Páginas

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Palavras proibidas

Na minha escola há duas palavras proibidas. Na minha escola há duas simples palavras, poderosas e inesquecíveis que se tentam a todo o custo esborratar, manchar, apagar, até que desapareçam da cabeça mesquinha das mentes obscuras e ignorantes. Pobres de espírito não sabem que os escritores não morrem e viverão muito depois de apagadas as palavras da porta da escola. Na minha escola há duas palavras pronunciadas a custo, ditas com raiva e ódio, envoltas na beatice das hóstias, améns e padres-nossos, bentas criaturas mais preocupadas em denegrir o semelhante do que praticar Cristo e do mundo limpo de pecados. Na minha escola há duas palavras para matar. Espezinhar. Esborrachar debaixo das solas fedorentas como se faz a baratas imundas. Na minha escola há duas palavras que se desrespeitam pelo esquecimento forçado, pelos quadros que se encafuam em arrumações, letras tão convenientemente esquecidas na azáfama da ostentação oca e provinciana. Na minha escola há duas palavras que o mundo respeita. Na minha escola recozem-se ódios antigos e conservadorismos bafientos. Na minha escola escondem-se os vestígios do que fomos para que sejamos outros. Na minha escola há duas palavras proibidas. E contudo, viverão. Sempre.


fotografia minha: Exposição "A Consistência dos Sonhos"

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A escola zul cueca

Quando um dia me tiraram do sério, tinha chegado havia poucos meses à escola onde estudei e de onde tinha saído para sete excelentes anos no Superior, e elevei a voz e disse quase tudo o que tinha a dizer a quem me traiu e trucidou uma amizade que contava à altura com vinte e um anos, prometi a mim mesma que não mais me apanhariam noutra. Obviamente não porque me julgue imune a traições futuras, embora duvide que se repitam com aquela dimensão, mas porque, uma vez expressa a minha indignação, passei a ser olhada de lado, um estigma que me perseguiu, às vezes acho que ainda persegue. E doeu. E não é pelo estigma que tomei a decisão de engolir indignações sucessivas, embora a solidão dos anos seguintes não tenha sido a mais fácil, mas pela parte de mim por que agradeço que ninguém me pegue, o orgulho. Não me ouvirão mais assim. Ora dito isto, andava já no meu quinto ano após este episódio, quando ao chegar à escola pela manhã, e era segunda-feira, avisto algo estranho. Cruzei-me com aquele objecto curioso uma série de vezes, tinha um ar antigo, antigo digno de antiquário, a patine de anos, décadas passadas, encerrava em si uma parte da História. Ficou na Escola, aquando da criação da mesma, uns dois ou três anos antes do vinte e cinco de Abril, quando era ainda a Secção do Liceu D. Pedro V, e foi deixada pelos padres, já que a escola foi instalada num antigo Seminário. Esta que terei de apelidar de minha escola, como se sabe, foi uma das intervencionadas pelo Ministério da Educação, no programa de Requalificação das Escolas. Enquanto o povo não se coibiu em ais de admiração pela ostentação de um espaço que pouco me serve e que nada me diz, fui e continuo céptica, não sei se é uma costela germânica, uma parte de pragmatismo, a racionalidade dos Gémeos ou tudo junto ou apenas eu. Nessa mesma segunda-feira, anteontem portanto, a minha voz ergueu-se e bradei aos céus quando vi o feito. Não é que pegaram no bengaleiro dos padres, uma peça de museu, um pedaço da História da escola e o pintaram de azul cueca para melhor condizer com a #$%&;/” da escola nova? E não é que pintaram uma cómoda e outro armário igualmente vetustos? Instalada a indignação culpa-se o arquitecto. Foi ele, diz que foi ele. Portanto, assim vamos, pintam-se os móveis antigos de azul cueca, azuel cueca, ouviram bem, para condizerem com as portas, os rodapés e os azulejos da escola nova. Pintemo-nos todos. Estou até a pensar em ir de azul cueca à inauguração da escola para não destoar ainda mais. E foi aí que a minha voz se ergueu.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Milagre!

Consegui requisitar um projector e o auditório. Não sei se agradeça à Senhora da Nazaré ou abra uma garrafa de espumante.

Vantagens da República (2)

Não ter de suportar a Maria Cavaco Silva até dar uma coisinha ao Cavaco Silva. São só mais cinco meses de Capadócia e fatiotas do Fundão.

Vantagens da República (1)

Não ter de aturar Cavaco Silva até lhe dar uma coisinha. São só mais cinco anos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Recostada na arte de viver

Certo dia, andava eu às carnes, salvo seja, no supermercado, indecisa entre as costeletas de borrego e o teclado de porco, oscilando entre as bifanas de porco preto e o bife da vazia quando a recentemente beata e dada às lides eclesiásticas se abeirou de mim. Tinha ficado sem o meu pai há algum tempo, não muito, mas o suficiente para saber que, apesar da dor e da ausência irreparável, o rochedo inabalável da minha adorada mãe continuaria firme e com vontade de levar a vida para a frente. Contudo, a morte de quem amamos é sempre um estigma para quem nos olha de fora. O constrangimento, o embaraço, a pena no rosto das pessoas. Desta feita, o ser beato propôs-me que a senhora minha mãe voltasse a dar aulas numa universidade da terceira idade. A minha sábia mãe, depois de uns quarenta e três anos de ensino e de dedicação absoluta à escola e aos alunos, decidiu que a escola para ela seria como o antigo slogan contra as colónias, e, se nem mais um soldado para Angola, nem mais uma aula para coisa nenhuma. Coisíssima nenhuma. Diga-se que a apoiei e apoio incondicionalmente nesta decisão e, portanto, quando a beata se me aproximou ente as carnes, cruzes credo, olha lá o pecado da dita, e me abordou, ainda não percebi esta aliança, igreja - santa casa da misericórdia - universidade da terceira idade – dadores de sangue, a resposta seria um rotundo não. E assim foi. Aos agradecimentos, cumprimentos e palavras agradáveis, informei que, pelo que sabia, a minha mãe não estava interessada, mas que lhe iria comunicar o convite naturalmente, ao que a beata respondeu Mas é bom, olha que faz bem, é bom para estas pessoas que estão encostadas, assim sempre estão ocupadas. E vem isto a propósito das recentes férias da minha mãe. Os telefonemas sucederam-se mas nunca numa base frequente, há mundo para ver e coisas para fazer Olha, estamos aqui em Vouzela, viemos comer um pastel. E depois A seguir vamos a Sul, e depois fomos aqui, ali e acolá. E a comunicação Ainda não sei quando vou. A última que recebi dela contava Aqui vamos no teleférico.
Encostada é vovozinha.

Coisa fofa

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ide-vos lixar

Quinta-feira. Uma e meia da tarde e uns pozinhos. Entro em casa aliviada e com a sensação única de poder finalmente sentar-me depois da manhã inteira de aulas e de pé e aguçar o dente para um opíparo arroz de feijão com umas pataniscas de bacalhau, o delírio para o meu colesterol e para as minhas malfadadas ancas. O telefone toca. Um número do Porto reincidente nos últimos tempos. A voz nortenha do lado de lá pede-me para falar com a minha mãe. Nada de novo. Resposta negativa. A seguir pede para falar com o genro. Resposta negativa. Nenhum dos dois se encontrava presente. Afirmo, Só pode falar comigo. Sou a filha. A voz do lado de lá eriça-se impaciente e atira-me Mas porquê? Ora, eu sou rapariga furiosa quanto a incursões não autorizadas na minha vida privada e familiar. Não conhecendo o animal de voz feminina do lado de lá e entendendo que não tenho de prestar contas a ninguém, rigorosamente a ninguém, sobre o paradeiro de ambos, quer estejam a banhos nas Caraíbas ou terem ido buscar as minhas adoradas pataniscas e acrescendo o facto de desconhecer por completo a credibilidade do bicho do lado de lá, respondi-lhe com o bom humor que me é característico quando me erguem a voz e dei-lhe com um Desculpe mas não tenho de lhe justificar a minha vida privada e não lhe vou dizer porquê. E não é que a voz, habitueé cá por casa em pedir dinheiro insistente e inoportunamente para os desvalidos, tem a distinta lata, o topete, a arrogância de se me atirar e verborrear sobre faltas de educação? Avisou que iria desligar o telefone ao que lhe respondi  Pois é isso mesmo que eu quero. Assunto encerrado. Aguardam-se novas incursões mas garanto que da próxima vez não serei meiga com as palavras e, já que é normal que no mundo do futebol se atirem impropérios, pode ser que também o passe a ser por aqui, e reformule o eufemismo do título. Não há paciência.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dezassete minutos na vida de uma mulher

Dezassete. Número cabalístico. Número ligado à matriz deste local: dezassete freguesias, dezassete anos a construir o Convento, o biorritmo, seja lá o que isso for, é o dezassete, dezassete degraus para a Basílica, e dezassete coisas mais, tentativas por exemplo de D. João V engravidar a sua real esposa no seu real leito com uma cópula real mas não uma real cópula, outras tantas escapadinhas à Madre Paula em Odivelas e por aí fora. As duas últimas são da minha autoria mas com tanta estorieta, também eu tenho direito à minha. E regressemos aos factos: dezassete freguesias e dezassete locais de poso para a santa da devoção aqui do pedaço, a Nossa Senhora da Nazaré. Ora, a Nossa Senhora da Nazaré funciona como um calendário oculto e mais um motivo para o fado, é que nunca se sabe se da próxima vez cá estamos. Os lamentos surgem sempre e repetidamente, podiam até ser cantados em loas, vila fora, e quando regressa a santa o povo descansa de alívio com os dezassete anos vividos mas choraminga-se, lamuria-se, chora-se e lamenta-se, porque os dezassete vindouros são a incógnita e trarão certamente demónios indomáveis. Há lá coisa melhor? Façamos, portanto tudo por tudo para receber a imagem mínima de mais uma representação da mãe de Cristo. Ele é fatos novos, ele é vestidos novos, chapéus e farpelas, ele é cavalos e charretes, ele é dinheiro gasto a rodos para se ser mordomo, juiz e outras hierarquias socialmente relevantes para os festejos, que se dane o povo com fome se se pode passear ufano e imponente pelas ruas da vila nos cortejos da santa.
E como Portugal não deixa de ser Portugal lá porque a Senhora da Nazaré visita a freguesia, houve um quid pro quo, uma alteração no percurso da procissão que, para minha imensa aflição, se lembrou de passar à porta da senhora minha mãe, rapariga pouco dada a sacristias mas crente em coisas que não creio. E manda a tradição que se ponha uma colcha à janela ou duas ou três ou quatro. Assim sendo, houve que cortar caminho do centro da vila até casa da minha mãe, apressar o passo, espreitar se lá vinha o cortejo, apurar o ouvido para cornetas e bombos, e subir rapidamente para salvar a honra da senhora minha mãe, ausente em parte certa, a gozar o prazer de ter um livro para ler e não o fazer. A colcha. Era a colcha. Faltava a colcha. Ora, fiz contas E onde é que ela guarda as colchas? O tempo urgia, a procissão de beatos, tementes, crentes e curiosos aproximava-se e eu, impotente e desolada com a incapacidade de salvar a janela da nudez absoluta e a honra da minha progenitora que o povo leva isto a sério e lá se ia a reputação, quem sabe lhe lançariam uma fatwa. E que colcha? Que colcha mais? A da cama, já se vê. Pega de um lado, pega do outro, janela aberta e pronto, já está. Ei-la engalanada para a ocasião solene. É que daqui a dezassete anos não sei se os bicos de papagaio, as cruzes, o bucho virado e outras enfermidades me permitirão a veleidade de acarretar com a colcha.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um livro é um livro

Manifesto

É que não são só as palavras, não é apenas o miolo, não conta simplesmente o diálogo entre as personagens e o leitor, por vezes entre o escritor e o leitor. Não é o que se lê, o que sente, o que emociona e enfurece. É o objecto. As centenas de páginas agarradas umas às outras, as capas coloridas, o cheiro, sim, um cliché, eu sei. O texto na contracapa, as palavras insossas nas badanas. O prazer de o abrir e espreitar. Um livro não é apenas palavras. Um livro é uma companhia. E são muitos os que me acompanham casa fora. Os que repousam caoticamente no chão ao lado da minha mesa-de-cabeceira, os que me colorem as estantes cá de casa, os que se espalham por aqui e ali. E depois o prazer. A procura. Os momentos em frente das estantes Estava aqui, guardei-o aqui, tem de estar por aqui. A tranquilidade de horas a folheá-los na senda do excerto perdido, a curiosidade dos minutos à procura de uma novidade entre as páginas, a certeza de se encontrar sempre algo novo. A partilha Olha aqui, o que encontrei. E as memórias Este comprei-o em Salvador, lembras-te? Um pedaço de história de vida encerrada em páginas e lombadas carinhosamente preservado como testemunho de momentos felizes Foi o primeiro livro que comprei no Rio. Os presentes e quem os ofereceu. São os autógrafos dos escritores,as letras desenhadas à sombra dos jacarandás com o Tejo em fundo. E andar com eles na carteira ou entre os dossiers. E são isto os livros. São as dedicatórias. O meu nome bem legível na primeira página, data e local, a marca indelével de posse e a afirmação de território São meus. E isto jamais poderá ser substituído por uma geringonça electrónica. Isso não são livros. Esses não serão nunca os meus livros.

sábado, 18 de setembro de 2010

London calling

Eu sou muitas e, nas muitas que sou, tenho sido assaltada amiúde pela viajante turista inquieta que em mim habita e que não me deixa descansada a menos que o meu outro eu que alberga estas almas múltiplas esteja doente, o que felizmente é ocorrência bianual. Tendo em conta que já esgotei a minha quota para o ano que corre lesto a caminho do fim e que o sol me tem iluminado a alma, dou por mim em viagens sortidas, como se fossem um saco de rebuçados de fruta, que sabor vou escolher hoje?, e com uma vontade incontrolável de sair daqui para fora, ver outras cores, sentir outros cheiros. Ir. Partir.
E assim faria, caso me bafejasse o tempo. Apanhava um avião em Lisboa, tenho um problema grave de enfado instantâneo com viagens de carro e rumava a Londres, o sabor eleito do dia. Tirava uma tarde ou uma manhã para me afogar em livros na Hatchard´s ou na Waterstone´s de Piccadillly. Acho até indecente alguém idealizar e ter aberto ao público uma livraria de seis andares de livros, seis, nada mais, nada menos. Seis andares repletos de livros a cheirar a novo, ainda com o perfume de recém-chegado da impressão, as páginas invictas, as capas sem amolgaduras ou vincos, coroadas como o autocolante mágico 3 for 2, a perdição absoluta para bibliófilos bulímicos, outra das múltiplas que me inferniza o juízo, e para qualquer carteira comum.
Abandonava a livraria a contra gosto, é sempre assim, provavelmente chamada insistentemente Anda!, quem sabe arrastada metaforicamente pelas melenas, Anda lá! e fazia pés à estrada, aconchegada em casacos e cachecóis, atafulhada em luvas e mitenes em camadas como casca de cebola para afugentar o frio. Descia Whitehall de encontro ao Big Ben, atravessava a Westminster Bridge e largava-me margem abaixo até à Tate Modern apenas para tomar um café ou mais provavelmente um chá acompanhado de um muffin de chocolate, na varanda em frente ao Tamisa. E aí ficaria enrolada no meu cachecol, o tempo subitamente suspenso, a vê-lo passar indiferente como todos os rios, majestoso com uma grande parte dos que beijam algumas capitais europeias. Do outro lado Saint Paul’s Cathedral e os turistas com formiguinhas trabalhadoras em vai-vém sobre a Millennium Bridge, há algo de estranhamente magnético naquela ponte.
Ficaria até me começar a gelar o nariz embalada na música da cidade em fundo para descer ao andar térreo e fazer-me à rua mais uma vez. Atravessava a Millennium Bridge, apanhava o Metro e eis-me em Covent Garden para sentir o bulício da tarde a cair, gosto de bulício do fim de tarde e da agitação de cidades policromáticas. Um passeio a pé com passagem em Charing Cross e uma espreitadela na Blackwell´s, há sempre um livro em falta, e uma olhadela a Leicester Square. Talvez agora fosse tempo de tomar uma cask ale num pub, passar em revista as vistas percorridas pelos pés e pela alma e entreter-me com mapas e caderninhos.
Ao outro dia, Portobello Road, não há Londres sem Portobello Road. Deixar-me encaminhar pela multidão em peregrinação e meter o nariz em tudo o que é banca para me inundar de rebuliço, aromas e cores e o resto do dia para fazer exactamente o que me passasse pela cabeça, talvez uma espreitadela ao Museu Britânico, morro de amores pelo Great Hall e pela Pedra da Rosetta. E assim seria. Sem a pressa de quilómetros a calcorrear ou checklists de símbolos para preencher. Apenas eu e a cidade para rever e redescobrir.



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Ah é verdade...

e também não há projectores, há dois, doizinhos, para a escola toda. Viva o Choque Tecnológico!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Blá blá blá

Lindo. Maravilhoso. Desde que no fim do ano passado começaram as obras na Escola que um dos argumentos para o que nos esperou durante o tormentoso ano a acarretar com livros de ponto, computadores, projectores, leitores de Cds e os habituais manuais, era de que a escola iria ficar bem equipada. Linda. Maravilhosa. Nova. Bem equipada. Na verdade, estive-me literalmente nas tintas para o argumento. Tendo alguma dificuldade em projectar-me no futuro, aquele presente pareceu-me pesado e longo. As caminhadas quase sem intervalos entre os edifícios que nos restavam e o campo de jogos onde tinham sido plantados os moderníssimos monoblocos, com chuva e frio, e se choveu no Inverno passado, a ameaça da Gripe A, a vigilância constante de espirros e tosses, diarreias e febres não me tornou na mais optimista das criaturas embora tivesse feito o que qualquer alma pensante faz: esperado até que passasse e dado alento aos queixumes dos alunos desanimados. E à medida que as obras avançavam os ais de admiração ecoavam por aqueles que sentadinhos com os burocráticos rabos em cadeiras burocraticamente requintadas se espantavam pelo andamento das obras e os resultados que só elas veriam. Eu por mim, continuava a acarretar tudo às costas, a correr entre edifícios e monoblocos para recolher e devolver livros de ponto, e absolutamente cega perante tão maravilhosas maravilhas da arquitectura escolar e que trariam a luz às pobres almas cegas e cansadas preocupadas com a tarefa de fazer e dar o seu melhor para que os alunos não saíssem prejudicados com o alvoroço. E este ano redobraram-se os ais e os uis perante a obra acabada. Ai que bonita está a tua escola! A escola ficou espectacular! E tudo isto estaria tudo bem, mesmo resvalando na minha carapaça de rapariga céptica, se uma vez chegada à Escola não me tivesse deparado com salas mais pequenas do que antes, salas onde não conseguirei circular entre os alunos para os ajudar e o ambiente se torna pesado de tantas almas a respirar, a sala de professores é exígua para tantas almas ensinantes, o gabinete não tem uma única janela que se possa abrir para o exterior e para cúmulo, quando vinha lampeira para casa e me dei à extravagância de pensar Eh pá, amanhã vou pôr os putos nos computadores para fazerem um quiz e procurarem informação e blá blá blá, seguiu-se um corropio de actividades possíveis prenhes de eduquês a cuja descrição vos poupo, e me abeirei deste bicho de que vos escrevo e esbarrei com as maravilhas da escola nova: não há salas com computadores disponíveis naquela hora. Nem hoje nem amanhã nem depois nem depois de amanhã nem na próxima semana nem no próximo mês ou período. Nada. Niente. Nicles. Regressarei pois ao bom e velho manual, às vetustas fotocópias, aos métodos caducos de dar aulas. Belo choque tecnológico. Belas obras. E é por isso que não quero saber das obras e da escola nova. Dêem-me condições e depois falaremos. Até lá continuarei a não querer saber.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Beginnings

Foi hoje. Pela fresca, o aroma de Verão logo na saída de casa. Nada que me abençoe mais os dias e me acalme a alma. Sou verão. Sou sul. Sou calor. A janela aberta e as notícias do dia. Mick Jagger canta-me algo ao ouvido. Um belíssimo presságio para este ano ainda menino e que carrego no colo com carinho. E depois chegar. Oito e vinte marcava o relógio no meu pulso inequivocamente bronzeado pelos dias de estio. Entrar e admirar a escola renovada que tantos gostam em alardear, as maravilhas do que se vê por fora, o sentimento tão portuguesinho de ostentação sempre tão presente em nossas vidas. Diz que é tudo novo ou quase. Não quero saber. E lá fui. Ajeito a saia. Estou bem assim? O estômago mais aliviado do que o habitual, nada de nervosismos mesmo sabendo que iria encontrar caras novas e que também deste primeiro encontro dependeria grande parte dos próximos nove meses, quem sabe mais nove depois. Olás e sorrisos sinceros. Um rodopio de alunos e professores à descoberta do seu novo poiso. Foi hoje.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Divagações de uma professora após um conselho de turma

Há gente que nunca foi adolescente, nunca fez disparates, nunca faltou a uma aula. Uns tristes, portanto.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Back


Punta Allen, México

fotografia minha

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sempre

Naquele dia foi diferente. Naquele dia ia bem-disposta, acompanhada duma amiga e, quando lhes dei passagem uns metros antes da passadeira, brincou e disse-me Nós é que estamos erradas… Ora merecem tudo, respondi e rumei para a tarde estival que se adivinhara na tarja de mar brilhante e céu azul. E nesse mesmo dia apaguei por momentos um outro encontro fortuito que distaria daquele um mês apenas. O semblante carregado, a roupa escura e a mágoa tão presente mesmo volvidos quinze sobre a morte do seu filho num acidente estúpido, uma vida de vinte e três anos colhida numa madrugada gélida de um Outubro que havia de se espelhar em todos os meses vindouros dos anos que se seguiram. E estranhamente infeliz naquele dia, questionei Está de luto? Olhou-me com os olhos que eu vira tão bem naquela manhã de Outubro e noutras que se seguiram de sofrimentos mudos expressos apenas no olhar silencioso e respondeu Estou sempre. E recolhi-me nas ausências que me enchem o coração. A vida continua, tento convencer-me.
O momento tão serenamente violento arrumou-me as palavras naquele dia. Mas ouço-as. E sinto-as. Estou sempre. O luto que se instala e que ninguém vê. Os momentos de ausência, do que já não está, a ausência de ti, meu pai, de te contar a vida. E já não são os espaços que deixaste, não o sofá vazio, agora principescamente usurpado por um felino imponente, que como tu, passa pelas brasas, lembras-te? Agora és tu. Agora é chegar aos sítios mais ridículos e pensar O papá é que me comprava pêssegos grandes, ser outra vez a tua filhota, igual se com quatro décadas e meia de vida, a tua filhota sempre, e ficar com a voz embargada, Ridículo, que ridículo, chorar por causa de uns pêssegos. E esconder os olhos com os óculos de sol e engolir as lágrimas. A vida continua, diz-se, a vida continua, eu sei. E rio-me, sou feliz, bem-disposta, arrumadas as lágrimas e varrida a ausência. E sim, é tudo verdade, a vida continuou sem o meu pai, cinco anos volvidos sobre o dia em que a morte o libertou daquela cama de hospital. Há vida, há esperança, há felicidade, mas uma parte de mim ficou de luto, uma parte de mim está sempre de luto, uma parte de mim ficou de luto para sempre.


Para o meu pai.