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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Setenta e cinco anos de puro samba


Estão a ver aquela sensação de agonia, intranquilidade, desespero quando os filhos começam a reivindicar um direito consagrado nas vidas adolescentes e encetam uma luta sem tréguas para sair à noite ou para a noite? As cogitações inquietas e apocalípticas Onde andará? E se lhe acontece alguma coisa? potenciadas ao infinito caso a criatura fresca, cheia de tanta vitalidade quantas certezas da vida se atrase. Ai meu Deus! E se está aí numa valeta abandonado? E se bebeu ao ponto de se desconhecer a si próprio? Que aflição. Caramba. Pois. Nada disso me assiste, já que sou mulher sem crias, muitas vezes enfadada até ao vómito com as crónicas babadas de mães verdadeiramente encantadas, primeiro com o parto, há lá coisa mais linda de se relatar?, depois com os cocós e regurgitamentos dos leitõezinhos rosados que se lhes brotaram. Compreende-se o encanto, qual pigmalião,  pelo torrãozinho de carne, se assim não fosse algo estaria fundido nesse complexo sistema de que as mães são feitas, uma válvula, por lá, como acontecia com a televisão do meu pai à qual o sr. Machado acorria diligente, mas poupem-me a cocós de texturas e cores variadas, vómitos, assaduras, bolsaduras, raio de palavra, e outras coisas absolutamente dispensáveis na vida do comum dos mortais.
Não se pense contudo que sou mulher desprovida de preocupações. Ser filha desta mãe deixa-me também com cogitações várias e inquietações não menos variadas. A conversa começou algures com um convite que lhe fizeram e cuja aceitação lhe foi prontamente encorajada Mas tu queres ir? Vai, mamã! Aproveita! Diverte-te! A seguir veio o telefonema Olha, afinal vou! E depois a partida. Levo-a e vejo-a radiosa. Olha para ti, que linda! Responde-me com a gargalhada bem característica e espreito-a com dificuldade pelos vidros escuros da viatura que a leva, lentamente em movimento.  Diz-me adeus do lado de lá. Telefonou-me há pouco. Diz que não sabe muito bem quando vem. Quando der conta estamos na Páscoa e ainda sem me confirmar regresso.  Já a avisei para não aceitar nada de estranhos e estar sempre alerta, mas a minha mãe é alma tranquila que nunca vê mal nos outros. Sabe-se lá que perigos e tormentas terá ainda de enfrentar para regressar sã e salva. Esperemos pois. Ser filha de uma mãe rebelde tem muito que se lhe diga, ó se tem.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Por uma mãe

Há coisas que só se fazem pelas mães. Uma delas foi ter ido a Pádua ver as relíquias do Santo António, línguas e outros pedaços que me deixaram à beira do vómito. Há necessidade? Há necessidade alguma que se arranquem pedaços aos mortos para os expor? Não, não há, mas devota do Santo António e uma vez em Itália pela primeira vez, Veneza mais propriamente, havia que fazer escolhas para um dia ausente de programa e guardado criteriosamente para aquele lugar mágico, aquele que nos deixa uma chama miudinha e uma excitação quase infantil. Nesse longínquo início dos anos 90, quando viajar ainda não era apenas ir já ali, a escolha era quase a de uma vida, sabe-se lá se cá voltamos, e entre Verona e a varanda da Julieta que, como se sabe, é apenas mito que nos preenche o imaginário cheio de Romeus, Hamlets e outros chatos que arrumei no armário logo após a faculdade, e Pádua, Pádua falou mais forte e aventurei-me com a minha mãe para lhe proporcionar esse prazer e esse gosto num dia gélido de Fevereiro. Saí de lá com um bênção nos queixos, paga a um frade que cumpria na perfeição o estereótipo nada ascético no que respeita a hábitos alimentares e uma experiência única em que quase me raptavam a mãe em plena missa para ir pôr a mão a um túmulo sagrado, percebi depois. A contenda foi vigorosa e enquanto eu agarrava a mão à minha mãe e lhe dizia Mas onde é que tu vais no meio da missa, do outro lado uma italiana insistia em levá-la. Filha que é filha não larga a sua mãe na mão de estranhos, num país estranho e num lugar onde há pedaços de pessoas em redomas de vidro. Um alívio quando saí mas um enorme prazer por ter a ajudado a minha mãe a cumprir um desejo.
A outra coisa que fiz pela minha mãe é recente, tem cerca de mês e mete mais uma vez gente perecida ou quase. Chegados a um dia de semana depressa percebemos que não, que apesar de nada constar nos guias de viagem, o túmulo não estava aberto. As opiniões divergiam: o guia do tour pela cidade dizia que estaria fechado durante aqueles dias, o do tour do Kremlin que estaria fechado às quintas-feiras. Enquanto isso, pensava com os meus botões que não tinha ido a Moscovo para ver mortos, pobre do Vladimir. Três dias depois continuava fechado e no último dia, o ultiminho em que reservámos a manhã para contemplar por uma última vez a Praça Vermelha, eis que observámos uma fila ainda tímida que se ia formando no extremo da Praça, do outro lado das portas que Stalin mandou destruir para melhor passarem tanques nas paradas comemorativas do poderio soviético. E pronto, uma filha não abandona a mãe nas mãos daqueles russos, brutos, ai brutos como nunca se viu, e foi aí que o vi. Iluminado no meio de uma sala estava o boneco de cera mais famoso da História, Vladimir Ilitch Lenin, Владимир Ильич Ленин, em cirílico. Ainda a salvei quando em pelo mausoléu se lembrou de ir à caixa dos óculos para observar o dito cujo e levantou suspeitas nos marciais guardiãos.
E o que é não se faz por uma mãe?

Para a minha mãe que comemorou ontem mais um sorridente aniversário.  

sábado, 25 de setembro de 2010

Recostada na arte de viver

Certo dia, andava eu às carnes, salvo seja, no supermercado, indecisa entre as costeletas de borrego e o teclado de porco, oscilando entre as bifanas de porco preto e o bife da vazia quando a recentemente beata e dada às lides eclesiásticas se abeirou de mim. Tinha ficado sem o meu pai há algum tempo, não muito, mas o suficiente para saber que, apesar da dor e da ausência irreparável, o rochedo inabalável da minha adorada mãe continuaria firme e com vontade de levar a vida para a frente. Contudo, a morte de quem amamos é sempre um estigma para quem nos olha de fora. O constrangimento, o embaraço, a pena no rosto das pessoas. Desta feita, o ser beato propôs-me que a senhora minha mãe voltasse a dar aulas numa universidade da terceira idade. A minha sábia mãe, depois de uns quarenta e três anos de ensino e de dedicação absoluta à escola e aos alunos, decidiu que a escola para ela seria como o antigo slogan contra as colónias, e, se nem mais um soldado para Angola, nem mais uma aula para coisa nenhuma. Coisíssima nenhuma. Diga-se que a apoiei e apoio incondicionalmente nesta decisão e, portanto, quando a beata se me aproximou ente as carnes, cruzes credo, olha lá o pecado da dita, e me abordou, ainda não percebi esta aliança, igreja - santa casa da misericórdia - universidade da terceira idade – dadores de sangue, a resposta seria um rotundo não. E assim foi. Aos agradecimentos, cumprimentos e palavras agradáveis, informei que, pelo que sabia, a minha mãe não estava interessada, mas que lhe iria comunicar o convite naturalmente, ao que a beata respondeu Mas é bom, olha que faz bem, é bom para estas pessoas que estão encostadas, assim sempre estão ocupadas. E vem isto a propósito das recentes férias da minha mãe. Os telefonemas sucederam-se mas nunca numa base frequente, há mundo para ver e coisas para fazer Olha, estamos aqui em Vouzela, viemos comer um pastel. E depois A seguir vamos a Sul, e depois fomos aqui, ali e acolá. E a comunicação Ainda não sei quando vou. A última que recebi dela contava Aqui vamos no teleférico.
Encostada é vovozinha.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Acontece

Acontece que eu sou mulher comichosa e na minha condição de comichosa não só gosto com exijo saber o que me fazem ao corpo quando o entrego às mãos dos médicos, essa classe profissional a quem devem ter retirado o relógio assim que se estrearam na profissão. Podem mexer e remexer, dentro dos limites, é certo, conquanto me expliquem em que consistem as suas incursões.
Acontece que a minha mãe é rapariga menos comichosa do que a filha. Nesta sua condição está-se literalmente nas tintas para o que lhe fazem ou deixem de fazer os médicos desde que a tratem bem e rápido. Não quer saber e dispensa descrições pormenorizadas de procedimentos cirúrgicos.
Acontece que a primeira vez que ela foi ao oftalmologista ele fez um relato pormenorizado, consubstanciado e minucioso de todos os procedimentos que intentará um dia destes. Injecções para aqui, injecções para ali, dormências e imobilizações.
Acontece que há médicos que parecem ser feitos da mesma cepa, que terão lido na mesmíssima cartilha e que afinarão pelo diapasão comum. Foi por isso que na segunda visita ao médico, outro por sinal, se seguiu a repetição exaustiva da primeira descrição já de si pormenorizada. Injecção para ali, injecção para aqui, um pequeno hematoma provavelmente, caso apanhe um vaso, uma picadela aqui, ali e acolá.
Acontece, senhores doutores, que a minha mãe não quer saber. Quer ser tratada de forma profissional e competente, a ritmo acelerado e vir para casa quanto antes. Entendem? Podem, se faz favor, parar com as injecções, picadelas e hematomas? E já agora, arranjem um relógio, que o povo tem mais que fazer do que ficar horas a fio à espera que se dignem a chegar. Grata pela atenção.

domingo, 3 de maio de 2009

O oftalmologista da minha mãe

O oftalmologista da minha mãe é um rapaz de estatura média, de olhos iluminados e sorriso generoso que adora uma boa conversa e que discorre sobre escritores e leituras no lusco-fusco do seu consultório com as letras e símbolos por testemunha. O oftalmologista da minha mãe, outrora também do meu pai, é um ser sensível, de modos pausados e gentis, amigo da boa conversa e com memória de elefante. O oftalmologista da minha mãe tem um ritmo muito próprio que não se deixa intimidar com correrias e stress. O oftalmologista da minha mãe fala baixo com voz doce e tranquila em sintonia com a luminosidade crepuscular da sala. O oftalmologista da minha mãe não é apenas o oftalmologista da minha mãe. O oftalmologista da minha mãe é também o seu ex-aluno que solta a deferência e o carinho assim que a vê irromper pela penumbra do consultório. Acorre para a receber de sorriso generoso e enche-a de memórias E a Luísa lembra-se de quando escrevia no quadro os provérbios e ditados? E continua, sempre sorridente e atencioso, desenrolando as reminiscências, um parêntesis no tempo presente de clínico entre óculos e lentes, cataratas e glaucomas, o regresso ao aluno e à professora, e o tempo que adquire uma outra dimensão, suspenso entre letras e lembranças gratas e sinceras. O oftalmologista da minha mãe cruzou-se-nos hoje no caminho. Vinha esbaforido atrás dela, trazia a irmã, também ex-aluna dos meus pais, e ao paráramos para trocar cumprimentos e carinhos, acorreu a chamar os filhos pequenos. Com mão sobre o ombro de um dos garotos mostrou a sua professora Vês, esta senhora foi minha professora. O afecto, o respeito, a gratidão e homenagem num dia da mãe, provavelmente o mais belo dos presentes.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Quem não tem medo de Florbela Espanca

Das características que o meu pai me deixou como legado lamento não ter herdado a capacidade cirúrgica de não deixar passar uma gralha que fosse. Habituado e familiarizado com a língua portuguesa também por motivos profissionais tornou-se num guardião implacável. A meio das conversas, quando lia uma revista ou se lia um rótulo, aconteceu num duma garrafa de azeite e noutro de uma garrafa de vinho, a perspicácia aliada a muita prática saltava sem pedir licença. Acontecia, por exemplo, a incursão ao prontuário a meio do almoço ou do jantar, uma busca rápida nos dicionários na estante do corredor entre a sopa e a sobremesa, o prato principal que seria debatido ainda ao café e cuja digestão se prolongaria pela tarde e noite fora, dias, meses e anos se fosse preciso. Às vezes pergunto-me como seria se me lesse o blogue, os alqueires de vírgulas a colocar, as alterações que sugeriria no seu jeito único, Tens ali uma coisita, bem, não sei, mas eu, se fosse a ti… Era então chegada a altura para eu me afirmar, Pois, mas eu gosto assim. Isso que dizes não é a mesma coisa. Regularmente ficaríamos ambos naquilo que um e outro fazíamos melhor um com o outro, ou não fôssemos tão parecidos na afirmação dos nossos pontos de vista: teimar irredutivelmente para ficar inabalavelmente no mesmíssimo lugar. E caso a genética me tivesse bafejado não haveria por aqui gralhas ou imprecisões. Não bafejou infelizmente. Podia ter-me levado a irredutibilidade nos pontos de vista a troco de umas vírgulas e rigor, até porque não só o meu pai era um velador devoto da língua. A minha mãe é uma zeladora atenta. Nada passa em branco. Digo-lhe Já leste a crónica desta semana? Já. Gostei muito, mas, olha, tens lá uma vírgula a mais... ou uma letra a menos ou a mais. Há sempre algo a faltar ou a sobrar. Desta vez não foi a crónica. Desta vez estava eu em frente ao computador, algures pela hora de almoço, a ditar um soneto de uma conceituada poetisa portuguesa a uma amiga, quando soou o alerta da pontuação Vírgula? Eu não punha aí uma vírgula. Desatenta à leitura que eu fazia e do que fazia, ouvindo apenas a minha voz, a minha mãe continuou Tantos pontos de exclamação? Ó Florbela Espanca, para a próxima que te puseres a escrever sonetos pergunta aqui à minha mãe que ela dá-te uma ajudinha com a pontuação, sim? Tanto ponto de exclamação, mulher. Havia necessidade?

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A primeira ou mais nenhuma

A filha chega a casa da mãe. Arremessa à entrada da porta o cansaço matinal, a ladainha de irritações, a pilha de desilusões acumuladas, fecha a porta apressadamente não vá a decepção fazer-se convidada para o almoço e entrar inadvertidamente pela frincha da porta. A filha chama Mami! A mãe não responde à filha. A filha ouve a mãe ao telefone. A filha pressente pela voz da mãe Algo não está bem. A filha ouve a voz da mãe algo inquieta, não era bem furiosa, não era bem irritada, não era bem zangada, mas algo não estava bem. A filha pensa Aconteceu alguma coisa, enquanto a voz da mãe se mantém assertiva e inflexível. A filha sabe Algo aconteceu. A filha inquieta-se Que será que aconteceu? A filha, sempre com a voz da mãe em fundo, inicia a confirmação de uma lista de possíveis energúmenos capazes de provocar na mãe o estado presente de inquietação. A filha pensa Quem foram os animais desta vez? A filha assume Foram os parvalhões dos colchões. A filha reitera Foram os anormais do clube de viagens. A filha enfurece-se Bem, se foram aquelas bestas a dizer que o Papá ganhou uma viagem outra vez… A filha conclui Se forem aqueles estúpidos é desta vez que apresento queixa na Deco. A filha tem a certeza Ai apresento, apresento, onde já se viu inquietarem a Mamã, onde já se viu ligarem para casa das pessoas a dizer que o Papá tinha ganho um sorteio como se andasse entre nós, o meu querido e saudoso Pai. A filha pragueja Estúpidos, parvalhões, bestas, anormais. A filha tem a certeza Ainda me passo e é desta que os mando abaixo de Braga três vezes. A filha sabe Ai mando, mando. A filha ouve a mãe com atenção, talvez descortine algo. A filha apura o ouvido Ora deixa cá ver, deixa cá ouvir bem… A mãe está a terminar a conversa, mas o tom de voz não muda, o tom de voz exprime a indignação. A mãe diz ao telefone. Agradecia, agradecia se faz favor. Obrigada. A mãe desliga o telefone. A filha pergunta aflita Mamã, o que foi, aconteceu alguma coisa? A mãe continua com o semblante carregado. A mãe responde Então não é que fui comprar A Viagem do Elefante, o último do Saramago... A filha responde Sim, eu sei e pensa E depois, mamã? Que te fizeram? Quem foi o energúmeno que te aborreceu? A mãe continua O livro saiu ontem. A filha concorda Pois foi. A mãe conta a história Comprei-o na livraria. A filha implica Mas que mania de ir àquela livraria, Mamã, já sabes como eles são. A mãe retorque Não é nada disso, foram até muito simpáticos. A mãe conclui E depois fui tomar café com a Dinha. A mãe remata E quando chego a casa vejo que o livro é a segunda edição. A filha pergunta E então, mamã? A mãe arremessa-lhe Uma segunda edição? O livro saiu hoje. Eu quero a primeira edição. Ora essa. A mãe não cede Não quero este. Quero a primeira edição. A filha põe água na fervura Mas se calhar esgotou, Mamã. A mãe não se dá por vencida, era só o que faltava Não esgotou nada, eles é que mandaram a segunda, diz-me a menina que para aqui só mandaram a segunda edição. Admite-se? Para a província mandam a segunda edição. Não quero! A filha acrescentou mais um elemento à sua lista de energúmenos em quem desancar, pegou nas chaves e ei-la a caminho dos distribuidores e livreiros. Uma segunda edição? É preciso ter lata. Onde já se viu.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

de A a Z

Abnegada, activa, altruísta, amável, amada, amiga, apaixonada, aventureira, bem-disposta, bem-humorada, bibliófila, carinhosa, compreensiva, conversadora, convicta, companheira, crítica, curiosa, dedicada, descontraída, desenrascada, desempenada, destemida, determinada, devotada, directa, disponível, divertida, enérgica, espontânea, exigente, faladora, fantástica, forte, generosa, genuína, hospitaleira, incansável, inconformada, independente, infatigável, informada, ingénua, inigualável, inteligente, interessada, intrépida, irrequieta, íntegra, jovem, jovial, justa, leal, leitora, líder, livre, luminosa, lutadora, mãe, mulher, notável, obstinada, ouvinte, perseverante, positiva, professora, querida, recta, refilona, respeitada, respeitadora, rija, risonha, sábia, sensível, sincera, sonhadora, sorridente, teimosa, transparente, única, viajante, voluntariosa, zeladora, zelosa.


Parabéns, Mamã!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Filha babada

Mãe e filha concordaram. O vestido preto ficaria em casa para a ocasião e aquela de que não se pode dizer o nome, cruzes canhoto, mesmo que já tivesse desaparecido do estendal, não veria dia tão solene, onde andará tal bicho. Mãe e filha puseram pés ao caminho. Mãe e filha escolheram uma roupinha elegante e sóbria. Mãe e filha estavam em uníssono. Nada de cores estridentes nem padrões exuberantes. A mãe foi ao cabeleireiro. A filha amanhou a trunfa em casa. A filha foi buscar a mãe. Os vizinhos da filha olharam-na quando saiu de casa, surpreendidos com o aprumo para um dia de feriado municipal. Onde iria assim vestida? O genro pôs gravata e vestiu fato. Onde iria tão garboso? A filha ainda deu uma ajeitada na mãe. A mãe não precisava de ajeitadela alguma. Manias da filha, já se vê. Em dia grande de grande homenagem, a mãe irradiava a felicidade e grandeza dos quarenta anos na arte de ensinar todos e bem receber qualquer um no regaço generoso. A ajeitadela desnecessária como chapéu de chuva em dia de estio. Qualquer roupa teria ficado bem. Quando a alma refulge são dispensáveis ornamentos. Mãe e filha chegaram mesmo em cima da hora. A mãe havia de sentar-se na segunda fila, com a filha ao lado com o genro ao lado, demais convidados um pouco atrás. A filha estava nervosa. A filha escondeu da mãe que estava nervosa. Quando as palavras começaram, a mãe deixou cair uma lágrima emocionada. A filha engoliu as lágrimas emocionada. A filha esteve sempre ao lado da mãe excepto quando a mãe foi chamada para ser agraciada pelas mãos de um ex-aluno, agora homem maduro ao leme da terra que a mãe adoptou e que lhe retribuía neste dia. A mãe agradeceu entre o sorriso e as lágrimas as palavras sentidas do seu sempre aluno, agora homem feito e grato. A filha ficou orgulhosa, babada, feliz, exultante. A filha ficou comovida com as palavras que homenagearam a mãe. A filha veio para casa lutar com as palavras. A filha queria que elas contassem exactamente como foi. A filha procurou palavras. A filha vasculhou canhenhos de vocábulos vários. A filha deu por encerrada a busca. A alma da mãe não cabe em palavras e o reconhecimento não se transcreve em vocábulos. As palavras que fiquem para amanhã.
imagem: minha
foto: Sónia

terça-feira, 22 de abril de 2008

O seu a seu dono

A filha entra em casa. A filha cumprimenta a mãe. A mãe está na cozinha. A mãe cumprimenta a filha. A filha espreita para a marquise, mistérios insondáveis, logo a marquise. A filha vê estendida casualmente uma echarpe salmão. Em tempo de Primavera tudo sai à rua, intui a filha. Mãe e filha almoçam. A mãe está preocupada. O vestido preto. Sempre o vestido preto. Preto com preto não. Muito pesado. Credo. Pensei levar a echarpe. Diz a mãe. Qual echarpe? Aquela echarpe? Aquela na marquise? Pergunta a filha. A mãe responde. Sim, aquela. A filha inquieta-se. É tua? Pensei que fosse da Dinha com aquelas cores. Que ta tivesse emprestado. Não. Responde a mãe. É minha. Foste tu que ma deste. A filha encanita-se. Eu que ta dei? Mas algum dia eu te dava uma echarpe laranja?! A mãe responde. Quem mais me poderia dar aquela echarpe? Foste tu! A filha desespera-se. Eu? Mas eu, por acaso, ia dar-te uma coisa daquela cor? A mãe retorque. Foi antes do Papá morrer. A filha retorque. E então? Mesmo assim. Algum dia vestes aquelas cores? A mãe dá-lhe. Quem mais, se não tu, ia oferecer-me aquilo? Ainda estava embrulhado num papel de seda. A filha dá-lhe. Mas tens a certeza? A mãe contra ataca. Não tenho a certeza mas só podes ter sido tu. A filha vai à marquise. A filha olha desolada para o presente maldito. A filha abana a cabeça. A filha está desolada. A filha põe uma voz esganiçada. Eu? Eu é que te dei aquilo? A mãe reafirma. Não podia ter sido mais ninguém. A filha entra em desespero. A filha barafusta. A filha diz-se inocente, incapaz de oferecer à mãe algo que lhe assentaria desajustado, as cores estridentes. A filha conclui. Portanto, quando não sabes quem te ofereceu algo, fui eu? A mãe reincide. Foste tu, só podes ter sido tu. Quem mais? A filha responde. Sei lá eu. Eu é que não fui. A filha cogita e alvitra. A mãe reafirma. Foste tu. A filha vive em estado de ansiedade. A filha receia as arrumações sazonais ao guarda-roupa, cómodas e gaveta. A filha receia que a mãe se depare com peças de vestuário inusitado de tempos passados, esquecidos e ultrapassados, echarpes salmão, por exemplo. A quem acham que a mãe vai atribuir a existência de eventuais monos órfãos de presenteador? Teme-se o pior.

domingo, 20 de abril de 2008

O Grito do Ipiranga

De carro? Como de carro? De carro sem mais ninguém? Só tu? E se fosses de comboio ou de expresso? Há expressos a toda a hora e são rápidos. Há necessidade de ires de carro?! É só malucos na estrada. Nós levamos-te lá. É perto. Vamos num instante. Passam a vida a dar acidentes na televisão e nas notícias. Ainda hoje morreu uma mulher num acidente horrível. Não és tu, são os outros, o problema são os outros desencabrestados que por aí andam, sem respeito por ninguém. A estrada está cheia de loucos desvairados. Eu é que sei a aflição em que fico até chegares. E o tempo? Olha que temporal e tu por essa auto-estrada fora sem ninguém. Nem consigo descansar. E se acontece alguma coisa? Mas que mania. Não percebes que eu fico preocupada? Ligas-me, assim que chegares? Sim, filha, ligo-te logo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Fritos da época

Naquela segunda-feira de Carnaval ficou claro o que a minha mãe apregoara pouco tempo depois da sua reforma: reformara-se, concomitantemente com o uso de relógios e a leccionação de mais uma hora lectiva que fosse – como a compreendo e apoio-, das línguas estrangeiras.
Daquela vez em que na compra de uns sapatos no país vizinho, a que fomos parar por via duma encrenca da companhia de aviação, a teima incidia sobre as cores dos ditos sapatos, ainda se julgou que, dado o adiantado da hora e cerca de apenas dez minutos disponíveis para comprar o líquido das lentes de contacto que ficara na mala de viagem num terminal em Barajas - os sapatos saltaram-nos aos caminho- o recurso ao português se dera por via das contingências. Quando em Budapeste em pleno Mercado de Natal, o português surgiu de novo, como resposta pronta ao magiar que recebeu de troco juntamente com as moedas, não havia muito mais dúvidas perante o óbvio que ela própria assume: o fim irredutível das línguas estrangeiras como meio de comunicação. Naturalmente, a minha mania de tentar arranhar quase tudo o que é língua veio facilitar esta decisão da minha mãe e, portanto, é comum o recurso a esta vossa serva das letras para deslindar mistérios vários ou apenas contendas mínimas. Vai lá tu. Pede isto aquilo ou aqueloutro. Pergunta quanto é. No caso dos sapatos não foi necessária a minha intervenção, de resto, eu própria tinha um par para comprar, a coisa resolveu-se pacificamente. Na questiúncula sobre o troco em forints naquele Dezembro menino, dispensaram-me de novo, mas no que respeita à manhã ensolarada desse Fevereiro carnavalesco na provavelmente mais bela praça e cidade da Europa, não só recorreram a esta vossa escriba, como lhe imploraram a intervenção e, já se sabe, o que é que uma filha não faz por uma mãe? Uma filha faz tudo pela mãe e o tudo pode implicar o pedido de um frito que houvéramos visto repetidas vezes pela Sereníssima, incluindo uma boa dúzia de anos atrás em Burano no dia em que corremos atrás do mais improvável meio de transporte que se alcança dando corda aos sapatos: o barco. Nesse tempo a minha mãe ainda não se tinha reformado das línguas estrangeiras e tudo correu sem incidentes. O mesmo não foi válido quando naquela manhã límpida de céu azul sem réstia de névoa ou cinzentude, depois da visita à Basílica de São Marcos e da subida à Campanile, sentadinhos na Praça de São Marcos, a minha mãe viu passar os fritos, os ditos e desejados fritos, no remate de uma das mais belas manhãs de viagem. E quem? Quem havia de ser escolhida para formular o pedido ao empregado, bem aprumado e de sorriso e modos condizentes com o tempo abençoado? Aqui há os fritos que a tua mãe quer... Portanto, saca aí do italiano, que é tão bom como o castelhano e o castelhano tão bom como o de todos os portugueses. Ora frito, frito, frito? Fri… qualquer coisa. Quando o empregado chegou, pedi-lhe triunfante Una frittata di carnevale, com os salamaleques adequados ao local e, claro, o homem questionou Ai queres una frittata? Una frittata, é isso que queres? Fritelle! Fritelle di Carnevale! E isto com um sorriso largo e bem-disposto, que se repercutiu nos meus companheiros de jornada, também eles muito divertidos. Quando a conta veio, dois fritelle di Carnevale, três cafés, muita beleza e acalmia, muita fantasia de Carnaval e muito sol depois a iluminar-nos como à praça, ficou claro que no Quadri os erros linguísticos pagam-se caros, mas nessa altura, a minha mãe que se reformou para as línguas estrangeiras, acorreu para pagar a multa da sua menina, que uma quantia assim, valha-me deus, alá e jah, além de dar para fazer fritos para a vizinhança inteira, só pode ser multa.

Praça de São Marcos, Veneza
foto: minha

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

À atenção dos transeuntes, amigos e visitantes

O que é que uma mãe não faz por uma filha? Tudo, certo? Pois o que uma filha faz por uma mãe não anda muito longe do que o que a progenitora se permite pelo seu rebento. Primeiro o diminutivo. Nonô? Sim? Lembras-te de quando puseste o fisalis no blogue? Lembro. E lembras-te que apareceu logo alguém a dizer que conhecia? Sim. É que podias pôr lá no blogue a fotografia daquele arbusto lá de baixo... Arbusto? Qual arbusto? Arbusto lá em baixo? Ninguém sabe o que é aquilo. Credo, estarreci. No blogue, blogue? Valha-me deus, lá se me vai a reputação. Aquilo é um blogue de respeito, onde já se viu pôr uma fotografia do arbusto, mamã? Vai parecer os classificados de um pasquim qualquer. Ora essa. E, ainda por cima, perguntar às pessoas se conhecem? Aqui a risada sonora e descomprometida da minha mãe, literalmente divertindo-se com o meu constrangimento. E a conversa retomada Eu já provei, mas não faço ideia do que será. Provaste? Provaste tipo comer, digerir, deglutir? Provar provar? Provei. Mas o jardineiro já me disse para não provar mais. Diz que pode ser venenoso. Meu rico jardineiro. Homem sábio. Estou capaz de lhe erguer uma estátua pelo desgosto a que me poupou de ver a minha mãe envenenada com os frutos do arbusto sem nome, movida pela curiosidade de restituir a identidade ao arvoredo desenfreado. E antes que a minha progenitora se lembre de ir provar outra vez os frutos do arbusto incógnito ou de nos obrigar a provar o dito como faz ao almoço Quer um bocadinho? aqui fica o apelo. Amigos, transeuntes, leitores leais e dedicados e visitantes, algum de vós faz alguma ideia do que será aquele bicho frondoso aqui em baixo? Ajudem uma filha desesperada. O que uma filha não faz por uma mãe.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Parabéns, Mamã!

Hoje a mãe mais aventureira, risonha, faladora, companheira, amiga, leal, generosa, viajante, intrépida, incansável, prestável, linda do mundo faz anos: a minha, claro!
Parabéns mamã!

foto: minha

sábado, 24 de março de 2007

A balzaquiana

Há coisas que uma mãe não deve dizer a uma filha.
Atravessávamos a secção de roupa masculina, vindas da roupa de desporto. Vou atrás de ti disse a minha mãe Nunca sei para que lado é a saída. Entretanto, pôs-se-lhe ao caminho uma camisa laranja suave e disse O Hélder devia gostar desta camisa… Concordei, sim, era a cara dele. E depois a conversa retomou onde tinha parado antes da camisa, do zigzaguear entre os expositores de roupa estival e da curva para as escadas rolantes. Mas porque é que não compraste aquilo? inquiriu Porque ficava com a barriga à mostra respondi. Ressalve-se que a barriga à mostra se referia apenas a uma tarja da mesma proeminência abdominal. A minha mãe respondeu Ora essa, e qual era o problema? Esclareci Menina, já não tenho barriga para mostrar, resignada com a força da gravidade. A minha respeitosa progenitora atirou-me Olha lá, tu não andas sempre a ler literatura brasileira? O que é que diz o Vinicius de Moraes sobre as mulheres? A pergunta ficou suspensa. Lembrei-me que também o meu pai fazia referência a Vinicius quando se falava de barrigas femininas e que sempre foi apologista de que uma barriguinha dá um certo encanto às mulheres. De resto, o meu pai, homem de outras eras, sempre defendeu afincadamente a existência de curvas no corpo feminino. A minha mãe continuou Sim, o que é que ele dizia? E além disso as mulheres de 40 anos, as balzaquianas… BALZAQUIANAS? Sim, as mulheres de 40! esclareceu, isto para que não subsistisse a menor dúvida. Íamos a descer na escada rolante, amparei-me o melhor que pude no corrimão tão rolante quanto as escadas e ameacei-a que me precipitaria nas mesmas, caso continuasse a aplicar-me o epíteto, não por desrespeito ao Balzac, deus o tenha em descanso, mas porque, subitamente, olhei-me como nunca antes. Ainda hesitei em acusá-la a uma mulher que subia as escadas e quase se cruzava connosco, filha e mãe trocando palavras literatas entre Vinicius e Balzac.
A balzaquiana desceu as escadas com a sua mãe na sua nova condição. Ambas vieram para casa. A balzaquiana chegou a casa e fez queixas ao marido em frente à mãe A minha mãe hoje tratou-me mal… O marido quis saber da mãe Então hoje tratou mal a sua filha? A mãe da balzaquiana riu-se a perder, gargalhou e ripostou Coisas dela, só lhe chamei balzaquiana… A balzaquiana soltou um som, algures entre o gemido e a histeria Só?! A mãe da balzaquiana riu-se mais uma vez. O marido acrescentou Ah, isso são coisas que se chamem à sua filha?! A balzaquiana não viu, mas sabe que o marido terá dado uma piscadela de olho cúmplice à mãe da balzaquiana. A balzaquiana entregou-se à sua lamúria peganhenta. Saber-se para lá das quatro décadas era já de si um facto tortuoso com que lidava diariamente entre o espelho e as calças de ganga, o contorno dos olhos e as ancas. Assumir-se como balzaquiana um pesadelo. A balzaquiana reparte agora os seus dias esperando, rogando a deus, jah, alá e aos orixás que jamais a mãe lhe cite Vinicius de novo, senão correrá o risco de que ela lhe diga, quando, um dia, a balzaquiana estiver a perder-se por um desses cremes milagrosos contra as imperfeições irremediáveis que sim, que compre, Compra, compra, filha, mesmo não adiantando muito, é que Vinicius também dizia As muito feias que me perdoem mas beleza é fundamental.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Mãe 1- Filha 0

Manda o bom-senso, o respeito e o amor filial que não se sobrecarreguem os progenitores com tarefas pesadas, árduas ou desconfortáveis. Tento seguir estes mandamentos auto-impostos. Mãe é para ser poupada. Está, pois, aconselhada por prescrição caseira a não aturar ladainhas alheias, a evitar ultrapassar-se a si própria para socorrer os demais e proibida de dar conversa aos energúmenos que a toda a hora e momento lhe tentam impingir seja o que for pelo telefone.
Digamos que quando se tem uma mãe como a minha nem todos estes princípios são passíveis de ser postos em prática. Imaginem mãe e filha às compras num desses antros de consumismo. Mãe ou filha adquirem algo: livros, CDs, uns sapatos ou uma peça de roupa. Irrelevante para o que se segue. A mãe é menos jovem do que a filha, como se sabe, ou não seriam mãe e filha. A filha é uma rapariga preocupada com a mãe. Faz o quê? Carrega os sacos, sem esforço algum. Errado. A mãe agarra-se vigorosamente aos sacos. A filha também. Uma pega de um lado, outra do outro Dá cá! Não. Eu levo, mamã! Mas ó filha se não me custa nada… Mas que teimosa… Mas é para veres melhor, argumenta a mãe. A filha não desiste, ou não fosse filha de uma senhora teimosa e de um senhor obstinado. A mãe, mesmo sendo mãe de uma rapariga persistente, não desiste de igual forma e ambas se digladiam publicamente pela posse de um saco de plástico.
Hoje, por exemplo, a única vez em que consegui ter o saco em meu poder foi quando a senhora minha mãe levou os seus livros a Luís Sepúlveda para serem autografados. Chegada a sua vez, disse-lhe apenas Mamã, não vais com esse saco enorme..., subliminar chantagem de pacotilha Não vais apresentar-te perante um escritor de renome com um saco dessa natureza e sem demora Zás, agarrei-o. Uma vez em meu poder, regressou o duelo Dá cá, Mas não me custa nada… Mas para que é que hás-de ir pesada? Mas assim nem consegues ver nada! Certo é que ver é manifestamente insuficiente na relação que as mulheres travam com os objectos do seu desejo consumista, há que mexer também sempre. A vitória seguinte foi dela, claro, e se bem me lembro, aconteceu quando me perdi com o último DVD do Chico Buarque. Enquanto o imaginava de olhar cristalino meio perdido no tempo, a pele morena e os gestos tranquilos, flanando por Lisboa e Budapeste, flanando também eu por lugares recônditos e ocultos, a minha mãe agarrou-me no saco, aproveitando-se-me da ausência fugaz do espírito e desatenção do corpo. Nos homens não se pode confiar nunca, mesmo que venham trancados numa caixa espalmada e comprimidos num disco. Mãe 1 - Filha 0.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Das grandes invenções

Quando um dia chegar a minha hora e o barqueiro me levar para o outro lado do rio, por favor, ponham-me post-its no bolso. É que sem post-its não sou ninguém e nunca se sabe o que vou encontrar na outra margem. Cá em casa há de todas as cores e tamanhos, portanto. Aqui, mesmo ao meu lado direito, ao alcance da mão, uma pilha de coloridos, quadrangulares, para as eventualidades, no estojo que carrego comigo para a escola uns menores e mesmo na mesa-de-cabeceira não faltam dos transparentes mais estreitos para assinalar passagens nas leituras nocturnas antes de me abandonar nos braços de Morfeu. Este meu gosto é também partilhado pela minha mãe, muito embora ela seja bem mais selectiva e a sua preferência recaia sobre os estreitos transparentes. Um destes dias de consumismo, ela fez uma descoberta que irá mudar a sua relação com os guias de viagem e com o próprio viajar em si: um marcador transparente com um porta post-its incorporado. Desde já um instrumento tão útil como a máquina fotográfica, imprescindível como o passaporte, indispensável como a escova de dentes, e que não poderá faltar em viagem alguma doravante.
A minha mãe é uma amante indefectível de livros. Ama-os, respeita-os, acarinha-os, ouve-os, lê-os, estou certa que falará mesmo com eles e as páginas se reescreverão neste diálogo. Com ela e com o meu pai aprendi este respeito e veneração. O meu pai não entendia sequer por que havia de se estragar o livro com o nome do seu proprietário, cioso da integridade dos livros. Com ele aprendi a nunca mas nunca escrever a tinta nos livros, a não dobrar as páginas para marcar a leitura, a virar as páginas, folheando-as suavemente pelo canto superior e a tacteá-las docemente para não ferir o papel. Assim se foram transmitindo os mandamentos de manuseamento de livros, e mesmo não os respeitando na íntegra, uma vez que gosto de escrever o meu nome nos meus livros, tenho-os sempre comigo, muito embora o H. me acuse, a espaços, de os maltratar particularmente quando os vê escachados sem pudor exibindo as entranhas para o scanner.
A minha mãe é seguidora destes mesmos princípios, excepto no que diz respeito aos guias de viagem. Não que os trate mal, não que lhes escreva a esferográfica, não que lhes dobre os cantos ou cometa outras heresias mas a quantidade de sublinhados a marcador transparente para assinalar o que quer ver, o que viu, como e quando viu, porque viu e o que ainda falta ver, assim como a panóplia de post-its coloridos que descaem levemente das páginas na horizontal e se eriçam do topo das mesmas na vertical tornam os seus guias em verdadeiros espectáculos de luz e cor. Antes de irmos de férias entreguei-lhe um dos meus guias, de forma a que fosse seguindo o itinerário. A minha mãe é uma respeitadora inflexível e intransigente da propriedade alheia, jamais deixaria um traço em livro que não fosse seu ou tocaria em algo que não lhe pertencesse. Disse-lhe na pressa da partida Toma, é para ti! Sem explicações nem delongas. Quando cheguei o guia já era outro. Os locais por onde deambulámos entre caipirinhas e coqueiros reluziam ufanos e o guia, mesmo em casa, tinha viajado pelas mãos intrépidas e mente curiosa da minha querida mãe. Ao ver o meu olhar, respondeu tranquila tu disseste-me Toma, é para ti! Ripostei É para ti ver, não para ti escrever. Ela riu-se como sempre e eu com ela como sempre. Foi isto antes do marcador maravilha, nem imagino como irá ser depois.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Filha galinha

A conversa regressou mais uma vez. Aqui há uns meses atrás a minha mãe ligou-nos como habitualmente. Estava bem-disposta e anunciou que ia passar um fim-de-semana fora com uma amiga. Queria apenas comunicar-nos e pedir a nossa opinião. Na vida da minha querida mãe só me meto para a proteger desses perigos imensos lá fora e, portanto, foi com enorme satisfação que senti nela vontade de ir. Depois vieram os pormenores. A amiga tinha ganho um fim-de-semana no Algarve, desses que saem nos sorteios. Muito bem. E que sorteio foi esse? indaguei. Sei lá, foi um desses sorteios duma agência de viagens respondeu-me tranquila Mas de agências de viagens como? A minha mãe reafirmou a sua tranquilidade Não sei, sei que ela ganhou e que me convidou. Não fiquei convencida. Também eu tinha sido ofertada com um desses fins-de-semana e sabia que vigarice se escondia por trás Mas que coisa foi essa, mamã? e a minha mãe Ó filha, não sei. Sendo comum o aliciamento de cidadãos incautos para fins menos lícitos nestas histórias de clubes de viagens, comecei a ficar apreensiva e avisei Vê lá o que isso é, mamã, ainda vos vão vender um colchão ou um faqueiro… a minha mãe tranquilíssima A mim não vendem eles nada, quero lá saber que queiram vender, eu não vou comprar. O pragmatismo da minha mãe é proverbial e lacónico. Assim foi ao longo da nossa vida e muitas vezes é motivo de risada. De resto, rir é um exercício que repetimos com regularidade. As escolas do riso para atrair o bom humor e atitude positiva ficariam à míngua de clientela, caso dependessem de nós para o sucesso, quando muito ainda éramos raparigas para lá dar umas aulinhas.
A apreensão da nossa parte, minha e do H., foi-se adensando à medida que os dias decorriam, sendo mais que óbvio, que sim, que se tratava dum daqueles clubes de viagens manhosos que impinge aos papalvos este mundo e o outro de viagens mediante o pagamento mensal de uma avultada quantia. Agora nada havia a fazer, a amiga tinha ido na canção do bandido, e nada mais lhe restava fazer, se não aproveitar o dito fim-de-semana a sul. Pela hora do almoço o H. perguntou-me Olha lá, tu não querias ir arejar? Podíamos ir este fim-de-semana ao Algarve… A minha mãe não se conteve e entre risadas fortes disse Mas ouçam lá, acham que eu não sei tomar conta de mim? continuando o riso convulsivo e ironizando com a preocupação da filha que trouxe ao mundo. Claro que sabes retorqui O problema não és tu. O problema são esses pantomineiros do inferno que te podem burlar… Não se deu por achada. Vocês estão tolos? Burlar como? Já te disse que não vou comprar nada, se eles quiserem vender, azar o deles. O fim-de-semana chegou e a minha querida mãe foi espairecer para o Algarve, rindo-se das crias apreensivas. Veio leve e com uma corzinha. Matou saudades e venerou a memória do meu querido pai no promontório onde ele costumava pescar em verões já muito passados. Fiquei naturalmente feliz por ela e calma por não ter tido que pôr os homens na ordem por causa do faqueiro ou o do colchão.
Hoje surgiu a possibilidade de ela participar num convívio dos colegas de liceu. Encorajei-a pois claro, e teria encorajado ainda mais, caso o dito convívio não implicasse uma viagem de trezentos e tal quilómetros, que ela insiste em encetar no seu Rocinante de quatro rodas, por esse Portugal fora cheio de doidos inconscientes a suicidarem-se nas estradas. Ofereci-me para a lá levar e a risada voltou, o gargalhar divertido. Que sabe muito bem ir sozinha, que não há problema e, mais uma vez entre risos, perguntou Então agora onde é que me deixas ir de carro? A Torres Vedras, posso ir? E às Caldas da Rainha? E a Cascais posso ir? E a Lisboa? É que eu já vi que há um perímetro… tudo rematado com uma gargalhada sonora. É muito difícil ser-se filha de uma mãe rebelde.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Santo António

A minha mãe é devota do Santo António. Acredito, por isso também, que o mês de Junho é para mim mês de Lisboa. Nasci em Lisboa, nasci em Junho, sou uma amante confessa da poesia de Fernando Pessoa, também nascido em Lisboa, também nascido em Junho e Santo António é para mim de Lisboa e de Junho.
Uma ocasião, estando eu e a minha mãe em Itália e havendo apenas uma tarde disponível, oscilámos perante duas visitas distintas, uma de carácter mais literário: Verona, para ver a célebre varanda de Julieta e recordar o amor maior e trágico cantado pelo poeta maior, a outra de carácter religioso; Pádua, para peregrinar e homenagear Santo António de Lisboa, sepultado em Pádua. É sabido que não se dá por provado ser aquela a varanda de Julieta Capuleto e mais sabido ainda que a fé é por vezes maior do que a literatura, portanto, depois de amplamente discutido e negociado, decidimos visitar Pádua. Em verdade se diga que a insistência ocorreu mais por minha parte e que ainda hoje a minha mãe diz que me ficou a dever a varanda da Julieta. Sinto-me feliz por lhe ter proporcionado esse gosto. No amor não há deve e haver.
Na verdade, não faço questão de visitar altares do mundo. Lourdes não me diz nada, rigorosamente nada. Fátima idem. Roma é absolutamente sumptuoso, mas em rigor confesso que em nada tocou a minha já parca devoção religiosa. Pelo contrário. Enquanto a minha mãe e o H. se detinham nas explicações da guia sobre a capela Sistina, eu fui espairecer pelo Pátio da Pinha, no Vaticano. O meu humor matinal é canino, nem sei mesmo se não estarei a ofender os nossos fiéis amigos, e portanto, todo aquele fausto logo pela manhã, causou-me uma irritação inominável. Passeei, pois, na esperança que dissipasse e pensava com os meus botões, um apenas, era quanto tinha, se eles não teriam, por acaso, vergonha de tanta ostentação. Como diria o meu pai Vamos lá ser razoáveis, caramba! Cheguei à conclusão que não, vergonha não mora ali, até porque o mais recente titular da cadeira de Pedro destaca-se pelos sapatos Geox, óculos Rayban e farpelas de renome. Ainda hesitei em pedir ao guarda o livro de reclamações. Entrei e saí das lojas de lembranças e fui tirando chapa aqui, chapa ali, com os sentimentos em ebulição, observando as pessoas e o movimento para afastar ressentimentos. Quer tudo isto dizer que não sou, pois, a mais fervorosa das criaturas e que por mais que procure a minha vocação religiosa, a minha fé, não consigo senti-la, encontrá-la, muito menos nestes locais. Quando ela não mora em nós, não morará em lugar algum.
Esta visita a Pádua teve como objectivo único acompanhar a minha querida mãe na sua devoção pelo Santo de Lisboa. Mesmo antes da entrada na Basílica e em frente da mesma os postais contrariavam a condição benta do local. Rabos, maminhas e piadas jocosas escarrapachadas em postais confrontavam a entrada para o santo templo. Estranhei. Depois entrámos e depois verifiquei que também lá dentro muito se vendia, se trocava por dinheiro, por dinheiros, e aviso desde já que esta mistura entre o vil metal e as artes eclesiásticas me provoca uma repulsa visceral. Nesse dia de Fevereiro em Pádua, verifiquei que para ver as relíquias do santo tinha de se pagar um extra, assim fizemos, já que lá estávamos, embora a náusea pelas ditas continue a persistir sempre que o episódio me vem à memória. Bocados de língua? Blergh. Saímos da área das relíquias e numa das capelas laterais estava um frade. Perguntou-nos, enquanto admirávamos a abóbada e a nave Che cosa volete? Volete una benedictione? Entreolhámo-nos e teremos, terei pensado bem, isto mal não deve fazer... Venha ela, portanto. E ela veio, palavra cá, palavra lá, água benta aqui e acolá e logo após a mão estendida, não-sei-quantas mille lire faz favor. Como não aceitava devolução, outro remédio não tivemos senão, mesmo ali, junto ao altar-mor, às relíquias de Santo António e na casa do Senhor, restolhar nos porta-moedas, contar as mille lire e, sem mais, pagar a bênção, o que me caiu muito mas muito mal. Alguém lhe tinha pedido alguma coisa por acaso?
Acredito que na vida pouco mais existe além dos afectos. São eles que me movem, que me fazem levantar todos os dias, sorrir e chorar, que me ergueram dos confins, que me ajudaram a equilibrar a vida e a morte e são eles que hoje me fazem recordar este episódio. Só me resta agradecer ao Santo António, portanto.