Estão a ver aquela sensação de
agonia, intranquilidade, desespero quando os filhos começam a reivindicar um
direito consagrado nas vidas adolescentes e encetam uma luta sem tréguas para
sair à noite ou para a noite? As cogitações inquietas e apocalípticas Onde andará?
E se lhe acontece alguma coisa? potenciadas ao infinito caso a criatura fresca,
cheia de tanta vitalidade quantas certezas da vida se atrase. Ai meu Deus! E se
está aí numa valeta abandonado? E se bebeu ao ponto de se desconhecer a si
próprio? Que aflição. Caramba. Pois. Nada disso me assiste, já que sou mulher
sem crias, muitas vezes enfadada até ao vómito com as crónicas babadas de mães
verdadeiramente encantadas, primeiro com o parto, há lá coisa mais linda de se
relatar?, depois com os cocós e regurgitamentos dos leitõezinhos rosados que se
lhes brotaram. Compreende-se o encanto, qual pigmalião, pelo torrãozinho de carne, se assim não fosse
algo estaria fundido nesse complexo sistema de que as mães são feitas, uma
válvula, por lá, como acontecia com a televisão do meu pai à qual o sr. Machado
acorria diligente, mas poupem-me a cocós de texturas e cores variadas, vómitos,
assaduras, bolsaduras, raio de palavra, e outras coisas absolutamente
dispensáveis na vida do comum dos mortais.
Não se pense contudo que sou
mulher desprovida de preocupações. Ser filha desta mãe deixa-me também com cogitações várias e inquietações não menos variadas. A
conversa começou algures com um convite que lhe fizeram e cuja aceitação lhe
foi prontamente encorajada Mas tu queres ir? Vai, mamã! Aproveita! Diverte-te!
A seguir veio o telefonema Olha, afinal vou! E depois a partida. Levo-a e
vejo-a radiosa. Olha para ti, que linda! Responde-me com a gargalhada bem característica
e espreito-a com dificuldade pelos vidros escuros da viatura que a leva,
lentamente em movimento. Diz-me adeus do
lado de lá. Telefonou-me há pouco. Diz que não sabe muito bem quando vem. Quando
der conta estamos na Páscoa e ainda sem me confirmar regresso. Já a avisei para não aceitar nada de estranhos
e estar sempre alerta, mas a minha mãe é alma tranquila que nunca vê mal nos
outros. Sabe-se lá que perigos e tormentas terá ainda de enfrentar para regressar sã e salva. Esperemos pois. Ser filha de uma mãe rebelde tem muito que se lhe diga, ó se tem.



