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domingo, 23 de setembro de 2007

Num mundo perfeito

A rapariga descansada e tranquila. O corpo envolvido na volúpia do calor caribenho, a alma estendida na espreguiçadeira dos dias cálidos e despreocupados. A rapariga faz um telefonema. A rapariga recebe um telefonema. A mãe da rapariga diz-lhe Vai haver um seminário em Setembro sobre o Estatuto da Carreira Docente. É importante. Queres que te inscreva? E a rapariga, embalada pelo gemido dos coqueiros, o mar que se oferecia espelhado como um lago, transparente, quente como uma imensa e longa carícia, respondeu Sim, sim, claro, mamã, inscreve-me. E a rapariga voltou para a inconsequência dos dias sem relógio nem horas, com o sol apenas como referência, o mar como uma colcha de seda, turquesa, leve e translúcida, um mango daiquiri para apaziguar a soalheira manhã e a canícula abraçada ao corpo, o seminário esquecido, remetido para os dias vindouros carregados com o odor denso da obrigação. E a rapariga regressou a casa. Para trás, o sol, o mar, os coqueiros, o calor húmido, as noites tranquilas de céu estrelado, o aroma que se liberta dos trópicos como um perfume inebriante e selvagem sem se deixar agrilhoar em frascos que não sejam os que albergam memórias, e a rapariga abandonou os dias regidos pelo movimento do astro-rei, e a rapariga vestiu calças e calçou sandálias, mais roupa do que lhe era permitido nos dias estivais, no pulso o relógio retomou o lugar de sempre, a rapariga abraçou as obrigações profissionais e passou um dia ouvindo banalidades, queixumes, erros, incongruências, recriminações, choros e lamentos, o secretário de estado que não aparecera e como seria? sim, como iria ser?, um dia fechada num auditório gélido com a amargura alheia dos anos passados e a incerteza dos tempos futuros, e maldisse o gemido dos coqueiros e o tempo inconsequente que lhe apagara por instantes a razão e a fizera pensar que afinal o mundo era perfeito.

Negril, Jamaica.
foto: minha

7 comentários:

  1. Leonor, entendo tanto! Sinto tanta dificuldade de voltar a vida real após a liberdade....
    beijo,
    Martha

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  2. O que vale é que a rapariga pode exorcisar as suas mágoas por aqui. Há-de haver sempre alguém a dar-lhe uma forcinha, até chegar a altura dos coqueiros do ano que vem! :)

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  3. lol
    Um blogue tem que servir para alguma coisa afinal ;-)
    Neste caso nem é tanto o regresso, é mais a inutilidade do tempo que se passa a ouvir disparates e a esperança de que se vai ouvir algo de novo com conteúdo e que não sejam as atoardas de sempre :(
    Quanto aos coqueiros vindouros, ainda falta muito mas muito tempo para pensar nisso.
    bj

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  4. Seria mais difícil abandonar a memória dos coqueiros do que os coqueiros em si. Porque a memória do paraíso faz sempre doer mais a realidade crua da vida.

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  5. Bem-vindo, Soulness :-)

    Obrigada, Sinapse :-)

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