Páginas
quinta-feira, 24 de julho de 2008
terça-feira, 22 de julho de 2008
domingo, 20 de julho de 2008
Bookshop with a view
quinta-feira, 17 de julho de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
terça-feira, 15 de julho de 2008
terça-feira, 8 de julho de 2008
Terça-feira
é dia de passar por aqui.
sábado, 5 de julho de 2008
Eu gosto é do Verão (6)
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Eu gosto é do Verão (5)
terça-feira, 1 de julho de 2008
É terça-feira
e a conversa hoje é sobre as legítimas.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Haverá vida?
Olho para o relógio. Hora e meia, hora e meia é quanto falta para que termine o mês do futebol no Geração Rasca e, antes que termine, existe ainda assunto merecedor de peroradela. Muitos outros haveria certamente, muitos que escapam ao olho e sensibilidade feminina – parca a minha – para estes mistérios em torno de vinte e dois homens correndo atrás de uma bola, um que apita, faz sinalefas e mostra cartões, dois que ajudam e uma multidão esfaimada e desvairada que solta o animal mais temível adormecido na farpela profissional nas restantes horas e épocas do ano ausentes de futebol, que, se as há, desconheço. Pelo que me é dado a observar através do modesto e único televisor que vive cá em casa, suspeito que há jogos de futebol vinte e quatro horas por dia, sete dias da semana. Os jogos de futebol são como o antigo slogan de promoção de Portugal Há sempre um Portugal desconhecido que espera por nós. Assim é com os jogos de futebol: há sempre um jogo de futebol desconhecido que espera por vós, se não for o Futebol Clube do Boco é o Cascalheira, e, se não forem estes, a RTP Memória encarrega-se de passar jogos do tempo em que o Figo ainda era felpudo, usava camisola interior e tinha caracóis à menina, naquela altura em que o Sporting ainda tinha dinheiro para lhe pagar.
Porém, o que me traz hoje aqui é uma outra questão. Confesso que eu própria já lá entrei, foi isto no antigo e saudoso Estádio de Wembley, desci ao relvado, levantei o caneco, aprendi umas coisas sobre o comportamento de Sua Majestade em dia grande de futebol britânico e, algures pelo meio, visitei-o. E visitei o quê? Visitei o balneário, o antro de cumplicidades onde os jogadores, treinadores, adjuntos e sei lá mais quem, discutem tácticas, técnicas, passes, trivelas e tabelinhas, rezam à senhora de não de onde, benzem-se, dão palmadinhas nas bundas uns dos outros, provavelmente passam as mãos pelos pescoços uns dos outros e, julgo, se passeiam em trajos menores. Nunca entendi essa coisa do balneário. O tal que visitei estava lindinho e asseado à espera do turista, já se sabe, que turista raramente paga para ver porcaria, tinha a camisola do Beckham e dos demais pendurada, o que em nada correspondia à imagem efabulada desse local mítico onde homens pujantes segregam odores aos molhos para as meias e chuteiras, passeiam-se em cuecas, acariciando-se aqui e ali. Um nojo, portanto, um nojo mas um nojo necessário ao que parece: sem balneário não há futebol e sem futebol, haverá vida?
Porém, o que me traz hoje aqui é uma outra questão. Confesso que eu própria já lá entrei, foi isto no antigo e saudoso Estádio de Wembley, desci ao relvado, levantei o caneco, aprendi umas coisas sobre o comportamento de Sua Majestade em dia grande de futebol britânico e, algures pelo meio, visitei-o. E visitei o quê? Visitei o balneário, o antro de cumplicidades onde os jogadores, treinadores, adjuntos e sei lá mais quem, discutem tácticas, técnicas, passes, trivelas e tabelinhas, rezam à senhora de não de onde, benzem-se, dão palmadinhas nas bundas uns dos outros, provavelmente passam as mãos pelos pescoços uns dos outros e, julgo, se passeiam em trajos menores. Nunca entendi essa coisa do balneário. O tal que visitei estava lindinho e asseado à espera do turista, já se sabe, que turista raramente paga para ver porcaria, tinha a camisola do Beckham e dos demais pendurada, o que em nada correspondia à imagem efabulada desse local mítico onde homens pujantes segregam odores aos molhos para as meias e chuteiras, passeiam-se em cuecas, acariciando-se aqui e ali. Um nojo, portanto, um nojo mas um nojo necessário ao que parece: sem balneário não há futebol e sem futebol, haverá vida?
domingo, 29 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (4)
sábado, 28 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (3)
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (2)
Tanta posta, mulher
Oito centenas de palavras, fotos, imagens, disparates, dislates, lágrimas, saudade, risadas, gargalhadas, cidades, livros e viagens são muitas centenas.
domingo, 22 de junho de 2008
Eu gosto é do Verão (1)
quinta-feira, 19 de junho de 2008
A coluna da direita
Diz a Patrícia que gosta aqui d 'A Curva da Estrada. O sentimento é naturalmente recíproco. Ainda sou do tempo em que nos escrevias de pernas para o ar crónicas deliciosas, a reclamar pastéis de nata, down under de um lugar chamado Hobart que fiquei a conhecer graças a ti e que deste a conhecer a mim própria o mais desdenhoso dos sentimentos e pecados, a inveja, quando foste dar uma saltadinha a Vanuatu. O que agora me encanita é essa conversa da coluna da direita, até estou a pensar mudar aqui o estabelecimento. Valha-me a santa, mulher, não podia ser do outro lado?
terça-feira, 17 de junho de 2008
Eis que chega terça-feira
Aprendi a receita em livro nenhum. Fui recolhendo de várias os ingredientes, o modo de confecção e, acima de tudo, aperfeiçoando a técnica e controlando os humores, é sabido que maus humores transformam o acepipe mais saboroso numa mixórdia intragável.
E se querem saber a receita, vão ao PNETmulher ler o resto.
E se querem saber a receita, vão ao PNETmulher ler o resto.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Depois do livro
Budapeste de Chico Buarque também em filme. A ver no próximo ano.
O ilustre blogue
A Ana elegeu aqui A Curva da Estrada como Ilustre Blogue Convidado da Semana. Uma distinção que muito me honra e outro tanto me acarinha.
sábado, 14 de junho de 2008
Postal de aniversário

Olho para o postal de aniversário. Primeiro as cores estridentes típicas dos anos sessenta, os chapéus de sol, os fatos de banho e a pose das mulheres, há mais mulheres em primeiro plano do que homens, os morros lá ao fundo quase tapados pelos prédios da Avenida Atlântica. Onde moraria então? No Leblon talvez. No verso do postal lê-se Brasil Turístico – Rio de Janeiro e depois em várias línguas Praia de Copacabana. No canto superior esquerdo em transversal a advertência em maiúsculas AVIÃO. Sobre o postal amarelecido com selos de trinta centavos, a letra tão característica, apenas os brasileiros a conseguem, bem desenhada, artística, legível e bela, uma deferência pelo destinatário das palavras escritas. Muitos e muitos beijinhos pelo seu aniversário, você que é a bonequinha muito querida de todos os nós. Muitos beijinhos e muitas saudades da titia Didê Rio, 6-69 E, tal como um livro, o postal ganha vida enquanto leio em surdina as palavras da minha tia e a mensagem agarra-se-me com um abraço envolvente e um beijo infantil. A bonequinha agradece.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Fernando Pessoa
Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.
Ricardo Reis
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Momento sitemeter (9)
O meu fisaleiro, será que é assim que se chama?, tem vida própria. É o mais procurado neste blogue, mais do que euzinha. Pois bem, para que cá não venham em vão, aqui ficam duas imagens recentes: uma do arbusto, bicho indomável que cresce a olhos vistos, outra da primeira safra de fisalis deste ano. Absolutamente biológicos e deliciosos.

fotos: minhas
terça-feira, 10 de junho de 2008
A comuna
Fiquei a saber pelos órgãos de comunicação social que sou de esquerda e isto porque ao estar indignada com as afirmações de Cavaco Silva por ter proferido que hoje, 10 de Junho se comemora o Dia da Raça, fui imediatamente catalogada e identificada com a esquerda. Ao que parece estar incomodada com a afirmação grave de um chefe de Estado catapulta-me para uma orientação política: a esquerda exige explicações. Naturalmente qualquer cidadão informado e democrático, de esquerda, direita ou centro, consciente das implicações de fazer parte de uma Europa que se quer multicultural, tolerante e respeitadora das diferenças devia sentir-se incomodado por ter um presidente que recua ao tempo da ditadura e, pior que isso, usa um conceito carregado de preconceito e racismo. Os nacionalistas agradecem. Se acontecesse na Alemanha choveriam as acusações de nazismo. Aqui são gaffes, afinal o presidente é um homem simples de Boliqueime, coitado, foi sem querer. O mais preocupante é que para Cavaco Silva o Dia de Portugal é o Dia da Raça, se assim não fosse a expressão teria sido varrida com um tempo de maior tolerância e aceitação da diferença, democrático, portanto, e jamais seria utilizada em pleno século XXI. Mas isto sou eu que sou de esquerda. Com muito gosto, obviamente.
também no GR
segunda-feira, 9 de junho de 2008
sexta-feira, 6 de junho de 2008
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Respirar fundo
Não entrar em pânico nunca é uma das linhas orientadoras sobre a qual vou deixando deslizar a minha pacata existência. Não entrar em pânico em situação alguma. Não soltar uivos e gritos. Não me descontrolar. Não deixar sons saírem desagregados boca fora, palavras e gestos. Não entrar em pânico. Respirar fundo e pensar que vai passar. Nada há que dure sempre, dor física incluída, portanto, respirar fundo e pensar que vai passar. Há-de passar. E passa. Em situações normais passa, só não passa quando estou desde Outubro sem deixar o corpo apanhar sol, tenho uma cor leitosa que assusta até a mim própria, os pés encarquilhados e um semblante desbotado. Mesmo respirando fundo não passa.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Francamente
O Marilyn Manson tem lugar cativo nas minhas aulas. Senta-se lá para o fundo, mantém-se calmo e observador e tem, regra geral, pasme-se, uma presença discreta, não fossem aqueles olhos.
Primeiro a conversa desenrola-se em torno da música, já se sabe, tema que oferece grande consenso entre os adolescentes embora os gostos específicos de cada uma os coloque amiúde nos antípodas, muitas vezes com placas ao pescoço atribuídas mutuamente. Depois inevitavelmente o rapaz é chamado. E lá andávamos tranquilamente, tão tranquilos quanto possível, já se vê, quando o Marilyn Manson me salta ao caminho A stora sabe o que é o Marilyn Manson fez? Ora, ora. Quem não sabe? Respondi apenas Sim, sei. A garota não se deu por satisfeita, não se daria por satisfeita mesmo uma dúzia de perguntas depois Mas, ó stora, a stora sabe mesmo? Sim, sei mesmo. Nova intentona Sabe, stora? Sabe. A Stora sabe e a stora, já estando pelos cabelos com o mito criado, ordenou que o questionário parasse de imediato. Ela sabia, eu sabia, todos sabiam. Ponto final. Avisei que era mito, ela não quis saber. Mas ó stora... As estrelas vivem de mitos. Arremessou-me um olhar cúmplice. Nos olhos li-lhe Ah tu sabes… Tocou, entretanto, e o Marilyn Manson saiu com os restantes alunos. Rosnou qualquer coisa entre dentes, diz que estava farto da mesma conversa. Pois, compreendo-te, imagina eu, ainda lhe disse, mas estava já no meio do pátio como bola de ping-pong nas conversas das garotas.
A última vez que ele me apareceu foi exactamente no meio de uma outra conversa sobre gente bizarra e música. Ao contrário da aluna anterior, que se mostrou insistente mas que acabou por se resignar, sabe deus como, desta feita, não houve quem calasse o rapazola púbere, de resto, não há quem cale o rapazola púbere em situação alguma. Um verdadeiro one man show assumido e aclamado, sempre bem disposto e eléctrico, que só sossega quando se lhe diz que quando quer sabe comportar-se ou que é miúdo inteligente, que podia ter melhores resultados, palavras doces e sinceras amansam qualquer fera, este diabrete incluído, excepto quando as hormonas se manifestam, portanto, aqui a pobre stora não teve sequer tempo, hipótese ou possibilidade de apaziguar a conversa e deixar o Marilyn Manson descansado. Stora, o Marilyn Manson é uma ganda maluco, sim, pois, claro, ao que acrescentou transgressor e triunfante Tirou as costelas para fazer falácias a ele próprio. Ganda maluco! Eu sabia. Aqueles olhos não enganam ninguém. Eu sabia que havia algo errado com o mafarrico, desconhecia era que fossem as falácias. Francamente, ó Marilyn Manson.
Primeiro a conversa desenrola-se em torno da música, já se sabe, tema que oferece grande consenso entre os adolescentes embora os gostos específicos de cada uma os coloque amiúde nos antípodas, muitas vezes com placas ao pescoço atribuídas mutuamente. Depois inevitavelmente o rapaz é chamado. E lá andávamos tranquilamente, tão tranquilos quanto possível, já se vê, quando o Marilyn Manson me salta ao caminho A stora sabe o que é o Marilyn Manson fez? Ora, ora. Quem não sabe? Respondi apenas Sim, sei. A garota não se deu por satisfeita, não se daria por satisfeita mesmo uma dúzia de perguntas depois Mas, ó stora, a stora sabe mesmo? Sim, sei mesmo. Nova intentona Sabe, stora? Sabe. A Stora sabe e a stora, já estando pelos cabelos com o mito criado, ordenou que o questionário parasse de imediato. Ela sabia, eu sabia, todos sabiam. Ponto final. Avisei que era mito, ela não quis saber. Mas ó stora... As estrelas vivem de mitos. Arremessou-me um olhar cúmplice. Nos olhos li-lhe Ah tu sabes… Tocou, entretanto, e o Marilyn Manson saiu com os restantes alunos. Rosnou qualquer coisa entre dentes, diz que estava farto da mesma conversa. Pois, compreendo-te, imagina eu, ainda lhe disse, mas estava já no meio do pátio como bola de ping-pong nas conversas das garotas.
A última vez que ele me apareceu foi exactamente no meio de uma outra conversa sobre gente bizarra e música. Ao contrário da aluna anterior, que se mostrou insistente mas que acabou por se resignar, sabe deus como, desta feita, não houve quem calasse o rapazola púbere, de resto, não há quem cale o rapazola púbere em situação alguma. Um verdadeiro one man show assumido e aclamado, sempre bem disposto e eléctrico, que só sossega quando se lhe diz que quando quer sabe comportar-se ou que é miúdo inteligente, que podia ter melhores resultados, palavras doces e sinceras amansam qualquer fera, este diabrete incluído, excepto quando as hormonas se manifestam, portanto, aqui a pobre stora não teve sequer tempo, hipótese ou possibilidade de apaziguar a conversa e deixar o Marilyn Manson descansado. Stora, o Marilyn Manson é uma ganda maluco, sim, pois, claro, ao que acrescentou transgressor e triunfante Tirou as costelas para fazer falácias a ele próprio. Ganda maluco! Eu sabia. Aqueles olhos não enganam ninguém. Eu sabia que havia algo errado com o mafarrico, desconhecia era que fossem as falácias. Francamente, ó Marilyn Manson.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Terça-feira é
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A passadeira vermelha
A convite do Pedro Correia hoje estou no Corta-Fitas a desfilar palavras. Um grande prazer e uma enorme honra.
What else?
What philosophy do you follow?
You scored as a Hedonism
Your life is guided by the principles of Hedonism: You believe that pleasure is a great, or the greatest, good; and you try to enjoy life’s pleasures as much as you can.
“Eat, drink, and be merry, for tomorrow we die!”
You scored as a Hedonism
Your life is guided by the principles of Hedonism: You believe that pleasure is a great, or the greatest, good; and you try to enjoy life’s pleasures as much as you can.
“Eat, drink, and be merry, for tomorrow we die!”
domingo, 1 de junho de 2008
Prever o imprevisto
Planear uma viagem é como planificar uma aula: uma declaração de intenções, com objectivos e metas a alcançar, meios a utilizar, intervenientes e actividades a realizar para cumprir objectivos e desenvolver as competências dos aprendentes/viajantes. Contudo, exactamente como num plano de aula deve haver espaço para o imprevisto e, tal como num plano de aula, o imprevisto não aparece expresso, paira antes como um ente etéreo, uma possibilidade nem sempre tida em conta em ambas as situações e que pode ser mais ou menos aterradora de acordo com a inexperiência de quem ensina e viaja. Uma vez presente, tal como na aula, cabe ao gestor das aventuras tirar o melhor proveito, contornar as situações se necessário for, mas jamais, em ambas as situações, permitir que o imprevisto ocupe honras de estado e aniquile a experiência plena de aprender e de viajar.
Pobres, pois, os planificadores exaustivos, escrupulosos cumpridores de tarefas ao segundo, maníacos da ordem e do rigor, ser-lhes-á pesado o viajar quando por artes inexplicadas o plano segue um percurso paralelo e decide cortar por um trilho secundário. Os rostos dos turistas embrulhados nas toalhas de banho de hotel para apaziguar o frio cortante do ar condicionado naquele autocarro que nos acudiu no meio de caminho, algures antes de Montego Bay, atestaram por completo a ausência de sentido de humor e a exigência feroz de que nas férias tudo siga a contento como nos países de origem. Assim não é e assim não deve ser. Tudo piorou quando esse mesmo autocarro desistiu da marcha quilómetros à frente, no meio de caminho nenhum numa noite sem luar em plena estrada para Negril, um problema de motor talvez, e obrigou o turistame a largar o autocarro, cheirar o perfume da noite jamaicana e submeter-se à fome voraz dos mosquitos cá fora, enquanto ajuda chegava. A guia, já se sabe, era guia mas tinha a sua vidinha, portanto abeirou-se-nos e despediu-se cordata. Sabem como é que é, se for convosco venho para casa muito tarde… Yah mon! No problem, mon. O turistame ficou entregue a outra guia e, quando horas depois chegámos à nossa casa jamaicana, a guia número dois tinha sido contagiada pelo humor canídeo do seu grupo e oferecia-nos um semblante furibundo.
Daquela vez em que passei três dias à espera que a chuva desaparecesse, a neblina se dissipasse e o Cristo Redentor se mostrasse, sabe deus quanto esperara por aquele momento, aproveitei para dar uma banda sonora à praia de Ipanema batida pela chuva. Águas de Março, era Março, e a espaços ainda ecoava a marcha de Carnaval que ouvira na infância nos LPs que a minha tia trazia nas visitas fugazes a Portugal Tomara que chova três dias sem parar…ou Chove chuva, chove sem parar. E quando Copenhaga surgiu como destino e uma visita a Elsinore como uma possibilidade forte, o que os livros nos fazem, a neblina densa, abrupta e quase impenetrável que se abateu sobre o castelo que, à medida que o ferry se aproximava de Helsinborg do lado de lá do mar, se tornava uma mancha informe e irreconhecível, só podia ser maldição, Hamlet não deixa as coisas por menos. Imprevisto mas belo. Como o viajar.
Pobres, pois, os planificadores exaustivos, escrupulosos cumpridores de tarefas ao segundo, maníacos da ordem e do rigor, ser-lhes-á pesado o viajar quando por artes inexplicadas o plano segue um percurso paralelo e decide cortar por um trilho secundário. Os rostos dos turistas embrulhados nas toalhas de banho de hotel para apaziguar o frio cortante do ar condicionado naquele autocarro que nos acudiu no meio de caminho, algures antes de Montego Bay, atestaram por completo a ausência de sentido de humor e a exigência feroz de que nas férias tudo siga a contento como nos países de origem. Assim não é e assim não deve ser. Tudo piorou quando esse mesmo autocarro desistiu da marcha quilómetros à frente, no meio de caminho nenhum numa noite sem luar em plena estrada para Negril, um problema de motor talvez, e obrigou o turistame a largar o autocarro, cheirar o perfume da noite jamaicana e submeter-se à fome voraz dos mosquitos cá fora, enquanto ajuda chegava. A guia, já se sabe, era guia mas tinha a sua vidinha, portanto abeirou-se-nos e despediu-se cordata. Sabem como é que é, se for convosco venho para casa muito tarde… Yah mon! No problem, mon. O turistame ficou entregue a outra guia e, quando horas depois chegámos à nossa casa jamaicana, a guia número dois tinha sido contagiada pelo humor canídeo do seu grupo e oferecia-nos um semblante furibundo.
Daquela vez em que passei três dias à espera que a chuva desaparecesse, a neblina se dissipasse e o Cristo Redentor se mostrasse, sabe deus quanto esperara por aquele momento, aproveitei para dar uma banda sonora à praia de Ipanema batida pela chuva. Águas de Março, era Março, e a espaços ainda ecoava a marcha de Carnaval que ouvira na infância nos LPs que a minha tia trazia nas visitas fugazes a Portugal Tomara que chova três dias sem parar…ou Chove chuva, chove sem parar. E quando Copenhaga surgiu como destino e uma visita a Elsinore como uma possibilidade forte, o que os livros nos fazem, a neblina densa, abrupta e quase impenetrável que se abateu sobre o castelo que, à medida que o ferry se aproximava de Helsinborg do lado de lá do mar, se tornava uma mancha informe e irreconhecível, só podia ser maldição, Hamlet não deixa as coisas por menos. Imprevisto mas belo. Como o viajar.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Tricotando estórias
Dou voltas à escrita como a um novelo colorido à procura do fio primeiro. A textura macia da lã apertada ao meio com uma cinta. Libertemo-la da cinta, não há escrita que resista apertada e procuremos o fio, a ponta do fio a partir da qual se dará forma pelo entrelaçar criterioso dos fios, de um fio, sempre o mesmo que amaranhando por si próprio e rodopiando ao ritmo da escrita ganhará a consistência de que são feitas as estórias.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Terça-feira (4)
segunda-feira, 26 de maio de 2008
sábado, 24 de maio de 2008
Maio sonhado
Despertar com os raios de sol forte a espreitarem-me pelas frestas das portadas. Acordar estremunhada pelos feixes de luz e levantar-me apressada, detesto perder um dia de sol, o duche rápido, pelo corpo ainda húmido um vestido leve que escorregue como carícia, os pés livres e desimpedidos, as havaianas, indefectíveis, imprescindíveis, indispensáveis nos momentos de abandono ao lazer, ao prazer de nada pensar e muito pouco ser. O pequeno-almoço tranquilo, não demasiado dolente, o sol espera-me lá fora. Saio, chinelo pelo jardim fora nas havaianas coloridas, os melros fogem, penduram-se como trapezistas no canavial, a relva como um tapete fofo acamado pelos passos despreocupados sem destino definido, uma festa ao cão do vizinho, Cãozinho lindo, és o meu cãozinho também, dia sem festa canina não é dia, as gatas que buscam refúgio na exuberância do maçaroco, dará mais este ano?, flores que despontam, o hibisco laranja vai dar flor, as hidrângeas regressam outra vez lilases, aniladas, azuladas, é do ferro, dizem-me, que abandonaram os tons rosáceos em definitivo, confiro a passiflora, entrelaça-se ardente, as flores libertam um perfume perfeito para esta manhã de Maio sonhada.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
de A a Z
Abnegada, activa, altruísta, amável, amada, amiga, apaixonada, aventureira, bem-disposta, bem-humorada, bibliófila, carinhosa, compreensiva, conversadora, convicta, companheira, crítica, curiosa, dedicada, descontraída, desenrascada, desempenada, destemida, determinada, devotada, directa, disponível, divertida, enérgica, espontânea, exigente, faladora, fantástica, forte, generosa, genuína, hospitaleira, incansável, inconformada, independente, infatigável, informada, ingénua, inigualável, inteligente, interessada, intrépida, irrequieta, íntegra, jovem, jovial, justa, leal, leitora, líder, livre, luminosa, lutadora, mãe, mulher, notável, obstinada, ouvinte, perseverante, positiva, professora, querida, recta, refilona, respeitada, respeitadora, rija, risonha, sábia, sensível, sincera, sonhadora, sorridente, teimosa, transparente, única, viajante, voluntariosa, zeladora, zelosa.
Parabéns, Mamã!
terça-feira, 20 de maio de 2008
Terça-feira (3)
As comemorações dos cinquenta anos da Bossa Nova começaram antes da efeméride redonda que este ano se celebra no Brasil.
E, para saber onde, como, quando e porquê, nada como dar uma saltadinha ao PNETmulher.
E, para saber onde, como, quando e porquê, nada como dar uma saltadinha ao PNETmulher.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Momento sitemeter (8)
Anda uma cidadã pacatamente na sua vida, descansando no período sabático em que os ginecologistas, os médicos mais cuscos e intrometidos que se conhece, se ocupam de outras criaturas que têm, desde já, toda a minha solidariedade e compaixão, quando, de repente, alguém se lembra de vir perguntar por torturas medievais. Agora que a visão de me tornar numa prateleira para o giz era apenas uma névoa distante, tornou-se numa ameaça presente. O que o sitemeter pode fazer às pessoas.
domingo, 18 de maio de 2008
Zélia Gattai
Eu te darei um pentepara te pentear
Colar para teus ombros enfeitar
Rede para te embalar
O céu e o mar eu vou te dar...
Jorge Amado
Acreditemos que Zélia Gattai foi ao encontro do seu Jorge Amado.
Imagem daqui
sábado, 17 de maio de 2008
E os leitores?
A Feira do Livro de Lisboa vai ser adiada na impossibilidade das partes em litígio de chegarem a um acordo. Esta trica assemelha-se ao caso Esmeralda, em que cada um pensa em si e a criança, coitada, anda lá pelo meio ou uma desavença de comadres, cada uma lutando por um pedaço de terra a mais para plantar as couves e as batatas no quintal. Não me interessa quem tem razão, o meu disco rígido não comporta ditos e mexericos, intrigas e manobras. Sendo questionáveis os moldes como a Feira era organizada e disposta e urgindo uma remodelação mais adequada, de forma a dar mais vida ao evento, uma coisa eu sei, e falo apenas como leitora, afinal qual é o papel dos leitores no meio de tanta disputa? A Feira do Livro acompanha-me desde sempre e também ela terá forjado o meu gosto pela leitura. Remonta aos primórdios da minha existência, quando ir à Feira, ainda pela mão dos meus pais, constituía um ponto alto do fim da Primavera e me era dada a autonomia para poder escolher os livros do meu agrado. Razões de coração obviamente. Por isso também sinto-me desrespeitada. A Leya, a Apel e a Câmara Municipal de Lisboa zelam afinal pelos interesses de quem? Devia ser pelos dos leitores, ao que parece, esses serão os últimos a ser contemplados. Ainda não ouvi falar deles. Este ano, não irei à Feira do Livro.
Também no Geração Rasca e PNETmulher
sexta-feira, 16 de maio de 2008
quarta-feira, 14 de maio de 2008
A utilidade das pegas de cozinha
terça-feira, 13 de maio de 2008
Terça-feira (2)
Chego a casa e procuro furiosamente. Na sala, no quarto, em todos os locais por onde os livros se espraiam, mas nada. Nadinha. Zero. Nicles. Népia.
E para saber o que procuro nada como passar pelo PNETmulher.
E para saber o que procuro nada como passar pelo PNETmulher.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
O beijo preso no coração
E hoje, ter-te-ia ligado pela manhã, meu pai, não muito cedo já se sabe, eu e tu partilhamos o mesmo despertar ensonado, o acordar apenas após o café, e ter-te–ia dito Parabéns, Papá! Responder-me-ias do outro lado Obrigado, filhota, na voz sempre a indizível alegria e o carinho de me receberes em mais este dia. Mais tarde entrar-me-ias pelo portão. Primeiro tu, depois a Mamã. Provavelmente estaria na cozinha, quem sabe de avental ainda, preparando algo do teu agrado, o amor não é servido em restaurantes impessoais, e tu entrarias o portão, não antes de fazer uma festa à cadela do vizinho, olharias para o azevinho do lado esquerdo, se soubesses como está lindo, e admirarias como se dá bem neste canto do jardim. Iria ao teu encontro, dar-te-ia um beijo grande, um abraço apertado, repetiria Parabéns, Papá, ficarias babado e feliz com a tua filhota e dir-me-ias de novo Obrigado, filhota! E depois, os presentes singelos e a teu gosto, o amor posto sobre a mesa nos mais pequenos pormenores, e assim passaríamos o dia. E assim deveríamos passar o dia de hoje, meu pai, que não sei que ordem natural das coisas é essa, essa que dizem ser natural, essa que hoje me faz escrever este texto que nunca lerás e ficar com o beijo preso no coração. Assim é que devia ser: tu a entrares-me pela porta e eu a dizer-te Parabéns, Papá!
domingo, 11 de maio de 2008
Escrever uma história
Escrever uma história é como guiar um carro novo num país desconhecido, sem mapa, ao anoitecer. Mete a mudança, segunda, terceira, acelera, quarta, reduz, cuidado que a curva é apertada, a berma derrapa, animais atravessam, vem carro em contramão, e agora estás perdido, no último cruzamento foi má escolha, que é da estrada principal, atenção já aqui estiveste nesta árvore, é onde acaba ou começa o caminho, pára, marcha atrás, inverte o sentido, segue as marcas dos pneus, acelera outra vez. E lembra-te, se te despistares contra um muro, fá-lo com estilo.
Rui Cardoso Martins, "Fora de Mão", "Pública", 11.05.08
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Avaliação contínua
Ser professor é estar em estado de alerta permanente. Uma vigília escrupulosa que não se compadece com estados ensonados, gripais, adoentados ou cansaço acumulado, não interessa se do ano, do mês, da semana, do período ou do dia. Olhos bem abertos, ouvidos em sentido, reflexos rápidos, sentidos apurados e coração aberto para melhor se ouvir o inaudível que passa entre olhares e sorrisos ou que se oculta neles. Um gesto, uma forma de estar, a expressão do olhar revelam mais do que verbalizações mil e, caso lhes seja dada oportunidade, retribuem com igual atenção, o que, se, por um lado, pode encerrar um carinho velado e um consolo ternurento, por outro, obriga a uma vigília redobrada. Um dia é o casaco, no outro a túnica, depois o anel, tudo perscrutado com rigor, de que ano é o Swatch skin que acompanha grande parte dos meus dias, onde fui nos feriados ou fins-de-semana, por exemplo, e depois, surgem aquelas perguntas acompanhadas da cumplicidade de alguém que sabe que está a ir longe demais ou a ultrapassar a barreira da privacidade, mas que a curiosidade não consegue calar, às vezes, também a necessidade de um conselho ou opinião. A pergunta de hoje não cabe na categorização anterior. Depois de terem assistido a uma palestra, os meus alunos entraram bem-dispostos e ruidosos como sempre e, enquanto se arrumavam e uma escrevia a data e sumário no quadro, a pergunta saiu certeira, o ar inquiridor acompanhando-a Stora? Que dia é hoje? Hoje? Retorqui Hoje, dia 9 de Maio? Hoje é Dia da Europa. A minha aluna redondinha e sorridente exclamou satisfeita Muito bem, stora! Prova superada.
O homem e a cidade
O homem não inventou a cidade; a cidade é que criou o homem e os seus costumes.
Guillermo Cabrera Infante
A frase paira no confronto com a urbe. O homem ou a cidade, quem criou quem? Uma questão que se me põe quando, de cachecol e luvas, atravesso a cidade quase despida, uns farrapos de neve sobre o casaco negro, o frio cortante como nunca antes se sentiu. Dor. O frio dói, e, contudo, é bela a cidade. E a frase volta quando ziguezagueando desemboco no Canal Grande e ouço o vociferar dos gondoleiros na manhã ensolarada. Está sol e o sol não dói. A cidade não dói. Quem te criou assim, cidade? Ouço-a de novo no miradouro de Santa Luzia, o casario como um tapete bordado até ao Tejo, palavras de poeta amancebadas com a cidade lá em baixo. Foste tu, poeta, que criaste esta cidade que ouço? E regressa sempre a frase, eterno enigma, que resolvo na tela colorida. Aquela não é a cidade. Não a que vi. Outra cidade, vibrante, um turbilhão cromático, e bela, igualmente sedutora. Foi o homem que inventou aquela cidade.
Wassily Kandinsky, Moscou
A convite da Dobra do Grito, escrevi este post que também pode ser lido aqui. Foi um prazer ser provocada e responder a mais este desafio.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Confissões
Hoje fiz algo pouco em voga nos anos oitenta, muito comum nos anos noventa e absolutamente inusitado no século XXI para os meus alunos: comprei um CD. Mas vindo de um professor, que mais se pode esperar?
terça-feira, 6 de maio de 2008
Momento sitemeter (7)
Marquise de cavaco silva? Procurou marquise de Cavaco Silva? Caramba, quase me tinha esquecido desse belíssimo momento de tuguice pura, protagonizado pelo Presidente da República e a sua presidenta. Resta saber se tão ilustre marquise não terá sido projectada pelo engenheiro Sócrates. É certo que não fica por cima dum curral, deus nos livre de tal em Campo de Ourique, mas pelas linhas, até parece ter mão do ilustre engenheiro. E para que não fiquemos assim, recordemos pois a Marquise em Campo de Ourique.
Como hoje é terça-feira
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Paragens novas
Certeiro
To get back my youth I would do anything in the world, except take exercise, get up early, or be respectable.
Oscar Wilde
Oscar Wilde
sábado, 3 de maio de 2008
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Filha babada
Mãe e filha concordaram. O vestido preto ficaria em casa para a ocasião e aquela de que não se pode dizer o nome, cruzes canhoto, mesmo que já tivesse desaparecido do estendal, não veria dia tão solene, onde andará tal bicho. Mãe e filha puseram pés ao caminho. Mãe e filha escolheram uma roupinha elegante e sóbria. Mãe e filha estavam em uníssono. Nada de cores estridentes nem padrões exuberantes. A mãe foi ao cabeleireiro. A filha amanhou a trunfa em casa. A filha foi buscar a mãe. Os vizinhos da filha olharam-na quando saiu de casa, surpreendidos com o aprumo para um dia de feriado municipal. Onde iria assim vestida? O genro pôs gravata e vestiu fato. Onde iria tão garboso? A filha ainda deu uma ajeitada na mãe. A mãe não precisava de ajeitadela alguma. Manias da filha, já se vê. Em dia grande de grande homenagem, a mãe irradiava a felicidade e grandeza dos quarenta anos na arte de ensinar todos e bem receber qualquer um no regaço generoso. A ajeitadela desnecessária como chapéu de chuva em dia de estio. Qualquer roupa teria ficado bem. Quando a alma refulge são dispensáveis ornamentos. Mãe e filha chegaram mesmo em cima da hora. A mãe havia de sentar-se na segunda fila, com a filha ao lado com o genro ao lado, demais convidados um pouco atrás. A filha estava nervosa. A filha escondeu da mãe que estava nervosa. Quando as palavras começaram, a mãe deixou cair uma lágrima emocionada. A filha engoliu as lágrimas emocionada. A filha esteve sempre ao lado da mãe excepto quando a mãe foi chamada para ser agraciada pelas mãos de um ex-aluno, agora homem maduro ao leme da terra que a mãe adoptou e que lhe retribuía neste dia. A mãe agradeceu entre o sorriso e as lágrimas as palavras sentidas do seu sempre aluno, agora homem feito e grato. A filha ficou orgulhosa, babada, feliz, exultante. A filha ficou comovida com as palavras que homenagearam a mãe. A filha veio para casa lutar com as palavras. A filha queria que elas contassem exactamente como foi. A filha procurou palavras. A filha vasculhou canhenhos de vocábulos vários. A filha deu por encerrada a busca. A alma da mãe não cabe em palavras e o reconhecimento não se transcreve em vocábulos. As palavras que fiquem para amanhã.imagem: minha
foto: Sónia
Verdades insofismáveis
A Gemini with no place to go is a little like a beautiful bird in a gilded cage, anxious to fly free but unable to do so.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
terça-feira, 29 de abril de 2008
Momento sitemeter (6)
A quem vinha à procura da resposta para o que são adiposidades temos a desdita de informar que não só sabemos o que são, como também possuímos evidências inegáveis das ditas.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Uma questão de gratidão
Sobre o corpo apenas o necessário. Nos pés a liberdade imensa que as sandálias estivais permitem. Do corpo o aroma do protector solar mesclado com o banho de mar, água fria estava naquele dia de Julho menino. O dia que se aconchega no regaço da tarde, a praia lentamente para trás, o mar mais distante, a areia que sem sucesso se sacode e uma nova etapa do dia que se inicia com o périplo necessário para as mais comezinhas tarefas algures na cidade a Sul. Os olhos focam com mais acuidade e, de entre as lojas em fila, salienta-se aquela. Uma livraria? Uma livraria. Entro ávida, não sem antes de espreitar a montra. Os livros podem ser um vício incurável, uma fome súbita de saciedade difícil.A livraria era, na verdade, uma livraria. De corredores estreitos, quase a lembrar uma biblioteca, com estantes recheadas até ao tecto, um pequeno labirinto, onde quase se podia jogar às escondidas entre Hemingway e Saramago, Teolinda Gersão e Philip Roth, os olhos a encontrarem-se de permeio pelas lombadas ordeiras. Não fora o espaço tão exíguo e assim poderia ser. Ao que ia, perguntaram-me. A resposta saiu desajeitada, apenas o vício me levara ao lugar, que de livros para a semana a Sul estava bem servida. E porque de uma livraria se tratava, não uma loja de livros, a empregada solícita não desistiu em mostrar as últimas novidades, o que haviam recebido bem visível nos caixotes abertos pela livraria, uma deferência esquecida para quem frequenta espaços onde os livros são apenas deixados à mercê do leitor sem a menor dedicação dos empregados desse ofício moribundo de bem vender livros e bem os tratar. Apareceu o dono, entretanto. A conversa estendeu-se a outros autores, ao que bem se vendia, ao que recomendava, ao que acabara de sair e que me foi obrigando a passeios sucessivos entre as estantes e caixotes, o perfume que se soltava dos livros acabados de chegar. Lá fora a tarde descia serena, não há como os fins de tarde estivais para harmonizar corpo e espírito. E mesmo com a mesa-de-cabeceira suficientemente preenchida para a semana de remanso, ainda antes da enxurrada de turistas atabalhoados, a dedicação aos livros, a conversa conhecedora e a deferência com que fui recebida entraram-me certeiros no coração. Não é assim nas lojas de livros. Um livro seria, claro. Com o coração atingido seria incapaz de abandonar o local apenas com uma despedida de circunstância. Percorro o expositor da entrada com o olhar e decido-me: Kafka à beira-mar. A ingratidão é das mais execráveis faltas, um risco impensável perante tão enternecedor acolhimento.
No Dia do Livro
Esta crónica foi escrita para a PNetMulher a convite da Teresa C. a quem agradeço o convite e esta referência elogiosa.
terça-feira, 22 de abril de 2008
O seu a seu dono
A filha entra em casa. A filha cumprimenta a mãe. A mãe está na cozinha. A mãe cumprimenta a filha. A filha espreita para a marquise, mistérios insondáveis, logo a marquise. A filha vê estendida casualmente uma echarpe salmão. Em tempo de Primavera tudo sai à rua, intui a filha. Mãe e filha almoçam. A mãe está preocupada. O vestido preto. Sempre o vestido preto. Preto com preto não. Muito pesado. Credo. Pensei levar a echarpe. Diz a mãe. Qual echarpe? Aquela echarpe? Aquela na marquise? Pergunta a filha. A mãe responde. Sim, aquela. A filha inquieta-se. É tua? Pensei que fosse da Dinha com aquelas cores. Que ta tivesse emprestado. Não. Responde a mãe. É minha. Foste tu que ma deste. A filha encanita-se. Eu que ta dei? Mas algum dia eu te dava uma echarpe laranja?! A mãe responde. Quem mais me poderia dar aquela echarpe? Foste tu! A filha desespera-se. Eu? Mas eu, por acaso, ia dar-te uma coisa daquela cor? A mãe retorque. Foi antes do Papá morrer. A filha retorque. E então? Mesmo assim. Algum dia vestes aquelas cores? A mãe dá-lhe. Quem mais, se não tu, ia oferecer-me aquilo? Ainda estava embrulhado num papel de seda. A filha dá-lhe. Mas tens a certeza? A mãe contra ataca. Não tenho a certeza mas só podes ter sido tu. A filha vai à marquise. A filha olha desolada para o presente maldito. A filha abana a cabeça. A filha está desolada. A filha põe uma voz esganiçada. Eu? Eu é que te dei aquilo? A mãe reafirma. Não podia ter sido mais ninguém. A filha entra em desespero. A filha barafusta. A filha diz-se inocente, incapaz de oferecer à mãe algo que lhe assentaria desajustado, as cores estridentes. A filha conclui. Portanto, quando não sabes quem te ofereceu algo, fui eu? A mãe reincide. Foste tu, só podes ter sido tu. Quem mais? A filha responde. Sei lá eu. Eu é que não fui. A filha cogita e alvitra. A mãe reafirma. Foste tu. A filha vive em estado de ansiedade. A filha receia as arrumações sazonais ao guarda-roupa, cómodas e gaveta. A filha receia que a mãe se depare com peças de vestuário inusitado de tempos passados, esquecidos e ultrapassados, echarpes salmão, por exemplo. A quem acham que a mãe vai atribuir a existência de eventuais monos órfãos de presenteador? Teme-se o pior.
domingo, 20 de abril de 2008
O Grito do Ipiranga
De carro? Como de carro? De carro sem mais ninguém? Só tu? E se fosses de comboio ou de expresso? Há expressos a toda a hora e são rápidos. Há necessidade de ires de carro?! É só malucos na estrada. Nós levamos-te lá. É perto. Vamos num instante. Passam a vida a dar acidentes na televisão e nas notícias. Ainda hoje morreu uma mulher num acidente horrível. Não és tu, são os outros, o problema são os outros desencabrestados que por aí andam, sem respeito por ninguém. A estrada está cheia de loucos desvairados. Eu é que sei a aflição em que fico até chegares. E o tempo? Olha que temporal e tu por essa auto-estrada fora sem ninguém. Nem consigo descansar. E se acontece alguma coisa? Mas que mania. Não percebes que eu fico preocupada? Ligas-me, assim que chegares? Sim, filha, ligo-te logo.
sábado, 19 de abril de 2008
Valença

E essa fotografia é tudo quanto temos de Valença. Um calor imenso e a tarde que teimava em cair tranquila sobre um local de que apenas conhecíamos o nome. Horas a olhar o céu à espera que surgisse o pássaro de ferro de volta para Salvador. Memórias de viagem que fazem viajar valer a pena. Para a Martha com um beijo especial.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Blogger says no
Quando o Blogger permitir, aqui ficará a fotografia dos coqueiros e do mar espelhado, o contraponto necessário do temporal que se pôs lá fora e a imagem que me vai acalentando a esperança das férias vindouras, com sol e mar, sem Sócrates, sem Ministra da Educação, sem a epopeia da avaliação e sem o país, claro está.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Como uma árvore
A escrita é como uma árvore. Deve ser podada para que cresça mais forte, aspergida com as experiências vividas para que desponte mais viçosa. Foi isso que fiz à minha escrita. Deixei-a crescer desencabrestada, uns adjectivos fora do sítio, alguns em exagerado número, como os ramos da árvore há que deixar crescer primeiro, outros em desalinho, uns verbos de concordância débil, como as árvores de folhas encarquilhadas na Primavera, pronomes em exagero a exigir um corte urgente, vírgulas ausentes, quem sabe por falta de rega, exclamações desnecessárias decorrentes dos adjectivos abundantes. E, na altura da poda da escrita, desbastei-lhe os adjectivos, cortei-lhe as exclamações como excrescências nas pontas, aparei-lhe os verbos e acertei-lhe os pronomes e demonstrativos. Reguei-a de seguida com a parcimónia dos comedidos, quem sabe assim cresçam as vírgulas, e deixei que o orvalho que se não deixa escrever nestas linhas se ofereça sobre ela na quietude das noites de luar, diz-se que ajuda a que a plenitude floresça em cada palavra. Veremos então se cresce mais forte.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Computer says no
Depois de ter ido todos os dias ou quase à Waterstone´s durante a semana em Terras de Sua Majestade, a Fnac pareceu-me a mercearia da esquina. Obviamente trago a alma cheia de livros: dos que comprei, dos que folheei tranquilamente, dos que queria ter comprado mas que os vinte quilos de bagagem não permitiram e dos que anotei mentalmente para uma outra oportunidade. Tudo isto não foi impeditivo de ir dar uma espreitadela à Fnac à procura de novidades. O passeio foi rápido, nada de novo, nada de muito novo, até porque, desde que o filho do filho do exmo. senhor doutor conselheiro inspector publica livros apenas com o eco do apelido ou com o mediatismo da caixinha mágica, tornei-me muito selectiva relativamente a novos autores portugueses e prefiro jogar pelo seguro. Geralmente ouço o conselho de alguém que considero em matéria de bibliofilia ou gosto pela leitura. Esbarrei, então, no último da Paulina Chiziane, ponderei muito no último publicado em Portugal de Rubem Fonseca e, não fosse a minha pilha de livros a ler parecer a Torre de Babel, tê-lo ia agora lá pelo meio, naturalmente, e estaria a ler uma por uma as mulheres que habitam no livro. Mais irresistível pareceu-me A Mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scliar, Prémio Jabuti para o melhor romance, e com quem me cruzo nos meus passeios virtuais à Livraria Cultura. Pego no livro, leio a contra-capa, abro-o e deparo-me com um palavreado estranho, uma patranha de que aquela era uma editora para mulheres, uma verborreia que, sendo mulher, não me serve nem me assenta. Para mulheres? Larguei o livro, o Moacyr que me perdoe, esperarei por uma edição brasileira. Senti-me a fazer parte de um grupo oculto e o único grupo a que não me importaria de pertencer e que nem sequer é oculto seria ao FatFighters da série Little Britain. Larguei o livro e vim-me embora, até porque naquele momento o meu sistema operativo respondeu como Carol Beer Computer says no. Deixem lá os livros de seda.
também no Geração Rasca
Estantes e gavetas:
papéis pintados com tinta,
posta restante
A dinossáuria
A fotografia marcou a vez primeira em que me vi outra. Num miradouro altaneiro em Graz, na Áustria, há uma década mal medida, nada faria prever que, uns dois meses depois, olhasse para o momento eternizado num rectângulo brilhante e reparasse naquela ao lado da minha colega de profissão. As duas sorrindo, uma conhecida, era ela, a minha colega, a outra parecia eu. O mesmo olhar e o sorriso meio tímido ou cansado, cansado sim, lembro-me agora: aquele não havia sido um dos tempos mais fáceis da minha existência de mulher. Era eu. Havia algo indefinível na expressão. Não que fossem rugas ou o pescoço mais marcado, não era o rosto mais longilíneo. Era algo indizível na aura da imagem, meio crepuscular mesmo com a luz da tarde a iluminar a cidade que servia de pano de fundo à fotografia e assim, sem tanto procurar, o dizer é bem mais imediato que a escrita destas palavras, disse-me e vi-me irredutivelmente velha. E depois vieram episódios vários: passei a ser tratada por senhora, assim vindo do nada, como daquela vez em que num consultório médico, a mãe advertiu a filha Não incomodes a senhora!, ou como num dia em que ao cumprimentar a filha de uma colega, ela me respondeu Olá, senhora! Assim mesmo, sem nome, senhora apenas. O dia em que me sentei em frente ao médico que já não via há anos largos e que ao perscrutar-me com o olhar retorquiu implacável Eu lembro-me de si… Não era assim, não deixou margem para qualquer dúvida naturalmente. Nem o médico, nem quando um dia da semana passada uma aluna se abeirou de mim. Trazia um tom comprometido na voz Stora? O indício inequívoco de que algo aí viria, talvez uma pergunta pessoal, quem sabe. Ó Stora, insistiu, Sim… respondi. E a pergunta veio A Stora… a stora é do tempo dos discos de vinil? E não é que era mesmo?! A stora, eu dinossáuria, eu mesma, euzinha era do tempo do vinil. Se isto não é chamar velha a uma pessoa não sei o que será então.
sábado, 12 de abril de 2008
Bom dia
Acordar a uma hora tardia, abrir as portadas e espreitar o dia, deixar o basculante aberto para limpar a noite dormida. O corpo dolente que se espreguiça lentamente, atirando para trás das costas a semana defunta e descer então ao encontro do pequeno-almoço ainda por fazer. Uma chávena bem generosa de café, o perfume a pairar na cozinha à medida que as gotículas se soltam, duas fatias comedidas de pão dormido na torradeira e o requeijão de Seia, os aromas que se misturam e confundem, o conforto de ser abraçada pela manhã tranquila com o mar lá bem no fundinho da janela da cozinha e a Primavera visível no maçaroco que deu flor. Bom dia!
quarta-feira, 9 de abril de 2008
A viagem nos livros
Estava um dia de chuva, diz-se logo no início da narrativa, não um dia de sol como o desfilava na imagem à minha frente das transmissões do Carnaval de Salvador, e, ao contrário de Ivete Sangalo, Sereia não vestia de branco nem tinha um imenso leque de plumas, armado como uma auréola ao nível dos quadris, o cruzamento feliz entre a exuberância do pavão e a elegância do cisne. Sereia envergava uma fantasia em malha metálica que descia até ao chão como uma cauda reminiscente do seu próprio nome, Sereia, os seios e a barriga cobertos de purpurina prateada iluminados pela chuva de Salvador. Sereia, ao contrário de Ivete, tinha cabelos de ouro e olhos cor de mel, era uma boa dezena de anos mais nova do que Ivete, contava apenas vinte e dois, e ao contrário de Ivete, felizmente para esta, Sereia viu chegar o seu fim naquela terça-feira de Carnaval, em pleno desfile, como havia desejado, do alto do trio eléctrico na Avenida Carlos Gomes. Uma bala com a inicial do seu nome pôs fim à carreira promissora e catapultou Sereia, senão aos céus ou às profundezas dos mares de Iemanjá, ao estatuto de mito a que todas as mortes trágicas e jovens obrigam. Salvador chora inconsolável a partida inesperada da promissora estrela, assistimos ao funeral ao som do Olodum no Bonfim e perseguimos Augustão, o detective encarregue de resolver a morte precoce e inexplicável de Sereia, pelas ladeiras e ruas íngremes de Salvador. Acompanhamo-lo inúmeras vezes ao terreiro de Mãe Marina de Ogum e é também pelos seus olhos que contemplamos a Baía de Todos os Santos. Sereia é apenas o pretexto para Salvador se revelar em O Canto da Sereia de Nelson Motta, impregnado de estereótipos -música, mestiçagem e candomblé- mas com um roteiro implícito, uma viagem única à baianidade contemporânea e à qual regressaremos sempre, assim abramos as páginas do livro e a alma à escrita. Talvez por isso, este seja dos livros que mais viaja da estante para a mesa-de-cabeceira, da mesa-de-cabeceira para o sofá ao meu lado. Com ele há sempre um périplo renovado pela cidade do Salvador e um crepúsculo tranquilo sobre a Baía de Todos os Santos.
Elevador Lacerda e Baía de Todos os SantosSalvador
foto: minha
segunda-feira, 7 de abril de 2008
A morte dos heróis
A caixa mágica e o grande ecrã têm destas coisas: constroem os mitos e destroem-nos com igual facilidade e uma não menos pequena dose de mestria. Charlton Heston eternizou-se com a cena inesquecível da corrida de quadrigas que protagonizou em Ben-Hur. A masculinidade em evidência, o carácter apolínio consubstanciado pelos ideais éticos e morais do homem que jamais perde a elegância nem mesmo numa situação de risco, a heroicidade da personagem e a eterna luta maniqueísta conferiam ao então jovem e auspicioso Charlton Heston, mesmo que transvestido em Ben-Hur, a aura mística que todos os heróis usam. E embora sabendo que não é no Coliseu de Roma que a cena se passa, mas antes no Circus Maximus, onde aconteciam as corridas de quadrigas, a banda sonora dos meus momentos no incontornável monumento da Cidade Eterna é protagonizada também por Ben-Hur, o gáudio do povo em júbilo perante a implacabilidade do César de serviço.
Regressei a Charlton Heston décadas mais tarde. Despido da máscara de Ben-Hur e da verticalidade da personagem, à minha frente desenhava-se uma outra personagem que desconhecia até então. Pela mão de Michael Moore, desvelava-se Charlton Heston, ele mesmo, um outro papel que terá desempenhado nesta sua vida repleta que agora findou. Como presidente da National Rifle Association deixava bem clara a defesa do porte de arma meros dias após o massacre de Columbine. Michael Moore não foi cordato nem misericordioso na representação do herói épico de outros tempos. Longe da imagem transbordante de masculinidade Charlton Heston, envelhecido e decadente, afasta-se num passo dolente e degradado na sua própria casa, tendo deixado por responder algumas questões formuladas e a desilusão na medida dos passos arrastados. Ben-Hur jamais faria tal coisa.
Regressei a Charlton Heston décadas mais tarde. Despido da máscara de Ben-Hur e da verticalidade da personagem, à minha frente desenhava-se uma outra personagem que desconhecia até então. Pela mão de Michael Moore, desvelava-se Charlton Heston, ele mesmo, um outro papel que terá desempenhado nesta sua vida repleta que agora findou. Como presidente da National Rifle Association deixava bem clara a defesa do porte de arma meros dias após o massacre de Columbine. Michael Moore não foi cordato nem misericordioso na representação do herói épico de outros tempos. Longe da imagem transbordante de masculinidade Charlton Heston, envelhecido e decadente, afasta-se num passo dolente e degradado na sua própria casa, tendo deixado por responder algumas questões formuladas e a desilusão na medida dos passos arrastados. Ben-Hur jamais faria tal coisa.
Imagem daqui
sábado, 5 de abril de 2008
sexta-feira, 4 de abril de 2008
quarta-feira, 2 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
Nos braços do meu Morfeu
Durmo mal desde que me conheço. Quando, en passant, se me solta a idiossincrasia chovem conselhos: médicos, psiquiatras, comprimidos e mezinhas, aqui e ali um olhar de comiseração, um ou outro de recriminação, o preço a pagar pela aparente destemperança que me caracteriza juntamente com a juba de leoa. Nada adianta dizer que é assim e que, resignada com esta sorte, convivo perfeitamente com as toleimas do meu corpo, ao que parece entretido a boicotar-me o sono desde sempre. Monótono, este meu corpo. As duas últimas noites em que dormi muito bem e acordei fresca que nem um repolho estival foi no dia em que defendi a minha tese de Mestrado, eventualmente pela exaustão e alívio, e na véspera do meu casamento, provavelmente a certeza dos meus passos aniquilara qualquer réstia de angústia. Há muito tempo, portanto. E como se o sono inquieto não bastasse, sonho amiúde com uma plétora considerável de disparates e maluqueiras, portanto, os sonhos bons são como as noites bem dormidas: esporádicas, bem presentes, passíveis de serem contadas pelos dedos de uma mão. Num dos últimos sonhos agradáveis estava em São Tomé e tinha ido comer um cozido de peixe com a deliciosa malagueta verde dos trópicos santomenses. E agora desde há duas noites que sonho com a vida abaixo do Equador. Estava outra vez no Rio de Janeiro, mais concretamente lá para a Lapa e sei-o porque vi passar os Arcos bem perto de mim. Ontem já tinha abandonado o Rio e andava lá para Sul, entre as cataratas de Iguaçú e Buenos Aires. Por este andar ainda vou parar à Terra do Fogo, assim me assistam mais umas noites de onírico deambular.segunda-feira, 31 de março de 2008
At the end of a school day you leave with a head filled with adolescent noises, their worries, their dreams. They follow you to dinner, to the movies, to the bathroom, to the bed.
You try to put them out of your mind. Go away. Go away. I´m reading a book, the paper, the writing on the wall. Go away.
Frank McCourt, Teacher Man.
You try to put them out of your mind. Go away. Go away. I´m reading a book, the paper, the writing on the wall. Go away.
Frank McCourt, Teacher Man.
quarta-feira, 26 de março de 2008
domingo, 16 de março de 2008
sexta-feira, 14 de março de 2008
quarta-feira, 12 de março de 2008
Felinos, canídeos e humanos
Canídeos, felinos e humanos não partilham o mesmo gosto gastronómico. Os felinos têm um gosto requintado, um faro que lhes faz detectar à distância um alimento menos fresco. Caso a latinha gourmet tenha sido aberta pela manhã e os pedacinhos de atum com molho suculento repousem na baixela felina desde então e nos encontremos pela hora de almoço, o requintado nariz felino de tal dará conta: uma farejadela, um olhar para o dono e chamem a ASAE, se faz favor. Os felinos de cá de casa, todos os que tive, sempre foram distintos, selectivos e apurados nos gostos. Restos, seja do que for, não é com eles, carne esporadicamente, queijo fresco com reservas, já no camarão e sapateira jamais se fizeram rogados. Do meu lado direito há sempre uma pata que se estica até à anca, por vezes, com a unhita a marcar as carnes, e o olhar fixo, determinado e irresistível. Os felinos desprezam os meus dotes culinários. Não interessa quanto tempo, quais os ingredientes e o grau de proficiência e eficiência na cozinha, indiferença é tudo o que obtenho dos meus estimados bichanos, a menos que coza uma gambinhas, já se sabe, nada que exija dedicação de qualquer cozinheira. Os humanos frequentadores e residentes têm um gosto menos selectivo do que os felinos. Dispensam os pedacinhos de atum, ficam felizes não apenas com o camarão cozido e deleitam-se com iguarias várias: paella, amêijoas à Bulhão Pato, feijão tropeiro, cogumelos gratinados e outras comezainas carregadas de calorias. Os humanos não torcem o nariz e nunca chamaram a ASAE. Os canídeos raramente protestam. Se o osso for deixado de véspera, o que obtenho em troca são uns saltos pujantes, umas abanadelas de rabo e umas lambedelas até onde e se me deixo alcançar. Os ossos pequenos do entrecosto são deglutidos ao ritmo que os adultos saboreiam as tiras de milho, os ossos do cabrito levam um pouco mais de tempo, o que já não extensível aos pedaços de frango desossado, os responsáveis por uns saltos ainda maiores, mais abanadelas de rabo, tudo mais. Os canídeos, ao contrário dos felinos e na extensão dos humanos são apreciadores dos meus dotes culinários. Pude comprová-lo quando dei ao cãozinho meu vizinho as sobras de cordon bleu. Mesmo depois de ter sido aquecido no micro-ondas e de ter passado a noite num prato em cima do fogão, o cãozinho não chamou a ASAE, não torceu o nariz e parecia ter comido o manjar dos manjares, meu rico cãozinho, à velocidade da luz, mordiscadelas nos meus dedos incluídas, de modo que para a próxima que me abeirar dos tachos e panelas vou ter em conta tamanha consideração, cãozinho lindo, que é lá isso, cordon bleu retardado?
segunda-feira, 10 de março de 2008
Entre eles a história
A ela não interessava aquela parte da história. A ela interessava a estória da história. A história em que o rei tinha pegado nele e na corte, dez mil almas, estima-se, e com o tesouro, o ouro, a tralha e a traquitana atravessado o Atlântico para se instalar na mais rica colónia do Império. A ele não. Qual Brasil, qual calor, qual corte? A ela interessava a ideia romântica e divertida de ver a corte de Dom João VI passear-se nas farpelas circunspectas da Europa, desajustadas à canícula tropical, Rio de Janeiro afora. Disparates. Efabulações da mente feminina prenhe com vestidos de princesa. A ele interessava a guerra. A guerra era o que lhe interessava. Napoleão e o Império. Ela imaginava o Paço Real no Centro e o burburinho que se foi instalando na Rua do Ouvidor, porquê nem sabia, a mania da Rua do Ouvidor, mas essa era a parte que lhe interessava. A ele não. A ele interessava o Junot e o Massena, como vieram desenfreados Europa abaixo na conquista do Império. A ela interessava o Jardim Botânico, criado com enlevo pelo monarca, o beija-mão colorido com as paletas da diversidade brasileira, negros e brancos e mulatos e índios, o que restava deles. A ele interessavam as fardas e uniformes, os torços cobertos com alamares criando ziguezagues no peito e, enquanto vibrava com a progressão no terreno e a pompa dos uniformes, ela ria-se com Carlota Joaquina careca, despojada de trunfa e qualquer pilosidade capilar em virtude dos piolhos que lhe atacaram a cabeleira na travessia do Atlântico. A parte interessante da história dele acabava quando começava a dela e a dela não tinha uniformes nem guerra, a dele não tinha Brasil nem novos mundos. Dois caminhos paralelos sem nunca se tocarem. Quando ele chegou esbaforido com Junot ela aportava refeita da travessia tormentosa na baía de Guanabara. Não há estória com tanta história pelo meio.
domingo, 9 de março de 2008
Ruiva domingueira (2)
sábado, 8 de março de 2008
Olho grande
Deve ter sido por ter deixado em casa o meu patuá, vindo directamente do Bonfim da Cidade do Salvador desse meu Brasil brasileiro, que alguém viu uma aberta e zás, trás, pás, brindou-me com olho grande que me fez estar aqui em casa a braços com uma faringite, impossibilitada de ir à manifestação de professores.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Momento Houaiss (2)
- Olhem meninos, já sabem que não podem levar líquidos convosco...
- Sim
- Nem objectos contundentes.
- QUÉ ISSO, Setora?
- Objectos pontiagudos e potencialmente perigosos, por exemplo, tesouras, limas, corta-unhas...
-Ah!!!! Cortundentes, que cortam...
- Sim
- Nem objectos contundentes.
- QUÉ ISSO, Setora?
- Objectos pontiagudos e potencialmente perigosos, por exemplo, tesouras, limas, corta-unhas...
-Ah!!!! Cortundentes, que cortam...
quarta-feira, 5 de março de 2008
You effing animal
What I think marks out the Universal Eff-Off Reflex is contained in the name: it´s a reflex. It´s as if you touch someone lightly on the shoulder and snick snack, the next thing you know, your hand has been severed at the wrist. It is startling partly because it´s so primitive, so animal.
Lynne Truss, (2005), Talk to the Hand.
Lynne Truss, (2005), Talk to the Hand.
Diz a autora neste livrinho delicioso sobre os (des)hábitos de cortesia dos súbditos de sua Majestade que o Eff-Off se tornou num reflexo, ou seja, em momentos de crise, stress, contrariedade, dislate e desgoverno toca a sacar da eloquência que todas as línguas conhecem e zás, trás, pás, EFF OFF! E é isso mesmo, mesmo, mesmo, mesmo que me tem apetecido fazer aqui e ali, saturada do país e do mundo: atirar Effs-Offs por esse mundo afora e a quem me importuna. Isto a mulher, claro, porque a professora foi para o ginásio fazer umas passadeiras para se aguentar na caminhada de sábado.
As doze menos
Valha-me deus, alá e jah, Sinapse, nem eu sabia que me era tão difícil encontrar as doze menos, as que se não existissem falta alguma me fariam. Aqui ficam as famigeradas:
aleijar
chulé
cu
enervar/enervado
esposa
matrimónio
mormente
novamente
peúgas
realizar (no sentido de compreender)
retrete
vagina
Agora, com licença, vou ali ao lado vomitar...
aleijar
chulé
cu
enervar/enervado
esposa
matrimónio
mormente
novamente
peúgas
realizar (no sentido de compreender)
retrete
vagina
Agora, com licença, vou ali ao lado vomitar...
segunda-feira, 3 de março de 2008
Como os dias da semana
Se o contar não lhe falhava eram seis. Seis pares. Seis pares e mais um que tinha ido buscar aos cafundós da gaveta. Havia tempo que não lhe punha a vista em cima, e depois as meias, as normais, nem mais nem menos um par. Seis eram então, seis mais uma e, se a memória não a atraiçoava também, tal como o contar, a última vez que tinha feito uma máquina de roupa interior teria sido lá pelo início da semana, ora sete dias, sete pares. O sol aquecia-lhe as costas, contou de novo -detestava sol- na esperança de que estivesse um ou outro a menos, nunca a mais e muito menos em número exacto com os dias da semana. Nada ficara igual depois do fim-de-semana em que o filho trouxera os nórdicos para casa, a nórdica especialmente, com olhos azuis que nem farpas cravadas em tudo para onde dirigia o olhar. Nunca se deve ter olhos tão claros. A nórdica fazia jus ao estereótipo: alta, louríssima, de pernas infinitas, os olhos límpidos através dos quais se julgava ver os fiordes lá longe, o azul que parecia o céu, e o apetite de algo mais descontraído sem ser o trejeito maljeitoso de corpo hirto dos escandinavos quando se aproximam para um beijo. Além de cumprir o estereótipo tinha algo que a trazia mais a sul: as nádegas salientes sob as calças de ganga, indício de que o exercício físico era uma constante na sua vida e de que os glúteos faziam parte integrante dessa constante. Andaria talvez de patins pelos lagos gelados nas paisagens pintalgadas de branco e azul quando o sol escandinavo brilhava para acender a neve. Apanhara-o a olhar para a nórdica. Nada de mal, a nórdica era o pólo de exotismo à mesa, a cabeça como uma tocha que iluminava as restantes melenas acastanhadas, os olhos como pedras cristalinas. Também ela olhara para a nórdica e para o nórdico. Esperava, contudo, que o olhar não a tivesse atraiçoado e que não tivesse fulminado o pobre rapaz com o olhar com que o consorte brindara a nórdica quando se levantaram na mesa: o olhar de desejo que ela julgara até então estar-lhe reservado. Enganara-se pois. Depois daquele dia nada foi igual.
O sol não a largava, agudo como os olhos da nórdica, enquanto pendurava a restante roupa no estendal: camisas, toalhas, uma ou outra peça pequena e a soma regressou-lhe como uma facada: sete, como os dias da semana. A evidência que precisava para comprovar a tese de que depois da nórdica nada ficara igual e que além da nórdica, regressada ao seu país natal, havia uma, uma outra, a outra, já se vê, que o obrigava a mudar a roupa interior todos os dias. Não era ela. Não era a nórdica. Quem seria?
O sol não a largava, agudo como os olhos da nórdica, enquanto pendurava a restante roupa no estendal: camisas, toalhas, uma ou outra peça pequena e a soma regressou-lhe como uma facada: sete, como os dias da semana. A evidência que precisava para comprovar a tese de que depois da nórdica nada ficara igual e que além da nórdica, regressada ao seu país natal, havia uma, uma outra, a outra, já se vê, que o obrigava a mudar a roupa interior todos os dias. Não era ela. Não era a nórdica. Quem seria?
domingo, 2 de março de 2008
Ruiva domingueira (1)
sábado, 1 de março de 2008
Momento sitemeter (5)
A quem procurou barrigas femininas devo informar que no singular temos e que uminha chega.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
























