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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

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Setora, elas vão-se rir de mim…e eu disse não vão nada e ela continuou fazendo uma expressão condoída Vão, setora, vão dizer que é muito lamechas… Repeti que não iriam. A N. argumentou que não tinha um ídolo, uma celebridade que admirasse do mundo das artes e do espectáculo, da literatura ou cinema. Retorqui que não somos todos iguais e que no trabalho que lhes havia sido pedido não havia certo ou errado, tal como não são certas ou erradas as pessoas que amamos ou admiramos pelas nossas vidas. A escolha sobre quem e como iriam falar era absolutamente livre e sem a interferência da professora, minha, portanto. A N. não estava muito convencida, olhou os colegas que esperavam depois de algum suspense que ela apresentasse o seu trabalho e expectantes permaneciam suspensos entre as palavras que trocávamos e a revelação da personalidade em questão. A N. começou então por dizer que tinha quarenta e dois anos, com o rosto iluminado e o discurso pausado observando os rostos de colegas como barómetros fiéis da intensidade das suas palavras e assim foi ultrapassando em passo miudinho todos os receios iniciais. E continuou, dizendo que era gorducho, tinha barbicha e bigode, umas mãos rechonchudas com as quais lhe fazia cócegas, era bem-disposto e divertido, preocupava-se muito com ela e a irmã. Acrescentou que ele próprio se tinha ocupado de ambas, sem mais ninguém que o ajudasse na tarefa de educar duas crianças de tenra idade aquando do divórcio. Por tudo isto, o herói era o pai. Felicitei-a pelo trabalho e saímos as duas no fim da aula, cada uma arrumando os despojos do dia entre dossiers e mochilas, cada uma com o seu pai no coração.

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