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terça-feira, 3 de outubro de 2006

Cidade oculta

Maldigo a espaços a natureza noctívaga que me impele a não aproveitar a plenitude das manhãs luminosas. Era pois uma manhã de sol aquela em que inesperadamente me (re)encontrei na cidade que albergou e nutriu o amor do meu pai e de minha mãe, os viu crescer juntos e assistiu também numa manhã de sol à união indissolúvel e nesta manhã a luz beijava a cidade, o céu azul como cenário para a Sé, as ruelas estreitas e o granito, sempre presente, definitivo e resistente, frio e imenso, o D. Duarte bem no meio da praça e as gentes acordando com a cidade, um bom dia aqui e ali, o bulício miudinho como um formigueiro trespassante, um corpo que se espreguiça com a alvorada do espírito, as portas das lojas abrindo como pestanas e gente daqui para ali com algo para entregar, pão, jornais, encomendas, e a luz e eu e o meu pai, presente e ausente, redescobrindo a cidade e ele sussurrando-me vês, vês como é bonito o granito, vês, como é linda a Sé, olha aqui e eu, sem ele e com ele, a tudo ver, sim, Papá, que linda está a cidade, que bonito o granito sim, e olha Papá, olha ali e ele sempre a meu lado, rematando, eu bem te disse, filha. Afinal, quem é que tinha razão? deixando-me sem resposta, apenas com as palavras engasgadas na garganta eras tu, Papá e ambos continuámos pela cidade, eu e ele, eu revendo tudo e ele reafirmando, como sempre, as suas certezas e feliz, como sempre, em partilhar o que lhe era querido como sempre fez também. A beleza desvela-se em partilhas invisíveis. As cidades ocultas revelam a sua perfeição em diálogos inaudíveis.

Sé, Viseu
foto: minha

4 comentários:

  1. AUSÊNCIA

    Por muito tempo achei que a ausência é falta.
    E lastimava, ignorante, a falta.
    Hoje não a lastimo.
    Não há falta na ausência.
    A ausência é um estar em mim.
    E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
    que rio e danço e invento exclamações alegres,
    porque a ausência assimilada,
    ninguém a rouba mais de mim.

    Carlos Drummond de Andrade

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  2. Bem-vinda e obrigada pelo poema.

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  3. Muito obrigado pela sua visita e pelas suas palavras tão gentis!

    Abraço

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  4. As palavras são sentidas, Paulo. Obrigada pelos textos.

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