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segunda-feira, 16 de abril de 2012

O fim da inocência


Segunda-feira. Primeiro tempo da manhã. A professora armada em D. Quixote leva uma resma de livros para os seus meninos. Escolhidos e selecionados de acordo com a especificidade das turmas, um guião para os ‘analisar’, questões, sugestões de abordagem, indicações para como lidar com aquele monte de folhas com capa, e passa-os para a mão. Um a cada grupo, escolhido por eles. A professora esfalfa-se em correrias entre os seus meninos. Parecem entusiasmados. A professora fica feliz. Muito feliz. Valeu a pena. Viram-nos. Reviram-nos. Abrem-nos. Se fossem feitos à imagem e semelhança da professora ter-lhes-iam até metido o nariz para aspirar a fragrância das páginas. Mas não. Isso não. Têm perguntas, querem saber coisas. Perguntam Estes livros são da biblioteca? Não, são meus mesmo, respondo. Recebo de volta uma cara de desdém e incredulidade Tantos professores logo me havia de calhar esta com a mania da leitura. Tanta inutilidade nestes papéis brochados de capas coloridas parece pensar, sem o brochado evidentemente, e sei que pensa, não é muito difícil ler rostos adolescentes e este rosto olha-me muitas vezes em ponto de interrogação. Um quarto de hora depois uma voz ergue-se acompanhada de olhar vivo Stora, isto é para nota? Que bem que estava tudo a correr. Nos dias que correm nada se faz pelo prazer de fazer, aprender, ir mais longe, tem de haver uma contrapartida, um número qualquer sempre inflacionado apenas porque se lá esteve. Só faltou a máquina de calcular em punho, nesta altura uma extensão natural de qualquer aluno obcecado com números, não com aprendizagens. Alunos ardilosos sempre à espera de uma aberta para fintar o professor. E são alguns, ó se são. E cansam-me. O calculismo cansa-me. A falta de autenticidade destrói-me. As aulas não. Não tanto. Infinitamente menos.

sábado, 14 de abril de 2012

A vida na aldeia e um bolo de morangos


Dizem-me que a cidade me falta e que bastarão uns fumos poluentes logo ali na Calçada de Carriche para que se me libertem os humores e os meus dias se encham de sol. A cidade falta-me, é verdade. Falta-me muitas vezes. Faltam-me os lugares-comuns da luz de Lisboa e falta-me o bulício de cidade, pessoas que se cruzam de um lado para o outro, correrias e idiossincrasias várias. Não que me sinta citadina ou urbana mas as grandes urbes são como ímans onde sonho sempre regressar.
A vida na aldeia não é como a vida na cidade. A vida na aldeia é comandada pelos passos lânguidos de um tempo muito próprio, de uma outra dimensão, como se as horas tivessem uma medida de tempo oculta vagarosa, uma clepsidra feita de vagares que se alternam noite e dia, e se alongam entre conversas várias no meio do largo ou em plena rua indiferentes a carros ou quaisquer outros veículos. Na aldeia reinam as pessoas e os vagares.
Na aldeia não reinam só os vagares. Na aldeia reina a alma de gente que tem o negócio no sangue. Se puderem vender nunca ficarão parados, jamais calados perante as qualidades indiscutíveis dos seus bens e irredutíveis na arte de convencer a freguesia. Não há como eles. A arte está-lhes nos genes. Na aldeia não há isso de trabalho infantil, há a necessidade de dar um jeito quando os adultos se ausentam para um qualquer propósito, uma responsabilidade que se incute sem que daí venha mal ao mundo. Desde tenra idade é vê-los diligentes nas demasias e a destrocar dinheiro enquanto elogiam as batatas ou bendizem os morangos e perguntam se queremos ovos caseiros, na cidade diz que são biológicos.
Foi hoje pela fresca. Um almoço de família ditaria uma sobremesa para a qual me faltava fruta. Rumei à mercearia que agora se acomodou no largo da igreja mas desta feita quase de frente para a igreja e isto porque, suspeito, o tempo em que estiveram de costas para a igreja o negócio murchou como grelos ao sol. Seguiu-se um breve período em que a venda tinha lugar numa carrinha. Uma vez aberta desvendavam-se cores e aromas, formas rotundas e longilíneas de legumes e frutos diversificados. Uma festa para os sentidos. Ainda estou para perceber porque aquele poema do Cesário Verde nunca me convenceu.
Estava lá o João. Tem uns nove anos, quem sabe, uns olhos azuis acinzentados encantadores e a ginga do negócio no corpo. Estava a jogar um jogo no computador literalmente virado de cangalhas, a noventa graus e com o ecrã apoiado em cima duns caixotes, enquanto atendia uma anciã insatisfeita com a cor tão desmaiada do açúcar amarelo. Os meus olhos saltaram para uns abacates bem rotundos, um regalo para os olhos, e quando murmurei algo sobre os ditos, o João saiu da caixa e ensinou-me, pegando num abacate Quer ver, disse, aproximando-o de mim, Se se ouvir o caroço lá dentro está maduro e pegando num outro exemplificou abanando-o levemente Está a ouvir? Sim, estava.
Comprei morangos para o bolo do almoço de família, não havia ameixas e as nêsperas não me convenceram. Voltei vagarosa. Perscrutei os patos e galinhas da vizinha a caminho de casa, a exuberância dos limoeiros e fui cumprimentada pela fragrância da glicínia à entrada do jardim.
Há dias em que tenho saudades da cidade. Hoje não foi um deles. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Silêncios

A falta de perspectivas neste país tem-me roubado energia, a energia que me alimenta posts, a força motriz que me empurra para a frente quando quase me sinto cair de costas. E já tive dores várias, dores profundas que me deixaram cicatrizes, mas a mentira em que se vive, a ausência de algo que se possa dizer que depois de tudo isto, vai valer a pena suga-me as palavras. E remeto-me ao silêncio.


Adenda: a falta de fé neste governo dá-me no entanto para escrever outro tipo de posts.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Page Not Found

Sete e vinte da manhã. O despertador toca, o despertador do telemóvel. Nos tempos modernos os despertadores despertadores tornaram-se bichos obsoletos e é mais fashion ter o Blackberry a acordar-me.  Há que manter o estilo. Clico no dismiss, 'a língua inglesa fica sempre bem' e levanto-me. Pés no chão, um de cada vez, ter os pés assentes a terra tem-me custado muitas palpitações nos dias que correm, ponho os óculos, sim, esta que vos escreve é míope mas que isto não vos sirva de desculpa para defender 'certas e determinadas' pessoas, outra expressão de que gosto, arrebanho umas calças do roupeiro, um blazer azul escuro, um colar tipo Carmen Miranda, não quero parecer fúnebre aos meus alunos, uma série de outras peças de roupa a cujos detalhes vos poupo e rumo à casa de banho. Lavo o manto da noite num revigorante duche matinal e desço as escadas acompanhada da Julieta, uma das madrugadoras, as outras gatas reservam-se o direito de longos e preguiçosos sonos devido à idade vetusta e respeitável. Depois de um pequeno almoço frugal acompanhado das notícias matutinas, hábito que vou ter de perder se me quiser poupar uns anos, pego no carro que me guincha com falta de gasolina e grita-me em letras vermelhas NÍVEL DE COMBUSTÍVEL BAIXO. Temos pena. Chego à escola. Está lá ainda. A bela da escola azul-cueca. Entro aos bons-dias, subo à sala de professores, tiro a chave da sala C7, lê-se no garrafal porta-chaves, dirijo-me à sala e dou graças aos deuses por ainda lá ter o meu emprego. Com as manobras na penumbra deste governo chegará o dia em que Leonor Barros será uma entrada vã no sistema aliviado por se ter visto livre de mais um fardo e eu, como tantos outros, serei uma página em branco, quem sabe décadas de trabalho arrumadas numa página em branco, amarfanhadas como lixo num qualquer cesto dos papéis tecnocrata, um url perdido na voracidade destes tempos para os quais me faltam adjectivos. PAGE NOT FOUND. 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mágoas

Dou por mim nos últimos tempos a usar os termos de indignação que usei nos tempos do governo de Sócrates e que muitos dos que agora dão vivas a Passos Coelho usaram. E não porque é meu hábito ou prazer 'malhar' nos governos, mas porque como tem sido amplamente noticiado este governo falta à verdade tal como Sócrates faltou, usa estratégias rasteiras para atraiçoar os cidadãos que os elegeram e todos os dias se lembra de nos surpreeender com propostas que a terem sido no tempo socrático teriam chovido meteoritos de críticas. O Sócrates pelo menos era mais giro que Passos Coelho, porque em termos de carácter estamos na mesma: faltar à verdade parece estar inscrito no ADN dos políticos portugueses. E isto magoa, achincalha, humilha. O meu país dói-me.

Também no Delito de Opinião

Insurjamo-nos!

Ainda não percebi por que é que o povo não sai à rua.
Boa segunda-feira e boa semana a todos.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Em nome do Pai


A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la e todos a beijarem. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.

Páscoa e isso tudo

Sim, chata. Sim, repetitiva. Sim, insistente. Sim, enfadonha. Sim, repisadora. Sim, teimosa. Sim, pouco imaginativa, mas não há mais filmes no mundo, mulher? Não. Filme de Páscoa melhor que 'A vida de Brian'  não há. Pelo menos por aqui.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O cilício, depressa, que o país não pode esperar!

O país anda cheio de problemas. E graves. Muito mas muito graves. E que exigem mão pesada e umas bordoadas valentes, ah como gosto desta expressão! Desta vez foi o João Gobern. Comentador num programa da RTP sobre futebol e essas coisas que fazem vibrar a nação, João Gobern que, pelo que sei, é benfiqusita dos setes costados, festejou um golo do Benfica quando estava no ar. Não dizem que futebol é paixão? Diz ele que se penitencia pelo gesto e pôs o lugar à disposição depois do episódio. E o que aconteceu? Foi corrido. Ó que piadinha! Num país em que se rouba desalmadamente, os governantes mentem ao povo como se dissessem verdades insofismáveis com ar bento de honestidade de plástico, o João Gobern é dispensado da RTP por um episódio absolutamente irrelevante e justificável pela impulsividade tão comum a essas 'coisas da bola'. E se usassem esta celeridade punitiva para outras áreas da vidinha portuguesa, não seria melhor? Não. Corramos com o Gobern. Quem se mete com a RTP leva.

Também no Delito de Opinão

terça-feira, 3 de abril de 2012

Com os Holandeses ou a arte da crítica


Corria o ano da graça de dois mil e nove, era mês de Abril e estava um calor inusitado para aquele mês. O povo tinha saído à rua. Literalmente. A pé, de bicicleta, de qualquer maneira e feitio e pairava no ar a atmosfera festiva de que só os dias radiosos de sol são capazes, ainda mais se tivermos em conta um país onde Setembro é quase mês de Inverno, anoitece com as galinhas, a bruma instala-se sem cerimónia e o frio húmido entra-se-nos pelas frestas da roupa e esgueira-se para as profundezas da alma. Mas aquele era dia de muito calor. Tinha acabado de sair de uma dessas lojas de roupa barata, as únicas que frequento em tempos de crise e não crise, o calor foi a desculpa perfeita pata comprar uma camisa fresca, quando o telefone tocou. Atendo o telemóvel na praça, no meio da multidão esfusiante por aquela bênção fora de tempo e enquanto falo vou reparando nas pessoas à minha volta. Nos corpos tão pálidos mas indiferentemente expostos ao sol de Abril, nos turistas que na sua condição de turistas nunca passam anónimos numa qualquer multidão, a máquina fotográfica sempre em punho e o olhar inquiridor sobre tudo e mais alguma coisa sempre mesclado com uma pitada de desconfiança e os outros, os que não sendo nem uma coisa nem outra andavam saltitantes nas suas vidinhas repentinamente soalheiras.
Ora neste preciso momento, o meu olhar de turista aterra num objecto circular, na verdade cónico, bem plantado no meio da praça e com homens em redor. Não se pense que se tratava de um altar de testosterona onde os homens largavam as suas preces, desconfio até que os homens têm pouco dessas atitudes tementes e virtuosas. Uns segundos depois vejo um dos homens apertar a braguilha, reparem na propriedade da palavra, e uma vez aliviados das cervejas e líquidos que se lhes haviam descido para as partes baixas, os homens seguiam assim mesmo, sem mãos lavadas, a higiene relegada para milionésimo lugar, os seus caminhos. Isso mesmo. Um urinol amovível sem qualquer privacidade, ali no meio da praça, qual instalação contemporânea, e sem mais questiúnculas de decências e moralidades. Não se lhes pode criticar a falta de sentido prático. Era sexta-feira, numa praça rodeada de bares e restaurantes e em vez de inundarem o lugar com o cheiro fétido nauseabundo, nada como instalar aquele curioso objecto. Na segunda-feira desaparecera.
E vem tudo isto a propósito do livro de Rentes de Carvalho Com os Holandeses. Sempre os achei algo rudes de tão práticos e pragmáticos, sem rodriguinhos e salamaleques, algo que colide com os nossos costumes tão decentezinhos e tão agradavelmente acolhedores. O livro, escrito em 1971 e reeditado recentemente, é um relato dos quinze primeiros anos que Rentes de Carvalho viveu na Holanda e do inevitável choque cultural. Dá-nos um olhar por dentro da personalidade e carácter dos holandeses, vista e sentida lá do território onde turista algum consegue penetrar e bem longe dos campos de tulipas, Van Gogh e Rembrandt, e a léguas da imagem da alegada tolerância de coffee shops e prostitutas nas montras, como se toda a Holanda fosse Amesterdão e como se mulheres nas montras fossem só por si sinal de tolerância.
Escrito de forma escorreita e irrepreensível, Rentes de Carvalho não tem complacências com o politicamente correcto ou o socialmente aceitável. Não tem papas na língua e não se atemoriza perante os ditames dos discursos da multiculturalidade de plástico. Consegue num estilo único só permitido aos grandes:  criticar sem ofender, ser frontal sem nunca resvalar para a grosseria. E isto é muito. A força do livro consiste ainda neste desabafo, como Rentes de Carvalho o classifica, e no amor e afeição que acabou por desenvolver pela Holanda. Contraditório depois de tanta crítica? Os amores grandes são feitos de máculas e virtudes, de mistérios insondáveis e perguntas por responder. Tal como o que nutre pelo país que escolheu como seu.
Fiquei no entanto a pensar o que aconteceria em Portugal se alguém ousasse escrever um livro expondo sem cerimónias as nossas desvirtudes, que belo eufemismo, ainda por cima se um estrangeiro o fizesse. O bruá, a indignação, posts calorosos e a dignidade lusa de oitocentos anos de História ofendida de morte com palavras certeiras, honestas, directas. Somos bons nas ofensas. Diz Rentes de Carvalho que na Holanda não foi assim. Agradeceram-lhe a franqueza. Que diferença de Portugal.


“Amsterdam não precisa de mim para lhe cantar a beleza. Os canais, a torres, as casas apertadas nos bairros pobres e as outras, senhoriais à beira de água, falando de fortunas passadas e presentes, têm tido melhores poetas, melhores pintores. (…) A cara com que me recebeu num chuvoso dia de Março não foi das mais hospitaleiras. Mas essa primeira impressão cedo se desfez, e quando finalmente me habituei ao que durante muito tempo foi para mim um labirinto de canais e ruas estranhamente idênticas, dei-me conta de que se se não tratava de amor à primeira vista, com certeza a afeição entre nós ia ficar para  a vida.”

Rentes de Carvalho, Com os Holandeses.

fotografia minha




Também aqui

Merda de país, merda de gente

Notícias destas dão-me vontade de bater a porta e fazer um favorzinho aos Passos Coelho e comandita.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Portugal

 Aqui neste rectângulo a que me sinto aprisionada, queria escrever uma frase que não sei o que é. Tinha sol, mar e esperança, havia bruma e fado mas fugiram-se-me os verbos e desconheço os pronomes.  

domingo, 1 de abril de 2012

Frugalidades pecaminosas ou clafoutis de morango


A primeira explicação encontra-se na fotografia de casamento dos meus pais. Da esquerda para a direita estão os meus avós paternos, o meu avô garboso e a fazer pose, a minha avó muito sorridente, um momento raro, de vestido escuro, colar de pérolas e chapéu, ambos sorridentes, parecem felizes ambos, o meu pai, muito direito a fazer-se indecentemente para a fotografia, atitude que o acompanhou durante todos os seus dias, a minha mãe, radiosa, como todas as noivas, embevecida a olhar para o seu recente marido e a minha avó materna, pequenina e fofa, já de cabelo branco e com o ar doce de sempre. E vem tudo isto, porque o pedaço de perna e de pantorrilha que sobra dos vestidos de ambas as minhas avós deixa à mostra a pernoca gorducha e o tornozelo grosso. A da minha mãe, igualmente gorducha e de tornozelo grosso não se vê evidentemente. Penso nesta fotografia quando me travo de razões com as pernas encorpadas e tornozelos grossos e maldigo a genética.
A segunda explicação é que de todos os pecados mortais aquele a que mais sucumbo é a gula. Não preciso de comer muito, às vezes como, é verdade, mas sabem os deuses e Baco também, como gosto de uma refeição opípara, preparada com carinho e partilhada com a generosidade de dividir amores e deixar misturar-se no ar o aroma volúvel da amizade. Se estiver sozinha, como algo rápido e frugal, passam-se anos sem que coma um bolo de pastelaria, prescindo de cremes, natas e bolos superlativos de cores e decorações, torço o nariz aos fritos que me olham de soslaio, miseráveis na sua existência entre vitrinas, se não comer pão não morro e batatas fritas e massas, como legumes, como fruta, como iogurtes magros, bebo muita água, mas não resisto a uma boa mesa entre amigos, um jantar de sexta-feira caprichado e um almoço de Domingo retemperador e prenhe de sabores novos e velhos na calmaria de nada fazer.
A terceira explicação é que gosto de cozinhar. Gosto de experimentar coisas novas, acrescentar ao que já sei fazer, modificar o faço, modifico muito e raramente sigo uma receita à risca e gosto das cores, das fragrâncias, da expectativa, de cozinhar para os outros.  E gosto de bebericar um copo de vinho enquanto cozinho, ou enquanto espero ou com a refeição, e de comer uns amendoins salgados e picantes ou depenicar qualquer outra coisa que me corte o adocicado do Moscatel ou do vinho do Porto ou do Port Tonic que, como se prevê, também gosto.
E serve isto para dizer que com esta genética e estes prazeres, só me restam dois trilhos: ou me conformo com as formas rotundas, cada vez mais rotundas, ou me abalanço na dieta. Optei pela última, mas como as dietas são como as leis, existem para ser quebradas, hoje fiz um clafoutis de morangos para rematar o almoço de Domingo. Apetecia-me tanto mas tanto algo doce. Pareceu-me pouco calórico e primaveril para comemorar a estação. Uma fatia não faz mal, ou fará?

Receita aqui

Tell me lies, tell me sweet little lies


Ei-lo a mentir com quantos dentes tem na boca. Faz hoje um ano. Lembremo-nos de quem nos governa.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Conclusões desesperadas da frugalidade forçada

Fazer dieta é como o amor no título do livro do Miguel Esteves Cardoso.

Despertadores de quatro patas


Estão a ver aquele desejo de dias vindouros de nada para fazer se não arejar a cabeça, desligar, arrumar papéis, cadernos e livros e poder dormir umas horas de pura indulgência sem peso na consciência pela manhã? Era hoje. E era, porque lá pelas oito e muito poucos, a porta do quarto abriu-se, escancarada como sempre, e entra um bicho de quatro patas. Solta primeiro um miado sofrido, senti-a a esconder-se atrás do cortinado do quarto, salta para a cómoda e acaba a sessão a aguçar as unhas na cadeira de verga. Solto um grito para acalmar a fera caçula. Pára por uns instantes e repete tudo, desta vez em vez de um miado sofrido ouvi-lhe um miado queixoso. Levanto-me a noventa graus, repreendo-a ferozmente. Terceiro round. O bicho malvado reclama atenção, mais um passeio no quarto, mais uma aguçadela de unhas, mais uma admoestação. E levanto-me. Ergo-me, abandono o leito de preguiça e descanso absolutos. No primeiro dia em que podia preguiçar na cama pecaminosamente, longamente, desalmadamente, levanto-me pelas oito e pouco, acordada por um bicho de quatro patas que reclama atenção e companhia. Não tenho eu filhos para isto.


Não se deixem enganar pelo ar inocente da miúda. Trata-se de um despertador ronronante, capaz de vos acordar pelas oito da matina sem a menor cerimónia ou contemplações.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Crónica de uma dieta anunciada


Eis chegado o tempo da frugalidade. Eis chegada a estação das calorias contadas, das saladas com milésimas variações, todas elas ajuizadas e contidas. Eis chegado esse tempo de negregura e esperança, caramba, quase anda por aqui um oxímoro. Eis chegada a altura de mudar de pensamento quando se nos resvalam os apetites para calorias superlativas, o copo de vinho enquanto se cozinha, pode ser de moscatel com um cubo de gelo, lá no território alquímico da mescla de coisas várias, humores e vontades também. Eis chegado esse tempo de crer que ainda seremos capazes de caber airosamente naquelas calças, vestidos, blusas e contrariar a vontade indómita das coxas em se tornarem rotundas. Eis chegada a quaresma da vida, o momento da virtude alimentar, o pontapé vigoroso na gula e outros prazeres degustativos. Quase fico com pena de mim depois deste post. Pobrezinha da badocha. E com vontade de comer. Ai que vontade.

Euzinha enquanto mato a fome com livros pela calada da noite.


imagem: Fernando Botero.

quarta-feira, 28 de março de 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Figuras de estilo

Vinha aqui dizer que o perfume da glicinia me abraçou pela tarde e me sussurrou ao ouvido fragrâncias lilás quando o sol ainda ia alto e a tarde sorria Março fora como se nunca fora Inverno, mas as personificações cochilavam nos braços da noite, enroladas nas metáforas. Volto mais tarde então.

domingo, 25 de março de 2012

Cantigas de Amigo e uns biscoitos de avelã


Durante um tempo achei que esquecíamos os livros que líamos na escola porque os professores não os tornavam suficientemente interessantes e atractivos. Lembro-me de livros de total negregura, sabem os deuses como li Eurico o Presbítero e como fiquei a odiar The Catcher in the Rye. Acontece que no caso destes dois livros, os professores responsáveis por cada uma das disciplinas eram competentes e interessados. Não seria pois problema deles. Foi só mais tarde que percebi que o problema das leituras obrigatórias não era dos professores, podia ser dos livros, não tenho a menor dúvida, mas era acima de tudo do imperativo ‘Lê!’ Diz Daniel Pennac que o verbo ler não comporta o imperativo. Nada mais certo. Ainda hoje, mulher adulta, se me mandarem ler ou se tiver de ler por obrigação é um sacrifício, procrastino até à última, apetece-me invariavelmente ler outras coisas, mastigo as letras com enfado, e tenho digestões lentas e incomodativas.
Mas os livros que lemos na escola assaltam-me de vez em quando. Não os livros, mas frases soltas que me ficaram na memória. Estranhamente assaltam-me muito uns versos do Cesário Verde quando se me anoitece a alma e por aqui paira alguma soturnidade. Desta vez o que me assaltou foi um verso solto de uma cantiga de amigo. Terá sido há umas três décadas, mas fiquei com aquela sonoridade das ‘avelaneiras frolidas’, logo eu que nunca vi uma avelaneira. E isto tudo veio porque a receita desta semana do Dorie às sextas eram uns biscoitos de avelã. Podiam ser olhos de avelã, provavelmente a cor mais bonita de olhos, mas não. São sempre os livros que me cutucam.

Receita aqui.

De vez em quando o passado (10)


sábado, 24 de março de 2012

Gabarolices


Festa. Tudo lindo e arrumadinho. Escola silenciosa e tranquila. Mesas postas a rigor, o povo e o não povo, a ‘elite’ da terra presente, cumprimentos rasgados, beijos e cumprimentos a derramar bases e perfumes pelos rostos e cabelos alheios, odores misturados com o perfume da noite primaveril. A festa começa. Discursos de elogios, palavras de circunstância, bouquets de agradecimento, certificados de participação, presentes para cá e para lá. E pára tudo. Alguém diz que tem de fazer um agradecimento. Seguem-se mais elogios do que este blogue comporta, palavras sinceras, honestas, sentidas. Alguém que ajudara alguém, a gratidão agora pública em frente ao povo e o não povo, a ‘elite’ da terra, individualidades altas de metro e oitenta e outras menos altas de metro e sessenta. A espera. Só uma alta individualidade podia ser alvo de palavras tão belas ou a elite ou a gente que usa patentes de coisa nenhuma. Zero. As palavras começam a fazer uma curva, desviam-se das altas individualidades, esbarram contra a elite, contornam o povo e o não povo, viram à direita. Atingem certeiras a descabelada de casaco azul-turquesa, escondida e meio alheada a bebericar uma sangria numa caneca de barro saloio, há que entrar no espírito e a descabelada gosta de momentos simples de descontracção  e partilha. Foram vistas a entrar sem cerimónia à esquerda, meio palmo abaixo do pescoço e agarraram-se à descabelada. Sabe-se isto porque se viu uma lágrima teimosa e à descabelada só se lhe vêem lágrimas quando lhe atingem o órgão sofredor irremediavelmente. Acontece às vezes.
Tenho o ego tão inchado que nem as calças me cabem, mas isso não deve ser do ego, a não ser que se me tenha descaído como outras coisas nesta idade madura de despencanços. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Sobre tudo e coisa nenhuma

Gostava de vir aqui escrever um post sobre coisas bonitas e fofinhas, sacar daquela citação do pobre Fernando Pessoa que afinal não era dos castelos e pedras e afins, mas não. O Governo apesar de me roubar todos os meses não consegue controlar a dívida pública, vá-se lá saber porquê, ontem houve bordoada na manifestação, sarrafada a uma jornalista que estava a fazer aquilo que os jornalistas fazem e a rapariga, apesar de dizer 'interviu', não merecia, ninguém merece este país presentemente, depois da bordoada de ontem, o Público põe na capa um homem patusco, não se passa nada, portanto, e eu estou atolada em números, raios os parta, alunos de calculadora em punho a verificar, reverificar notas e números até ao milionésimo centésimo décimo, não há paciência, paciência nenhuma, e farta de grelhas de excel e tenho de fazer dieta que estou volumosa e rotunda e isso não é bom. Hoje não tenho boas notícias. Muito boas notícias, digamos, há sempre coisas bem piores evidentemente, mas temo que esta seja a tendência Primavera/Verão 2012. E Outono/Inverno 2012/2013. E por aí fora. Onde é a porta de saída?

terça-feira, 20 de março de 2012

Abraços de canela

Há dias em que não são precisas palavras. Há dias em que um abraço forte chega, um beijo sentido é o suficiente. Momentos de comunhão, de silêncios cúmplices longos, de conversas só audíveis por um toque ou a troca de olhares de que são feitos os amores sólidos e fortes. Há dias em que as palavras sobram inúteis e há dias em que se completa o cadinho de enlevos com a mais ancestral forma de se amar, o prato preferido, comida preparada para abraçar, perfumada de afectos.


Receita aqui.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Marcas


Tínhamos acabado de almoçar. A mulher das sete tarefas que há em mim tinha concluído quase em simultâneo mais uma daquelas cartas pomposas para acompanhar uns documentos, quando lhe pedi que ele me trouxesse o papel. Estende-mo. Olho para ele incrédula. Segura por uma ponta, a folha tinha o canto inferior esquerdo amarfanhado, a marca bem visível de que alguém por ali passara, o polegar e o indicador. Imperdoável. Como foi capaz? Isso faz-se? Arremessei-lhe uma admoestação, sim, como podia? e concluí Se o meu pai aqui estivesse dizia-te já que feriste o papel. Estranho conceito, este, de ferir o papel, mas assim era para ti, meu pai, o papel manuseado com todo o cuidado para não deixar marcas, sem mácula, uma folha inteirinha sem ofensa ou mossa, assim como desejamos que a vida às vezes seja.
Passam dias e noites, meses, estações, anos, o azevinho da entrada está enorme e a glicínia irrompe em exuberâncias mil de perfume e cor. Agora já não espero que regresses, já sei que não voltas. É assim a vida sem ti, meu pai, a folha de papel da minha vida que se vai rabiscando com um canto magoado, a marca indelével de ti, a ausência de que nunca se recupera. Ferida.


No Dia do Pai. Para o meu.

sábado, 17 de março de 2012

St. Paddy's Day ou um guisado luso-irlandês


Acalento a ideia de um dia ir a Dublin passar um Bloomsday. Meros dias depois do meu aniversário, lá para Junho, celebra-se a literatura. Pode haver coisa melhor para comemorar um aniversário? Comemora-se o dia em que se desenrola Ulisses, a obra-prima de James Joyce, diz que há gente pela rua a ler excertos da obra e que é uma verdadeira festa. Acalento assim a ideia de começar o dia a pôr o dente num rim frito que, como se sabe, sou rapariga temente e respeitadora no que à literatura diz respeito e o que me falta em religiosidade sobra-me em respeito venerando a entes vários desta arte que me colore os dias. O Bloomsday é a festa da literatura por excelência. O que eu gostava de lá estar um dia. 
Daria também um dia uma saltada a Edimburgo para celebrar a Burns’ Night bem no fim de Janeiro e acabar a noite a meter o dente num haggis, um guisado de miúdos de cabrito, aconchegado como enchido e servido de formas várias. Uma delícia, não se deixem desmoralizar pelos miúdos e o bucho. Ainda hoje me sabem bem os que degustei em terras de kilts e gaitas de foles. Robert Burns amarrou-o a este poema e acompanhado com uma ale num pub ruidoso nessa tal Burns Night é ideia que me parece bem. E uns passeios a pé, castelo acima e abaixo, bater perna nas ruelas íngremes ao entardecer quando o sol ilumina o castelo com o vento cortante a romper a barreira de cachecóis e luvas. E uns pubs. Nada a fazer. A mulher do povo que há em mim odeia sítios presunçosos de gente igualmente presunçosa atada de pés e mãos numa moralidade de pacotilha, agarrada a pratos de fome gourmet e gosta de pubs. Muito. E de degustar. E de bebericar. Acalento também a ideia de um dia ir passar o dia de St. Patrick a Dublin.
Explicada que está esta ideia peregrina do Bloomsday e da Burns Night, resta-me a explicação para o St. Patrick’s Day. Acontece que não, não comemoro dia de festividade religiosa nenhuma, estou cada vez menos católica de há décadas a esta parte, comecei a celebrar o Natal com a festa da família, e na Páscoa revejo “A Vida de Brian” como filme de época, um épico cá em casa, mas acho muita piada a esta festa de rua com paradas e copos que celebra o santo católico que alegadamente terá livrado a Irlanda das cobras. Diz que havia cobras na Irlanda. E leprechauns e potes de ouro no fim do arco-íris. E chega de conversa fiada. Fica por saber se o que gosto é de celebrar a literatura ou se de pôr pé daqui para fora, exactamente agora que me rapinaram parte do ordenado e subsídios. Inclinar-me-ia pela segunda hipótese. É sabido que os irlandeses não são exímios no que respeita a artes culinárias, foi lá que bebi o pior café da minha vida, experiência tão traumática que passado um quarto de século ainda me sabe mal e que a comida, ao contrário da cerveja e do bom humor e simpatia dos irlandeses, pode ser maçadora e sensaborona. Hoje é dia de St. Patrick e, por coincidência ou não, cá em casa o jantar é Irish Stew. Começou a viagem. Estão convidados.


Receita aqui.


fotografias minhas de Dublin (James Joyce) e do Writers' Museum em Edimburgo. 

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quarta-feira, 14 de março de 2012

Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.


As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.

Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero.
Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores.Até ao dia 1 de Março.

Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci,  o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.

A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.

Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.  

De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver.

E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda.

Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor.
Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.

Sara Fidalgo



P.S. - Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor *


9 de Março de 2012



Perpetuando a memória da professora Estefânia Brandão. Um beijo enorme à Sara Fidalgo e à Mariana Fidalgo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Queixume de uma prof com tpm

Aulas das 8.30 às 13.30. Uma Direcção de Turma que me dá cabo da cabeça. A tarde inteira sentada a esta mesma mesa preparando o que tem de ser preparado e a certeza de que aqui a dez anos me faltará a energia para os combater. Não há maior angústia.

quinta-feira, 8 de março de 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Someone to watch over me

Chegar a casa e abandonar os livros em cima da mesa e as compras na bancada da cozinha. Tirar o casaco e arrumar livros e preocupações, esperar que a escola fique a quilómetros daqui, lá onde devia ficar sempre e onde raramente a consigo deixar. Em cima da mesa uma encomenda, dentro da encomenda vejo-os soltar-se, o carinho e enlevo por entre as páginas, o suave aroma da amizade como perfume sorridente de alguém que de muito longe me ouviu. O dia subitamente mais quente e o coração embalado. Muito obrigada. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Lotação esgotada

Estava um belo dia de sol e de Primavera, era uma segunda-feira, o Benfica tinha ganho o campeonato no dia anterior e eu tinha aulas até às seis e meia, quando a Lolita pariu quatro filhotes. Uma exactamente igual a ela, uma quase preta, uma amarela, foi um até aos seis meses e eu ter feito a constatação lapalisseana que na ausência de testículos, o Jobim era uma, e uma tartaruga tricolor. Adoro gatos amarelos, tive um desgosto imenso quando um me desapareceu e uma frustração desgraçada por não ter acolhido o pai delas, um ruivo robusto, bem-disposto, carinhoso e palrador e foi sem qualquer novidade que a amarela ficaria cá em casa. Às outras três caber-me-ia arranjar um lar. Não sei exactamente quando a tartaruga tricolor terá entendido que o seu destino não era esta casa e como tal encetou uma luta sem igual, um verdadeiro braço de ferro de olhares de súplica bem de frente para nós, a beleza aplicada ao infinito na tarefa de nos fazer vergar pela evidência de que éramos afinal uns fracos perante a insistência, sedução e choradinho do bicho. Não me lembro em que dia mas lembro-me muito bem de exaurida pela luta desigual ter admitido Eu não consigo dar a gata! E vão três. 
Estava um belo dia de fim de Agosto, era Domingo, tinha a alma inquieta pela véspera de mais uma viagem, um destino que sempre quisera conhecer, a mala aberta na sala, quando pela manhã, enquanto alimentávamos o cão do vizinho, ouvimos um gato a miar no canavial. Podia ser uma das nossas, sim, podia, e resolvemos ir ver o que se passava. O que se passava era mais uma tartaruguinha mínima, aflita e assustada que se escondeu quando nos viu e adentrou o canavial. O resto foi um Domingo de ouvido alerta com a bichana em miados intermitentes. Seriam umas quatro horas e voltei lá armada de biscoitos para lhe matar a fome. Depois de alguma persistência consegui apanhá-la e trouxe-a agarrada a mim até casa. Tadinha da minha bichana. Ficou na casa dos meus vizinhos o período das férias. Quando finalmente tinha convencido uns outros vizinhos a ficar com ela e quando estava a ser levada para casa travou-se de razões e arranhou tudo o que lhe apareceu à frente, cão e vizinha que a devolveu à precedência. Mais um finca-pé. Vamos ver quem me consegue tirar desta casa. Pois. E vão quatro.
Apareceu-me aqui um belo dia de Inverno, de sol também, fita-nos de longe mas vai-se aproximando, espreita cá para dentro pela porta da sala e mia-me rapioqueiro. Já lhe passei a mão pelo pêlo e lhe ofereci uns biscoitinhos. Quer brincadeira e conversa. É lindo, grande e cinzento, demos-lhe o nome de Boris, e morro de medo que também tenha sido abandonado. Mas o que me trouxe a este post é outra razão. Chega de desfiar a existência contada pelos gatos. Amigos felinos que estão a ler isto, parem de passar palavra que aqui no recato da aldeia vivem uns parvalhões de coração mole rendidos a uns ronrons e uns olhares de súplica, se faz favor. Temos lotação esgotada, sim? Grata pela atenção. E agora vão ronronar para outro lado.


domingo, 4 de março de 2012

Beef effing Wellington ou uma declaração de amor

A televisão contemporânea está cheia de programas de culinária e gastronomia. Entraram-nos pela casa dentro uma série de chefs completamente desconhecidos e que hoje em dia são quase íntimos. Cá em casa adoptámos um. Bruto, de linguajar impróprio, maneiras ríspidas e uma irresistível pronúncia britânica, Gordon Ramsay passou a ser o nosso chef de estimação. E isto porque, acredito, em cada um de nós há um Gordon Ramsay oculto, mais brando mas ainda assim impetuoso e quando não existe oculto desejamos ardentemente tê-lo e poder soltar uns impropérios sem mais consequências. Ninguém é assim, eu sei, mas há dias, alturas, momentos em que ficaria tão mais leve, assim pudesse libertar este vapores de fúria que se acumulam nos pulmões. Ou nas ancas talvez, o que explica muita coisa e me alivia a consciência. É fúria afinal. Posso comer mais uns biscoitos ou devassar-me num crumble ou num tiramisú. Das gritarias desalmadas do Hell’s Kitchen uma grande parte desenrolava-se em torno do Beef Wellington que, diga-se de passagem, nunca me suscitou grande interesse, mas um dia, há sempre um dia, comecei a nutrir uma certa curiosidade pelo naco de carne embrulhado numa camada generosa de massa folhada. O que faria desesperar e gritar tanta gente? Que raio se esconderia entra a crosta folhada e carne tão rosada? E era motivo para tanta quezília? Era. A gota de água foi quando me acusaram de não fazer Beef Wellington num misto de queixume e súplica e quando na procura da receita me cruzei com este clip. Parece tão fácil. 
 E foi hoje então. Os preparativos começaram no dia anterior logo com a escolha do naco de carne. Além de ter de ser suculento tinha de ser redondo, se não nada feito, para desespero do rapaz do talho. Nada como uma escolha criteriosa, qualidade e aspecto. No fundo não é assim em quase tudo na vida? Depois os cogumelos, uma trabalheira para os encontrar e por último foi esperar e deitar mãos à obra. Com calma e de alma descansada. O sol da manhã iluminava-me a cozinha e quase conseguia ver a tarja de mar lá ao fundo, minha companheira inseparável de todas as incursões no mundo de palatos e aromas. E depois foi partilhá-lo entre a expectativa e a surpresa, um copo de vinho frutado para contrastar a intensidade dos cogumelos e as réstias de sol que completaram mais este ágape da intimidade. Delicioso. Suculento. Divinal. Há muitas formas de declarar o amor. Esta é uma delas. Provavelmente a que faço melhor.

Receita completa aqui

De vez em quando o passado (9)


sábado, 3 de março de 2012

STFU

O primeiro-ministro espera que os portugueses façam uma boa gestão de recursos e possam ir de férias.

Pergunta número um: quais recursos?
Pergunta número dois: falta muito para nos vermos livres deste %$#"£§* ou posso passar o fim-de-semana descansada?

quinta-feira, 1 de março de 2012

Na paz dos deuses

Passei por aqui para ver se estava tudo bem. Espreitei pelo canto do post de porta entreaberta, uma nesga por onde se anteviam palavras morrinhando na acalmia da tarde. Os adjectivos estavam no lugar e nem as vírgulas se tinham mexido. Os pontos finais repousavam sossegados no canto do sofá. Levantaram um olho quando ouviram o meu restolhar. Tudo em ordem, pensei, quando me saiu uma metáfora ao caminho, cansada de o ser. Às vezes também me cansam as metáforas, explicações e jogos de cintura estilísticos. Antes que chovesse abri-lhe a porta. Voltará dentro em pouco. Ou talvez não. Tudo bem. Tinha passado aqui para ver se estava tudo bem. E estava.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Faminta


Não sou facilmente influenciável mas sou facilmente sugestionável. Se estiver por aí tranquila e vir um anúncio pode até ser numa revista brilhante a um vinho, um belo copo com vinho tinto, a cor e a luminosidade perfeitas conseguidas apenas com as técnicas mágicas de manipulação de imagem, apetece-me um vinho, tinto pois claro. À temperatura ideai bebericado de um copo bojudo, sempre de um copo elegante e generoso, odeio copos pequenos para beber vinho, fará as minhas delícias, o deleite dos tolos que se inebriam com os sentidos deixando a vida tormentosa aprisionada na despensa a espernear entre os garrafões de água e os pacotes de farinha. Se ler uma receita ou vir a imagem apetece-me o que vejo ou o que leio, desde que seja apetitoso e me atice os apetites indómitos. Pois. Isso. Também.
Desde ontem que desceu sobre mim esta vontade. Cruzei-me com ele algures em 2010 numa livraria em Edimburgo. Um ano mais tarde voltei a vê-lo numa livraria em Londres, em mais do que uma, e posteriormente em Liverpool encontrei-o outra vez. Destas três vezes, o tamanho e a letra pequena demoveram-me, não sem antes pegar e largar, dar-lhe voltas, ler lombadas e badanas. Provavelmente ter-lhe-ei metido o nariz. Há lá aroma melhor que uma pilha de livros novos? Três vezes o vi e três vezes o recusei, valham-me os deuses que isto de recusar três vezes faz-me lembrar outras estórias, e ontem depois de ter visto o filme, aqui deitada no remanso de fazer coisa nenhuma, enquanto o corpo se aninhava no colo da noite, fiquei cheia de apetite, fome, desejo, ganas, vontade do livro. E assim estou desde ontem. Doida de fome de um livro. Do livro. Deixava já a Herta Müller que me mantém entediada e intrigada por ele. E inquieta por não o ter. Eu disse que era sugestionável. Estou faminta.

O meu mai novo

aqui. Separemos as águas. Talvez.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O dia de todas as indecisões


Acordei cedo com uma sensação estranha. O corpo meio mole mas sem sono. Deixei-me deambular sem grandes planos excepto um compromisso à tarde que me impossibilitaria um outro. E agora, a qual vou? Esta indecisão usurpou-me a alma e fez-me balançante, incapaz de tomar decisões, de resolver até as pequenas coisas, dia fora. Ainda de manhã, olhei para o relógio várias vezes, cronometrando se teria tempo de ir à frutaria, aqui mesmo em cima, para fazer a tarte proposta esta semana no Dorie às sextas. Teria? Não teria? E depois a dúvida ainda mais penosa. Faço? Não faço? E ainda: vou fazer uma caminhada? Não vou? Se a este ponto já estão cansados de me ouvir, imaginem a minha saturação desta mulher meio frouxa que raramente me visita. Não gosto dela. Esta indecisão prendia-se como uma outra decisão: fazer dieta. Nada de muito austero, neste momento não suporto mais austeridade, começo até a odiar a palavra, mas um regime mais frugal e equilibrado, sem biscoitos e outras iguarias que me têm desgraçado, só vai contribuir para que não perca o fôlego e me sinta melhor. No meio da indecisão, e depois de ter ido fazer a dita caminhada aqui pelo campo, entre pinhais e limoeiros, decidi que sim, que participaria, a publicação de fotografias apetitosas aguçou-me o apetite e a curiosidade, e deitei mãos à obra. Compradas as maçãs e com a rodela de massa folhada no frigorifico, a consciência um pouco mais leve de me ter ido livrar de calorias por esse mato fora, iniciei esse processo alquímico e profundamente intuitivo de cozinhar. Quem gosta de cozinhar sabe como é. A proposta era uma tarte de maçã, mas não qualquer tarte, uma Tarte Tatin que requer calma e temperança, mesmo sem ser muito trabalhosa. O fim de tarde pôs-se ameno e foi bordejado por um momento doce em excelente companhia e uma chávena de Earl Grey fumegante. Boa decisão afinal.

Ingredientes:
120 g de açúcar
50 g de margarina
6 maçãs Gala
1 embalagem de massa folhada refrigerada

Preparação:
Numa frigideira derreter a margarina. Depois de derretida, juntar o açúcar e continuar no lume. Juntar as maçãs cortadas em oitavos com a parte convexa para baixo e deixá-las caramelizar com calma mas sempre sob supervisão. Quando estão suficientemente douradas, não deixei caramelizar muito, borrifar com Moscatel. Tirar do lume. Aconchegar as maçãs com a massa folhada e levar ao forno pré-aquecido a 190º cerca de 20 minutos. Assim que estiver pronta virar para um prato de forma determinada e sem hesitações. Por esta hora já me tinha passado a indecisão e correu muito bem.
Esta tarte pode ser feita com outra fruta e aromas mais criativos. Hoje o dia não me permitiu grandes variações mas assim mesmo ficou deliciosa. Menos é mais. Hoje pelo menos.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Zeca e eu

A primeira vez que terei ouvido o Zeca Afonso foi logo após o 25 de Abril. Até aqui nada de novo, a maior parte de nós terá ouvido o Zeca mais ou menos por essa altura e pelas alturas seguintes. Revolução é Zeca, Zeca é a revolução e aqueles eram tempos de revolução. Eu também gostava do Zeca nessa altura, não havia como não gostar do Zeca e nem sequer era opção nesses tempos tão coloridos e exuberantes não gostar do Zeca. Mas eis senão quando o Zeca veio a Mafra. Tal como não era opção não gostar do Zeca, não era opção não ir ver o Zeca. Nessa noite fria e de nevoeiro, nessa altura estava sempre frio e nevoeiro por aqui,e mesmo que não me lembre, sei que estava, só podia estar, e depois de ver o Zeca, e quando o Zeca debandava Jardim do Cerco fora terei ido pedir um autógrafo ao Zeca. Tímida mas encorajada pela minha mãe, lá fui da pequenez dos meus nove ou dez anos pedir um autógrafo ao grande revolucionário, protector do proletariado e de outros infelizes. Acontece que o Zeca podia ser protector do proletariado e de outros desvalidos, mas crianças não devia ser bem o que ele mais gostava e crianças a pedir autógrafos seriam talvez a última das coisas amadas para o grande símbolo do reviralho e de todas as coisas contestatárias. O Zeca, amado e venerado em casa dos meus pais, mandou-me ir dar uma volta e ignorou-me por completo.  Caía do pedestal ali mesmo à minha frente. Nunca mais pude aturar o Zeca. Hoje também não.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A doce arte de dar cabo de tudo

Longe mas muito longe vão os tempos em que uma clicadela fora do sítio e eriçavam-se-me os ânimos, histérica e descontrolada perante um problema que não conseguia por meus meios resolver. Acontece às vezes. Gosto de ser eu a resolver os meus problemas e de saber que os posso resolver. Nem sempre posso e nem sempre os resolvo mas saber que os desígnios da minha vida repousam em mãos alheias não faz de mim uma mulher feliz e amarfanha-me esta mania da independência. Hoje pela tarde resolvi coisa pouca relativamente ao posterior desenrolar da mesma. Decidido estava que teria de preparar as aulas de amanhã, tarefa para a qual o computador passou a ser imprescindível, e que além disso pouco mais faria. Um chá sem biscoitos que me auto impus uma dieta ascética, para quê ainda não sei muito bem, e o remanso de aproveitar as últimas horas de paz absoluta. Ora nesse meu afã e sem saber muito bem como fui dar comigo a ajustar contas com o meu passado profissional e a rasgar o miolo de dossiers em morte cerebral. Uns papéis puxam os outros. Um crescendo de fúria na senda do despojamento total. E foi assim que incautamente terei arremessado algum dossier ou molho de folhas inúteis para cima do comando da televisão que se travou de razões comigo e me ofereceu uma imagem azulada sem retorno. Umas clicadelas depois e nada de regressar à vida. Estava uma tarde de sol e não me importei. Havia mais que fazer e não tenho paciência para amuos. Ora acontece que um tempo depois, resolvi imprimir um documento necessário para a aula de amanhã. Por solidariedade ou amuo, a impressora fez-se de morta e quase se rebolou de barriga para o ar quando a mandei mais uma vez imprimir o dito e absolutamente necessário documento contra o insucesso escolar deste país, a fórmula mágica cravada a negro num pedaço de papel branco, já se sabe. Nada. Coisa nenhuma. Liga e desliga cabos. Zero. Nem um estertor. Depois de ter dado cabo da televisão e da impressora, achei por bem esperar quieta. Nada de descontrolo ou megalomanias de resolver tudo por mim só. O jeito que esta tarde me deu. E o que eu aprendi.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Entre parêntesis


O meu belo dia de hoje começou logo ontem quando me deitei a Os Malaquias de Andréa del Fuego e hoje no início da madrugada dei por finda a minha leitura. E isto porque hoje estou tranquilamente de pousio em casa, arrastando-me entre o sofá e o sofá e metendo a espaços o nariz lá fora para espreitar este sol de Fevereiro e sentir o Inverno a ir embora. A ausência de obrigações para o dia de hoje marcou o meu dia de ontem. Nada como saber ao Domingo que na segunda não tenho aulas para dar e por conseguinte espera-me um Domingo tranquilo longe de trabalhos e outros afazeres que me mutilam a morrinha de Domingo e o tornam numa antecipação da semana. Este pequeno parêntesis na minha existência profissional pôs-me a alma leve cheia de palavras suaves e carinhosas como o sol que se reflecte manso sobre a relva, esse mesmo que espreito enquanto vos escrevo. E de alma tão leve que me fez mansa e calma, tão mansa e tão calma que nem tenho vontade de dar bordoada no governo. As coisas que um dia sem aulas pode fazer.

Danke schön

A Ivone Costa que é uma querida lembrou-se aqui deste modesto cantinho e elegeu-o como um dos seus blogues preferidos. Resta-me agradecer-lhe aqui tanta generosidade e as palavras tão elogiosas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Inútil

Uma pessoa acorda de manhã e fica a saber que não tem serventia para coisa nenhuma, já que os deuses se esqueceram de mim e deixaram-me sem crias. Hás-de ter muitos amigos assim, ó Cardeal.

A estratégia do governo


Se és professor, baza.

Se é és funcionário público, faz as malas e faz-te à vida.


Se és um dos 770 mil desempregados, não sejas piegas. Provavelmente. 

Se és jovem e desempregado, sai da zona de conforto.

Se tens expectativas ou planos, esquece. Este país não é para ti. Não é para ninguém, pelos vistos.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O pêndulo do sonho

Viajar pode ser apenas a deslocação de um ponto ao outro, a interrupção desejada da rotina do quotidiano, conhecer um destino fora de portas, confirmar aquilo que se julga saber, carecendo, não obstante, de ratificação, preencher uma lista de lugares e monumentos visitados, uma forma de ascensão social, de gabarolice inevitável ou a busca da felicidade como diz Alain de Botton em A Arte de viajar: “Se as nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas actividades sejam tão elucidativas no que à dinâmica dessa busca – com todo o seu ardor e paradoxos – se refere como as nossas viagens.”
A ideia começou a maturar não sei exactamente quando, embora admita que, com a idade a avançar e os dias jovens para trás, a saturação de uma profissão desgastante, socialmente desprestigiante e desprestigiada, e a necessidade de dias tranquilos sem confusões supérfluas criadas em gabinetes com fins estatísticos muito precisos e minuciosos agravou a necessidade de bater a porta do ensino e sentir fluir os dias entre momentos de plenitude e calmaria sem acusações ou julgamentos em praça pública.
A ideia surgiu de forma mais visual quando um dia em Viena, ao dobrar inesperadamente uma esquina, dei por mim a espreitar pelas vitrinas fechadas o conteúdo duplamente saboroso, os livros criteriosamente empilhados e arrumados, postais e marcadores de livros alusivos à temática dominante do espaço luminoso, o contraste curioso à cidade dos imperadores bisonhos e vienenses carrancudos, e ao canto, uma zona onde se podia tomar café ou chá, imagino que café dada a grande tradição vienense. E ao estatelar o nariz na montra conseguia sentir os aromas vários que se soltavam, o perfume dos livros enleado com a fragrância do café acabado de tirar, a sugestão onírica e sinestésica que o espaço libertava combinado com a localização estratégica, a esquina, com luz de ambos os lados. E fui acalentando o sonho: as manhãs luminosas, os bons-dias à vizinhança que passava em passo estugado a caminho das vidas atribuladas, abrir a porta e esperar que aparecessem, um, dois, três bibliófilos dedicados à procura da última novidade ou de uma edição antiga, talvez a tivesse guardado carinhosamente para estes dias de magia, algures entre livros e dias amenos.
E a mesma ideia regressou com força, quando numa manhã cinzenta calcorreada pela capital londrina, aterrei inadvertidamente à porta da livraria ainda por abrir. Oito horas e cinquenta e oito minutos no meu relógio de viajante, dois minutos, pois, dois minutos me afastavam do momento em que a confirmação do sonho em gestação se me apresentava sem possibilidade de recusa, a verdade que se desvelava e revelava à minha frente. Um homem à porta apenas, confirmou as horas para se dirigir à montra e depois as portas que se abrem, um sorriso consentâneo, e ao contrário do espaço vienense, estantes vetustas que se erguem até ao tecto, escuras e austeras na medida do desejável, o chão fofo da alcatifa e os empregados discretos e eficientes, sem a conversa do dia-a-dia audível a todos os presentes ou salamaleques balofos. E a revelação ali estava: dias, meses, anos em torno dos livros, com escrita pelo meio e périplos infinitos para regressar renovada a um espaço de recato e religiosidade com toda a liberdade da escrita e da leitura. Poderia acabar os dias assim.
Viajar pode ser apenas a deslocação de um ponto ao outro. Será sempre contudo, um espaço de descoberta e de revelação, o movimento pendular entre a realidade e o sonho e a libertação e a felicidade de pensarmos que ainda podemos ser outros.



Fui repescar este texto a propósito da conversa nesta caixa de comentários. O sonho de passar os dias entre livros persiste e pelo sonho é que vamos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Bibliófilos nossos amigos


Num ano longínquo e nesse tempo igualmente longínquo em que eu podia ir conhecer mundo e pôr pé e nariz além fronteiras perdi-me de amores por um livro. Nada de novo. Sempre que ia àquela livraria na Velha Albion, em pleno Piccadilly, era a perdição. Cinco andares, meus deuses, cinco andares de livrinhos novos à espera de serem folheados e lidos é o sonho de qualquer bibliófilo que se preze. Acalentei um dia a esperança de ficar lá dentro sem horas marcadas nem gente à minha espera, metendo o nariz em tudo, acariciando capas e inspirando o aroma libertador das páginas invictas. Há lá coisa melhor? Deve haver mas agora é mesmo o que me apetece dizer. Amanhã direi que é o cheiro a maresia na Ericeira, uma verdadeira dádiva de Neptuno, num outro dia o cheiro a Verão, quando na Primavera meto o nariz de fora e inspiro o perfume da Primavera, algo indefinido mesclado com o aroma as flores da nespereira aqui perto e outro o café acabado de fazer pela manhã. Mas os livros, ai os livros. O único problema do objecto do meu desejo ardente era o peso e o tamanho, impróprio para ser transportado Londres fora, transpor ares e chegar à minha modesta casinha mas a história acabou bem. Fui lá comprá-lo no último dia de manhã e o meu prestimoso consorte transportou-o com zelo. Agora mesmo enquanto vos escrevo vejo-o de relance, ao livro, a lombada meio desmaiada do sol aqui da sala e a memória de um pequeno episódio de que são feitas as existências felizes. E serve isto tudo para dizer e ilustrar que sim, eu também gosto muito de livros, ó como gosto de livros, mas gastar 12.000 euros em livros, ainda por cima do programa do Governo, numa altura em que se aponta a porta de saída como  umas das soluções de sobrevivência deste país e diariamente nos vão ao bolso não me parece um exagero, é um insulto a todos nós.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O elogio da preguiça


No meu tempo, já o disse aqui, quem faltava e ultrapassava o limite de faltas era excluído da frequência. Nesse tempo não havia almofadas, credo, que até pareço o Passos Coelho, não havia segundas oportunidades, muito menos novas, ninguém andava connosco nas palminhas e a maior parte dos professores estava-se nas tintas para a vida privada dos alunos, se tinha problemas em casa, se estava com problemas, se o namorado/a nos tinha dado com os pés ou se tínhamos sido atacados por um ataque de adolescendite aguda e parvoeira acentuada. Nesse tempo as consequências eram bem claras e à maneira judaico-cristã quem pecava tinha de sofrer a culpa e esperar pelo ano seguinte.
Esta prática tão vergonhosamente anti-pedagógica esteve grosso modo em vigor até um belo dia o governo Sócrates ter desencantado Maria de Lurdes Rodrigues para dirigir os desígnios da educação neste país. A excelsa dama num afã de reduzir o abandono escolar lembrou-se de implementar uma coisa chamada provas de recuperação. As provas de recuperação eram uma bela manobra de diversão mais uma vez cheia de papelada e de rodriguinhos, formulários, comunicações para cá e para lá. Podem até ter reduzido o abandono escolar no papel mas na prática os prevaricadores eram ainda brindados com a ausência total de faltas e podiam começar tudo de novo. Ultrapassar limites de faltas era o desejo último de muitos faltosos. Feitas as provas e recuperadas as aprendizagens, ah que belo naco de prosa, os alunos poderiam faltar e fazer mais provas e faltar e fazer mais provas. Naturalmente esta permissividade legitimada e aprovada em decreto só teve como consequência o laxismo, o abandalhar da escola e do próprio sistema e fazer com que quem faltasse visse ainda premiada as sucessivas ausências, já que muito pouco lhe acontecia.
Mortas e enterradas as provas de recuperação surgiu mais uma maravilha: os planos individuais de trabalho. Servem para o mesmo que as provas de recuperação, as consequências em última análise e em muito última, podem levar a uma situação menos doce mas enquanto isso os professores vão-se arrastando numa teia infindável de papelada, reuniões com os pais, cartas e mais cartas e os alunos felizes da vida contando com a almofada que a lei permite. Não é de admirar que cheguem ao mundo do trabalho com manhas. Até aí ninguém lhes apontou a porta de saída se não cumprirem. Foi-lhes sempre dada uma segunda, terceira oportunidade e os professores sempre lestos para cumprir a lei e os pais justificar o injustificável, algumas faltas. Se não estamos a criar preguiçosos irresponsáveis não sei o que estamos a fazer.


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domingo, 12 de fevereiro de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Como na vida


Que tudo fosse tão fácil. Que tudo fosse tão fácil como cozinhar, fazer bolos e biscoitos. Nesta minha participação no Dorie às Sextas tem havido algo que me ocupa mais tempo do que a confecção das receitas propostas. Não que não me aplique mas quando chega a altura de tirar as fotografias para postar começam as dificuldades. Subo as escadas, abro o armário e, depois de uma espreitadela,  escolho uma toalha. Depois vou tentando. Mudo os biscoitos, mudo os adereços, provavelmente a toalha, dou uma volta aos bolos, acrescento chávenas, ora de chá ora de café, ponho uma colher, tiro a colher, parto os biscoitos ao meio para lhe dar uma ar mais verosímil, como se alguém os tivesse partilhado mas nunca nada fica exactamente como gostaria e nunca se sente na plenitude como ficaram. Desta vez, por exemplo, esperei um dia pela luz da manhã e apliquei-me. O resultado foi o que vêem. 
A proposta desta semana eram uns deliciosos biscoitos de granola. Ora como se sabe, tenho a mania das invenções e, portanto, quando a receita foi divulgada tratei logo de fazer alterações. Primeiro foi a dita granola, cá em casa mais conhecida por müsli. Não tendo conseguido encontrar sem frutos decidi que utilizaria apenas flocos de aveia e flocos tostados de trigo, ambos encontrados na secção de produtos naturais do supermercado e um dos meus poisos nos últimos tempos. E depois a fruta. Excluí liminarmente as passas e optei por damascos picados em pedaços. E como nem tudo são rosas neste templo alquímico de criar fórmulas de prazer e resultados de deleite, a massa saiu-me uma amálgama informe, difícil de arrumar em pequenas circunferências e que me deixou na dúvida durante aqueles quinze minutos de forno. Uma vez cá fora espreitei-os desconfiada e passados dez minutos dissiparam-se-me as dúvidas com um belo cafezinho em mais uma gloriosa manhã de sol: deliciosos, crocantes, doces na medida certa, animadores como o amendoim e levemente ácidos do damasco tímido lá pelo meio. Assim um bocadinho como se quer a vida: não demasiado doce para que não enjoe, suficientemente animadora para que possamos sorrir e com uma acidez esporádica para que o doce se torne mais doce quando regressa. Nada que se sinta nas fotografias, como vêem. Eu não disse que era um fracasso?

Biscoitos crocantes de amendoim e damasco

Ingredientes
1 ½ chávena de flocos de aveia integrais
1 ½ chávena de flocos de trigo tostados
1/3 de chávena de gérmen de trigo
1 chávena de amendoins salgados picados grosseiramente
1 chávena de damascos secos picados
1 chávena de farinha
1 chávena de açúcar amarelo
200g de margarina
1 ovo

Preparação
Pré-aquecer o forno a 190º.
Juntar os flocos de aveia, de trigo, o gérmen de trigo e os amendoins picados numa tigela e reservar.
Bater o açúcar com a margarina até ficar cremoso. Juntar o ovo e bater mais. Deitar a farinha e bater o suficiente para que fique uniforme mas não muito. Incorporar os damascos e envolver com uma espátula de silicone. Por último incorporar a mistura de ingredientes sólidos. Moldar pequenas bolas de massa e achatá-las um pouco. Levar ao forno pré-aquecido quinze a dezoito minutos. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ricas vidas

Ando aqui com uns posts engasgados. Um sobre o Vik Muniz, outro sobre "A Dama de Ferro" que fui ver há pouco e outro ainda sobre O Retorno de Dulce Maria Cardoso. Tenho outros que me vão surgindo. Assuntos corriqueiros e menos instruídos. Os alunos, a escola, a cabeleireira cá da aldeia ou outros episódios de somenos importância, momentos díspares de que são feitas as vidas comuns e desinteressantes. Mantenho com os meus posts uma relação difícil e nem sempre os consigo agarrar e fixar a este espaço branco. Começo a achar que gostam de luz e cor, movimento talvez, e que isto de estarem aqui sentados à espera de serem lidos e comentados não é vida para eles. Alguns esgueiram-se-me e fogem-me furiosos não sem antes me bufarem como os gatos. Vi um um destes dias do lado da lá da rede, depois de se me ter largado da mão numa bela manhã de sol. Voava lesto com os melros e resguardou-se no canavial quando a ventania lhe limpou as metáforas. E outro que me fugiu quando o tinha no bolso e fui estender a roupa. Uma pequena distracção e foi-se. Ainda o tentei apanhar pelas vírgulas que tinham ficado para trás no afã da fuga mas a ponta encaracolada não dá jeito para agarrar e só me ficou um ponto final na mão. Aproveitei-o para concluir uma questiúncula que tinha pendente e deixei-o lá no território dos assuntos resolvidos. Hoje é sexta-feira à noite  e adormeceram-me com o crepitar da lareira. Que não, que ainda não é hoje, dizem-me, enquanto abrem um olho e se espreguiçam no sofá. Há posts com sorte. Muita sorte. Ricas vidas. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Um quiz por dia nem sabe o bem que lhe fazia


Teste o seu grau de patriotismo.
O povo está furioso com Martin Schulz porque:

a) ele é da SPD
b) ele disse mal de Portugal
c) ele proferiu a palavra proibida: ANGOLA
d) é um suino xenófobo
e) Pedro Passos Coelho ainda não chamou piegas a ninguém hoje e o povo precisa de um bode expiatório
f) meteu o nariz onde não devia
g) o povo precisa de se divertir agora que não há tolerância de ponto no Carnaval
h) sim

Grata pela vossa atenção.


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