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sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Filha galinha

A conversa regressou mais uma vez. Aqui há uns meses atrás a minha mãe ligou-nos como habitualmente. Estava bem-disposta e anunciou que ia passar um fim-de-semana fora com uma amiga. Queria apenas comunicar-nos e pedir a nossa opinião. Na vida da minha querida mãe só me meto para a proteger desses perigos imensos lá fora e, portanto, foi com enorme satisfação que senti nela vontade de ir. Depois vieram os pormenores. A amiga tinha ganho um fim-de-semana no Algarve, desses que saem nos sorteios. Muito bem. E que sorteio foi esse? indaguei. Sei lá, foi um desses sorteios duma agência de viagens respondeu-me tranquila Mas de agências de viagens como? A minha mãe reafirmou a sua tranquilidade Não sei, sei que ela ganhou e que me convidou. Não fiquei convencida. Também eu tinha sido ofertada com um desses fins-de-semana e sabia que vigarice se escondia por trás Mas que coisa foi essa, mamã? e a minha mãe Ó filha, não sei. Sendo comum o aliciamento de cidadãos incautos para fins menos lícitos nestas histórias de clubes de viagens, comecei a ficar apreensiva e avisei Vê lá o que isso é, mamã, ainda vos vão vender um colchão ou um faqueiro… a minha mãe tranquilíssima A mim não vendem eles nada, quero lá saber que queiram vender, eu não vou comprar. O pragmatismo da minha mãe é proverbial e lacónico. Assim foi ao longo da nossa vida e muitas vezes é motivo de risada. De resto, rir é um exercício que repetimos com regularidade. As escolas do riso para atrair o bom humor e atitude positiva ficariam à míngua de clientela, caso dependessem de nós para o sucesso, quando muito ainda éramos raparigas para lá dar umas aulinhas.
A apreensão da nossa parte, minha e do H., foi-se adensando à medida que os dias decorriam, sendo mais que óbvio, que sim, que se tratava dum daqueles clubes de viagens manhosos que impinge aos papalvos este mundo e o outro de viagens mediante o pagamento mensal de uma avultada quantia. Agora nada havia a fazer, a amiga tinha ido na canção do bandido, e nada mais lhe restava fazer, se não aproveitar o dito fim-de-semana a sul. Pela hora do almoço o H. perguntou-me Olha lá, tu não querias ir arejar? Podíamos ir este fim-de-semana ao Algarve… A minha mãe não se conteve e entre risadas fortes disse Mas ouçam lá, acham que eu não sei tomar conta de mim? continuando o riso convulsivo e ironizando com a preocupação da filha que trouxe ao mundo. Claro que sabes retorqui O problema não és tu. O problema são esses pantomineiros do inferno que te podem burlar… Não se deu por achada. Vocês estão tolos? Burlar como? Já te disse que não vou comprar nada, se eles quiserem vender, azar o deles. O fim-de-semana chegou e a minha querida mãe foi espairecer para o Algarve, rindo-se das crias apreensivas. Veio leve e com uma corzinha. Matou saudades e venerou a memória do meu querido pai no promontório onde ele costumava pescar em verões já muito passados. Fiquei naturalmente feliz por ela e calma por não ter tido que pôr os homens na ordem por causa do faqueiro ou o do colchão.
Hoje surgiu a possibilidade de ela participar num convívio dos colegas de liceu. Encorajei-a pois claro, e teria encorajado ainda mais, caso o dito convívio não implicasse uma viagem de trezentos e tal quilómetros, que ela insiste em encetar no seu Rocinante de quatro rodas, por esse Portugal fora cheio de doidos inconscientes a suicidarem-se nas estradas. Ofereci-me para a lá levar e a risada voltou, o gargalhar divertido. Que sabe muito bem ir sozinha, que não há problema e, mais uma vez entre risos, perguntou Então agora onde é que me deixas ir de carro? A Torres Vedras, posso ir? E às Caldas da Rainha? E a Cascais posso ir? E a Lisboa? É que eu já vi que há um perímetro… tudo rematado com uma gargalhada sonora. É muito difícil ser-se filha de uma mãe rebelde.

7 comentários:

  1. Rebelde mas cheia de vida e entusiasmo. É absolutamente fantástica! Aquela do "perímetro" é típico da tua mãe... sempre à frente e para a frente. Gostava era também de ter ouvido a sua fabulosa e contagiante gargalhada!

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  2. Querida Luisinha! Q bom sabê-la alegre e com vontade de dar voltas. Tb eu iria dar umas, se me deixassem parar de dar aulas.A filha galinha tem muita piada a descrever as suas preocupações mas são compreensíveis. Esse mundo está mesmo cheio de perigos para uma mãe desprevenida.Mas não é o caso da Luisinha q é decidida e ajuizada. Vá lá, filhos, não fiquem tão ansiosos. Deixem-na ir q ela sabe cuidar-se!olhem, digam-lhe q venha à Madeira. Prometo cuidar bem dela para vocês não se afligirem,lol.:)

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  3. Isto realmente.... anda uma filha a criar uma mãe para isto!! :o)
    Acho muito bem que te preocupes mas tb acho bem que a deixes ir, se quer, se se distraí, s elhe faz bem, enquanto pode realmente fazer tudo sozinha.
    Gostava de a conhecer :)

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  4. Ora, e uma filha não pode ser galinha porquê? :)

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  5. Eu acho que isto de ser filha única faz com que seja protectora e claro que me preocupo se ela se fizer à estrada. Mesmo com o meu pai às vezes na brincadeira dizia-lhe "Vá, nada de conversar com estranhos e de aceitar pastilhas!" Nesta situação concreta do fim-de-semana foi uma risada completa :)

    Milucha, nós deixamo-la sempre ir, aliás, nem existe outra forma, onde já se viu os filhos mandarem nos pais? E quanto à Madeira fico não só descansada como muito feliz de as saber juntas. Bjs

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  6. LOL!!
    Ja te tinha dito que gosto da tua mãe, não já?? Pois é, gosto mesmo!

    Beijocas às duas!

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