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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

E da noite se fez dia.

Enquanto assistia no Facebook ao 'coiso' que nos (des)governa, fui beijada pela declaração doce de uma aluna. Poupo-vos aos detalhes, não vão fugir daqui a correr, saltando entre posts e links, para não escorregarem na lamechice pungente, mas digo-vos que palavras assim alumiam o dia e aquecem o coração. Fazem valer a pena. Tudo. Não há mais nada que um professor possa desejar. Pronto. Já disse.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Vida de professor

Sala de directores de turma. Final de tarde. Esventro o dossier que ajudei a engordar ao longo do ano e folha a folha vou estirpando a pasta obesa de papéis incómodos, vãos agora, horas e horas perdidas ao longo do ano. Vejo-a chegar na penumbra. O estio espreita pelas frestas das janelas em réstias de luz ténues de fim de tarde.  Cumprimentamo-nos. Pergunto-lhe E novidades? Não há, responde-me, não sei onde fico. Recolhemo-nos na arrumação da papelada com perguntas pelo meio E isto? Deito fora ou é para o arquivo?  Isso aí é o dossier das actas? Resmungo como sempre contra burocracia e trabalho que não dá frutos. Resmungo muito. Resmungo sempre. Rasgo papéis com vigor, ausento-me na senda de um dossier perdido. Regresso. Ela está ao telefone. Empato por uns minutos a minha saída na esperança de que acabe o telefonema e me possa também despedir. Aproximo-me da secretária onde a ouço despedir-se longamente. A conversa vai longa sem prenúncio de um final. Chego perto, toco-lhe no braço e aceno com a mão. Interrompe o telefonema e pede um instante Espera só um bocadinho. Está aqui a Leonor para se despedir. Abraçamo-nos. Dou-lhe um beijo e digo, quando lhe ouço os primeiros soluços, Vá, não fiques assim! Engulo o primeiro soluço, engulo as lágrimas teimosas e digo-lhe Tenho esperança. Nada está perdido! Toco-lhe na mão, um consolo inútil. Digo-lhe ainda Não fiques assim. Lanço-lhe um sorriso desajeitado. 
E saio. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Confissões em noite de lua cheia

São 23.54. Dou por encerrado o meu dia de hoje e aguardo com expectativa a semana que a amanhã começa. Encerro um ciclo de dois anos que passei com os meus alunos de Alemão. Eram vinte e oito e acabaram em vinte e quatro. Chegaram-me imberbes, tão imberbes como nunca tinham chegado antes ou talvez eu não estivesse tão velha como estou agora. E tenho medo. Não me dou ao luxo de me mostrar assim despedida, assim frágil porque para o ano ninguém mais me vai dar um abraço pela manhã, enquanto entra saltitante de cabelos longos e olhar terno, beijar-me a testa quando se vai embora com um Gosto muito de si, stora ou exigir a primazia no meu coração e afectos Nós é que somos as suas ovelhinhas e torcer por mim no espaço virtual quando me envolvo em lutas blogosféricas Bora, Stora! Hoje é lua cheia e dizem que há lobisomens e outros demónios à solta. Deve ser disso. Vou já deitar os meus. Aferroá-los na arca dos que não se confessam jamais.A semana vai ser longa e a lua esconder-se-á então.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Às vezes

Às vezes quando me vêm com a conversa de que os jovens hoje são uns mimados, eu digo que sim, que são, não estão habituados a ser contrariados, amuam quando se lhes diz que não e resistem pouco à frustração. Não há paciência, vocifero.
Mas há vezes outras.
Nas vezes outras eu vejo filhos a preocupar-se com os pais mais do que deviam, assumir a educação dos irmãos, a trabalhar aos fins-de-semana e em part-time para se aguentarem e para ainda ajudar os pais. E isto não é autonomia nem responsabilidade. São valores invertidos numa ampulheta de sentido único. E vejo professores intolerantes pelos atrasos, faltas de atenção, os livros que nem existem pela falta de dinheiro. Nessas vezes outras em que por acaso se descobre que por trás daquele rosto sorridente se esconde uma adolescência interrompida, eu já não sou a primeira e de coração comprimido sento-me quieta em luto pelas adolescências perdidas.


Para o R. que nunca virá aqui nem conhece a existência deste blogue.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Page Not Found

Sete e vinte da manhã. O despertador toca, o despertador do telemóvel. Nos tempos modernos os despertadores despertadores tornaram-se bichos obsoletos e é mais fashion ter o Blackberry a acordar-me.  Há que manter o estilo. Clico no dismiss, 'a língua inglesa fica sempre bem' e levanto-me. Pés no chão, um de cada vez, ter os pés assentes a terra tem-me custado muitas palpitações nos dias que correm, ponho os óculos, sim, esta que vos escreve é míope mas que isto não vos sirva de desculpa para defender 'certas e determinadas' pessoas, outra expressão de que gosto, arrebanho umas calças do roupeiro, um blazer azul escuro, um colar tipo Carmen Miranda, não quero parecer fúnebre aos meus alunos, uma série de outras peças de roupa a cujos detalhes vos poupo e rumo à casa de banho. Lavo o manto da noite num revigorante duche matinal e desço as escadas acompanhada da Julieta, uma das madrugadoras, as outras gatas reservam-se o direito de longos e preguiçosos sonos devido à idade vetusta e respeitável. Depois de um pequeno almoço frugal acompanhado das notícias matutinas, hábito que vou ter de perder se me quiser poupar uns anos, pego no carro que me guincha com falta de gasolina e grita-me em letras vermelhas NÍVEL DE COMBUSTÍVEL BAIXO. Temos pena. Chego à escola. Está lá ainda. A bela da escola azul-cueca. Entro aos bons-dias, subo à sala de professores, tiro a chave da sala C7, lê-se no garrafal porta-chaves, dirijo-me à sala e dou graças aos deuses por ainda lá ter o meu emprego. Com as manobras na penumbra deste governo chegará o dia em que Leonor Barros será uma entrada vã no sistema aliviado por se ter visto livre de mais um fardo e eu, como tantos outros, serei uma página em branco, quem sabe décadas de trabalho arrumadas numa página em branco, amarfanhadas como lixo num qualquer cesto dos papéis tecnocrata, um url perdido na voracidade destes tempos para os quais me faltam adjectivos. PAGE NOT FOUND. 

sábado, 24 de março de 2012

Gabarolices


Festa. Tudo lindo e arrumadinho. Escola silenciosa e tranquila. Mesas postas a rigor, o povo e o não povo, a ‘elite’ da terra presente, cumprimentos rasgados, beijos e cumprimentos a derramar bases e perfumes pelos rostos e cabelos alheios, odores misturados com o perfume da noite primaveril. A festa começa. Discursos de elogios, palavras de circunstância, bouquets de agradecimento, certificados de participação, presentes para cá e para lá. E pára tudo. Alguém diz que tem de fazer um agradecimento. Seguem-se mais elogios do que este blogue comporta, palavras sinceras, honestas, sentidas. Alguém que ajudara alguém, a gratidão agora pública em frente ao povo e o não povo, a ‘elite’ da terra, individualidades altas de metro e oitenta e outras menos altas de metro e sessenta. A espera. Só uma alta individualidade podia ser alvo de palavras tão belas ou a elite ou a gente que usa patentes de coisa nenhuma. Zero. As palavras começam a fazer uma curva, desviam-se das altas individualidades, esbarram contra a elite, contornam o povo e o não povo, viram à direita. Atingem certeiras a descabelada de casaco azul-turquesa, escondida e meio alheada a bebericar uma sangria numa caneca de barro saloio, há que entrar no espírito e a descabelada gosta de momentos simples de descontracção  e partilha. Foram vistas a entrar sem cerimónia à esquerda, meio palmo abaixo do pescoço e agarraram-se à descabelada. Sabe-se isto porque se viu uma lágrima teimosa e à descabelada só se lhe vêem lágrimas quando lhe atingem o órgão sofredor irremediavelmente. Acontece às vezes.
Tenho o ego tão inchado que nem as calças me cabem, mas isso não deve ser do ego, a não ser que se me tenha descaído como outras coisas nesta idade madura de despencanços. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.


As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.

Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero.
Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores.Até ao dia 1 de Março.

Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci,  o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.

A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.

Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.  

De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver.

E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda.

Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor.
Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.

Sara Fidalgo



P.S. - Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor *


9 de Março de 2012



Perpetuando a memória da professora Estefânia Brandão. Um beijo enorme à Sara Fidalgo e à Mariana Fidalgo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A improbabilidade de uma escola feliz


No meu tempo de escola, a vida era muito tranquila. Os professores faltavam e alguns faltavam muito, outros bastante e outros nunca. Como agora. Esperávamos todas as santas aulas pelo abençoado segundo toque que nos aliviaria de aulas de modorra e tédio, sem visualização, powerpoint, projectores ou quadro interactivos. O professor falava, os alunos ouviam. Esqueçam motivação e interesse. Ir à escola era aprender e ninguém disse que aprender era divertido e engraçado ou fácil. Naquele tempo não era. Quando os professores faltavam era-nos dada toda a liberdade. Lembro-me de ficar no pátio a apanhar sol, na conversa com os colegas, maldizendo a adolescência, os chatos dos professores, provavelmente a incompreensão dos pais, a soltar gargalhadas sonoras e estridentes salpicadas com a inconsequência da condição púbere ou ainda a catrapiscar os rapazes, meu deus quantas paixões secretas e contidas, ou ir ali ao café do lado fazer isso mesmo, ir ao café do lado: esticar as pernas, dizer disparates, respirar o ar húmido que se nos agarrava ao corpo e soltar os cabelos à sombra do convento. Tudo sem culpas ou recriminações. Livres, portanto.
Nesse meu tempo de escola, faltar à escola era apenas isso: faltar à escola e eu no meu tempo de escola também faltei às aulas sem que mal algum viesse ao mundo. Acontece que nessa altura quem ultrapassasse o limite de faltas chumbava. Ponto. Sem avisos nem colinhos. Sem cartas para cá e para lá, sem comunicações aos encarregados de educação porque o menino prevaricou, avisos de recepção, convocatórias, telefonemas. O povo estava avisado e sabia das consequências. Se faltasse de mais, estaria modernamente excluído por faltas e podia seguir uma vida livre de aulas e professores. Acarretávamos pois com a consequência dos nossos actos sem mais conversa. Não me parece que alguém se tenha dado mal.
Nesse meu tempo de escola os pais também não vinham à escola porque o professor deu cabo dos meninos, não está a cumprir o programa como eles, pais, entendem ou não cumpriu os critérios de avaliação. Pergunto-me como terei sido classificada então, nesse tempo de caos absoluto, tudo tão livre e solto. Que era isso de ‘critérios de classificação’ a propósito? Não me consta que tenham ficado mazelas.
Nesse meu tempo eu era incrivelmente feliz sem o saber. E livre. Livre para gozar os tempos que os professores nos deixavam livres, livre para faltar a uma aula porque algumas aulas me maçavam de morte, quem aguentou aquilo, aguenta tudo, livre sem pressão das notas e de desempenhos. Na medida inversa dos meus alunos. Não havia substituições, não havia planos individuais de trabalho, planos de recuperação, não havia as torrentes de palavreado bacoco, balofo e inútil, tão inútil como os seus significantes. E éramos felizes então.  Saltitando entre contrariedades, com os tostões contados e pontos altos tão ridículos como uma simples excursão a Sintra. Sobrevivemos aos  ABBA, aos Bee Gees e ao Stevie Wonder dando os parabéns a toda a gente e acalentado a esperança de um dia sermos proprietários de umas calças Levi's.  E sobrevivemos. A tudo. A inveja que me tenho.


Também aqui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Por um punhado de prazer

Os meus dias nunca começam exactamente nos dias em que começam. Os dias na escola começam sempre em dias anteriores com preparativos e preliminares mais ou menos longos mas quase sempre trabalhosos. O meu dia de terça começou logo na segunda à tarde com uma bela sessão de correcção de testes, os meus dias de segunda começam sempre nas tardes de Domingo e há outros dias que começam com meses de antecedência e se prolongam além das vinte e quatro horas em que finda o dia. O meu dia de hoje começou com meses de antecedência. Meses antes, digamos lá para fins de Setembro, a professora pariu a proposta, diz que linda e obediente queria levar os seus alunos fora de portas a ver o mundo, um mundo perto, menos remoto do que a outros mundos onde já levou os seus meninos, mas ainda assim um universo além dos portões da escola azul-cueca, lá onde ousam ir os que têm vidas e cujas dias não começam em dias e meses de preparativos intensivos, não vá faltar algum relatório, papel, formulário. Uma minudência, acharão, mas muitas minudências ao longo de muitos anos tornam-se num animal monstruoso de fome insaciável capaz de deglutir papelada como quem mastiga pipocas em dia de cinema, com um apetite mais voraz que uma gata com o cio. Alimentemos então a fera sôfrega. Meses antes dizia então. Ele foi proposta, sobre proposta, objectivos, orçamentos, itinerários, participantes e intervenientes. Uma vez regressada eis-me de novo a alimentar o bicho com mais um relatório. Não era tão mais fácil se disséssemos apenas Malta, bora a Lisboa!? E aí íamos em excursão, ai como gosto desta palavra tão pouco pedagógica, tão impiamente pecadora!, sem mais delongas, papeladas, autorizações, listas, relatórios. Era. Era mais fácil mas não tardaria a avalanche de Conselhos, Pedagógico, Gerais, de pais, que não existe mas achei que dava mais credibilidade à coisa, e alguns outros mais de dedo em riste, mostrando o caminho do cadafalso, indicando o cepo para pousar a desmiolada cabeça, agarrando a primeira pedra para um apedrejamento a preceito. Cumpramos pois o ritual de papéis e formulários para meia dúzia de horas de libertação e prazer. Nunca o prazer precisou de tanta antecipação. Nem de papéis. Já venho.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Woof


Pela fresca. Primeiro tempo. Vinte e sete almas entram-me sala dentro. Sacodem a névoa das noites adolescentes cheias de sonhos e pesadelos. Arrastam o corpo e trazem a alma ainda nos braços de Morfeu. Vejo-me neles. Revejo-me há três décadas atrás. O sacrifício, o suplício, o degredo de horas sem fim de Inverno pela manhã. Como os odiava. Como odiava frio e dias cinzentos, a regra neste sítio de onde os dias amenos emigraram e sol e calor eram referências passadas de um lugar ermo e distante. Entram mais. Uns agitados e instala-se o burburinho da arrumação das almas e dos corpos desengonçados. São muitos. Muitos sonhos, muitas vidas que vejo despontar nas afirmações convictas de quem tudo sabe. Vinte e sete. Falta um. Um rosto comprido e moreno num corpo magro aproxima-se com a rapidez habitual. O ar meio aflito Stora, a Mafalda chega mais tarde. Ela pede desculpa mas está atrasada. e a justificação quase a sair antes que a professora vocifere Atrasada? e dê conselhos Têm de se levantar mais cedo, meninos, a ameaça Para a próxima marco falta, a impaciência Estou farta de vos dizer e a constatação Não podem chegar atrasados. Franzo o sobrolho e justificação salta-me para o colo Stora, o cão da Mafalda fugiu. Ela foi à procura. A professora arruma os recados, conselhos e relambórios, por esta altura um bocado puídos de tanto uso, inúteis agora, e pensa Fugiu? Tadinho. A aula começa. Onde andará o malvado?

sábado, 14 de janeiro de 2012

Querer e poder

Vida de professor é feita de papéis, papelinhos, destacáveis, comprovativos e tudo o que tenha a ver com papeladas, burocracia sem fim. Nos intervalos de tudo isto sou professora e faço aquilo devia fazer e que o tempo em volta dos papéis me rouba. Entro na sala com um lembrete na cabeça, uma campainha que toca para que não me esqueça, não me posso esquecer, e mesmo antes da aula começar digo-lhes, Meninos, preciso dos destacáveis para a reunião com os Encarregados de Educação. Ergue-se uma pletora de respostas. Ai stora, esqueci-me! Trago-lhe amanhã ou Não trouxe o papel mas a minha mãe vem, O meu pai pode vir mesmo sem o papel? A minha mãe não sabe se pode vir. Alguns levantam-se entretanto e entregam-me o rectângulo branco. Recolho a papelada, organizo-me na secretária, ligo o computador e de lá do fundo ergue-se uma voz  Stora, eu já disse à minha mãe e ao meu irmão. E depois a voz descaída como um ramo despencado Mas nenhum quer vir. Arrumou-se ao fundo da sala e manteve-se estranhamente silenciosa. Não que o dia ou a hora fossem inconvenientes. Um qualquer outro dia e hora seriam igualmente maçadores. Substituíra-se querer por poder e talvez o mundo fosse outro. A diferença que um verbo faz.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

No escurinho do cinema


Na aula de Alemão só entram filmes em alemão. Quando os meus alunos resmungam e refilam atiro-lhes que chega de americanadas, como se entre o cinema americano e o cinema alemão nada mais houvesse e tudo o resto fosse um enorme deserto, um cemitério abandonado lá onde repousam fitas velhas e cenários abandonados. Depois de um breve refilanço, mais para afirmar a voz adolescente do que para asseverar uma vontade genuína, entram filme adentro e lá vão caminhando lado a lado com a professora por um trilho de línguas e mundo desconhecidos. Secretamente observo as expressões e deixo-os comentar dentro dos limites. Às vezes lançam-me um olhar, à procura da segurança e da certeza de que vai correr tudo bem e os maus serão castigados e os bons serão recompensados. Da última vez, perante a surpresa das cenas finais do filme, viraram-se para trás e gritaram-me revoltados O velho denunciou-os, stora? Calma, atirei-lhes, eu sou só a vossa professora. Assumo tudo, menos pôr o velho a denunciá-los. Onde já se viu? Acresce dizer que o 'velho' é um milionário no início dos quarenta, a carcaça. Outras vezes dizem coisas cómicas Stora, as raparigas são bué da simples. E isto porque até à data só apareceram raparigas de roupa interior simples, nada de rendas e cetins naturalmente que a minha aula de alemão é séria e limpinha, mas para eles aquele pequeno instante da tela brilhante à sua frente é a Alemanha e a Alemanha são raparigas de cuecas brancas de algodão e camisolas pueris. E depois a paisagem Aquilo é bue da lindo, stora! Mas o pior aconteceu mesmo no fim do filme quando me começam a cantarolar Halleluiah. Ora se há cantor de que não gosto é o Leonard Cohen. Já sei que vou contra a corrente mas aquela languidez irrita-me, soa-me a um longo Inverno de frio e nevoeiro onde não se passa nada e eu odeio Inverno e que não se passe nada. Perguntei-lhes incrédula Mas vocês conhecem isto? Não podiam ser mais afirmativos Sim, stora, é bue da lindo, mas este é o Jeff Buckley e vá de cantarolar Hallelujah, Hallelujah. Hallelujah, Hallelujah. Que achem que a Alemanha é uma rapariga de cuecas de algodão ainda vá, que gostem do Leonard Cohen é de mais para este coração sensível. O pior é que quase me fizeram gostar do Hallelujah.  Mais dez minutos e tinham-me convertido. Anda uma pessoa a criar alunos para isto.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Saudades do futuro


Hoje pela hora de saída em dia de sol de inverno que me tem salvado da neura habitual de Janeiro fomos trocando palavras e lamentando a triste condição de passar tempos infindos à volta de papéis e de desmiolanços vários que atendem por pomposíssimas siglas que uma vez decifradas se resumem a nada e que não se resumindo a coisa nenhuma podiam ter a humildade de desaparecer das tristes vidas de quem tenta fazer mais do que restringir-se a estas atoardas balofas. Ele há o PCT, o PEE, o PAA, o PIT. Nenhum deles serve para coisa nenhuma senão para consumir tempo e energia e claro fazer sobressair quem gosta de sobressair e quem usa estas siglas para mostrar o que é ou o que não é, uma espécie de extensão de si mesmo, uma atrelado de atributos estéreis bordejando a vacuidade desses seres balofos. Eu disse Aquilo que eu mais queria  era que me deixassem em paz, sem relatórios, propostas, avaliação da actividades. Estou farta. Farta. Repetimo-nos e ecoámos como sussurro de nós mesmas entre o chilrear esfomeado da saída da manhã. E por instantes tive saudades desse tempo em que se vivia uma existência tranquila sem relatórios dos relatórios, avaliações, reflexões críticas, propostas, PCTs, PEEs, PAAs, PITS e outras parvoíces. Foi rápido passou-me ao segundo Adeus, Francisco, bom almoço! e ao terceiro Até amanhã. Portem-se bem! e regressou agora apenas para que se faça texto. Eu não quero o passado, mas o presente cansa-me. Alguém me passa o futuro, se faz favor? 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Pergunta do dia ou ao povo português com a Troika e o Coelho à perna

Hoje, logo pela fresca, numa sala que me ia congelando a alma, quanto mais as pernas, depois de um abracinho, Stora, deixe-me dar-lhe um xi de ano novo, sorrisos esperançados, votos de bom ano, um filme acabado de ver e um texto para decifrar à frente, eis que surge Stora, o que é retrair?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

History repeating

Segunda-feira. Oito e trinta. Teste. Quando tudo se acalmou, se arrumaram nas cadeiras e mergulharam naquelas três páginas A4 rabiscadas de letras, de lá do fundo levanta-se um braço. Acorro lesta. Setora, dizem-me baixinho, O meu dicionário não tem esta palavra e aponta-me a dita. Atypical. Respondo Atípico. Atiram-me, Sim, mas o que é isso. Ouço um burburinho, cabeças que se viram na minha direcção e explico a todos o significado da palavra em português. Muito atípico no meio de um teste. 
Segundo round. Outro braço que se levanta. Acorro lesta como sempre, pronta a esclarecer as dúvidas, nada pior que ficar com dúvidas. A professora não quer os seus meninos com dúvidas. Sussurram-me outra vez, de dedo apontado à palavra rapioqueira, mais uma das malvadas que se esconde dos meninos da professora. Esta aqui, dizem-me. Quem disse que a história não se repetia mentiu profundamente. Neologisms? Neologismos! digo peremptória. Sim, setora, mas é o quê? 
Terceiro round. Fim da aula. Uma voz que se ergue. Setora, podemos inventar na composição? Podem, respondo, desde que seja verosímil. A meia dúzia de almas que restava irrompe numa sonora gargalhada. Se lhes tivesse contado uma anedota, teriam achado que era uma piada seca, diriam que a prof tem um sentido de humor estranho ou que se acha engraçadinha e certamente seria brindada com um sorriso amarelo. Era uma palavra. Uminha, sem segundas intenções. Questionam-me O QUÊ? O que é isso, setora? A professora esforça-se por explicar o que é verosímil numa linguagem acessível. Uns pedem, Diga lá outra vez! E tentam repetir Verobivel? Como é que é? Outra conclui Boa! Já aprendi uma palavra hoje, mas depois repete-a, tá bem, setora? Nada como umas palavras novas para animar uma segunda-feira cinzenta de Dezembro.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sol de inverno

Hoje. Segundo tempo da manhã. Dia de sol de inverno. Chego à sala. Furiosa com as faltas insistentes e largo um sermão irritado. Sei que o vêem. Sei que o sentem. Conhecem-me muito bem. Do meu lado esquerdo, enquanto escrevo o sumário e ajeito os livros na secretária, a insistência de uns olhos castanhos de súplica emoldurados por uma longa e cuidada cabeleira castanha. Stora, ouça-me, por favor. Vocifero que não pode ser, que não, que não aceito mais justificações de faltas fora de prazo. Não aceito. Não pode ser. A súplica continua, setora, não me grite, stora, por favor ouça-me. Insisto que estou a ouvir mas que não pode ser. Não vou fazer mais isso. Estendo-lhe as duas folhas A5, com ar assertivo. Não pode ser. Ela senta-se, resignada. Quase no fim da aula chama-me do lugar e pede-me que mais uma vez lhe dê atenção. Atenção. A atenção que todos precisam, pode ser um sorriso, uma festa no cabelo, uma risada em comum ou apenas a dúvida esclarecida na intrincada gramática alemã. Dou-lhe atenção. E ouço. Setora, a minha mãe está a trabalhar no Algarve. Só a vejo raramente. O meu irmão arranjou uma namorada e passa os dias com ela. Fico sozinha. Só quando eles vêm a casa é que me podem justificar faltas. A voz começa a tremelicar, os olhos castanhos de súplica mostram-me uma fragilidade que nunca tinha visto antes naquele corpo escorreito, sempre aperaltado e pronto a disparar se a importunarem muito. Os olhos subitamente brilhantes, lágrimas que espreitam e o lamento Que culpa tenho eu? Agarro-lhe a mão e tranquilizo-a. Nenhuma, digo, vá não chore. Tudo se resolve. E levo os papéis A5 de coração apertado. Muito bons são eles.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Segunda pela fresca

Testes na mão prontos a entregar. Uma pergunta final atrás dos óculos, olhos excitados e apressados, o teste sobre a mesa com a caneta em riste Stora, é preciso pôr o país? Respondo Não, não é. Um rosto entrepõe-se na conversa, alto e espigadote, a adolescência tão presente no rosto sarapintado de ameaça de barba. Remata Estás ver? Não é preciso pores o país. Confirmo, Sim, pode deixar omisso. Ao meu lado, a resposta rápida como o meu eco Ouviste? A stora diz que podes deixar omisso. Arrumo os testes, preparo-me para sair. Mas eu não sei o que isso é, de sorriso largo e encaminhando-se para a porta. Só faltou perguntar se era com h.

domingo, 16 de outubro de 2011

Os professores


"O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.
O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.
Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.
Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.
Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.
Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.
Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança."

José Luís Peixoto, "Visão", 13/10/2011

domingo, 18 de setembro de 2011

Straight from the heart


Era rebelde. Quando queria era doce e educado mas quando estava virado do avesso com uma vida que nem sempre lhe sorria tinha um feitio difícil e irascível que me levou a pô-lo na rua e a mandar chamar a mãe. No ano passado não conseguiu entrar na faculdade. Mandou-me uma mensagem a dar conta do acontecimento. Estava triste e cabisbaixo. Eu sabia que ter ficado para trás em relação aos colegas lhe teria deixado marcas, é orgulhoso e não gosta de perder. Este ano passei a vê-lo com frequência na escola. Preparava-se para melhorar as notas e apesar de nem sempre ter aproveitado o que a escola tinha para lhe oferecer, inquieto e revoltado com a vida que lhe passara uma rasteira, estava agora mais adulto e quase parecia apaziguado com as feridas. Nunca falámos sobre elas. Ele sabia que eu sabia, mas com o respeito que me merecem todos os que preferem devotar-se ao silêncio em momentos lunares, havia um entendimento sem palavras, assim como só os homens sabem fazer. E mandou-me uma mensagem há pouco. Respeitoso e feliz, cumpria o que me havia prometido o ano passado. Tinha entrado desta vez. E fiquei feliz. Que mais pode um professor desejar?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O escuro pois

Vinha sonolenta, o corpo ainda lento em movimentos diluídos na arrumação de livros e cadernos na secretária, os olhos semi-cerrados e soltou um lamento assim que finalmente tudo se arrumou, Hoje dormi mal. Sonhei muito. Eu sonho sempre muito. Revi-me naquela afirmação e revisitei a adolescente sempre sonolenta para quem os Invernos longos eram um verdadeiro tormento, as noites uma travessia de territórios incertos sempre ameaçados por criaturas e acontecimentos inusitados e para quem as manhãs se estendiam num fastidioso e eterno momento de cansaço e tédio absoluto. E continuou com a pergunta pronta, Stora, os adultos também sonham? Sim, claro, respondi. A idade adulta não trouxe grandes alterações à adolescente dos sonhos perdidos, das noites inquietas, do cansaço matinal. A diferença entre um adolescente e um adulto opera-se na gestão que se faz das inquietações e dos demónios que nos vão surgindo no caminho. Mas aquela não seria afinal a única pergunta sobre o mundo insondável dos adultos e do qual, vou constatando em conversas múltiplas, os adolescentes têm medo, um medo incompreensível de não conseguir e de não ser capaz. Quem olhará por eles, afinal, nesse labirinto de ainda maiores incertezas. Algures quase no fim da aula, a outra pergunta E os adultos também têm medos, stora? Ao contrário do que fizera umas aulas antes, não exemplifiquei. Escondi-lhe que o meu pai me mandara uma vez pela escuridão do quintal para me fazer sentir aquilo em que ele sempre acreditou e que me afirmava enquanto eu progredia passo a passo na escuridão daquele enorme território para uma criança de tenra idade Vês, Nonô, o medo não existe. Escondi-lhe que o meu pai tão eficaz na desinibição daquele medo, não me ensinara, contudo, a lidar com a ausência, esta que me vai corroendo a espaços. Fiquei-me apenas pela confirmação. Sim, é claro que têm medos. Poupei-a aos meus medos, ao medo incontrolável de perder quem amo, o medo de ficar inane e tolinho de sorriso pendurado sem capacidade de decisão sobre o meu próprio destino e este mesmo corpo. Ela acrescentou Pois, Stora, há adultos que têm medo do escuro. Saímos uns minutos depois. Ao passar por mim, na porta da sala, deu-me um inesperado beijo na testa e afirmou o mais belo carinho pela professora forte e valente, a destemida cujos medos se não revelam. Chamemos-lhe escuro, então.