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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

H1N1 do nosso contentamento

Ena. Ena. Ena. Hoje foi um dos dias grandes da minha vida profissional. Hoje foi um daqueles dias por que esperei ansiosamente. Hoje foi um dos dias em que apliquei as duas décadas de conhecimentos adquiridos, a prática acumulada nestes vinte anos de giz, quadro, livros, sorrisos, fúrias, vitórias e choros. Hoje foi um daqueles dias em que, sim, valeu a pena levantar-me para enfrentar as hordas de adolescentes, os rebanhos de professores, os enxames de funcionários entre o burburinho das obras e o luxo dos monoblocos. Hoje valeu a pena. E foi hoje portanto mais um daqueles momentos que enchem um professor de orgulho, o ar importante, sentada na secretária, um leque de perguntas que se desdobrou como um toque de mágica. E foi tudo isto quando de repente a espreitar por entre os verbos modais können, dürfen, müssen, sollen, mögen e wollen, möchten Sie? Ja, danke. Können Sie? Ja, natürlich a Francisca se lembrou de atirar para o ar Stora, estou quente. Acho que tenho febre. Pára. Pára tudo. A professora experiente e competente na arte misteriosa de medir febres e calores aproximou-se da suspeitosa Francisca, suspeita também. Febre? A professora abeira-se da Francisca, faz um ar grave e atira. Francisca, vá lá fora à funcionária tirar a febre. A professora diligente e obediente a abanar a cauda e arfar de satisfação abeirou-se da secretária, de onde tirou criteriosamente um formulário, ah, um formulário, ah, um relatório, ah, um papel para relatar, escrever, descrever, preencher. Ah alegria das alegrias. E a Francisca voltou. Francisca, tem febre? Atira a professora de caneta na mão, fiel cumpridora dos seus deveres profissionais. Tenho 36 e 9. Os colegas rematam foi bué da rápido. Pois foi, foi só pôr o termómetro no ouvido, deu logo. Ora, concentra-se a professora a fazer a cruzinha no <37, e sintomas respiratórios? Tenho tosse. Dores no corpo? Doem-me as costas. Diarreia, vómitos? Não, stora. O relatório no fim. A recomendação a letras maiores É favor entregar na sala dos professores. A professora arfa mais uma vez, abana a cauda e retoma as outras funções, essas, de entretanto ensinar umas coisitas para quebrar a monotonia da Gripe A. Há dias que valem a pena. Que seríamos nós sem mais um papel para preencher, um formulário, um relatório, um inquérito, um questionário? Sim, que seria de nós?

7 comentários:

  1. Gostei da visualização da "cauda a abanar"....ihihihi

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  2. Não é lindo? Obediência é o que se quer ;-)))
    Estou farta da Gripe A e ainda nem a tive mas já não posso...

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  3. O texto foi mesmo escrito com vontade. Nota-se à légua.
    Percebo a "revolta", e gostei do tom irónico...

    :)))

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  4. Não seriam nada, setôres. (muitos risos)

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  5. :D

    Foi mesmo Maria do Sol :-)

    Não seríamos mesmo nadinha, Mike :-)

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