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quinta-feira, 20 de julho de 2006

De manhã a aldeia

Gosto de cidades, gosto do barulho, de ver os transeuntes a correr de um lado para o outro, de ser também um deles, os diferentes ritmos de cada um, gosto da vida que fervilha na urbe. Quando soube que iria deixar Lisboa, anunciando-se impiedosa e sem aviso prévio a alvorada de um tempo diferente que tinha mais sabor de crepúsculo, encostei-me sozinha no sofá e deixei cair as lágrimas, impotente que me sentia de parar a torrente da alma. As separações não se operam sem mágoa, e essa separação da cidade e do meu local de trabalho deixa-me ainda hoje um nó na garganta. Vertreibung é sempre a palavra que me ocorre. Dias, pois, dias a fio levei até que eu me recompusesse perante mim própria. Os outros raramente são chamados a estes lutos. No dia em que o telefonema anunciou cuidadosamente que, enfim, teria de dar um outro rumo à minha vida desviada sem aviso de recepção do caminho até então trilhado, fiz-me à estrada para cumprir os deveres profissionais, exercidos aparentemente com a tranquilidade costumeira e, depois, quando finalmente pude encontrar-me comigo mesma e digerir a mudança na minha vida, parei à porta da farmácia aqui da aldeia, entrei, comprei uns calmantes daqueles que se vendem sem receita médica e, por isso mesmo, praticamente inócuos e inofensivos, e mesmo à porta da farmácia, dentro do carro, emborquei uns quantos na esperança de que pelo menos o corpo se tranquilizasse, sabido é que para a alma não há remédios. Não me canso de estar na aldeia mas há alturas em que preciso de ver outra gente, outra cor.
Hoje não me faltou a cidade. Aproveitando a manhã de sol benfazejo, fui ao centro da aldeia. Comprei o jornal e revista semanal, fui ao pão e à mercearia. Maioritariamente mulheres, poucas, deslocavam-se de porta-moedas na mão, com o ar apressado de quem tem almoços para preparar, a casa para arranjar. A dona do café lavava vigorosamente o estrado da esplanada, acompanhada pela filha e sob o olhar atento da dona da tabacaria. Na mercearia encontrei o gerente do restaurante cubano, avisou-me da festa do rum, queixava-se das mulheres, que dão cabo de um homem, que são terríveis, trocou umas palavras com a irmã da dona da mercearia, com quem também eu troquei algumas palavras, após o homem ter debandado. Não estava com muito boa cara e anunciou entretanto Eh pá, tenho que ir tomar um cafei retorqui pois, tá muito calor, é mau para a tensão baixa… respondeu ê na dremi nada esta noite… e há becado comecei a ber caga-lumes, caga-lumes, caga-lumes… pensei logo, eh pá isto hoje na tá bem referindo-se aos efeitos da hipotensão, e eu, que hoje não vi caga-lumes, pensei apenas na bênção das manhãs de sol tranquilo na aldeia.

foto: neptuno

16 comentários:

  1. Que lindo, Papalagui!

    Me fizeste lembrar dos cafes da tarde em minha cidade natal e de minha mae preparando tudo.

    Obrigada,
    Beijo...
    Janine

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  2. :o)
    Eu não sei se era capaz de me mudar para a aldeia... o sossego, a pacatez, o falar da vida dos outros, a bicharada :P
    Sou mto menina de cidade.

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  3. Mais uma vez, parabéns pela crônica. Eu me lembrarei dela quando estiver, neste final de semana, na cidadezinha de 7.000 habitantes aonde minha mãe mora há 55 anos. A maior parte dos habitantes mora na zona rural, mas neste sábado e domingo a cidade vai estar movimentada por causa da Festa do Morango!

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  4. Gostei muito de "viver" esta realidade que nunca vivi.
    Beijos

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  5. Janine, obrigada e um beijo enorme :)

    Fantasma, aqui também não há assim tanata bicharada, tirando um sapo que se nos colou ao portão há dois invernos e o gafanhoto que as gata trouxeram para casa um destes dias... há melros lindos, por exemplo. O falar da vida dos outros é relativo, na cidade num prédio as pessoas também falam umas das outras e, muito pior, ouvem-se umas às outras. Não faço vida na aldeia nem frequento os cafés, por exemplo. É muito importante preservar a nossa privacidade.

    Aventino, aqui só há 1.500 habitantes, é mesmo um ligar pequeno e é curioso que també, aqui perto há uma aldeia famosa pelos morangos.

    Pitucha, esta realidade é divertida e gosto da tranquilidade também, de estar perto de Lisboa e perto do mar :)

    Beijos a tod@s

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  6. Eu acho que ambas as realidades tem coisas boas e más! Adoro a cidade, mas vivendo eu num sítio que às portas da cidade às vezes parece aldeia, não consigo deixar de me maravilhar com o acordar sereno dos pássaros. Claro que era melhor se as "p***s" das cigarras não se tivessem decidido mudar de armas e bagagens para o pinheiro mesmo, mesmo à beira da janela do meu quarto;))

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  7. Desculpem a minha dislexia... depois do ida da Ministra da Educação ao Parlamento fiquei ainda mais assustada com quem detém a pasta da Educação neste país :(

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  8. Eu não falava especificamente daí... mas quando me lembro da aldeia da minha avó, na Serra da Estrela, em que toda a gente anda a cuscar a vida dos outros e até eu, só lá indo nas férias, fui vitima de rumores que fazia e acontecia!! Eu sei que na cidade também se fala, sei bem disso infelizmente.
    Mas acaba sempre por se ser um pouco + anónimo. Eu gosto de ir pelas ruas e não ser "obrigada" a cumprimentar toda a gente porque toda a gente me conhece ou sabe que sou filha/neta/prima de xpto. E depois gosto das comodidades, de ter tudo mesmo ao lado, eu que não sou capaz de estar muito tempo sem fazer nada e gosto do barulho...

    Quanto aos bichos, estava a brincar e a exagerar :op Mas é claro que quanto mais perto do campo maior a possibilidade de haver aranhas, abelhas, baratas, gafanhotos, formigas, etc e tal.

    De qualquer modo, não se pode generalizar. Há sempre coisas boas e coisas más. E temos de tentar ser felizes onde quer que estejamos :o)

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  9. Compreendo. Aqui é igual aos outros sítios, por isso não faço vida na aldeia. A diferença é que estamos às portas de Lisboa e veio muita gente de fora, portanto, embora tenha vivido em Mafra, faço parte dos de fora. Aqui querem saber tudo, especialmente os graus de parentesco, de quem és filha, quem é o pai e a mãe...
    Quanto à bicharada, devo ser mesmo da aldeia porque não me incomoda assim tanto.

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  10. Pois eu não me importava nada de estar a viver aí. Calma e traquilidade, com o mar a dois passos e a cidade (Lisboa) a outros dois. Nem sabes é a sorte que tens!

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  11. Sei pois, por isso é que decidimos ficar por cá e por isso gosto tanto de aqui estar :)
    No Sábado estava uma praia excelente.
    Bjs

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  14. Os dois posts anteriores eram spam, por isso foram apagados.

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