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quarta-feira, 21 de junho de 2006

Futebolices

A verdade é que podem não saber quem foi Luís de Camões, ignorar por completo a existência de Fernando Pessoa ou do nosso Prémio Nobel da Literatura, desconhecer quem é o Presidente desta República das bananas sem bananas, é certo e sabido, porém, que o futebol é poderoso nestas coisas da imagem no exterior e, nos países islâmicos que visitei, ficou óbvio que os nossos embaixadores são mesmo os rapazes da bola. Eu bem me esforço por arranhar um Saalam Aleikum, um Aleikum Saalam, um Chokran aqui e acolá mas sempre fui recebida com um Luís Figo, Rui Costa e outros tantos assim de rajada. Engendrei um sorriso meio sem jeito e aceitei/aceito os nomes como um cumprimento.
Em verdade se diga que tenho um humor matinal odioso, já confessado neste espaço, agora um pouco mais comedido em virtude do casamento. De manhã,raramente estou para alguém, excepto em situações profissionais. A professora que os meus alunos têm de manhã é a que têm pela tarde. Nem eu sei explicar este separar das águas, talvez se possa atribuir ao signo solar, a fazer fé na astrologia, a verdade é que muitas vezes sou mais do que uma, com a mesma cara. De manhã não sou rapariga de muitas falas e agradeço até que me falem pouco. Herdei esta característica do meu pai, iguaizinhos os dois para grande desespero da minha mãe, para quem o dia começa com a mesma intensidade com que acaba e que se via desprovida de interlocutores logo pela manhã. Eu e o meu querido pai não estávamos para ninguém mesmo, talvez só um para o outro, uma vez que esta parecença nos unia e, portanto, quando um e outro deambulávamos pela casa que nem zombies, o entendimento dispensava verbalizações incómodas e trabalhosas.
Era cedo, muito cedo, talvez pelas cinco da madrugada quando nos metemos no autocarro rumo a Marraquexe. A estrada entre Agadir e Marraquexe é estreita e com curvas, tem pouca visibilidade e a condução em Marrocos, pelo que me foi dado a observar não é muito mais cuidada da que se verifica por essas estradas lusas, um susto, portanto. Digamos que tudo isto pela manhã não se apresenta como o melhor dos cenários. Marraquexe, contudo, merecia o sacríficio. A cidade vermelha, com a Djem El Fnaa pululante de encantadores de serpentes, contadores de histórias e malabaristas com macacos, o sol a pôr-se na praça e a praça a levantar-se em luz e movimento, os mistérios que encerra a Medina e o perfume do chá de menta cruzados com as palavras de Elias Canetti em As Vozes de Marraquexe constituíam a motivação para esta via quase sacrificial através do Atlas. Algures no meio do caminho fez-se uma paragem e eu fiquei, como convém nestas alturas, entregue a mim própria, enquanto o H. fumava o seu cigarro descansado. Neste périplo entrei numa loja de souvenirs, vazia àquela hora, o empregado dirigiu-se a mim, perguntou-me a nacionalidade e, perante a mesma, chutou sem hesitar FIGO e eu rematei-lhe sem qualquer finta que não gostava do Figo, que era um pesetero. O homem calou-se, como um guarda-redes impotente perante um golo na sua baliza.
Bem sei que o Figo é um rapaz robusto e viril, mas, como leiga que sou nestas lides futebolísticas, fico-me somente pela impressão que tenho do rapaz e, assim sendo, em virtude de ter trocado o Barça pelo Real Madrid, ter ameaçado sair da Selecção por esta lhe estar a arruinar o bom-nome, ter marcado mais golos ao serviço da sua equipa do que pela Selecção naquele fatídico Mundial da Coreia e ainda por ter falado em castelhano quando foi para o Inter de Milão e renegado, desta forma, a língua de Camões, deixou-me sempre de pé atrás. Isto já para não mencionar o ar sorumbático com anunciava ser aquela a bandeira dele há dois anos no Euro. Nessa altura o meu pai, tão leigo quanto eu em termos futebolísticos mas sempre fiel ao seu Santar, perguntava Mas alguém deve alguma coisa ao rapaz para ele estar tão zangado? e acabava imitando o tom grave do nosso felpudo mais famoso.
Voltei para o H. e disse Eh pá, lá veio o homem outra vez com o Figo… Disse-lhe que era um pesetero O H. respondeu incrédulo à laia de reprimenda Eu não acredito que tenhas dito isso ao homem! ofendido pelo mau nome alardeado ao nosso embaixador do esférico. Há assuntos que um homem e uma mulher não devem discutir, a bem da harmonia conjugal. O Figo é um deles cá por casa e muito menos a caminho de Marraquexe pelas sete da madrugada.

3 comentários:

  1. É a realidade deste país: tanta coisa boa que nós temos (no meio de muitas coisas más, é claro), e seremo para sempre reconhecidos pelo país dos futebolistas.
    sigh...

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  2. A força do futebol é incontornável. É difícil encontrar razões para o impacto que o futebol tem na vida das pessoas, tal como a religião... como justificar que se tem fé? Ou tem ou não tem... no futebol, gosta-se ou não se gosta.

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  3. Nem mais. Eu até acho piada quando joga a Selecção e vibro com os jogos :)

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