Assim que entro sou brindada com o “Público”, que esta sexta-feira tem a maior ratoeira para mulheres sensíveis como eu, não sensíveis assim no abstracto. Como se sabe às vezes tenho uma couraça impenetrável e nem sempre sou sensível a queixumes e desgraceiras, mas sim sensível a certas e determinadas coisas, como diz o povo, e nessas certas e determinadas coisas inclui-se o Chico. Ora, o Chico que em novo nunca me despertou grande interesse a não ser pelas canções, tornou-se agora nesta idade interessante o mais charmoso dos sexagenários. Os olhos, ai aqueles olhos, os livros, cruzes credo, agora deu-lhe para escrever, e aquela complexão magrizela e displicente dão cabo de mim. No Chico há aquela fragilidade aparente, no olhar aquela súplica miudinha que arrasa as mulheres de couraça como eu e a impassividade, meu deus, a impassividade geminiana masculina quase fleumática que faz rombo no bicho de coração empedernido que me assola amiúde. Foi também por isso que a manhã hoje não foi a mesma.
Pousei com cuidado o jornal na horizontal no fundo do carrinho de compras, não fosse acontecer-lhe algo e fui-lhe deitando um olho. Ele também me deitava um olho, os dois na verdade e insistentemente. Quando fui ao sal para a dourada, coloquei-o cuidadosamente sobre o jornal tapando-lhe a boca e os olhos fitaram-me ainda mais no cinzento do jornal. Ai Chico Chico. Depois fui às cenouras que coloquei cuidadosamente no outro extremo, bem como o pack de seis garrafas de água. À medida que as compras se avolumavam a minha preocupação crescia. O Chico, contudo, mantinha-se impassível com aqueles olhos que se lhe conhecem. O busílis foi quando no peixe me deram a dourada e as sardinhas todas besuntadas, e vi o saco molhado e com o cheiro intenso do conteúdo perigosamente dependurado nas minhas mãos. E o Chico? paniquei. Acha que vou pôr este peixe por cima do Chico? pensei. A empregada encolheu os ombros e gritou NOVENTA E TRÊS, indiferente e até provocadora. Ciúmes cá para mim, bem vi o olhar de soslaio para o fundo do meu carrinho. Resolvi o problema metendo o peixe num saco extra. Havia que proteger aqueles olhos cristalinos que me fitaram no périplo matinal e preservá-los de toda e qualquer conspurcação, talvez me cantassem quando chegasse a casa Quando eu chego a casa nada me consola …, você é tão bonita… Eu quero ir-me embora. Eu quero é dar o fora E quero que você venha comigo.


































