Gostava de vir aqui escrever um post sobre coisas bonitas e fofinhas, sacar daquela citação do pobre Fernando Pessoa que afinal não era dos castelos e pedras e afins, mas não. O Governo apesar de me roubar todos os meses não consegue controlar a dívida pública, vá-se lá saber porquê, ontem houve bordoada na manifestação, sarrafada a uma jornalista que estava a fazer aquilo que os jornalistas fazem e a rapariga, apesar de dizer 'interviu', não merecia, ninguém merece este país presentemente, depois da bordoada de ontem, o Público põe na capa um homem patusco, não se passa nada, portanto, e eu estou atolada em números, raios os parta, alunos de calculadora em punho a verificar, reverificar notas e números até ao milionésimo centésimo décimo, não há paciência, paciência nenhuma, e farta de grelhas de excel e tenho de fazer dieta que estou volumosa e rotunda e isso não é bom. Hoje não tenho boas notícias. Muito boas notícias, digamos, há sempre coisas bem piores evidentemente, mas temo que esta seja a tendência Primavera/Verão 2012. E Outono/Inverno 2012/2013. E por aí fora. Onde é a porta de saída?
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sexta-feira, 23 de março de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Crónica de uma desobediência anunciada
Sou uma alma solar, embirro com
dias cinzentos e convenço-me que esses estados de alma sombrios são uma
extensão de dias infelizes sem sol. Se me levantasse da cama e ficasse em casa
de portadas fechadas, protegendo-me do sol e do calor, já teria saído de faca em
punho para dizimar o que se me cruzasse neste ímpeto devastador. Não porque não
goste do coxo e do cego que cruzam a rua ou odeie a Frida Kahlo das carcaças, a dona da padaria ou o Jesus Cristo da aldeia que
também faz ruas mesmo em dias de frio. Nada disso. O frio e a falta de luz
trazem ao de cima a fera que há em mim, a medusa hedionda, sim, o cabelo ajuda
muito, o golum aterrador e nesse território medonho, nas catacumbas da alma,
nada há que possa cheirar o dia ou ser acariciado por um raio de sol. Acontece
que hoje apanhei muito frio. Está frio, dir-me-ão, é Inverno, já se sabe. Pois
sabe. Neste meu humor solar até tolero dias cinzentos e frio, mas se e apenas
se for na rua. Um cachecol, umas luvas, mais uma camisola e um casaco quente e
posso até ser feliz. Se por um acaso estiver além fronteiras onde o frio é mais
generoso, serei até muito feliz porque a libertação de um sítio diferente e a
janela aberta sobre um outro mundo e linguajar são por si só condição
suficiente para que arrume os demónios nas profundezas. Hoje não estive na rua.
Tudo teria sido mais fácil e este texto sem sentido. Estive cinco horas num
frigorífico, de cachecol, uma camisola extra, um casaco quente e um frio
descomunal. Às terças-feiras é sempre di de casaco extra, o mais quente que
tenho e que me faz parecer o abominável homem das neves em versão fêmea e
morena de um metro e sessenta. E onde andei, perguntarão? Ora, pois claro na
minha moderníssima escola azul-cueca, lá onde é tudo moderno, tão moderno que
hoje até tinha uma mulher descascada no ambiente de trabalho do computador.
Isso sim, mas aquecimento central a funcionar, zero. Diz que há por lá um
berbicacho. Pois há, há sempre um berbicacho desconhecido que nos atormenta os
dias. E pronto, era só isto. Logo agora que o Primeiro-ministro disse que o povo tinha de ser menos piegas nada como este texto para o comprovar. Ninguém disse que eu era
obediente. Se disserem que eu sou desobediente provavelmente obedecerei com
mais um post. Piegas é a tua tia, ó Passos Coelho. Não digas asneiras, porra!
Estantes e gavetas:
ai portugal portugal,
posta restante,
vidinha
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A improbabilidade de uma escola feliz
No meu tempo de escola, a vida
era muito tranquila. Os professores faltavam e alguns faltavam muito, outros
bastante e outros nunca. Como agora. Esperávamos todas as santas aulas pelo
abençoado segundo toque que nos aliviaria de aulas de modorra e tédio, sem
visualização, powerpoint, projectores ou quadro interactivos. O professor
falava, os alunos ouviam. Esqueçam motivação e interesse. Ir à escola era
aprender e ninguém disse que aprender era divertido e engraçado ou fácil. Naquele tempo
não era. Quando os professores faltavam era-nos dada toda a liberdade. Lembro-me
de ficar no pátio a apanhar sol, na conversa com os colegas, maldizendo a adolescência,
os chatos dos professores, provavelmente a incompreensão dos pais, a soltar
gargalhadas sonoras e estridentes salpicadas com a inconsequência da condição
púbere ou ainda a catrapiscar os rapazes, meu deus quantas paixões secretas e
contidas, ou ir ali ao café do lado fazer isso mesmo, ir ao café do lado: esticar as pernas, dizer disparates, respirar o ar húmido que se nos agarrava ao corpo e soltar os cabelos à sombra do convento. Tudo
sem culpas ou recriminações. Livres, portanto.
Nesse meu tempo de escola, faltar
à escola era apenas isso: faltar à escola e eu no meu tempo de escola também
faltei às aulas sem que mal algum viesse ao mundo. Acontece que nessa altura quem
ultrapassasse o limite de faltas chumbava. Ponto. Sem avisos nem colinhos. Sem
cartas para cá e para lá, sem comunicações aos encarregados de educação porque
o menino prevaricou, avisos de recepção, convocatórias, telefonemas. O povo estava avisado e sabia das consequências. Se
faltasse de mais, estaria modernamente excluído por faltas e podia seguir uma
vida livre de aulas e professores. Acarretávamos pois com a consequência dos
nossos actos sem mais conversa. Não me parece que alguém se tenha dado mal.
Nesse meu tempo de escola os pais
também não vinham à escola porque o professor deu cabo dos meninos, não está a
cumprir o programa como eles, pais, entendem ou não cumpriu os critérios de avaliação.
Pergunto-me como terei sido classificada então, nesse tempo de caos absoluto,
tudo tão livre e solto. Que era isso de ‘critérios de classificação’ a propósito? Não me consta que tenham ficado mazelas.
Nesse meu tempo eu era incrivelmente
feliz sem o saber. E livre. Livre para gozar os tempos que os professores nos deixavam
livres, livre para faltar a uma aula porque algumas aulas me maçavam de morte,
quem aguentou aquilo, aguenta tudo, livre sem pressão das notas e de
desempenhos. Na medida inversa dos meus alunos. Não havia substituições, não havia planos individuais de trabalho,
planos de recuperação, não havia as torrentes de palavreado bacoco, balofo e inútil, tão inútil como os seus significantes. E éramos felizes então. Saltitando entre contrariedades, com os tostões contados e pontos altos tão ridículos como uma simples excursão a Sintra. Sobrevivemos aos ABBA, aos Bee Gees e ao Stevie Wonder dando os parabéns a toda a gente e acalentado a esperança de um dia sermos proprietários de umas calças Levi's. E sobrevivemos. A tudo. A inveja que me tenho.
Também aqui.
Também aqui.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Convidados assíduos
O Salazar e o Rei eram convidados assíduos de lá de casa, pela hora de jantar, em tempo de vida da minha avó. O meu pai não gostava nem de um nem de outro, menos do Salazar, é certo, que arrumava a um canto ou pedia para sair, de forma a que pudéssemos ter uma refeição descansada, sem lápis azul nem a carranca austera. Acresce a isto o facto de a voz aflautada do Botas nunca ter sido do agrado de ninguém lá por casa. Por fim, o Botas arrastava-se, a queda da cadeira deu-lhe cabo das cruzes, e quando o meu pai lhe atirava com Fátima e a Irmã Lúcia e ia buscar Fátima Desmascarada à estante do corredor, vinham-lhe umas tosses cavernosas e a imagem a preto e branco contrastava ainda mais com a nossa vida a cores de meados dos anos 70. A minha avó tolerava o Botas e tinha dias de elogios rasgados. Era ela quem o convidava amiúde e as discussões mantinham-se sempre por causa das estradas que o Botas construíra, a virtude máxima encontrada e citada pela minha avó, e que, não sendo novidade para ninguém em pleno século XX, constituíam o foco de admiração profunda que nutria pelo ditador.
O Rei aparecia mais vezes do que o Salazar. O Rei aparecia quase a qualquer momento, mesmo sem o meu pai em casa, já o Botas só aparecia quando o meu pai lá estava. Acho que o Botas gostava do confronto, porque quando não era o Fátima Desmascarada, o meu pai citava-lhe trechos d´ A Velhice do Padre Eterno do Guerra Junqueiro. Também me lembrei dele, quando um destes dias assisti a uma romaria na vila Olhem ali o nosso Padre Cura... Mas não sei o que era pior. Sei que num desses duelos, Fátima Desmascarada de um lado e A Velhice do Padre Eterno do outro, o Botas começou a empalidecer até se tornar transparente e desaparecer pela janela do hall como uma serpentina de fumo. Foi um descanso o resto do jantar. O Rei aparecia, por exemplo, a meio da tarde, vindo do nada Coitado do rei! Admite-se fazer uma coisa daquelas ao rei! Coitada da rainha! Via-o lá por casa algumas vezes em amena cavaqueira com a minha avó, sempre pesarosa com a crueldade do regicídio. O meu pai não se incomodava muito com o Rei, embora o irritasse aquela mania de tratar todos por tu. O ar bonacheirão, contudo, devia inspirar-lhe confiança e como era dado aos prazeres da vida e às artes, o Sr. Dom Carlos, o meu pai achava-lhe piada e deixava-o contemplar os quadros a óleo da sala de jantar com mares e naturezas mortas. De modo que havia dias lá em casa em que a alternância entre a monarquia, - a desgraça que se abatera sobre a casa real, coitado do Rei, a rainha D. Amélia viúva e o filho assassinado- e a república na pessoa do Botas, o grande mentor das auto-estradas portuguesas, um Ferreira do Amaral dos tempos da ditadura, operava-se com uma rapidez estonteante, assim a minha avó se lembrasse de ambos. E lembrava-se muito.
Texto reeditado e repescado da memória.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Ide-vos lixar
Quinta-feira. Uma e meia da tarde e uns pozinhos. Entro em casa aliviada e com a sensação única de poder finalmente sentar-me depois da manhã inteira de aulas e de pé e aguçar o dente para um opíparo arroz de feijão com umas pataniscas de bacalhau, o delírio para o meu colesterol e para as minhas malfadadas ancas. O telefone toca. Um número do Porto reincidente nos últimos tempos. A voz nortenha do lado de lá pede-me para falar com a minha mãe. Nada de novo. Resposta negativa. A seguir pede para falar com o genro. Resposta negativa. Nenhum dos dois se encontrava presente. Afirmo, Só pode falar comigo. Sou a filha. A voz do lado de lá eriça-se impaciente e atira-me Mas porquê? Ora, eu sou rapariga furiosa quanto a incursões não autorizadas na minha vida privada e familiar. Não conhecendo o animal de voz feminina do lado de lá e entendendo que não tenho de prestar contas a ninguém, rigorosamente a ninguém, sobre o paradeiro de ambos, quer estejam a banhos nas Caraíbas ou terem ido buscar as minhas adoradas pataniscas e acrescendo o facto de desconhecer por completo a credibilidade do bicho do lado de lá, respondi-lhe com o bom humor que me é característico quando me erguem a voz e dei-lhe com um Desculpe mas não tenho de lhe justificar a minha vida privada e não lhe vou dizer porquê. E não é que a voz, habitueé cá por casa em pedir dinheiro insistente e inoportunamente para os desvalidos, tem a distinta lata, o topete, a arrogância de se me atirar e verborrear sobre faltas de educação? Avisou que iria desligar o telefone ao que lhe respondi Pois é isso mesmo que eu quero. Assunto encerrado. Aguardam-se novas incursões mas garanto que da próxima vez não serei meiga com as palavras e, já que é normal que no mundo do futebol se atirem impropérios, pode ser que também o passe a ser por aqui, e reformule o eufemismo do título. Não há paciência.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Dezassete minutos na vida de uma mulher
Dezassete. Número cabalístico. Número ligado à matriz deste local: dezassete freguesias, dezassete anos a construir o Convento, o biorritmo, seja lá o que isso for, é o dezassete, dezassete degraus para a Basílica, e dezassete coisas mais, tentativas por exemplo de D. João V engravidar a sua real esposa no seu real leito com uma cópula real mas não uma real cópula, outras tantas escapadinhas à Madre Paula em Odivelas e por aí fora. As duas últimas são da minha autoria mas com tanta estorieta, também eu tenho direito à minha. E regressemos aos factos: dezassete freguesias e dezassete locais de poso para a santa da devoção aqui do pedaço, a Nossa Senhora da Nazaré. Ora, a Nossa Senhora da Nazaré funciona como um calendário oculto e mais um motivo para o fado, é que nunca se sabe se da próxima vez cá estamos. Os lamentos surgem sempre e repetidamente, podiam até ser cantados em loas, vila fora, e quando regressa a santa o povo descansa de alívio com os dezassete anos vividos mas choraminga-se, lamuria-se, chora-se e lamenta-se, porque os dezassete vindouros são a incógnita e trarão certamente demónios indomáveis. Há lá coisa melhor? Façamos, portanto tudo por tudo para receber a imagem mínima de mais uma representação da mãe de Cristo. Ele é fatos novos, ele é vestidos novos, chapéus e farpelas, ele é cavalos e charretes, ele é dinheiro gasto a rodos para se ser mordomo, juiz e outras hierarquias socialmente relevantes para os festejos, que se dane o povo com fome se se pode passear ufano e imponente pelas ruas da vila nos cortejos da santa.
E como Portugal não deixa de ser Portugal lá porque a Senhora da Nazaré visita a freguesia, houve um quid pro quo, uma alteração no percurso da procissão que, para minha imensa aflição, se lembrou de passar à porta da senhora minha mãe, rapariga pouco dada a sacristias mas crente em coisas que não creio. E manda a tradição que se ponha uma colcha à janela ou duas ou três ou quatro. Assim sendo, houve que cortar caminho do centro da vila até casa da minha mãe, apressar o passo, espreitar se lá vinha o cortejo, apurar o ouvido para cornetas e bombos, e subir rapidamente para salvar a honra da senhora minha mãe, ausente em parte certa, a gozar o prazer de ter um livro para ler e não o fazer. A colcha. Era a colcha. Faltava a colcha. Ora, fiz contas E onde é que ela guarda as colchas? O tempo urgia, a procissão de beatos, tementes, crentes e curiosos aproximava-se e eu, impotente e desolada com a incapacidade de salvar a janela da nudez absoluta e a honra da minha progenitora que o povo leva isto a sério e lá se ia a reputação, quem sabe lhe lançariam uma fatwa. E que colcha? Que colcha mais? A da cama, já se vê. Pega de um lado, pega do outro, janela aberta e pronto, já está. Ei-la engalanada para a ocasião solene. É que daqui a dezassete anos não sei se os bicos de papagaio, as cruzes, o bucho virado e outras enfermidades me permitirão a veleidade de acarretar com a colcha.
domingo, 11 de julho de 2010
Tentáculos e oráculos
Odeio, odeio de raiva e fúria, água gelada e mar frio, não tanto as ondas, porque tendo aprendido a nadar na Figueira da Foz e sendo frequentadora assídua das praias que tenho aqui a dez minutos de casa, não há como não me ter habituado ao mar batido e furioso. Mas o frio. O frio é que me mata. Matava, passemos então a usar o pretérito, porque depois do cefalópode germânico, Paul de seu nome, ter adivinhado o resultado de todos os jogos onde os audazes rapazes teutónicos se envolveram com outros onze rapagões, nas vitórias e nas derrotas, incluindo o recentíssimo infortúnio holandês contra nuestros hermanos, sou eu mesma, eu mesminha da silva, que me porei no encalce de um polvo adivinho nestas águas gélidas da Ericeira. Com os políticos que temos prefiro acreditar em polvos e com as presidenciais quase à porta há que precaver o futuro. Assim que tiver novidades sobre os desígnios deste país darei novas. O pior que pode acontecer é convidar-vos para um opíparo arroz de polvo.
Também no Delito de Opinião
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Onde não estou
Em mim vive um bicho rebelde que raramente aceita um não porque não, a menos que seja dada uma justificação corroborada pela razão ou o coração esteja em causa. Nessa situação o não, o mais pequenino e insignificante indício de que um não virá a caminho será o suficiente para me deixar quieta sem mais resposta, os sentimentos não se devem pedir, nunca pedinchar e jamais suplicar. Este bicho rebelde que me acompanha desde sempre faz com que, por exemplo, me apeteça o oposto daquilo que posso fazer apenas porque o oposto me soa a uma libertação remota daquilo que me ocupa no momento e que me tolhe os movimentos, tarefas aborrecidas, chatas, enfadonhas, entediantes. Se estiver numa sala fechada a ouvir barbaridades ou banalidades quero de imediato fugir, se estiver na rua apenas porque sim quero ir para dentro da sala porque me parece melhor, sem as barbaridades e dispenso as banalidades. Deve ser, pois, por este ataque tardio de adolescência rebelde que desconfio ter-se tornado num traço de personalidade que agora, justamente agora, neste exacto momento em que o trabalho parece fêmea em plena procriação, me apetece escrever. Quando finalmente o trabalho abrandar e me puder dar ao luxo de umas horas sem cabeça nem corpo ocupados neste mester de ser professora e formadora, sei, ah se sei, que me vou abandonar meio inerte com o ecrã branco à minha frente e vou argumentar Estou tão cansada que nem me apetece escrever… e não é porque esteja cansada, é porque posso e quando posso já não quero.
sábado, 15 de agosto de 2009
Página 81, a meio
Os livros são o melhor antídoto para dias solitários de praia. Arrumo dois no saco, longe dos protectores, a salvo dos cheiros intensos. Incapaz de prever os meus humores e apetites, acomodo-os lado a lado com a garrafa de água e rumo à praia não sem antes espreitar a tarja de mar pela janela e concluir que, embora o resto do país asse literalmente na canícula exuberante, o microclima presentear-me-á com uma tarde encoberta. Nem uma réstia de sol. Hesito à chegada. Vale a pena? E concluo que vale a pena, com os dois livros no saco e a tarde sem afazeres de qualquer ordem, vale a pena. Paira uma neblina levíssima, um manto indelével mesclado com o perfume da maresia. Vale a pena. Claro. Escolho uma clareira de frente para o mar e estendo a toalha e estendo-me à espera que o sol tímido, o que não vejo, se faça sentir numa longa carícia tépida. Procuro o livro e retomo a leitura. Deixem passar o homem invisível de Rui Cardoso Martins, o meu primeiro deste autor. Página 81. A meu lado duas mulheres e um homem trocam palavras. Tentam vislumbrar alguém no imenso areal, crianças, presumo, pela preocupação, até que descobrem um dos procurados. Tá ali, ó! E a conversa retoma, uma delas tem de ir fazer chichi, as crianças não chegam, o telemóvel toca. Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo. O céu torna-se subitamente menos cinzento, a praia começa a encher-se pouco a pouco. As crianças chegam entretanto, ouço-lhes o chilrear e as brincadeiras na areia bem a meu lado, ignoram os remoques da mulher mais velha e afirmam ter estado num sítio mesmo bom, uma piscina natural dizem. Debandam todos para o mar depois de mais uns dedos de conversa para voltarem a seguir, os adultos apenas. A mulher mais velha solta para o homem uns passos atrás Estes cabrões deviam ter um chip. Que merda! Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo.
Também no Delito de Opinião
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Certas e determinadas coisas
Sou rapariga que gosta de trabalhar, não me imagino em momento algum sem trabalhar, não nesta fase da minha vida e seria incapaz de viver à mercê da generosidade marital mas quando vejo finalmente um pouco de sossego e de descanso deste ano infernal que está a passar, transformo-me numa outra mulher. Foi o que aconteceu hoje, quando pela manhã, de corpo descansado e alma aliviada rumei ao supermercado para as compras habituais.
Assim que entro sou brindada com o “Público”, que esta sexta-feira tem a maior ratoeira para mulheres sensíveis como eu, não sensíveis assim no abstracto. Como se sabe às vezes tenho uma couraça impenetrável e nem sempre sou sensível a queixumes e desgraceiras, mas sim sensível a certas e determinadas coisas, como diz o povo, e nessas certas e determinadas coisas inclui-se o Chico. Ora, o Chico que em novo nunca me despertou grande interesse a não ser pelas canções, tornou-se agora nesta idade interessante o mais charmoso dos sexagenários. Os olhos, ai aqueles olhos, os livros, cruzes credo, agora deu-lhe para escrever, e aquela complexão magrizela e displicente dão cabo de mim. No Chico há aquela fragilidade aparente, no olhar aquela súplica miudinha que arrasa as mulheres de couraça como eu e a impassividade, meu deus, a impassividade geminiana masculina quase fleumática que faz rombo no bicho de coração empedernido que me assola amiúde. Foi também por isso que a manhã hoje não foi a mesma.
Pousei com cuidado o jornal na horizontal no fundo do carrinho de compras, não fosse acontecer-lhe algo e fui-lhe deitando um olho. Ele também me deitava um olho, os dois na verdade e insistentemente. Quando fui ao sal para a dourada, coloquei-o cuidadosamente sobre o jornal tapando-lhe a boca e os olhos fitaram-me ainda mais no cinzento do jornal. Ai Chico Chico. Depois fui às cenouras que coloquei cuidadosamente no outro extremo, bem como o pack de seis garrafas de água. À medida que as compras se avolumavam a minha preocupação crescia. O Chico, contudo, mantinha-se impassível com aqueles olhos que se lhe conhecem. O busílis foi quando no peixe me deram a dourada e as sardinhas todas besuntadas, e vi o saco molhado e com o cheiro intenso do conteúdo perigosamente dependurado nas minhas mãos. E o Chico? paniquei. Acha que vou pôr este peixe por cima do Chico? pensei. A empregada encolheu os ombros e gritou NOVENTA E TRÊS, indiferente e até provocadora. Ciúmes cá para mim, bem vi o olhar de soslaio para o fundo do meu carrinho. Resolvi o problema metendo o peixe num saco extra. Havia que proteger aqueles olhos cristalinos que me fitaram no périplo matinal e preservá-los de toda e qualquer conspurcação, talvez me cantassem quando chegasse a casa Quando eu chego a casa nada me consola …, você é tão bonita… Eu quero ir-me embora. Eu quero é dar o fora E quero que você venha comigo.
Assim que entro sou brindada com o “Público”, que esta sexta-feira tem a maior ratoeira para mulheres sensíveis como eu, não sensíveis assim no abstracto. Como se sabe às vezes tenho uma couraça impenetrável e nem sempre sou sensível a queixumes e desgraceiras, mas sim sensível a certas e determinadas coisas, como diz o povo, e nessas certas e determinadas coisas inclui-se o Chico. Ora, o Chico que em novo nunca me despertou grande interesse a não ser pelas canções, tornou-se agora nesta idade interessante o mais charmoso dos sexagenários. Os olhos, ai aqueles olhos, os livros, cruzes credo, agora deu-lhe para escrever, e aquela complexão magrizela e displicente dão cabo de mim. No Chico há aquela fragilidade aparente, no olhar aquela súplica miudinha que arrasa as mulheres de couraça como eu e a impassividade, meu deus, a impassividade geminiana masculina quase fleumática que faz rombo no bicho de coração empedernido que me assola amiúde. Foi também por isso que a manhã hoje não foi a mesma.
Pousei com cuidado o jornal na horizontal no fundo do carrinho de compras, não fosse acontecer-lhe algo e fui-lhe deitando um olho. Ele também me deitava um olho, os dois na verdade e insistentemente. Quando fui ao sal para a dourada, coloquei-o cuidadosamente sobre o jornal tapando-lhe a boca e os olhos fitaram-me ainda mais no cinzento do jornal. Ai Chico Chico. Depois fui às cenouras que coloquei cuidadosamente no outro extremo, bem como o pack de seis garrafas de água. À medida que as compras se avolumavam a minha preocupação crescia. O Chico, contudo, mantinha-se impassível com aqueles olhos que se lhe conhecem. O busílis foi quando no peixe me deram a dourada e as sardinhas todas besuntadas, e vi o saco molhado e com o cheiro intenso do conteúdo perigosamente dependurado nas minhas mãos. E o Chico? paniquei. Acha que vou pôr este peixe por cima do Chico? pensei. A empregada encolheu os ombros e gritou NOVENTA E TRÊS, indiferente e até provocadora. Ciúmes cá para mim, bem vi o olhar de soslaio para o fundo do meu carrinho. Resolvi o problema metendo o peixe num saco extra. Havia que proteger aqueles olhos cristalinos que me fitaram no périplo matinal e preservá-los de toda e qualquer conspurcação, talvez me cantassem quando chegasse a casa Quando eu chego a casa nada me consola …, você é tão bonita… Eu quero ir-me embora. Eu quero é dar o fora E quero que você venha comigo.
Há certas e determinadas coisas que não se deviam negligenciar. Dia em que o Chico aparece na primeira página de jornal é sinal de alerta nacional, como se os UVB estivessem muito altos ou o calor excessivo. Devia até ser feriado para o mulherio contemplar religiosamente aquele olhar nostálgico e límpido.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Tradições e blasfémias
Brian: Look, you've got it all wrong! You don't NEED to follow ME, You don't NEED to follow ANYBODY! You've got to think for your selves! You're ALL individuals!
E, todos os anos, a época anunciava-se. No tempo dos dois canais de televisão, Internet inexistente não havia como fugir do peso que se nos instalava na alma sempre que, findo há um tempo o Carnaval, a Páscoa se anunciava deprimente. Música soturna e filmes que se repetiam até à exaustão, a vida de Cristo, a vida e a paixão de Cristo, a vida, a paixão e a ressurreição de Cristo. O Estado é laico, já o era então, mas os canais de televisão não se reconheciam como tal talvez e mesmo que o fizessem impunha-se a contenção da época, eventualmente o gosto e fervor dos espectadores por estas coisas da fé. Muito embora se apregoe que quando não se gosta de algo, pode sempre fechar-se os olhos, desligar a televisão, o rádio, ou virar-se as costas, tal nunca surgiu como opção nesses tempos remotos dos dois canais e de uma idade de pouca autonomia e diversidade à escolha.
O meu filme da Páscoa chegou uns anos mais tarde, não sei exactamente quando, nem interessa para a história, sei que veio para ficar e Páscoa que se quer Páscoa por estes lados é certamente celebrada com A Vida de Brian. Lado a lado com o pão-de-ló e o queijo da serra – há hábitos que não saem nunca – ouve-se Always look on the bright side of life. Pode até ser blasfemo, censurado pelos mais fervorosos cristãos com ou sem sentido de humor, porém, poucos filmes me divertem tanto como a Vida do pobre Brian. Tomado pelo Messias desde o dia em que nasceu, o mesmo do Messias e no estábulo imediatamente ao lado, Brian vai experimentando as agruras de viver com a aura do Salvador numa sátira hilariante do implacável e corrosivo humor inglês. Estar no sítio errado à hora errada nunca foi tão verdade, pobre Brian, contudo, há sempre que olhar para o lado mais sorridente da vida.
E, todos os anos, a época anunciava-se. No tempo dos dois canais de televisão, Internet inexistente não havia como fugir do peso que se nos instalava na alma sempre que, findo há um tempo o Carnaval, a Páscoa se anunciava deprimente. Música soturna e filmes que se repetiam até à exaustão, a vida de Cristo, a vida e a paixão de Cristo, a vida, a paixão e a ressurreição de Cristo. O Estado é laico, já o era então, mas os canais de televisão não se reconheciam como tal talvez e mesmo que o fizessem impunha-se a contenção da época, eventualmente o gosto e fervor dos espectadores por estas coisas da fé. Muito embora se apregoe que quando não se gosta de algo, pode sempre fechar-se os olhos, desligar a televisão, o rádio, ou virar-se as costas, tal nunca surgiu como opção nesses tempos remotos dos dois canais e de uma idade de pouca autonomia e diversidade à escolha.
O meu filme da Páscoa chegou uns anos mais tarde, não sei exactamente quando, nem interessa para a história, sei que veio para ficar e Páscoa que se quer Páscoa por estes lados é certamente celebrada com A Vida de Brian. Lado a lado com o pão-de-ló e o queijo da serra – há hábitos que não saem nunca – ouve-se Always look on the bright side of life. Pode até ser blasfemo, censurado pelos mais fervorosos cristãos com ou sem sentido de humor, porém, poucos filmes me divertem tanto como a Vida do pobre Brian. Tomado pelo Messias desde o dia em que nasceu, o mesmo do Messias e no estábulo imediatamente ao lado, Brian vai experimentando as agruras de viver com a aura do Salvador numa sátira hilariante do implacável e corrosivo humor inglês. Estar no sítio errado à hora errada nunca foi tão verdade, pobre Brian, contudo, há sempre que olhar para o lado mais sorridente da vida.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Dúvidas existenciais
Quarta-feira, trinta e um de Dezembro. Último dia do ano da graça de dois mil e oito. Algures pela tarde, depois de encaminhados os afazeres domésticos, sou parada entre os sonhos e a mousse de maracujá pelo pensamento que tinha deixado a macerar de véspera Tenho de escrever um post, tenho de deixar uma palavra, desejos de bom ano. Abeiro-me do computador, frenética, provavelmente ainda de avental. A escrita não exige farda ou indumentária, uma alma Gémeos vem equipada de origem para se fazer à vida assim os desafios, e confirmo as palavras, como se mentalmente fizesse a chamada, percorro os locais que me embalaram, garimpo mais um vez os vocábulos e eis-me parada perante a fotografia. Candelabro. Candelabro ou castiçal? Solicito ajuda Aquilo, aquilo que vimos em Copenhaga, é um candelabro? A resposta célere Candelabro? Candelabro é do tecto. Ora se candelabro é do tecto, só pode ser castiçal. Não me soa bem. Como a uma criança a quem puseram o nome errado, Bernardo em vez de João, Matilde em vez de Luísa, algo me soa mal, a dissonância evidente entre o objecto e a denominação. Os sonhos chamam-me da cozinha, urge o tempo e castiçal ficou. Postado o texto, aqui ficou a pairar até ter surgido o primeiro comentário de quem muito estimo, os votos que sei sinceros, mas, raio de mas, a frase final sem margem para dúvidas: E é de facto um bonito candelabro. E pronto, o que é isto comparado com a crise mundial, com a hecatombe anunciada, o armageddon iminente? Nada, naturalmente, mas a dúvida permanece: candelabro ou castiçal?
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Feliz Ano
Não obstante a polémica na educação, 2008 foi um ano que me trouxe experiências gratificantes, um projecto novo e muito aliciante, outro que vem a caminho, muita harmonia, a prova de que a vida profissional é só mesmo uma parte do todo, e algumas viagens.
Comecei em Março a viajar, na velha Albion, com neve e dezenas de adolescentes à descoberta do mundo além fronteiras, continuei por Abril por terras onde se mitifica ter andado Hamlet, onde até os trolhas são bem parecidos, as livrarias tem livros em Inglês em quantidade admirável e se anda de bicicleta quase mais do que de carro. Em Julho esperavam-me duas semanas em Oxford. Protegida pelas gárgulas, acolhida em livrarias deliciosas no silêncio dos livros e no restolhar das páginas, sentindo o que não se sente em breves escapadinhas nem em estadias de hotel, recolhida algures no countryside com Jasper, um gato preto e felpudo por companhia fugidia, os dias em pleno habitat mostraram-me um quotidiano curioso. Berlim, porventura a cidade que mais fascínio exerce sobre mim, esperava-me em pleno Agosto, bem como o volante de um Trabi rosa-choque que fui conduzindo cidade afora na descoberta de uma outra perspectiva, dias de correria pela urbe para ver o que os turistas não vêem e momentos para me deleitar na cidade europeia mais emblemática do século XX. E férias então. Brasil, já se vê, o local onde retempero forças como em nenhum outro, percorrer a praia com o oceano tranquilo e cálido a beijar-me os pés, os golfinhos em brincadeira no mar, os saguis que consegui conquistar e os companheiros de viagem mais simpáticos com que me cruzei fizeram destas férias um experiência única. E para acabar o ano não há como visitar Mercados de Natal com cidades dentro. Viena, a cidade da valsa, do pai da psicanálise, de Karl Kraus, Canetti, Hundertwasser e Klimt deixou-me a certeza de que as cidades para serem belas têm que ter alma. O que lhe sobra em monumentalidade falta-lhe em alma e acolhimento. E foi num destes périplos que me cruzei com o castiçal que vos deixo. Estava numa igreja em Copenhaga e chamou-me a atenção pela forma singela e redonda, as luzes que se unem na forma circular que podem ser quem quisermos. Que estas luzes nos unam sempre, vos unam a quem desejarem e que 2009 seja um ano pleno.
Comecei em Março a viajar, na velha Albion, com neve e dezenas de adolescentes à descoberta do mundo além fronteiras, continuei por Abril por terras onde se mitifica ter andado Hamlet, onde até os trolhas são bem parecidos, as livrarias tem livros em Inglês em quantidade admirável e se anda de bicicleta quase mais do que de carro. Em Julho esperavam-me duas semanas em Oxford. Protegida pelas gárgulas, acolhida em livrarias deliciosas no silêncio dos livros e no restolhar das páginas, sentindo o que não se sente em breves escapadinhas nem em estadias de hotel, recolhida algures no countryside com Jasper, um gato preto e felpudo por companhia fugidia, os dias em pleno habitat mostraram-me um quotidiano curioso. Berlim, porventura a cidade que mais fascínio exerce sobre mim, esperava-me em pleno Agosto, bem como o volante de um Trabi rosa-choque que fui conduzindo cidade afora na descoberta de uma outra perspectiva, dias de correria pela urbe para ver o que os turistas não vêem e momentos para me deleitar na cidade europeia mais emblemática do século XX. E férias então. Brasil, já se vê, o local onde retempero forças como em nenhum outro, percorrer a praia com o oceano tranquilo e cálido a beijar-me os pés, os golfinhos em brincadeira no mar, os saguis que consegui conquistar e os companheiros de viagem mais simpáticos com que me cruzei fizeram destas férias um experiência única. E para acabar o ano não há como visitar Mercados de Natal com cidades dentro. Viena, a cidade da valsa, do pai da psicanálise, de Karl Kraus, Canetti, Hundertwasser e Klimt deixou-me a certeza de que as cidades para serem belas têm que ter alma. O que lhe sobra em monumentalidade falta-lhe em alma e acolhimento. E foi num destes périplos que me cruzei com o castiçal que vos deixo. Estava numa igreja em Copenhaga e chamou-me a atenção pela forma singela e redonda, as luzes que se unem na forma circular que podem ser quem quisermos. Que estas luzes nos unam sempre, vos unam a quem desejarem e que 2009 seja um ano pleno.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Nada
Cansada, exausta, extenuada abeiro-me do computador, quem sabe não sairá algo, esperança vã que me tem acalentado o espaços mínimos em que lazer se me permite, e impaciente vou procurando as palavras, chamo-as baixinho como a um gato, exactamente como um gato, ficam lá onde estão, acredito que imperturbáveis, nada sinto em meu redor, nem o restolhar mansinho das palavras quando chegam, silêncio, apenas silêncio, das palavras nada.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Com alarme incorporado
No dia em que resolvi, alvitrei, aventei a hipótese de trocar as minhas lentes de contacto mensais, à razão de setenta e oito euros para seis meses, por umas diárias, à razão de sessenta euros por mês, estava nos antípodas de imaginar que este raciocínio, elementar e básico que qualquer criança em idade escolar resolveria sem dificuldade, se transformasse numa operação matemática elaborada e complexa e uma carga de trabalhos.
Entrei na loja curiosa, era a primeira vez que ali entrava, e após a abordagem inicial e o atendimento solícito do empregado, jovem e sorridente, disse ao que vinha não sem antes inquirir o preço das ditas lentes por um, um mês apenas. Perante o preço exclamei São mais caras então. O empregado pendurou a expressão de quem estava a Leste, mais a leste impossível, corria o risco de já estar a Oriente, quando repeti a lógica, da batata naturalmente Se para um mês custam sessenta euros e para seis meses custam quase oitenta, fica mais barato para seis meses. Do outro lado nada. Nadinha. Nicles. Népia. Desisti. Venham as de seis meses que a vida está cara e a carestia não se compadece com devaneios de uma criatura enfadada com as suas lentes semestrais, de resto, um assunto de importância cabal no contexto socioeconómico actual.
Continuava a olhar para o empregado, é mais forte do que eu, valha-me a santa, caramba, um raciocínio do mais elementar esbarrava contra a inabilidade do rapaz como se chocasse contra o Muro de Berlim. Arrumei a tralha, quase cem euros em coisa nenhuma que não servia para vestir nem comer nem ler mas sem a qual correria o risco de comer o que não queria, vestir o que não desejava e livrinhos só se tivessem letras corpo dezasseis é que lhes conseguiria deslindar um sentido. Saio da loja a refilar mentalmente A culpa é dos professores do Básico, há sempre mais culpados além de nós próprios, admite-se que não aprendam a ler, escrever e a fazer operações de aritmética logo no primeiro ano? Mania de não ensinar a tabuada. E depois vêm com a #$%&”@ do Magalhães. Ensinem-nos mas é a ler e a escrever, rais partam, e deixem-se de folclores. E ia eu nisto, refilando, respingando e retorquindo quando o alarme da óptica deu sinal de si. Um barulho irritante e estridente que orientou olhos múltiplos na minha direcção. O rapaz fez um olhar condescendente extensivo às colegas de profissão e ordenou-me que continuasse a marcha, lá para onde ia, provavelmente aliviado de me ver pelas costas, ninguém gosta de ver a vida dificultada por operações aritméticas arrojadas e complexas dignas de um qualquer Einstein. Era o sistema, o sistema, essa entidade invisível, omnipresente e omnipotente, tem sido acusada dos mais variados crimes, mais um menos um não era relevante. Que fosse o sistema pois.
Quando entrei no supermercado, o alarme reincidiu. Mais um barulho estridente. Depois de reclamar, o empregado, segunda versão, disse que não fazia mal, era o dito sistema. Irritada com tanta apitadela questionei se quando saísse o alarme iria tocar. Disse que sim com a maior naturalidade, mas, como gosto deste mas, para não me preocupar. Ai preocupo-me, preocupo-me, é óbvio que me preocupo Imagine que passam os meus alunos e presenciam a cena? O rapaz condescendeu e ficou-me com os cem euros de próteses oculares e quando saí afirmou, perante as apitadelas inexplicáveis Já noutro dia tivemos aí uma professora que também apitou. E assim ficou tudo esclarecido. Já não bastava o médico conhecer-me pelo cabelo, ser ofendida pela maga dos bigudis, agora apito no supermercado.
Entrei na loja curiosa, era a primeira vez que ali entrava, e após a abordagem inicial e o atendimento solícito do empregado, jovem e sorridente, disse ao que vinha não sem antes inquirir o preço das ditas lentes por um, um mês apenas. Perante o preço exclamei São mais caras então. O empregado pendurou a expressão de quem estava a Leste, mais a leste impossível, corria o risco de já estar a Oriente, quando repeti a lógica, da batata naturalmente Se para um mês custam sessenta euros e para seis meses custam quase oitenta, fica mais barato para seis meses. Do outro lado nada. Nadinha. Nicles. Népia. Desisti. Venham as de seis meses que a vida está cara e a carestia não se compadece com devaneios de uma criatura enfadada com as suas lentes semestrais, de resto, um assunto de importância cabal no contexto socioeconómico actual.
Continuava a olhar para o empregado, é mais forte do que eu, valha-me a santa, caramba, um raciocínio do mais elementar esbarrava contra a inabilidade do rapaz como se chocasse contra o Muro de Berlim. Arrumei a tralha, quase cem euros em coisa nenhuma que não servia para vestir nem comer nem ler mas sem a qual correria o risco de comer o que não queria, vestir o que não desejava e livrinhos só se tivessem letras corpo dezasseis é que lhes conseguiria deslindar um sentido. Saio da loja a refilar mentalmente A culpa é dos professores do Básico, há sempre mais culpados além de nós próprios, admite-se que não aprendam a ler, escrever e a fazer operações de aritmética logo no primeiro ano? Mania de não ensinar a tabuada. E depois vêm com a #$%&”@ do Magalhães. Ensinem-nos mas é a ler e a escrever, rais partam, e deixem-se de folclores. E ia eu nisto, refilando, respingando e retorquindo quando o alarme da óptica deu sinal de si. Um barulho irritante e estridente que orientou olhos múltiplos na minha direcção. O rapaz fez um olhar condescendente extensivo às colegas de profissão e ordenou-me que continuasse a marcha, lá para onde ia, provavelmente aliviado de me ver pelas costas, ninguém gosta de ver a vida dificultada por operações aritméticas arrojadas e complexas dignas de um qualquer Einstein. Era o sistema, o sistema, essa entidade invisível, omnipresente e omnipotente, tem sido acusada dos mais variados crimes, mais um menos um não era relevante. Que fosse o sistema pois.
Quando entrei no supermercado, o alarme reincidiu. Mais um barulho estridente. Depois de reclamar, o empregado, segunda versão, disse que não fazia mal, era o dito sistema. Irritada com tanta apitadela questionei se quando saísse o alarme iria tocar. Disse que sim com a maior naturalidade, mas, como gosto deste mas, para não me preocupar. Ai preocupo-me, preocupo-me, é óbvio que me preocupo Imagine que passam os meus alunos e presenciam a cena? O rapaz condescendeu e ficou-me com os cem euros de próteses oculares e quando saí afirmou, perante as apitadelas inexplicáveis Já noutro dia tivemos aí uma professora que também apitou. E assim ficou tudo esclarecido. Já não bastava o médico conhecer-me pelo cabelo, ser ofendida pela maga dos bigudis, agora apito no supermercado.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Menos é mais
Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se publique uma fotografia, tenho algumas para ver a luz do blogue, se procure uma citação nos livros, se recorra ao sitemeter, esse manancial de informação curiosa sobre quem se adentra na blogosfera e aterra aqui chamado por uma palavra ou expressão. Estou aqui a cogitar Posto? Escrevo? Vai a foto? Estou aqui a pensar se pouco será melhor que nada. Se menos é mais. Se escreva, se poste, se publique, se cite. Fico aqui a pensar.
sábado, 22 de novembro de 2008
Chitas e debruns
E num dia de coração magoado e alma triste, a primeira coisa que ocorreria a uma mulher seria encharcar-se em chocolates, nesta altura do ano os supermercados abarrotam de chocolates, a segunda, ir às compras, a terceira, uma novidade na vida desta vossa escriba, é que não pode, dê por onde der, sucumbir à debilidade anímica e derrubar-se sobre uma caixa de Guylian ou, caso se permitisse, uma pequena de Godiva, a quarta é que não deve ir às compras, a recessão entrará mais dia, menos dia, e a quinta é que é melhor adoptar uma actividade que não lhe ocupe neurónios em desmedida quantidade, que a mantenha alheada do mundo, de preferência sem notícias e televisão ligada e que seja, concomitantemente, ligeira, sedutora e que entretenha até o coração deixar de doer, a alma deixar de choramingar, a vontade de devorar os Guylian amansar e o ímpeto de escavacar o dinheiro em algo sempre utilíssimo a uma mulher, mas que jazerá moribundo no guarda-roupa, gaveta ou armário, desvanecer. E podia ter-me abraçado a um livro, improvável, calçado os ténis e fazer uma caminhada com o Atlântico do lado esquerdo para lá, uma paragem no miradouro, e o regresso com o Atlântico do lado direito, caso não estivesse roufenha e combalida desta maleita infernal que me apanhou desprevenida e atacou à traição, ou podia ter-me iniciado nas artes de fada do lar, ao que se chega para não comer chocolates ou derreter o vil metal, armada em rapariga prendada e talentosa, por um dia, unzinho, há que sonhar, e dedicar-me às chitas e gangas, gregas e debruns.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Denúncia capilar
Vou ao médico a contra gosto, não que as idas ao médico me incomodem de sobremaneira mas a espera, senhores, a espera, as revistas do século passado, as cusquices requentadas e, por vezes, as lambisgóias que nos aguardam e acompanham na antecâmara das sessões de tortura, espreitadelas e revolvimento de entranhas deixam-me irritadiça e só desejo o momento em que pelo meu próprio pé, odeio ser levada por outrem, possa dar corda aos sapatos e fazer-me à vida com um molho de papelada nas mãos e o diagnóstico feito para finalmente descansar em casa, a caldos de galinha.Ontem não foi excepção. Acometida por um catarro, dores de garganta e febre, agora com esta provecta idade, deu-me para ter febre, outro remédio não tive se não dirigir-me ao Centro de Saúde para me deixar medicar contra este catarro aflitivo, raios o partam. Logo após o jogo do Benfica, assim ditou o ritmo no recato do lar e a minha temperatura inusitada, aí fui, irritada logo de casa. É que já não chega estar doente, ainda ter de me sujeitar ao parecer técnico, deslocar-me ao médico e escolher um clínico do Serviço Nacional de Saúde, caso seja necessário um atestado só pode ser passado por um médico do dito serviço, deixa-me, à partida, irada e farta, além de doente, traçando assim um quadro da maior harmonia.
Graças a Deus, Alá e Jah, tinha apenas uma pessoa à minha frente e fiquei mais tranquila quando soube que um dos médicos de serviço é rapaz de resposta rápida, competente e perspicaz, capaz de vislumbrar à légua as enfermidades, uma verdadeira Rosa Mota do atendimento. Quando uma vez tive uma reacção alérgica não se sabe exactamente a quê, enfiou-me com duas injecções que até vi estrelas, planetas, cometas, o sistema solar todinho e ainda galáxias desconhecidas, mas uma coisa é certa, curou-me. O atendimento foi também à velocidade da luz, de tal forma que saí meio vestida meio por vestir, que é lá isso, ocupar lugar nas urgências? para me derramar agarrada à nádega na primeira cadeira que encontrei cá fora.
Reconheci pela voz que seria o médico, o tal, que chamava pelo meu nome. Logo na entrada, olhou-me bem de frente e perguntou-me ao que vinha. Depois do queixume, há que aproveitar a oportunidade para largar queixas e lamúrias, rematou Pois e deixe-me adivinhar tem que falar muito… Pasmei Como é que sabe que sou professora, doutor? Tenho cara de professora? Atirou-me Cara e cabelo! Tendo em conta que tinha estado toda a tarde a dormitar no sofá a minha trunfa não estaria exactamente calma, nunca está, de resto. Quis saber como sabia que eu era professora, a curiosidade feminina é terrível, mas ele só me sorriu, bem-disposto e jocoso, para me deixar a matutar em como teria ele tido acesso a esta informação. À saída ainda me perguntou Então, também foi à manifestação? Já não se consegue passar anonimamente, há sempre uma trunfa que nos denuncia.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Um dia recebi um presente
Um dia recebi um presente e a minha vida mudou. Vinha envolto em papel transparente e trazia uma mensagem ternurenta, a evocação deste amor que se me plantou na alma com raízes e que esporadicamente floresce. Desde então todos os dias são seus. A vigilância redobrada, não vá algo acontecer-lhe, água moderada e o lugar abrigado de ventanias excessivas e calores exagerados. Recomendações mil se me afasto Não te esqueças, por favor, não é preciso muita água. E a atenção duplicada Acho que vai dar flor, a vigia constante Está tão bonita. Em tempo de desabrochar o perfume entra pela sala onde vou deixando a alma desabar e a evocação entra docemente sem que deitar olho se imponha. Perfume e aromas que me abençoam a alma no presente inestimável da minha mãe.foto: minha
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Pataniscas de ternura
Recebo um sms pela hora de almoço Queres pataniscas com arroz de feijão? Levo-te para a escola às 13.30? Bjs Quis o destino que o almoço se me falhasse hoje, idas ao dentista não se compadecem com o estômago cheio, mas quando o dia adormeceu, a escola para trás das costas e o burburinho do quotidiano assentou, saboreei com a alma o carinho metido em duas marmitas tupperware, preparado com o afecto das mãos generosas e a ternura de quem de mim se lembrou. E estas são as coisas que verdadeiramente importam: carinho, ternura, gestos, afectos. O resto é paisagem e livros, já se sabe.
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