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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Lobo-antuninos e saramaguianos

José Saramago, oitenta e seis anos, o único laureado com o Prémio Nobel da Literatura, dono de um temperamento difícil e de palavra afiada, provoca a opinião pública sempre que Portugal é tema de conversa, desencadeando reacções em cadeia de repúdio e rejeição que, estou convicta, apreciará na intimidade com júbilo, cumprido que está um dos papéis principais do escritor para com o labor da escrita e para com os seus leitores: provocar. António Lobo Antunes, sessenta e seis anos, alfacinha bisonho e ensimesmado, o eterno candidato ao Nobel que desmente categoricamente a mágoa pelo seu gladiador de escrita, José Saramago, ter trazido a medalha dourada e refulgente para o cantinho luso, diz que escreve o mesmo livro há anos, afirma que ninguém escreve como ele ad nauseam e reafirma os locais da escrita como únicos.
Em comum parecem ter a nacionalidade, excepto nos dias em que Saramago lhe dá para o salero e nos momentos em que Lobo Antunes deambula por Angola, como se amanhã nunca tivesse havido e o tempo permancesse parado nas páginas d’ Os Cus de Judas, ambos partilham o mester da escrita e a atitude de permanente provocação, tanto pelo ar blasée de António Lobo Antunes, quer sempre ir para casa escrever em vez de estar a receber prémios e a largar palavras de circunstância, quer pela atitude agressiva e furiosa de José Saramago. Há sempre uma farpa afiada com que espicaçar alguém, provavelmente a sua Pilar será o único ser imaculado e incólume, aqui ganha aos pontos a Lobo Antunes. Qualquer mulher aprecia este amor maior ostentado em praça pública como grinalda da vida em comum.
Contudo, nem só pela atitude se distinguem. Existe um exército armado de palavras e argumentos, leitores e seguidores fervorosos que abraçam a causa de cada um dos escribas como se escolhessem lugares e adversários no campo de batalha ou armas num duelo A baioneta saramaguiana ou o florete lobo-antunino? Estes séquitos são incapazes de olhar apenas a escrita, que saudades dos tempos em que os escritores apenas escreviam e apareciam esporadicamente para uma sessão de autógrafos pontual, e bebem as peroradelas de cada um dos escritores grandes da contemporaneidade, como se de palavra benta se tratasse.
Percebi, pois, que os amantes da literatura portuguesa se dividiam nestes dois grupos armados, quando um dia alguém se admirou profundamente por eu gostar de António Lobo Antunes e de José Saramago, da escrita bem entendido, dispenso-os aos dois em pessoa. Até esse dia não me tinha passado pela cabeça que a literatura fosse composta por princípios activos incompatíveis - que ingénua - capazes de provocar reacções adversas caso combinados ou tomados em conjunto. Se há fenómenos que não entendo é a contenda que opõe estas duas espécies de leitores aficionados: saramaguianos e lobo-antuninos, duas castas aguerridas e belicosas capazes de disparar argumentos se e quando cada um dos dois lança um livro ou sempre que um dos dois faz uma aparição pública e larga palavras como quem atira pedras. Eu, por mim, fico-me apenas pelos livros, a maneira única que conheço de amar a literatura, o resto, como diria António Lobo Antunes em relação ao Nobel, é bullshit.


Fui repescar este texto a propósito de uma conversa com um amigo do liceu sobre Lobo-Antunes e Saramago. Aqui fica mais uma vez.


 
imagem: Richard Baumgart, "The Writer"

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia Mundial do Livro



Nasceu a 23 de Abril de 1564 e julga-se ter morrido também a um 23 de Abril de 1616 mas o que é verdadeiramente espantoso é que o Bardo tenha inventado ou introduzido na língua inglesa duas mil palavras. Ganda maluco, é o que é.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Com os Holandeses ou a arte da crítica


Corria o ano da graça de dois mil e nove, era mês de Abril e estava um calor inusitado para aquele mês. O povo tinha saído à rua. Literalmente. A pé, de bicicleta, de qualquer maneira e feitio e pairava no ar a atmosfera festiva de que só os dias radiosos de sol são capazes, ainda mais se tivermos em conta um país onde Setembro é quase mês de Inverno, anoitece com as galinhas, a bruma instala-se sem cerimónia e o frio húmido entra-se-nos pelas frestas da roupa e esgueira-se para as profundezas da alma. Mas aquele era dia de muito calor. Tinha acabado de sair de uma dessas lojas de roupa barata, as únicas que frequento em tempos de crise e não crise, o calor foi a desculpa perfeita pata comprar uma camisa fresca, quando o telefone tocou. Atendo o telemóvel na praça, no meio da multidão esfusiante por aquela bênção fora de tempo e enquanto falo vou reparando nas pessoas à minha volta. Nos corpos tão pálidos mas indiferentemente expostos ao sol de Abril, nos turistas que na sua condição de turistas nunca passam anónimos numa qualquer multidão, a máquina fotográfica sempre em punho e o olhar inquiridor sobre tudo e mais alguma coisa sempre mesclado com uma pitada de desconfiança e os outros, os que não sendo nem uma coisa nem outra andavam saltitantes nas suas vidinhas repentinamente soalheiras.
Ora neste preciso momento, o meu olhar de turista aterra num objecto circular, na verdade cónico, bem plantado no meio da praça e com homens em redor. Não se pense que se tratava de um altar de testosterona onde os homens largavam as suas preces, desconfio até que os homens têm pouco dessas atitudes tementes e virtuosas. Uns segundos depois vejo um dos homens apertar a braguilha, reparem na propriedade da palavra, e uma vez aliviados das cervejas e líquidos que se lhes haviam descido para as partes baixas, os homens seguiam assim mesmo, sem mãos lavadas, a higiene relegada para milionésimo lugar, os seus caminhos. Isso mesmo. Um urinol amovível sem qualquer privacidade, ali no meio da praça, qual instalação contemporânea, e sem mais questiúnculas de decências e moralidades. Não se lhes pode criticar a falta de sentido prático. Era sexta-feira, numa praça rodeada de bares e restaurantes e em vez de inundarem o lugar com o cheiro fétido nauseabundo, nada como instalar aquele curioso objecto. Na segunda-feira desaparecera.
E vem tudo isto a propósito do livro de Rentes de Carvalho Com os Holandeses. Sempre os achei algo rudes de tão práticos e pragmáticos, sem rodriguinhos e salamaleques, algo que colide com os nossos costumes tão decentezinhos e tão agradavelmente acolhedores. O livro, escrito em 1971 e reeditado recentemente, é um relato dos quinze primeiros anos que Rentes de Carvalho viveu na Holanda e do inevitável choque cultural. Dá-nos um olhar por dentro da personalidade e carácter dos holandeses, vista e sentida lá do território onde turista algum consegue penetrar e bem longe dos campos de tulipas, Van Gogh e Rembrandt, e a léguas da imagem da alegada tolerância de coffee shops e prostitutas nas montras, como se toda a Holanda fosse Amesterdão e como se mulheres nas montras fossem só por si sinal de tolerância.
Escrito de forma escorreita e irrepreensível, Rentes de Carvalho não tem complacências com o politicamente correcto ou o socialmente aceitável. Não tem papas na língua e não se atemoriza perante os ditames dos discursos da multiculturalidade de plástico. Consegue num estilo único só permitido aos grandes:  criticar sem ofender, ser frontal sem nunca resvalar para a grosseria. E isto é muito. A força do livro consiste ainda neste desabafo, como Rentes de Carvalho o classifica, e no amor e afeição que acabou por desenvolver pela Holanda. Contraditório depois de tanta crítica? Os amores grandes são feitos de máculas e virtudes, de mistérios insondáveis e perguntas por responder. Tal como o que nutre pelo país que escolheu como seu.
Fiquei no entanto a pensar o que aconteceria em Portugal se alguém ousasse escrever um livro expondo sem cerimónias as nossas desvirtudes, que belo eufemismo, ainda por cima se um estrangeiro o fizesse. O bruá, a indignação, posts calorosos e a dignidade lusa de oitocentos anos de História ofendida de morte com palavras certeiras, honestas, directas. Somos bons nas ofensas. Diz Rentes de Carvalho que na Holanda não foi assim. Agradeceram-lhe a franqueza. Que diferença de Portugal.


“Amsterdam não precisa de mim para lhe cantar a beleza. Os canais, a torres, as casas apertadas nos bairros pobres e as outras, senhoriais à beira de água, falando de fortunas passadas e presentes, têm tido melhores poetas, melhores pintores. (…) A cara com que me recebeu num chuvoso dia de Março não foi das mais hospitaleiras. Mas essa primeira impressão cedo se desfez, e quando finalmente me habituei ao que durante muito tempo foi para mim um labirinto de canais e ruas estranhamente idênticas, dei-me conta de que se se não tratava de amor à primeira vista, com certeza a afeição entre nós ia ficar para  a vida.”

Rentes de Carvalho, Com os Holandeses.

fotografia minha




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quarta-feira, 7 de março de 2012

Someone to watch over me

Chegar a casa e abandonar os livros em cima da mesa e as compras na bancada da cozinha. Tirar o casaco e arrumar livros e preocupações, esperar que a escola fique a quilómetros daqui, lá onde devia ficar sempre e onde raramente a consigo deixar. Em cima da mesa uma encomenda, dentro da encomenda vejo-os soltar-se, o carinho e enlevo por entre as páginas, o suave aroma da amizade como perfume sorridente de alguém que de muito longe me ouviu. O dia subitamente mais quente e o coração embalado. Muito obrigada. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Faminta


Não sou facilmente influenciável mas sou facilmente sugestionável. Se estiver por aí tranquila e vir um anúncio pode até ser numa revista brilhante a um vinho, um belo copo com vinho tinto, a cor e a luminosidade perfeitas conseguidas apenas com as técnicas mágicas de manipulação de imagem, apetece-me um vinho, tinto pois claro. À temperatura ideai bebericado de um copo bojudo, sempre de um copo elegante e generoso, odeio copos pequenos para beber vinho, fará as minhas delícias, o deleite dos tolos que se inebriam com os sentidos deixando a vida tormentosa aprisionada na despensa a espernear entre os garrafões de água e os pacotes de farinha. Se ler uma receita ou vir a imagem apetece-me o que vejo ou o que leio, desde que seja apetitoso e me atice os apetites indómitos. Pois. Isso. Também.
Desde ontem que desceu sobre mim esta vontade. Cruzei-me com ele algures em 2010 numa livraria em Edimburgo. Um ano mais tarde voltei a vê-lo numa livraria em Londres, em mais do que uma, e posteriormente em Liverpool encontrei-o outra vez. Destas três vezes, o tamanho e a letra pequena demoveram-me, não sem antes pegar e largar, dar-lhe voltas, ler lombadas e badanas. Provavelmente ter-lhe-ei metido o nariz. Há lá aroma melhor que uma pilha de livros novos? Três vezes o vi e três vezes o recusei, valham-me os deuses que isto de recusar três vezes faz-me lembrar outras estórias, e ontem depois de ter visto o filme, aqui deitada no remanso de fazer coisa nenhuma, enquanto o corpo se aninhava no colo da noite, fiquei cheia de apetite, fome, desejo, ganas, vontade do livro. E assim estou desde ontem. Doida de fome de um livro. Do livro. Deixava já a Herta Müller que me mantém entediada e intrigada por ele. E inquieta por não o ter. Eu disse que era sugestionável. Estou faminta.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O pêndulo do sonho

Viajar pode ser apenas a deslocação de um ponto ao outro, a interrupção desejada da rotina do quotidiano, conhecer um destino fora de portas, confirmar aquilo que se julga saber, carecendo, não obstante, de ratificação, preencher uma lista de lugares e monumentos visitados, uma forma de ascensão social, de gabarolice inevitável ou a busca da felicidade como diz Alain de Botton em A Arte de viajar: “Se as nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas actividades sejam tão elucidativas no que à dinâmica dessa busca – com todo o seu ardor e paradoxos – se refere como as nossas viagens.”
A ideia começou a maturar não sei exactamente quando, embora admita que, com a idade a avançar e os dias jovens para trás, a saturação de uma profissão desgastante, socialmente desprestigiante e desprestigiada, e a necessidade de dias tranquilos sem confusões supérfluas criadas em gabinetes com fins estatísticos muito precisos e minuciosos agravou a necessidade de bater a porta do ensino e sentir fluir os dias entre momentos de plenitude e calmaria sem acusações ou julgamentos em praça pública.
A ideia surgiu de forma mais visual quando um dia em Viena, ao dobrar inesperadamente uma esquina, dei por mim a espreitar pelas vitrinas fechadas o conteúdo duplamente saboroso, os livros criteriosamente empilhados e arrumados, postais e marcadores de livros alusivos à temática dominante do espaço luminoso, o contraste curioso à cidade dos imperadores bisonhos e vienenses carrancudos, e ao canto, uma zona onde se podia tomar café ou chá, imagino que café dada a grande tradição vienense. E ao estatelar o nariz na montra conseguia sentir os aromas vários que se soltavam, o perfume dos livros enleado com a fragrância do café acabado de tirar, a sugestão onírica e sinestésica que o espaço libertava combinado com a localização estratégica, a esquina, com luz de ambos os lados. E fui acalentando o sonho: as manhãs luminosas, os bons-dias à vizinhança que passava em passo estugado a caminho das vidas atribuladas, abrir a porta e esperar que aparecessem, um, dois, três bibliófilos dedicados à procura da última novidade ou de uma edição antiga, talvez a tivesse guardado carinhosamente para estes dias de magia, algures entre livros e dias amenos.
E a mesma ideia regressou com força, quando numa manhã cinzenta calcorreada pela capital londrina, aterrei inadvertidamente à porta da livraria ainda por abrir. Oito horas e cinquenta e oito minutos no meu relógio de viajante, dois minutos, pois, dois minutos me afastavam do momento em que a confirmação do sonho em gestação se me apresentava sem possibilidade de recusa, a verdade que se desvelava e revelava à minha frente. Um homem à porta apenas, confirmou as horas para se dirigir à montra e depois as portas que se abrem, um sorriso consentâneo, e ao contrário do espaço vienense, estantes vetustas que se erguem até ao tecto, escuras e austeras na medida do desejável, o chão fofo da alcatifa e os empregados discretos e eficientes, sem a conversa do dia-a-dia audível a todos os presentes ou salamaleques balofos. E a revelação ali estava: dias, meses, anos em torno dos livros, com escrita pelo meio e périplos infinitos para regressar renovada a um espaço de recato e religiosidade com toda a liberdade da escrita e da leitura. Poderia acabar os dias assim.
Viajar pode ser apenas a deslocação de um ponto ao outro. Será sempre contudo, um espaço de descoberta e de revelação, o movimento pendular entre a realidade e o sonho e a libertação e a felicidade de pensarmos que ainda podemos ser outros.



Fui repescar este texto a propósito da conversa nesta caixa de comentários. O sonho de passar os dias entre livros persiste e pelo sonho é que vamos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Bibliófilos nossos amigos


Num ano longínquo e nesse tempo igualmente longínquo em que eu podia ir conhecer mundo e pôr pé e nariz além fronteiras perdi-me de amores por um livro. Nada de novo. Sempre que ia àquela livraria na Velha Albion, em pleno Piccadilly, era a perdição. Cinco andares, meus deuses, cinco andares de livrinhos novos à espera de serem folheados e lidos é o sonho de qualquer bibliófilo que se preze. Acalentei um dia a esperança de ficar lá dentro sem horas marcadas nem gente à minha espera, metendo o nariz em tudo, acariciando capas e inspirando o aroma libertador das páginas invictas. Há lá coisa melhor? Deve haver mas agora é mesmo o que me apetece dizer. Amanhã direi que é o cheiro a maresia na Ericeira, uma verdadeira dádiva de Neptuno, num outro dia o cheiro a Verão, quando na Primavera meto o nariz de fora e inspiro o perfume da Primavera, algo indefinido mesclado com o aroma as flores da nespereira aqui perto e outro o café acabado de fazer pela manhã. Mas os livros, ai os livros. O único problema do objecto do meu desejo ardente era o peso e o tamanho, impróprio para ser transportado Londres fora, transpor ares e chegar à minha modesta casinha mas a história acabou bem. Fui lá comprá-lo no último dia de manhã e o meu prestimoso consorte transportou-o com zelo. Agora mesmo enquanto vos escrevo vejo-o de relance, ao livro, a lombada meio desmaiada do sol aqui da sala e a memória de um pequeno episódio de que são feitas as existências felizes. E serve isto tudo para dizer e ilustrar que sim, eu também gosto muito de livros, ó como gosto de livros, mas gastar 12.000 euros em livros, ainda por cima do programa do Governo, numa altura em que se aponta a porta de saída como  umas das soluções de sobrevivência deste país e diariamente nos vão ao bolso não me parece um exagero, é um insulto a todos nós.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Viajar entre línguas

Dizer que nada há de mais trágico do que não ter com quem partilhar um livro é uma hipérbole e uma quase heresia. Há coisas trágicas muito mais trágicas e poupo-vos a enumerações lamechas mas para quem gosta de ler é tragédia suficiente ler um livro, rir, sorrir, vibrar para depois rir consigo, vibrar consigo próprio, agarrar o livro e fazer-lhe longas e pungentes declarações de amor pela ausência de um caminhante que a seu e a meu lado cavalgue as mesmas linhas e trote de vírgulas ao vento pelos nacos de prosa. Talvez seja essa mais uma forma de solidão e de exclusão, portas trancadas a novos mundos que não se deixam revelar. Não sendo possível todos saberem todas as línguas do mundo, há quem se ocupe dessa função alquímica de unir as duas margens do rio e garimpar línguas e mundos para que sejam inteligíveis aos demais. Dou, por isso, os Parabéns à Helena que, além de viver na minha cidade preferida da Europa, é uma das magas que transforma as línguas e me deu a honra de comemorar o fim da tradução do Wladimir Kaminer com este meu texto. Mal posso esperar que o livro me sorria das estantes. Vai contribuir para que eu seja menos só e menos sós somos quase sempre mais felizes. Neste caso sou. Somos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Estou a ler 'Meine russischen Nachbarn"


O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.
Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita.  E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro.
Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.
Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989.Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos,  Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d 'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.
E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.
A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra:
"Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço '. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o aluno. 'Não interessa', esclarece o professor,vais comê-los na mesma, quer gostes quer não".

Também no Delito de Opinião

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Confissões de uma mulher perdida

Descobrimos que só pensamos no mesmo quando até nos momentos tranquilos do quotidiano encontramos marcas, indícios, evidências da nossa nova condição de depauperados e humilhados. E não, não se pense que foi quando passei por uma montra decorada de Natal cheia de bolas reluzentes e pais natais pachorrentos e me impus o treino forçado para combater o próximo Natal e o outro, talvez ainda o outro e quem sabe todos os Natais doravante. A recusa determinada em não ver, não entrar sequer, ignorar por completo e não ter a mínima das tentações. Assim como quando acabamos uma relação e cortamos com tudo o que faça lembrar o dito cujo, um vai morrer longe enérgico um chega pra lá catártico, quero mas é esquecer que existes, ó Natal. Nada disso. Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá. Quando num insuspeito poema de Rainer Maria Rilke sobre o Outono, o défice, a ajuda externa e a Troika  estão presentes já não me resta mais nada. Estou perdida.

domingo, 25 de setembro de 2011

Apetites


Nunca me tinha acontecido. Aconteceu-me um destes dias enquanto andava displicente de cabeça no ar, admirando salas e pormenores como se fosse a vez primeira que punha pé ali dentro e me aventurava além das fachadas imponentes, as mesmas que me acompanham há décadas, cobertas de neblina, tão góticas e tão misteriosas e adentrava torreões e claustros prenhes de santos monumentais em esgares místicos. Assim, de repente, vindo do nada, e sei que foi enquanto andava mesmo de cabeça no ar, a vertigem breve da admiração de sempre Mas como? Como é que aqueles gajos naquela altura fizeram isto? pensamento recorrente sempre que me encontro com obras além do seu tempo. E terá sido aí que me apeteceu um livro. Apeteceu-me um livro como apetece uma peça de fruta lustrosa e voluptuosa, um naco de bolo de chocolate húmido, um copo de vinho tinto degustado à lareira em dias de invernia, e apeteceu-me tanto. Devorar palavras, galgar páginas, deglutir vírgulas e pontos e sentar-me depois tranquila e digerir o prazer de palavras e mundos. Era um vez uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Devaneios terapêuticos

Enquanto o povo estrebucha com os cortes de tudo e mais alguma coisa, exactamente no dia em que se soube um filho vale a generosa quantia de uma dúzia de euros quando chegar a altura de nos levarem o subsídio de Natal, mantenho-me estupidamente a tentar pensar noutras coisas. Se assim não for não chegarei sã ao Natal e não tenho dinheiro para gastar com maleitas da alma que eu própria poderei evitar se inverter a tendência suicida de ter pensamentos catastrofistas e derrotistas e outras coisas mais em -istas. Neste meu devaneio terapêutico arredo furiosamente a hipótese de uma ilha tropical, na verdade nunca foi possibilidade mas apetece-me dizer isto, e entretenho-me a pensar na tentação imensa desta rentrée – odeio esta palavra- literária. Este mês de Setembro faz-me ter vontade de um Outono aconchegado, refastelada no sofá, enquanto não tenho de o penhorar para pagar a luz e a água, e rodeada das novidades. Ah, as novidades! Perdoem-me esta exclamação inflamada mas eu sou rapariga que gosta de novidades, desde que não seja o Vítor Gaspar a dar-mas evidentemente. E o que vem aí é muito tentador. Mário de Carvalho, Valter Hugo Mãe que se converteu às maiúsculas, logo agora que já me tinha habituado às minúsculas e José Luís Peixoto andarão por aí a espalhar a palavra escrita aos leitores com títulos muito sugestivos, Quando o Diabo Reza, O Filho de Mil Homens e Abraço respectivamente. Sairá ainda Comissão das Lágrimas de António Lobo Antunes e Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo que me deixou curiosa. Isto para não falar de mais um livro de contos de José Eduardo Agualusa. Nos escaparates dos livreiros, sim, também gosto de acalentar esta ideia peregrina de que há livrarias à antiga com estantes de madeira até ao tecto e silêncios apenas entrecortados com o restolhar dos casacos e o virar das páginas, brilharão as capas novinhas em folha ainda perfumadas de tinta. Haverá melhor? Dream on.



terça-feira, 23 de agosto de 2011

O meu vizinho, o copromanta

Os livros, ah os livros! Companheiros de jornada e deslindadores de mistérios, chaves para os enigmas do mundo. Penso nisto enquanto saio de casa e a presença daquele monstro que vem despejar a fossa se me atravessa ao caminho e cumpre a função para que foi chamada: esvazia a caca da vizinhança. Vou pensando que terá sido feito dele. Vivia algures lá na outra aldeia que me acolheu madrasta durante um ano mal medido, tempo a mais para sítios hostis, e de vez em quando avistava-o da janela. Depois de dar umas voltas ao quintal de sua casa, verificando de caminho, abóboras e feijão verde, favas se fosse tempo delas e couves caso o Natal estivesse perto, parava junto à fossa. E olhava. Sendo adepta de que quanto mais se mexe na caca pior cheira, aquele comportamento permaneceu durante um tempo um enigma insondável. Que diabo. É que havia um campo em volta. Ele havia flores, silvestres e das outras, estrelícias, por exemplo dão-se muito bem por aqui, ele havia passarinhos, cães a ladrar, galinhas a cacarejar, patos a grasnar e perus, se o Natal surgia lá ao fundo na curva de Novembro. E havia o silêncio tão próprio do campo, sem carros nem trânsito, ausente dos bulícios das urbes endiabradas. E a fossa, o entretêm preferido deste peculiar habitante da aldeia. Quando vinha o homem da fossa, com a carripana para purgar o bicho, o homem observava com acuidade o processo, mantendo-se perto. Mas estava tudo lá. Naquele livro que terei comprado algures no Brasil, estava escarrapachado o deslindar do mistério, já que Jonas, a personagem principal, era um copromanta. E que será isso? Ora, um copromanta é alguém que lê o seu futuro nas próprias fezes, sim, muito nojento, mas o que era o meu vizinho se não um copromanta? Está para se saber se não lhe terá saído o Euromilhões depois da copromancia dedicada nas sucessivas observações à sua querida fossa ou se terá por estes dias um programa de televisão a adivinhar o futuro alheio. Os livros, ah os livros, dizia eu.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O relicário da memória

Há livros estranhos. Há aqueles que nunca devíamos ter lido, aqueles que nos deixam a lamentar o dinheiro desperdiçado quase como uma traição perpetrada pelo escritor, sim, como foi capaz de fazer uma coisa daquelas?, os que lemos e relemos, companheiros que dormem connosco sonos grandes na mesa-de-cabeceira ou que ficam inadvertidamente na cama entre voltas e sonhos inquietos, os de que nos esquecemos quase a seguir à leitura e permanecem apenas em traços largos num enorme borrão indefinido, os que nos deixam frases e expressões que procuramos desesperadamente quando nos fazem falta ou os que deixamos com post-its para que seja mais fácil encontrá-las. Há ainda aqueles que mesmo não sabendo muito bem porquê não nos largam. E este foi um desses.
O livro é um catálogo de Museu erigido pelo amante à sua amada. Um altar de recordações coleccionadas ao longo de décadas, um santuário de pequenas relíquias, o cadinho das memórias perpetuadas. Uma longa e sofrida declaração de amor no masculino. Tão surpreendente sempre. E depois há o tempo, o tempo de mudança em Istambul e na Turquia, o relato de décadas de história, entrelaçado em Kemal e Füsun, as personagens principais. E depois há a cidade. O périplo constante por Istambul, um daqueles livros em que podemos pegar num mapa e situar, seguir, caminhar, calcorrear os locais com as personagens. Subir e descer ruelas, sob a presença altaneira dos minaretes e o cantarolar dos muezzin, o Bósforo sempre a espreitar numa das cidades belas, contraditoriamente belas e caóticas. Que terá aquela cidade? E depois há hüzün, sentimento de nostalgia que quase podia ser saudade. Muito, portanto. E fiquei no livro. Meses depois de o ter devolvido à estante ainda estava no livro. E em Kemal. E em Füsun. E em Istambul. Perdida na visita a 'O Museu da Inocência'. Uma parte de mim ficou ali. A cidade talvez. Quem sabe o amor.


Orhan Pamuk, O Museu da Inocência.


fotografia minha

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um livro é um livro

Manifesto

É que não são só as palavras, não é apenas o miolo, não conta simplesmente o diálogo entre as personagens e o leitor, por vezes entre o escritor e o leitor. Não é o que se lê, o que sente, o que emociona e enfurece. É o objecto. As centenas de páginas agarradas umas às outras, as capas coloridas, o cheiro, sim, um cliché, eu sei. O texto na contracapa, as palavras insossas nas badanas. O prazer de o abrir e espreitar. Um livro não é apenas palavras. Um livro é uma companhia. E são muitos os que me acompanham casa fora. Os que repousam caoticamente no chão ao lado da minha mesa-de-cabeceira, os que me colorem as estantes cá de casa, os que se espalham por aqui e ali. E depois o prazer. A procura. Os momentos em frente das estantes Estava aqui, guardei-o aqui, tem de estar por aqui. A tranquilidade de horas a folheá-los na senda do excerto perdido, a curiosidade dos minutos à procura de uma novidade entre as páginas, a certeza de se encontrar sempre algo novo. A partilha Olha aqui, o que encontrei. E as memórias Este comprei-o em Salvador, lembras-te? Um pedaço de história de vida encerrada em páginas e lombadas carinhosamente preservado como testemunho de momentos felizes Foi o primeiro livro que comprei no Rio. Os presentes e quem os ofereceu. São os autógrafos dos escritores,as letras desenhadas à sombra dos jacarandás com o Tejo em fundo. E andar com eles na carteira ou entre os dossiers. E são isto os livros. São as dedicatórias. O meu nome bem legível na primeira página, data e local, a marca indelével de posse e a afirmação de território São meus. E isto jamais poderá ser substituído por uma geringonça electrónica. Isso não são livros. Esses não serão nunca os meus livros.

sábado, 3 de julho de 2010

Ai não vais não

Se entrar numa livraria não tenho este problema. A certeza de que só vou encontrar livros prepara-me para o que vou encontrar e quase intuitivamente separo os títulos e autores e corro ao encontro do desejado, pode ser apenas um desejo súbito e arrebatador, se o autor me agradar, a capa for apelativa e o título sugestivo. Contudo se me encontrar com os livros num hipermercado, no que desgraçadamente frequento encontram-se na entrada logo à direita, nutro por eles um sentimento diferente. É claro que não resisto a um olhar cirúrgico à procura de novidades, dão cabo de mim as novidades, mas de seguida separo a Nora Roberts, a Jodi Picoult e o Nicholas Sparks, às vezes tenho até vontade de os rearrumar nas estantes e os separar da Toni Morrison e da Doris Lessing, não sei porquê, mas acho que não ficam bem ao lado uns dos outros. Hoje, por exemplo, havia uma biografia no meio dos livros do Mia Couto e não me pareceu bem aquela intromissão. Também já estive para chamar a assistente e explicar-lhe que não, que Em Busca da Felicidade, um dos livros que mais me arrependo de ter comprado, não é um livro de auto-ajuda, ouviu? E que o Nagib Mahfouz também não tem nada que ombrear com as espiritualidades, ainda não entendi porque o colocam sempre ali. Outros dias embirro com as celebridades que deram em escritores e escritoras. Toda a gente sabe, muita pelo menos, que nada daquilo interessa ao mais pintado, mas também toda a gente sabe que o autor vende e não há quem resista aos esgares da Fátima Lopes perante os pobrezinhos e desvalidos do mundo que se adivinham entre as páginas. Mas hoje foi diferente. Hoje aconteceu-me ter vontade de esbofetear um livro. Sim, é verdade, insólito e até um pouco embaraçoso para quem tem os livros nos genes, outra mania com que vim equipada de origem, mas nada como admiti-lo. Ocupava um lugar de destaque, o parvalhão, e gritou-me Desculpa, mas vou chamar-te amor. Ai não vais, não. AMOR? Virei-lhe as costas e fui irritada aos deliciosos biscoitos crocantes de coelho, aves e legumes que fazem as delícias da população felina cá da casa. Que título mais ridículo. Parvalhão.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O leitor em busca da felicidade

Devia ter desconfiado quando, no dia subsequente à compra, fui dar com ele na estante da auto-ajuda, lá para o lado das espiritualidades numa grande superfície. Lá estava altaneiro entre Os últimos dias de JesusA Dieta Limão, encimado por Renascer das Cinzas e docemente aconchegado por A sabedoria nossa de cada dia, lado a lado com Conversas com Deus. Devia ter desconfiado logo pelo título, antes mesmo deste encontro de mau presságio.
Rapariga muito descrente e frequentemente indiferente às receitas de felicidade, céptica convicta no que respeita a fórmulas de bem-estar, doutrinações de caminhos zen e que não fala jamais com Deus(es) em língua alguma, senti uma facada traiçoeira quando o vi naquele preparo. Contudo, o que me falta noutras crenças sobra-me em fé numa parte da literatura portuguesa contemporânea e ao vislumbrar um outro livro de Nagib Mahfouz, que julgo não se dar a caminhos esotéricos, na estante abaixo, julguei que o empregado, esse sim zen e na senda do sentimento etéreo e escapadiço chamado felicidade, teria sido enganado pelo título. Estaria pois em paz com a compra recente.
Os autores. Muito mais do que o título, foram os autores que me levaram a comprar o livro. Cerca de metade dos escritores que assinam as dez histórias contam-se entre os da minha preferência. Foi assim que me atirei ao livro sem sequer pensar duas vezes, há livros que compro cegamente apenas pelo autor, e devorei sempre em busca da felicidade as dez histórias. E nada. No término da cada uma esperava o frémito de que se são feitas as prosas sensuais que perduram além do livro. Mas nada. Coisa nenhuma. Dez histórias banais num volume intitulado Em Busca da Felicidade e teoricamente em busca da dita mas que muito pouco contribuem para a felicidade do leitor. Vagueia-se entre um casal a braços com uma mosca no copo de vinho, num fim de tarde numa esplanada à beira-mar, um jornalista em início de carreira em Londres indignado com a xenofobia e uma estória para contar de uma relação que houve, não houve, haverá. Com alguns lugares-comuns, previsíveis e sem conteúdo e/ou personagens dignas de nota. Falta-lhes substância, profundidade, consistência. Apenas as de Lídia Jorge e Pepetela suscitaram algum entusiasmo. E foram-se uns doze euros. A minha intuição estava certa e devia ter dado nota daquele encontro fortuito lá nas espiritualidades, ouvido as vozes em pleno hipermercado e tê-lo devolvido no dia seguinte, argumentando que me tinha sido enviado um sinal do além ou lá de onde se situam essas coisas sem explicação. Ser céptico dá nisto.