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sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Medo

Um dia desses, depois de ter aqui passado, a minha mãe perguntou-me por este texto. Lembro-me de o ter escrito num sábado de manhã há uns bons cinco anos e de o ter oferecido ao meu pai de seguida. Aqui fica a pedido da minha mãe a quem ofereço esta rosa de porcelana com um beijo GRANDE:

Hoje que a psicologia fala em inteligência emocional, todos podem e devem ter medo. O medo foi recuperado, já não é coisa má que nos tolhe o pensamento e o andar. Pelo contrário, ele ajuda-nos a pensar e a andar. O homem pós-moderno tem medo. Afinal ele é um ser civilizado, esclarecido, literato e culto.
No tempo da minha infância não existia nada disso. Medo era medo, inibidor de uma vida independente e autónoma, e era isso, meu pai, que te preocupava. Por isso, quando a altura chegou, decidiste, eu acho, que tal como as outras crianças deviam ter uma Nancy ou uma Cindy, eu havia de ter algo que quando a Nancy e a Cindy se tornassem em pedaços de plástico moldado com fios de nylon cor de palha a sair pelas cabeças, me seria muito mais útil. Nada que se pudesse comprar, e que nem sequer constava nos livros. Era algo que vinha de ti, meu pai, uma ferramenta para a vida, um suporte para o futuro, e se aquilo não fizesse de mim uma mulher forte e decidida, ajudar-me-ia de certo. E ajudou-me mesmo. Tinhas decidido a ensinar-me a não ter medo.
O quintal era imenso e escuro. Nós caminhávamos, não de mão dada, talvez lado a lado e tu dizias-me ”o medo não existe! As pessoas é que fazem o medo!! ” e dizias-me ainda para ir sozinha, continuar andando, aventurando-me pelo quintal escuro. “Encontras alguma coisa?” perguntavas, certo da resposta negativa que te daria. Não, de facto, não encontrava nada, nada que me assustasse. A tua presença era mais forte que o escuro. Era firme e terna e essa eu sentia.
Bom professor foste tu, meu pai! Ensinaste-me a não ter medo do escuro e a perceber que o medo é fabricado em nossas cabeças. Não tenho medo do escuro, não tenho medo de andar sozinha, não tenho medo de conduzir pela cidade quando ela adormece. Há algo, porém, que não me ensinaste porque ninguém o pode fazer: a perder o medo de ter medo de te perder...


... e por isso continuei com este medo.

7 comentários:

  1. o medo de perder os que amamos é inultrapassável... O texto é lindo. Também o teu pai teve muita sorte. Beijo grande!

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  2. L. eu venho aqui todos os dias ler os teus textos
    "a perder o medo de ter medo de te perder"
    ninguem nos pode ensinar isto, pois nao?

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  3. Ler o que escreves já se tornou uma parte indispensável do meu dia. Nem sempre comento porque as minhas palavras não chegarão nunca perto das tuas.

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  4. Obrigada, fantasminha! Fico contente por cá passares.

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  5. minha querida... tb o teu blog passou a fazer parte do meu dia-a-dia... E tal como a fantasma disse, por vezes é difícil encontrar palavras... no entanto, quero que saibas que tb eu ando aqui por perto... e que, tal como tu, tb eu tenho medo... Mas não é esse medo que faz de nós seres humanos? Que interesse teria a vida se nós não tivessemos medo de perder quem amamos?

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