos da época nada como uma sopinha para equilibrar a intemperança. Assim sendo, reuni o que havia em casa no intento de me deitar na confecção de algo inofensivo e saudável. Sopa, uma sopinha de legumes pareceu-me uma óptima opção. Descobri para meu gáudio um quarto de abóbora pequena, esquecido pela minha mãe num banco por baixo da mesa da cozinha. Esventrei a abóbora, esquartejei-a sobre a tábua de madeira e, ao metê-la na panela de pressão, juntei-lhe duas batatas mínimas, apenas para melhorar a textura, e uma cebola. Enquanto isto, lembrei-me de que umas verduras também para quebrar a monotonia alaranjada do puré de abóbora ficariam muito bem e, uma vez que ainda não eram oito horas, hora de encerramento da mercearia, fiz-me à estrada e em trinta segundos estávamos à porta da mercearia.
A mãe da dona estava já em processo muito adiantado de arrumação e limpeza do estabelecimento, apurei entretanto que estava a ser ajudada por uma das filhas, a irmã da dona, o que me deixou particularmente feliz. De há umas boas duas semanas a esta parte tinha deixado de ver a irmã da dona da mercearia no estabelecimento. Pior: há uma semana vi-a toda lampeira a sair de um carro, acompanhada por um homem, à porta da churrasqueira, isto em dia de semana e em horário de abertura do comércio. Nesse dia cheguei a casa pesarosa. Então, mas afinal? Foi-se embora? Deixou-me à míngua? Natralmente zangou-se com a irmã, isto porque algures ainda no Verão, tinham feito mudanças na mercearia e, quando elogiei as mudanças, a mulher perguntou Bocê gosta? Eu gosto! Ah, mas a patroa na gosta, sendo que a patroa era a irmã. Na gosta, diz c´assim na bende nada e abeirando-se das caixas de fruta começou a empilhar maçãs e tomates ó, tá a ber? Ela quer é assim… Suspeitei que houvesse ali uma querela que as opunha e muito sinceramente também não entendi a técnica de marketing da dona da mercearia. Que o estabelecimento está sempre cheio é uma evidência facilmente atestável, logo a dona é que sabe e parece saber muito bem.
Quando deixei de ver a irmã da dona na mercearia e comecei a ser atendida pela dona, sua irmã, suspeitei o pior. Comentei as minhas desconfianças com o Hélder e, inconformada com a falta da minha interlocutora preferida na mercearia, lá segui a minha vida. É sabido que as ausências me corroem a alma. Ora esta?! E agora com quem ia partilhar as minhas dores e falar disto ou disto? Mas que coisa, ir-se embora assim. Na verdade, senti-me algo abandonada. A ausência de um tu nas nossas vidas pode mudá-las significativamente, às vezes, irremediavelmente, e, de repente, vi todos os bons momentos passados na mercearia como algo arrumado definitivamente lá no passado. Não era justo. Agora felizmente todas estas cogitações tinham-se provado infundadas e a irmã da dona da mercearia, levemente mais magra, apresentava-se bem disposta à minha frente. Tinha tido uns problemas de saúde Bocê sabe lá as dores quê tenho… e agora estava à espera de uma TAC às costas pra ber o que éi mas felizmente tinha regressado ao seu local de trabalho. Confesso que fiquei algo envergonhada de mim própria. E se a mulher tivesse arranjado um emprego melhor? Um que lhe agradasse mais e lhe apagasse as dores? Se tivesse mudado de vida? Que direito tinha eu de a querer ali apenas para dois dedos de conversa esporádicos? Regressei ao que vinha, sacudindo a culpa para trás das costas. Ora bem, queria espinafres se faz favor… Espinafres, espinafres na tenho mas olhe só se for brócos… ó pá, venham de lá esses brócos e já agora um alho francês. É pa fazer junto? Não, não é para a sopa… Ah, ê nã sêi mas diz que junto é um espectáculo. Vim para casa tranquila e a sopinha de brócos soube-me pelo coração, acredito que mais por quem me vendeu do que por mérito próprio nas lides gastronómicas, apaziguada que estava com a ordem reposta na mercearia. Há gente que não nos pode faltar.

foto: minha

sábado, 2 de setembro de 2006

Dores que não passam

Certo dia a filha da dona da mercearia tomou-se de amores e calores por um rapaz das redondezas. Era proprietário de uma bomba azul metalizada. Amiúde o carro estava estacionado à porta da mercearia indicando as visitas regulares tanto à rapariga encalorada como à restante família, visto não haver fronteiras distintas e demarcadas no estabelecimento. Fiambres e detergentes, legumes e feijões são parte integrante desta existência mercantil não sendo já possível delimitar quem e o quê pertence a quem e a quê. Certo, certo é que o próprio armazém sito numa ruela estreita da aldeia a escassos metros da mercearia, rua essa que vê o seu trânsito limitado e cortado com um rotundo sinal de proibição caso a dona do estabelecimento e do armazém, pois claro, efectue descargas para fornecer a mercearia, terá sido palco de entregas de amor intenso, acredita-se, de juras também de amor eterno. Tal ficou posteriormente provado mediante a metamorfose do corpo da rapariga. A dona da mercearia não se mostrou surpreendia nem aflita. Ela mesmo, segundo me disse, experimentou as delícias de uma maternidade precoce e a filha foi criada no seu dizer sobre as caixas de fruta, bebé ainda, na impossibilidade de alguém que lhe tomasse conta. Hoje mulher e mãe também é feliz saudável, não aparentando mossa pela infância entre alfaces e rabanetes, pêssegos e uvas.
Findos uns meses largos, num dia em que apenas se encontrava na mercearia a irmã da dona, perguntei se a rapariga, sua sobrinha portanto, já tinha tido bebé. A mulher respondeu-me Sabe lá, temos lá uma bebé tão linda, tão linda! Felicitei-a pela ocasião feliz e a mulher sacou do telemóvel e mostrou-me a fotografia do rebentinho. Era linda pois. Seguiram-se as perguntas habituais. E correu tudo bem? procurei. Graças a Deus corrê tudo bem, mas teve que ser cesariana. Já a nha irmã tamém foi… é os ossos, os ossos na alargam A mulher assumiu um ar pesaroso, algo contristado nesta ocasião. Na verdade, eu não via mal algum nesta ocorrência e achando que o Criador não foi amigo das mulheres quando as fez assumir atitudes, esgares e posições que não levam ao diabo mais velho para parir os seus rebentinhos, pareceu-me uma belíssima opção, de resto, como me parece ainda hoje. Acrescentei, alardeando a minha ignorância Foi melhor assim A mulher eriçou-se Ai, bocê na diga isso… bocê sabe lá… Tinha razão. Não sabia mesmo. É que aquilo é uma dor linda, linda, linda acentuando intensamente a adjectivação. A gente tá ali e custa um cadinho né, mas ópois, qando a gente bê os nossos filhos… passa logo Escutava-a com atenção Aquilo passa logo, passado um becado a gente já esqueceu só dólhar pra eles Manda o bom senso que nos calemos perante as nossas ignorâncias e desconhecimentos. Assim fiz. Deixei a mulher elogiar os encantos da maternidade, louvar o amor que produz o esquecimento. Bocê um dia bai ber. Talvez, pensei . E ela continuou É aquela dor é uma dor ca gente esquece, passa logo, co tempo já na dói mais, mas há outras… fez uma pausa e olhou-me fixamente numa referência inequívoca à partida do meu querido pai. Há outras ca gente na esquece nunca e às bezes inté parece que ficam pior. E de novo para mim E bocê sabe muito do que tou a falari. Há dores ca gente na esquece nunca e co tempo inté doem mais. Quem sabe, sabe. Quem sabe da dor, sabe da vida.

foto: minha
Ao meu querido pai no dia em que um ano passa.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

A Úrsula e eu

Quando a canícula do Estio se abateu sobre a aldeia, a mercearia não foi excepção. Exalava um calor infernal vindo das profundezas do estabelecimento. Lá dentro, numa tarde de Sábado paulatina, apenas a irmã da dona da mercearia. Nestes raros momentos de silêncio apenas entrecortado com o silvo da ventoinha no tecto e uma de pé junto ao expositor de batatas fritas e outras tentações do demo das enfermidades cardiovasculares, a conversa envereda por caminhos mais íntimos, característicos da esfera menos pública de cada um dos frequentadores do local. Foi assim que fiquei a saber, por exemplo, que homens, gajos, para a dona é só uma vez, uma vez por semana, disse, e que duma outra, na incapacidade de enganchar um pau recurvo na ponta com o laço pendurado da ventoinha para fazer a mesma funcionar, estava já há um mês à míngua de se abandonar sem reservas e sem culpa nos braços de Eros com um colito no regaço de Baco. Surpreendeu-me nesse dia. Não pela franqueza do seu comentário, o desabafo sincero e natural, mas porque nesse mesmo dia a minha mãe estava também presente e não sendo propriamente desconhecedora dos mistérios e pulsões do corpo, passaria de certo muito bem sem tal confissão pungente. Duma outra vez ter-me-á dito que os homens, quanto mais despachadas as mulheres, pior, fogem logo, referindo-se a quem anteriormente tinha designado por Eh pá, agora tenho um gajo lá em casa que me faz o almoço. Que havia eu de dizer? Ah pois, pois, um sorriso aqui outro ali e vá de sair da mercearia. Foi assim também que saí nesta tarde escaldante de Agosto.
A irmã da dona refogava-se de calores. Quando me aproximei da ventoinha de pé para escolher uns bolinhos secos dentro de uma cesta sobre a arca frigorífica, a mulher perguntou-me é adbogada de quê? omitindo o bocê tão característico. Confesso que ainda hesitei e me revi em Robert deNiro no filme "Analyse this", Are you talking to me? Para nos entendermos na mercearia não basta apenas dominar a língua, tem de se partilhar um estado de espírito, um certo modo de perspectivar a realidade. Foi isso que me sucedeu naquela tarde de Agosto.
Expliquei à mulher que não era advogada, era professora. E a conversa começou a fluir assim que me aproximei da caixa. No ambiente intimista, confessei-lhe que ia pela primeira vez fazer sangria. Ah… respondeu ê na gosto muito, ê bebo é muita água acrescentei que também eu. Ela disse memo à noite lebo uma garrafão de água pró pé de mim pois, eu também tenho uma garrafa de água sempre, e ela disse inda onte, bebi uma pinguinha de cerbêja e começou logo a fazer-me mal ao estômago pois, pois na posso, nem ice tea nem nada Conclui que seriam mesmo problemas de estômago, até porque anteriormente, e isto de uma vez que eu e o H. esperávamos que ela nos fizesse a conta, a mulher tomou-se de esgares e esfreganços no abdómen de frente para a caixa registadora, soluços e quase regurgitanços de lado para a montra dos queijos e refrigerados. Oferecemos-lhe ajuda. Recusou-a, recompondo-se de seguida. E a mulher continuou Isto é… Olhou-me fixamente à espera que lhe providenciasse a palavra em falta e o inexplicável aconteceu, como um empurrão ou uma voz que me gritasse ao ouvido, saiu-me irremediavelmente a palavra pululante na minha cabeça ÚRSULA. A mulher visivelmente satisfeita pelo entendimento comum disse Pois, é uma úrsula Ainda acrescentei E deve ser de origem nervosa... Ela concordou com o meu diagnóstico Ah pois! Despedi-me e sem mais abandonei a mercearia, envergonhada de mim mesma, preocupada com este linguajar inesperado, perdida de riso de mim própria mas incapaz de desfazer o equívoco. Bem sei que várias vezes sou intérprete da minha própria mãe quando ela arrisca a falar nortês e pronunciar palavras indecifráveis aos ouvidos saloios: manco para coxo, testo para tampa da panela, sertã para frigideira, cresceu para sobrou, cruzeta para cabide. Este episódio, no entanto, foi longe demais nos anais da minha história de tradutora-intérprete. Temo agora as consequências do mesmo. Mesmo sabendo que os professores não têm prestígio algum, consigo prever uma discussão à antiga na mercearia Ó pá, mas já na te disse que né assim que se diz… e a proprietária da Úrsula Mas né assim o quê? Né assim o quê? Tens a mania que sabes mais cós outros. Até aquela qué professora disse quera úrsula e tu tas a dizer que na é? Ah pois é.

foto: minha

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Da inutilidade da leitura

A conversa ocorria no lado oculto da mercearia. À entrada eram apenas perceptíveis vozes femininas conversando. O L invertido em que está disposta permite que não se consiga vislumbrar à entrada o que se passa na secção das pastas de dentes e champôs, lá para o lado da arca frigorífica guardando no seu borco um delicioso bacalhau com natas. Gritei bom dia! que se falasse apenas não me ouviriam e não dar os bons dias é ainda crime grave em estabelecimentos análogos felizmente. Pouco me ligaram. Terão correspondido com um bom dia automático embrenhando-se de novo na conversa. A irmã da dona da mercearia responsável pelo bom funcionamento do estabelecimento, guardiã de frutas e legumes, era uma das interlocutoras. É uma mulher jovem com dois rebentos, uma já púbere iniciada nas lides da mercearia e outro ligeiramente mais jovem mas que, no dizer da mãe, quer a escola longe e, segundo a qual, ler não é actividade que o rebento execute com facilidade pa ler e escreber é que tá pior. A mulher tem um feito irascível e uns nervos fracos travados apenas pelo chamar enérgico da matriarca, a quem habitualmente cede e obedece sem aborrecimentos de maior.
Uma ocasião estava a mercearia cheia. A mulher tomou-se de razões com o filho, cujo ar rufia sempre me traz à memória a nova coqueluche do futebol português. A voz ia crescendo à medida que a distância física diminuía da criança. Meia dúzia de perguntas Onde é que bocê foi? Quem é que disse que bocê podia iri? Quem é que deu autorização a bocê pra iri? e zás, trás, pás, dois estaladões na fronha do garoto. Tudo acatou sem lamúria, apenas um franzir de testa e o acentuar da expressão facial já pouco satisfeita no início da contenda que opunha a mãe ao filho. Mais uma vez impunha-se a intervenção da matriarca da mercearia, com o chamar vigoroso da filha como uma chamada de atenção e amiúde um ponto final em conversas ou atitudes menos adequadas ao contexto, afinal a mercearia estava cheia, não havia necessidade de revelar os segredos de uma ida à pesca sem autorização e muito menos o esbofetear da criança em público junto à máquina de cortar fiambre numa zona da mercearia descoberta a todos os olhos. Assim foi.
Naquele dia a conversa continuava mais perto dos meus olhos, mais próxima dos meus ouvidos à medida que fui penetrando a floresta de hortaliças, pão, frutas várias e chocolates Regina. Ah pois dizia uma eh pá. Isso é que não! As mulheres entretanto deslocavam-se atrás da irmã da dona da mercearia, visto ter chegado mais gente para atender e é sabido que conversa é bom mas não enche barriga, portanto, urgia atender a freguesia. E lá vieram aos pois, pois, ah pois é até que uma concluiu eh pá, na saber ler na faz muita falta, mas na saber fazer contas… eh pá, isso é que faz falta!
Diz-se que por aqui andaram árabes e judeus e que terão por aqui largado sementes várias. Não será por acaso que as casas são decoradas com azul e que, tal como os antepassados na Península Ibérica, os saloios tenham grande acuidade comercial e intuição mercantil, além do olhar mais desconfiado que se viu e que fui (re)encontrar curiosamente na Tunísia, concluindo pois de mim para mim Ai é daqui, é daqui que eles vêm… Saber ler na interessa nada, agora na saber fazer contas é que não, senão como dar trocos e demasias, destrocar notas e executar outras operações provenientes do negócio? Tá bem, tá.
Foto: minha

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Crónicas da mercearia

A mercearia da aldeia é um mundo. Gerida apenas por mulheres de gerações diferentes, todas elas, da mais velha à mais nova, com o mesmo despacho, desenrasque, diligência e respeito pelo consumidor, a mercearia constitui um lugar sui generis, palco de aprendizagens diversas e enriquecedoras. Tudo pode ser vendido à confiança, pode lebar à confiança e reclamado caso a qualidade não satisfaça os clientes ó coração, se não for bom, benha cá trocar. O cliente é rei. Eh, pá, não há nada pior pra mim, qué dizer a um cliente que na tenho! confessa a proprietária, embora o desabafo seja raro, uma vez que quase tudo se encontra à venda e, se tal não for o caso, no dia seguinte já o desejo do cliente foi satisfeito. Uma ocasião, procurava pimenta em grão. A rapariga, a filha, ficou aflita, nunca enrrascada, porém. Não havia. No dia imediatamente a seguir e, assim que lá entrei, a rapariga chamou Dona! e sem mais palavras exibiu ufana uma pacotinho de três pimentas em grão. Não resisti perante a consideração do gesto e, mesmo que a pimenta não fosse mais necessária, acabei por sair da loja com ela.
Nas horas de ponta, regra geral entre as onze e as treze aos fins-de-semana, o caos instala-se. Cada um tenta chegar aos pêssegos, alcançar o pão da avó, carinhosamente epítetado pelas filhas, e enquanto isso, entre hortaliças e beringelas, figos e cogumelos, detergentes e farinhas, a conversa corre, salta, flui, voa ao sabor das palavras eufemisticamente despojadas e dos humores muitas vezes femininos e brejeiros, servindo amiúde como remate de acontecimentos recentes ou conclusão dos dias anteriores. Certo dia, numa dessas horas de aperto, o H. encostou-se a uma prateleira para dar passagem à dona, exíguo que se apresentava o espaço disponível. A mulher arremessou-lhe Nã te enerbes, na te enerbes que na te apalpo. Mai nada!
Ontem a conversa rondava em torno da vitória de Portugal sobre a Inglaterra. atão, tás melhor hoje? perguntou uma mulher à feliz proprietária do estabelecimento Eh pá, bocê, nem me diga nada… respondeu a dita. A outra mulher continuou Eu nem podia ber o jogo, eh pá, ca nerbos… Nestes momentos a conversa é alargada aos restantes frequentadores do estabelecimento, caso se mostrem cooperantes e interessados. A mulher olhou para mim à espera de uma qualquer palavra. Sorri e balbuciei algo em concordância. A mulher continuou eu nem bi… a dona prosseguiu Beio cá uma senhora, uma que mora aqui, e fomos comer caracóis e beber imperiais. A outra inquiriu Atão e fechaste a loja? Não, respondeu, deixei cá a nha mãe. E de repente, a conversa virou para o Ricardo, o herói do momento. Terei dito que o Ricardo foi uma peça imprescindível na obtenção desta vitória. A mulher concordou e disse E deram na tebisão, lá da terra dele. Ai, como é que é? Adonde é que ele é? Acrescentei acho que ele é do Montijo. A mulher concordou Ai, é isso, é. E deu aquela gente toda… Agora quando ele boltar é que bai ser... Concordei e, vindo como do nada, a mulher pergunta-me Atão e a mulher dele? Não sei, disse. É que ontem eles falaram da mulher e do filho mas eu na a bi lá… Engendrei uma resposta em auxílio da reputação da mulher de Ricardo. Onde estaria, sim, onde andaria a mulher dele naquela altura? Acrescentei Se calhar, está na Alemanha. Houve muitas mulheres de jogadores que foram para lá. A mulher sossegou Ah, natralmente é isso, natralmente tá lá com ele. Natralmente tá, pensei.