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sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Alentejo

E a preta? Quando é que levas a preta? Eu não queria trazer a preta mas o meu pai inicialmente a sério depois a brincar insistia para que eu a trouxesse. Isto começou quando pensei em me casar e continuou após me ter efectivamente casado. Sempre que dizia gosto muito daqueles castiçais, por exemplo, o meu pai respondia-me Gostas, filha? Leva para tua casa! e foi assim que alguns dos objectos decorativos dos meus pai vieram parar cá a casa. A preta, no entanto, continua em casa deles. Não sei se algum dia a trarei. Estou certa que se tal acontecer é apenas para satisfazer postumamente a vontade do meu querido pai. Não acredito porém que se deva cumprir na morte o que se não cumpriu em vida. Se vida houver do outro lado da vida, sei que o meu pai ficará felicíssimo, acima de tudo por lhe ter sido feito o gosto e secretamente por afinal ter ganho a contenda da preta. A manutenção de crenças irracionais sobre o que se passará do outro lado do rio serve também o intuito de apaziguar a dor e acalmar a saudade. Não sei, portanto, o que farei. A preta continua em vossa casa, Papá.
Certo dia disse-lhe Do que eu gosto mesmo é daquele quadro do Alentejo que ali está e estávamos à mesa nesse momento. Ele riu-se e perguntou Qual quadro O meu pai sabia bem a quadro me referia. Retorqui-lhe aquele ali, Papá, aquele da seara e da ceifeira…
O quadro é da autoria do meu padrinho de baptismo, tio direito da minha mãe. Escrevia, e pintava além da sua carreira militar e nasceu ainda no século XIX. Foi com ele que tive o meu primeiro contacto com o exótico. Vivia numa casa pequena ali para a Penha de França e tinha-a recheada, além dos seus quadros, de inúmeras relíquias de família e de recordações que trazia das suas viagens. Logo no hall da casa havia um pequeno escaparate de madeira escura e trabalhada, onde, a resguardo do pó, expunha algumas dessas pequenas raridades e que fazia as minhas delícias. Lembro-me de que a minha preferência e atenção se centravam muma bonequita japonesa de kimono, lembrança da sua viagem ao Japão, e nos brincos de granadas da Tia E. que nunca cheguei a conhecer. Acredito que quem hoje sou não será alheio a todas estas experiências iniciais de vida. Visitávamo-lo aos fins-de-semana, onde a experiência do exótico se renovava. Foi também numa dessas vezes que ouvi pela primeira vez falar do Gungunhana, nome estranho inicialmente mas que acabou por se tornar familiar. No Museu Militar existia um quadro seu intitulado A Prisão do Gungunhana, consequência da sua estadia em África ao serviço do Exército português, daí as conversas em torno do Gungunhana e a crescente familiaridade. A preta, de resto e não sendo parente do amigo Gungunhana, advém da mesma contingência de vida. Não sei como veio parar a nossa casa, mas o meu pai gostava da preta.
E a conversa à mesa continuou, com o meu pai sorrindo de soslaio Com que então queres o quadro do Alentejo? respondi já desconfiada Porquê? Aquilo não é o Alentejo? O meu pai sorriu de novo Não, filha. O tio contou-me a história daquele quadro, quadro esse que passou assim a ser conhecido lá em casa pelo Alentejo, de resto como sempre tinha sido para mim, uma vez que apenas o meu pai era conhecedor do segredo por trás da seara dourada e nunca antes se havia falado sobre o dito quadro. O meu pai não descansou enquanto não o soube cá em casa. Às vezes dizia O Alentejo... Ai que piada! Foi ele mesmo que mo trouxe, feliz por me poder fazer feliz mais uma vez.
Quando mandei encaixilhar o Alentejo pedi encarecidamente à senhora na loja para deixar a descoberto a pontinha do canto inferior direito, onde se pode ler, além da assinatura do meu tio, a data e a confirmação de como era Lisboa tal como ele a via da janela de casa algures entre a Praça de Espanha e Sete Rios, no ano de 1956, longe do Alentejo, tão semelhante, contudo, à paisagem que tenho arquivada na memória como sendo o Alentejo.

8 comentários:

  1. :)
    Pois é... só muito de vez em quando é que espreitamos o mundo que estando ainda tão próximo, já nos é tão estranho!

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  2. Imagina que tinha o quadro lá em casa desde sempre e só há poucos anos é que soube disto. A minha mãe ainda hoje me confirmou que desconhecia esta história até o meu pai a contar. Impressionante mesmo é como as coisas mudam. Quem diria que aquilo era Lisboa, há 50 anos, tudo bem, mas ainda assim...

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  3. Os meus avós moravam nas Laranjeiras (mesmo ao pé de Sete Rios), e filmes que temos feitos pelo meu pai pouco tempo depois de casar (lá para 65-66), nessa zona são impressionantes.
    Beijocas

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  4. :-)
    quando eu andava na escola primaria, um dos meus vizinhos tinha vacs e um rebanho de ovelhas

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  5. Nos idos dos anos 80, todos os dias, ao ir para a Faculdade de Letras (Lx), me cruzava com um enorme rebanho de ovelhas na Alameda Universitária. Era um rebanho imenso, impossível pernoitar muito longe.

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  6. Ainda há uma questão de meses havia uma horta ali ao lado do Eixo Norte-Sul já junto da Padre Cruz.

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  7. Bonita, inspirada, factual sem ser obnóxia, numa palavra, escrita(s) perfeitas. Nunca tinha comentado, aqui, por imodéstia de pensar que à obra perfeita não se acrescenta. Mas este quadro que "pintaste" aos meus olhos, de tal forma conteplativo e perfeito fez-me lembrar outras histórias, estas do meu querido pai, que tambem andou pelas Àfricas e do tal Gungunhana, que tambem as pretagonizava, entre outras. Obrigado pela lembrança e esta lágrima que te dedico. Não pares, os teus fiéis leitores nao te iriam perdoar ;) 1 Bj

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  8. Fiquei sensibilizada pela visita e pelas tuas palavras. Beijos :))

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