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sexta-feira, 3 de março de 2006

Do coração

A D. é das pessoas mais generosas que conheço. Na verdade, como outros amigos dos meus pais e meus, não por afinidade mas por coração, lembro-me dela desde sempre e lembro-me dela sempre da mesma maneira, sempre pronta a ajudar, sem falsas subserviências ou palavras tantas vezes vãs os amigos são para ocasiões. Para a minha querida D., os amigos são para sempre. Não pergunta se queremos ajuda, ajuda, não pergunta se quer que façamos algo, faz. Esteve ao lado da minha querida mãe durante os últimos momentos lúcidos do meu pai, ajudou-a abnegadamente, ajudou-o no seu último caminho. Quando um dia, já longínquo, o meu pai precisou de sangue, ela respondeu que estaria pronta a doá-lo não escondendo nunca que tinha um medo horrível de agulhas. Sempre tomei esse gesto como nobre e generoso. Não se rodeou de silêncios, como outros, de evasivas por esta ou por outra razão. Prontificou-se de imediato, admitindo o seu medo mas colocando-o, sem sequer pensar, em segundo plano. Este será provavelmente dos textos mais difíceis que algum dia escrevi. Não sei como a descrever e jamais terei palavras, actos mesmo, que agradeçam tamanha generosidade e grandeza de alma.
A D. é uma pessoa muito especial também porque apenas quem a conhece bem, sabe como é, não apregoa, não diz que fez, não se tem como boa e generosa. Ela e o meu pai tinham contendas longas em torno do português, às vezes encontrava-os de dicionário em punho, um contradizendo o outro, a D. dizendo-lhe Mas também se pode dizer assim..., facto que dificilmente aceitaria. O meu querido pai lá andava em torno dos seus canhenhos para lhes esclarecer as dúvidas ou simplesmente para alimentar mais um pequena discussão. Não concordavam facilmente ou não fossem ambos detentores de feitios especiais, ambos teimosos, ambos respondões e impulsivos, se necessário fosse. No aniversário do meu pai, porém, não faltava nunca pão-de-ló, feito com todo o carinho pela D. e isto não porque o meu pai tivesse trazido consigo esta tradição da casa de sua mãe, mas porque o meu pai adorava pão-de-ló com queijo da Serra e porque a D. o sabia, brindava-o sempre com esse bocadinho de amor.
Levava-me para a praia em criança como o seu A., também ele uma pessoa tão especial, ambos se lançaram pelos campos para me oferecerem um enorme bouquet de alcachofras no meu aniversário, ambos me fizeram assim como hoje sou e me ajudaram a crescer, a ambos devo experiências únicas, carinhos indizíveis, e ambos são capazes de tudo guiados por esse coração tão grande mas que ambos escondem tão bem, mesmo um do outro. Foi com enorme emoção, portanto, que me foram padrinhos nesse dia escaldante de Setembro. A D. cobre-se de cuidados e carinhos para com os outros, sem lamechice, não se agarra a nós aos beijos, não diz que nos ama, não se debulha em lágrimas ou se derrama em prantos. A sua linguagem é a dos gestos e o seu caminho o do coração. Para que são necessárias palavras quando os gestos falam assim?

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