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quarta-feira, 19 de julho de 2006

Da vida e da morte das línguas

Quando se vive num meio pequeno os caminhos cruzam-se com uma frequência inevitável. Enquanto vasculhava as embalagens de carne numa grande superfície, fui surpreendida pela minha colega de Latim. Estava exultante e veio a correr dar-me a boa nova. As nossas alunas, partilhámos a turma ao longo do ano, tinham obtido belíssimas notas na sua disciplina. Comemorámos ali mesmo. A profissão docente está prenhe destas pequenas grandes vitórias. A nossa aluna mais pequena em tamanho, provando mais uma vez que nem homens nem mulheres são mensuráveis por palmos de mão e mesmo os metros se mostram ineficazes, obteve a nota máxima, vinte valores. A S. é uma excelente aluna, inteligente, aplicada e trabalhadora que gosta de esmiuçar tudo ao pormenor, tem uma paixão pelo Egipto e elege Cristiano Ronaldo como o supra sumo da espécie masculina, soltando risinhos, risos e risadas, sempre acompanhados com algum rubor, quando o robusto rapaz vem à conversa.
Ao longo do ano a relação com a língua de Nero nem sempre foi pacífica. Acusavam a professora de ser muito exigente, de as entupir com fichas de trabalho, acusação* da qual também fui alvo para a professora de Latim, e de as abafar com trabalho, de as fazer estudar muito, Roma e o Império, traduções, retroversões, dativos, acusativos, casos e declinações.

Uma ocasião vinham amuadas e ofendidas. Ó setora, a setora de Latim disse-nos que não sabíamos estudar! Não sei muito bem o que os nativos aqui da região toleram, mas passar-lhes cartilha de ignorantes é algo que jamais será pacificamente aceite. Expliquei-lhes que a setora de Latim estava apenas a dizer que, embora estudassem, não o estavam a fazer da melhor forma, uma vez que os resultados ficavam aquém do esperado e que tal não era dito com má intenção, apenas um reparo para as fazer reflectir. Tranquilizaram e, como sempre, cada uma foi à sua vidinha. Eu e a colega de Latim rimo-nos depois com a "acusação". Quando não se entende a intenção, as palavras podem ser ferozes e é sabido que os adolescentes mantêm com a linguagem uma relação ambígua.
A verdade é que nunca ninguém desistiu. Nem elas da professora nem a professora delas, não seria caso para tal, muito embora, levar os alunos pelo caminho da persitência e perseverança se apresente como uma batalha diária. A mínima contrariedade assume contornos ciclópicos e a única saída que muitas vezes vislumbram é o abandono, a desistência. Certo dia, para terminar a lamúria, disse-lhes convicta que de uma coisa podiam estar cientes, que apesar das dificuldades sentidas iriam bem preparadas para exame, portanto, toca a arregaçar as mangas. Assim foi. O exame correu-lhes bem e a S. quando, um destes dias, nos cruzámos no pátio da escola, disse-me que sim, que eu tinha razão, o exame tinha-lhes corrido bem, mesmo sem saber o resultado.
Mas no meio de tudo isto fizeram-me uma revelação bombástica. Teria sido num desses inícios de aula, provavelmente antes ou depois dos testes de Latim, os momentos em que estas pequenas conversam decorriam, de resto, os únicos em que lhes permitia desabafos desta ordem. De lá do fundo da sala a C. anunciou Setora, setora! Sim.. Ó setora
, repetiu franzindo a cara em jeito de aflição, setora, eu já descobri porque é que o Latim morreu… é tão difícil, setora, que ninguém conseguia falar aquilo.

* a de as atabafar com fichas de trabalho, bem entendido.

12 comentários:

  1. Adorei a a conclusão! A próxima língua a morrer é para aí o finlandês... LOL
    Beijos

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  2. Ah, grandes setoras! Ah, grandes moçoilas!

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  3. Saem-se com cada uma... Farto-me de rir depois em casa, não me desmancho ao pé delas. Esta turma são só miúdas e são pouquinhas, apenas oito, também por isso é que as conversas são assim.
    A setora de latim é uma grande setora, sim, e as moçoilas também.
    Bjs

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  4. :-D

    Eu cá aposto no neerlandês como a próxima a desaparecer :-)

    E muitos parabéns à tua aluna, e às professoras também
    :-*

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  5. lol
    Eu não tenho mérito nenhum nos resultados do Latim mas fiquei muito feliz por elas, claro, e pela minha colega. Esta colega já era professora da escola quando eu ainda era aluna, é mãe de uma ex-aluna minha e com ela troco quase diariamente impressões sobre livros e leituras.
    Beijocas

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  6. eu lembro-me de usar essa tatica do dividir para reinar com os professores, andavamos sempre a queixar-nos ao professor A que o professor B nos dava muito trabalho e vice versa.Agora e que estou a ver porque e que nao colava, voces afinal falam uns com os outros
    A minha aposta para a proxima lingua a desaparecer e o Turco, e dificil como o raio- a guia da excursao quando fui a Turquia esteve para ai 4 horas ou 5 so a tentar explicar-nos aspectos basicos da gramatica e fonetica. Era muito, muito interessante-fiquei a saber que ha 8 vogais possiveis e que ha sons que nao podem ser usados na mesma palavra (excepto se for uma palvara estrangeira importada). So me admira como e que as criancinhas turcas comecam a falar antes dos 3 ou 4 anos

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  7. Depois de ter estado há um mês na Holanda, voto no holandês para lingua a sumir-se. Apre que não se percebe nada do que os tipos dizem!!
    :op

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  8. Isto não eram propriamente queixas da professora, eram mais dasabafos em relação à disciplina e ao trabalho desenvolvido. De resto, não alimento esse tipo de atitude e se começam com essas conversas digo-lhes sempre para primeiro falarem com o/a professor(a) em questão, a seguir com o Director de Turma, caso não consigam dialogar com o professor, e em último caso com o Conselho Executivo. Este ano, com esta mesma turma, proibi-as de falarem na minha aula dos problemas que diziam ter com uma professora. Há canais para se resolverem essas questões que não passam pelas minhas aulas. Quanto aos professores conversarem uns com os outros sobre os alunos, devia ser sempre assim. Infelizmente não é.

    Estou a ver que temos de fazer um top com as próximas línguas a morrer :)
    Bjs

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  9. Fiquei surpreso ao saber que o Latim ainda é ensinado aos alunos do secundário, porque aqui no Brasil é o ensino do Latim que está quase extinto, limitado às faculdades de Letras e Direito. Até meados da década de 1960 todos estudavam Latim por quatro anos e aqueles que se dirigiam aos cursos de Letras e Direito tinham mais três anos de estudo.
    Um dia, ao passar por uma livraria, vi um livro que me chamou a atenção pelo título: "Não perca o seu Latim". Era uma coletânea de palavras e frases latinas freqüentemente citadas, traduzidas, explicadas e abonadas, reunidas por um filólogo e tradutor de origem húngara (aliás, voto no húngaro para a extinção). É claro que comprei o livrinho e o que me espantou foi chegar ao escritório e, ao mostrá-lo para um colega, ser olhado pelos outros como um excêntrico por se interessar e gastar dinheiro em tal livro! E pensei que não era atoa que se ouve por aqui gente pronunciando "sine die" como os americanos, "saine dai".
    E a conclusão da tua C. é realmente muito engraçada.

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  10. Aventino, só mesmo uma minoria é que tem Latim, os alunos que estudam Língua e literatura no Secundário, mas o Latim, tal como o Alemão e o Francês estão a desaparecer das escolas.
    Cá, nos telejornais, também somos premiados com saine dai.
    Qunado comecei a ler o top das línguas a desaparecer lembrei-me logo do Budapeste do Chico Buarque e todas as reflexões em torno do húngaro.

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  11. Segundo me lembro, não obstante os anos que já lá vão, era super-fixe ter professores destes! Muito embora fossem dos que nos obrigavam a trabalhar mais, conseguiam manter com os alunos uma relação próxima, sem nunca serem desrespeitados. E os resultados eram excelentes, manifestando-se através de boas notas.
    Parabéns aos professores que conseguem ser assim, como parece ser o teu caso e o da tua colega!
    :)
    Beijola.

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