Ontem foi dia de Bahia. Dia de Itaparica, dia de Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados, dia de Recôncavo e da Cidade Baixa. Dia de João Ubaldo Ribeiro e de Caetano também. Grisalho, acompanhado apenas da sua presença inigualável e do violão, Caetano foi único, a prova de que o talento se aprimora com a maturidade.
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domingo, 27 de julho de 2008
Dia de Bahia
E o Prémio Camões 2008 foi para...
domingo, 27 de janeiro de 2008
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
S de Salvador, S de Sentimento
Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia.
Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do mercado, nas feiras, nos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus.
O povo de Yemanjá tem muito que contar.
Vinde ouvir essas histórias e essas canções.
Jorge Amado, Mar Morto
Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do mercado, nas feiras, nos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus.
O povo de Yemanjá tem muito que contar.
Vinde ouvir essas histórias e essas canções.
Jorge Amado, Mar Morto
Uma caipirinha com uma carne de sol na Cantina da Lua, longe de ser tranquila, vertiginosa e sensual como o movimento de transeuntes, soteropolitanos e gringos que se deslocavam num vaivém frenético e colorido, ladeiras acima e abaixo até ao Largo do Pelourinho, iluminado pela Igreja do Rosário dos Pretos e a Fundação-Casa Jorge Amado, azuis ambas, ponto obrigatório de qualquer visita à cidade do Salvador, coração negro do Brasil, capital primeira do Brasil. E o movimento que se instala, cada vez mais intenso e vivo, um desfile que foi tomando o seu lugar pelas ladeiras circundantes: os filhos de Gandhi, o Olodum, as baianas como se conhecem por esse mundo fora, Bumba Meu Boi, Iemanjá. E de máquina fotográfica em punho embalada com o ritmo contagiante, o cortejo rodopiou, com o sol a brilhar já cadente por trás da Igreja de São Domingos de Gusmão, o contraste necessário para o fulgor do desfile, que soube depois, seria do Dia do Folclore, celebrado a 22 de Agosto no Brasil, escrito para sempre nos meus 22 de Agosto vindouros.
Mas Salvador é mais do que uma data. Salvador é um sentimento que não se deixa pôr por palavras. É ir ao Bonfim e conversar com a Carol e o Jairson sobre patuás e orixás, Erê, o meu, e ninguém tocou ainda, Carol, e fitinhas coloridas, trazer a pagela do Santo Expedito que todos os dias me olha aqui mesmo ao lado, é ver a cidade lá em baixo, é subir e descer as ladeiras do Pelô, regatear com o Caetano o preço dos colares de sementes, descer o elevador Lacerda com a Baía de Todos os Santos em frente, azul e imensa, e vislumbrar do outro lado Itaparica, berço de João Ubaldo Ribeiro, é passear no Mercado Modelo entre souvenirs e pinturas, comprar o que quase todos os turistas compram, mas não, um berimbau não, sentarmo-nos no Maria de São Pedro com a baía que se estende como um lençol azul prateado até encontrar as nuvens plúmbeas do Inverno baiano, ver os capitães da areia lá em baixo, trocar impressões com os inúmeros artistas que frequentam o restaurante - é sabido que baiano não nasce, estreia- enquanto se saboreia uma moqueca ou se relê mentalmente, sem livro algum à nossa frente, a prosa poética de Jorge Amado, alguma dela escrita no Rio Vermelho, onde se pode provar o acarajé longe do burburinho do Pelô. Salvador é o Recôncavo de Dona Canô e o Reconvexo de Bethânia. É saber ali perto Itapoã, onde Toquinho e Vinicius passaram uma tarde de vagabundagem e onde um dia irei sentir a terra toda a rodar. Sem palavras, portanto.
Mas Salvador é mais do que uma data. Salvador é um sentimento que não se deixa pôr por palavras. É ir ao Bonfim e conversar com a Carol e o Jairson sobre patuás e orixás, Erê, o meu, e ninguém tocou ainda, Carol, e fitinhas coloridas, trazer a pagela do Santo Expedito que todos os dias me olha aqui mesmo ao lado, é ver a cidade lá em baixo, é subir e descer as ladeiras do Pelô, regatear com o Caetano o preço dos colares de sementes, descer o elevador Lacerda com a Baía de Todos os Santos em frente, azul e imensa, e vislumbrar do outro lado Itaparica, berço de João Ubaldo Ribeiro, é passear no Mercado Modelo entre souvenirs e pinturas, comprar o que quase todos os turistas compram, mas não, um berimbau não, sentarmo-nos no Maria de São Pedro com a baía que se estende como um lençol azul prateado até encontrar as nuvens plúmbeas do Inverno baiano, ver os capitães da areia lá em baixo, trocar impressões com os inúmeros artistas que frequentam o restaurante - é sabido que baiano não nasce, estreia- enquanto se saboreia uma moqueca ou se relê mentalmente, sem livro algum à nossa frente, a prosa poética de Jorge Amado, alguma dela escrita no Rio Vermelho, onde se pode provar o acarajé longe do burburinho do Pelô. Salvador é o Recôncavo de Dona Canô e o Reconvexo de Bethânia. É saber ali perto Itapoã, onde Toquinho e Vinicius passaram uma tarde de vagabundagem e onde um dia irei sentir a terra toda a rodar. Sem palavras, portanto.
foto: minha
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Vida boa
O que eu queria mesmo era estar aqui
esticada ao sol
com a carícia do calor a castigar-me o corpo
a beber uma caipirinha ou uma água de coco
a comer uma espetadinha de camarão
ou um pastelinho
ou um queijo assado
esticada ao sol
com a carícia do calor a castigar-me o corpo
a beber uma caipirinha ou uma água de coco
a comer uma espetadinha de camarão
ou um pastelinho
ou um queijo assado
sem nada para fazer
nada para pensar
só com o marulhar fininho das ondas na areia
e o gemido do coqueiros
nada para pensar
só com o marulhar fininho das ondas na areia
e o gemido do coqueiros
Maceió
foto: minha
sábado, 7 de julho de 2007
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Paradeiro
Porque este blogue se tornou também o meu porto de abrigo e o sítio onde comungo as minhas vitórias e tristezas, mágoas e conquistas, onde rio e choro e porque, sem vocês que me visitam, eu seria infinitamente mais pobre e este local não teria sentido, um beijo no dia que passa a todos os que passam no meu paradeiro.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Panaceias

Isto começa lá para meados de Janeiro
quando o frio se torna insistente.
Primeiro são as fotografias do Verão anterior.
Depois vem a música.
quando o frio se torna insistente.
Primeiro são as fotografias do Verão anterior.
Depois vem a música.
A seguir, bebe-se uma caipirinha.
E assim se vai vivendo de panaceias
para acalmar as vontades.
E assim se vai vivendo de panaceias
para acalmar as vontades.
quarta-feira, 28 de março de 2007
Fechando o Verão
Primeiro o impacto das rodas na pista, o batimento cardíaco levemente acelerado e ainda a dúvida. Será? O corpo moído, os olhos morcegos habituados a onze horas de ausência da luz solar e, finalmente, ar livre e rua. A Cidade Maravilhosa amanhecera não havia muito. Talvez por isso tenha tomado por natural uma certa neblina. Certo é que raros são os postais reais e imaginários do Rio de Janeiro onde o céu e o mar não são assustadoramente azuis e belos, o verde, o contraste perfeito e o Cristo Redentor, pacífico e sereno abraçando a cidade lá em baixo, intocável, impassível perante a vida dos homens turbulenta tão abaixo do seu pedestal inabalável. Neblina, porquê, então? E depois rumámos pela Linha Vermelha para a Zona Sul. Pela janela, ia procurando. Nada. E depois no hotel a conversa para casa e a pergunta facilmente adivinhável E O Cristo, Já viste o Cristo? Não, o tempo está meio cinzento. De tarde, a neblina adensara-se, o tempo fechara completamente e o postal do Rio que lentamente se desenhava à minha frente adquiria tonalidades cinzentas, salpicadas pela Mata Atlântica, uma bruma obstinada mais translúcida, a espaços, como um véu a envolver o Cristo Redentor. Outras cores diferentes das que fui acalentando ao longo de décadas. O castanho do eencavalitado de casas morro acima. Nos três dias seguintes chuvas, a pergunta de sempre, e nos três dias seguintes a descoberta e a certeza que, mesmo com chuva, a cidade jamais sairá beliscada e adquire uma aura de mistério e serenidade. Da janela do quarto, o Calçadão e o mar revolto, o Tóni dos Cocos recebendo a sua carga diária bem cedinho pela manhã, os cariocas ainda assim usufruindo a cidade que é deles, uma peladinha de final de tarde, um jogging, uma água de coco debaixo do chapéu, outrora de sol, agora de chuva e o camelô que guardara sua mercadoria. Chuva, o meu Rio tinha agora chuva. Tornara-se mais nostálgico, enlaçado na melancolia dos trópicos, salpicado daquelas teimosas águas de Março que descolorindo a cor vibrante do meu postal imaginário, o preencheram melodiosamente com a voz de Elis avisando que estavam fechando o Verão.
terça-feira, 13 de março de 2007
Vida leva eu
A tarde aconchegava-se no regaço da noite. Entre cariocas e turistas, caipirinhas saboreadas à porta dos bares ou nas janelas para o outro lado do casario encavalitado, e souvenirs acabados de adquirir nas lojas para o efeito, um bulício miudinho instalava-se em Santa Tereza. A hora anunciava o regresso.
Do outro lado da rua, numa pequena praça, um táxi largava turistas e de turistas se havia de ocupar de novo, quando atravessámos a rua e lhe pedimos que nos levasse ladeiras abaixo até Ipanema na Zona Sul. O trajecto escolhido seria um pouco mais longo, mas certamente com menos trânsito. Confiar em taxistas pode ser um risco, mas pode também abrir janelas do desconhecido.
Cosme Velho, no sopé do caminho, morro acima, que levaria ao Corcovado e que dias antes percorrêramos. Detive-me na paisagem, embrenhada na Mata Atlântica com o perfume da clorofila densa a entrar pela janela aberta do táxi. Lá dentro, a conversa começara a girar ao ritmo tranquilo da tarde que se escondia. Portugueses? Sim, portugueses. Sei que terei dito como era única aquela cidade, mesmo não me lembrando de o ter feito. Quem algum dia viu o Rio de Janeiro a seus pés jamais recuperará de tanta beleza e sei que teria no rosto o sorriso pateta de quem se deixa absorver por essa beleza insondável instalada na alma para ficar até ao último dia de memória. O taxista sorriu, feliz pelo elogio, habituado, contudo, a ele.
Seria Domingo e dia de Fla-Flu. O Maracanã estaria então a esvaziar-se após o clássico dos clássicos não muito longe dali. Mesmo quem não gosta de futebol sabe que Fla-Flu é Fla-Flu. No rádio, ainda os resquícios do jogo. O resultado? Um empate talvez. À saída do túnel Rebouças, a conversa soltara-se desinibida. E quais dos brasileiros estavam jogando em Portugal? Liedson, por exemplo. Não, esse não conheço não. Luisão? Sim, claro. E Felipão, o gaúcho teimoso que impôs sua vontade mas trouxe o título para casa em 2002, estava agora ao serviço de Portugal.
A tarde cada vez menos nítida e lá fora a brisa suave de Março, misturada com uma humidade perfumada e o linguajar doce desse português do Brasil, musical e carinhoso. E ao atravessarmos a cidade, de repente com a Lagoa Rodrigo de Freitas em frente, a conversa escorregou para a festa de recepção dos pentacampeões no Rio que o taxista relatava com emoção potenciada pela alma brasileira e a paixão pelo futebol. Isso aqui tava assim de gente… e continuava O senhor não conhece? Zeca Pagodinho? O nome não era de todo estranho, também a propósito da Copa do Mundo e da obstinação de Scolari ao preterir todos os afamados cantores brasileiros por um simples pagodeiro que pelo sonho ajudara a levar o país à vitória, surgira algures numa conversa passada. A melodia absolutamente desconhecida, porém. E o taxista, mais convincente que qualquer outro guia de viagem credenciado, cantou-nos Confesso que sou de origem pobre, meu coração é nobre, foi assim que deus me fez…Deixa a vida me levar. Vida leva eu. Deixa a vida me levar… Conhece agora? E continuava cantando Vida leva eu… Naquele táxi atravessando a cidade talhada entre morros, céu e mar, surgiu mais um hino para a banda sonora da cidade maravilhosa, sem o brilhantismo de outros compositores, igualmente genuíno e autêntico. Nada como deixar a vida nos levar.
Do outro lado da rua, numa pequena praça, um táxi largava turistas e de turistas se havia de ocupar de novo, quando atravessámos a rua e lhe pedimos que nos levasse ladeiras abaixo até Ipanema na Zona Sul. O trajecto escolhido seria um pouco mais longo, mas certamente com menos trânsito. Confiar em taxistas pode ser um risco, mas pode também abrir janelas do desconhecido.
Cosme Velho, no sopé do caminho, morro acima, que levaria ao Corcovado e que dias antes percorrêramos. Detive-me na paisagem, embrenhada na Mata Atlântica com o perfume da clorofila densa a entrar pela janela aberta do táxi. Lá dentro, a conversa começara a girar ao ritmo tranquilo da tarde que se escondia. Portugueses? Sim, portugueses. Sei que terei dito como era única aquela cidade, mesmo não me lembrando de o ter feito. Quem algum dia viu o Rio de Janeiro a seus pés jamais recuperará de tanta beleza e sei que teria no rosto o sorriso pateta de quem se deixa absorver por essa beleza insondável instalada na alma para ficar até ao último dia de memória. O taxista sorriu, feliz pelo elogio, habituado, contudo, a ele.
Seria Domingo e dia de Fla-Flu. O Maracanã estaria então a esvaziar-se após o clássico dos clássicos não muito longe dali. Mesmo quem não gosta de futebol sabe que Fla-Flu é Fla-Flu. No rádio, ainda os resquícios do jogo. O resultado? Um empate talvez. À saída do túnel Rebouças, a conversa soltara-se desinibida. E quais dos brasileiros estavam jogando em Portugal? Liedson, por exemplo. Não, esse não conheço não. Luisão? Sim, claro. E Felipão, o gaúcho teimoso que impôs sua vontade mas trouxe o título para casa em 2002, estava agora ao serviço de Portugal.
A tarde cada vez menos nítida e lá fora a brisa suave de Março, misturada com uma humidade perfumada e o linguajar doce desse português do Brasil, musical e carinhoso. E ao atravessarmos a cidade, de repente com a Lagoa Rodrigo de Freitas em frente, a conversa escorregou para a festa de recepção dos pentacampeões no Rio que o taxista relatava com emoção potenciada pela alma brasileira e a paixão pelo futebol. Isso aqui tava assim de gente… e continuava O senhor não conhece? Zeca Pagodinho? O nome não era de todo estranho, também a propósito da Copa do Mundo e da obstinação de Scolari ao preterir todos os afamados cantores brasileiros por um simples pagodeiro que pelo sonho ajudara a levar o país à vitória, surgira algures numa conversa passada. A melodia absolutamente desconhecida, porém. E o taxista, mais convincente que qualquer outro guia de viagem credenciado, cantou-nos Confesso que sou de origem pobre, meu coração é nobre, foi assim que deus me fez…Deixa a vida me levar. Vida leva eu. Deixa a vida me levar… Conhece agora? E continuava cantando Vida leva eu… Naquele táxi atravessando a cidade talhada entre morros, céu e mar, surgiu mais um hino para a banda sonora da cidade maravilhosa, sem o brilhantismo de outros compositores, igualmente genuíno e autêntico. Nada como deixar a vida nos levar.
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Do que é sabido
É sabido que sou uma amante indefectível do Brasil, que chorei ao avistar o Rio de Janeiro bem lá do alto, que sorrio até às orelhas quando me falam da Cidade Maravilhosa, que esperei muito para pôr pé no local de onde me acho, que gostaria de ter desfilado no Carnaval Carioca, que adoro caipirinha, que amo feijoada à Brasileira, que cá em casa se come farofa desde sempre e queijo com goiabada idem, que até o MCPelé a cantar Glamurosa me faz sorrir, que Maria Bethânia com o seu Reconvexo me faz chorar, que Fico Assim sem você de Adriana Calcanhotto é um hino ao amor dos meus pais, que da cintura para baixo faço jus às minhas raízes e ao estereótipo, que fico feliz por ainda em tempo de vida do meu pai ter ido ao Rio de Janeiro, que cada vez que venho do Brasil tenho vontade de voltar, que tenho um carinho maior do que estas palavras por quem me visita do outro lado do Atlântico, que a voz do Arnaldo Antunes me impressiona, que gosto seguir o rasto do Delegado Espinosa, que agradeço ao Avenalve por ambos e não só, à Gláucia ela sabe porquê e à Martha pelas visitas e palavras, que me perco por um feijãozinho tropeiro, que daria tudo para agora estar a beber uma água de coco numa dessas praias que me aquecem a alma, que dei por mim a ouvir Jorge Amado a ler em surdina Mar Morto quando me sentei no Maria de São Pedro bem de frente para a Baía de Todos os Santos, em Salvador, que ainda hei-de passar uma tarde em Itapoã com o Hélder, que Paraty é um dos desses lugares mágicos que dificilmente se deixam explicar por palavras, que no Bonfim repousará um fitinha vermelha atada num gradeamento de ferro, ainda na esperança da recuperação do meu pai, que não voltarei ao Bonfim para pagar o que me não foi concedido, que me orgulho quando no Brasil me procuram e me acham meio brasileira, que foi lá que este ano pude finalmente descansar e retemperar forças para seguir em frente, que a música brasileira me ateia o corpo e me eleva a alma, que a probabilidade de se ouvir música brasileira aqui em casa é superior a noventa por cento, que ainda tenho esperança de um dia, ao flanar por Ipanema, me cruzar com Chico Buarque, de olhos cristalinos no Atlântico, que o Budapeste é um dos meus livros preferidos, que querer conhecer Budapeste também teve a ver com Budapeste, que me perco na literatura brasileira, que venho carregada de livros sempre que regresso, que o linguajar brasileiro me amolece a alma, que contagiei esta paixão grande à minha cara-metade e que, hoje quando o meu cabeleireiro brasileiro me elogiou o cabelo com um sorriso genuíno Qui cábêlo! Cábêlo brásilêro!, vim a correr para casa escrever-vos também o que ainda não era sabido.
quarta-feira, 18 de outubro de 2006
segunda-feira, 9 de outubro de 2006
terça-feira, 26 de setembro de 2006
domingo, 2 de abril de 2006
Cantinho Escondido
Dentro de cada pessoa
Tem um cantinho escondido
Decorado de saudade
Um lugar para o coração pousar
Um endereço que frequente sem morar
Ali na esquina do sonho com a razão
No centro do peito, no largo da ilusão
Coração não tem barreira, não
Desce a ladeira, perde o freio devagar
Eu quero ver cachoeira desabar
Montanha, roleta russa, felicidade
Posso me perder pela cidade
Fazer o circo pegar fogo de verdade
Mas tenho meu cantinho cativo pra voltar
Eu posso até mudar
Mas onde quer que eu vá
O meu cantinho há-de ir
Dentro
Tem um cantinho escondido
Decorado de saudade
Um lugar para o coração pousar
Um endereço que frequente sem morar
Ali na esquina do sonho com a razão
No centro do peito, no largo da ilusão
Coração não tem barreira, não
Desce a ladeira, perde o freio devagar
Eu quero ver cachoeira desabar
Montanha, roleta russa, felicidade
Posso me perder pela cidade
Fazer o circo pegar fogo de verdade
Mas tenho meu cantinho cativo pra voltar
Eu posso até mudar
Mas onde quer que eu vá
O meu cantinho há-de ir
Dentro
Marisa Monte, Universo ao Meu Redor
sábado, 1 de abril de 2006
Crónica da Carne Seca
Lembrei-me pois que das duas únicas vezes que fui ao Brasil trouxe para o meu querido pai carne seca. Na verdade nunca foi pessoa de grandes exigências e sempre que eu viajava sorria-me feliz e dizia-me apenas para me divertir e aproveitar tudo, tudinho mesmo. Quase sempre ele e a minha mãe iam buscar-me ao aeroporto e quase sempre ele estava nas primeiras filas em frente à porta de desembarque de mão no ar para se fazer ver no meio da multidão, sempre feliz por me/nos ter de volta, ansioso pelo nosso regresso. Qualquer ausência era grande e ao fim de sete ou oito dias ele próprio, meio a sério meio a brincar, se afirmava saudoso. Quando regressei da última vez e vi o seu espaço vago diante dos meus olhos, o prenúncio do seu iminente afastamento súbito e inesperado e abracei a minha querida mãe sozinha, senti, ainda sem saber, que aquela tinha sido infelizmente a primeira vez, de todas as seguintes que me esperarão, que tal acontecia. A saudade não espera pela partida definitiva, impõe-se ao menor sinal do coração.Mas contava eu que, embora o meu querido pai não fosse exigente e se contentasse com os pequenos prazeres da vida, não era homem de sucedâneos ou substitutos em termos gastronómicos, logo, a feijoada à brasileira para fazer jus ao seu epíteto tinha de ter carne seca impreterivelmente. Assim terá sido habituado também pela sua mãe, a minha avó brasileira. Este seu desejo não foi ao longo dos tempos fácil de realizar. Lembro-me de apenas um local em Lisboa vender a dita carne que, diga-se em abono da verdade, sempre me repugnou um pouco em virtude do cheiro intenso que exala aquando da sua cozedura. O próprio feijão preto era igualmente difícil de encontrar. Várias pessoas foram trazendo carne seca ao meu pai, directamente do Brasil, e sei que lhes ficou grato até ao último dos seus dias.
Quando lhe perguntei o que queria que eu lhe trouxesse do Brasil, chegada que era a minha vez de lá ir, a resposta foi categórica: carne seca, pois claro. Obviamente o desejo foi satisfeito de ambas as vezes, embora da última ele não tenha já podido provar, mas de ambas senti um calafrio ao pensar que na alfândega, ao pedirem-me para abrir a mala, poderiam confiscar-me a carne seca, repousada que estava bem no fundo da mala, escondida com a roupa desalinhada e uns quantos pares de havaianas de cores e padrões diversos. A sensação de prevaricação não se comparava ao desgosto de depois de termos carregado quatro ou cinco quilos de carne seca a abandonarmos mesmo às portinhas da liberdade e de chegar ao pé do meu pai de mãos a abanar, despojada da tão desejada iguaria. Dispor-me-ia até a ir a Fátima a troco da carne seca, jamais poderia desiludir o meu querido pai dessa forma. Sei, contudo, que me diria Deixa lá, filha. Há coisas piores... sobrepondo sempre a felicidade do reencontro à falta da carne seca. Por graça não se sabe de quem, do acaso certamente, sempre cheguei com a encomenda e aqui entendi melhor a dimensão que as coisas aparentemente pequenas podem tomar quando não existem perto de nós.
*Recomenda-se a leitura desta crónica ao som da Feijoada Completa de Chico Buarque acompanhada de uma caipirinha.
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