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terça-feira, 16 de setembro de 2008
Hoje...
domingo, 14 de setembro de 2008
sábado, 13 de setembro de 2008
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Nacos de prosa (1)
Academic friends say their students answer calls during lectures. Lovers lolling on the public grass on a sunny day glare at you if you look at them, as if you have just walked into their living-room. People chat in the cinema during the film, and sometimes during the play. Air travellers on long-haul flights change into pyjamas in the lavatories. It's as if we now believe, in some spooky virtual way, that wherever we are, it's home.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Procura-se
alguém que tenha lido A Eternidade e o Desejo para troca de impressões. Vou na página setenta. Parece-me uma eternidade e desejo só de o arrumar na estante. Quem leu?
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Terça-feira...
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Book with a view
Um muro de letras
Na altura em que o tomate Raf estava a dois euro e quarenta e nove cêntimos, eles entraram a meu lado no supermercado. Vinham algures pela direita e demos passagem uns aos outros, eu dei-lha a eles, eles deram-ma a mim, e entretanto, sem saber já quem entrou primeiro, absolutamente irrelevante no contexto, encontrei-me dentro do estabelecimento propriamente dito. Comecei pela habitual ronda das saladas, há que viver saudável e os vegetais, diz-se, são parte integrante do bem-estar físico, que naturalmente produz efeitos imediatos, assim se espera, sobre essa nebulosa da harmonia interior anunciada e vendida também nos coloridos suplementos dominicais. Os frutos vermelhos, por exemplo, são antioxidantes poderosos. Quem sabe levada por isso abeirei–me da enorme banca onde estavam dispostos os tão apregoados Raf, feios, mas saborosos, a publicidade naqueles dias era inequívoca.
Do lado oposto ao meu, debruçado sobre o mesmo expositor, encontrava-se o casal com quem me cruzara à entrada. Julgava-os deambulando algures noutro corredor, a decisão das saladas nem sempre é pacífica e na languidez do dia que entardecia deixara a pressa amarrada ao poste do stresse pretérito. Abordaram-me entretanto Ó menina, a que preço é o tomate? O preço estava bem visível: dois euro e quarenta e nove o quilo e, não fora a intervenção rápida da mulher, leitora perspicaz de rostos alheios, jamais teria compreendido a razão da pergunta. Lamentarei o resto da vida a expressão desconfiada e incrédula que soltei sem sequer balbuciar palavra. A mulher acrescentou então em auxílio do marido A gente não sabe ler. Preferia pensar que o meu rubor era reflexo dos frutos à minha frente e não o constrangimento perante a situação. Respondi de imediato e fui à minha vidinha cheia de letras e números e sinais e símbolos que sei descodificar e que me orientam por esse mundo fora. Não era o caso do casal que deixara para trás. A realidade conhecida, em Portugal a taxa de iliteracia não é prestigiante, tinha, a partir de agora, dois rostos desorientados perante um mero preço de supermercado, a diferença significativa entre as estatísticas e as pessoas. Um homem e uma mulher à mercê da disponibilidade alheia, prisioneiros da sua incapacidade de descodificar mensagens escritas. Dois mundos separados por um muro de palavras e letras incompreensíveis.
E assim é em pleno século XXI. Enquanto os sorrisos pendurados alardeiam as virtudes das novas oportunidades, selados com beijos e apertos de mão vigorosos, e o choque tecnológico ocupa o lugar cimeiro das preocupações governamentais, alguns permanecem excluídos. Não têm rosto, não ficam bem na fotografia e não dão votos. Não são ninguém.
Do lado oposto ao meu, debruçado sobre o mesmo expositor, encontrava-se o casal com quem me cruzara à entrada. Julgava-os deambulando algures noutro corredor, a decisão das saladas nem sempre é pacífica e na languidez do dia que entardecia deixara a pressa amarrada ao poste do stresse pretérito. Abordaram-me entretanto Ó menina, a que preço é o tomate? O preço estava bem visível: dois euro e quarenta e nove o quilo e, não fora a intervenção rápida da mulher, leitora perspicaz de rostos alheios, jamais teria compreendido a razão da pergunta. Lamentarei o resto da vida a expressão desconfiada e incrédula que soltei sem sequer balbuciar palavra. A mulher acrescentou então em auxílio do marido A gente não sabe ler. Preferia pensar que o meu rubor era reflexo dos frutos à minha frente e não o constrangimento perante a situação. Respondi de imediato e fui à minha vidinha cheia de letras e números e sinais e símbolos que sei descodificar e que me orientam por esse mundo fora. Não era o caso do casal que deixara para trás. A realidade conhecida, em Portugal a taxa de iliteracia não é prestigiante, tinha, a partir de agora, dois rostos desorientados perante um mero preço de supermercado, a diferença significativa entre as estatísticas e as pessoas. Um homem e uma mulher à mercê da disponibilidade alheia, prisioneiros da sua incapacidade de descodificar mensagens escritas. Dois mundos separados por um muro de palavras e letras incompreensíveis.
E assim é em pleno século XXI. Enquanto os sorrisos pendurados alardeiam as virtudes das novas oportunidades, selados com beijos e apertos de mão vigorosos, e o choque tecnológico ocupa o lugar cimeiro das preocupações governamentais, alguns permanecem excluídos. Não têm rosto, não ficam bem na fotografia e não dão votos. Não são ninguém.
Este texto foi escrito para o Corta-Fitas e repescado hoje no Dia Internacional da Alfabetização
domingo, 7 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
Contai uns aos outros
Um qualquer dia pelo fim da tarde rumo ao supermercado para me atafulhar nas inevitáveis compras, mantimentos para humanos, gente canina e felina. Uma ou outra pessoa conhecida. Depois das saladas paro no talho, uma cara conhecida. A mãe como está? Bem, obrigada. Uma dúzia de palavras trocadas. Digo ao que venho ao talhante. Incapaz de calcular quantidades com precisão, indico claramente o número de pessoas a quem se destina a carne: duas. Uma pergunta salta do lado: Não têm filhos? Sorrio e respondo negativamente. E que tens tu a ver com isso? O questionário prolonga-se Mas já estão casados há um tempo… Respondo com quase absoluta exactidão o número de anos. Recolho a carne aos desejos de boa tarde e de bom fim-de-semana e faço-me à vida, praguejando com os botões contra esta espécie muito particular de bisbilhotice alheia que afoga uma mulher sem fruto e que aparentemente deve explicações à população em geral Não têm? E porquê? Porque não? Porque sim? Porque assim assim? Bem sei que as questões reprodutivas são assunto público de há um tempo a esta parte, fazem inclusive manchete nas revistas cor-de-rosa, coitadito do filho do Cavaco que não conseguiu que a mulher desovasse durante uma década, as fornicadelas, tentativas e intentonas conversa de café ou de jantar, com pormenores sórdidos e de gritante mau gosto, detalhes de ciclos e luas, as paridelas, águas e contracções, o colo do útero dilatado. Os cocós das crianças, consistência e cor e sei lá mais o quê que não me interessa absolutamente são tema recorrente e que se adivinha depois das tentativas e intentonas. Conversas altamente edificantes. A exibição constrangedora de algo que deve ser íntimo e que apenas a duas pessoas diz respeito, a três no caso dos cocós. E depois voltar à conversa com os visados e vê-los nuinhos, esbaforidos e esforçados, aos ais e uis com data e hora, as mulheres com uma perna aqui e outra em Belém, com enfermeiros e médicos à dúzia a coscuvilhar-lhe as entranhas e elas a esgadanhar-se nas paridelas sempre tão coloridas e suadas. Lindo de se ver, maravilhoso para se descrever. Aquelas pessoas jamais são as mesmas, essas e outras. Aconteceu-me um dia no local de trabalho, alguém lamuriar-se, dizer com frequência que andava a passar muitas necessidades, o marido tinha os legumes chochos e encarquilhados e depois euzinha, valha-me deus, conhecer o pobre homem numa outra situação e pensar Mal empregado. Um homem tão jeitoso e simpático com o hidráulico avariado, pena que se lhe foi a mola. Ainda estive para lhe dar uma palmadinha solidária nas costas mas mal o conhecia, embora o conhecesse mais do que queria e muito mais do que devia. Se a Bíblia fosse reescrita seria certamente incluída uma adenda Crescei, multiplicai-vos mas contai uns aos outros.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Entre Frida Kahlo e Jesus Cristo
Na aldeia vive o cego, senti-o um destes dias quando, estacionada à porta da tabacaria, o meu carrinho, o meu rico carrinho, o meu único carrinho azul, o carrinho que eu comprei com o meu dinheirinho levou umas fortes bengaladas e umas quantas chibatadas na parte traseira, que o cego é cego mas não é para graças nem meiguices, sabe deus o vigor na bengala.Na aldeia mora Jesus. JC vai passando rua abaixo, ganhou peso nos últimos tempos e a última vez que o vi mais de perto estava à porta da biblioteca da escola, opinando sobre um autor. Ultimamente abandonou a bicicleta, razão pela qual se lhe arredondou o corpo, mas pão e vinho já se sabe que não é alimentação saudável, os hidratos de carbono são do piorio e o vinho tinto, além de estar carregado de calorias, se não for de boa qualidade e em excesso, provoca-lhe fortes dores de cabeça. Nada que Jesus Cristo não consiga resolver sem analgésicos. O que é uma simples dor de cabeça para quem pôs um cego a ver?
Na aldeia há o talho que emite o terço religiosamente todos os sábados ao fim de tarde, carninha benta já se sabe, chouriços vendidos ao som de pais-nossos, entremeada na ladainha de amens e graças, bifanas pesadas na toada das ave-marias.
Na aldeia vivem duas mulheres que levam as muletas a passear esporadicamente. Nada como uma caminhada ao sol para lhes limpar a humidade, evitar a ferrugem, estimular o convívio saudável entre as pobres coitaditas, que fariam em casa? Os auxiliares repousam à conversa enquanto as proprietárias correm a vida alheia a pente fino e acompanham a conversa erguendo de quando em vez as muletas uma para a outra, a extensão natural do esbracejo mexeriqueiro. Quando a dona da retrosaria se perdeu de amores por um nórdico, alvo e desajeitado nas artes fornicadeiras, e deixou para trás, não obstante, caramba, o que havia de dar à mulher, além dos filhos, os botões e os fechos invisíveis, as gregas e as fitas de nastro, as muletas tiveram um uso desmedido, primeiro no ar com uma exclamação Ah, eh pá, na me digas isso, e depois o movimento descendente da confirmação Rás ta apanha a melher e as muletas quedas até à revelação seguinte. Um desassossego.
No café da aldeia, café e pastelaria, trabalha a Frida Kahlo. Serve bicas, queques, cafés com cheirinho, minis e vende pão, bicos, no dia em que o padeiro faz bicos. Quando um dia pretérito me fiz à aldeia, a Frida Kahlo serviu-me um café, delicioso por acaso. O que lhe sobra em sobrancelhas também não falta em artes de tirar café. A Frida Kahlo da aldeia é menos morena do que a Frida Kahlo Frida Kahlo, um pouco mais baixa e, para grande sorte dela, move-se com evidente facilidade e ligeireza lá por trás do balcão no reino do bolo de arroz. A Frida Kahlo é diligente sem esbanjar simpatia, e tal como a Frida Kahlo Frida Kahlo, se não não seria a Frida Kahlo, tem umas sobrancelhas que se unem em redemoinho bem no centro. Tal com as de Frida Kahlo são farfalhudas e notam-se à légua, logo à porta do café, mas ao contrário da Frida Kahlo Frida Kahlo é parca em pilosidades no lábio superior. Num tempo em que até os homens têm sobrancelhas milimetricamente depiladas por mestres das artes depiladeiras, essa ciência oculta de bem debulhar qualquer pilosidade indesejada, tamanho sobrancelhame e ausência de bigodaça só pode ser um statement of art, uma elegia à Frida Kahlo Frida Kahlo. A aldeia é um mundo.
imagem: minha
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Mightier than the sword
Os dias de chuva convidam ao recolhimento entre portas. Entro na livraria pela enésima vez. Passo revista pelos mesmos livros, fazendo mentalmente a verificação dos que ainda compraria antes do regresso, somo e subtraio quilos à bagagem asceticamente cauculada, x pares de calças para x camisolas, nem mais nem menos, pares de sapatos controlados apenas pelo grau de conforto, poucos portanto e constato o que já sei, os livros terão de ser levados comigo, não há mala que comporte tantas letras e não gosto dos livros amachucados. Tu sabes. Tropeço no After Dark do Murakami e oscilo Levo? Não levo? Reviro o livro, confirmo capa e contracapa, leio as primeiras linhas, três por dois, tentação demoníaca, e a tradução? Directamente do japonês? Melhor do que a portuguesa? Não levo. Uma volta mais. Agora artigos de papelaria. Cadernos, caderninhos, dossiers, sacos, estojos, lápis e borrachas, agendas para 2009 e detenho-me perante a caneta. Preço ridículo. O valor das coisas nem sempre se estabelece em relação directa com o preço. Ensinaste-me tu ao longo das quatro décadas em que me apontaste caminhos. A caneta diz The pen is mightier than sword, a citação de Edward Bulwer-Lytton em tons levemente mais claros, o contraste harmonioso com a cor da caneta, a azul escura é mais bonita, constato, e penso, agarrando imediatamente na primeira disponível aos dedos curiosos Que gira. Vou levar para o Papá. E a mente que faz marcha-atrás mais veloz do que a mão que coloca a caneta no lugar inicial, o presente rebobinado e o passado presente entre os dedos que lêem The pen is mightier than the sword. E o presente que continua numa sucessão de atropelos e de regressos inevitáveis ao passado que fez do presente o que ele é. Vou levar para o Papá. A frase que se me atravessa a mente, a euforia infantil do presente, ensinaste-me também, oferecer sempre sem nada esperar em troca, um dos prazeres sempre cultivado e evidente no sorriso genuíno e generoso que oferecias com o presente, mais valioso, as mãos que alcançam canetas, lápis e borrachas rodando-os docemente na ponta dos dedos para retorná-los desapontada ao lugar, os olhos humedecidos que finjo acometidos de uma alergia repentina, que outra razão?, os gestos desengonçados, o nó na garganta que se esperaria resolvido, diz que o tempo ajuda, mentiras cobrindo as ausências, panaceias para males sem cura. Vou levar para o Papá, ocorre-me outra vez, pego na caneta, escolho uma entre muitas, eliminando as que contêm imperfeições, a caneta diz-me The pen is mightier than the sword, o passado cutuca-me no ombro, três anos decorridos, de caneta na mão aproximo-me da caixa Vou levar para o Papá e aqui a tenho, Papá, sei que vais gostar.
À memória do meu pai
domingo, 31 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (15)
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (14)
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (13)
* Com um agradecimento especial ao James Stuart
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Pelo cachaço como os gatos
As manhãs de estio convidam à indolência de distribuir o tempo ao ritmo da vontade de cada um. Levantei-me cedo para os meus próprios padrões em tempo de nada fazer, pus pés ao caminho nas havaianas de sempre, e, rua acima, fui até ao centro da aldeia tomar um café. A manhã pode ser o mais energizante dos tónicos. De um lado da estrada a declaração de amor que se mantém de há um tempo a esta parte Amo-te gorduchinha, seria para mim?, do outro as flores que crescem sem adubo nem pesticidas, melhores do que as holandesas, dizem-me, o pé mais alto e firme, uma casa que foi restaurada, o sol que entretanto se faz sentir nas costas e a tranquilidade do périplo, casas e flores de um lado e de outro. Chego finalmente ao centro, entro no café e digo ao que venho, atento na empregada que me olha de frente e eis que me salta um texto de trás do balcão, pareceu-me escondido no bolso do avental da empregada, exactamente no golo derradeiro do café. Procuro o dinheiro, largo-o no balcão, deito um olhar último à empregada, despeço-me e sinto as palavras a encarreirar-se. Uma frase inteirinha Ah malandro, logo agora. Saio do café, olho a igreja em frente e, antes que o texto me fuja, senti algumas palavras a espernear assim que entrei pela rua apertada. Os acentos estrebuchavam que nem coelhos amarrados pelos pés, as vírgulas impacientavam-se em corropios, os pontos de exclamação davam encontrões uns aos outros. Larguei-os logo, são os mais dispensáveis e estavam a provocar grande convulsão no texto. Agarrei-o com vigor pelo cachaço como as gatas fazem às crias, firme e seguro, sem amarrotar as expressões e amachucar os eufemismos. Não me escapas. Rua abaixo, casas e flores de um lado e de outro, o sol a bater-me na cara. Agarrei-o como pude e o texto veio conformado mas impaciente, as vírgulas irrequietas, as metáforas ansiosas e os adjectivos aflitos.
Abro a porta apressada, estava mesmo mesmo a fugir-me, os textos fogem-me algumas vezes. Arrebanho a primeira folha em branco, um lápis ali por perto e solto finalmente as palavras, vírgulas, adjectivos, metáforas e eufemismos. Apanhei-te, malandro.
Abro a porta apressada, estava mesmo mesmo a fugir-me, os textos fogem-me algumas vezes. Arrebanho a primeira folha em branco, um lápis ali por perto e solto finalmente as palavras, vírgulas, adjectivos, metáforas e eufemismos. Apanhei-te, malandro.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (12)
sábado, 23 de agosto de 2008
Momento sitemeter (11)
Directamente da Austrália alguém quis saber de que tratava aqui o modestísssimo blogue. Pois bem, socorreu-se dos serviços de tradução automática do Google e ter-se-á deparado com um texto da mais alta qualidade, a tradução deste. Só conheço duas pessoas que seriam capaz de semelhante proeza. São eles José da Fonseca e Pedro Carolino, autores dessa obra prima English as she is spoke. Entretanto, deliciem-se:
You fat cow

We no longer sufficient in the povão host on the beach, the children playing the ball up in a peaceful citizen, the martins, guilhermes, marias and daisies, the vanessas and rubens asneiredo by mouth to drop out, the paizinhos powerless before the personality their strong rebentinhos, the berros and threats, the verborreia and vidinha escarrapachadas ahead of all, mobile phones tireless, the need for human warmth that the Portuguese have, there is no clearing of sand or even rectangle that can resist, what paradísiaco missing in this scenario was the same screening layers of fat. Ficar em casa em Agosto cada vez me parece uma melhor opção. Stay at home in August ever seem a better option.
You fat cow

We no longer sufficient in the povão host on the beach, the children playing the ball up in a peaceful citizen, the martins, guilhermes, marias and daisies, the vanessas and rubens asneiredo by mouth to drop out, the paizinhos powerless before the personality their strong rebentinhos, the berros and threats, the verborreia and vidinha escarrapachadas ahead of all, mobile phones tireless, the need for human warmth that the Portuguese have, there is no clearing of sand or even rectangle that can resist, what paradísiaco missing in this scenario was the same screening layers of fat. Ficar em casa em Agosto cada vez me parece uma melhor opção. Stay at home in August ever seem a better option.
O que irão pensar de mim com uma escrita destas?
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (11)
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
A minha vida com o japonês
Dentro de mim vive um japonês. Tem a máquina fotográfica quase sempre à mão e, se se contém em situações menos próprias, deve-se apenas ao efeito disciplinador que exerço sobre o mafarrico. Nem sempre me obedece, causou-me pelo menos duas situações constrangedoras que me escuso aqui a contar. O japonês que as conte, se quiser, já me foi suficientemente embaraçosa a situação, as situações, melhor dizendo, que voluntarioso como é não se contentou com o feito e na primeira janela de oportunidade lá estava ele com o dedo indicador direito sobre o meu para um clique inevitável sobre, enfim, um daqueles locais sagrados, nomes e locais não são para aqui chamados. Advirto-o inúmeras vezes Pára, aqui não, nem penses, olha os letreiros, é proibido fotografar. Mantenho pulso firme e, quando o disciplino, a vida vai correndo relativamente tranquila. Admito que é insistente, contudo, não se deixa convencer à primeira, como se viu da tal vez perante o local sacrossanto e, às vezes, muitas, parece que me prime o indicador sobre o botão da máquina, sem que pouco lhe consiga fazer, sempre à espera do clique mágico bulimicamente fotografando para a posteridade as cidades e locais por onde deambulo.
O japonês e eu chegámos a um acordo para uma vivência mais pacífica, não obstante. Avisei-o peremptória que não fotografo, de todo, pessoas, serão animais em jardins zoológicos, por acaso? e comida nos restaurantes, era o que faltava, muito embora me perca em bancas de flores e frutas em mercados e lamente até hoje não ter tido a máquina à mão quando os girassóis em Amesterdão me sorriam das bancas, artisticamente dispostos em molhos, uma exaltação dos sentidos que colore a cidade entre canais, bicicletas e as cornijas decoradas das casas comprimidas umas contra as outras. Nessa ocasião, o japonês andava meio ausente, acompanhava-me com menos frequência e passava por momentos de aparente introspecção, talvez a justificação plausível para a ausência quase absoluta de fotografias dos dias de Amesterdão.
Com o advento das máquinas digitais, o japonês tornou-se abusivo e intromissor. É que não me larga. Num mero fim-de-semana fora de portas chovem às catadupas as quadrículas coloridas, pedacinhos brilhantes dos itinerários percorridos. Se saio para um passeio à beira-mar, segreda-me Olha ali! Dava uma bela fotografia. Mal saio a porta, um cutucar no ombro Que linda que está a passiflora. A pobre da gardénia quando se desmultiplicou em flores alvas e perfumadas não teve mais sossego, coitadita, todos os dias, todinhos, primeiro os botões, depois a flor que se desvela e mais uma, mais outra, três, quatro, cinco, de manhã, pelo zénite, ao entardecer. Um desassossego é o que é.
O japonês tem lugares de culto. À primeira visita chovem apenas fotografias, à segunda chovem ainda mais, uma selecção mais cuidada do já fotografado, a atenção ao pormenor, a luz, a perspectiva. Foi assim no Great Hall do Museu Britânico: da esquerda, da direita, de cima, a atenção na refracção de luz, os reflexos no chão, as pessoas que passavam. Adora o Museu, o salafrário. E de igual forma em Berlim, parece que tem uma predilecção por arquitectura contemporânea, de mau gosto não o posso acusar, na cúpula do Reichstag, uma, duas três, quatro, cinco e depois encaracolar-se pela subida e ver o céu ora azul, ora encoberto com nuvens brancas e a cidade em seu redor, esteve bem Norman Foster, disse-me, já me tinha dito o mesmo do Calatrava em Malmö, a propósito do Turning Torso, as Portas de Brandenburgo do lado direito, que coisa, agora encavalitadas, sussurrou-me, entrincheiradas entre embaixadas e bancos, e mais umas quantas fotografias ao monumento mais simbólico da cidade dividida.
E agora vou-me. O sol pôr-se-á dentro de minutos, sobre o mar desenhou-se uma pincelada prateada e o japonês chama-me. Não se pode viver com ele, não se pode viver sem ele.
O japonês e eu chegámos a um acordo para uma vivência mais pacífica, não obstante. Avisei-o peremptória que não fotografo, de todo, pessoas, serão animais em jardins zoológicos, por acaso? e comida nos restaurantes, era o que faltava, muito embora me perca em bancas de flores e frutas em mercados e lamente até hoje não ter tido a máquina à mão quando os girassóis em Amesterdão me sorriam das bancas, artisticamente dispostos em molhos, uma exaltação dos sentidos que colore a cidade entre canais, bicicletas e as cornijas decoradas das casas comprimidas umas contra as outras. Nessa ocasião, o japonês andava meio ausente, acompanhava-me com menos frequência e passava por momentos de aparente introspecção, talvez a justificação plausível para a ausência quase absoluta de fotografias dos dias de Amesterdão.
Com o advento das máquinas digitais, o japonês tornou-se abusivo e intromissor. É que não me larga. Num mero fim-de-semana fora de portas chovem às catadupas as quadrículas coloridas, pedacinhos brilhantes dos itinerários percorridos. Se saio para um passeio à beira-mar, segreda-me Olha ali! Dava uma bela fotografia. Mal saio a porta, um cutucar no ombro Que linda que está a passiflora. A pobre da gardénia quando se desmultiplicou em flores alvas e perfumadas não teve mais sossego, coitadita, todos os dias, todinhos, primeiro os botões, depois a flor que se desvela e mais uma, mais outra, três, quatro, cinco, de manhã, pelo zénite, ao entardecer. Um desassossego é o que é.
O japonês tem lugares de culto. À primeira visita chovem apenas fotografias, à segunda chovem ainda mais, uma selecção mais cuidada do já fotografado, a atenção ao pormenor, a luz, a perspectiva. Foi assim no Great Hall do Museu Britânico: da esquerda, da direita, de cima, a atenção na refracção de luz, os reflexos no chão, as pessoas que passavam. Adora o Museu, o salafrário. E de igual forma em Berlim, parece que tem uma predilecção por arquitectura contemporânea, de mau gosto não o posso acusar, na cúpula do Reichstag, uma, duas três, quatro, cinco e depois encaracolar-se pela subida e ver o céu ora azul, ora encoberto com nuvens brancas e a cidade em seu redor, esteve bem Norman Foster, disse-me, já me tinha dito o mesmo do Calatrava em Malmö, a propósito do Turning Torso, as Portas de Brandenburgo do lado direito, que coisa, agora encavalitadas, sussurrou-me, entrincheiradas entre embaixadas e bancos, e mais umas quantas fotografias ao monumento mais simbólico da cidade dividida.
E agora vou-me. O sol pôr-se-á dentro de minutos, sobre o mar desenhou-se uma pincelada prateada e o japonês chama-me. Não se pode viver com ele, não se pode viver sem ele.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
A ponte não é uma passagem
terça-feira, 19 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (10)
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (9)
domingo, 17 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (8)
sábado, 16 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (7)
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (6)
terça-feira, 12 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (5)
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (4)
domingo, 10 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (3)
sábado, 9 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (2)
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
A ponte é uma passagem (1)
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
terça-feira, 5 de agosto de 2008
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Momento sitemeter (10)
A quem procurou por mulher caprichosa informamos que tem dias...
You fat cow

Já não bastava o povão em catadupa na praia, a criançada a jogar à bola para cima de uma cidadã pacata, os martins, guilhermes, marias e margaridas, as vanessas e os rubens a largar asneiredo pela boca fora, os paizinhos impotentes perante a personalidade forte dos seus rebentinhos, aos berros e às ameaças, a verborreia e a vidinha escarrapachadas à frente de todos, os telemóveis incansáveis, a necessidade de calor humano que o português tem, não há clareira de areia ou rectângulo sequer a que consiga resistir, o que faltava neste cenário paradísiaco era mesmo o rastreio das camadas adiposas. Ficar em casa em Agosto cada vez me parece uma melhor opção.
imagem: Jeanne Lorioz, "Petit Frisson"
sábado, 2 de agosto de 2008
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Feminino e intemporal
Esqueçamos então a figura controversa, a imagem da mulher desalinhada e desesperada que exibe em palco a tragédia da sua própria vida, patética e decadente, e ouçamos apenas a voz portentosa. Esqueçamos também o seu percurso pessoal e ouçamos o que tem para nos dizer. Love is a losing game, por exemplo, é um hino às adversidades do amor, Back to black, o lamento da perda e do amor infeliz, Wake up alone, a solidão que se abate como o sol poente no quotidiano, Tears dry on their own, um tema perfeito para as mulheres que já experimentaram as lágrimas secar por si, muitas de nós, acredito. Há mais em Amy do que apenas Amy. Existe um sentimento muito feminino, intemporal e transversal de perda, solidão e rejeição. Quanto de nós não é Amy também?Excepcionalmente hoje no PNETMulher.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Os dias de Oxford
A luminosidade inquisitiva pelas frestas dos cortinados coloridos distribuídos em crescente acompanhando a curva da janela. Um bom dia estremunhado numa língua diferente, a pergunta sacramental Did you hear Jasper last night? E a resposta costumeira Não, não ouvi o Jasper durante a noite. Abandonada nos braços de Morfeu nem o Jasper me perturbou o sono. Insistente e voluntarioso, o felino anunciava a entrada várias vezes durante a noite, alertaram-me, pedindo sistematicamente desculpa. Quando o Jasper vinha tomar o pequeno-almoço, uma festarola no gato, uma conversa em português a que respondia com ronrons e marradinhas, gato poliglota certamente. E depois o pequeno-almoço, a tralha às costas, cadernos, canetas, e paragem do autocarro, 35 ou 35A, no meio de coisa nenhuma apenas com um bosque que se espraiava do lado oposto da estrada, lá para onde os melros e rolas voavam. Vinte minutos de autocarro até à cidade. Sob o olhar perscrutador e curioso um mundo que se desvelava lá fora. Gente que entrava no autocarro, um casal alemão presente com frequência, as crianças e adolescentes à espera do transporte escolar vestidas em uniformes, uma ou outra casa típica com telhado de colmo, cottages, conservadas e protegidas, o pub do lado direito, The Tandem, e estrada fora, os dias delineavam-se sob a inquietude da descoberta e o apaziguamento da conquista.
Chegar então. Misturar-me com a multidão que saía em passo apressado e se dispersava como os raios de uma bicicleta na direcção da trivialidade do dia-a-dia. Os rapazes do quiosque de souvenirs arrastavam os expositores para a rua ainda antes da abertura das lojas, ímanes de frigorífico, t-shirts e porta-chaves. Meia dúzia de palavras trocadas, as condolências por Portugal não ter ganho com a Alemanha, Cristiano Ronaldo que é o maior, e o dia a chamar-me para dentro da cidade.
A Cornmarket Street acordava para o bulício citadino. Carrinhas e carros parados na via pedonal a descarregar a mercadoria que havia de alimentar a avidez consumista das hordas de estudantes e turistas. Um espresso duplo antes das aulas e o dia que começava, adicionando-se cumulativamente ao anterior, um continuum de instantes e momentos, coloridos em cinzentos opacos ou translúcidos, rendilhados com os pináculos das universidades protegidas por gárgulas e figuras grotescas, iluminados a verde pelos jardins bem cuidados, aconchegantes com um chá ao fim da tarde na companhia de um livro ou uma cask ale num pub acolhedor. E assim foram os dias de Oxford, embalados por movimentos rotineiros e percursos intimistas nas ruelas solitárias ladeadas de muros construídos com mistérios insondáveis, trilhos reveladores do pulsar da cidade. Para senti-la há que vivê-la. Visitá-la apenas é sempre pouco.
Chegar então. Misturar-me com a multidão que saía em passo apressado e se dispersava como os raios de uma bicicleta na direcção da trivialidade do dia-a-dia. Os rapazes do quiosque de souvenirs arrastavam os expositores para a rua ainda antes da abertura das lojas, ímanes de frigorífico, t-shirts e porta-chaves. Meia dúzia de palavras trocadas, as condolências por Portugal não ter ganho com a Alemanha, Cristiano Ronaldo que é o maior, e o dia a chamar-me para dentro da cidade.
A Cornmarket Street acordava para o bulício citadino. Carrinhas e carros parados na via pedonal a descarregar a mercadoria que havia de alimentar a avidez consumista das hordas de estudantes e turistas. Um espresso duplo antes das aulas e o dia que começava, adicionando-se cumulativamente ao anterior, um continuum de instantes e momentos, coloridos em cinzentos opacos ou translúcidos, rendilhados com os pináculos das universidades protegidas por gárgulas e figuras grotescas, iluminados a verde pelos jardins bem cuidados, aconchegantes com um chá ao fim da tarde na companhia de um livro ou uma cask ale num pub acolhedor. E assim foram os dias de Oxford, embalados por movimentos rotineiros e percursos intimistas nas ruelas solitárias ladeadas de muros construídos com mistérios insondáveis, trilhos reveladores do pulsar da cidade. Para senti-la há que vivê-la. Visitá-la apenas é sempre pouco.
foto: minha
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Qual é o teu preço?
Depois da atribuição de um prémio pecuniário ao melhor professor, eis que surge agora o equivalente para alunos. Um nojo. Um nojo e asco profundos. Há coisas que não têm preço e a educação devia ser uma delas. Quem sabe não terá chegado a altura de mudar de profissão.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Terça-feira
O que fazem juntos no mesmo texto
cristal da Boémia,
Mahatma Gandhi,
cristal da Boémia,
Mahatma Gandhi,
hormonas
domingo, 27 de julho de 2008
Dia de Bahia
Ontem foi dia de Bahia. Dia de Itaparica, dia de Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados, dia de Recôncavo e da Cidade Baixa. Dia de João Ubaldo Ribeiro e de Caetano também. Grisalho, acompanhado apenas da sua presença inigualável e do violão, Caetano foi único, a prova de que o talento se aprimora com a maturidade.
E o Prémio Camões 2008 foi para...
sábado, 26 de julho de 2008
O pensionista
Sir Mick Jagger completa hoje 65 anos. De acordo com a lei britânica terá direito a uma pensão semanal pela entrada na vetusta idade e curioso estado de pensionista. Mick Jagger, ao contrário de muitos da sua e de outras gerações, continua igual a si mesmo: excessivo, mulherengo, com um ar levemente diabólico e, acima de tudo, velho e enrugado, ostentando sem pudor a passagem voraz do tempo. Também por isso o admiro. Sem plásticas nem artifícios usa a idade como uma coroa. Um exemplo a não esquecer.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
The knowledge retailer
terça-feira, 22 de julho de 2008
domingo, 20 de julho de 2008
Bookshop with a view
quinta-feira, 17 de julho de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
terça-feira, 15 de julho de 2008
terça-feira, 8 de julho de 2008
Terça-feira
é dia de passar por aqui.
sábado, 5 de julho de 2008
Eu gosto é do Verão (6)
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Eu gosto é do Verão (5)
terça-feira, 1 de julho de 2008
É terça-feira
e a conversa hoje é sobre as legítimas.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Haverá vida?
Olho para o relógio. Hora e meia, hora e meia é quanto falta para que termine o mês do futebol no Geração Rasca e, antes que termine, existe ainda assunto merecedor de peroradela. Muitos outros haveria certamente, muitos que escapam ao olho e sensibilidade feminina – parca a minha – para estes mistérios em torno de vinte e dois homens correndo atrás de uma bola, um que apita, faz sinalefas e mostra cartões, dois que ajudam e uma multidão esfaimada e desvairada que solta o animal mais temível adormecido na farpela profissional nas restantes horas e épocas do ano ausentes de futebol, que, se as há, desconheço. Pelo que me é dado a observar através do modesto e único televisor que vive cá em casa, suspeito que há jogos de futebol vinte e quatro horas por dia, sete dias da semana. Os jogos de futebol são como o antigo slogan de promoção de Portugal Há sempre um Portugal desconhecido que espera por nós. Assim é com os jogos de futebol: há sempre um jogo de futebol desconhecido que espera por vós, se não for o Futebol Clube do Boco é o Cascalheira, e, se não forem estes, a RTP Memória encarrega-se de passar jogos do tempo em que o Figo ainda era felpudo, usava camisola interior e tinha caracóis à menina, naquela altura em que o Sporting ainda tinha dinheiro para lhe pagar.
Porém, o que me traz hoje aqui é uma outra questão. Confesso que eu própria já lá entrei, foi isto no antigo e saudoso Estádio de Wembley, desci ao relvado, levantei o caneco, aprendi umas coisas sobre o comportamento de Sua Majestade em dia grande de futebol britânico e, algures pelo meio, visitei-o. E visitei o quê? Visitei o balneário, o antro de cumplicidades onde os jogadores, treinadores, adjuntos e sei lá mais quem, discutem tácticas, técnicas, passes, trivelas e tabelinhas, rezam à senhora de não de onde, benzem-se, dão palmadinhas nas bundas uns dos outros, provavelmente passam as mãos pelos pescoços uns dos outros e, julgo, se passeiam em trajos menores. Nunca entendi essa coisa do balneário. O tal que visitei estava lindinho e asseado à espera do turista, já se sabe, que turista raramente paga para ver porcaria, tinha a camisola do Beckham e dos demais pendurada, o que em nada correspondia à imagem efabulada desse local mítico onde homens pujantes segregam odores aos molhos para as meias e chuteiras, passeiam-se em cuecas, acariciando-se aqui e ali. Um nojo, portanto, um nojo mas um nojo necessário ao que parece: sem balneário não há futebol e sem futebol, haverá vida?
Porém, o que me traz hoje aqui é uma outra questão. Confesso que eu própria já lá entrei, foi isto no antigo e saudoso Estádio de Wembley, desci ao relvado, levantei o caneco, aprendi umas coisas sobre o comportamento de Sua Majestade em dia grande de futebol britânico e, algures pelo meio, visitei-o. E visitei o quê? Visitei o balneário, o antro de cumplicidades onde os jogadores, treinadores, adjuntos e sei lá mais quem, discutem tácticas, técnicas, passes, trivelas e tabelinhas, rezam à senhora de não de onde, benzem-se, dão palmadinhas nas bundas uns dos outros, provavelmente passam as mãos pelos pescoços uns dos outros e, julgo, se passeiam em trajos menores. Nunca entendi essa coisa do balneário. O tal que visitei estava lindinho e asseado à espera do turista, já se sabe, que turista raramente paga para ver porcaria, tinha a camisola do Beckham e dos demais pendurada, o que em nada correspondia à imagem efabulada desse local mítico onde homens pujantes segregam odores aos molhos para as meias e chuteiras, passeiam-se em cuecas, acariciando-se aqui e ali. Um nojo, portanto, um nojo mas um nojo necessário ao que parece: sem balneário não há futebol e sem futebol, haverá vida?
domingo, 29 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (4)
sábado, 28 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (3)
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (2)
Tanta posta, mulher
Oito centenas de palavras, fotos, imagens, disparates, dislates, lágrimas, saudade, risadas, gargalhadas, cidades, livros e viagens são muitas centenas.
domingo, 22 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (1)
quinta-feira, 19 de junho de 2008
A coluna da direita
Diz a Patrícia que gosta aqui d 'A Curva da Estrada. O sentimento é naturalmente recíproco. Ainda sou do tempo em que nos escrevias de pernas para o ar crónicas deliciosas, a reclamar pastéis de nata, down under de um lugar chamado Hobart que fiquei a conhecer graças a ti e que deste a conhecer a mim própria o mais desdenhoso dos sentimentos e pecados, a inveja, quando foste dar uma saltadinha a Vanuatu. O que agora me encanita é essa conversa da coluna da direita, até estou a pensar mudar aqui o estabelecimento. Valha-me a santa, mulher, não podia ser do outro lado?
terça-feira, 17 de junho de 2008
Eis que chega terça-feira
Aprendi a receita em livro nenhum. Fui recolhendo de várias os ingredientes, o modo de confecção e, acima de tudo, aperfeiçoando a técnica e controlando os humores, é sabido que maus humores transformam o acepipe mais saboroso numa mixórdia intragável.
E se querem saber a receita, vão ao PNETmulher ler o resto.
E se querem saber a receita, vão ao PNETmulher ler o resto.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Depois do livro
Budapeste de Chico Buarque também em filme. A ver no próximo ano.
O ilustre blogue
A Ana elegeu aqui A Curva da Estrada como Ilustre Blogue Convidado da Semana. Uma distinção que muito me honra e outro tanto me acarinha.
sábado, 14 de junho de 2008
Postal de aniversário

Olho para o postal de aniversário. Primeiro as cores estridentes típicas dos anos sessenta, os chapéus de sol, os fatos de banho e a pose das mulheres, há mais mulheres em primeiro plano do que homens, os morros lá ao fundo quase tapados pelos prédios da Avenida Atlântica. Onde moraria então? No Leblon talvez. No verso do postal lê-se Brasil Turístico – Rio de Janeiro e depois em várias línguas Praia de Copacabana. No canto superior esquerdo em transversal a advertência em maiúsculas AVIÃO. Sobre o postal amarelecido com selos de trinta centavos, a letra tão característica, apenas os brasileiros a conseguem, bem desenhada, artística, legível e bela, uma deferência pelo destinatário das palavras escritas. Muitos e muitos beijinhos pelo seu aniversário, você que é a bonequinha muito querida de todos os nós. Muitos beijinhos e muitas saudades da titia Didê Rio, 6-69 E, tal como um livro, o postal ganha vida enquanto leio em surdina as palavras da minha tia e a mensagem agarra-se-me com um abraço envolvente e um beijo infantil. A bonequinha agradece.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Fernando Pessoa
Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
Ricardo Reis
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Momento sitemeter (9)
O meu fisaleiro, será que é assim que se chama?, tem vida própria. É o mais procurado neste blogue, mais do que euzinha. Pois bem, para que cá não venham em vão, aqui ficam duas imagens recentes: uma do arbusto, bicho indomável que cresce a olhos vistos, outra da primeira safra de fisalis deste ano. Absolutamente biológicos e deliciosos.

fotos: minhas
terça-feira, 10 de junho de 2008
A comuna
Fiquei a saber pelos órgãos de comunicação social que sou de esquerda e isto porque ao estar indignada com as afirmações de Cavaco Silva por ter proferido que hoje, 10 de Junho se comemora o Dia da Raça, fui imediatamente catalogada e identificada com a esquerda. Ao que parece estar incomodada com a afirmação grave de um chefe de Estado catapulta-me para uma orientação política: a esquerda exige explicações. Naturalmente qualquer cidadão informado e democrático, de esquerda, direita ou centro, consciente das implicações de fazer parte de uma Europa que se quer multicultural, tolerante e respeitadora das diferenças devia sentir-se incomodado por ter um presidente que recua ao tempo da ditadura e, pior que isso, usa um conceito carregado de preconceito e racismo. Os nacionalistas agradecem. Se acontecesse na Alemanha choveriam as acusações de nazismo. Aqui são gaffes, afinal o presidente é um homem simples de Boliqueime, coitado, foi sem querer. O mais preocupante é que para Cavaco Silva o Dia de Portugal é o Dia da Raça, se assim não fosse a expressão teria sido varrida com um tempo de maior tolerância e aceitação da diferença, democrático, portanto, e jamais seria utilizada em pleno século XXI. Mas isto sou eu que sou de esquerda. Com muito gosto, obviamente.
também no GR
segunda-feira, 9 de junho de 2008
sexta-feira, 6 de junho de 2008
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Respirar fundo
Não entrar em pânico nunca é uma das linhas orientadoras sobre a qual vou deixando deslizar a minha pacata existência. Não entrar em pânico em situação alguma. Não soltar uivos e gritos. Não me descontrolar. Não deixar sons saírem desagregados boca fora, palavras e gestos. Não entrar em pânico. Respirar fundo e pensar que vai passar. Nada há que dure sempre, dor física incluída, portanto, respirar fundo e pensar que vai passar. Há-de passar. E passa. Em situações normais passa, só não passa quando estou desde Outubro sem deixar o corpo apanhar sol, tenho uma cor leitosa que assusta até a mim própria, os pés encarquilhados e um semblante desbotado. Mesmo respirando fundo não passa.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Francamente
O Marilyn Manson tem lugar cativo nas minhas aulas. Senta-se lá para o fundo, mantém-se calmo e observador e tem, regra geral, pasme-se, uma presença discreta, não fossem aqueles olhos.
Primeiro a conversa desenrola-se em torno da música, já se sabe, tema que oferece grande consenso entre os adolescentes embora os gostos específicos de cada uma os coloque amiúde nos antípodas, muitas vezes com placas ao pescoço atribuídas mutuamente. Depois inevitavelmente o rapaz é chamado. E lá andávamos tranquilamente, tão tranquilos quanto possível, já se vê, quando o Marilyn Manson me salta ao caminho A stora sabe o que é o Marilyn Manson fez? Ora, ora. Quem não sabe? Respondi apenas Sim, sei. A garota não se deu por satisfeita, não se daria por satisfeita mesmo uma dúzia de perguntas depois Mas, ó stora, a stora sabe mesmo? Sim, sei mesmo. Nova intentona Sabe, stora? Sabe. A Stora sabe e a stora, já estando pelos cabelos com o mito criado, ordenou que o questionário parasse de imediato. Ela sabia, eu sabia, todos sabiam. Ponto final. Avisei que era mito, ela não quis saber. Mas ó stora... As estrelas vivem de mitos. Arremessou-me um olhar cúmplice. Nos olhos li-lhe Ah tu sabes… Tocou, entretanto, e o Marilyn Manson saiu com os restantes alunos. Rosnou qualquer coisa entre dentes, diz que estava farto da mesma conversa. Pois, compreendo-te, imagina eu, ainda lhe disse, mas estava já no meio do pátio como bola de ping-pong nas conversas das garotas.
A última vez que ele me apareceu foi exactamente no meio de uma outra conversa sobre gente bizarra e música. Ao contrário da aluna anterior, que se mostrou insistente mas que acabou por se resignar, sabe deus como, desta feita, não houve quem calasse o rapazola púbere, de resto, não há quem cale o rapazola púbere em situação alguma. Um verdadeiro one man show assumido e aclamado, sempre bem disposto e eléctrico, que só sossega quando se lhe diz que quando quer sabe comportar-se ou que é miúdo inteligente, que podia ter melhores resultados, palavras doces e sinceras amansam qualquer fera, este diabrete incluído, excepto quando as hormonas se manifestam, portanto, aqui a pobre stora não teve sequer tempo, hipótese ou possibilidade de apaziguar a conversa e deixar o Marilyn Manson descansado. Stora, o Marilyn Manson é uma ganda maluco, sim, pois, claro, ao que acrescentou transgressor e triunfante Tirou as costelas para fazer falácias a ele próprio. Ganda maluco! Eu sabia. Aqueles olhos não enganam ninguém. Eu sabia que havia algo errado com o mafarrico, desconhecia era que fossem as falácias. Francamente, ó Marilyn Manson.
Primeiro a conversa desenrola-se em torno da música, já se sabe, tema que oferece grande consenso entre os adolescentes embora os gostos específicos de cada uma os coloque amiúde nos antípodas, muitas vezes com placas ao pescoço atribuídas mutuamente. Depois inevitavelmente o rapaz é chamado. E lá andávamos tranquilamente, tão tranquilos quanto possível, já se vê, quando o Marilyn Manson me salta ao caminho A stora sabe o que é o Marilyn Manson fez? Ora, ora. Quem não sabe? Respondi apenas Sim, sei. A garota não se deu por satisfeita, não se daria por satisfeita mesmo uma dúzia de perguntas depois Mas, ó stora, a stora sabe mesmo? Sim, sei mesmo. Nova intentona Sabe, stora? Sabe. A Stora sabe e a stora, já estando pelos cabelos com o mito criado, ordenou que o questionário parasse de imediato. Ela sabia, eu sabia, todos sabiam. Ponto final. Avisei que era mito, ela não quis saber. Mas ó stora... As estrelas vivem de mitos. Arremessou-me um olhar cúmplice. Nos olhos li-lhe Ah tu sabes… Tocou, entretanto, e o Marilyn Manson saiu com os restantes alunos. Rosnou qualquer coisa entre dentes, diz que estava farto da mesma conversa. Pois, compreendo-te, imagina eu, ainda lhe disse, mas estava já no meio do pátio como bola de ping-pong nas conversas das garotas.
A última vez que ele me apareceu foi exactamente no meio de uma outra conversa sobre gente bizarra e música. Ao contrário da aluna anterior, que se mostrou insistente mas que acabou por se resignar, sabe deus como, desta feita, não houve quem calasse o rapazola púbere, de resto, não há quem cale o rapazola púbere em situação alguma. Um verdadeiro one man show assumido e aclamado, sempre bem disposto e eléctrico, que só sossega quando se lhe diz que quando quer sabe comportar-se ou que é miúdo inteligente, que podia ter melhores resultados, palavras doces e sinceras amansam qualquer fera, este diabrete incluído, excepto quando as hormonas se manifestam, portanto, aqui a pobre stora não teve sequer tempo, hipótese ou possibilidade de apaziguar a conversa e deixar o Marilyn Manson descansado. Stora, o Marilyn Manson é uma ganda maluco, sim, pois, claro, ao que acrescentou transgressor e triunfante Tirou as costelas para fazer falácias a ele próprio. Ganda maluco! Eu sabia. Aqueles olhos não enganam ninguém. Eu sabia que havia algo errado com o mafarrico, desconhecia era que fossem as falácias. Francamente, ó Marilyn Manson.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Terça-feira é
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A passadeira vermelha
A convite do Pedro Correia hoje estou no Corta-Fitas a desfilar palavras. Um grande prazer e uma enorme honra.
What else?
What philosophy do you follow?
You scored as a Hedonism
Your life is guided by the principles of Hedonism: You believe that pleasure is a great, or the greatest, good; and you try to enjoy life’s pleasures as much as you can.
“Eat, drink, and be merry, for tomorrow we die!”
You scored as a Hedonism
Your life is guided by the principles of Hedonism: You believe that pleasure is a great, or the greatest, good; and you try to enjoy life’s pleasures as much as you can.
“Eat, drink, and be merry, for tomorrow we die!”
domingo, 1 de junho de 2008
Prever o imprevisto
Planear uma viagem é como planificar uma aula: uma declaração de intenções, com objectivos e metas a alcançar, meios a utilizar, intervenientes e actividades a realizar para cumprir objectivos e desenvolver as competências dos aprendentes/viajantes. Contudo, exactamente como num plano de aula deve haver espaço para o imprevisto e, tal como num plano de aula, o imprevisto não aparece expresso, paira antes como um ente etéreo, uma possibilidade nem sempre tida em conta em ambas as situações e que pode ser mais ou menos aterradora de acordo com a inexperiência de quem ensina e viaja. Uma vez presente, tal como na aula, cabe ao gestor das aventuras tirar o melhor proveito, contornar as situações se necessário for, mas jamais, em ambas as situações, permitir que o imprevisto ocupe honras de estado e aniquile a experiência plena de aprender e de viajar.
Pobres, pois, os planificadores exaustivos, escrupulosos cumpridores de tarefas ao segundo, maníacos da ordem e do rigor, ser-lhes-á pesado o viajar quando por artes inexplicadas o plano segue um percurso paralelo e decide cortar por um trilho secundário. Os rostos dos turistas embrulhados nas toalhas de banho de hotel para apaziguar o frio cortante do ar condicionado naquele autocarro que nos acudiu no meio de caminho, algures antes de Montego Bay, atestaram por completo a ausência de sentido de humor e a exigência feroz de que nas férias tudo siga a contento como nos países de origem. Assim não é e assim não deve ser. Tudo piorou quando esse mesmo autocarro desistiu da marcha quilómetros à frente, no meio de caminho nenhum numa noite sem luar em plena estrada para Negril, um problema de motor talvez, e obrigou o turistame a largar o autocarro, cheirar o perfume da noite jamaicana e submeter-se à fome voraz dos mosquitos cá fora, enquanto ajuda chegava. A guia, já se sabe, era guia mas tinha a sua vidinha, portanto abeirou-se-nos e despediu-se cordata. Sabem como é que é, se for convosco venho para casa muito tarde… Yah mon! No problem, mon. O turistame ficou entregue a outra guia e, quando horas depois chegámos à nossa casa jamaicana, a guia número dois tinha sido contagiada pelo humor canídeo do seu grupo e oferecia-nos um semblante furibundo.
Daquela vez em que passei três dias à espera que a chuva desaparecesse, a neblina se dissipasse e o Cristo Redentor se mostrasse, sabe deus quanto esperara por aquele momento, aproveitei para dar uma banda sonora à praia de Ipanema batida pela chuva. Águas de Março, era Março, e a espaços ainda ecoava a marcha de Carnaval que ouvira na infância nos LPs que a minha tia trazia nas visitas fugazes a Portugal Tomara que chova três dias sem parar…ou Chove chuva, chove sem parar. E quando Copenhaga surgiu como destino e uma visita a Elsinore como uma possibilidade forte, o que os livros nos fazem, a neblina densa, abrupta e quase impenetrável que se abateu sobre o castelo que, à medida que o ferry se aproximava de Helsinborg do lado de lá do mar, se tornava uma mancha informe e irreconhecível, só podia ser maldição, Hamlet não deixa as coisas por menos. Imprevisto mas belo. Como o viajar.
Pobres, pois, os planificadores exaustivos, escrupulosos cumpridores de tarefas ao segundo, maníacos da ordem e do rigor, ser-lhes-á pesado o viajar quando por artes inexplicadas o plano segue um percurso paralelo e decide cortar por um trilho secundário. Os rostos dos turistas embrulhados nas toalhas de banho de hotel para apaziguar o frio cortante do ar condicionado naquele autocarro que nos acudiu no meio de caminho, algures antes de Montego Bay, atestaram por completo a ausência de sentido de humor e a exigência feroz de que nas férias tudo siga a contento como nos países de origem. Assim não é e assim não deve ser. Tudo piorou quando esse mesmo autocarro desistiu da marcha quilómetros à frente, no meio de caminho nenhum numa noite sem luar em plena estrada para Negril, um problema de motor talvez, e obrigou o turistame a largar o autocarro, cheirar o perfume da noite jamaicana e submeter-se à fome voraz dos mosquitos cá fora, enquanto ajuda chegava. A guia, já se sabe, era guia mas tinha a sua vidinha, portanto abeirou-se-nos e despediu-se cordata. Sabem como é que é, se for convosco venho para casa muito tarde… Yah mon! No problem, mon. O turistame ficou entregue a outra guia e, quando horas depois chegámos à nossa casa jamaicana, a guia número dois tinha sido contagiada pelo humor canídeo do seu grupo e oferecia-nos um semblante furibundo.
Daquela vez em que passei três dias à espera que a chuva desaparecesse, a neblina se dissipasse e o Cristo Redentor se mostrasse, sabe deus quanto esperara por aquele momento, aproveitei para dar uma banda sonora à praia de Ipanema batida pela chuva. Águas de Março, era Março, e a espaços ainda ecoava a marcha de Carnaval que ouvira na infância nos LPs que a minha tia trazia nas visitas fugazes a Portugal Tomara que chova três dias sem parar…ou Chove chuva, chove sem parar. E quando Copenhaga surgiu como destino e uma visita a Elsinore como uma possibilidade forte, o que os livros nos fazem, a neblina densa, abrupta e quase impenetrável que se abateu sobre o castelo que, à medida que o ferry se aproximava de Helsinborg do lado de lá do mar, se tornava uma mancha informe e irreconhecível, só podia ser maldição, Hamlet não deixa as coisas por menos. Imprevisto mas belo. Como o viajar.
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