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terça-feira, 17 de março de 2009

Cronicando


Saí tranquila, secretamente pecadora pelas castanhas para os rojões opíparos e a garrafa de vinho tinto chileno, uma recente descoberta das incursões em busca do néctar de Baco. Saio triunfante com os pecados no saco e a convicção de que este tipo de acções, especialmente porque têm em vista a comercialização de um produto e não estando isentas de segundas intenções, têm em mim o efeito oposto e são tão inócuas e vãs como qualquer charlatão que me queira impingir uma mezinha contra o bucho virado, mal que me atormenta quando vejo a titular da pasta da educação balbuciante perante as questões que lhe colocam ou choramingona clamando que não a deixam falar no Parlamento.

Ide ao PnetMulher espreitar o resto do palavreado.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Em dia de Primavera

Em dia de Primavera não há mal que me aflija, penso, enquanto vejo as réstias do sol crepuscular entre os prédios a iluminar como um foco a casa, outrora um ponto fulcral da avenida, onde se fazia o melhor pão com chouriço e com torresmos que algum dia comi. Procuro a chave entre tralhas várias e dirijo-me ao carro, transpirada e cansada dos saltos e pulos a que os tempos modernos obrigam, a fuga para a frente contra o colesterol e obesidade. E o crepúsculo a chegar, o dia arrumado finalmente. Respiro fundo. O aroma indefectível da Primavera, a aromaterapia sem academias nem salões, a fragrância que se solta, será das nespereiras?, mais genuína que massagens de chocolate e outras modernices paridas em conformidade com a artificialidade de uma contemporaneidade balofa. Abro as janelas do carro e inspiro o perfume do dia que adormece. A brisa que me perpassa o cabelo, o bálsamo da tranquilidade que se instala. Rumo ao pôr-do-sol iminente que ilumina uma tarja de mar acobreado bem longe. E depois o caminho de sempre. A Igreja do lado direito, o muro do mesmo lado uns metros abaixo e o aperto de sempre, afinal tão longe e ainda tão perto, o dia em que te deixei aí, meu pai. Mas em dia de Primavera não há mal que me aflija, reitero, a panaceia ocultando a ausência.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Under pressure

Página 161


Pede-me a Luísa que cite a sexta frase da página 161 do livro que me acompanha de forma mais insistente na mesa-de-cabeceira. Reza assim:

Mama realized Jaromil was offering her a great opportunity.


Milan Kundera, Life is Elsewhere.

ilustração: Helga Sermat

terça-feira, 10 de março de 2009

Momento sitemeter (18)

E anda uma pessoa relativamente tranquila a beber todos os raios de sol oferecidos com parcimónia, enleada no aroma primaveril que a brinda ao sair de casa pela manhã, para ser surpreendida com a pergunta Como casar com um milionário? Não queriam saber mais nada, não?

Terça-feira


O passado é um país distante ao qual regresso raramente, mas ao qual retornei na procura incessante dessa matriz, desse tempo que já não há, obsoleto e distante, tangível apenas através do exercício de recuperação dos momentos, as peças dum puzzle cuidadosamente unidas, assim coopere a memória.

sábado, 7 de março de 2009

Verdades e mentiras (2)

1. Queria ser jornalista em adolescente mas o meu pai demoveu-me com o argumento da falta de segurança na profissão. Ainda hoje me arrependo de não ter ido em frente e de não ter sido mais obstinada.
Verdade. Ainda hoje, ou hoje mais do que nunca, arrependo-me. Pena que aos quarenta e três anos esteja acabada para o mercado de trabalho.

2. Desde criança que sonhava com o casamento, grinaldas e vestidos de noiva.
Mentira, a mais pura das mentiras. Sempre achei que seria incapaz de o fazer e quando surgiu o filme "A Noiva em fuga" identifiquei-me totalmente.

3. Ofereceram-me uma escola e propuseram-me um casamento milionário que recusei por razões de coração.
Verdade e mais não digo. Divulgar isto já é muito.

4. Já ganhei viagens em passatempos.
Verdade. Ganhei três viagens em três passatempos.

5. Acalentei a ideia de escrever um livro no passado.
Verdade. Desisti da ideia quando comecei a ver tanta fancaria nos escaparates das livrarias e a pensar que ter sido recusada pelas editoras talvez fosse sinónimo de qualidade. Modéstia à parte.

6. Durante algum tempo fiz aconselhamento de casais na Igreja Católica mas decidi sair por razões várias.
Mentira. E das grandes. Tenho uma relação difícil com a Igreja Católica, cada mais de incompatibilidade.

7. Vivi um romance tórrido com um professor meu.
Mentira. Além de outros constrangimentos, eram todos, quase todos feios. O único irresistível era gay.

8. Aprendi a nadar na Figueira da Foz e sempre lidei com mares bravos e frios.
Verdade. O meu avô chegou a ir ver a netinha a nadar. Das boas recordações que guardo.

9. Estava na 4ª classe quando fui pressionada para fazer a primeira comunhão por uma beata que ia à minha escola espreitar quem eram os ímpios.
Verdade. O raio da beata.

Verdades e mentiras (1)

Primeiro a pedido da Luísa, depois da Sinapse, aqui estão seis verdades e três mentiras. Resta descobrir quais são o quê.

1. Queria ser jornalista em adolescente mas o meu pai demoveu-me com o argumento da falta de segurança na profissão. Ainda hoje me arrependo de não ter ido em frente e de não ter sido mais obstinada.

2. Desde criança que sonhava com o casamento, grinaldas e vestidos de noiva.

3. Ofereceram-me uma escola e propuseram-me um casamento milionário que recusei por razões de coração.

4. Já ganhei viagens em passatempos.

5. Acalentei a ideia de escrever um livro no passado.

6. Durante algum tempo fiz aconselhamento de casais na Igreja Católica mas decidi sair por razões várias.

7. Vivi um romance tórrido com um professor meu.

8. Aprendi a nadar na Figueira da Foz e sempre lidei com mares bravos e frios.

9. Estava na 4ª classe quando fui pressionada para fazer a primeira comunhão por uma beata que ia à minha escola espreitar quem eram os ímpios.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A espera

Estou aqui sossegada, rodeada de livros, frente ao ecrã pálido como a manhã, a Ruiva que dorme o sono dos justos enrolada na cadeira, o rádio ligado, e a espera, as horas que vão decorrendo, a demora, a delonga. Espreito pela janela e vejo os vizinhos peripatéticos nos terraços da nossa preocupação. E espero-o. Olho para o relógio verificando a delonga, o tempo que passa lento, a extensão da invernia que teima em se impor no mês da Primavera. É tarde. A Ruiva acorda finalmente e a Lolita aparece vinda não se sabe de onde. Inquieto-me Nunca mais vem, penso. Faço um chá bem quente, a compensação do Inverno que não passa, o rádio toca indiferente. O aroma que se solta. E ele não vem. Espreito pela janela. Os vizinhos continuam o seu passeio, verificando as juntas e o cerâmico, aventando hipóteses de naturezas várias. Demorará muito? Dou mais uma volta, sitiada pelo tempo cinzento, a chuva miudinha que espreita a espaços. A Guidinha salta-me para o colo, ajeito-me para que caiba melhor, enrolada contra a intempérie. Ainda vai demorar? A campainha toca. É ele.

terça-feira, 3 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

3 for 2

Ainda gostava de saber por que e que um livro em Terras de Sua Majestade custa oito ou nove libras e em Portugal nenhum se compra por menos de treze euros.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

From Scotland with love

Postar sem acentos apresenta-se-me como uma aventura. Aqui ando catando palavras sem os ditos, fugidias que nem wild haggis por estas misteriosas e sedutoras Terras Altas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

E mais uma...


Reposta a ordem, o cidadão foi dormir com a sua senhora de rolos na cabeça, deu-lhe a queca costumeira, sem ais nem uis, com a camisa de dormir e pijama de entremeio, beijo na testa e três ave marias redentoras de ser tão incompetente nas artes fornicadeiras para posteriormente se aliviar na casa de banho com revistas da especialidade. Não sei o Ministério Público lhe seguiu o exemplo, mas sei que este país é uma grande e sonora risada.
O resto está no PNETmulher e toca a rir que hoje é Carnaval.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Away


E quando lerem estas letras estarei longe, algures bem a Norte, no sítio onde os homens usam saias, a confirmar o mito e a beber uma pint. Estaria, se não levasse os meus alunos comigo, assim fico-me por estar apenas no sítio onde os homens usam saias.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Revoltante, revoltante...

é ter saído da escola ontem às 21.30 para estar a trabalhar para as estatísticas do Sócrates.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Maluqueiras à meia-dúzia

E seria lá capaz de negar um pedido do Mike? Aqui ficam seis das minhas muitas manias:

* Tenho um olfacto muito apurado. Sinto aromas à légua e, se pudesse, cheirava tudo antes de comer.

* Sou incapaz de fazer uma receita ipsis verbis. Começo com a melhor das intenções, respeitadora e reverencial, e, quando dou por mim, pouco ficou da receita original.

* Tenho um ódio figadal a todos os trabalhos domésticos, excepto a cozinha, que é um prazer imenso.

* Não tenho paciência nenhuma para pessoas hipocondríacas que encetam conversas sobre maleitas e fraquezas e que fazem das doenças uma forma de vida.

* Detesto depender dos outros e ter os outros muito dependentes de mim. Talvez por isso, seres muito pequenos fazem-me alguma confusão.

* Tenho pavor de perder os que amo. O Freud explica ou apenas a força dos afectos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Cronicando

A ideia começou a maturar não sei exactamente quando, embora admita que, com a idade a avançar e os dias jovens para trás, a saturação de uma profissão desgastante, socialmente desprestigiante e desprestigiada, e a necessidade de dias tranquilos sem confusões supérfluas criadas em gabinetes com fins estatísticos muito precisos e minuciosos agravou a necessidade de bater a porta do ensino e sentir fluir os dias entre momentos de plenitude e calmaria sem acusações ou julgamentos em praça pública.
hoje no PnetMulher

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

ʇǝuɹǝʇuı ɐu ɯǝɹqoɔsǝp ǝs ǝnb sɐsıoɔ

¿oɹıƃ oãʇ é oãu ˙ɐpıpuǝɹ noʇsǝ nǝ ˙oʇsı ɯoɔ ǝs-ɯɐʇɹıʌıp 'soƃıɯɐ soɯıssíɹɐɔ 'ál éʇɐ ˙opıʇuǝs ɐçɐɟ ǝnb ǝ sɐpɐǝpɐɔuǝ sɐıǝpı ɯoɔ 'oıɹés ɐ oʇxǝʇ ɯn 'oʇuǝɯoɯ ɯn 'ɐpɐɥlɐƃsǝ ɯǝq ɐıɹóʇsıɥ ɐɯn 'soɹqɯǝɯ ǝ oɔuoɹʇ 'ɐçǝqɐɔ ɯoɔ oƃlɐ ɹǝʌǝɹɔsǝ ɐɹɐd odɯǝʇ o ɐʇlɐɟ oʇuɐnbuǝ ʇsod oɯıʇdó ɯn oãp ǝnb ǝ...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Regressarei...

assim que emergir das provas de recuperação, planos de recuperação, objectivos individuais, fichas de auto-avaliação e outras aberrações desmioladas que produzirão maravilhas nas estatísticas de Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dia de cronicar


Devia ter previsto que ela me esperaria paciente, como as fêmeas fazem, esperaria, ai como esperaria, até que surgisse a brecha, a frincha, o momento decisivo para me castigar, fustigar e para me fazer sentir culpada pelas palavras que lhe dediquei. Obviamente tudo atitudes femininas, mais femininas não poderiam ser, só as fêmeas conseguem que os homens façam das suas palavras boomerangs que a eles voltam, por vezes violentamente, e só as fêmeas se agarram àquela palavra, aquela mesmo, pequenina, ínfima, insignificante mas que uma vez descoberta se tornará poderosa, capaz de afugentar dragões e outros seres de que rezam os mitos.
Para ler o resto nada como uma escapadinha ao PNETMulher

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Crónica de uma professora indignada

Mas quem, quem foi o energúmeno que pariu este modelo de avaliação de professores?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Terça-feira


Maria Odete não foi sempre assim. Muito antes deste mal que lhe afligia os humores e a fazia espojar-se no chão como uma égua relinchante, tempos houve em que Maria Odete era mulher pujante, equilibrada em saltos vertiginosos, prazeirosa em ostentar roupas, ouros refulgentes e carros vistosos na proporção dos restantes acessórios.

O resto pode ser lido no sítio onde sete mulheres cavaqueiam a seu bel-prazer, no PNETMulher, já se sabe.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A cusca e a inquilina

A cusca era uma mulher pelos seus sessenta anos, rotunda e de penugem farta sobre o lábio superior que catava no fim-de-semana na cabeleireira da aldeia, altura em que aparecia com as sobrancelhas depiladas em arco e as superfícies agora dadas ao ar avermelhadas pelo calor da cera. A cusca não se chamava cusca, a cusca chamava-se um outro nome. A cusca passeava a barriga proeminente rua acima e rua abaixo, durante a semana passeava também a bata de trabalho sempre com as mãos nos bolsos e os sentidos despertos não fosse acontecer algo na sua vizinhança.
A cusca tinha um filho, único, tão rotundo como ela, sem as mamas achatadas sobre a pança, mas igualmente tisnado do sol que padecia de solteirice aguda, o que sendo tão parecido com a cusca senhora sua mãe não era de estranhar. E parecido que ele era, o mesmo olhar ensimesmado e desconfiado, a denúncia inequívoca da sua origem, as sobrancelhas a tocarem-se. Azar tivera. Caso fosse parecido com o pai mudar-se-lhe-ia a sorte, porque não sendo a beldade das beldades, era um homem jeitoso para os padrões. A cusca chorava e chorava-se muito e sofria muito com este mal do seu filho, tantas casas e um carro tão bom e solteiro, tanto sofria, que, quando um dia lhe bateram à porta para a convidarem para um casamento, debulhou-se em lágrimas e aos ais, que não, que não podia ir, ai que desgosto, meu rico filho, que só ia a casamentos quando o seu menino se casasse.
A cusca era carinhosamente apelidada de cusca porque nutria um especial interesse por tudo o que dizia respeito à vida alheia e, na sua condição de cusca, efabulava amiúde para justificar as falhas nas narrativas urdidas em conversas dispersas. Certo dia a cusca bateu à porta da inquilina. Era Domingo à tarde e a inquilina detestava Domingos à tarde e de Inverno para agravar a situação. A inquilina pensou Vem cá vem, vem cá vem, que vais ver como elas te mordem… A inquilina deixou a cusca aproximar-se de mansinho e quando ela estava aos salamaleques, boas tardes e outros fait-divers, a inquilina resolveu pôr em pratos limpos os boatos que lhe haviam chegado
Havia uns meses que a casa da cusca se enchera de manchas amarelas que mais pareciam um quadro de Miró, humidade entranhada nas paredes que se soltara com o calor da lareira, razão lógica para qualquer mortal. Não sendo a cusca qualquer mortal, não havia razão que maculasse as suas ricas casas, excepto uma utilização medieval da sua querida lareira. Era ela a inquilina que andava a assar chouriços na lareira.
A inquilina chegou-se à porta, por esta altura, ia eriçada e furibunda, e atira à cusca Ora ainda bem que aí vem. Então diga-me lá. Anda para aí a dizer que eu asso chouriços na lareira? A cusca ruborizou, escandalizada e aflautou a voz Eu? Eu a dizer uma coisa dessas? A inquilina não lhas poupou. Uma ensaboadela bem passada que deixou a cusca em estado calamitoso de choraminguice. Que não, que não tinha dito nada, que as pessoas é que eram maldosas e que isto e que aquilo e foi-se afastando-se aos Ora vejam lá, diz uma pessoa uma coisa, abanicando a saia domingueira até ao portão que deixou criteriosamente fechado. E depois desse dia não mais vi a cusca.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sodade


Diz que hoje é dia dela e eu tenho sodade também. Sodade de beber um ponche no Mateus no Sal, ou de comer um cozido de peixe em S. Tomé, beber uma capirinha acompanhada com uma espetadinha de camarão na praia, pode ser em Búzios, sobrevoar o Rio de Janeiro, passar uma tarde no Pelourinho em Salvador ou descer pelo Elevador Lacerda ao Mercado Moderno, subir ao Bonfim, calcorrear Havana e retemperar o calor com um mojito pelo meio-dia e ver a manhã chegar em Negril. Ai sodade, sodade.

Excelentemente nus

E sempre que me abeiro do computador as crónicas, os textos e os posts surgem, os que não posso escrever, mas que me saltam sem que nada possa fazer, o desfile das presunções alheias, os reis e rainhas que vão nus e que vejo passearem-se à minha frente, provavelmente em qualquer sala de professores, o embuste de uma avaliação que diz distinguir os muito bons dos medíocres. E lá vão eles, os muito bons e excelentes desfilando com pompa e circunstância, embriagados pelo seu ego maior do que a competência que querem agora alardear, enganando-se apenas a eles próprios e aos papalvos que saltam de caixa de comentário em caixa de comentário dando vivas a uma política de educação degradante e chacinando os professores vistos do alto do seu douto umbigo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Crónica de uma professora entupigaitada

Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Ai Os posts que eu escreveria se pudesse...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Coincidências

Estar a dar os graus de parentesco em plena crise de consanguinidade lá para São Bento.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Nacos de prosa (7)

Um dia, Gronk, o Cro-Magnon do Norte, disse (logo depois de ter inventado a linguagem) a Bonga-Bonga, Cro-Magnon do Sul: "mim diferente tu". O que poderia ter sido o início de uma afirmação inteligente tomou-se, desde logo, razão para uma troca de marretadas porque Gronk acrescentou: "tu diferente mau, mau". Desde então enraizou-se cada vez mais, através da longa história da estupidez humana, a ideia de que as diferenças entre seres humanos são uma coisa negativa. Isso aparece espelhado em frases, muitas vezes repetidas, acerca de "diferenças inconciliáveis" ou pessoas que se agrediram entre si por "não conseguirem resolver as suas diferenças".

Vítor Rodrigues, A Nova Ordem Estupidológica

sábado, 24 de janeiro de 2009

A lambisgóia contra-ataca

De há um tempo a esta parte arquitecto na minha cabeça um folhetim de episódios vários já confessado aqui, uma espécie de literatura de cordel para ser vendida em fascículos lado a lado com o Borda da Água. Depois de ter aberto uma grande superfície comercial aqui perto, ir ao supermercado tem sido uma aventura. Há dias que me desloco numa intencional caça ao post ou à crónica. Nesses dias o atendimento corre sem incidentes, as crónicas e posts encolhem-se entre os frascos de espargos, já vi uma esgueirar-se entre as beringelas e as courgettes e outro dia apanhei um post pela cauda, ia já escapulir-se ligeirinho entre o detergente para a roupa e o amaciador. Agarrei-o in extremis e aprisionei-o às letras.
Neste dia não ia à caça ao post. Cansada depois de um dia de trabalho lancei-me nas compras tradicionais e cumpri com exactidão a declaração de intenções lavrada num diminuto papelito branco pela fugaz hora de almoço. Há sempre algo que escapa, porém, e quando me ia embora lembrei-me que me faltavam ovos, agarro pois uma embalagem de uma dúzia e dirijo-me à caixa. Nos tempos que correm, deixámos de ser donos e senhores no que respeita à arrumação das compras nos sacos de supermercado, suspeito que a razão se deverá a uma usurpação pungente dos ditos por parte da fauna hipermercadeira que os arruma aos magotes entre as compras, o português é detentor de uma incontrolável ímpeto usurpador caso lhe seja oferecido algo. Assim sendo, tenho-me visto privada desse momento e vejo as minhas compras a serem encafuadas nos sacos de acordo com os humores dos caixas que, à semelhança de outros espécimes da fauna lusa, têm humores muito diversos. Encontro ex-alunos sorridentes e bem-dispostos prontos a cumprimentar a ex-professora, outros mais tímidos, mulheres de carranca em dias difíceis, jovem inanes incapazes de juntar um mais um e outros espécimes sem classificação. O último destes encontrei-o neste mesmo dia, quando ao arrumar-me as compras, espetou-me a embalagem de uma dúzia de ovos, altiva, na vertical, provavelmente uma estratégia para aumentar as vendas. Quando chegasse ao carro nem as cascas se aproveitariam. É melhor pensar assim do que admitir que nos dias que correm a maior parte das pessoas que nos atendem não são capazes dos gestos mais básicos e confundem uma dúzia de ovos com uma baguete de pão.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

Quem não tem medo de Florbela Espanca

Das características que o meu pai me deixou como legado lamento não ter herdado a capacidade cirúrgica de não deixar passar uma gralha que fosse. Habituado e familiarizado com a língua portuguesa também por motivos profissionais tornou-se num guardião implacável. A meio das conversas, quando lia uma revista ou se lia um rótulo, aconteceu num duma garrafa de azeite e noutro de uma garrafa de vinho, a perspicácia aliada a muita prática saltava sem pedir licença. Acontecia, por exemplo, a incursão ao prontuário a meio do almoço ou do jantar, uma busca rápida nos dicionários na estante do corredor entre a sopa e a sobremesa, o prato principal que seria debatido ainda ao café e cuja digestão se prolongaria pela tarde e noite fora, dias, meses e anos se fosse preciso. Às vezes pergunto-me como seria se me lesse o blogue, os alqueires de vírgulas a colocar, as alterações que sugeriria no seu jeito único, Tens ali uma coisita, bem, não sei, mas eu, se fosse a ti… Era então chegada a altura para eu me afirmar, Pois, mas eu gosto assim. Isso que dizes não é a mesma coisa. Regularmente ficaríamos ambos naquilo que um e outro fazíamos melhor um com o outro, ou não fôssemos tão parecidos na afirmação dos nossos pontos de vista: teimar irredutivelmente para ficar inabalavelmente no mesmíssimo lugar. E caso a genética me tivesse bafejado não haveria por aqui gralhas ou imprecisões. Não bafejou infelizmente. Podia ter-me levado a irredutibilidade nos pontos de vista a troco de umas vírgulas e rigor, até porque não só o meu pai era um velador devoto da língua. A minha mãe é uma zeladora atenta. Nada passa em branco. Digo-lhe Já leste a crónica desta semana? Já. Gostei muito, mas, olha, tens lá uma vírgula a mais... ou uma letra a menos ou a mais. Há sempre algo a faltar ou a sobrar. Desta vez não foi a crónica. Desta vez estava eu em frente ao computador, algures pela hora de almoço, a ditar um soneto de uma conceituada poetisa portuguesa a uma amiga, quando soou o alerta da pontuação Vírgula? Eu não punha aí uma vírgula. Desatenta à leitura que eu fazia e do que fazia, ouvindo apenas a minha voz, a minha mãe continuou Tantos pontos de exclamação? Ó Florbela Espanca, para a próxima que te puseres a escrever sonetos pergunta aqui à minha mãe que ela dá-te uma ajudinha com a pontuação, sim? Tanto ponto de exclamação, mulher. Havia necessidade?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Mais um

Cento e oitenta e duas páginas depois ainda não cheguei à parte em que este, A Viagem do Elefante, é o melhor Saramago depois do Nobel ou depois do Memorial do Convento. Cá para mim é um Saramago, imaginativo e muito bem escrito, notável tendo em conta a situação em que foi escrito mas mais um Saramago.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Odisseias do quotidiano feminino

A não perder aqui, aqui, aqui e aqui.

Terça-feira


A minha televisão tem apresentado, porém, uma sintomatologia preocupante, quiçá indiciadora de uma desordem galopante que se tornou reincidente ao longo dos anos. Os episódios acontecem esporadicamente durante a semana, repetindo-se de forma muito mais efusiva e acentuada aos fins-de-semana...

E o resto pode ser lido no sítio onde há sete mulheres a cronicar, no PNETMulher

fotografia: Abhayah

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A utilidade dos livros

'And what is the use of a book,' thought Alice, 'without pictures or conversations?'

Lewis Carrol, Alice's Adventures in Wonderland and Through the Looking-Glass.


fotografia minha

domingo, 11 de janeiro de 2009

Procura-se...


alguém que tenha lido A Vida Nova de Orhan Pamuk para troca de impressões.
Respostas nesta caixa de comentários.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Mil e um

Quando hoje pela manhã me abeirei do ecrã em branco reparei que desde um de Outubro de dois mil e cinco tinha publicado mil e um posts.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A recuperação e as provas

As carteiras de senhora são um labirinto insondável, albergam mistérios e tralhas em número excessivo. Descobrir o que se procura pode ser uma tarefa hercúlea levada a cabo com tacto e persistência. O telemóvel tocava, insistente, num final de tarde em que acabava de deixar a escola. Para trás o dia que se aconchegava no crepúsculo gélido mas luminoso, o chilreio de adolescentes em delírio e a sala de professores pontilhada de rostos pessimistas. Para trás, tudo, então, o tempo que se afirmava peremptoriamente de tranquilidade e aconchego entre os livros e a lareira, a preguiça das gatas na arte de nada fazer, só os felinos o conseguem com mestria. Encontro finalmente o telemóvel, após tentativas infrutíferas. A um número desconhecido correspondeu uma voz igualmente desconhecida. Quem seria? Do lado de lá soava alguma inquietação e ansiedade. Reconhecida então a voz, a conversa foi correndo com sucessivas tentativas de acalmar a mãe da minha aluna: a burocracia não deve sobrepôr-se às partidas que a saúde ou falta dela pregam, tento convencer-me, tudo se resolverá, pois, tento acalmá-la, tudo tem solução. Depois de ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica delicada e de recuperação lenta, a minha aluna ficará retida em casa por um tempo que se adivinha longo. Desencadeados mecanismos para colmatar a ausência forçada das aulas, acresce a inquietação de fazer provas de recuperação a todas as disciplinas assim que regressar à escola e que constituem apenas aquilo que tão bem se faz neste país: burocratizar o sistema. Nada me oporia às provas caso ela, e outros como ela, se tivessem entretido no café em frente à escola em vez de ir às aulas. O absentismo não deve ser premiado em circunstância alguma. Em caso de doença comprovada não são senão uma enorme injustiça.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nacos de prosa (6)

— Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. Há já muitos anos, quando o meu pai me trouxe pela primeira vez aqui, este lugar já era velho. Talvez tão velho como a própria cidade. Ninguém sabe de ciência certa desde quando existe, ou quem o criou. Dir-te-ei o que o meu pai me disse a mim. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito.

Carlos Ruiz Zafón, (2004), A Sombra do Vento.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Terça-feira a cronicar

no PNETMulher.

E outro dia veio. Outros sonhos. O mesmo desvelo, o mesmo cuidado, o mar e a tranquilidade lá fora. A mão certeira e vigorosa, sem cerimónias nem rodeios, a receita inscrita no património afectivo de uma vida partilhada e vivida. E a canela, o perfume. Os sonhos. Belos sonhos. Redondos, perfumados, apetitosos.

Henri Matisse, The Dream

domingo, 4 de janeiro de 2009

Words from the heart

Para a Tânia que está atravessar um momento muito delicado.
Que estas preces e pedidos sejam ouvidos.


imagem: Vanessa Munoz

Momento sitemeter - Edição "à bordoada na língua portuguesa"

De há uma semana a esta parte têm aparecido procuras curiosas no meu sitemeter. Depois da conversa das doenças já cá vieram à procura do Clavoxil e do Azomyr. Mas o pior de tudo estava para vir e o pior foi uma sessão de tortura e verdascada da língua portuguesa. Primeiro procuraram dores na cluna, hoje alarmes de produtos de epermercado.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Dúvidas existenciais

Quarta-feira, trinta e um de Dezembro. Último dia do ano da graça de dois mil e oito. Algures pela tarde, depois de encaminhados os afazeres domésticos, sou parada entre os sonhos e a mousse de maracujá pelo pensamento que tinha deixado a macerar de véspera Tenho de escrever um post, tenho de deixar uma palavra, desejos de bom ano. Abeiro-me do computador, frenética, provavelmente ainda de avental. A escrita não exige farda ou indumentária, uma alma Gémeos vem equipada de origem para se fazer à vida assim os desafios, e confirmo as palavras, como se mentalmente fizesse a chamada, percorro os locais que me embalaram, garimpo mais um vez os vocábulos e eis-me parada perante a fotografia. Candelabro. Candelabro ou castiçal? Solicito ajuda Aquilo, aquilo que vimos em Copenhaga, é um candelabro? A resposta célere Candelabro? Candelabro é do tecto. Ora se candelabro é do tecto, só pode ser castiçal. Não me soa bem. Como a uma criança a quem puseram o nome errado, Bernardo em vez de João, Matilde em vez de Luísa, algo me soa mal, a dissonância evidente entre o objecto e a denominação. Os sonhos chamam-me da cozinha, urge o tempo e castiçal ficou. Postado o texto, aqui ficou a pairar até ter surgido o primeiro comentário de quem muito estimo, os votos que sei sinceros, mas, raio de mas, a frase final sem margem para dúvidas: E é de facto um bonito candelabro. E pronto, o que é isto comparado com a crise mundial, com a hecatombe anunciada, o armageddon iminente? Nada, naturalmente, mas a dúvida permanece: candelabro ou castiçal?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano

Não obstante a polémica na educação, 2008 foi um ano que me trouxe experiências gratificantes, um projecto novo e muito aliciante, outro que vem a caminho, muita harmonia, a prova de que a vida profissional é só mesmo uma parte do todo, e algumas viagens.
Comecei em Março a viajar, na velha Albion, com neve e dezenas de adolescentes à descoberta do mundo além fronteiras, continuei por Abril por terras onde se mitifica ter andado Hamlet, onde até os trolhas são bem parecidos, as livrarias tem livros em Inglês em quantidade admirável e se anda de bicicleta quase mais do que de carro. Em Julho esperavam-me duas semanas em Oxford. Protegida pelas gárgulas, acolhida em livrarias deliciosas no silêncio dos livros e no restolhar das páginas, sentindo o que não se sente em breves escapadinhas nem em estadias de hotel, recolhida algures no countryside com Jasper, um gato preto e felpudo por companhia fugidia, os dias em pleno habitat mostraram-me um quotidiano curioso. Berlim, porventura a cidade que mais fascínio exerce sobre mim, esperava-me em pleno Agosto, bem como o volante de um Trabi rosa-choque que fui conduzindo cidade afora na descoberta de uma outra perspectiva, dias de correria pela urbe para ver o que os turistas não vêem e momentos para me deleitar na cidade europeia mais emblemática do século XX. E férias então. Brasil, já se vê, o local onde retempero forças como em nenhum outro, percorrer a praia com o oceano tranquilo e cálido a beijar-me os pés, os golfinhos em brincadeira no mar, os saguis que consegui conquistar e os companheiros de viagem mais simpáticos com que me cruzei fizeram destas férias um experiência única. E para acabar o ano não há como visitar Mercados de Natal com cidades dentro. Viena, a cidade da valsa, do pai da psicanálise, de Karl Kraus, Canetti, Hundertwasser e Klimt deixou-me a certeza de que as cidades para serem belas têm que ter alma. O que lhe sobra em monumentalidade falta-lhe em alma e acolhimento. E foi num destes périplos que me cruzei com o castiçal que vos deixo. Estava numa igreja em Copenhaga e chamou-me a atenção pela forma singela e redonda, as luzes que se unem na forma circular que podem ser quem quisermos. Que estas luzes nos unam sempre, vos unam a quem desejarem e que 2009 seja um ano pleno.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Questões semânticas

No país do Magalhães os governantes têm um verbo preferido constante bem no lugar cimeiro de opções semânticas. Caso se lhes conheça cartilha pela qual se regem sempre que têm de proferir uma opinião sobre assuntos que envolvam contestação ou oposição, o verbo surge rapioqueiro e inequívoco. Tornou-se previsível. Basta apenas determo-nos nas notícias para prever que mais tarde aparecerá alguém do Executivo fazendo uso do dito verbo. No país do Magalhães desvaloriza-se com frequência. Foi assim que a Ministra da Educação desvalorizou a manifestação dos professores, se bem me lembro, as duas manifestações, e a Ministra da Saúde desvalorizou a formação dos médicos pelas farmacêuticas. Ana Jorge, além de desvalorizar, também rejeita, desta feita o caos que se instalou nas urgências em sequência da gripe que assola o país. O Primeiro-Ministro é mestre na arte de desvalorizar e, como se vê, desvaloriza muito. Aguarda-se pois a última desvalorização relativamente à aprovação do Estatuto dos Açores, uma vez que o Partido Socialista também já desvalorizou as críticas do Presidente da República. Quem sabe nas próximas eleições Sócrates não seja também desvalorizado pelos seus eleitores.

fotografia: minha

também no Geração Rasca

Croniquemos então!


Ide ao PNETMulher ver e ler o desafio que vos faço.

domingo, 28 de dezembro de 2008

As festas felizes

No rescaldo destas festas felizes com a economia nas últimas, diz-se, as finanças num estado aparentemente calamitoso, se as avaliarmos pelas imagens dos saldos que vão passando nos serviços noticiosos ninguém confirmaria o estado alegadamente desastroso, a educação tão má como a economia, alunos que por "brincadeira" ameaçam uma professora com uma arma de plástico, uma professora que, ainda estou para perceber porquê, não faz queixa nem participação dos "pequenos brincalhões" e uma directora de turma e presidente do Conselho Executivo que se remetem ao silêncio, é normal, alega-se, um Primeiro-Ministro que fala aos seus súbditos de pé, dinâmico e optimista, eis que chega agora uma outra calamidade: a gripe. E a gripe, ai de nós, mais não seria do que uma mera gripe, se os hospitais e serviços de atendimento não votassem os seus utentes engripados, alguns gripados também, a esperas impensáveis, disparatadas e absurdas e a serviços de atendimento telefónico que deixaram cerca de trinta e oito por cento das chamadas por atender. Enquanto não se consegue uma consulta pode e deve, a crer no que tenho ouvido, recorrer-se à auto-medicação, uns anti-inflamatórios e anti-gripais bucho abaixo, pode ser que assim larguem a urgência dos hospitais. Gente mais maçadora. Que festas felizes.
também no Geração Rasca

Crónica de uma mulher achacada

Uma mulher é saudável, é saudável ainda antes de ser mulher. Desconhecem-se-lhe maleitas de monta maior, bexigas, que bom que era quando se podia dizer bexigas em vez do sofisticado varicela, papeira e outras coisas de somenos, duas urticárias, litíase, bem mais bonito do que pedra nos rins, e que lhe deu alguns dissabores, acima de tudo, muitas dores, tensão baixa, hipotensão, e nada de mais. De repente vê-se marmanja, quatro décadas volvidas, quatro décadas e uns anos, e eis que lhe batem à porta, em sequências de quatro, faringites. Dirige-se ao Hospital, não é um hospital, mas substitui-o nesta espécie de achaques, e sai de lá com a receita para uma zaragatoa, perdão, exsudado, reparem como se modifica o linguajar, as expressões populares a serem teimosamente substituídas pelos equivalentes em linguagem médica, dois antibióticos, credo, valha-me sei lá quem, e umas pastilhas homeopáticas para os males da faringe. Gostei deste pequeno apontamento alternativo do médico de serviço. Nada como acalmar as hostes com uma mezinha livre de químicos.
E aqui me quedo perplexa, assustada com o que será de mim se começar a ter estas moléstias. Se fosse em aulas, como uma das vezes anteriores, lá estaria agarrada a livros, parindo fichas e mais fichas para as aulas de substituição, nos dias que correm há que entreter os alunos sempre, mesmo que se esteja em casa comprovadamente doente, sabe-se lá como iriam reagir à loucura de terem uma hora livre, mas assim será se for em tempo de aulas, isto e ver-me excluída do meu Excelente, o meu rico e querido excelente. Uma maçada e um problema. E não sendo em tempo de aulas, o que me preocupa com estas idas frequentes ao SAP é a crescente intimidade que passarei a travar com o local, a conhecer as manhas à máquina de café, é sempre em frente a ela que me sento, a passear-me lápis em riste para corrigir as imperfeições do português, ai que raiva, a raiva que me fazem, passar a ser tu cá, tu lá com as funcionárias Então, o que a traz por cá? Ai sabe lá, estou tão malzinha, tão apoquentada, é importante usar apoquentada, aleijada, álérgia, sinósite, tirar uma chapa e ir à faca, também.
Este estreitamento de relações alastrar-se-á aos demais utentes, imagino-me até a lutar com eles por causa do meu lugar em frente à máquina de café, tudo menos aquele lugarzinho em frente à máquina do café, ou a trocar impressões sobre os médicos, que sabemos sofrem do mesmo mal que os professores, os pacientes sabem sempre muito, toda a opinião pública sabe sempre muito no caso dos professores, trolhas, mulheres-a-dias, cabeleireiras e executivos. Por último, receio a pasta de vocabulário médico, medicinal e farmacêutico que terei de abrir na minha memória, não será o antibiótico, passará a ser o Clavoxil, o Klacid, há que ter propriedade de linguagem, excluo o Brufen porque passámos a ser unha com carne. Virá tudo acompanhado com princípios activos, dosagens, tomas e efeitos secundários. Rezem para que recupere desta debilidade faríngica, ai de mim, estou destroçada, se não verão este espaço transformado em muro das lamentações.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

The Christmas life

Bring in a tree, a young Norwegian spruce,
Bring hyacinths that rooted in the cold.
Bring winter jasmine as its buds unfold -
Bring the Christmas life into this house.

Bring red and green and gold, bring things that shine,
Bring candlesticks and music, food and wine.
Bring in your memories of Christmas past.
Bring in your tears for all that you have lost.

Bring in the shepherd boy, the ox and ass,
Bring in the stillness of an icy night,
Bring in the birth, of hope and love and light.
Bring the Christmas life into this house.

Wendy Cope


Um Feliz Natal a todos os que por aqui passam.

Mercados de Natal (15)

Praga
foto: minha

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Lista de presentes

Dezembro. Pelas frestas da portada chuviscam-se-me gotículas de sol como feixes dourados, entrevejo a luminosidade, pressinto a manhã perfumada de sol e bela como apenas os dias de sol são. Agradeço veneranda, a quem saber-se-á jamais, a bênção de dias soalheiros em pleno Dezembro. E deixo que o Dezembro presente varra todos os passados, cinzentos, húmidos, frios. Dias breves sem sol. Faço-me à estrada deixando para trás tudo, a escola, os alunos, um período inteiro de aulas e trabalho, cansaço, exaustão. Faço-me à estrada e organizo mentalmente ao que vou. Natal. Presentes. E faço-me à vida como gosto, estrada fora, preocupações ausentes. Mentalmente sem papel ou lápis refaço listas, escrevo textos que deito janela fora se se me tornam inconvenientes ou metediços. Os textos são assim. Reescrevo outros, a frase, é sempre a primeira frase que me chama quando me lanço estrada fora. E já perdi muitas primeiras frases e muitos textos. Há textos que só se deixam apanhar pelas primeiras frases, como um fio numa meada de lã, encontrar sempre a ponta do fio, sem ela o novelo tornar-se-á num enriço, uma amálgama de fios desordenados, sem princípio nem fim. Perco-os por isso. Mentalmente distribuo presentes. E chego ao lugar com calma, a calma de um dia de sol belo, os dias de sol são menos tristes se sol houver. E faço compras. Telefonemas. Livros para a criançada não sem antes confirmar E o Ruca, têm o Ruca no Natal? Não? E sigo, ando por entre estantes e escaparates, gente com pressa, filhos, família. E confirmo a lista. Está tudo. Recolho a lista e regressa-me a culpa E o Papá? Está tudo não. Desta vez não foi o lugar vazio. Foram os presentes que não te comprei.

Mercados de Natal (14)

Christkindlmarkt, Viena
foto: minha

Terça-feira

À semelhança de outras situações na vida há que saber dizer não, romper com a tradição se elas não nos servir, trilhar caminhos livres sem a obrigação dos presentes, o dever dos festejos, a imposição de felicidade oca e balofa, a grilheta às ocasiões de circunstância ausentes de carinho e de afecto.

O resto da crónica está no sítio de sempre, no PNETMulher, claro.

imagem: Gaëlle Boissonnard

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

Nacos de prosa (5)

Calma, meu anjo. Não se trata de uma gordinha pela metade, Meia. Nem da meia (aquilo de colocar nos pés) de uma gordinha, portanto, uma meia-gordinha.
Trata-se de você mesma, leitora, navegadora da Internet. Eu sei que você é meia-gordinha e que existe um erro de português aqui. Mas meio-gordinha não é o mesmo que meia-gordinha. Que me perdoem os amargos gramáticos, mas gordinha é meia. Meia-gordinha, Meia-gordinha soa melhor, sua menos. Meia-gordinha, como você está, no ponto.
Pró meu gosto, meia-gordinha é o que há. Aliás pra todo mundo que conheço. Só que ninguém assume: o brasileiro, influenciado pela moda francesa, quer a magra. Pra pegar onde? Pra segurar o quê? Pra recostar em claviculares saboneteiras? Pois é muito melhor espalhar sabonete pela bundinha de uma meia-gordinha.


Mário Prata, Diário de um magro 2. A volta ao Spa, Rio de Janeiro, Objetiva

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Nada

Cansada, exausta, extenuada abeiro-me do computador, quem sabe não sairá algo, esperança vã que me tem acalentado o espaços mínimos em que lazer se me permite, e impaciente vou procurando as palavras, chamo-as baixinho como a um gato, exactamente como um gato, ficam lá onde estão, acredito que imperturbáveis, nada sinto em meu redor, nem o restolhar mansinho das palavras quando chegam, silêncio, apenas silêncio, das palavras nada.

Mercados de Natal (11)

Spittelberg, Viena
foto: minha

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Eis que chega mais uma terça-feira

O velho tem os dias contados, porém. O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem.

Ide ler sobre o velho no sítio do costume, no PNETMulher, já se sabe.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sobretudo

Podia começar com a famosa citação de Álvaro de Campos, O que existe em mim é sobretudo cansaço. Podia usá-la pois. O início de texto atraente e chamativo, a vontade de entrar pelas palavras e mergulhar no cansaço que existe em mim. Em mim existe sobretudo cansaço. Cansaço da vida profissional virada do avesso. Cansaço de continuar como sempre, como se de nada se tratasse, cansaço da Ministra da Educação, do Primeiro-Ministro, das faltas dos deputados. Cansaço crepuscular de opinadores sobre tudo e todos, achadores de tudo e mais alguma coisa, convictos palradores de opiniões balofas prenhes de preconceitos e ausentes de conhecimento do que se fala afinal, pedagogos de pacotilha, mestres de vão-de-escada formados em coisa nenhuma que não seja tudo, cansaço da ignorância alardeada como bandeira, cantada como hino, cansaço de convicções pré-fabricadas, cansaço de opiniões ocas, cansaço de peroradelas inanes, cansaço deles todos. Muito cansaço.

Mercados de Natal (9)

Schönbrunn, Viena
foto: minha

domingo, 14 de dezembro de 2008

Natal

É Natal cá em casa.
A lareira acesa.
As gatas a dormir.
A árvore de Natal sóbria,
luzes que brilham,
mínimas como bagos de luz.
A tranquilidade do dia que se embala
definitivamente
nos braços da noite
chuvosa e fria
lá fora.
O crepitar dos corações solitários.
É Natal.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Breve crónica de um almoço perfeito

À mesa mais mulheres do que homens, apenas por uma maioria estreita, mesa redonda convidativa a conversas intensas, comensais bem-dispostos e disponíveis para um convívio harmonioso e despretensioso, exactamente como gosto. E a conversa fluiu. Foram blogues, cães e gatos, signos, escritores, cidades, línguas, livros e mais seria se a sineta das obrigações não tivesse soado para cada um. Um almoço perfeito.


Espreitem aqui para uma versão completa.

Mercados de Natal (8)

Viena
foto: minha

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Soltai as trunfas

Podia dizer-vos para irem buscar as calças justas, deixar crescer as trunfas, agarrar-se à guitarra e arrebanhar a primeira garota gira e estilosa, como se amanhã não existisse. Digo-vos apenas para irem ali ao lado deixar uma palavrinha ao metaleiro que completa hoje um ano de blogosfera. Enquanto isso deixo-lhe a tarde que esperemos possa um dia passar com uma cachaça de rolha. Nem só de metal vive um homem. Ele sabe que sim.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Nos dias de hoje

Ser professor nos dias de hoje implica muitas coisas. Implica, por exemplo, isto Stora, a stora sabe aquela música dos Guns n' Roses que tem uma rapariga a ter um orgasmo? É que era mesmo uma rapariga a ter um orgasmo lá no estúdio, isto Stora que nota é que eu tive? Não sei, não me lembro. Mas a nota da Maria a stora sabe. Já não gosto de si, stora ou isto Stora, o stor de Educação Física é todo bom, stora é que o homem é todo bom e isto ainda Stora, o Francisco rapou os pêlos das pernas. Todinhos. Tá todo lisinho agora, stora. Ser professor nos dias de hoje implica muitas coisas.

Mercados de Natal (7)

Bratislava
foto: minha

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Tu cá, tu lá

Os dias de invernia revelam mistérios insondáveis encobertos pela bruma. Um desses dias de frio pálido a revelação fez-se como epifania Vê lá tu que a minha mãe está cheia de tosse. As sogras, entre outras maleitas que variam em intensidade de acordo com a tipologia de sogra, têm tosse, portanto não me surpreendi, surpreendente é que não tenham tosse nem coisa alguma, e continuei com a minha vidinha não sem antes ter lamentado o facto. Muito bem. Terei acrescentado o habitual, sou rapariga parca em falas no que respeita a assuntos médicos e estados de saúde fragilizados por doenças de pouca monta, largo habitualmente um É fruto da época. Está muito frio ou Anda aí uma virose furiosa. Pois, pois, uma maleita danada. Uma gripe horrorosa, consoante os dias e a disposição e ando para a frente sem me perder em delongas e em lamentos pungentes e ladainhas lancinantes Não lhe passa. Está a tomar Azomyr mas não lhe passa a tosse. Tendo em conta que estava um frio de enregelar até o mais afoito ser invernoso não valorizei a verbalização mas fiquei em suspenso com a prontidão do nome oficial da mezinha contra estados calamitosos, aparentemente um antitússico que, pela desenvoltura, devia ter-me já sido apresentado antes. Não tinha. Não conhecia. Fiquei a cogitar de onde, como, quando e porquê surgira assim, sem mais e com inusitada rapidez, o nome de um fármaco, particularmente vindo de um ser para quem o estômago começava no estômago e se prolongava pelo abdómen e para quem os enigmas da medicina mais banal e quotidiana sempre foram mistérios tão insondáveis como Stonehenge ou a construção das Pirâmides. E hoje ele apareceu outra vez A tosse da minha mãe não passa. Nem com o Azomyr. Quanta intimidade. O tratamento coloquial e estreito. O que me incomodou foi o tu cá, tu lá com o dito antitússico, ainda por cima incompetente, a abordagem sem cerimónia nem salamaleques. Prevejo um estreitamento de relações com o Brufen, conversas de pé de orelha com o Benuron, tertúlias com o Clónix, bate-papos com o Aerius e conferências com Ciproxina, um dos antibióticos de largo espectro, fala-se muito neles nos dias que correm, algo me diz que são importantes.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Com alarme incorporado

No dia em que resolvi, alvitrei, aventei a hipótese de trocar as minhas lentes de contacto mensais, à razão de setenta e oito euros para seis meses, por umas diárias, à razão de sessenta euros por mês, estava nos antípodas de imaginar que este raciocínio, elementar e básico que qualquer criança em idade escolar resolveria sem dificuldade, se transformasse numa operação matemática elaborada e complexa e uma carga de trabalhos.
Entrei na loja curiosa, era a primeira vez que ali entrava, e após a abordagem inicial e o atendimento solícito do empregado, jovem e sorridente, disse ao que vinha não sem antes inquirir o preço das ditas lentes por um, um mês apenas. Perante o preço exclamei São mais caras então. O empregado pendurou a expressão de quem estava a Leste, mais a leste impossível, corria o risco de já estar a Oriente, quando repeti a lógica, da batata naturalmente Se para um mês custam sessenta euros e para seis meses custam quase oitenta, fica mais barato para seis meses. Do outro lado nada. Nadinha. Nicles. Népia. Desisti. Venham as de seis meses que a vida está cara e a carestia não se compadece com devaneios de uma criatura enfadada com as suas lentes semestrais, de resto, um assunto de importância cabal no contexto socioeconómico actual.
Continuava a olhar para o empregado, é mais forte do que eu, valha-me a santa, caramba, um raciocínio do mais elementar esbarrava contra a inabilidade do rapaz como se chocasse contra o Muro de Berlim. Arrumei a tralha, quase cem euros em coisa nenhuma que não servia para vestir nem comer nem ler mas sem a qual correria o risco de comer o que não queria, vestir o que não desejava e livrinhos só se tivessem letras corpo dezasseis é que lhes conseguiria deslindar um sentido. Saio da loja a refilar mentalmente A culpa é dos professores do Básico, há sempre mais culpados além de nós próprios, admite-se que não aprendam a ler, escrever e a fazer operações de aritmética logo no primeiro ano? Mania de não ensinar a tabuada. E depois vêm com a #$%&”@ do Magalhães. Ensinem-nos mas é a ler e a escrever, rais partam, e deixem-se de folclores. E ia eu nisto, refilando, respingando e retorquindo quando o alarme da óptica deu sinal de si. Um barulho irritante e estridente que orientou olhos múltiplos na minha direcção. O rapaz fez um olhar condescendente extensivo às colegas de profissão e ordenou-me que continuasse a marcha, lá para onde ia, provavelmente aliviado de me ver pelas costas, ninguém gosta de ver a vida dificultada por operações aritméticas arrojadas e complexas dignas de um qualquer Einstein. Era o sistema, o sistema, essa entidade invisível, omnipresente e omnipotente, tem sido acusada dos mais variados crimes, mais um menos um não era relevante. Que fosse o sistema pois.
Quando entrei no supermercado, o alarme reincidiu. Mais um barulho estridente. Depois de reclamar, o empregado, segunda versão, disse que não fazia mal, era o dito sistema. Irritada com tanta apitadela questionei se quando saísse o alarme iria tocar. Disse que sim com a maior naturalidade, mas, como gosto deste mas, para não me preocupar. Ai preocupo-me, preocupo-me, é óbvio que me preocupo Imagine que passam os meus alunos e presenciam a cena? O rapaz condescendeu e ficou-me com os cem euros de próteses oculares e quando saí afirmou, perante as apitadelas inexplicáveis Já noutro dia tivemos aí uma professora que também apitou. E assim ficou tudo esclarecido. Já não bastava o médico conhecer-me pelo cabelo, ser ofendida pela maga dos bigudis, agora apito no supermercado.

Mercados de Natal (1)

Munique
foto: minha