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terça-feira, 29 de junho de 2010
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (4)
O Ronaldo é feio mas é um grande cavalão, benzó deus como o miúdo cresceu.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (3)
'O canhoto da Figueira da Foz' é bem.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola (2)
Os nossos miúdos são mais giros que os espanhóis, excluindo o Bruno Alves.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola: (1)
O Carlos Queiroz é giro.
Considerações de uma 'gaija' a ver bola
E o que é uma mulher faz quando vinte e dois valorosos rapazes se degladiam em frente a um bola? Vejamos as hipóteses:
- Lê
- Vai às compras empanturrar-se de coisas que não precisa para coisa nenhuma.
- Senta-se em frente da televisão com tremoços e bejecas e comenta furiosamente como se entendesse alguma coisa de futebol.
- Fecha-se na cozinha e prepara uma jantar opíparo para o seu consorte.
- Grita desalmadamente pelos jogadores, chama-lhes nomes e incentiva-os, tudo a seu tempo.
- Agarra-se ao Facebook e vai debitando disparates.
Parabéns, se assinalou a última resposta. Seguem-se os desvaires de uma gaija que nada entende de futebol. Com muita pena minha não constam os comentários das amigas que me acompanharam ao longo destes 90 minutos de negregura lusa.
sábado, 26 de junho de 2010
Alívio
Nada como levantar-me a um Sábado pela fresca e não ter que pensar que ainda tenho uma acta para acabar, um relatório para concluir, aulas para preparar, formulários para preencher e gente que não interessa a ninguém, não os meus alunos, para aturar. Um alívio. Um alívio completo. Para ser perfeito só falta sol e calor.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Receita de leitura
a quase última deste ano lectivo aqui.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Ufa!
Quase a emergir dos papéis, relatórios, reuniões e actas.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Pérolas lexicais
Nada faria prever que num simplérrimo voo Madrid –Lisboa eu fosse aprender uma palavra que me tem dado tanto jeito e que hoje se me apresenta como uma verdadeira revelação. Algures nos lugares traseiros do avião, também conhecido aqui e ali por aeronave, e depois de umas horas num outro vindos de Istambul, fui atacada por um bando de turistas. Traziam às costas uma mochila indicadora de que vinham em grupo, uma peregrinação, apurei depois, e falavam aquela linguagem típica do português típico quando faz viagens típicas acompanhado de portugueses típicos a sítios típicos. Pareciam ter comprado este mundo e o outro, já que além da mochila cor-de-laranja da magnânima agência de viagens que os levou a ver o sítio onde a Virgem nasceu e Petra, imagine-se, e Israel, não querem lá ver, desdobravam-se em sacos e malas que a custo queriam fazer caber nos overhead compartments – gosto disto, nada como uma palavritas em inglês para condimentar a coisa. Quando finalmente assentaram arraiais a conversa deslizou fluida com um sem número de queixumes que incluía, por exemplo, o passeio de burro, Nunca mais! Balha-me Nossa Sinhora! e a escala manhosa em Madrid Ai quem dera a minha casinha! e ainda uma tal de mulher de quem ouvi frequentemente dizer E depois eu disse-lhe, bem à laia de reprimenda e remoque, como quem esgrime um combate. E estava a coisa a correr bem, tudo sentado, à espera de partir, quando de repente a ocupante do lugar à minha frente se lembrou, achou, sentiu, pressentiu e teve a certeza que o seu banco, esse mesmo onde ia sentada, estava com as costas demasiado rebatidas. Fazendo uso do seu habitual desenrascanço sentou-se no banco, agarrou as costas do dito vigorosamente e começou a abaná-lo com igual intensidade. É que para este ser o material não tinha sempre razão, logo havia que repor, a bem ou mal, a ordem das coisas. A companheira do lado com quem partilhara a viagem de burro pela Terra Santa e os queixumes da vida malvada ainda tentou avisar que não valia a pena. Em vão, contudo. Quando ela alegou que íamos apertados ali atrás, ainda esbocei um sorriso e larguei umas palavras Deixe estar, não incomoda nada, mas o mais divertido foi quando se virou para o passageiro a meu lado e disse Oh coitado do sinhor! Até bai aí todo encunicado!. E pronto, lembrei-me desta magnífica palavra, uma verdadeira pérola lexical, porque julgo ser esse o problema dos nossos deputados para viajarem em executiva, primeira ou outra presunção manhosa tão típica dos povos do Sul, em voos longos. Não querem ficar encunicados lá entre os bancos do povão, o mesmo povão que lhes paga as mordomias.
Também no Delito de Opinião
Constatações
Estou tão cansada que até estou deprimida. Raios.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Desabafos
Ora aqui estou eu respirando fundo, ao ritmo de uma dessas panaceias modernas, inspira, expira, contando até mil, esperando que me passe esta raivinha cega contra gente mal formada, ansiando ardentemente o momento da justiça final em que os maus são castigados e os bons têm um lugarzinho catita, sem PEC, nem austeridade. Pronto, agora que desabafei um bocadito, vou ver se prossigo com a minha vida e faço alguma coisa de jeito que não seja usar o blogue como arma de arremesso contra papa-hóstias badochas.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Da inutilidade dos ginásios
domingo, 23 de maio de 2010
As legítimas
O mulherio fazia fila para a caixa, não só mulherio, atrás de mim um senhor menos jovem, de pé pequeno pelo que disse, uma mãe entediada com os caprichos da filha adolescente, uma mulher indecisa com a escolha dos brilhantes a aplicar e em torno do quiosque, quiosque talvez, havia um corrupio constante, uma roda imparável, pedidos de números e cores, homens e mulheres experimentando o tamanho e a cor exacta, a cor exacta, jamais aleatória e terá que condizer com as inúmeras fatiotas veraneantes, esvoaçantes ou coleantes que dão cor aos roupeiros lá em casa e a que o sol permite finalmente dar uso. Podia até parecer uma réplica manhosa do Sexo e a Cidade: em vez das quatro magníficas às compras na senda dos últimos Manolo Blahnik ou Jimmy Choo, uma horda de mulheres na capital lusa, pontilhada aqui e ali com a presença masculina na procura dos seus objectos de desejo para um Verão que se prevê tórrido. Assim era o mulherio desvairado com aquilo que não é necessário mas que sendo acessório se pode tornar fundamental e necessário na vida de uma mulher. Acontece a todas ou a quase todas. Acontece-me a mim, por exemplo. Acontece-me ter uma fixação nas mais simples e aparentemente democráticas sandálias que o mundo conhece, esses mesmo que congregaram uma multidão de dimensões moderadas num Sábado pela manhã numa loja da capital. Esta que vos escreve tem uma paixão assolapada pelas sandálias de enfiar o dedo de produção brasileira conhecidas em todo o mundo, um objecto quotidiano transformado em culto, o supra-sumo da liberdade e a afirmação peremptória de que as obrigações estão longe e de que posso finalmente andar sem qualquer salto, arrastando ligeiramente os pés e sentindo-me indescritivelmente livre. Sem horários a cumprir e tarefas a executar, igual se de férias ou de fim-de-semana, as havaianas fazem parte da liberdade a que me permito e representam momentos do mais puro prazer pautados pela entrega ao que melhor me aprouver. E depois vêm as cores, os padrões, os modelos: top, joy, slim, slim season, slim stripes, high, estampadas, florais, hibisco, cartunistas. Nego-me a contar os pares de que sou feliz proprietária, a bem da minha sanidade mental e da manutenção da imagem de que não sou uma mulher frívola e que, ao contrário de uma esbanjadora consumista, não possuo pares que dão para uma equipa de futebol, treinadores e adjuntos incluídos. Se recontar ainda se arranja um par para o apanha-bolas.Naquela cena do filme Notting Hill em que Anna vai ter com William à livraria em Portobello Road podia perfeitamente usar umas havaianas slim. Ficariam a matar com o casaco de malha e a saia direita e em perfeita sintonia com a cena tão simples mas tão carregada de significado I'm just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her. E depois vem a publicidade no Brasil. Reynaldo Gianecchini, ele mesmo, sem mais apresentações, passeia-se num shopping usando as legítimas. São precisas mais razões?
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Receita fresquinha...
aqui.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Estudos Blogosféricos
Ao dar umas voltas por aí sem destino, e por aí entenda-se blogosfera e Facebook, descobri um sítio onde se oferece um curso sobre como criar um blogue de sucesso. Ensinam-se coisas muitíssimo úteis como, por exemplo, criar um blogue, links, conteúdos e imagens e a relação com os comentadores. Tudo isto em quatro horas e 36 euros. Tendo em conta a experiência no ramo, proponho-me a criar uma licenciatura, curso de 1º ciclo de Bolonha, com várias cadeiras semestrais como, por exemplo, Noções básicas de blogar I: como treinar o seu blogue para a vida na blogosfera, Noções básicas de blogar II: barras laterais e links, diz-me quem linkas, dir-te-ei quem és, Noções básicas de blogar III: quando o blogue ganha vida própria, Noções básicas de blogar IV: como sobreviver ao seu próprio blogue; Comentadores I: eufemismos elementares, Comentadores II: gestão da fúria para comentadores impulsivos, Comentadores III: gestão da fúria para bloggers impulsivos, Comentadores IV: lições de português elementar para comentadores analfabrutos; Tipologia de blogues I: política e sociedade, o meu Francisco Louçã é mais giro que a tua Manuela Ferreira Leite, Tipologia de blogues II, blogue meu, blogue meu, há alguém mais belo do que eu?- o blogue enquanto exercício narcísico masturbatório, Tipologia de blogues III, blogues no feminino: sapatos, depilações e dietas, Tipologia de blogues IV, quando os homens blogam e os estrogénios rebolam, por exemplo. Bem gerido ainda dava uma pós-gradução de Bolonha, 3º ciclo.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Vida interrompida
Do lado de cima das ribas avistava-se a praia cheia. Surfistas com as pranchas, adolescentes espalhados no areal em meia-lua, atentos com os olhos posto no mar. Um mar imenso e relativamente calmo, um vento vindo do oceano azul empurrava o cabelo como se a vista se tornasse cada vez mais límpida, mais clara, até à linha do horizonte. E cá em cima como lá em baixo, a espera. Flores em coroa partem primeiro, depois todos eles, homens e mulheres da minha idade, com quem cresci e passei os momentos loucos de risadas no pátio do liceu e noites de boémia com muito álcool e pouco juízo, e jovens, alunos e alunas habitualmente sentados à minha frente, outros com quem me cruzo diária ou esporadicamente pelos espaços da escola. E depois de feitos ao mar, um cordão humano que surgiu espontaneamente, mãos que procuram mãos, o silêncio apenas cortado pelo rebentar das ondas deste dia claro, o bordejar de almas doridas e inconsoláveis no areal. A roda que se forma no mar pelos amigos, os pais, os irmãos, o fato de surf mais eloquente que qualquer outro trajar, as pranchas como velas que embalam almas, os corpos embalados pelas ondas agrestes do mar batido, e tecem a homenagem mais singela e sentida. Uma roda desenhada no mar. As flores ao centro. Uma salva de palmas que ecoa forte e ritmada. E depois descer ao areal e confortar a minha colega de escola com palavras nenhumas, a mãe a quem amputaram o filho, apenas os olhos que falaram, palavras trocadas à toa, as minhas alunas que se me abraçaram com o salgadiço que apenas o mar da Ericeira tem, a maresia agarrada nos beijos impotentes que lhes dei, o colo incapaz de sarar a dor ou parar os soluços. Nunca ninguém devia sofrer assim. Nunca ninguém devia sofrer.
Tinha dezassete anos, saiu de casa para testar a mota e não voltou. Morrer assim devia ser proibido.
Tinha dezassete anos, saiu de casa para testar a mota e não voltou. Morrer assim devia ser proibido.
domingo, 21 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
O cabo dos trabalhos
Acabei de ser hoje fiel proprietária de um cabo VGA. Sem ele, pelo que foi comunicado, não haverá projectores para ninguém na Escola, assim como quando alguém vai jantar fora e tem de levar o seu próprio talher e guardanapo, um banco se se quiser sentar à mesa, papel higiénico caso queira usar a casa de banho. O choque tecnológico socrático e as acções de formação em Tecnologias de Informação - e quantas- revelaram-se ineficazes quanto ao uso destes cabos. Ao que parece, suicidam-nos a uma velocidade vertiginosa, um verdadeiro mistério, já que são robustos e não têm ar de ceder à primeira. Se eu quiser usar um projector nas minhas aulas tenho de levar o cabo também. Não é giro? Já comprei muitas coisas para que pudesse dar aulas condignamente, livros, cds, leitores de cds, dicionários, manuais, filmes, e outras coisas mais, mas um CABO? Amanhã iniciarei uma nova etapa na minha vida profissional, darei uso a um inusitado instrumento de trabalho, um cabo, um cabo VGA, uma porcaria de um cabo.
segunda-feira, 8 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
E já que é sexta-feira...
pela graça dos deuses, não podiam também mandar um solinho, ou será pedir muito?
quarta-feira, 3 de março de 2010
domingo, 28 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Efeito FarmVille (6)
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
O leitor em busca da felicidade
Devia ter desconfiado quando, no dia subsequente à compra, fui dar com ele na estante da auto-ajuda, lá para o lado das espiritualidades numa grande superfície. Lá estava altaneiro entre Os últimos dias de Jesus e A Dieta Limão, encimado por Renascer das Cinzas e docemente aconchegado por A sabedoria nossa de cada dia, lado a lado com Conversas com Deus. Devia ter desconfiado logo pelo título, antes mesmo deste encontro de mau presságio.
Rapariga muito descrente e frequentemente indiferente às receitas de felicidade, céptica convicta no que respeita a fórmulas de bem-estar, doutrinações de caminhos zen e que não fala jamais com Deus(es) em língua alguma, senti uma facada traiçoeira quando o vi naquele preparo. Contudo, o que me falta noutras crenças sobra-me em fé numa parte da literatura portuguesa contemporânea e ao vislumbrar um outro livro de Nagib Mahfouz, que julgo não se dar a caminhos esotéricos, na estante abaixo, julguei que o empregado, esse sim zen e na senda do sentimento etéreo e escapadiço chamado felicidade, teria sido enganado pelo título. Estaria pois em paz com a compra recente.
Os autores. Muito mais do que o título, foram os autores que me levaram a comprar o livro. Cerca de metade dos escritores que assinam as dez histórias contam-se entre os da minha preferência. Foi assim que me atirei ao livro sem sequer pensar duas vezes, há livros que compro cegamente apenas pelo autor, e devorei sempre em busca da felicidade as dez histórias. E nada. No término da cada uma esperava o frémito de que se são feitas as prosas sensuais que perduram além do livro. Mas nada. Coisa nenhuma. Dez histórias banais num volume intitulado Em Busca da Felicidade e teoricamente em busca da dita mas que muito pouco contribuem para a felicidade do leitor. Vagueia-se entre um casal a braços com uma mosca no copo de vinho, num fim de tarde numa esplanada à beira-mar, um jornalista em início de carreira em Londres indignado com a xenofobia e uma estória para contar de uma relação que houve, não houve, haverá. Com alguns lugares-comuns, previsíveis e sem conteúdo e/ou personagens dignas de nota. Falta-lhes substância, profundidade, consistência. Apenas as de Lídia Jorge e Pepetela suscitaram algum entusiasmo. E foram-se uns doze euros. A minha intuição estava certa e devia ter dado nota daquele encontro fortuito lá nas espiritualidades, ouvido as vozes em pleno hipermercado e tê-lo devolvido no dia seguinte, argumentando que me tinha sido enviado um sinal do além ou lá de onde se situam essas coisas sem explicação. Ser céptico dá nisto.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Dúvidas
Uma mulher, um homem, três gatas, um azevinho, uma glicínia, três estrelícias, um rectângulo de relva e uma churrasqueira são uma família tradicional ou tenho de acrescentar o cão do vizinho?
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Nacos de prosa (14)
com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante.
valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Irremediavelmente
O frio irrita-me.
A chuva entristece-me
O Inverno deprime-me
A chuva entristece-me
O Inverno deprime-me
domingo, 14 de fevereiro de 2010
On a Train
The book I've been reading
rests on my knee. You sleep.
It's beautiful out there -
fields, little lakes and winter trees
in February sunlight,
every car park a shining mosaic.
Long, radiant minutes,
your hand in my hand,
still warm, still warm.
Wendy Cope
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Duarte
Lindo, garboso e teimoso o meu mano gato brindou-nos com quinze anos de existência. Quinze anos de algumas sestas em comum, muita independência e uma beleza irresistível. Foi-se-nos sem que mais pudéssemos fazer. E com ele a casa mais vazia e o coração apertado.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Verticalidade
O Primeiro-Ministro tem todo o direito de processar o "Sol" e o "Correio da Manhã" por terem publicado as escutas que se julgavam convenientemente apagadas e longe da cobiça dos voyeuristas que usam "buracos de fechadura" para fazer jornalismo, tem todo o direito de exigir que sejam feitas averiguações para que se descubra afinal como é que de mãos fiéis e leais as conversas ditas privadas se propagaram como uma peste contagiosa pela opinião pública, tem o direito de processar Mário Crespo por calúnias, injúrias, atentado ao seu bom-nome e falsos testemunhos, tem o direito de se defender, processar, exigir que se averigúe. Mas como Primeiro-Ministro tem o dever de esclarecer os cidadãos deste país sobre o plano salazarento, despótico e abjecto de silenciar a comunicação social, correr com os inconvenientes que ousam atentar contra a sua opinião. Negá-lo, por exemplo, desmenti-lo e tranquilizar-nos a todos, restituindo ao país a dignidade de que são feitas as sociedades democráticas. Ou admiti-lo e demitir-se. São assim os homens de carácter. Até agora, silêncio.
Também no Delito de Opinião
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Precavendo o futuro
domingo, 31 de janeiro de 2010
Captain of my soul
A história é comovente, tão comovente que quase parece ficção. Um líder político, presidente de um país a braços com a reconciliação do seu povo, separado durante 42 anos por um regime vil de segregação racial, um desporto reservado à minoria africânder e desprezado pela maioria negra, símbolo do país oprimido e dividido, e a tentativa de harmonizar as diferenças, apagar cores e construir uma identidade colectiva através desse mesmo desporto, o dealbar de uma nação unida. Esta estratégia de uma raríssima inteligência e intuição catapulta para a ribalta o capitão de equipa que a pedido do Presidente eleva os Springboks e, com eles, a nação, gritando em uníssono por um mesmo objectivo. Negros e brancos finalmente unidos. Nada seria igual dali para a frente. Se juntarmos a este argumento baseado no livro de John Carlin, Playing the enemy – Nelson Mandela and the game that made a nation, a realização de Clint Eastwood, Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela e Matt Damon como François Pienaar, o capitão da equipa nacional de râguebi, Springboks, obtemos um filme intenso, com momentos comoventes e empolgantes e a sensação de sermos mais um dos espectadores em Ellis Park a torcer pelos Springboks, sabendo secretamente que torcemos pela igualdade de direitos, pela reconciliação e pelos ideais de liberdade tantas vezes apregoados e outras tantas esquecidos. Martin Luther King orgulhar-se-ia do sonho realizado, o muro das diferenças derrubado não por decreto mas pela comunhão de um mesmo pulsar. E assim, uma nova alma e um novo país.
E diz-se por aí que Invictus não será o melhor filme de Clint Eastwood, depois de Million Dollar Baby e de Gran Torino, mas Invictus é certamente um filme belíssimo, sustentado pelo desempenho sóbrio e inexcedível de Morgan Freeman e Matt Damon. As cenas do jogo de râguebi são de uma rara beleza e mesmo sabendo da História que os Springbocks venceram os All Blacks naquele 24 de Junho de 1995, continuamos suspensos e vibramos na expectaiva da vitória, metáfora de esperança de um país que consegue finalmente gritar pelo mesmo ideal, um nós que substitui o eles proferido e praticado ao longo de quatro décadas de segregacionismo bóer. E Invictus de William Ernest Henley que perdura no ouvido It matters not how strait the gate/ How charged with punishments the scroll/ I am the master of my fate:/ I am the captain of my soul.
E diz-se por aí que Invictus não será o melhor filme de Clint Eastwood, depois de Million Dollar Baby e de Gran Torino, mas Invictus é certamente um filme belíssimo, sustentado pelo desempenho sóbrio e inexcedível de Morgan Freeman e Matt Damon. As cenas do jogo de râguebi são de uma rara beleza e mesmo sabendo da História que os Springbocks venceram os All Blacks naquele 24 de Junho de 1995, continuamos suspensos e vibramos na expectaiva da vitória, metáfora de esperança de um país que consegue finalmente gritar pelo mesmo ideal, um nós que substitui o eles proferido e praticado ao longo de quatro décadas de segregacionismo bóer. E Invictus de William Ernest Henley que perdura no ouvido It matters not how strait the gate/ How charged with punishments the scroll/ I am the master of my fate:/ I am the captain of my soul.
Também no Delito de Opinião
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Depois da tempestade
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Uma questão de educação
Quando se tem três raparigas de quatro patas em casa há que cuidar, dar colinho, comidinha, partilhar espaços, sofás, camas, cadeirões, e, muito importante, tratar a bicharada e prevenir-lhes as maleitas. Hoje foi dia de cumprir esta última tarefa e de levar as raparigas ao veterinário que de tanta confiança já passou a ser o meu/nosso veterinário, o tal a quem quero que me levem, já deixei aviso, caso me dê alguma solipampa. Tenho a certeza que me passariam mais a mão pelo pêlo do que os clínicos que costumo frequentar, além de serem sensivelmente mais baratos, muitíssimo mais pontuais e ainda de enviarem as boas festas no Natal, coisa que os médicos jamais fizeram. Só vantagens, como se vê.
Na primeira leva foi a Ruiva. Miou desde que saiu de casa assustada, quando saiu da caixa vinha com o rabo entre as pernas, cheiinha de medo, tremeu o tempo todo e só descansou quando já em casa se viu livre de todos, especialmente do amabilíssimo e em igual grau competente veterinário.
A Lolita foi na mesma leva. Mais calada do que a filha, ficou dentro da caixa a observar tudo à sua volta, mas quando chegou a vez dela ficou igualmente encolhida, com as patas a transpirar e, de repente, virou-se para mim e aconchegou-se sequiosa de protecção, como se alguém porventura lhe fosse fazer mal.
A Guidinha foi a última na segunda e última leva. E a Guidinha é bicho temerário, verdadeiramente felina sem preocupações de quem morde, importante é que não a agarrem e não a aborreçam. Ora a Guidinha é rapariga independente e o veterinário fora avisado deste seu temperamento difícil. Pois assim que se abriu a caixa, estava estancada lá dentro, tivemos que retirar a parte de cima para chegar à bichana e depois foi o que viu. Assustada como nunca, abeirou-se de mim, pedindo protecção como a sua mãe e irmã. E, pasme-se, peguei-lhe ao colo, coisa que detesta e nem sequer permite em casa, e encostei-a a mim.
Se fossem humanos, ter-lhes-ia dito Faz-te mas é à vida, está tremer para quê? À segunda abordagem dir-lhe-ia talvez, Deixa-te de merdas e faz-te uma mulher que ninguém te está fazer mal. No caso das gatas resignei-me à minha função de dona protectora, levemente envergonhada por tanto mas tanto mimo, acarinhando e acalmando os nervos das raparigas e fiquei a pensar que raio de trabalho fiz com elas que são mais mimadas do que as coisas mimadas. A sorte é que não tenho filhos. Imagine-se como sairiam as crias. Longe vá o agoiro. Cruzes credo.
É amanhã...
É já amanhã que vou (re)começar uma das empreitadas mais enfadonhas da minha vida, uma das que conheço de trás para a frente, sem segredos e com algum sofrimento. A partir de amanhã: DIETA!
domingo, 24 de janeiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Conversas
- Que turma é essa?
-É o 12º #$". Foram teus alunos no ano passado. Aliás, foram estes que me disseram que tinhas sido a melhor professora que eles tinham tido.
- Coitados. Imagina os outros.
-É o 12º #$". Foram teus alunos no ano passado. Aliás, foram estes que me disseram que tinhas sido a melhor professora que eles tinham tido.
- Coitados. Imagina os outros.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Giro e talentoso?
Minhas amigas e leais leitoras, confirmem aqui se este é mesmo giro e talentoso ou se Janeiro me assassina o discernimento.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
domingo, 17 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Sapato não
É certo que as aulas da Área de Projecto são levemente diferentes das outras aulas. É certo que hoje estava uma intempérie que não lembra ao mais pintado. É certo que no périplo acidentado entre poças de água, bátegas de chuva e rabanadas de vento até aos monoblocos professores e alunos apanharam uma molha até aos ossos, quase voaram com o vento e desejaram ardentemente ter umas galochas para enfrentar o dilúvio. É certo que a humidade faz mal aos ossos, pode causar gripes, resfriados, e muito mau estar. É certo que a professora da Área de Projecto é levemente mais tolerante do que a de Inglês e do que a de Alemão mas igualmente compreensiva no que respeita a algumas idiossincracias dos seus alunos. É certo que a professora da Área de projecto também tinha frio nos pés, só não voou pelos quilos que lhe servem de âncora neste mar conturbado das quatro décadas e também maldisse o raio do temporal. E tudo isto é certo, certíssimo, mas havia necessidade de tirar os ténis, sapatos ou botas na aula da Área de Projecto e mostrar a meiinha, ainda por cima cor-de-laranja?
domingo, 10 de janeiro de 2010
Resoluções de Ano Novo
Actualizar o blogue todos os dias e começar a escrever mais do que uma centena de caracteres.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Razões para comemorar
Um ano de escrita delituosa em belíssima companhia e com comentadores estimulantes. Razões de sobra para assinalar a efeméride.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
domingo, 3 de janeiro de 2010
sábado, 2 de janeiro de 2010
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Raios
Só gostava de saber quem foi a besta, e estou a ser simpática, que espetou um pontapé no nosso Gastão e o deixou com uma pata partida.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Entre dois toques de telefone
Logo pela madrugada o telefone tocou. Diz que tinha havido uma intempérie tamanha, estradas cortadas, ventania furiosa, árvores na estrada e o diabo a sete. Levanto-me pelas oito horas neste meu primeiro dia abençoado pela falta de aulas, professores, alunos, monoblocos, fichas, avaliações e relatórios, e espreito pela janela para conferir o temporal. Muito bem. Os vidros da cozinha tinham farrapinhos de esterco e palha, nada que seja muito natalício, mas lá que tinham, tinham, o estendal móvel estava plantado na relva de pernas para o ar e uma das havaianas antigas que descansavam do lado de lá da porta para as eventualidades estava igualmente de borco virado a fazer companhia ao estendal. Podia muito bem ser uma instalação, um hino à subversão feminina, o ódio aos trabalhos domésticos presente no estado calamitoso do estendal, a insurreição na inversão da chinela, mas juro que eu estava inocente.
Segunda evidência da fúria da mãe natureza: não havia luz. Ora não havendo luz, duas das coisas mais importantes na minha manhã, café e notícias, tinham ido com o vento, assim mesmo gone with the wind, e portanto comecei a ver este dia com muito maus olhos. Sem luz, não há muito que se possa fazer em casa, assim sendo rumo a um desses antros do consumismo para finalizar uns presentes de Natal e chego a casa lá pela uma hora com uma neura furiosa que faria inveja ao episódio mais depressivo de tpm.
Depois do almoço, dirijo-me ao banco e eis que reparo que o meu cartão tinha desaparecido. Puxando pela cabeça descobri que o tinha deixado na loja, lá no antro do consumismo, cá para mim um aviso divino dos excessos, e zás rumo de volta ao covil danado. Nesta altura, sem café da manhã, sem notícias, sem luz em casa e sem cartão, respirei fundo umas dezenas de vezes para afugentar a ira, e depois de mais um périplo regresso finalmente a casa, os sacos que se largam, as compras que se arrumam e finalmente as notícias. Isso é que seria muito bom. Mas não. A televisão muda e queda, o aviso de que não havia sinal. Sem sinal. No signal. Kaputt. Três quartos de hora de telefonemas depois, há que aceitar o pior. Terça-feira, ou seja daqui quase a uma semana, receberemos a visita do Sr. Dr. Eng.º Meo Técnico de televisões achacadas com o mau tempo. Até lá nicles. Assim sendo, acende-se a lareira para compor o ambiente. Acendia-se porque depois da lenha no sítio certo descobre-se que não há acendalhas e sem elas, lareira népia. Que bem que isto está a correr. Toca o telefone uma boa hora depois. Dona Leonor? Sim, sou eu, Dona Francisquinha. A senhora viu o ferro em cima da banca? Vi. Pensei que estava quente. Mas olhe, não liga. Não liga? Não, até pensei que era da ficha, mas não. Ah não se preocupe, deixe lá, as coisas estragam-se. E foi o último telefonema do dia.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
A boa nova
Até 4 de Janeiro sem pôr os pés na escola.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Terceiro-mundo
Pois se há coisa que abomino é frio. Ora Inverno é frio, logo é normal que esteja um frio danado e este frio danado até suportável enquanto se anda na rua. Nada que uma camisola a mais, um par de meias sobressalente ou umas luvas extra não ponham no sítio. O que não é normal é que não se usem aquecedores e que hoje tenha passado umas seis horas em reuniões de avaliação em salas com uma temperatura inferior à exterior. Raio de miserabilismo terceiro-mundista.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Ena
Aqui estou de lareira acesa, notas dadas e a alma descansada. Um verdadeiro luxo.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Efeito FarmVille (5)
Quarta-feira,16 de Dezembro...
e quase todos os presentes comprados. Alguns até já voam sobre o oceano.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Domingo, 13 de Dezembro...
e dois presentes comprados. Por este andar preciso de mais umas semanas até ao Natal.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Quinta-feira, 10 de Dezembro...
e nem um presente de Natal comprado.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Jingle Bells
A partir de hoje e até dia 25 vai haver posts alusivos à época festiva no Delito de Opinião. Podem espreitar aqui.
domingo, 6 de dezembro de 2009
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Ena
Amanhã tenho o Sábado livre, coisa que não acontece desde Setembro.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Thanksgiving
Dia de Acção de Graças. O feriado dos feriados. Mais importante do que o Natal, dizem, mas sem presentes. A professora que a espaços acha que pode acabar com a ignorância dos seus alunos fica a ruminar a ideia e pensa com os canudos negros Vou dar uma coisa diferente aos putos, hoje é Thanksgiving. Para a próxima vez que aparecer o Dia de Acção de Graças já sabem o que é. A professora puxa pela cabeça. O quê? E lembra-se que a par de um texto do Bill Bryson aquela ilustração do Rockwell é mesmo o ideal. E é diferente. E vai pô-los a falar e dá para introduzir algum vocabulário. Agarra-se ao computador, engendra uma estratégia, desenvolve uma actividade e chega à aula lampeira Vamos ver se isto hoje corre bem, o Rockwell pespegado a preto e branco nas fichas de trabalho, o livro da Taschen para que melhor vejam, outras ilustrações também, e a aula começa. E corre bem. Depois da discussão a tarefa seguinte: preenchimento de uns balões de conversa e de pensamento que a professora escarrapachou cuidadosamente sobre as personagens. A adesão foi total e o corrupio ainda maior. A professora ufana do seu feito e do interesse dos seus alunos, secretamente feliz Estes putos são mesmo espertos. De lá do fundo levanta-se uma voz Stora, venha cá. A stora vai. A stora corrige. A stora explica que o plural de tooth é teeth e regressa para a leitura em voz alta do havia sido escrito nos balões, as falas que já tinha individualmente conferido, calcorreando alegremente o seu socrático monobloco. E a voz começa. Era a avó, a avó na cabeceira da mesa. Escrito estava It’s a pity I don’t have teeth, pobre da avó que era desdentada, tão desdentada que teria de prescindir do peru, era desdentada até ele se ter esquecido do -th final e de o ter substituído por um simples -t, pungente e definitivo. Afinal o que a avó não tinha era outra coisa, coisa essa que a turma cheia de rapazes não pôde deixar em vão. E levantou-se um burburinho, a risota abafada até alguém ter proferido em tom audível o equivalente em português e outro alguém ter perguntado Então e boobs? E outro ainda E breasts? A stora explicou sucinta e fugazmente as diferenças sociolinguísticas do item vocabular em causa acompanhado das óbvias advertências pedagógicas. Afinal a stora não quer que os seus alunos sejam uns ignorantes, sem saber que nomes chamar a quê, não vá um dia o vocabulário fazer-lhes falta e culparem mais uma vez essa cambada de incompetentes que têm por missão pôr tino na educação deste país e que só querem fazer manifestações, os inúteis. A língua inglesa é muito traiçoeira, admitamo-lo. O Thanksgiving ainda mais. E a avó uma desavergonhada. Assim não há condições.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
A Curva da Estrada agradece...
esta distinção do meu companheiro de escrita no Delito de Opinião, Carlos Barbosa de Oliveira. Passo o testemunho a doze dos meus preferidos:
domingo, 29 de novembro de 2009
Desafios
Eu já tive a mania que podia voltar a ser profissionalmente muito feliz, como nos sete anos que estive no Ensino Superior.
Eu nunca fui às Cataratas de Iguaçú nem a Buenos Aires, mas gostava muito.
Eu sei que estou a ficar velha e a precisar de óculos para ver ao perto mas finjo que não é nada comigo até ao dia.
Eu quero viajar, viajar, viajar, viajar, viajar.
Eu sonho sempre viajar, viajar, viajar, viajar, viajar mais.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Thank God...
it's Friday!!!!!!!!!!!!!!!!
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Ah é verdade...
Hoje está lá mais um giro e talentoso, um dos meus preferidos. Desde que o vi no papel do Bardo a minha vida nunca mais foi a mesma. Ora confirmem aqui se não é muito mais muito mais giro que o original.
H1N1 do nosso contentamento
Ena. Ena. Ena. Hoje foi um dos dias grandes da minha vida profissional. Hoje foi um daqueles dias por que esperei ansiosamente. Hoje foi um dos dias em que apliquei as duas décadas de conhecimentos adquiridos, a prática acumulada nestes vinte anos de giz, quadro, livros, sorrisos, fúrias, vitórias e choros. Hoje foi um daqueles dias em que, sim, valeu a pena levantar-me para enfrentar as hordas de adolescentes, os rebanhos de professores, os enxames de funcionários entre o burburinho das obras e o luxo dos monoblocos. Hoje valeu a pena. E foi hoje portanto mais um daqueles momentos que enchem um professor de orgulho, o ar importante, sentada na secretária, um leque de perguntas que se desdobrou como um toque de mágica. E foi tudo isto quando de repente a espreitar por entre os verbos modais können, dürfen, müssen, sollen, mögen e wollen, möchten Sie? Ja, danke. Können Sie? Ja, natürlich a Francisca se lembrou de atirar para o ar Stora, estou quente. Acho que tenho febre. Pára. Pára tudo. A professora experiente e competente na arte misteriosa de medir febres e calores aproximou-se da suspeitosa Francisca, suspeita também. Febre? A professora abeira-se da Francisca, faz um ar grave e atira. Francisca, vá lá fora à funcionária tirar a febre. A professora diligente e obediente a abanar a cauda e arfar de satisfação abeirou-se da secretária, de onde tirou criteriosamente um formulário, ah, um formulário, ah, um relatório, ah, um papel para relatar, escrever, descrever, preencher. Ah alegria das alegrias. E a Francisca voltou. Francisca, tem febre? Atira a professora de caneta na mão, fiel cumpridora dos seus deveres profissionais. Tenho 36 e 9. Os colegas rematam foi bué da rápido. Pois foi, foi só pôr o termómetro no ouvido, deu logo. Ora, concentra-se a professora a fazer a cruzinha no <37, e sintomas respiratórios? Tenho tosse. Dores no corpo? Doem-me as costas. Diarreia, vómitos? Não, stora. O relatório no fim. A recomendação a letras maiores É favor entregar na sala dos professores. A professora arfa mais uma vez, abana a cauda e retoma as outras funções, essas, de entretanto ensinar umas coisitas para quebrar a monotonia da Gripe A. Há dias que valem a pena. Que seríamos nós sem mais um papel para preencher, um formulário, um relatório, um inquérito, um questionário? Sim, que seria de nós?
terça-feira, 24 de novembro de 2009
E o prémio vai para...
A única que percebeu aqui em baixo que eu estava a sentir-me deste tamanhanhinho. Muito obrigada pela vossa colaboração.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Notícias
Alive and kicking mas sem tempo para blogar
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Efeito FarmVille (3)
Ah, é verdade, Stora, obrigada pela oliveira
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Parva, imbecil e idiota
Fim de tarde em Berlim. Junto à Gedächtniskirche grupos de turistas passeiam-se pelas bancas de postais, contemplando a Igreja e o que ficou dela.. Ao fundo o Kurfürstendam, sem a elegância de outrora, ainda assim imponente, árvores que se erguem de um lado e de outro. Dou uma volta, deito o olho aos postais, cumprindo parcialmente a minha existência de turista na mais emblemática do século XX e do outro lado da praça avisto a desgraça das desgraças, a tentação das tentações, mesmo com poucas horas de sono pelo voo madrugador aquilo a que resisto jamais: uma livraria. Do outro lado e em rebordo redondo ladeando a praça, as parangonas anunciavam o espaço, ainda mais evidenciado pelas bancas de saldos ou livros de ocasião no passeio. Faço um desvio. O Kurfürstendam pode esperar, dez dias seriam. Entro, como sempre, na senda das novidades e tendo em conta que já não visitava solo germânico há uns anos acorro fazendo mentalmente as contas do que perdi naqueles anos de ausência. No escaparate do lado esquerdo as novidades, nada pior para uma alma geminiana, a novidade, e deparo com um livro que havia de trazer na bagagem, um dos muitos.
O título sugestivo, Generation Doof, é uma réplica a um outro livro que apareceu há uns anos na Alemanha intitulado Generation Golf, o retrato de uma geração que cresceu com o famoso carro. Mas doof marcaria toda a diferença, porque doof em alemão significa parvo. Estaríamos pois perante a Geração Parva, embora o título soe pessimamente em português, pelo que arriscaria antes, Geração Cretina ou Geração Idiota, Imbecil também não iria mal.
No recato do lar, há livros que deixo a marinar durante uns tempos, pego no livro, enfastiada com as letras lusas e cansada das anglófonas num desses dias de Primavera serôdia. O episódio inicial revela um conteúdo promissor. Num concurso de beleza, foi pedido às candidatas que identificassem no mapa do seu país alguns Estados Federais e até cidades. A outra concorrente foi pedido que indicasse onde ficava a ex-RDA ao que a prestável beleza teutónica desenhou um risco longitudinal e arrumou a Baviera para a ex-Alemanha de Leste. E o disparate continuou: a Polónia no meio da Alemanha, Berlim logo ao lado.
A Geração Idiota pavoneia-se livro afora. Abrange indivíduos dos 15 aos 45 anos, o que não me deixou nada tranquila, e que se manifesta nas mais diversas áreas da vida: pessoal, profissional, no amor, no lazer, na educação, na relação com o dinheiro. Abundam os comportamentos desconexos, sem maneiras e imbecis. O livro é profusamente ilustrado com exemplos. A estupidificação em frente do LCD de última geração, esparramados no sofá entre snacks hipercalóricos, algures entre o DVD e a XBox e um sem número de gadgets.
Teria já lido cerca de metade do livro quando fui tomada por um assomo de provincianismo e dei por mim a pensar que afinal, cá no nosso cantinho luso, não estávamos assim tão mal, já que os alemães sofriam da mesma ignorância e imbecilidade. Foi tudo isto antes de me aperceber – dêem-me o desconto, afinal estou quase no limite de idade para fazer parte da imbecil geração – que também os alemães, os ingleses, talvez os franceses, quiçá os espanhóis. Asnos e imbecis. A globalização no seu esplendor. Uma pandemia para a qual se desconhece vacina.
O título sugestivo, Generation Doof, é uma réplica a um outro livro que apareceu há uns anos na Alemanha intitulado Generation Golf, o retrato de uma geração que cresceu com o famoso carro. Mas doof marcaria toda a diferença, porque doof em alemão significa parvo. Estaríamos pois perante a Geração Parva, embora o título soe pessimamente em português, pelo que arriscaria antes, Geração Cretina ou Geração Idiota, Imbecil também não iria mal.
No recato do lar, há livros que deixo a marinar durante uns tempos, pego no livro, enfastiada com as letras lusas e cansada das anglófonas num desses dias de Primavera serôdia. O episódio inicial revela um conteúdo promissor. Num concurso de beleza, foi pedido às candidatas que identificassem no mapa do seu país alguns Estados Federais e até cidades. A outra concorrente foi pedido que indicasse onde ficava a ex-RDA ao que a prestável beleza teutónica desenhou um risco longitudinal e arrumou a Baviera para a ex-Alemanha de Leste. E o disparate continuou: a Polónia no meio da Alemanha, Berlim logo ao lado.
A Geração Idiota pavoneia-se livro afora. Abrange indivíduos dos 15 aos 45 anos, o que não me deixou nada tranquila, e que se manifesta nas mais diversas áreas da vida: pessoal, profissional, no amor, no lazer, na educação, na relação com o dinheiro. Abundam os comportamentos desconexos, sem maneiras e imbecis. O livro é profusamente ilustrado com exemplos. A estupidificação em frente do LCD de última geração, esparramados no sofá entre snacks hipercalóricos, algures entre o DVD e a XBox e um sem número de gadgets.
Teria já lido cerca de metade do livro quando fui tomada por um assomo de provincianismo e dei por mim a pensar que afinal, cá no nosso cantinho luso, não estávamos assim tão mal, já que os alemães sofriam da mesma ignorância e imbecilidade. Foi tudo isto antes de me aperceber – dêem-me o desconto, afinal estou quase no limite de idade para fazer parte da imbecil geração – que também os alemães, os ingleses, talvez os franceses, quiçá os espanhóis. Asnos e imbecis. A globalização no seu esplendor. Uma pandemia para a qual se desconhece vacina.

Também no Delito de Opinião
Muros
Há novos muros de Berlim, novas cortinas de ferro, novas barreiras, ódios velhos renovados. Os famintos e perseguidos batem à porta dos prósperos — prósperos estes muitas vezes às custas dos que exploraram tanto tempo — e as portas se fecham. O diferente é visto com desconfiança ou desprezo. O diferente é inimigo, o fanatismo substitui a razão e a fraternidade, as religiões humanistas se pervertem, o homem é cada vez mais o lobo do homem.
João Ubaldo Ribeiro, (1993), Um Brasileiro em Berlim, Rio de Janeiro, Nova Fronteira.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
O direito à memória
Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte é tão discutível como nos perdermos em considerações sobre o ovo e a galinha. Tenho, não obstante, como certo que coexistem numa relação absoluta de interdependência e que os contextos sociais e políticos são muitas vezes impulsionadores de novas correntes literárias ou tendências.
Foi assim, quando em 9 Novembro de 1989, o Muro de Berlim foi metaforica e literalmente derrubado pela vontade dos homens e mulheres sedentos de mudança. O mundo geográfico alargou-se, fronteiras foram quebradas e com a abertura do Leste e a reunificação da Alemanha, uma nova ordem social surgiu. O encanto foi definhando com a passagem do tempo e as dificuldades de adaptação de ambos os lados intensificaram-se. Seriam afinal ein Volk – um povo só?
E o que tem a literatura a ver com tudo isto? Durante as décadas em que o mundo se dividiu, uma geração cresceu. Desconhecendo as diferenças entre o Leste e o Ocidente, assumiu como sua a realidade quotidiana dos países em que viviam. Sem nunca ter sofrido a separação violenta iniciada em 13 de Agosto de 1961, tinham histórias para contar, histórias além da História, histórias e aventuras de uma infância e adolescência mais ou menos feliz, mais ou menos colorida mas tão legítima como qualquer outra. Surgiu pois uma nova geração de escritores cuja temática central se debruça sobre a vivência anterior a 1989. Thomas Brussig e Jana Hensel são penas dois dos muitos autores que invadiriam o mercado editorial alemão. Brussig destaca-se pelo tom irónico e leve com que aborda a vida para lá do Muro e preenche com palavras o imaginário mitificado do Leste visto pelo Ocidente, enquanto Jana Hensel distingue-se pelo seu carácter autobiográfico, não-ficcional, portanto.
Na Alemanha, esta novíssima literatura não foi acolhida de braços abertos como haviam sido os cidadãos da RDA em Novembro de 1989. Frequentemente acusados de leviandade na abordagem de uma questão tão sensível como a história contemporânea alemã na segunda metade do século XX, e, em casos mais extremos, de desejar o regresso do passado e, com ele, o regime totalitário da RDA, os autores defendem-se, exigindo a legitimidade das memórias apolíticas que forjaram sua matriz.
E, porque acredito que existe memória sem cor política, não posso concordar mais: que faria com a memória da minha primeira ida ao teatro no defunto Monumental para ver o Pinóquio, titubeante e mínima, pela mão segura do meu querido pai? Deito-a fora, apenas porque aconteceu antes de Abril de 74? E o que faço à memória do homem da bolacha americana empurrando um carrinho verde pelo areal infinito e agreste da Figueira da Foz? Faço delete? Lembrar não é necessariamente homenagear ou militar, logo, lembrar a RDA não implica a observância do sistema político então vigente, tal como as memórias de antes de 1974 não atiram os seus donos para as secretárias da António Maria Cardoso, felizmente para mim. A memória é a matéria de que as vidas são feitas, sem ela não há passado e, sem passado, dificilmente chegaremos ao futuro.
Texto repescado do baú da memória
Na fotografia Ampelmann ou Ampelmännchen, um dos símbolos da RDA, transformado em objecto de culto e comercializado em todo o tipo de parafernália para saciar a fome voraz dos turistas. Pode ser encontrado agora pela cidade inteira.
sábado, 7 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Berlim (5)
Niederkirchnerstrasse, paredes-meias com Topographie des Terrors
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Necessidades
Às vezes, se me perguntam o que faria se ganhasse o Euromilhões, a resposta é a de sempre. Além de uma ou outra melhoria pontual na minha qualidade de vida, o dinheiro servir-me-ia para fazer aquilo que surge em primeiro lugar destacado: viajar. Muito.Tudo o resto posso fazer enquanto viajo: ler, conhecer, passear, ver rua e museus e gente, deter-me a ver o movimento ou a tranquilidade, parar sossegada numa esplanada ou recolher-me no último andar de uma livraria para aconchegar a alma e o corpo numa belíssima chávena de chá enquanto chove lá fora ou enrolar-me num cachecol, pôr gorro e luvas e perder-me nas multidões num mercado de um qualquer Sábado ou Domingo de manhã e posso escrever e posso amar e posso observar e sentir sempre. E vem isto a propósito desta vontade que me deu de regressar a Berlim, a culpa é das fotografias e do 9 de Novembro. Agora que se aproxima o Natal prevejo Mercados de Natal em cada ponto da cidade e para todos os gostos, tradicionais ou alternativos, e imagino-me, mau grado o meu desamor ao frio, aconchegada em casacos e cachecóis, as mãos protegidas por luvas enquanto o tempo pára no primeiro gole de Glühwein. E era para dar asas a este ímpeto que eu queria o dito guito europeu, para poder decidir hoje que amanhã vou beber um Glühwein a Berlim sem que isso causasse mossa no orçamento ou que tivesse sequer de fazer contas. Um verdadeiro perigo, pensando melhor e a bem de todos, é até bom que nem saia.
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