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sábado, 13 de agosto de 2011

Die Mauer


E havia pessoas. Do lado de cá e de lá do Muro, além de ditaduras, propaganda e sistemas políticos, havia gente. Que nunca nos esqueçamos disso. Ao meio dia também eu ficarei em silêncio pelas vidas estilhaçadas por muros.


fotografia: Gedenkstätte Berliner Mauer, Bernauer Strasse

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A vida a preto e branco

Algures num tempo passado quando eu era ainda uma activista convicta no Bookcrossing alguém se terá mostrado muito admirado por eu gostar de José Saramago e de António Lobo Antunes ao mesmo tempo. Este categorização da vida e esta necessidade de viver em alternativas, ou um ou outro, e a preto e branco foi algo que sempre me intrigou. E muito. Nenhum deles se exclui e não há nada num que me faça odiar o outro. Não entendo. Nestes últimos dias em que as notícias da fome no Corno de África, o terrorismo na Noruega e a morte de Amy Winehouse convergiram, esta dicotomia regressou em força, como se lamentar um excluísse um outro e houvesse quotas para a indignação e choque. E eu continuo sem entender.



sábado, 23 de julho de 2011

Feminino e intemporal

A voz inversamente proporcional à figura excessivamente magra, o cabelo armado com um penteado a que Nicolau Tolentino não ficaria indiferente, beehive, chamam-lhe, Karl Lagerfeld já o lhe teceu comentários elogiosos, considerando-a um ícone do estilo, o corpo esquálido enfiado num vestido que habitualmente lhe sobra, as pernas esguias e finas sobre sapatos de salto alto e a sensação de que os passos sobre os saltos são tão instáveis e periclitantes como o caminho que vai trilhando pela vida pessoal e profissional. E de Amy Winehouse já muito se disse, ou não nos brindasse a estrela que se teme subitamente cadente, com uma verdadeira novela em torno da sua vida pessoal, um enredo trágico prenhe de drogas e álcool, escândalos e amores sofridos, destemperos e hedonismos, conflitos familiares e problemas conjugais que se fundem e forjam as letras de que são feitas as suas canções, particularmente em Back to Black, o segundo trabalho que lhe valeu seis nomeações para os Grammys e que lhe fez arrecadar cinco. Recentemente a sua figura consta entre os notáveis do Museu de Cera mais famoso do mundo, o Madame Tussaud’s em Londres e em Maio último viu a letra de Love is a losing game ser objecto de análise nos exames de Cambridge. Muito, portanto, para uma mulher de apenas 24 anos.
Com cinco milhões de cópias, apenas do último CD, vendidas em todo o mundo e um sucesso retumbante e ascensão meteórica, a frágil e jovem diva espalha e desperdiça o talento e divide o mundo entre críticos e solidários, puritanos e admiradores, uma panóplia de adivinhadores da desgraça tal como acontece no site em que são feitas previsões sobre a morte da cantora e uma imensidão de vaticinadores do infortúnio. Amy é tudo menos consenso e se consenso se lhe aplica tem lugar num único ponto: o talento de que a belíssima voz é parte imprescindível.
Esqueçamos então a figura controversa, a imagem da mulher desalinhada e desesperada que exibe em palco a tragédia da sua própria vida, patética e decadente, e ouçamos apenas a voz portentosa. Esqueçamos também o seu percurso pessoal e ouçamos o que tem para nos dizer. Love is a losing game, por exemplo, é um hino às adversidades do amor, Back to black, o lamento da perda e do amor infeliz, Wake up alone, a solidão que se abate como o sol poente no quotidiano, Tears dry on their own, um tema perfeito para as mulheres que já experimentaram as lágrimas secar por si, muitas de nós, acredito. Há mais em Amy do que apenas Amy. Existe um sentimento muito feminino, intemporal e transversal de perda, solidão e rejeição. Quanto de nós não é Amy também?

Crónica escrita há uns anos e republicada hoje em jeito de homenagem a Amy Winehouse que nos deixou hoje. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Happy Birthday, Madiba!


If you talk to a man in a language he understands, that goes to his head. If you talk to him in his language, that goes to his heart.

Nelson Mandela

terça-feira, 12 de julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Cinquenta bordoadas na língua de Camões

Aqui. Sigam com atenção.

Risotto de coentros

Enquanto ajeito o molho de coentros trazido como contrapeso de um quilo de pêssegos e uma meloa sinto o aroma fresco do sul, uma contradição de dias quentes que me afagam sempre e me enchem a alma de alento para os dias sombrios. E o Norte a que cheira?
Rumo ao frigorífico e retiro sem enlevo a cebola congelada, a salvação de donas de casa atarefadas e contemporâneas pouco dedicadas a processos morosos de misturar sabores entre afazeres múltiplos, a casa que fica decididamente arrumada para dias que não vêm nunca. Derramo no tacho sobre a cebola um fio de azeite e meia folha de louro. Lá fora há um Verão por cumprir. Um vento frio que sopra no canavial e pela janela, pela mesma onde vejo passar barcos e navios, tarjas de cor diferente, ora prateadas em dias de Estio, ora cinzentas quando este emigra algures e outras um manto azul e intenso, há um chamamento para nele navegar, desconhece-se até onde. Volto ao fogão e mexo com calma a cebola lentamente em namoro com o azeite, um aroma leve que se liberta acompanhado de um frigir pequenino, um sussurro singelo. E o arroz então. Arbóreo de bagos voluptuosos.. E misturo. Meio copo bem medido. E mexo até ficar enlaçado na cebola e no azeite. Um copo de vinho branco frutado sem cerimónia nem o rigor de cozinhas espartanas. A minha cozinha é feita de momentos de libertação e transgressão, espelho inequívoco de quem sou. E envolvo até o vinho branco se sumir lentamente. O momento ideal para mais um copo de água bem quente, esse sim, deitado com carinho e calma enquanto os aromas se casam. O ritual repetido como o remanso dos Domingos de manhã. A tranquilidade de que faz parte abrir e fechar as portas às gatas, o ladrar sedento de festas do cão do vizinho, mesmo ali ao lado. E por fim o Verão. O cheiro inequívoco desse Sul que sou. O molho de coentros lavado em água corrente e abundante e cortado com a tesoura das ervas aromáticas para o tacho. E mexer. E rectificar.Mais coentros. Deixar que a generosidade cumpra o seu propósito de temperar, comida, almas, vidas. E sentir o aroma que se liberta, esse cheiro de gentes do Sul, de conquilhas comidas na esplanada com céu azul levemente em decadência do dia que adormece e as gaivotas que se fazem ouvir ao longe, de sopa de cação contra as searas de casas brancas bordejadas de azul forte. E o Norte a que cheira?

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sensibilidade e bom senso ou a falta deles

Angélico Vieira, músico e actor celebrizado por uma série de televisão, morreu na passada terça-feira. Era jovem, bem parecido e amado por uma legião de fãs, compreensivelmente femininas e deixou um rasto de consternação. O curioso foi a panóplia de notícias que se foram sucedendo. O rapaz esteve em morte cerebral muitas vezes, respirou por seu próprio pulmão algumas outras, depois deixou de respirar frequentemente, afinal desligaram-lhe a máquina uma ou outra vez e acabou por morrer definitivamente. Umas vezes usava cinto de segurança, aquando do brutal acidente, outras nem por isso, outras ainda houve em que o acidente havia acontecido por falha técnica do carro em que seguia, ora um pneu que rebentou ora um eixo que se partiu, e segundo se apurou ultimamente afinal ia era em excesso de velocidade. Por último, e quando a morte cerebral foi decretada, levantou-se a questão de doação dos órgãos. Houve um jornal que anunciou que a mãe se havia oposto, quando à luz da lei portuguesa todos somos dadores até termos provado o contrário no Registo Nacional de Não-Dadores, outros que se ocuparam na descriminação dos órgãos. Ao que parece a doação foi mesmo feita e vidas salvadas mas havia necessidade deste título no Jornal de Notícias: “Moranguito cremado de chapéu mas sem coração, pulmão, rins, córnea e fígado."? Um bocadito de sensibilidade e bom senso não se arranja por esses lados?

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crónica de uma poupança inusitada

Estais aflitos? Sem saber o que fazer? Onde cortar? Como poupar? Descansai que o irmão José António Saraiva tem a solução para tão grandes males. Por exemplo, eu que sou rapariga de grandes luxos vou imediatamente adaptar tão sábias considerações à minha vidinha de cortes e recortes e pôr em prática esta pérola: “A propósito de carro, por que não escolher sempre um modelo abaixo daquele que ‘normalmente’ iríamos comprar. Em vez de um Mercedes E, um Mercedes C; em vez de um Audi 6, um Audi 4”. Ora aí está, logo agora que com o meu chorudo subsídio de Natal tencionava adquirir esse tal de Mercedes E, irei humilhar-me a um modestíssimo Mercedes C. Uma maçada. Já em relação aos hotéis em viagem deixar-me-ei de "escolher às cegas um de cinco" estrelas. Sim, a felicidade é possível num de três ou quatro estrelas. Imagine-se. Soubesse eu de tão preciosos conselhos e teria prescindido do Moët & Chandon no dia do meu aniversário há cerca de duas semanas, já para não falar da água Vittel, Vichy ou Voss com que costumo mandar a empregada dar banho às quatro gatas cá de casa. O meu problema está mesmo na depilação, já que a proposta é que em cada cinco visitas à esteticista ou lá como lhe chamam nesses sítios da moda se reduza uma. Contudo, obstarei a este busílis recorrendo a uma técnica que foi sugerida no Facebook a propósito destas pérolas: chamuscar-me-ei nessa vez mas com o maçarico de queimar o leite-creme para não perder o estilo. Barato e eficaz. De chamuscada não passo

terça-feira, 21 de junho de 2011

A insustentável lógica do Ministério da Educação

Corria o mês de Março. Acabada de chegar de uma semana na Velha Albion com os meus alunos, o ambiente era mais uma vez de altercação entre o professorado aquém e além da sala de professores da minha escola azul-cueca. Desta vez não era a avaliação ou os titulares, ai as saudades que eu tenho de um ressabiamento à moda antiga, da malta a contar furiosamente pontos como quem os junta no cartão de grande superfície comercial. Nada disso, o povo até andava relativamente sereno quando o Ministério da Educação se lembrou de fazer acções de formação para classificadores de exames e o povo andava altercado, e muito bem, porque aparentemente teríamos de assinar um contrato de três anos, uma verborreia disparatada que se foi pelo sue próprio pé. Mas pormenores à parte e fora o dito contrato que acabou por nunca aparecer, a ideia nem me pareceu muito mal. Nunca é demais reflectir sobre essa tarefa hercúlea de classificar. O que me pareceu mesmo muito mal, mas mesmo muito mal, foi que com acções de formação em Lisboa eu tivesse sido destacada, convocada, simpaticamente obrigada para frequentar a acção como os mesmos formadores e sobre o mesmíssimo assunto em Coimbra. Não adianta fazer um exercício de lógica, aventar hipóteses, pensar e reflectir ou questionar Mas olha lá se havia uma turma em Lisboa porque é que foste parar a Coimbra? Ninguém sabe. Nem o próprio Ministério que pariu esta bela coisa. Ordeira e boa rapariga, ah como gosto de me sentir tão boazinha, lá dispus do meu fim-de-semana, do meu dinheiro, até hoje ainda ninguém se dignou a pagar as despesas da gasolina, portagens e pernoita, e rumei ao Centro. Linda menina, pois, a que frequentou uma Acção de Formação para classificadores de exames de Inglês. A mesma marmanja que hoje se dirigiu à sua escola azul-cueca, mais uma vez obediente e ordeira, para tomar conhecimento de que tinha sido convocada para classificar exames. E corria tudo bem, excepto a parte de não me pagarem que o povo é povo mas não vive do ar, quando os meus olhos aterraram num pormenor curioso. É que desengane-se quem acha que eu vou corrigir exames de Inglês, exames para os quais recebi formação paga pelo Ministério que ainda não pagou. Era lógica a mais. Vou classificar exames de Alemão. Não é lindo?

domingo, 5 de junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Cogitações

Depois de tanto se malhar no Sócrates, pergunto-me em quem se irá malhar depois de Domingo à noite. É bom que se vá pensando num substituto sob pena de se sofrer uma insuportável síndroma de privação. Sete anos de bordoada não se esquecem facilmente e o homem é um animal de hábitos, diz-se.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Ahahahahahahahahahahaha

É a terceira vez que isto me acontece. Duas foram quando vinha a sair da escola e por duas situações protagonizadas por colegas minhas e que, por razões óbvias, não vou aqui revelar e a outra foi agora, há uns minutos, por causa do post aí em baixo e que também postei no Delito de Opinião. Um comentador desvairado que me mandou guardar o lápis azul apenas porque não libertei o comentário dele com a pressa com que ele se achou merecedor, como se eu não fizesse mais nada e a minha vida fosse desbloquear comentários. Raios o partam. Sendo rapariga de coice rápido e resposta veloz quando me aborrecem com disparates, não foi nunca meu hábito primeiro sorrir e depois rir e ter vontade de gargalhar perante as inanidades alheias. De há um mês a esta parte é a terceira vez. Da primeira vez dei por mim a rir sozinha assim que saí os portões da escola. Não sei se os disparates são tantos que só rindo, se eu estou ainda mais cansada do que me acho, se os outros são assim mesmo, se caminho a passos, cruzes credo, logo passos, largos para a insanidade ou se o mundo está louco, completamente chanfrado e diverte-se a transformar incidentes em problemas, parvoíces que só merecem uma enorme gargalhada.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Conversa da treta

A direita acusa a esquerda, a esquerda acusa a direita, Passos Coelho acusa Sócrates, Sócrates acusa Passos Coelho, Paulo Portas acusa Passos Coelho de ter sido "muleta" do PS, diz que não é muleta de ninguém, o Assis diz que vai ser uma desgraça se o Sócrates sair, Sócrates também acha que vai ser uma desgraça se sair, uma parte do país concorda com Sócrates e com Assis outra está empenhada em pôr o Sócrates a banhos lá para onde foi o Catroga. Enquanto tudo isto, neste país pequeno de acusações e discussões estéreis e inúteis, este desfile inane da gente que nos (des)governa há quase quatro décadas, duas em cada cinco crianças vivem em situação de pobreza. E ‘isto’ devia ser o essencial. Quase quatro décadas depois, alguém, à esquerda ou à direita, já devia ter conseguido resolver este país. Deixem-se de tretas.



sábado, 28 de maio de 2011

E agora?

Uma filha que se despede do pai é um ser frágil, metamorfoseado num corpo franzino e quebradiço, uma vara soprada pelo vento impiedoso de não mais ser, uma menina perdida que largou a mão protectora, a mão que agarra, protege, acarinha. Ontem, enquanto assisti impotente a mais uma dessas despedidas, mais uma vez com os soluços encravados na garganta, vi do lado de lá a menina, a menina de totós a quem o pai fugiu de repente, a criança subitamente desorientada pela ausência, que farei agora sem ti, meu pai. E é isso que somos, eternas meninas cujos pais lhes soltaram a mão. Que farei sem ti agora?


Para a Ana.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O escuro pois

Vinha sonolenta, o corpo ainda lento em movimentos diluídos na arrumação de livros e cadernos na secretária, os olhos semi-cerrados e soltou um lamento assim que finalmente tudo se arrumou, Hoje dormi mal. Sonhei muito. Eu sonho sempre muito. Revi-me naquela afirmação e revisitei a adolescente sempre sonolenta para quem os Invernos longos eram um verdadeiro tormento, as noites uma travessia de territórios incertos sempre ameaçados por criaturas e acontecimentos inusitados e para quem as manhãs se estendiam num fastidioso e eterno momento de cansaço e tédio absoluto. E continuou com a pergunta pronta, Stora, os adultos também sonham? Sim, claro, respondi. A idade adulta não trouxe grandes alterações à adolescente dos sonhos perdidos, das noites inquietas, do cansaço matinal. A diferença entre um adolescente e um adulto opera-se na gestão que se faz das inquietações e dos demónios que nos vão surgindo no caminho. Mas aquela não seria afinal a única pergunta sobre o mundo insondável dos adultos e do qual, vou constatando em conversas múltiplas, os adolescentes têm medo, um medo incompreensível de não conseguir e de não ser capaz. Quem olhará por eles, afinal, nesse labirinto de ainda maiores incertezas. Algures quase no fim da aula, a outra pergunta E os adultos também têm medos, stora? Ao contrário do que fizera umas aulas antes, não exemplifiquei. Escondi-lhe que o meu pai me mandara uma vez pela escuridão do quintal para me fazer sentir aquilo em que ele sempre acreditou e que me afirmava enquanto eu progredia passo a passo na escuridão daquele enorme território para uma criança de tenra idade Vês, Nonô, o medo não existe. Escondi-lhe que o meu pai tão eficaz na desinibição daquele medo, não me ensinara, contudo, a lidar com a ausência, esta que me vai corroendo a espaços. Fiquei-me apenas pela confirmação. Sim, é claro que têm medos. Poupei-a aos meus medos, ao medo incontrolável de perder quem amo, o medo de ficar inane e tolinho de sorriso pendurado sem capacidade de decisão sobre o meu próprio destino e este mesmo corpo. Ela acrescentou Pois, Stora, há adultos que têm medo do escuro. Saímos uns minutos depois. Ao passar por mim, na porta da sala, deu-me um inesperado beijo na testa e afirmou o mais belo carinho pela professora forte e valente, a destemida cujos medos se não revelam. Chamemos-lhe escuro, então.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Declarações para a acta

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Por uma mãe

Há coisas que só se fazem pelas mães. Uma delas foi ter ido a Pádua ver as relíquias do Santo António, línguas e outros pedaços que me deixaram à beira do vómito. Há necessidade? Há necessidade alguma que se arranquem pedaços aos mortos para os expor? Não, não há, mas devota do Santo António e uma vez em Itália pela primeira vez, Veneza mais propriamente, havia que fazer escolhas para um dia ausente de programa e guardado criteriosamente para aquele lugar mágico, aquele que nos deixa uma chama miudinha e uma excitação quase infantil. Nesse longínquo início dos anos 90, quando viajar ainda não era apenas ir já ali, a escolha era quase a de uma vida, sabe-se lá se cá voltamos, e entre Verona e a varanda da Julieta que, como se sabe, é apenas mito que nos preenche o imaginário cheio de Romeus, Hamlets e outros chatos que arrumei no armário logo após a faculdade, e Pádua, Pádua falou mais forte e aventurei-me com a minha mãe para lhe proporcionar esse prazer e esse gosto num dia gélido de Fevereiro. Saí de lá com um bênção nos queixos, paga a um frade que cumpria na perfeição o estereótipo nada ascético no que respeita a hábitos alimentares e uma experiência única em que quase me raptavam a mãe em plena missa para ir pôr a mão a um túmulo sagrado, percebi depois. A contenda foi vigorosa e enquanto eu agarrava a mão à minha mãe e lhe dizia Mas onde é que tu vais no meio da missa, do outro lado uma italiana insistia em levá-la. Filha que é filha não larga a sua mãe na mão de estranhos, num país estranho e num lugar onde há pedaços de pessoas em redomas de vidro. Um alívio quando saí mas um enorme prazer por ter a ajudado a minha mãe a cumprir um desejo.
A outra coisa que fiz pela minha mãe é recente, tem cerca de mês e mete mais uma vez gente perecida ou quase. Chegados a um dia de semana depressa percebemos que não, que apesar de nada constar nos guias de viagem, o túmulo não estava aberto. As opiniões divergiam: o guia do tour pela cidade dizia que estaria fechado durante aqueles dias, o do tour do Kremlin que estaria fechado às quintas-feiras. Enquanto isso, pensava com os meus botões que não tinha ido a Moscovo para ver mortos, pobre do Vladimir. Três dias depois continuava fechado e no último dia, o ultiminho em que reservámos a manhã para contemplar por uma última vez a Praça Vermelha, eis que observámos uma fila ainda tímida que se ia formando no extremo da Praça, do outro lado das portas que Stalin mandou destruir para melhor passarem tanques nas paradas comemorativas do poderio soviético. E pronto, uma filha não abandona a mãe nas mãos daqueles russos, brutos, ai brutos como nunca se viu, e foi aí que o vi. Iluminado no meio de uma sala estava o boneco de cera mais famoso da História, Vladimir Ilitch Lenin, Владимир Ильич Ленин, em cirílico. Ainda a salvei quando em pelo mausoléu se lembrou de ir à caixa dos óculos para observar o dito cujo e levantou suspeitas nos marciais guardiãos.
E o que é não se faz por uma mãe?

Para a minha mãe que comemorou ontem mais um sorridente aniversário.  

sexta-feira, 20 de maio de 2011

E depois a noite

Ontem, abrindo um parêntesis na minha atitude enquanto professora, falei brevemente de um episódio da minha vida privada. Sou relativamente contida neste capítulo, estimulando sempre que privado deve permanecer privado, também entre os alunos. Algures durante a aula, estavam revoltados contra uma dessas com quem partilho a profissão e que, por acaso, insiste em meter o nariz onde não deve e tratar os alunos como aquilo que não são. Desta feita, o problema era o fumo, que ela os repreendia quando ela achava que eles tinham estado a fumar. Argumentavam que os pais sabiam que eles fumavam e que ela não tinha nada a ver com isso. No meu papel de mediadora, também faz parte, argumentei que, de facto, o fumo era muito prejudicial à saúde, estava na origem de inúmeras doenças, nomeadamente cancro do pulmão e falei-lhes em duas frases do meu pai, também ele vítima de cinquenta anos de fumo intenso. No fim da conversa, uma das minhas alunas, espevitada e de resposta rápida ou não fosse geminiana, admitiu em jeito de desabafo Agora fiquei triste, razão mais que suficiente para me ter arrependido de o que havia dito
Durante a noite sonhei com o meu pai. A noite toda, pareceu-me, mesmo sabendo que não se sonha a noite toda.  As esperas à porta do hospital enquanto a minha mãe o visitava, o choro sozinha durante aqueles momentos, as caras desesperadas das pessoas à minha volta ou os sorrisos entusiasmados de ver pela primeira vez os leitõezinhos acabados de parir. O desespero de o ver partir sem que nada pudéssemos fazer e a dor. O choro convulsivo da dor que me estilhaçou e levou um bocado de mim, um naco de alma arrancado. A falta que me fazes, Papá.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Colegas são as putas

Ontem mesmo. Fim de tarde no campo. Calço uns ténis e faço-me à estrada com o intuito idiota de combater a gravidade e os despencanço célere das minhas carnes ameaçando ruína. Para minha grande sorte existe aqui perto um parque desportivo, lugar imenso entre matas, campos de futebol e ténis e pavilhões para a prática de desporto. Incompatibilizada que estou com a prática desportiva dentro de portas para a qual perdi irremediavelmente a paciência, prefiro caminhar, sem que ninguém me importune ou mande e fazer uso deste espaço fantástico. Pago os míseros cinquenta cêntimos de entrada e ponho pés ao caminho. Inspiro o aroma inebriante a mata húmida e expiro os demónios do stress quotidiano, o equilíbrio tão necessário. E lá ia eu na segunda volta, quando avisto uma aula, suponho ter sido uma aula, ou uma actividade de desporto escolar. A escola fica paredes-meias com o parque desportivo e usa as instalações ao abrigo de um acordo entre ambos. O professor encostado à barra de metal que delimita o campo, à conversa com outra pessoa, e os adolescentes entusiasmados a disputar uma bola. Contorno o pavilhão, aproximo-me do campo e ouço bem alto Caralho! Deito olhos ao professor e apuro o ouvido na esperança vã, oh que esperança tão vã, mas que vã esperança, de ouvir uma repreensão, uma chamada de atenção, uma admoestação. Nada. Impávido e sereno continuou a conversa que se adivinhava prazenteira. Umas voltas depois, lá continuava e os alunos, desta vez com um grupo de crianças no campo contíguo, ainda mais expressivos a soltar asneiredo pela boca fora. Posso até admitir que os alunos se excedam, é sabido que entre pares não primam pela mais asséptica das linguagens e o entusiasmo faz destas coisas. Se o Catroga se excedeu que dizer de adolescentes a braços com as hormonas mais saltitantes que pipocas na panela? Já não posso dizer o mesmo da criatura encostada ao campo, sempre tão empenhada nas lutas intestinas contra o Ministério da Educação e pronto a lamber umas quantas botas para cair nas boas graças de quem nos ordena, e que, ali num espaço público, se faz de surdo e se demite das suas funções. Colegas são as putas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Da solidariedade e outros desmiolanços

Solidariedade, palavra usada e abusada nos dias que correm e que a espaços me provoca indizível repulsa pela hipocrisia subliminar, a ajuda que é mais uma afirmação da superioridade de quem dá sobre quem recebe do que o ombro desinteressado que se disponibiliza sem nada, absolutamente nada, coisíssima nenhuma em troca. E depois há aquele texto do António Lobo Antunes, uma crónica das antigas que se me agarrou desde que a li e que regressa em força, tal como as canções que descrevi uns posts abaixo, sempre que me vêm com balelas e afirmações serôdias de um cristianismo oculto no dia-a-dia mas presente nestes preciosos momentos: “Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida”. Em tempo de aperto, como o do presente, é sabido que fazer bem faz muito bem, e constitui não raras vezes a panaceia perfeita para a consciência pesada da abastança caduca do consumismo. Acontece que dentro de mim vive uma adolescente que rejeita liminarmente afirmações desmesuradas de hipocrisia e que odeia de alardear o bem, se algum, que faz, portanto quando viu movimentações lá na sua escola azul-cueca e uma pressão miudinha para que contribuísse para um desses movimentos solidários com um bolo ou algo que o valesse, meteu-se em copas, recusou-se a escrever o seu nome na lista que consta na sala de professores e continuou surfando aula a aula. Acontece também que essa mesma que aqui e agora escreve tem recaídas desses repentes furiosos e em casa, longe dos olhares comiserados de bem-fazer aos pobrezinhos e uma vez a sós com os seus botões, deu-lhe um rebate de consciência, afinal o que custa fazer um bolo se a causa é justa, as bafientas que vão dar uma volta. Assim sendo, deitou mãos à obra: ovos bem batidos com o açúcar, farinha e iogurte, uma colher pequena de canela e, como gosta de inventar, sumo e raspa da laranja que estava ali mesmo à mão. Dia seguinte faz-se à estrada de bolo na mão, enfrenta as curvas sinuosas cuidando daquela deliciosa rodela perfumada a canela e laranja e, uma vez chegada, vê entrar ao longe uma outra colega. Rumo ao bulício das manhãs repletas de surpresas da vida adolescente, abalançava-se escola adentro de cabelos ao vento, sorriso aberto e mãos a abanar, não que me diga respeito a solidariedade alheia, contudo, sei que jamais deixaria de passar uma oportunidade sem contribuir para a causa genuinamente.  E atenta no povo que passa. Nas mãos livros e mochilas. E revê mentalmente a lista na sala de professores. A data. Procura a data neste emaranhado de tarefas e obrigações a cumprir. Dia 12 ou 19? 12? 19?A dúvida que se instala e a certeza que a invade. E um bolo que foi passear-se numa bela manhã de Maio. Dia 19, portanto.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Aniversário

Entraste-me pela porta naquela manhã de Sábado ou Domingo. Vinhas sorridente e tranquilo. Corri ao teu encontro. Um abraço e uma beijo ternurento, que saudades agora do teu toque, meu pai, do sorriso com que declaravas o teu amor incondicional com as maçãs do rosto salientes e os olhos amendoados. Parabéns, Papá! Tu sorriste e disseste palavras que até hoje vão ecoando, Olha filha, há muita gente que não chegou até aqui. Parecias apaziguado naquele teu último aniversário, estranhamente tranquilo, algo que ainda hoje procuro perante esta ausência, este lugar escondido onde há lágrimas engolidas, soluços teimosos e olhos que se baixam nesta falta de ti. Parabéns, meu pai. A vida nunca mais foi a mesma.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Morte ao sol

Ontem ao fim da manhã, quando a minha mão regressava a casa, deparou-se com os vizinhos reunidos perto do caixote do lixo. Junto a eles, apurou assim que chegou, um saco plástico, então aberto, e lá dentro três gatinhos bebés, de cerca de três semanas. Trouxe-os para casa e, felizmente, já consegui arranjar-lhes donos. Só gostava de saber quem foi a besta que teve a coragem não só de os abandonar mas de os fechar num saco plástico e abandoná-los ao sol ao pé dum caixote do lixo. Só lhes posso desejar o mesmo: que fiquem fechados num saco plástico ao sol para ver se é bom.


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Bandas sonoras

Já algum dia vos aconteceu ter uma canção na cabeça, uma melodia, palavras e letras que vos acompanhassem dias, mas dias, ó meu deus, dias a fio? É que há canções que surgem em momentos, como uma resposta a um estímulo, eternamente acopladas a um acontecimento ou a um lugar. Se ouvir Rio, na minha cabeça soa logo 'Wave' ou 'Águas de Março' ou 'Deixa a vida me levar' do Zeca Pagodinho, se for Salvador, 'Tarde em Itapoã' ou 'Reconvexo' da Bethânia. Acontecem-me também palavras soltas ou expressões que puxam outras ou até linhas de textos e filmes que fazem a aparições fugazes. Nos últimos tempos sou também acometida de algo que me atormenta: quando vou entrar para a sala de aula, às segundas e quartas-feiras, os meus alunos amontoam-se sentados no chão. Vou ziguezagueando, pedindo licença euanto se vão levantando e eu progredindo no terreno. E tudo estaria bem se não me viesse sempre, mas sempre à memória um dos episódios d’ 'A Mais Louca História do Mundo' em que o Rei espezinha literalmente o povo para se fazer passar e exclama It’s good to be the King! Vergonhoso, eu sei, mas verdade. Ou quando vejo alguém seguir fiel alguém, razão posta de lado, aparece-me 'A Vida de Brian', You don’t need to follow me! You don´t need to follow anyone! I’m not the Messiah! Mas uma vez recomposta da viagem veloz aos momentos e lugares da minha vida, volta tudo ao normal e continuo a rapariga de sempre. Desta vez não foi assim. Desta vez foram dias. Começou ainda cá e uma vez no destino assombrou-me durante uns três dias, uma metade bem medida dos meus dias em Moscovo. Ponho pé na Praça Vermelha e ecoa I hope the Russians love their children too. Dois passos à frente, a melodia irrompe rapioqueira e em todo o seu esplendor, quase tão bélica e imponente como as paradas soviéticas que me coloriam na imaginação as imagens a preto e branco dos longos anos da Guerra Fria. E vieram Os Openheimer deadly toys, Mr. Krushev said I will bury you, What might save us, me and you is that the Russians love their children too e tudo, tudinho como se o disco estivesse em play e repeat. E foram dias assim. De trás para a frente. It´s probably me.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O fado

Ainda de ressaca por ter aturado as peruas da manhã na distintíssima escola azul-cueca , sim, hoje apetece-me hífen, preocupadas em transformar um incidente merdoso num assunto de estado, chego a casa apressada, movida pela necessidade imperiosa de pôr a máquina de roupa a lavar e ainda na esperança de a secar, à roupa, um roteiro verdadeiramente inspirador para quem como eu odeia trabalhos domésticos. Ligo a televisão, ao mesmo tempo que ponho o computador a postos e mergulho uma hora bem medida no Facebook. Que não, que não foi o Sócrates, que foi o Catroga, que não estão a contar tudo, que vai ser pior, que há-de ser muito mas muito pior. Que isto e que aquilo, ataques à esquerda, à direita, ao centro, ao centro-direita, ao centro-esquerda, se é que existe. O mesmo diapasão nos lados. A mesma desgraceira apocalíptica, o mesmo fim-de-mundo anunciado e temido que, começo a acreditar, alguns até desejam para que possamos carpir em uníssono o infortúnio em uivos histéricos. Desligo o Facebook, desligo a televisão e abeiro-me dos CDs. Escolho um dos meus preferidos, dos Queen, Innuendo e deixo-me embalar. I’m going slightly mad, canta-se. Who isn´t? pergunta-se deste lado. Ai fado, meu rico fado.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Passeios

Sentada no sofá a consciência cutuca-me no ombro. Realmente, penso. Subo ao quarto, visto uma t-shirt e calço os ténis, penduro as chaves de casa ao pescoço e abalanço-me porta afora, brindada de imediato com o perfume e a exuberância da glicínia que adorna a pérgola. Primavera generosa, esta que se pôs de rompante. E subo a rua e viro à direita, lançada pela morrinha de nada fazer a não ser mexer o corpo, esse que se me pôs e que nem sempre reconheço como meu. Vã esperança de o recuperar. Patética ilusão. Sol na cara como gosto e o campo todo que se vai deixando desvendar pela pletora de aromas que inspiro como perfume à medida que passo. Os limoeiros carregados e simultaneamente em flor libertam uma fragrância apaziguadora, acentuada pelo sol que me bate no rosto. Cães que ladram em fundo. Longe. E depois o cheiro do pinhal tão característico e marcante, a reminiscência dos piqueniques da infância. Inspiro. Expiro. Tão fácil afinal.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Leituras

O mundo é um livro e aquele que não viaja lê apenas uma página.
 
Santo Agostinho

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O inferno entre quatro paredes

Segunda pela fresca. Acordo ainda antes do despertador tocar. Estico uma perna e sinto uma gata que me acompanha nesta sorna discreta. Espreguiço-me no enlevo de quem tem finalmente uma segunda de manhã mais tranquila. E desço. Há sol e a serenidade de uma manhã de Primavera carinhosa. Deixo sair as gatas. Tomo o pequeno-almoço nas calmas com a porta da sala aberta para que façam o que mais gostam: entrar e sair a contento. Não há melros agora, penso. E deixo-me acarinhar pelos momentos descontraídos, a paz esperada depois de meses de bulício. E lembro-me. Há que confirmar a reunião, dez e meia ou onze? E penso, O raio da reunião. E repenso É rápido. E relembro de repente o mau humor das últimas reuniões em Dezembro. Uma raiva furiosa de me ver dali para fora o mais rapidamente possível, uma vontade estúpida de não falar com ninguém, de meter a cabeça nas tabelas de Excel, de me escusar a cumprimentos e palavras, ouvir as balelas ocas como um pêndulo entre extremos disparatados onde tudo tem desculpa e a mínima transgressão deve ser punida com reclusão a pão e água, pobres adolescentes que nem o podem ser e, acima de tudo, regressa a vontade de fugir para longe como se estivesse a ser submetida a uma tortura inominável com hora de entrada e saída. A escola são os alunos. Sem eles tudo me parece insuportável entre aquelas quatro paredes.

domingo, 10 de abril de 2011

Domingo de manhã

Domingo. Enquanto me entrego pela manhã na preparação do almoço tranquilo sem pressas nem balizas de tempo castradoras, espreito a tarja de mar lá no fundo, a companhia apaziguante em dias de acalmia, o bálsamo de esperança em dias sombrios de alma decaída. Verifico ingredientes e vou delineando planos com a rapidez da execução multifuncional. Morreria de tédio de mim própria se assim não fosse. A morrinha irritante de esperar a cada momento sua coisa, como se a vida fosse uma infindável fila de momentos e objectos de senhas de atendimento em riste, aguardando enfim a sua vez. Ouço os cães agitados. O ladrar que indicia alguém novo na rua. Pela janela da cozinha vejo duas mulheres jovens a tocar à campainha dos vizinhos. Azar, penso, os vizinhos não abrem a porta a estranhos, sejam eles hordas de crianças em dia de Pão-por-Deus ou a mulher dos alperces que a espaços cá passa, quando é o tempo dos alperces ou o das uvas também. As mulheres abandonam o portão do vizinho resignadas à sorte da porta fechada, metáfora tão provável de outros momentos da vida. Verifico o almoço e a campainha toca. Dirijo-me à porta. Pergunto-lhes ao que vêm. Solicitas e de sorriso cândido largam a prosápia Vimos convidá-la para um evento. Muito bem. E qual é o evento pergunto. Atiram-me É um evento a nível mundial que vai acontecer a 17 de Abril: o enterro de Cristo Jesus. Agradeci cordata. Não estou interessada, obrigada e recolhi-me. Estranho convite a um Domingo de manhã.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A tragédia da classe económica

Raramente terei começado post algum com tanta vontade de escarrapachar nomes, assim uma espécie de anúncio à moda do Velho Oeste: WANTED mas hoje, ai hoje, logo hoje, passados uns meros dias sobre o anúncio fatídico da vinda desse tal FMI ou FEEF ou outra coisa qualquer que, surpreendam-se, vai ajudar a Banca, deu-me esta ímpeto. Foi logo pela fresca quando no meu mural facebookiano me anunciaram que nove dos nossos deputados europeus votaram contra uma proposta para que os voos com duração inferior a quatro horas passassem a ser em classe económica. E agora os nomes e os partidos, já agora: José Manuel Fernandes, Paulo Rangel, Regina Bastos, Carlos Coelho, Mário David, Maria do Céu Patrão Neves e Nuno Teixeira do PSD e Luís Manuel Capoulas Santos e António Fernando Correia de Campos do PS votaram contra. Numa altura em que são pedidos mais sacrifícios do que o conseguimos suportar não ficaria nada mal aos senhores doutores engenheiros arquitectos deputados, uma verdadeira realeza que não se pode sentir encunicada durante umas reles quatro horas e precisa desta afirmações bacocas de uma dignidade vã, dar o exemplo. Desengane-se quem acha que este país ainda tem viabilidade com gente desta. Não tem.



domingo, 3 de abril de 2011

Gastão

Arranham-nos os sofás, querem dormir connosco, dormem connosco, esfregam-nos os bigodes pela fresca, espreitam nos momentos menos convenientes, trepam pelos cortinados, querem comer a nossa comida, exigem festas e carinhos e distância se for caso disso, sentam-se no jornal que estamos a ler, mas trucidam-nos de dor quando decidem partir sem aviso. Foi assim com o Gastão. Desta vez a sorte já não lhe chegou.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Comunistas e brasileiros

Quis a sorte, a coincidência ou o azar, lá para Junho já saberei, que devido aos meus afazeres profissionais tivesse de conviver com umas peruas urbanas. Vejo as peruas uma vez por mês sensivelmente e para minha imensa sorte revezam-se: ora vai uma ora vão duas mas apenas uma vez se juntaram as quatros, ou as três, já que uma, embora perua, tem a sua condição em estacionária e é relativamente simpática. Na sua condição de peruas sabem mais do que todos os presentes, falam também mais do que todos os presentes e têm a sobranceria própria de quem sabe sempre tudo.
Quando uma dessas vezes se falou sobre música e sobre festivais de verão a propósito do Wacken Open-Air e deste filme, rematei que os meus alunos e alunas gostavam muito de ir ao Avante. Soube-o quando me reencontrei com as minhas alunas depois do Verão e felizes pelo feito partilharam excitadas que tinham conhecido um comunista alemão, pasme-se, e que tinham trocado umas palavritas na língua de Goethe. Uma das peruas, abriu a boca em O, manifestamente incomodada, onde já se viu, sua comunista de merda, e atirou lesta que isso era outra coisa, depois de restolhar o traseiro na cadeira e de me arremessar um olhar mortífero, quase temi que deitasse chispas pela boca. Eu pensava que este medo dos comunistas era coisa do passado, é certo que a perua não é nova, mas credo, aquele medo até me deu medo daquele bicho de cabelo armado e dedos cobertos de ouro mais a medalhinha da senhora de Fátima ao pescoço. Lá justifiquei que para os adolescentes a política não interessa e que vêem o Avante apenas como mais um festival e uma forma de se divertir.
O segundo quid pro quo surgiu a propósito da contenda português português e português brasileiro. As peruas, desta feita em par, rebelaram-se contra os livros em português brasileiro. Que não, que não gostavam. Que não gostavam do português do Brasil. O orientador do curso olhou-as meio surpreendido e acrescentou Então e a música brasileira? Fizeram um esgar Ah pois. Uma das peruas assanhou-se e começou a destilar o ódio midúdinho contra o acordo ortográfico e eu, já com palpitações, afirmei que sim que gostava do português do Brasil, que era doce e melodioso e perguntei-lhes E quando lêem livros de autores brasileiros? As peruas restolharam os rabos nas cadeiras e responderam Mas o Paulo Coelho nem escreve bem em português do Brasil. Ora estamos conversadas quando para alguém a literatura brasileira é Paulo Coelho. Ainda estive para lhes esfregar nas cristas uma série de outros nomes, mas deixei-as lá sossegadas. Ide fazer glu glu para outro lado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Gente que ainda gosta daquilo

Já não é a primeira vez que isto me acontece. Seria talvez uma segunda-feira. Aulas dadas. Entro na sala de professores exactamente como sempre, a mulher de sempre e a professora de sempre. Arrumadas as aulas, restavam-me aquelas horas inanes de cumprir horário na escola e de nada fazer, já que o que tenho de fazer só mesmo em casa rodeada de livros, papéis e um computador. Ajeito o dossier e arranjo espaço para me sentar a uma mesa. Ouço um reparo Olha mas ela não. Olhei. Sim? Tu não, Leonor, vens aí como sempre toda bem-disposta. Ora, aqui a Leonor não está é para aturar queixumes, não mais queixumes acerca de ordenados roubados e progressões que não se fazem, até porque na melhor das hipóteses irei ficar nove anos no mesminho sítio, nada, zero, nicles, coisa nenhuma de progressão alguma, igual se sou boa ou má profissional, se me dedico ou vou lá cumprir o frete de aturar adolescentes borbulhosos e de hormonas furiosas ansiosas por arranjar um lugar ao sol. Tendo em conta que me faltam ainda vinte anos de serviço, não me parece que começar a ver a escola como o demónio dos demónios e isto que nos estão a fazer, seja lá o que isso for, um verdadeiro apocalipse, seja a mais saudável das atitudes. Não é e não quero. Assim sendo, apenas por uma questão de sanidade mental decidi chutar para trás das costas essa preocupação furiosa, essa ladainha queixosa de que somos uns desgraçados, não porque não me preocupe e não que não desabafe como se pode ver uns posts aí em baixo, a angústia de um dia não ter energia assalta-me a espaços, é um facto, mas porque se me preocupar em demasia existe apenas uma pessoa, uminha, que irá sofrer as consequências: eu. Nada adianta passar os dias aos caídos, escadas acima escadas abaixo na minha agora reabilitada azul cueca. E para que conste: eu gosto de ar aulas. Imagine-se. É verdade. Ainda há quem goste daquilo.

Liebe

liegen, bei dir

ich liege bei dir, deine arme
halten mich, deine arme
halten mehr als ich bin.
deine arme halten, was ich bin
wenn ich bei dir liege und
deine arme mich halten.


ernst jandl

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Crónica de uma professora babada

Tem cabelo cor de avelã, em cachos rebeldes que lhe cobrem os olhos amendoados e doces, tão límpidos de uma adolescência tal como ela deve ser: tumultuosa pela descoberta e desalinhada q.b. para que o mundo se conheça. É muito educado, senta-se sempre à minha frente e, quando chegou, trazia consigo palavras soltas de uma banda germânica de música, letras e sons sem nexo que lhe aguçaram a curiosidade. A medo foi-me perguntando o que significava isto ou aquilo acabando por confessar que receava impropérios no meio daquele linguajar germânico sem concessões nem lamentos. Tranquilizei-o. Quando começou a saber umas palavritas que a professora aqui lhe ensinou começou a criar os seus próprios enunciados juntando palavras e fazendo frases cada vez mais complexas e numa tentativa clara de se aventurar língua adentro como quem pisa um território desconhecido, apetecível contudo, uma apropriação clara de um património cada vez mais seu. Assim é sempre que se aprende uma língua. A professora babada ficou deleitada com as proezas do seu aluno, ainda mais quando depois de lhes ensinar schön e nett ele se virou e engendrando uma frase afirmou em jeito de despedida enquanto ajeitava a mochila às costas para um fim-de-semana longe de livros e cadernos Du bist schön und nett. Sorriu-me meio tímido no fim e despareceu porta fora. Omiti que em vez de Du devia ser Sie e deixei-me a sorrir para o quadro enquanto eles todos levavam as hormonas a passear num dia de Inverno ensolarado. No segundo período regressou com um presente que lhe tem ocupado uma parte das aulas: um dicionário ilustrado de Alemão. Atento, confirma e acrescenta sempre palavras ao que lhe vai sendo ensinado. Há dias, depois de ter mergulhado os caracóis e o sorriso no livro colorido atirou-me Das Kleid steht Ihnen gut. Ora no dia preciso não estava de vestido e respondi-lhe em alemão para que não se equivocasse. Hoje algures pelo fim da manhã, sorriu-me de novo e aplicou-me pela segunda vez Das Kleid steht Ihnen gut e anda em Português. Hoje está bem stora. E estava. Igual se de saia, vestido ou calças.

So true

sábado, 29 de janeiro de 2011

Anoitecer

Há uma tranquilidade silenciosa nos meses de inverno. Silêncio. Ausência. Noite.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Delights

Vinte e duas e cinquenta e nove marca o relógio deste ecrã em branco de onde escrevo. Do lado direito um livro que trouxe num fim-de-semana em Dublin, escolhido num dos raros momentos de total descontracção entre escaparates cheios de livros e silêncios entrecortados pelo passar de páginas tranquilo e passos quase cerimoniosos de impacto absorvido pelas alcatifas acolhedoras. Modern Delight chama-se. Breves textos sobre os pequenos prazeres do quotidiano, tudo aquilo que pode marcar a diferença neste continuum de dias e meses e anos a que se chama vida. E fiquei a pensar que prazeres são esses os que ainda mantenho deste caminho que se tornou num corrupio, permanentemente de cabeça cheia de burocracias e tarefas para cumprir, que prazer resta de dias e dias afogada e esmagada pelo cansaço.
Vinte e três e onze, confirmo. O crepitar da lareira e a noite de breu lá fora a embalar sonhos e a acalentar a esperança de um dealbar luminoso. Uma gata que se espreguiça. Pequenos prazeres.

Para que conste

Sou contra o financiamento do Ensino Privado pelo Estado, excepto em situações comprovadíssimas. Pronto. Ponto. Finito.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Crónica de uma falta anunciada

Sabem os deuses como me sabia bem quando os professores nesses tempos idos e quase esquecidos da minha escolaridade se lembravam de não vir. É que nem água vai, nem água vem. Nesses tempos inconsequentes em que ser professor era apenas isso e que não me fizeram mossa, os professores limitavam-se a não aparecer e mantinham vidas saudáveis de quem tinha mais que fazer do que deixar fichas para os seus alunos e matar as cabeças com insucessos, metas e estratégias para definir. As horas de falta dos professores eram passadas no remanso de nada fazer, deixar o tempo voar e saboreá-lo com a indulgência daquela hora em risada disparatada. Ora nos dias que correm os pobres dos meus alunos, a menos que eles próprios faltem, não sabem o que são esses momentos tão redentores de disparate adolescente, de desabafo inconsequente, de reflexões filosóficas sobre a descoberta do mundo todos os dias e não sabem porque desde que inventaram esta coisa das aulas de substituição, aparece-lhes sempre um moicano à frente, pode ser até de Matemática ou Filosofia. Lá vem ele contrariado, e como, de fichas em punho que o professor da disciplina diligentemente deixou para os seus alunos, não vão noventa generosos minutos de coisa nenhuma arruinar o ensino em Portugal e levar à ruína os saberes e competências dos adolescentes. Eu tenho pena dos meus alunos, oh se tenho, mas hoje sendo declaradamente o dia mais triste do ano deu-me uma pena miudinha de mim, minzinha, eu própria, essa mesmo. Quando quarta-feira a minha vida doméstica ameaçava ruir ruidosamente em espirros, febres, tosses e secreções nasais, decretei lá para o fim da tarde que não iria à escola no dia seguinte, resolvi os trâmites legais e fiquei em casa, doente, mas isso não sabia ainda na quarta-feira. Quando hoje regressei à escola, a funcionária abeirou-se de mim Professora, preciso de falar consigo e olhou-me com um olhar inquisitivo antes de me atirar A professora faltou na quinta-feira? Foi aí que me apeteceu gritar bem alto FALTEI! É que já não chega cada vez que se precisa faltar deixar fichas a rodos para a substituição ou deixá-las no dia-a-dia num dossier todo catita ou procurar um colega que o faça e enfrente os alunos contrariados ou deixar mil trezentos e noventa papéis, autorizações e formulários, já não chega a consciência pesada por o ter feito pela primeira vez neste ano, é preciso avisar também a funcionária? É preciso perguntar? Sim, faltei, Dona Belarmina, ao que a Dona Belarmina retorquiu simpática, Então e não me disse nada, professora? Ó pá, deixem-me da perna, deixem-me faltar. Deixem-me, pronto, vá.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

You will never walk alone

Homem e mulher. Duas almas que a partir de certa altura decidem partilhar alegrias, tristezas, pequenos e fugazes momentos de felicidade, chatices, contas a pagar. Ao longo da caminhada, um lema You will never walk alone, roubado algures de uma equipa de futebol, ou We´re in this together, não sei de onde fui buscar este último. E é tudo muito bonito, sim, juntos nisto e em muitas coisas, mas não incluía uma gripe a dois em simultâneo, os dois esticados no sofá, a recozer febres, soltar queixumes diversos, tosses, espirros e narizes choramingões, a libertar ais, sitiados em casa, à espera que a gripe, ai maldita, se vá. Não podia ser um de cada vez?

domingo, 16 de janeiro de 2011

Rodrigo

Era alto, alegre, meio desconjutado pelo crescimento rápido, muito bem disposto e tinha um sorriso feliz e genuíno. Tinha dezoito anos, o Rodrigo. A vida corria bem, apenas com os sobressaltos da adolêscencia. Contou-me a mãe ontem que depois de doze anos de escola, estava finalmente feliz com o curso, agora universitário. E foi Sábado pela madrugada. Um acidente brutal pôs fim à vida tão leve e sorridente daquele menino de olhar vivo e caracóis rebeldes. Não há palavras, não há colo que possa dar aos meus alunos, inconsoláveis pela perda do colega e amigo. De novo a total impotência perante o sofrimento de todos. Nada que se lhes possa dizer nem fazer. O tempo, diz-se e eu sei que sim. A brutalidade da vida começou agora e escolheu-lhes o Rodrigo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Os pobrezinhos

Primeiro foi  Pedro Passos Coelho a dizer que, coitaditas das filhas, iriam ficar sem presentes de Natal. Bem lhes podia ter feito um corte de cinco a dez por cento, consoante o  valor do presente do ano passado, mas não nada, há uma crise, recessão, recessão e crise lá fora a terem de ser sustentadas. O deputado pobrezinho, o miserável que queria ir às sopas da Assembleia da República, o tal que nem as ajudas de custo lhe valiam, isto para não falar no ordenado, também me fez pena, estive até para lhe levar uma sopinha, pobrezinho, ou um fatinho velho que ajudar os pobrezinhos é bom, limpa a alma e arreda os pecados. Há pouco, bem há pouquinho, e ainda estou debulhada em lágrimas e abalada pela miséria galopante destes que nos governam e aspirantes a governantes, foi o candidato, porque nos últimos tempos aquele que está acima de todos, deixou de ser Presidente para ser candidato e terá sido nessa condição que elucidou uma transeunte numa acção de campanha. Agarrado à sua risonha Maria, atirou à mulher atenta que a sua Maria, outra desvalida, tinha trabalhado a vida inteira e que recebia de reforma uns oitocentos euro e que tinha de ser ele a sustentá-la ou a ajudá-la, varreram-se-me as palavras com a tristeza e o coração apertado. Uma miséria. E ninguém dá a mão a estas pobres almas? Um peditório nacional? Uma campanha de recolha de bens?



Nada como confirmar aqui.

Deixemo-nos de eufemismos

País de merda.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

...

O que aparentemente seria um momento tranquilo transformou-se num corrupio incessante. Foi na segunda-feira, no tempo do meio da manhã, quando nada faria prever que havia de ficar esfalfada, estoirada, extenuada, literalmente exausta de tanta correria. E foi tudo isto porque me lembrei de pedir aos meus alunos de Alemão que redigissem um pequeno texto e por pequeno texto entenda-se maia dúzia de frases em que teriam de descrever sumariamente a sua rotina diária de adolescentes irrequietos. Ora aqui a professora é rapariga que não gosta de ficar sentada naturalmente mas ao escreverem as primeiras linhas os seus alunos foram acometidos de todo o tipo de dúvidas, inquietações metafísicas quanto a verbos de partícula separável, reflexos, ordem inversa e sabe-se lá mais o quê. De modo que houve  reclamações Stora, já a chamei há muito tempo, amuos  A Stora não me liga nenhuma e também ciúmes A Stora ligou primeiro ao Francisco, mas eu já a tinha chamado há mais tempo. A professora exigiu paciência, apelou ao coraçãozito transbordante dos seus meninos, lembrou-lhes que era importante que tentassem sozinhos, relembrou-os de que são muitos, duas dúzias e mais três almas, mas pensou assustada ao fechar a porta depois do último bem disposto e esfomeado Adeus, Stora e a versão alemã Tschüss! Auf Wiedersehen! como será daqui a uns anos, de onde irá buscar energia para atender a tantas solicitações. E fechou a porta.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Janeiro

O Natal já passou. A Primavera vem longe. Chuva. Frio. Humidade. Espera longa por dias mais luminosos. Janeiro.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo

Concentremo-nos no essencial.
Harmonia, saúde, tranquilidade e perseverança para jamais cruzar os braços.
Feliz 2011!

Caprichos de uma máquina de lavar louça

Corria o ano da graça de dois mil e dez, vigésimo quarto dia do décimo segundo mês do ano, a vida nem estava a correr muito mal, apesar do atropelamento recente da minha gata sénior, quando abro a máquina de lavar e constato que nada, nadica, rién, nicles. A dita cuja não tinha cumprido a tarefa para a qual fora adquirida há uma década. O coração acelera, cruzes canhoto, o efeito que estes bichos electrodomésticos têm sobre mim, e começo a praguejar furiosamente com os meus botões, capaz de lançar insultos ao animal prateado que me tem dado tanto descanso P*&#a da máquina. Seguem-se os trâmites de sempre A máquina da louça não trabalha! Não trabalha? Não, pifou. Mas pifou como? Não escoa a água. Ai cum caraças. Logo agora. Chama o homem. Qual homem? O da máquina de lavar roupa. Minutos mais tarde. O homem só pode vir na quarta-feira. Quarta-feira? Sim. Diz que tem muito que fazer. E assim voltei aos primórdios. Louça, louça e mais louça, porque, como se sabe, esta malta electrodoméstica é muito caprichosa e dá-se ao luxo de pifar precisamente no único dia em que não devia, exactamente na véspera de Natal. E eis que chega quarta-feira. O homem não pode vir. Diz que tem muito trabalho. Quinta-feira. O homem diz que chegou agora de Lisboa. Só pode vir amanhã. Entre as 11 e o meio-dia está cá. Sexta-feira. Aqui a moicana levanta-se e pensa, enquanto lhe dá a preguiça matinal, a última do ano em dia de semana em que pode deambular pela casa despreocupadamente, vir à net, facebookar sem constrangimentos de horas e obrigações a cumprir, Tenho de me arranjar, o homem está aí a chegar. Arranjo-me. Desço à sala. Lindinha, lavada e perfumada. E espero e espero e espero e desespero. Homem nada, nicles, rien, népia. Agarro-me ao telemóvel O homem não veio. Liga ao homem. Minutos depois, a boa nova, o homem só pode vir à tarde, entre as duas e as duas e meia. Chegam as duas, passam as duas e meia, as três, as três e meia e de homem nem sombras. Nada, nicles, rien, népia. Atiro-me aos sonhos, faço a massa tenra para as azevias, facebooko um bocado e a campainha toca. Era o homem. Portanto, meus amigos e leitores, eis que me encontro aqui neste ecrã em branco, sitiada na sala a passar as últimas horas de dois mil e dez, enquanto as entranhas da bicha caprichosa são revolvidas e o homem mais desejado dos últimos tempos leva a cabo a tarefa epopeica de ressuscitar a minha máquina de lavar louça ao sétimo dia, que isto de ressuscitar ao terceiro é só para gente especial.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O passado num par de meias

Como boa portuguesa e cumprindo a tradição de deixar compras para a última da hora adentro um desses antros demoníacos de consumismo tão reprováveis por camadas dispares da sociedade: os elitistas que não se querem misturar com o povão exaltado e os alternativos que embora sendo do povão levam vidas zen desprovidas de hábitos materiais de tudo comprar e de desbaratar inanemente o vil metal.
Seriam umas três e meia da tarde, provavelmente a hora proibida com as férias escolares e os adolescentes aos magotes por todo o lado. O estacionamento revelou-se um massacre e quando estava mesmo a desistir, no momento preciso em que comentara com os meus botões, mais uma volta e vou-me embora, eis que uma alma caridosa se lembrou de me deixar um lugar. E estava tudo a correr relativamente bem, melhor do que seria de esperar tendo em conta o estacionamento difícil, mesmo depois de ter assistido a um homem de telemóvel em riste e de frente para os clássicos, fitando o Ben-Hur e a Serenata à Chuva afirmar alto e peremptório para a interlocutora do lado de lá Pronto, não compro nada. Este ano não compro nada para ninguém! quando por necessidade estrita entro numa dessas lojas que vendem meias, collants, leggings e outras coisas que se destinam aos membros inferiores. Depois de aproveitar uma promoção de cinco pares por x e incapaz de escolher mais cores, dirijo-me à caixa e espero pela minha vez de pagar. À minha frente uma mulher nos seus cinquenta anos, bem aprumada, estende um par de collants à empregada e ordena Um embrulho de oferta se faz favor. Não sei se por antecipação da crise negra que nos vai depauperar a todos no próximo ano, por forretice pura e dura ou apenas uma pungente falta de imaginação, a verdade é que tinha à minha frente a materialização do demónio de Natais pretéritos e de um Portugal pobre, cinzento e com uma enorme falta de imaginação onde os pobres homens eram brindados com meias e cuecas. O passado acabara de se revelar à minha frente e de regressar, ainda que tivesse sido feito um upgrade para uns moderníssimos collants. Um destes dias estamos a ir a Badajoz comprar caramelos e serviços de pirex castanho outra vez. Um susto.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Plano verdadeiramente produtivo para um dia invernoso

Esticar-me no sofá, ler, acender a lareira, comer. A ordem dos factores é arbitrária, logo posso começar por ler, a seguir esticar-me no sofá, comiscar algo, acender a lareira ou acender a lareira, esticar-me no sofá, ler e comer ou ainda comiscar algo, acender a lareira, esticar-me no sofá e ler os meus presentes de Natal. Vida boa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Com os dias contados

É velho, é gordo, usa sempre a mesma roupa, só trabalha dois ou três dias por ano, nada que abone em favor dele, nos tempos que correm há que trabalhar muito, estar muito ocupado e cumprir tarefas múltiplas com afinco, velocidade e stresse, muito stresse, tem barba, não apara ou retoca as sobrancelhas e, ainda por cima, como se as características citadas não fossem o suficiente, é míope.
Tem o péssimo hábito de andar permanentemente de barrete, igual se em casa ou na rua, aparentemente não se coíbe de coisa alguma entre estranhos, usa botas altas, o que, embora seja tendência corrente entre o público feminino seguidor dos ditames da moda, não torna o velho gordo a mais elegante das criaturas, alguém que o leve a um fashion stylist, não se lhe conhece outra roupa e desconhecem-se-lhe companhias, femininas ou masculinas. Passa a vida rodeado de animais, razão pela qual, muito provavelmente, é parco em palavras e profere ocasionalmente sons monocórdicos e repetitivos, aos três de cada vez.
Pode ser encontrado com mais frequência a partir de Novembro, embora já tenha sido avistado em Outubro, em Dezembro faz aparições frequentes em centros comerciais, na televisão, em revistas, folhetos publicitários, podemos encontrá-lo em esforços hercúleos pendurado em varandas, parapeitos, paredes de prédios e chaminés, mais uma vez, uma figura nada dignificante e pouco abonatória, teme-se acusação de home jacking, serve amiúde como arma de arremesso, uma ameaça constante à vida infantil, nos dias que correm é crime ameaçar crianças, há que lhes deixar fazer tudo o que lhes passa pela cabeça, e continua tranquilo cumprindo as tarefas costumeiras, ano após ano. O velho tem os dias contados, porém.
O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram, e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem.
O velho é gordo. Nestes dias, gordura é um pecado quase tão mau e hediondo como a velhice, dois pontos negativos imperdoáveis, velho e gordo. O velho será submetido a um intenso programa de cardio-fitness com um regime alimentar equilibrado com as percentagens sensatas de hidratos de carbono, fibras e proteínas.
O velho e gordo tem o péssimo hábito de ser transportado por renas, nos dias correntes, ninguém é transportado por renas, sob pena de ser processado pelas organizações de protecção dos animais e o velho adora compras, um comprador compulsivo sem comparação, outra falta reprovável particularmente em tempos de crise. O velho além de velho, gordo e comprador compulsivo tem outra característica inadmissível: a generosidade. Com tudo o resto pode viver-se. A generosidade não. O velho tem os dias contados.


Também no Delito de Opinião

domingo, 28 de novembro de 2010

De mais

A falta de paciência que me tem assaltado tem-me dado para intolerâncias várias, uma delas surgiu quando a empregada da secretaria, que conheço desde criança, é verdade, deu para me tratar pelo primeiro nome à frente dos alunos. Sem alunos à volta não tenho qualquer problema, sou até capaz de levar a mal se me tratar por outro nome, mas tendo em conta que esta nova geração não consegue destrinçar uma série de pressupostos aceites tacitamente em tempos passados, não gostei e não gosto. E reclamei.
Outra das minhas malapatas recentes prende-se com a onda de reformas antecipadas lá na escola azul cueca. Como terá acontecido antes noutras escolas que não a azul cueca, este ano tem assistido a um corropio de libertadores papéis a dar entrada na secretaria. Já avisei contudo que não tenciono reformar-me antes da altura devida, a menos que a minha vida melhore, e muito, e ainda dê em dondoca. Pedi inclusivamente que quando sair de casa ainda mais descabelada, quando começar a usar soquetes com crocs e adentre o portão da escola a chamar carneiros aos meus colegas que me avisem para tomar medidas de contenção de verborreia e disparate. Isto para o caso de ser acometida de um mal terrível de quarenta e três anos de escola no bucho como prevejo, o que convenhamos são muitos anos de escola, muitas horas de aulas, muitas reuniões. Muito de tudo em suma. Mas estes seres em estado de reforma iminente, felizmente para eles, estão sãozinhos que nem um pêro, não usam crocs e soquetes, e apenas decidiram que era chegada a sua altura depois de cálculos e mais cálculos, contas e mais contas. Legítimo. Chega uma altura em que a escola se nos sobra e suga numa espiral de destruição de toda a sanidade mental. O que me tem encanitado, e como tem encanitado, é que entre as contas e as datas, me atirem A tua mãe é que se reformou em boa altura. Ora, meus amigos, primeiro, metei-vos na vossa vidinha, segundo, a minha mãe tinha sessenta e seis anos de idade e mais de quarenta de serviço. Muitos anos de escola, muitas horas de aulas, muitas reuniões, muito de tudo. Se aquela não fosse boa altura não sei quando seria. Mais é de mais.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A malapata

Foi ontem. Com dinheiro fresco na carteira e a decisão de não deixar compras para última da hora, resolvi embarcar calmamente nas primeiras compras de Natal. O dia estava cinzento e triste, com poucos transeuntes e as lojas anunciando, pela falta de novidades, a crise e a recessão de que tanto se fala e melhor se sente.
Entro na loja e abeiro-me das inúmeras lembranças natalícias. Nem uma alma além de mim e da empregada. Decido-me sem grande esforço por uma insignificância que, mesmo sendo insignificância, não deixa de ser uma lembrança e meritória de um embrulho decente sem exuberâncias e falsas esperanças da simplicidade do conteúdo. Admito que já fui rapariga mais paciente mas, aos quarenta e cinco anos, surgiu uma espécie de intolerância vetusta, um frenesim miúdo e uma dificuldade em levar desaforo para casa. Não é preciso mudar para o outro passeio se me avistarem na rua, continuo sensivelmente a mesma pessoa, embora algo, a acompanhar a decadência do corpo, me tenha invadido. Terá sido quiçá por isso que, depois de empregada me apresentar um embrulho todo mal amanhado com o presente verdadeiramente solto lá dentro abanicando desajeitadamente para cá e para lá e o papel amarfanhado pela absoluta falta de jeito, que reclamei. A rapariga não achou muita piada, mesmo que as palavras não tenham sido agressivas e retomou a tarefa hercúlea, pasme-se, de embrulhar o presente. E foi aqui que tocou o sinal de alarme. Imaginem a cor, a cor do papel. Em vez de um natalício cheio de renas e pais-natal, arruma-me com um azul cueca. Há quem lhe chame karma, sina ou destino. Cá por mim, tenho uma malapata com o azul cueca. Valham-me os deuses.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Es weihnachtet

Não gosto de chuva. Não gosto de tempo cinzento. Não gosto de vento. Não gosto de frio. Odeio Inverno. Contudo, quando pela primeira vez fui ao mercado de Natal em Munique, no ano seguinte ao de Budapeste, depois ao de Praga e no ano a seguir ao de Viena, a minha vida mudou e passei a saber apreciar a vida estranha de uma encasacada entre iluminações, tendas de artesanato, anjos e coroas de flores secas aromatizadas com laranja, canela e cravinho e uma caneca de Glühwein, escaldante e perfumado, titubeantemente aconchegada entre as mãos gélidas, enganosamente cobertas de luvas invernosas. E não há sol nem calor. Há uma magia oculta, quem sabe reminiscências de Natais passados e felizes, no calcorrear de ruelas estreitas que sossobram às barraquinhas coloridas e decoradas com cuidado, a nuvem de ar espesso e branco que se eleva das verbalizações quase monossilábicas dos vendedores, conversa apenas no indispensável para que ocorram pequenas trocas comerciais, o dinheiro contado na palma da mão enluvada, rostos brilhantes encafuados em gorros pungentes e o pescoço envolto no carinho aconchegante de um cachecol volumoso, um obrigado e um adeus. A luz estridente que se propaga no contraste das noites precoces e assustadoramente negras de um Dezembro final, aromas que se desprendem das mais diversas iguarias, o restolhar mansinho dos passos vagarosos e da roupa volumosa dos transeuntes e o bater de perna mercado acima e abaixo sempre acompanhado da constatação tão óbvia do frio omnipresente. Estranhos prazeres para uma alma estival. Doce contradição. 

 Praga
fotografia minha

Obviamente

domingo, 21 de novembro de 2010

Pedir por boca

A vida de professor implica muitas coisas. Implica dar colinho aos alunos, tentar dar aulas aos alunos, aprender com eles e ensiná-los de volta. Implica também manifestações de carinho que nos deixam um sorriso pateta no rosto e o coração transbordante de alegria. Mas ser professor, exactamente como as outras profissões, implica uma fatia generosa do tempo a aturar energúmenos que podem vir das mais diversas direcções. Podem ser alunos também, podem ser pais, podem ser funcionários e podem ser os meus pares, cruzes credo, tem um par assim até me arrepia a mais recôndita das pilosidades.
Foi isto numa segunda-feira, depois da manhã cheia de aulas, reuniões à tarde. Sentada de esguelha para fugir da luz cumpria obedientemente as instruções do Sr. Dr. Ministério da Educação e frequentava uma acção de formação. Estava naturalmente com pouca paciência para disparates com tantas horas de escola no bucho e aquilo que desejava ardentemente, tal como os meus alunos, era ver-me dali para fora e que não me importunassem mais com a ferramenta última que erradicará para todo o sempre a geração mais antiga de professores, aquela que não se ter conseguido adaptar a tamanha modernice acabará por extinguir-se naturalmente. Chegarão algures, por enquanto existe apenas uma caixa espetada no meio da parede, mas quando eles chegarem, far-se-á uma reinauguração e os ditos desfilarão ufanos sob o pálio da estupefacção da escola azul cueca. Abram alas, senhoras e senhores, para os Quadros Interactivos Multimédia, QIM, para os amigos.
E foi logo no início de três horas encafuados numa sala mínima recozendo odores e humores que o chefe máximo das formações se abeirou com a sua costumeira arrogância, um ser que deve trazer consigo um pedestal oculto no qual se encavalita quando se quer dirigir aos reles professores que dão aulas, que, como se sabe estes doutos seres não dão aulas, estão sentadinhos em gabinetes com os rabinhos almofadados na acalmia de mandar nos outros. Ora, o povo é rapaz que precisa de muita coisa e tendo em conta o número de cabeças pensantes no espaço exíguo, precisávamos de mais extensões, é que os computadores ainda não funcionam a energia solar e o professor é um rapaz pobre que não se pode dar a devaneios tecnológicos. Na verbalização desta necessidade o douto ser arrumou-nos com um educadíssimo Para a próxima tragam de casa. Já não me bastava o cabo VGA, agora tenho de levar de casa uma extensão e quem diz uma extensão, diz outras coisas, por que não? É só pedir por boca que o povo é ordeiro e temente. Não há paciência e amanhã é segunda-feira e depois é terça e depois quarta.