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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Namoro

Passada a adolescência, a idade madura chegara. Que idade era aquela em que o corpo se tornava estranho? Que tempo era aquele em que escurecia o olhar? Que corpo era esse que se lhe impunha? As rugas faziam as primeiras aparições e no espelho aparecia reflectida não só a imagem do corpo mas a imagem da mente, quando o reconhecimento nos retratos se faz a custo - aquela, quem é?- e as feições se assemelham velozmente às dos antecessores Serei esta, eu? A revelação ficou péssima, desfocada, e a cor, a cor está esbatida. Está sujo, o espelho. Serei eu, aquela? E, no final da noite há muito adormecida, o espanto e surpresa perante o rosto cansado, desconhecido até aí, e a pergunta ressurge, aquela ali, sou eu? Não me pareço eu. Eu era outra. Comprara os primeiros cremes anti-rugas com colagéneo ou silicone e extractos de algas, elixires da juventude da era pós-moderna havia pouco tempo, desde que aquela outra ela, eu? lhe aparecera após uma noite de intemperança. O armário da casa de banho, que suportava o espelho com quem detinha conversas inaudíveis pautadas por silêncios longos e observações demoradas, engravidara-lhe repentinamente, uma gravidez prenha e rotunda. Frascos e boiões, bisnagas e latinhas: grandes, pequenos, esbranquiçados, de cores desmaiadas, a panaceia possível para a agonia inevitável do inconformado entardecer. Ao contemplar-se no espelho, julgava-se momentaneamente ausente de mais uma ruga. Serei esta, eu? Pareceu-me ver-me de repente, e auscultando criteriosamente rugas e linhas, aquela ali, eu? desejava secretamente que o colagéneo - quem sabe?- surtisse efeitos também na alma consumida e que as marcas do tempo, bom e mau, se apagassem ou reduzissem. Como as rugas. Mas naquele dia de invernia cinzenta -quem diria?- em que ele gentil lhe pediu namoro, namoro como ninguém nunca lhe fizera antes, ela regenerou-se, sem cremes, sem elixires. Penteou-se, o cabelo ajeitado por cima do ombro, sorriu-se-lhe, e aquela ali, quem é? e reconheceu o rosto que regressava devagar, devagarinho, cada vez mais nítido no espelho. Serei esta, eu? Era ela de novo.

7 comentários:

  1. Que doçura de história!
    Faz concorrência ali ao leite-creme.
    :)

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  2. Releio, aqui, o que li no GR. E acompanha-me essa sensação que me fez afirmar que bonito. Que bonito, Leonor!

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  3. Obrigada, este texto foi recauchutado, estava esquecido na memória.

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