Páginas

terça-feira, 3 de abril de 2012

Com os Holandeses ou a arte da crítica


Corria o ano da graça de dois mil e nove, era mês de Abril e estava um calor inusitado para aquele mês. O povo tinha saído à rua. Literalmente. A pé, de bicicleta, de qualquer maneira e feitio e pairava no ar a atmosfera festiva de que só os dias radiosos de sol são capazes, ainda mais se tivermos em conta um país onde Setembro é quase mês de Inverno, anoitece com as galinhas, a bruma instala-se sem cerimónia e o frio húmido entra-se-nos pelas frestas da roupa e esgueira-se para as profundezas da alma. Mas aquele era dia de muito calor. Tinha acabado de sair de uma dessas lojas de roupa barata, as únicas que frequento em tempos de crise e não crise, o calor foi a desculpa perfeita pata comprar uma camisa fresca, quando o telefone tocou. Atendo o telemóvel na praça, no meio da multidão esfusiante por aquela bênção fora de tempo e enquanto falo vou reparando nas pessoas à minha volta. Nos corpos tão pálidos mas indiferentemente expostos ao sol de Abril, nos turistas que na sua condição de turistas nunca passam anónimos numa qualquer multidão, a máquina fotográfica sempre em punho e o olhar inquiridor sobre tudo e mais alguma coisa sempre mesclado com uma pitada de desconfiança e os outros, os que não sendo nem uma coisa nem outra andavam saltitantes nas suas vidinhas repentinamente soalheiras.
Ora neste preciso momento, o meu olhar de turista aterra num objecto circular, na verdade cónico, bem plantado no meio da praça e com homens em redor. Não se pense que se tratava de um altar de testosterona onde os homens largavam as suas preces, desconfio até que os homens têm pouco dessas atitudes tementes e virtuosas. Uns segundos depois vejo um dos homens apertar a braguilha, reparem na propriedade da palavra, e uma vez aliviados das cervejas e líquidos que se lhes haviam descido para as partes baixas, os homens seguiam assim mesmo, sem mãos lavadas, a higiene relegada para milionésimo lugar, os seus caminhos. Isso mesmo. Um urinol amovível sem qualquer privacidade, ali no meio da praça, qual instalação contemporânea, e sem mais questiúnculas de decências e moralidades. Não se lhes pode criticar a falta de sentido prático. Era sexta-feira, numa praça rodeada de bares e restaurantes e em vez de inundarem o lugar com o cheiro fétido nauseabundo, nada como instalar aquele curioso objecto. Na segunda-feira desaparecera.
E vem tudo isto a propósito do livro de Rentes de Carvalho Com os Holandeses. Sempre os achei algo rudes de tão práticos e pragmáticos, sem rodriguinhos e salamaleques, algo que colide com os nossos costumes tão decentezinhos e tão agradavelmente acolhedores. O livro, escrito em 1971 e reeditado recentemente, é um relato dos quinze primeiros anos que Rentes de Carvalho viveu na Holanda e do inevitável choque cultural. Dá-nos um olhar por dentro da personalidade e carácter dos holandeses, vista e sentida lá do território onde turista algum consegue penetrar e bem longe dos campos de tulipas, Van Gogh e Rembrandt, e a léguas da imagem da alegada tolerância de coffee shops e prostitutas nas montras, como se toda a Holanda fosse Amesterdão e como se mulheres nas montras fossem só por si sinal de tolerância.
Escrito de forma escorreita e irrepreensível, Rentes de Carvalho não tem complacências com o politicamente correcto ou o socialmente aceitável. Não tem papas na língua e não se atemoriza perante os ditames dos discursos da multiculturalidade de plástico. Consegue num estilo único só permitido aos grandes:  criticar sem ofender, ser frontal sem nunca resvalar para a grosseria. E isto é muito. A força do livro consiste ainda neste desabafo, como Rentes de Carvalho o classifica, e no amor e afeição que acabou por desenvolver pela Holanda. Contraditório depois de tanta crítica? Os amores grandes são feitos de máculas e virtudes, de mistérios insondáveis e perguntas por responder. Tal como o que nutre pelo país que escolheu como seu.
Fiquei no entanto a pensar o que aconteceria em Portugal se alguém ousasse escrever um livro expondo sem cerimónias as nossas desvirtudes, que belo eufemismo, ainda por cima se um estrangeiro o fizesse. O bruá, a indignação, posts calorosos e a dignidade lusa de oitocentos anos de História ofendida de morte com palavras certeiras, honestas, directas. Somos bons nas ofensas. Diz Rentes de Carvalho que na Holanda não foi assim. Agradeceram-lhe a franqueza. Que diferença de Portugal.


“Amsterdam não precisa de mim para lhe cantar a beleza. Os canais, a torres, as casas apertadas nos bairros pobres e as outras, senhoriais à beira de água, falando de fortunas passadas e presentes, têm tido melhores poetas, melhores pintores. (…) A cara com que me recebeu num chuvoso dia de Março não foi das mais hospitaleiras. Mas essa primeira impressão cedo se desfez, e quando finalmente me habituei ao que durante muito tempo foi para mim um labirinto de canais e ruas estranhamente idênticas, dei-me conta de que se se não tratava de amor à primeira vista, com certeza a afeição entre nós ia ficar para  a vida.”

Rentes de Carvalho, Com os Holandeses.

fotografia minha




Também aqui

4 comentários:

  1. Todos os dias eu leio um pouco do que J. Rentes de Carvalho escreve, é um vício, e o blogue dele é leitura obrigatória, para mim ... Leonor, sabe que este senhor também sabe cozinhar? Vou arreliá-la um bocadinho, :), lá vai a dieta !
    Escreveu J. Rentes de Carvalho, no seu livro, Tempo Contado, é um diário ...
    " Preparo um bacalhau desfiado com batatas e molho bechamel. Vai ao forno a alourar. Sirvo-o com bróculos salteados. Minha mãe, que esteve o tempo todo na cozinha a seguir o meu trabalho, come e bebe agora com bom apetite, coram-se-lhe as faces. Descasca uma laranja. Debica um pastel de nata. Pergunto-lhe se quer um cálice de porto. Quer. Encho dois cálices e beberricamos em silêncio.
    Inesperadamente diz ela que se não visse com os próprios olhos, não acreditava. Que possa cozinhar quem nunca antes mexeu numa panela, parece-lhe milagre . "
    :)) Leonor, não aproveite, fique sossegadinha, e controle-se !, mas eu pelo sim pelo não, vou preparar um café frio, forte, acompanhado de chantilly e gelado de baunilha, e beber um BlackVelvet ( mistura de cerveja e champanhe )... hummmmm que besuntadinha vou ficar !!! :)) :PP

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não costumo ir ao blogue do Rentes de Carvalho mas depois deste livro fiquei com curiosidade para ler mais dele. E se gosta de cozinhar é mais um ponto a favor :)
      Que malandrice vir para aqui tentar-me, Ilda. Vou quebrar a dieta no Domingo de Páscoa. Que bom que é prevaricar de vez em quando. Só conhecia Black Russian mas não BlackVelvet. Eu bebia um mojito ou um tão simples gin tónico, mas uma caipirinha também marchava, ai se marchava :)

      Eliminar
  2. Sim, a diferença... É quanto baste.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uma grande diferença mesmo, Blonde.
      Beijinho

      Eliminar

Comments are welcome :-)